recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de julho de 2007

Uma ponte

Sento-me em palavras simples num caminhar ligeiro. Às vezes silêncios.
Está calor. Bebo uma birra estupidamente gelada e te falo. Me embalo no marulhar do zulmarinho assim ele fosse musica que me vem desde o inicio dele, assim ele me trás as vozes que lhe tenho na memória e nas saudades do coração
Na verdade construí uma ponte para que as minhas palavras te possam chegar sem ruídos nem interferências. Não precisa ser uma ponte larga nem grande, porque o carinho não quer distância e os sussurros não se perdem nos silêncios. É só mesmo uma ponte que nos una.
É uma ponte flexível para que se possa moldar nos gestos de um beijo, no afago duma carícia, no olhar cúmplice de um gostar..
É verdade, construí uma ponte que vai desde minha boca até a ti, onde quer que tu me ouças.

Sanzalando

"Medusas" de Angola



Sanzalando

30 de julho de 2007

O meu silêncio

Me sento na beira do zulmarinho para ouvir o meu silêncio através das palavras que te digo. Se lhe olho bem, lhe vejo que tem cor de violeta com rasgos de azul celeste. Se lhe toco, lhe sinto o aveludado macio do sonho da noite passada de outras luas.
O meu silêncio não é escuro porque lhe ilumina a saudade de ti e ele não tem o significado de saudade cinzenta ou negra porque onde quer que eu esteja tu estás comigo.
Tu fazes parte do meu silêncio assim como das minhas palavras.


Sanzalando

"Medusas" de Angola

28 de julho de 2007

Pesadelo


Me acordo sobressaltado e transpirado. Um sonho angustiante sonhei enquanto dormia sob o efeito do marulhar das ondas deste zulmarinho a se espraiar na areia, quase me tocando nos pés como a querer que eu acordasse.
Neste sonho eu ouvia nitidamente a sua voz como que a pedir auxílio, essa voz que se ouve assim na alma e que os ouvidos não sabem nem como definir se rouca e quente, se doce e meiga. Mas eu ouvi num nítido que até parecia estava dentro do meu ouvido para que não houvesse nem uma dúvida.
No tempo necessário para passar a fronteira entre o mundo do sonho e a realidade, olhei e lhe vi no zulmarinho tons que nem pareciam era ele aqui no seu final.
Transpirei mais.
Acho mesmo foi pesadelo extramatrimonial o que eu tive.


Sanzalando

"Medusas" de Angola



27 de julho de 2007

Um beijo

Me sento por aqui e me olho num interior de me ver em todos os cantos e perfis.

Eu sei te vais ficar que nem aborrecida comigo mas eu mesmo assim te vou dizer que amigo não é que nem planta que precisa de ser regada, mas lhe faz falta, que nem de raramente em raramente, uma carícia, um mimo, uma lembrança. Eu sei que não te tenho regado, que até parece eu esqueci e coisa e tal, mas na verdade e num resumo sumário te digo que não é nem de perto coisa de esquecimento.

Nas minhas palavras que te dirijo quase num dia a dia de toda a hora, eu te entrego um mimo, uma rosa sem os espinhos, mesmo que tu não lhas vejas.

Eu sei que te pareço uma nave lunática pousada num canto dentro de mim. Mas vamos ficar só mesmo no pareço porque a realidade é que nem mais que outra.

Olha só, mesmo com olhos de ouvir, se eu não te aparecer não quer dizer que eu esqueci, que morri no mundo e me vivo em mim. É mesmo só mesmo um jeito de estar. O teu retrato, o teu perfume, o teu calor, tu, estás mesmo à frente dos meus olhos e lhe vejo numa constância que se eu lhos fechar, eu lhe continuo a ver.

Te beijo com carinho!



Sanzalando

Porque hoje ainda não é sábado!


Sanzalando

26 de julho de 2007

Mas há sempre outras estações

Me sento por aí numa mesa de desejos e vou vertendo umas palavras ao deus dará. Umas são levadas pelo vento, outras te entram no ouvido e outras tantas são caladas na timidez do silêncio ensurdecedor.
Ouço o marulhar do zulmarinho, sinto os salpicos de sabor a lágrima, me embalo na sonolência do vai e vem das ondas.
Me sento aqui como se estivesse ali, porém o vazio de dentro permanece ocamente vazio.
Eu sei que aqui sentado te possa parecer o rei à espera de ser servido assim numa bandeja de prata nas iguarias do desejo. Mas é mesmo só um parecer, ilusão de óptica.
Eu aqui sentado caminho nas palavras, num vai e vem interminável de afogamento de dores, labirinto de emoções que transporto das acções.
Me sento num verão de desejos, inverno de realizações.
Mas há sempre outras estações!

Sanzalando

"Medusas"de Angola

25 de julho de 2007

Carta à Lua

Nestas folhas de mar te escrevo esta carta que eu sei vais ler e lhe vais usar.
Lua, tu que és testemunha do meu amor diz-lhe só que eu preciso dela ao meu lado, em todo o lado. Diz-lhe por favor que me perdoe se alguma vez eu lhe errei, porque eu sou humano e cometo erros.
Porque ela me põe tantos travões e me causa tanta dor, se eu lhe trago dentro do meu coração em cada segundo do meu respirar?
Lua, diz-lhe se faz favor, que as minhas noites são noites destreladas, sem brilhos, noites escuras sem a luz dela.
Lua, diz-lhe ainda que me custa aguentar esta agonia, esta ausência, estas feridas que não cicatrizam e me matam num devagar de dor surda.
Lua, diz-lhe com a tua luz de poema, que sem ela eu sou um nada embrutecido de forma.
Lua fala-lhe de mim porque eu já vi que ela a mim não dá nem ouvidos quanto mais coração.


Sanzalando

"Medusas" de Angola


24 de julho de 2007

Sorte

Me sento por aqui ou caminho por ali. Interessa mesmo é que eu esteja comigo. Pode até eu ser num pensamento, num gesto, num perfume, num sabor, eu estou comigo e logo isso quer dizer que eu estou com ela. Desconsegues perceber?

Acho eu já te falei que a porta de entrada da alma está no olhar. É por isso que eu lhe preciso ver assim num de vez, enquanto não for num definitivamente para sempre. Assim ela me entra na alma enquanto eu lhe olho, porque lhe abro a porta da alma. Ela é o meu estado de alma.

Se tu encontrares por aí a minha alma faz-lhe as perguntas que quiseres, joga jogos com ela, lhe acaricia, lhe ouve os suspiros ou os gritos, lhe ouve o gargalhar e lhe vê nos seus olhos o brilho.

Se encontrares por aí a minha alma, é porque tiveste sorte e podes sonhar à vontade. Igual que nem eu.



Sanzalando

"Medusas" de Angola


23 de julho de 2007

Vento

Me sento algures por aqui, na mota da vida e de cabelos ao vento vou caminhando por palavras e tropeções. Se assim não fosse nem tinha piada fazer as caminhadas circulares. A gente nasce deitado, viveria deitado à espera de ir deitado até na escuridão vazia da outra vida que não se vive. Assim, na mota da vida, a gente vai apanhando com o vento a refrescar a mente. Vê montes e vales, horizontes verticais, cambalhotas e acrobacias, altos e baixos, tangas de fio dental, hot pants, sobretudos e sobre nadas, se esquecendo que a vista vai rareando e que as nódoas negras se vão acumular num canto qualquer da memória para num mais tarde recordar em forma de estória para os netos e afins.
Hoje, não esperando nenhuma queda, caminho na minha mota sobre palavras e nódoas negras amarelecidas.
Já fui uma milésima de segundo, já desacreditei-me nos olhos, já balbuciei palavras de silencio, agora é tempo de voar contra o vento e sorrir num esticar de pele enrugada da velocidade branqueadora de cabelos.
Hoje só te vou dizer mesmo uma só palavra: vento.

Sanzalando

"Medusas" de Angola

22 de julho de 2007

Ao Domingo me confesso, ou não

Passeando dentro de mim encontrei uma frase que dizia, mais coisa menos coisa, que devo continuar a falar assim para mim, porque quando começar a falar para os outros, deixarei de ser eu mesmo.
Me pareceu uma frase feita e sem graça. Assim uma coisa para me agradar a mim mesmo. Na verdade eu não a entendo de outra maneira. Porque alguém falaria da sua vida, da vida que lhe rodeia ou contaria estórias assim num público areal de final de zulmarinho? É sem dúvida para que os outros ouçam. E quantos mais melhor.
É! Afinal de contas eu vou falando e vou vendo quem é que está a ouvir ou pelo menos está ali em pé com cara de quem ouve.
Toda esta actividade de vaidade inconfessável é um exercício são.
Por isso me passeio e te falo as coisas da alma, delírios e pesadelos. Rasgo as palavras ao vento porque gosto, fantasio ideias, sonhos e estórias porque lhes quero dar vida e lhes transmitir calor. Desejo que mas ouçam. Em resumo, falo para mim e para os outros mas me exijo gostar-me.
Na verdade não falo para os outros, para os agradar e nem por ser vaidoso. Falo sem desvirtuar o meu caminho que percorro com palavras, luz e sombras, lágrimas e sorrisos, carícias e amuos.

Sanzalando

"Medusas" de Angola




21 de julho de 2007

Construção

Me sento aqui. Bebo uma birra estupidamente gelada e reflito.
Verdade que às vezes me olho por dentro e dou de contas a falar-me.
Não me vejo no zulmarinho que hoje está encrespado vais ver é da brisa forte que lhe vem de leste ou doutro canto cardinal qualquer. Por isso ele não me serve de espelho nem me pode mostrar o reflexo do que lhe penso e ficciono.
Por isso mesmo, protegido no meu canto reflito ao som duma sinfonia marítima.
Palavra depois de palavra e crio um sonho.
Sonho atrás de sonho e construo uma ilusão.
Ilusão depois de ilusão, formo uma vida.
De vida em vida e o mesmo dono.


Sanzalando

"Medusas" de Angola



20 de julho de 2007

Ser imortal

Me sento por aqui e vou caminhando nas palavras doces, amargas, choradas, gargalhadas, azedas, sorridas, lagrimadas. São palavras que são levadas pela brisa que sopra desde lá do início do zulmarinho e trazidas na minha boca através da alma. Não é como na boca escancarada no dentista que lhas aspira de forma mecânica que nem deixa de ser ensurdecedor de não lhas poder ouvir. São mesmo palavras ditas em falas que sentem, voz real de ficção
Na verdade eu te digo que não gostava de ser imortal. Nenhuma força do universo que me desse a imortalidade me poderia mudar a mente. Já imaginaste olhar-me no espelho de água do zulmarinho manso que nem lago e ver o corpo se mirrar e a nada mudar lá dentro? Eu não consegui aguentar ver os meus pensamentos, meus gostos, caprichos e desejos continuarem os mesmos, adolescentemente irresponsáveis. Era peso pesado ver o tempo detido assim no dentro de mim, como se tudo fosse fresco e recente e me olhar e não me reconhecer.
Mas isso nem que era o pior. O pior mais do mesmo era ver as mortes e a dor que seriam os meus actos sociais de aparecer em funerais. E só de pensar no dia de Centenário em cada cem anos. Ser imortal seria ser triste.
Acho mesmo é melhor continuar aqui vagueando palavras e odiando a saudade que carrego voluntariamente.

Sanzalando

Porque hoje ainda não é sábado!



19 de julho de 2007

Interludio

Bebo a minha cerveja, olho a linha recta que é curva e penso nas palavras que te queria dizer mas desconsigo ter uma lógica. Eu me sinto no intermédio, o que não é o mesmo que dizer que me encontro na metade. Simplesmente digo que cheguei a um ponto em que as coisas chegam de uma maneira que o que se segue são resoluções inevitáveis.
É, as situações da vida se falam como uma novela, não uma novela cor de rosa como as que se costuma ler com final feliz, porque o final feliz não é aquele que se espera.
Melhor mesmo é continuar a beber a minha birra estupidamente gelada e divagar os olhos nesse areal e ver se existe algum biquini azul perdido sem corpo.

Sanzalando