recomeça o futuro sem esquecer o passado

9 de setembro de 2006

Hoje falo de ti

Caminho isolado na areia das mil cores.
Neste mar que se transformou hoje num deserto de gente, deixando-me na solidão interior, cordão umbilical cortado, movimentos de entrar e sair apagados. Silêncios absolutos interrompidos apenas pela minha voz como que num suspiro.
Aqui passeio os meus falares, as imagens dos meus olhares, a voz surda da solidão, tendo-te sempre como companheira, ouvinte e dialogante silenciosa. Ouves-me e me respondes, como sempre com o teu olhar. Te chamo a minha sombra porque tu rodas sobre mim, acompanhas-me nesta caminhada em que às vezes parece uma escada onde mais um degrau foi subido, como tantos outros que foram depois descidos. Mas tu me acompanhas num sempre presente, transmitindo uma força ascendente impeditiva de desistir.
Te digo que não é possível vivermos num paraíso, mas podemos ser um oásis de paz no regaço de quem amo e de quem te tenho tantas vezes falado e tu me ouves com um olhar de sabedoria e compreensão.
Não podemos escolher tudo o que nos acontece, mas quase sempre podemos escolher o modo como reagimos àquilo que nos acontece. Podemos fugir à tristeza? Não. Podemos impedir todas as perdas? Não. Podemos prender a nós todos os que amamos? Não.
Mas podemos usar os momentos de dor e separação como razão para tornar ainda mais importantes os momentos nos quais estamos ao lado dos que amamos; podemos tornar nosso trabalho mais profundo, podemo-nos tornar pessoas diferentes daquilo que já somos. Podemos escolher nossas reacções e os nossos caminhos perante os obstáculos que obstaculam o nosso caminho. Podemos ser, hoje, melhores do que fomos ontem e conseguirmos recuperar a capacidade de sorrir. Podemos ser felizes mesmo quando a realidade é dura, a reacção, a resposta a ela pode-nos levar para frente, para novos horizontes e uma vida mais cheia, mais parecida com aquilo que é o sonho que nos guia ou podemos ser derrubados e desistir, cruzar os braços e deixarmo-nos levar como uma lata é levada na corrente deste zulmarinho que nos é testemunha dos sonhos e desejos.
Bebo uma birra geladinha para ter força vocal para te continuar a falar, todas as estórias que me chegam à boca, vindas desde o início do zulmarinho.

Sanzalando

quem sou eu?

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8 de setembro de 2006

Hoje te escuto no olhar

Volto a caminhar na areia de mil cores. Triste? Sorridente? Sei lá, ando como sempre ando. Ando a falar as estórias que me chegam desde lá do início do zulmarinho que como sabes é para lá da linha recta que é curva.
Sabes se a vida ensina alguma coisa na gente? Sim, seu eu mesmo quem te está a perguntar. Às vezes também me apetece fazer perguntas. Respondes se e como te apetecer. Como nunca ouvi a tua voz, leio-te no olhar e fico a sabê-la na mesma.
Eu te vejo nos olhos que me dizes que sou eu quem decide se há uma lição em cada alegria, em cada tristeza e em cada dia comum pelo qual a gente passa, ou se a gente desperdiça os momentos de prazer e dor.
Vejo-te dizer-me que não são os factos que acontecem que fazem com que eu aprenda alguma, mas somente as minhas respostas e reacções àquilo que acontece.
Também não são as experiências de minha vida, desde a infância, que me transformaram na pessoa que sou hoje. Foi a maneira como reagi ou respondi áquilo que vivi.
Me enganei nas respostas que me deste?
Olha, vou verter uma bem geladinha para olear as palavras e o pensamento enquanto de escuto o olhar.
Tas a ver que são coisas bem diferentes?
Tudo o que tu és, tudo o que tu foste e tudo o que tu serás tem uma relação directa com a maneira como tu ages quando uma coisa boa, ou má, acontece na tua vida. Exactamente por isso, uma mesma situação pode levar uma pessoa a tornar-se mais ácida, deprimida, cínica e isolada, enquanto outra, na exacta mesma situação, aproveita para se tornar alguém melhor, com mais coragem, resistência e confiança ou aproveita em seu próprio potencial de ser feliz.
Coisas boas e coisas más acontecem a todos os seres humanos de modo aleatório, mas consistente com leis matemáticas e universais de acção e reacção.
Enganei-me no que te ouvi nos olhos?
Sanzalando

Relativity

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7 de setembro de 2006

Uma greve de imaginação

Como é bom caminhar à beira-mar.
A caminhar temos duas soluções, ou se pensa ou se despensa. Não se ouve a cidade, não se ouve a praça cheia de crianças correndo e fazendo o barulho característico da sua felicidade.
Tarde ensolarada queimando as costas, água gelada desconvidadando o mergulho, pés de areia imitando botas. Eu adoro esta beira-mar, mesmo sabendo que esse zulmarinho que rebeldemente me vem acariciar os pés com a sua espuma branca, me separa do sonho, da minha infância, que cada vez mais me engravida de ilusão e que me transmite, no som das suas ondas, as mukandas do lado de lá, como qualquer
poesia dita por quem a sabe dizer.
rebusco umas linhas já faladas noutras eras. Também podiam ter feito um pré-aviso e eu estava assim prevenido. Não há crise, só mesmo desimaginação!
Sanzalando

Jorge de Sena

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6 de setembro de 2006

Intimidades (7)


Hoje estou longe. Longe até de mim. Mas mesmo assim tu me segues. Em todo o lado me consegues encontrar, me fazes falar-te das coisas que eu sei que existem, que são verdadeiras mesmo que nunca tenham acontecido. Me obrigas a dar-te com as letras numa voz afinada por uma estupidamente gelada cerveja.
Mas para te dizer a verdade, a tua companhia me é mesmo muito boa, mesmo quando não estou nem em mim, mesmo quando te digo que não te estou para aturar e coisas que tal.
Se tu não me acompanhasses num constante presente como poderia eu falar da minha alma, a própria e da gémea? Na verdade eu te digo que contigo eu acabei por encontrar o melhor que há em mim que é ela, aquela que me persegue em cada segundo existente e também nos ausentes.
Tu sabes que a minha sede é mesmo de estar com ela, lá no outro lado da linha recta que é curva, e que não há nem birras geladas nem outras coisas belas que me façam esquecer ou ausentar-me dela.
Tu existes porque te fui buscar lá bem longe, mais para lá do sol posto, no intimo dos meus desejos. Tudo porque te queria falar das cores dos meus anseios, dos calores dos meus apetites, do entardecer, da minha solidão preenchida por ela, nas rimas de carinho, nas sombras do sol, no piscar das estrelas, na lua cheia ou vazia de coisas audíveis ou visíveis. Fui buscar-te para me acompanhares nas birras loiras estupidamente geladas e dizer-te os meus poemas que lhe fiz numa prosa desconexa de sons e imagens.
E no meio disto tudo ficaste a saber mais de mim que eu mesmo sei, de que o nome dela derrama em mim um misto de melodia e melodrama, a sua imagem é-me como se fosse uma constante primavera dentro do meu cérebro contornado por um corpo já cansado de esperar a esperança.
Tu sabes que me falta a coragem para chegar mesmo nela e lhe dizer todas as coisas que tu sabes que eu lhe havia de dizer. Sabes que não é medo, sabes que não é aventura. É mesmo a capacidade de viver a minha procura que eu procuro.
As tantas coisas que tu já me ouviste falar que eu mesmo já não sei se me ouves por ouvir, se é porque tens um amor que nem o meu. Se calhar te apetece dizer-me que no me ouvires sentes o perfume desse amor que trazes escondido, que os meus gestos te fazem lembrar as curvas desse amor calado, que o meu olhar te faz viver na primavera desse amor sentido numa outra dimensão.
Tu sabes que eu queria sempre viver nela com ela, se calhar como tu gastarias de viver esse teu amor num sonho interminável.
Sanzalando

D. Quixote

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5 de setembro de 2006

Intimidades (6)


Aqui, no meu mirante, poltrona esculpida na rocha nos milénios de existência deste zulmarinho, imagino ser o seu cavaleiro, ser um espaço no seu corpo, sentir-me um especial na vida dela.
E tu, que pachorrentamente me vais aguentando nestes segundos inexistentes, sabes que falo do coração. Olhando nos teus olhos sinto que às vezes te pareço um ridículo que vive no sonho, que caminha no equilíbrio da utopia, trapézio sem rede na porta dum manicómio.
Mas tu sabes a sanidade do coração apaixonado.
Tu que me ouves até com os olhos de atenção, lhe diz, por favor tudo aquilo que eu lhe sinto. Lhe diz que ela é a minha sombra, a minha alma, o meu eu abraçado de sequelas de um erro cometido no calor de uma paixão de adolescente. O meu maior erro na vida.
Mas te esquece de dizer que os anos passaram, que me tornei mais maduro dentro da minha infantilidade. Não lhe digas que eu sou um livro aberto que no olhar pode ser lido o que me vai na alma. Nem lhe fales que eu sofro lhe pensando cada segundo da minha inexistência.
Se lhe falares não te esqueças de beber uma birra estupidamente gelada, para oleares a goela e lhe falares com limpidez de palavras audíveis.
Se lhe falares, diz-lhe que eu me lembro cada segundo que lhe vivi, mesmo depois destes anos todos. Cada esquina dos nossos encontros e desencontros estão gravados no meu mapa mental.
Olha, diz-lhe apenas que ela é o meu tesouro e que um dia, mais cedo que tarde, ela vai-me ter. Queira ela ou não me queira.
Sanzalando

É Proibido Proibir

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4 de setembro de 2006

Intimidades (5)

Sentar-me nesta poltrona tem alguma coisa de oculto que me faz transladar para outros mundos de sonho e imaginação. Outros desejos ardentes, outros calores.
Se ela me pudesse escutar, se eu lhe pudesse tocar sei que seria outro eu que estaria aqui a falar contigo. Mesmo que fosse só com um olhar que eu lhe pudesse acariciar, seria, estou-te a dizer com sentimento, um super-homem carregado de felicidade.
Se por acaso quisesse falar-lhe esta noite, lhe falaria inteiramente, lhe afogaria nas recordações de um reencontro de dois objectos que deveriam ser indissociáveis. Tu sabes que eu e ela seremos sempre um só corpo, porque a nossa alma está assim como que colada.
Se por acaso lhe pudesse viver para sempre, estarias agora a ouvir uma voz límpida, carregada de alegria.
Sei que não é fácil estares a ouvir-me falar assim, mas a verdade tem de ser verdadeira e essa é a minha verdade. Tu sabes, mesmo que às vezes finjas não a aceitar.
Tu sabes que nunca houve uma despedida ente nós. Houve apenas um intervalo que um dia vai ter um final feliz como nas fotonovelas da Corin Telado.
Tu sabes que entre mim e ela, mesmo que ela não saiba ou nunca tenha percebido, existe amor carregado, amor cego.
Tu sabes que odeio a minha maneira vulnerável de ser, sabes que não gostaria de ter que esconder-me atrás de uma fachada como actor de um teatro menor.
Qualquer minuto que eu pudesse passar nela, seria um recuperar de anos de vida perdida na nostalgia da existência ao lado da vida.
Tu sabes!
Sanzalando

Diaporama (21)

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3 de setembro de 2006

Intimidades (4)

Caminho sentado na poltrona, esculpida na rocha pelos anos deste final de zulmarinho.
Sigo com os olhos a linha recta que é curva e navego-me por sonhos e filmes imaginários. Tu segues-me como sempre o fazes. Carregas a minha área com o teu silêncio, a tua presença carrega-se de ar com perfume de paixão.
Eu necessito-me de uma mistura de prazer e relaxamento. Um ritual transcendental, que me afaste do ruído mundial. Afasto-me sentando e caminhado por dentro de mim, transladando-me para fora deste mundo, entrando no meu mundo.
Sigo-me por lombadas de livros lidos transbordando-me de alegria de os ter tocado e me lembrar, percorro estantes infinitas de coisas escritas e faladas noutros dialectos e sons, mistura de cores e perfumes, aromas vividos e pensados noutras épocas por outras gentes.
Percorro sonhos que mereciam ver um vez ao menos a luz do dia.
Percorro livros imaginados numa linguagem de gente que pensa como fala ou que fala como pensa.
Percorro as falas faladas por mim.
Caminho sentado na poltrona com os olhos fixos na linha recta que é curva e me curvo com as lágrimas a correrem cara abaixo.
Estás comigo mas é dela que estas lágrimas têm o sabor.
Estes livros, estes sonhos e estes filmes são dela. Afinal de contas que mais sou eu se não dela?
Sanzalando

Longe de mim em mim existo

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2 de setembro de 2006

Intimidades (3)

Caminhamos à beira do zulmarinho, num caminho que nos leva a destinos distintos, uns em linha recta, outros com bué curvas. Se tu me segues, umas vezes ao lado, outras atrás, outras ainda vais na minha frente como que a me ensinar por onde ir, é porque gostas de me ouvir falar, de me ouvir barafustar, de escutares os gritos dos meus silêncios.
Estes caminhos, que nos levam aos nossos destinos, nunca são cruéis mas sempre justos, mesmo que em momento certo nos passe pela cabeça a injusteza e crueldade desse destino. Tu sabes que eu sei que onde estou hoje o devo aos meus erros e a meus acertos acertados. Hoje estou no destino justo porque não sou mais que a circunstância, a possibilidade, a decisão e indecisão. Hoje estou no que a vida me permitiu ser, depois de pesados e medidos todos esses erros e esses acertos. Não estou nem à frente nem atrás de uma parte reflexiva rápida, sabendo tu que eu te me apresentei desde que nos sabermos sermos gente. E desde essa altura que sabes dos meus amores e desamores, das minhas alegrias e meus desânimos.
Tu sabes e podes assegurar-me na recordação de uma tomada de consciência, desde a minha meninice e adolescência, os meus caminhos são espasmos visuais que só me fazem recordar coisas boas e outras que as não foram, porém nunca as posso dizer que foram más, cruéis, inapropriadas para e por mim.
A vantagem de me recordar só de pedaços desses caminhos se poderia dever a uma dislexia mental que me faz continuar a sentir que nunca sai dessa fase de menino ou adolescente. Tenho a vantagem de, escondendo-me nessa dislexia mental, saber que nunca a deixei de amar, de que ela, mesmo nos seus silêncios e nas suas ausências de mim, dando sentido a cada segundo da minha existência aqui ao teu lado, à tua frente ou atrás de ti, nesta minha infância de paixão por ela.
Tu sabes que neste caminhos caminhados à beira do zulmarinho, ao sabor da maresia, as estrelas me acompanham em cada hora do dia, zelam-me e me protegem uma sombra de escudo inviolável.
Os caminhos menos rectos, aparentemente trágicos, desgravados da minha memória, moldaram-se pelos os outros caminhos, talvez triangulares, quadriláteros, círculos árcticos ou anárquicos, numa pedalada de escadarias esbatidas e que servem só como pontos minúsculos de referência, pequenas fogueiras sinalizadoras mas não queimantes nem capazes de desfazer amores solidificados e calcificados em eternidade.
A verdade é que tu me continuas a acompanhar nesta cruzada de pensamentos e diálogos a uma voz, transpondo-me a certeza que o caminho escolhido é o mais recto, mesmo que não seja o mais curto ou fácil.
Agora, minha sombra de existência, vamos entrar no zulmarinho e deixar que o seu conjunto de lágrimas nos arrefeça o corpo e nos lave a alma.
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Um rosto da fome

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31 de agosto de 2006

A calma que precisas

Me sento à beira mar. Num lado tenho a birra estupidamente gelada, no outro estás tu com a tua sede de me ouvir. Te falo, numa surdina para que os outros muitos que nos atropelam, nos borrifam com areia e nem nos olham com um olhar de pedir desculpa, não possam nem ouvir nem suspeitar do que estamos a dialogar numa voz só.
Tu sabes que tem muitas vezes que dou de mim, a falar em ti que é ela, aquela coisa enorme que me enche o coração, que preenche todos os meus momentos, os meus risos, as minhas lágrimas, as minhas saudades.Tu sabes que eu lhe sinto por vezes, o seu olhar no meu ombro, sem pressa, na noite adormecida, nos silêncios afogantes da solidão. Tantas vezes percorro os caminhos ao longo deste zulmarinho que aqui termina com os olhos lá no início dele, fazendo as minhas madrugadas passadas em claro. Eu lhe afago os cabelos, lhe vejo, lhe sinto, lhe cheiro e me reconforto em todas as suas recordações.
E tu? Será que te dou a calma que precisas na calma que te dou nestas caminhadas falantes?
Sanzalando

Outra casca de noz

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30 de agosto de 2006

Uma explicação

Hoje nem me apetece caminhar, nem estar sentado na poltrona esculpida na rocha nos dias de fúria do zulmarinho. Não, não estou zangado. Não, não me aborreci com a vida. Não, não enraivei-me assim num repente. É que estamos no mês que é de Agosto e ter de bulir no duplicado, ter os herdeiros me arrastando para as brincadeiras, ter os almojantas, ter os amigos, ter tempo de ainda fazer as minhas caminhadas ou os meus tempos de contemplação, falta tempo no que resta do dia. Cansaço sobra que até dava para vender em resmas, paletes ou montes.
Neste mês minha vida parece um filme a preto e branco dos anos 50, camaralentando todo um ano de amores, mimos, carinhos e palavras docemente proferidas.
Chegará Setembro e ficarei com saudades deste mês. È sempre assim como sempre tem sido.
Tu, que me acompanhas neste caminhar sabes que é assim por isso não estranhas, por isso tu me segues mesmo atrás do meu silêncio que nunca é duradoiro.
Tem amigos noutros caminhos que visito mas que nem deixo pegada porque o cansaço se arrasta até na ponta dos dedos para teclar as falas que eu gostaria de falar.
Chegará Setembro e tudo ficará em dia, todo o outro mundo volta na existência do meu dia a dia. Até ao ao dia em que me porei ao caminho de encontro com ela, a outra, a que está amarrada no meu coração e que eu não vejo a hora de lhe tocar e sentir como que a fazer parte dela.
Mas eu sei que esse dia vai chegar, Tarde ou cedo chegará.

Sanzalando

Diaporama (20)

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29 de agosto de 2006

Platão e eu

Caminho com ar de erudito e me ponho a falar-te de Platão. Esse mesmo, o grego que escreveu a Alegoria da Caverna. Acho que é o texto mais conhecido dele. Não sei, porque não lhe conheço muitos. Mas esse conheço e lhe gosto.
Tem pessoas que vivem anos a fio dentro duma caverna e só vêem as sombras da realidade, pois para além de estarem acorrentadas, estão ainda de costas voltadas para a abertura da caverna. Assim a visão delas é totalmente ofuscada, já que a única luz que conseguem ver é projectada pela sombra de uma fogueira que vem desde a entrada da caverna. Se habituaram a isso e se alguém conseguir sair da caverna e descobrir a existência do sol, voltar dentro da caverna e contar a realidade que viram, ele será, na opinião de Platão, morto. Os que estão dentro da caverna não vão acreditar no relato daquele que conseguiu sair.
Me estás a acompanhar? Me consegues seguir neste dia de coisa erudita? Se não conseguires, deixa estar que eu te explico.
Quando nos escondemos na caverna do nosso eu e fechamos os olhos às coisas que acontecem à nossa volta, porque essas coisas perturbam, mostram a dura realidade de um mundo frio, criado por pessoas que se fecham dentro de si mesmas, para se esconderem do medo que sentem, da falta de iniciativa, achando que nada tem a ver com as crueldades que acontecem, com aqueles que passam necessidades, com as vítimas de toda espécie de violência, com todas as guerras, com a fome, a falta de sistemas de saúde, de educação, de casa para morar; de justiça, com pessoas que sofrem perseguições, com aqueles que estão a necesitar de uma ajuda, mesmo que seja apenas uma palavra encorajadora estamos indo contra o projecto de felicidade individual.
Quando vivemos nesta caverna nos cavernamos. Passamos a ignorar a beleza das coisas neste mundo que é nosso. Vivemos só da sombra, como os personagens de Platão, não querendo saber da existência do sol que há lá fora, pois quando há luz se vê com clareza a lixeira que está à nossa volta e lixeira é coisa que incomoda muito. Ver com clareza significa contemplar as maravilhas deste mundo. Mudar significa ter no mínimo a coragem para enfrentar a opinião daqueles que nos querem moldar à sua maneira, teremos que ir contra e para isso é preciso muito esforço e firmeza.
Sol é luz forte e nós somos um espírito de luz e quando a gente se afasta dessa luz a gente se afasta da gente mesmo.
Tá na hora de mostrar a luz , de sair da nossa caverna e levar os nossos sonhos avante, nem que a gente tenha de nadar esse zulmarinho todo até no outro lado, até no início dele, olhar na lixeira e ver que pode ser limpa, olhar na nossa volta e iniciar uma cruzada que no seu início pode ser molhada mas depois ficará o sal que tempera uma vida, uma estória, uma herança.
Está a chegar a hora. Tem de estar.
Me acompanhaste? O teu silêncio perturbante me deixa sempre nessa dúvida.

Sanzalando
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A tua VOZ

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28 de agosto de 2006

Intimidades (2)

Caminho nesta areia de mil cores com direcção a um sentido sentido na alma. Não estou na melancolia nem submerso na tristeza. Caminho num caminhar cabisbaixo porque o tempo de ir a tempo lhe vejo escorregar pelas mãos e os passos dados são assim como dois na frente e a exponencial na retaguarda, fazendo a distância se aumentar e a visão já não tem capacidade para ver assim tão longe. Ou é mesmo que eu quero o que é amanhã já hoje mesmo?
Mas eu te digo que o imperfeito não participa do passado. Actualmente ando mesmo implicado é com o futuro do pretérito. É que para mim, o futuro do pretérito é um tempo verbal absolutamente perdido na linha temporal. Não é futuro, não é pretérito e não é presente.
Pensa comigo: ele expressa uma condição e condição é um esquema que ainda não aconteceu e que por este andar pode nem acontecer. Te reafirmo com o coração nas mãos que esta maçã daria uma excelente torta. Daria. Só que ainda não deu e isso me deixa assim como que sem saber o sentido da direcção da caminhada. Porque alguém já podia estar a comer esta maçã há muito tempo e maçã comida não vira torta. Mas eu te dizia que se é futuro, não pode ser pretérito e se é incerto, não pode ser futuro. Acompanhaste meu pensamento?
E antes que me perguntes, não, eu hoje não bebi não bebi a minha birra estupidamente gelada.
Só caminho contigo nesta intimidade da transparência carregada de inocência e de esperança
Sanzalando

Diaporama (19)

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