recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de maio de 2007

Outra, mais uma vez

Anda, senta aqui e vamos falar. Eu sei que só eu falo. Mas te preciso para ouvir.
Preciso de ti para conseguir ouvir os segredos que me chegam nas ondas do zulmarinho, preciso de ti para me ajudares a saborear o perfume de maresia, preciso de ti para dançar ao som do marulhar.
Tu sabes que não consigo escolher o destino. Ele é que me escolhe. Assim sem mais nem menos.
Aqueles que me conheceram antes do destino me agarrar no coração e me comandar nesta atormentada cruzada de ideias, não podem compreender as mudanças que há dentro de mim, as lágrimas que ficam por chorar, as gargalhadas que ficam guardadas, as palavras ditas em silêncio e os silêncios traduzidos em palavras.
Tu sabes que hoje não há lugar para crenças ou credos, para ideias ou pensamentos, para parábolas e redondilhas.
Tantas são as coisas que tu me sabes. Umas disse eu, nesta minha voz que teima em se calar nas palavras, outras viste tu com os meus olhos.
Tu sabes que diante de mim existe um exército sedento de sangue e morte, à espera de um fracasso, à coca de reduzir os meus sonhos em cinzas que depois jogariam nesse zulmarinho e se dissolviam em nada.
Agora, sombra, está na hora de te decidires se ficas a meu lado, nesta constante luta ou vais seguindo o teu destino, que só é teu porque ele te escolheu.Tudo corre em velocidade de muita pressa, porque velocidade é aquilo que me acontece quando desejo cumprir um sonho e tudo acontece em lentidão inexplicável. Esta relação, velocidade e lentidão em mim mesmo, é incompreensível aos olhos que não os meus, à compreensão que não é tua.

Sanzalando

Nostalgia para a noite e para o dia


30 de maio de 2007

Nem na imaginação

Caminho aqui na areia, deixando os meus pés bem marcados nela, com medo de me perder no regresso ou, simplesmente, porque me apetece brincar com essa areia de mil cores que passa no meio dos dedos que até faz rir. Engraçado mesmo, sombra, olho para trás e não vejo o teu rasto marcado. Tu voas ou só é mesmo ausência de peso que faz esse milagre de caminhares comigo sem deixar sinal?
Neste caminhar vou olhando para as palavras, escolhendo como quem quer escolher uma flor, para tas dar assim numa rajada de coisas ditas, que eu sei tu vais depositar logo no teu coração. Tu não tens peso, mas será que tens coração onde guardas todas as palavras que te falo? Eu acredito que sim.
Te vou falando sem saber exactamente o que te digo, sem notar se são lágrimas na cara ou gotas desse zulmarinho que salpicando me as atira com o vento. Será que eu reconheço todas as palavras que te falo? Será que estou em todas as incoerências que te digo?
Às vezes, se calha eu falar outra vez as mesmas palavras, assim no escuro do espelho onde me vejo por dentro, me custa reconhecer nessas palavras. Mas eu sei que são as palavras que eu te disse e que tu ouviste porque estavas ali, presa a mim como sempre.
Bebo uma birra loira já não estupidamente gelada, porque o calor do caminho lhe aqueceu, como me aquece a alma.
Tenho a cara mais molhada. É salgado porque uma dessas gotas me entrou na boca. Mas eu não noto que deixo cair as lágrimas hoje, mas a verdade é que a visão está assim como em dia de tempestade, turva e cinzenta, e sinto o coração que bate até parece quer sair de dentro do peito.
Olho à nossa volta, olho com esforço. Sinto-me um estranho que não existia até agora. Me tento ver aqui por dentrto. A claridade do dia não deixa ver-me nesta transparência. Tenho mesmo de esperar que anoiteça para me ver no espelho de mim.
Mas porque choraria eu hoje? Diz lá tu que sempre me acompanhas, porque é que eu hoje estou assim? Não, não é medo de deixar de ser eu, deixar de acreditar nos sonhos sonhados, deixar-me levar pela tranquilidade duma existência passiva.
Será que é mesmo só saudade dela e dos que lhe rodeiam naquela azáfama desenfreada da organização caótica. Será que é saudade daquele perfume? Será que é saudade de sentir no peito o baque daquele calor húmido.
Vamos dar corda às pernas e marcar nesta areia de mil cores todos os caminhos que andámos. Vamos que eu não quero sentir-me só, nem na imaginação.

Sanzalando

29 de maio de 2007

Tantas e outras vezes

Tantas vezes caminhamos neste final de zulmarinho, que já nem sei as vezes que tropecei nas palavras, nas ideias e no imaginário. Umas vezes vamos com todos os sentidos acordados, outras com eles adormecidos. Caminhamos com palavras umas vezes, outras com silêncios ensurdecedores. Mas caminhamos porque esse é o nosso caminho, o fado como dizem os poetas, destino diriam os fatalistas.

Eu caminho nos caminhos da nostalgia, do sonho, da fantasia. Trago-te presa a mim porque tu tens a santa paciência de me ouvir, mesmo quando caminho calado, só tu conseguirias suportar-me em todo este tempo em que o tempo passa no seu ritmo cadenciado em que falamos do presente sendo ele já passado.

Tantas e tantas vezes procuro caminhos seguros, bem sinalizados e sem precipícios onde os passos cadenciam frases, palavras, sonhos, maresias mais ou menos salgadas, música suave que brilha quando nos entra no corpo. Caminho por linhas definidas, mapas desenhados em escala de trajectórias coerentes.

Assusta-me caminhar por onde não tenha a força do controlo, não sentir a segurança dos meus passos, não poder prever o peso das minhas palavras. Não ser capaz de entender o milímetro dos meus passos é pavoroso. Talvez seja por isso que prefiro conservar antes de arriscar, pragmatizo antes de sonhar e respondo com os braços caídos ao desafio da utopia.

Mas eu sei, aprendi nestas caminhadas em que te falei de todas e de nenhuma coisa, que às vezes o mais real, o mais vivo, o mais autenticamente humano, não se constrói de traço certo, definido, mas sobre sombras esfumadas

Só caminhamos no caminho da felicidade quando renunciamos a fechar as linhas e os contornos que nós imaginámos. Só conseguimos sorrir quando os nossos sonhos estão em aberto e ainda acreditamos neles.



Sanzalando

Nostalgia para a noite e para o dia


28 de maio de 2007

Medo?!

Sigo ao ritmo das palavras. Tu segues-me, presa. Ouves-me como quem bebe cada ideia, como quem vive cada estória, como que a queres fugir de ti. Se calhar tens medo de ti, assim que nem eu tenho medo de mim.
Medo?!
Esse medo de não ter tempo. Medo de ter deixado passar ao lado. Medo de a ter na mão e com ela aberta, tê-la deixado voar.
Caminhamos sem olhar para trás mas tendo presente as recordações. Caminhamos num vai e vem nos altos e baixos da vida, sem pressas mas com medo de ter o tempo como limite.
Caminhamos a respirar a maresia como quem respira o ar húmido que sufoca no calor com entra no corpo.
Caminhamos com os olhos postos no zulmarinho como quem olha para ela, apaixonadamente bela, traiçoeira como todas as paixões.
Sigo os meus passos de palavras. Tu segues-me presa na ideia fixa duma paixão.
Vemos o cintilar das notas duma guitarra feita de lata pairando sobre nós acreditando que cada estrela é um olho que nos guia, um sul, um norte. Às vezes com o olhar toldado por lágrimas secas de saudade não as vemos e sentimo-nos desnorteados, mas caminhamos rumo ao destino traçado num tracejado de imagens reais, amarelecidas pelo tempo que o tempo da chuva lavou. Outras vezes, com olhos de ver ao longe, vemo-la tão perto e tão nítida que até apetece esticar o braço e lhe tocar, acariciar como se fosse o rosto de uma criança.
Caminhamos juntos mesmo quando sigo os meus passos de palavras sem retorno.

Sanzalando

Nostalgia para a noite e para o dia



27 de maio de 2007

Destino

Vamos caminhar hoje? Te me apetece falar das coisas de sabores antigos.
Minha avó me dizia que o destino estava já escrito. Não valia a pena lutar contra ele. E eu, jovem, lhe acreditava como uma indesmentível verdade.
Agora, já mais crescido, no vai e vem dos meus passos, no tropeço das minhas quedas de vida, chego à conclusão que a minha avó estava errada e que tudo é uma sucessão encadeada da nossa vontade com um pouco de azar.
Mas se por acaso a minha avó tivesse razão e eu lhe acreditasse ainda te diria, com toda a minha convicção, que suspeito que o destino é mesmo uma pessoa oculta que vive em lugar nenhum e que me espia como um espectador de primeira fila no melodrama da minha vida, porque as coisas boas a gente esquece numa rapidez que já nem um segundo depois se varreu da memória e o que fica é o melodrama da lágrima e da dor.
Mas esse espectador não está ali para me aplaudir, para me consolar, mas sim à espera de se poder rir dos meus infortúnios, de poder travar os meus passos dados em frente, de poder fechar todas as portas que timidamente se me abram, de travar todos os sonhos como se ele fosse o inventor dos pesadelos.
Olha, se eu lhe conhecesse, te digo, lhe torceria o pescoço, independentemente de quem me chamasse de louco de lutar com tão poderosa criatura.
Se tudo está escrito, como disse a minha avó, porque chorava ela quando um filho lhe saia de casa? Ela nos seus muitos anos de sabedoria já devia ter lido essa página.
Vamos continuar a caminhada que é o nosso destino e ele deve estar escrito aí algures, numa folha de vento qualquer.

Sanzalando

Nostalgia para a noite e para o dia


26 de maio de 2007

Lhe

Sentados na areia de mil cores, olhos postos na linha recta que é curva, que segura o zulmarinho como que a lhe dizer que ele não pode ir mais para lá, quando eu sei que mais para lá ela está lá. Me chegam nas ondas os seus sussurros, as suas canções, as suas lágrimas, as suas gargalhadas. E tu ao meu lado, como sempre.
Te falo na incapacidade de decifrar os meus sonhos, os sonhos que escrevo em muitas páginas do meu cérebro, com palavras simples, com combinações de palavras tentando lhes dar a cor com que os sonhei. Neles procuro encontrar a chave. Neles encontro outros sonhos que me levam a um labirinto de sonhos sonhados e ainda não decifrados.
Sabes que lhes penso fundo, misturo-lhes com as canções que me chegam, emaranho-os com os segredos que me trás a brisa, e continua tudo como um sonho gigante à espera de ser desvendado.
Tento encontrá-la nos livros que me falam dela, vejo-as nas fotografias que lhe tirei, nas que tiraram para mim. Mas ela continua a ser um sonho não desvendado.
Espero ansioso um sorriso dela, uma palavra, uma chamada. Ela não me dá o prazer de lhe ouvir nem a voz.
Diz-me tu, que me segues desde o meu sempre, o porquê deste silêncio?
Lhe maltratei? Se calhar até que sim e agora estou a cumprir a minha pena de condenado.
Lhe neguei? Se calhar até que sim e agora recebo o mesmo verso da moeda.
Lhe esqueci um minuto? Se calhar até que sim e agora estou na folha cinzenta do seu esquecimento para poder sentir esta dor que lhe sinto.
E tu aqui ao meu lado me respondes com o teu silêncio, como sempre.

Sanzalando

Nostalgia para a noite e para o dia



25 de maio de 2007

Já... em dia de África

Vamos continuar os nossos solilóquios monologados de palavras soltas, abertas ao vento que sopra nesta praia de areia de mil cores, perfume de maresia.
Já falámos de tudo e também de nada, já dissemos coisas e silenciamos outras, já perdemos tempo no tempo que ganhámos, já trocámos sorrisos em caras sérias. Se as palavras fossem medidas ao metro já teríamos caminhado as maratonas mais importantes e as que ninguém conhece também.
Já recuperámos memórias, já nos vimos nos espelhos de caras novas, já fizemos sonhos contra nós, mas nunca guerras, porque nunca as ganharíamos.
Já percorremos todos os caminhos, mas sempre descobrimos um novo em cada olhar, mesmo que para o mesmo ponto.
Já construímos enigmas, já visitamos a lua, já sulcamos as ondas do zulmarinho.
Já falámos dela nas mil vezes sem conta. Sentimo-la como se ela estivesse aqui ou nós com ela. Sentimo-la sempre. Ela segue dentro do coração como aquela foto que está dentro da moldura, veneradamente bela, nos defeitos e virtudes, nos sonhos e pesadelos, no sorriso e nas lágrimas, porque ela representa quem nos ama mesmo depois de tantas dores que lhe causamos, de tantos sorrisos que lhe tiramos. Mas um gesto pequenino que a gente lhe faz e ela se derrete num sorriso doce que nem algodão
Uê! Falámos de tanta coisa que ainda acho está a faltar mais do mesmo. Vamos fazer mais como então?
Falemos!
Ah! Me ia esquecer de te dizer que hoje ainda te vou falar pouco porque é dia de África e por isso é dia de reflectir e é isso que lhe vou fazer assim num mais ou menos de todas as certezas que nunca terei.


Sanzalando

Porque hoje ainda não é sabado!



24 de maio de 2007

e falemos até aos cotovelos

Anda, vamos caminhar mais uns passos ininumeráveis nesta areia de mil cores, trazendo sempre a esquerda o zulmarinho quando vamos, e à direita quando vimos, num vai e vem sem contadores.
Não te apetece caminhar? Tou a ver amuaste do que te disse antes. Não te disse nada que já não soubesses. Esse um dia vai ter de acontecer. Tarde ou longe, cedo ou perto. É a incógnita que temos do tempo.
Anda lá. Vamos pôr os pés em marcha e a boca a debitar palavras que tu sabes juntar.
Poderia eu viver sem falar-te? Nesse dia eu não viverei, tu sabes disso. Não posso guardar-te os meus segredos, os meus medos, as minhas alegrias e o meu sagrado amor.
Sabes, aqui à tua frente, olhando esse zulmarinho que me liga até lá, que me trás os segredos, os sons, o perfume, recordo os segredos de momentos já extintos e construo sonhos de momentos que um dia vão ser realidade. Aqui, nos dias cinzentos, com olhos com lágrimas de sangue e dor, com sorrisos impossíveis e lábios carregados de palavras azedas, me transformo num sonhador feliz, num crente de futuro e aumenta a minha sede de beber tudo o que me chega desde o lado de lá da linha recta que é curva.
Aqui, tenho necessidade de te ter por perto e com a tua eterna capacidade de me ouvir, até nos meus silêncios.
Mesmo com o relexo do mau feitio esparramado na areia
Sanzalando

As faces da liberdade




23 de maio de 2007

E agora, se eu parasse de te falar?

Nestas caminhadas me aprendi, me conheci e te dei a me conhecer, mesmo que caminhes sempre pregada a mim.
Nestas caminhadas te falei de amor, de dor, do que ganhei e do que perdi, do que fui, do que sou e nunca do que serei porque nem eu sei.
Nestas caminhadas com sabor a sal e perfume de maresia, com música de fundo num marulhar do zulmarinho se esticando na praia como a querer mostrar que também ele cresce quando quer, não fizemos guerra nem com a vida nem com os dissabores, nem com as nossas prisões ocultas.
Quando nos apeteceu nos sentamos como seres adultos e maduros, falamos de êxitos e fracassos, de amigos e menos amigos, das coisas que nos fazem ser gente, sentir gente.
Alegámos na passada, sorrimos no descanso, aquecemo-nos na cumplicidade dos abraços que não podemos dar um ao outro.
Aqui perdemos. Aqui ganhamos.
E agora o que vai ser de nós se pararmos de falar?
Engordamos o cérebro com coisas não ditas, ficas fechada no teu silêncio sombrio sem saberes onde vou, como vou e com quem vou, se é que para algum lado irei.
Eu sei que na mesma me seguirias para onde quer que eu fosse, e estarias pronta a ouvir-me ali na hora que me apetecesse dizer-te os meus segredos. Mas não saberias juntar as palavras soltas, não te saberia ao mesmo.
E agora, se eu parasse de te falar?

Sanzalando

As faces da liberdade



22 de maio de 2007

Vamos disfrutar

Anda daí. Vamos que eu tenho sede de mim, tenho vontade de beber todas as palavras que já disse e as que ainda quero dizer. Há tanto para falar que nem encontro as palavras as para dizer. Anda, quero saborear esta maresia, quero desfrutar este marulhar feito música.
Vês como está um lindo dia? O sol bate-me na cara e dá-me prazer, a brisa que vem do zulmarinho me despenteia e dá-me prazer, este seco salgado da minha pele me dá comichão e prazer.
Hoje quero desfrutar. Em vez da sempre habitual birra loira estupidamente gelada quero comer um sorvete e deliciar-me com o seu sabor a frio.
Vamos parar aqui um pouco. Faz de conta que estamos no início do zulmarinho. Imagina-te lá, olhos postos na linha recta que é curva, mas vista de lá para cá e não como tem sido hábito de cá para lá. Quero sentir-me lá, passando a língua na bola do sorvete sem deixar que uma única gota dele se perca pela mão.
Sinto o prazer de comer o meu gelado do lado de lá. Quero desfrutar o prazer da felicidade do lado de lá, mesmo estando cá.
Vamos voltar ao caminho enquanto me calo neste sabor e tu te silencias no desfrutar-me.



Sanzalando

As faces da liberdade


Sanzalando

21 de maio de 2007

Se calhar...tenho é medo

Se calhar nestas caminhadas já demos a volta ao mundo em 365 dias sem parar. Se calhar usamos todas as palavras do dicionário, todos as formas gramaticais. Se calhar não dissemos foi nada do tanto que há a dizer. Se calhar fizemos aqui, neste final de zulmarinho, uma circunferência de experiências bordadas pelas palavras e silêncios, ornamentos de lágrimas, franjas de sorrisos. Se calhar fizemos a ronda dentro de mim.

Olhando para as pegadas que deixo marcadas nesta praia de areia de mil cores e de final de zulmarinho, sorrio.

Não nasci para ser lago ou um rio, praça ou avenida, por isso caminho trazendo nas palavras a sorte de um jogo de roleta, olho as ondas sempre renovadas, sinto a maresia sempre renovada em cada rajada mais forte, ouço o marulhar no seu arrítmico compasso.

São tantas as coisas que te falei que seria sorte adivinhar o que te falo na passada número qualquer coisa. Tantas coisas para dizer e ver o tempo voar, tanto mundo para descobrir e ter só um mundo na alma, tanto caminho poderá faltar para chegar ao THE END, que os pés descalços com que aqui caminho não sei se aguentarão o quente queimar desta areia. A goela é de quando em vez lubrificada por uma birra loira estupidamente gelada. E aos pés que lhe posso fazer se não lhes dar um descanso, erguê-los como que a lhes mostrar o céu?

Mas a vida tem tantas contradições e efeitos secundários que cada vez que eu penso em parar de te falar as coisas que te tenho para dizer, de dar descanso aos cansados pés, desato a caminhar e não me calo de te dizer palavras entrecruzadas com os silêncios das respostas e reacções.

Alguma vez te falei em medo?

Sei que muitas coisas abandonei por ter tido medo.

Há o medo de estar a fazer o não correcto, de não ser suficientemente bom, de defraudar, de fracassar, de ser egoísta, de estar equivocado. É uma das minhas prisões de que me quero libertar. Por isso te falo nesta ronda dentro de mim, corrida contra prisões, exorcismos contra os meus demónios, esperanças a favor dos meus sonhos, nostalgia dos meus passos perdidos ao longo do tempo.



Sanzalando

As faces da liberdade


20 de maio de 2007

Monólogo irrealista

Caminho neste caminhar sem pressas, trazendo-te arrastada no teu silêncio sombrio. Os teus apurados ouvidos me escutam como que a beber o ritmo das palavras que te falo com a música suave do zulmarinho se espraiando na areia que pisamos.
Tu sabes, melhor que ninguém, que onde estou não me encontro, que os meus olhos não me vêem, que não sei nem onde é o norte, que vivo afogado de sonhos que se misturam em realidades numa mescla sem fio condutor.
Se se desfiasse este novelo intricado de sonhos e realidades, de promessas e acções, quantos metros teria o fio? Tu sabes? Eu não!
Quantos passos já demos neste final de zulmarinho com os olhos a não verem o que se passa lá do outro lado da linha recta que é curva, onde as lágrimas atrapalham as palavras que falo como se fosse um desastre.
Pudesse eu desaparecer deste planeta, falar com extraterrestres e lhes explicar a minha ciência com as palavras certas, eu sei eles iam encontrar a parcela errada, dar o corrector e solucionava a canalização das lágrimas para outras energias, outros efeitos.
Pudesse eu ter as soluções sem ter de morrer-me, sem ter de asfixiar-me nos sonhos, para eu ter-te como te quero… para eu ter a força de continuar a lutar para te ter…
Não, eu não quero deixar de amá-la, não quero tê-la assim de mão beijada, não quero perder as cicatrizes. Mas também não é preciso ter assim tanta luta, tanta lágrima, tanta ferida, tanta dor.
Sombra, faz-me só um sinal a dizer que me entendes.
Olha, começou a chover e eu quase não te vejo.

Sanzalando

As faces da liberdade