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Conversas à Mesa
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31 de janeiro de 2007
30 de janeiro de 2007
Até já
Nada de balanços, contas pendentes e nem totais.
Me dizes que estou ausente, olhar frio, palavras poucas e roucas. É. Se calhar tas com a razão do teu lado. Só quero mesmo é sentir o calor do teu abraço e deixar-me ficar assim num quentinho de ternura.
Quero ficar mesmo nos abraços de todos aqueles que me ouviram conversar comigo, me acompanharam nestas caminhadas de perfume de maresia, banhos de nostalgia. Quero mesmo ver o teu sorriso sair disparado da cara ao encontro do vizinho do lado e vice-versa.
Deixa-me dizer-te ao ouvido:
Até breve, nem que seja amanhã dum outro dia destes.
Sanzalando
29 de janeiro de 2007
As cenas finais do filme
E tu sabes que a minha timidez, o meu medo e a minha ansiedade iam provocar um monte de palavras que nem detective lhe ia descobrir o significado.
Tu me dás força, me acompanhas nas horas boas e nas outras também. Mas eu não te posso pedir para ires ali dizer as minhas palavras. Não ia ser a mesma coisa. Só o teu olhar ia mostrar o que me vai na alma. Mas tem gente que nem isso lhe ia conseguir ver.
Imagina tu, que sabes o que é imaginar, que estamos a fazer um filme. Desses mesmo de cinema. Sabes tanto como eu que o galã só entra nas cenas que são fáceis. Nas outras eles têm um que faz tudo por eles, que até se magoam por eles. Mas neste filme que estamos a fazer é um filme em que o combu não é nem suficiente para pagar a conta da luz, assim não tem nem alínea na verba para pagar um duplo. E o galã, que neste caso até que sou eu, tem de saltar de um prédio de muitos andares que até fica lá para cima além das nuvens. Me imaginas na minha timidez de ter de representar, o medo de saltar, mesmo que tenha sido eu quem foi que fez o guião, e a ansiedade de ver tudo a terminar num final feliz como que devem ser os filmes de amor. Se eu calcular mal a corrida? Se o paraquedas não abrir? Se o gajo da câmara estiver distraído? Se os bombeiros não estiverem com tudo a postos, se é que alguém avisou neles que a cena era assim que nem perigosa?
Mas o filme já começou e agora não pode ser filmado coisas novas como nem outro filme.Olha, faz só mesmo o favor de subir na rocha e dizer que hoje não estou com o dom da palavra, que a voz se me prendeu na garganta assim que nem num nó.
Sanzalando
28 de janeiro de 2007
27 de janeiro de 2007
Último Sábado - dia de descanso
Deixa só que aquecemos ao sabor das palavras que eu te repito miles de vezes e tu miles de vezes ouves com a atenção que só uma sombra pode ouvir.
Te invejo. Onde vou, tu vais. Se fico tu ficas. Umas vezes és maior que eu, outras quase nem te vejo. Deve de ser difícil ser a minha sombra e ter que aturar as minhas aventuras fabricadas nos sonhos, acordados ou de sono profundo.
Hoje te falo pouco para te dar descanso. Deve de ser difícil ser a minha sombra, porque às vezes é difícil eu ser eu.
Sanzalando
26 de janeiro de 2007
Hoje caminho com pena
Vamos aproveitar que o vento passou a brisa, que o frio se aqueceu um pouco e a maresia tem mais sabor a mar, para caminhar nas palavras que ainda te tenho para dizer.
Sabes que eu sinto pena de quem não vence nunca, como também tenho daquele que nunca perde. Tenho pena de quem faz só o necessário, do que desacredita de si e dos convencidos da vida. Tenho pena de quem não foi criança, de quem não levou ralhete da kota, de quem não brincou aos polícias e ladrões. Tenho pena de quem está amarrado numa prisão de amor infrutífero e sofredor. Tenho pena de quem não vê o mundo do lado de fora da janela. Tenho pena de quem não diz palavra que depois se vai arrepender, tenho pena de quem diz que não tem um pouco de maldade no coração. Tenho pena de quem não vocifera cá para fora a raiva contida. Tenho pena de quem faz o que não gosta e de quem gosta do que não faz ou vice versa conforme estamos no ir ou no voltar. Tenho pena de quem nunca teve uma paixão. Tenho pena de quem não tem medo e dos que só se arrependem do que não fazem.
Tas a ver, hoje eu estou num dia de pena.
Sabes mesmo porquê?
Porque tenho pena de quem não sonha!Sanzalando
25 de janeiro de 2007
Os sonhos
Não é que eu tenha sonhado que tinha salvo o mundo porque comi batatas fritas enquanto dormia. Sonhei que estava a estudar, não o estudar numa secretária com livros e compêndios à frente dos olhos. Estava a estudar mentalmente uma matéria bem definida. Assim, quando acordei, revi todos os esquemas, todos os mapas, todas as localizações e equações. Estava tudo certo, direito e sem nenhum desvio da realidade. Assim eu hoje estou melhor, mais rico de saberes. E como te gosto eu te compartilho estas coisas.
Se tiveres paciência e olhares para estes esquemas que eu tenho aqui, feitos a partir do meu sonho, tu vais ver que, da mãos a abanar, eu vou conseguir chegar lá, ao resultado que tu sabes que eu quero. Olha bem para eles. São simples como eu o sou, são em socalcos como tem sido toda esta caminhada que temos feito até aqui. Aqui, neste planalto que eu desenhei a lápis para poder apagar e fazer só uma planície, vai ser o meu coração. Ali, nessa seta que vês a apontar o céu, numa verticalidade equatorial, é o caminho que espero percorrer.
Como vês eu sonhei tudo e por isso estou hoje a saber mais que sabia ontem quando me deitei.
Olha, sabes, fico com a impressão que o meu cérebro trabalha a solo, aproveita que o corpo não está com ele e záz desata a estudar.
Mas te digo que esta noite não vou querer sonhar, acordarei antes dele. Preciso de dar férias aos sonhos.
Te chega mais a mim e me afaga na tua sombra, me mima com perfume de maresia.
Ser um caminhante sonhador…
Sanzalando
24 de janeiro de 2007
Falemos que o dia é curto
Quantas vezes temos os olhos abertos e não nos vemos? Quantas vezes queremos olhar à esquerda e não voltamos a cabeça? Tão pouco o fazemos para olhar à direita. Quantas vezes os homens não vêem as mulheres, desejando entendê-las apenas? E as mulheres não vêem os homens, desejam que eles mudem. Como vês são tudo coisas simples, com respostas silenciosas guardadas em frascos de cristal coloridos, como vitrais.
Continuo?
Então continuemos as nossas conversas de mim para ti como se comêssemos um prato de cerejas. Nem olhamos para as meter na boca. Quando bebemos, simplesmente bebemos sem olhar para o conteúdo quando emborcamos.
Afinal temos mesmo os olhos mais para quê?
Para olhar para além da linha recta que é curva? Para ver se a areia está mais lisa ou mais irregular que outra vez qualquer que já nem sabemos quando?
Temos olhos porque nos ficam bem na cara? Ai que olhos tão lindos, até parecem de gato.
Precisamos dos olhos para ver mais além do que a vista alcança.
Não, a maior parte do tempo nós não nos vemos, olhamos para lá de um vazio qualquer.
Mesmo que caminhemos de olhos fechados bebendo cada palavra do que dizemos devemos manter a visão para lá de nós sem de nós ter saído.
Te compliquei a vida… deixa estar que assim falámos de mais coisas em menos tempo.
Coisas apenas.
Sanzalando
23 de janeiro de 2007
Frases feitas por dizer
Sabes, às vezes gostava de ter um apontamento das frases que disse. Como não tenho, te vou falar das frases que disse ou ouvi, sem saber quais foram quem. Umas porque lhes gosto, outras porque não as queria ter ouvido ou dito.
Nunca deixes que o passado te atrapalhe o presente ou fira o futuro.
Não pretendas que alguém te conheça se tu não te conheceres.
Nós vivemos a vida sempre em busca da felicidade, quando a não procuramos, vivemo-la porque já a encontrámos.
Mas afinal o que é mesmo a felicidade? Quanto tempo dura ela? Quem nos dá a felicidade? Não te sei dar uma resposta porque as respostas são muitas e às vezes precisamos de uma para ter outras e é um nunca mais parar.
Tu sabes bem que a felicidade é uma coisa complexa e não se compõe só de uma coisa, é um somatório de muitos aspectos de vida.
Anda, me acompanha neste caminhar de chuvas palavreadas de entulho e confusões assimétricas, em lamas encardidas de sonhos aglomerados em fantasias.
Mas me acompanha rápido que hoje está difícil caminhar. Me tombo das pernas sem dar conta, que até parece vem vento traiçoeiro por de trás e me derruba num ápice.
Tu sabes que as caminhadas são feitas de escolhas, passos que se dão, pequenos no parecer mas que às vezes são grandes na vida. Diz-me só uma coisa, tinha havido outra hipótese de ter uma sombra que não fosses tu? Tinha eu alguma hipótese de ter um amor que nem esse que eu tenho? Era mesmo difícil matar esse sentimento logo que ele nasceu e assim eu tinha evitado uma série de caminhadas, adaptações e outras ões?
Anda, vamos ser felizes, e esqueçamos que eu queria falar-te de frases feitas!
Sanzalando
22 de janeiro de 2007
Silêncios
Uma palete de fraquinhos de frágil cristal e estar atento. É mesmo uma trabalheira infernal.
Na verdade é ainda mais complicado porque enquanto eu te falo se produzem silêncios à nossa volta e não os posso perder.
Quando guardo um silêncio este brilha dentro do frasquinho de cristal para todo o sempre, como só as coisas únicas o fazem. Às vezes há necessidade de mudar de frasquinho, porque uma vez capturados, alguns silêncios são mutáveis e caprichosos, mudam de sentido.
Consegues acompanhar a minha passada labial? Eu sei que esta areia de mil cores às vezes nos atrapalha a marcha e se não fosse a orientação recebida pelas ondas do zulmarinho, nós nos perderíamos em gargalhadas ou em silêncios.
Sabes que quando um dia capturei um silêncio de amor, desses que são classificados ‘no que eu te queria dizer mas que nunca saiu dos meus lábios’, e quase o fechava bem rolhado, ele se transformou num silêncio triste e tive que o mudar para os ‘silêncios melancólicos’, e com toda a trabalheira das trasfegas que isso acarretou.
Todos os silêncios surgem sem aviso prévio, sem ruído e sem qualquer sinal, pelo que ao falar-te tenho de estar atento ao meu redor. Caminhar, falar e recolher silêncios. É verdade que eu já tive mais trabalho do que agora, o ruído vai ganhando terreno pouco a pouco e os charlatães começam a abundar.
Tu sabes que muitas vezes digo para mim que mal vão os tempos para o silêncio.
Olha, vou calar-me um minuto e vamos caminhar ao sabor dos passos.
Sanzalando
21 de janeiro de 2007
Lua Cheia

Não tem nada a haver com esse ponto de futuro que eu estou à espera mas enquanto caminhamos eu hoje te falarei da lua, aquela bola redonda que estás a ver daqui, que dá voltas sobre ela própria e sobre a Terra para que a gente repare nela. Ela é assim como uma musa que inspira artistas, poetas e amantes. A Lua tem magia quando vista daqui, lhe olha ela a reflectir-nos a luz que recebe do Sol na sua silhueta vaidosa. Vês como ela tem magia. É bonita mesmo. Nos atrai como um íman e a gente parece não consegue deixar de lhe olhar. Mas tu sabes que se lá fosses lhe ias encontrar tremendamente seca e árida e nos ia desiludir.
Por tanto, sombra que me acompanhas nestas e noutras caminhadas, te digo que devemos manter sempre as distâncias para que tudo se mantenha assim mágico e belo. Há pessoas na nossa vida que são como a lua.
Sanzalando
20 de janeiro de 2007
Caminhos curtos de um sábado
Vamos saborear a maresia, vamos dançar a música das ondas, neste universo paralelo onde as palavras são exactas e bem doseadas, onde eu abraço as memórias de medos e angústias ancestrais. Nesse universo paralelo eu estou a salvo, a minha respiração descansa da ofegante sensação de viver mais um dia e o meu cérebro repousa das imagens dos filmes negros da vida.
Anda, vamos caminhar neste universo paralelo onde eu sou nuvem e não tenho idade.
Vamos caminhar neste universo paralelo de zulmarinho com perfume de rosas
Sanzalando
19 de janeiro de 2007
Me experimentando
Desafio a quem por aqui passa , a escrever um conto ou um poema, com as seguintes palavras:
FORMAS, DEGRAUS, ÁGUA, ESPELHO, SEXO, MORTE, PELE, ECO, RETALHOS, AUDÁCIA, TELA, NEGRUME, CAFÉ, GESTOS, NORTE, VOZ, VIDA, PEDRA, SENTIDOS.
Enviar para:tozribeiro@gmail.com
Vai daí parti para a experiência e saiu esta coisa:
De sem sentidos acordei. Morri? Não, a morte não pode chegar assim indolorosamente silenciosa. Simplesmente estava a dormir que nem uma pedra, fugido dos retalhos da vida, preso no negrume da consciência sem norte, vida sem audácia, gestos rotineiros do dia a dia, como uma tela pendurada numa parede branca em que todos os dias se olha e não se vê com olhos de ver, não se admira a forma, não se tem o eco de quem a pintou.Acordei com a mesma pele, admirei-me ao espelho, fiz gestos rápidos na vã esperança que o reflexo fosse mais lento. Acordei apenas de um sono profundo. Bebi um café e pensei em sexo.
Sanzalando
18 de janeiro de 2007
Me arrumando

Tu sabes que há dias em que a gente se derruba por dentro. Sabes que hoje me olhei e no espelho e parecia uma dessas casas assim do tipo património mundial ou coisa mais pequena, em que só lá está a fachada e por dentro está assim é um vazio grande que enche qualquer espaço que parece está escondido dos olhos. É, parece o mundo desabou nos pés e a desordem se inundou-me. As recordações se amontoam sem qualquer ordem sobre a capacidade de pensar, que por sua vez se descola dos sentimentos. Misturei-te as ideias? Pois é mais ou menos assim que eu me baralho hoje nesta desvontade de caminhar e recuperar alguma força para continuar a caminhada.
As sensações desapareceram, todas menos a tristeza, que se fez senhora e dona do meu cérebro, dominando acções, reacções, gestos e palavras.
Pois é, tu sabes, que há dias em que eu mesmo me derrubo por dentro.
Assim como mais assim é mesmo melhor a gente se sentar nesta areia de mil cores, olhar o zulmarinho se baloiçando e ver se consigo pôr em ordem a desordem em que me arrumo e que faz um peso danado nos meus pés este desabar do mundo sobre eles.
Um a um vou-lhes organizar os pensamentos, as recordações e os sentimentos. Os que não me interessa ter porque são velhos, absurdos ou são aborrecidos deixarei enterrados aí num buraco que farei na areia. Assim, me reconstruirei por dentro e se verá por fora.
Sentes a brisa que sopra? Ela mesmo vai tapar esse buraco.
Olha bem para cima daquele monte de areia que fizemos numa das nossas caminhadas. Em cima dele está a minha indecisão. Como é pesada a brisa ainda não lhe conseguiu levar para longe. Olha ali rebolando contra o zulmarinho todas as palavras que eu nunca deveria ter dito. Agora vê sobre as ondas, como que boiando, os antigos amores como que não sabendo se vão ao fundo ou se voltam para terra para arrancar o que resta do meu coração.
Vês como é fácil a gente se arrumar por dentro e transparecer por fora?











