recomeça o futuro sem esquecer o passado

22 de novembro de 2007

renascer

Caminho em passos imaginários enterrando os pés na duna para me segurar da força do vento. Me senti como se estivesse suspenso no vazio. Ergo as mãos em forma de garra e tento segurar-me às ondas do vento. Sinto ondular-me entre o céu e a terra. Grito em desespero separando-me do corpo, peço clemência e como resposta ouço o eco. Suplico carícias e ofereço a minha boca para um beijo. Sinto-me um pássaro ferido. Entro em turbilhão e caminho a passos largos para as fronteiras do abismo.
Dum lugar que não adivinho me surge a calma, a quietude e a paz de espírito. Abro os olhos e pouso o olhar no horizonte promissor bordado a azul celeste. O sol rompe por inexistentes nuvens, oferecendo-me um sorriso de amanhecer e secando-me a tristeza que se solta dos meus olhos ao mesmo tempo que apagava a amargura dos meus lábios.
Olho para trás e vejo ao longe os sinais da tempestade. Catalogo-os como o meu desértico naufrágio na estante das recordações. Deponho um ramo de rosas e faço um discurso de silêncios.
Medito.



Sanzalando

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Nebulosa Olho de Gato

21 de novembro de 2007

28 - Estórias no Sofá – Sr.Vento

O Sol e a Brisa tinham sido muito amigos quando esta era pequena. A Brisa gostava do quente do Sol quando este a acariciava e da cor amarelada da sua pele quando este se dispunha acordá-la anunciando o começo dum novo dia. Mas também gostava de brincar às escondidas com o Sol tentando descobri-lo por entre as nuvens através dos pequenos raios que dele se escapavam na impossibilidade de estarem quietos.
Durante anos foram amigos inseparáveis e a Brisa tornava-se mais forte quando as nuvens se zangavam umas com as outras, se escureciam e discutiam com grande estrondo e muitas lágrimas o amor pelo Sol. Ela tentando por um fim à briga se empapava dessas lágrimas mas depois se estendia ao Sol recebendo as suas secas carícias.
À noite, quando o Sol se retirava para o merecido descanso, deixava a sua amiga Lua a zelar pelos sonhos, pelo que a Brisa nunca teve medo da escuridão e se sentia segura a receber aquela ténue luz cinzenta.
Um dia, assim num sem dar conta, a Brisa se tornou adulta, começou a fazer novos amigos, conheceu alguém muito especial e mudou de casa. Sempre muito ocupada foi-se desligando dos seus tempos de menina.
Hoje, quer faça Sol, nuvens ou com a luz do luar, ela se mostra mudada e sopra forte, travestindo-se de Sr. Vento.



Sanzalando

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20 de novembro de 2007

de quem é a saudade

Aqui vou eu caminhando por caminhos de fantasia, de faz de conta, numa rota de enganar-me a saudade e afogar a nostalgia.
Afinal de contas quem é mesmo a dona da minha saudade? Quem foi que lhe deixou na porta da minha alma? De certeza não veio na mão do vento e entrou por uma janela entreaberta de mim inundando-me de aromas nostálgicos.
Mas quem é mesmo a dona da minha saudade? Porque não respondes à minha pergunta? Porque deixas o meu coração arrastar-se pelas calçadas da tristeza? Esperas, cobardemente, que a saudade murche e me deixe a sensibilidade nua e gelada? Esperas que ao ver uma rosa de porcelana meus olhos se inundem de lágrimas? Porquê este duelo sem sedativos nem escalas de gravidade? Esperas que eu grite aos quatro ventos que me largues e me deixes a mente intacta?
Não, prefiro levar de saudades a pele impregnada e o coração a arrastar-se pelas calçadas da tristeza!


Sanzalando

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19 de novembro de 2007

Novo caminho

Aqui estou sentado a olhar o horizonte com um olhar que nada vê. Nestas ruas engarrafadas de sonhos e pensamentos existe uma neblina que não me deixa ver para além da curva, para além de mim.
Terá alguma importância que eu mude?
Já sei, esta pergunta é incorrecta porque eu sou o resto da humanidade.
Mudar um deserto e convertê-lo num lugar habitável pode ser um objectivo utópico, porém para algumas poucas pessoas o deserto é a sua vida, o seu lugar.
Olhando uma foto dum deserto posso ver a areia sedenta e a beleza das suas curvas suaves, sentir como se fosse a sua pele recoberta de óleos aromáticos, sensual.
Mudar-me é quase o mesmo. Utópico! É abandonar-me, descobrir espaço, sem movimentos bruscos, é sonhar, é olhar e confundir o meu olhar com a música suave da alma, é recuperar a vitalidade e energia sem poder parar de dançar ao ritmo da vida.
È neste momento que dou conta que iniciei um novo caminho.



Sanzalando

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18 de novembro de 2007

segredo-me

Me sento aqui e ouço o bater abafado do coração a segredar-me confidências que a distância do tempo impôs na dor de promessas esquecidas.
Hoje o sentido da minha vida são gritos de nostalgia que se despregam em cada centímetro da minha pele, recordações de sonhos estranhos sonhados na noite da vida. As minhas palavras são cânticos incompletos duma sinfonia abstracta.
Se algum dia te atreveres a cruzar com a minha alma, encontrarás oceanos intermináveis de tristeza intercalados com caminhos de flores de consciência angustiada onde as ternuras se convertem em culpas e as alegrias se transformam em pecados numa espiral de inacabadas mudanças.
Hoje me sento aqui a segredar-me.

Sanzalando

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17 de novembro de 2007

quando se trata de ti

Aqui vou caminhado por ruas e vielas de pensamento ao sabor da claridade da imaginação, abrigado dos ventos da tristeza e das chuvas da depressão. Aqui vou eu caminhando disfarçado, umas vezes de nostalgia outras de insensível existência de ser.
Aqui vou eu caminhando pensando em ti e em dedicar-te alguma coisa. Mas que dedicar-te-ei?
Quando se trata de ti não é falar umas quantas palavras, escrever um livro, caminhar sobre estrelas, ultrapassar oceanos e percorrer milhas de lágrimas, não é construir um mundo novo, não é lutar-te cada dia como me mereces, não é salvar minha alma de pecador que eu me sinto satisfeito.
Quando se trata de ti não é importante salvar a minha alma de ti, maldita bênção que me atingiste o coração, nem saber que não te posso abraçar neste momento.
Quando se trata de ti é-me suficiente sentir que te amo.


Sanzalando

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16 de novembro de 2007

hoje

Me sento por aqui e penso que eu gostaria de estar a cumprir uma promessa que fiz para mim mesmo. Hoje queria ter reunido todas as minhas forças e estar a sorrir, sentado naquele muro que afinal de contas, se tivesse olhos, me tinha visto crescer. Hoje queria estar engalanado de corres garridas e gargalhadas sonoras a usufruir do que me gastou tantos anos a amadurecer.
Gostaria mas não estou e portanto um ponto final provisório no assunto.
Assim posto me resta ficar aqui sentado e fazer uma serenata mental, pegar na viola virtual e com voz romântica cantar-te um filme que imaginei.
Hoje aqui sentado me resta recordar o livro de quem só li umas 20 páginas quando tinha para aí uns 15 anos e que faz tempo o queria ter terminado mas já nem me recordo do título nem do autor.
Hoje, aqui sentado já nem sei bem se o filme foi por mim imaginado ou existe mesmo ou se o livro existe ou foi por mim imaginado.
Hoje aqui sentado me apetece perguntar por ti mas não ouso fazê-lo porque não sei se tu existes ou se existes só mesmo para mim.
Olha, me sento por aqui e espero que a chuva dos teus olhos pare e te animes, até que sejas capaz de sorrir.

Sanzalando

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Sanzalando

15 de novembro de 2007

páginas em branco

Me transporto por aqui e por ali, carregado de sonolência que me acaricia as pálpebras e me afoga o apetite de ler. Fecho os olhos como para ver se estou acordado, ou não, já que não consigo ter uma certeza como que absoluta. Na verdade quando os quis abrir novamente eles não me obedeceram.
Agora penso que estava a sonhar um sonho em letra especial e desenhos que mostravam uma vida já vivida, como se fosse um livro aos quadradinhos. Comecei a ler, de início por curiosidade, depois com ansiedade e avidez, com lágrimas e com sorrisos, com paixão e com tristeza, por sonhos perdidos e por ilusões. As palavras e desenhos apareciam impressos ao mesmo tempo que eu olhava para uma folha em branco como se eu estivesse a reviver o reflexo da minha própria estória.
Eu podia sentir o perfume da terra molhada das primeiras chuvas de verão, eu podia sentir o calor de cada beijo, o sentimento de cada abraço. Leio sem pensar, vivendo cada palavra e desenho, até que dou por mim a ler algo que não identifico, alguma coisa que não me pertence, momentos que eu não tinha vivido.
Encontrei vários desses quadros, tristemente muitos. Entrei em matutação e conclui que eles representavam pedaços em branco da minha vida, momentos que não havia vida, eram assim como espaço publicitário entre vidas.
Tentei apagar mas isso não me estava atribuído, eu só os podia ler. Não podia apagar ou corrigir. Deixei cair uma ou outra lágrima sobre as páginas deste livro que eu lia de olhos fechados e sucedeu então que iam aparecendo muitas páginas em branco.
Sanzalando

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14 de novembro de 2007

Coração aos círculos

Cá vou eu caminhando por ruas de fantasia. Um dia eles estão engalanadas como se fossem dias de festa, outras estão cinzentas como se esperassem o carro fúnebre. Eu lá vou calcorreando esses empedrados ao sabor dos dias, das horas, respirando fragrâncias como se elas fossem nutrientes da vida.
Mas o que eu sei mesmo é que um coração desenhado na areia da praia é um símbolo do amor. Eterno, porque nenhuma onda é capaz de apagar o sentimento do seu desenhador. Entoamos palavras, pensamentos, sonhos, momentos, olhares, sorrisos e parte da nossa paisagem interior ficam ali na areia desenhados. Esta obra não necessita assinatura, nem protecção à cópia, como em tantas ocasiões está submetida a nossa vida, por pessoas sem escrúpulos que tentam manchar o que nos pertence ou por quem se esquece de assumir a autoria talvez porque identificados noutra vida escura e fria.
Mas nesta caminhada fui aprendendo que o perímetro do coração desenhado não é um lugar fechado onde cabe apenas o que já lá está dentro e que não é necessário rompê-lo para se sair dele. Descobri que existem corações abertos em que o estar dentro ou fora depende unicamente da disposição.


Sanzalando

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13 de novembro de 2007

Pensar sem pensar

Sentado no muro desta casa abandonada, meio defeito pelo tempo, meio ocupado pelo capim que tudo invade, caminho por pensamentos já que as pernas estão cansadas para percorrer outros caminhos, que mais não são que íngremes subidas.
A minha cabeça é assim como que nem um poço sem fundo em que é acumulado uma montanha de pensamentos em que a maioria mais não é que um gastar desnecessário de energia que me levam a lado nenhum, assim como que os resíduos tóxicos de um mar interior, que sabemos ser nocivos mas que nos custa afastar deles.
Acho está na hora de tomar consciência do que penso, de como construo meus sonhos, assim como que fazer a comparação do que penso com o grau de satisfação da minha vida, de modo a não me surpreender.
Bem, na verdade, caminhar sem um propósito, pensar sem pensar, pode afastar do destino, mesmo que ainda não saibamos qual que é ele, mas ao menos desfrutamos da paisagem no trajecto.



Sanzalando

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12 de novembro de 2007

Nas ruas da fantasia

Caminho por ruas de fantasia imaginado ouvir o marulhar nas vozes caladas dos que se cruzam comigo em passo apressado como quem vai para lado nenhum com horas perdidas num relógio sem pilhas.
Caminho e recordo-me que sonhei contigo. Recordo-me ou estou a sonhar agora, pouca diferença faz.
Estamos sós e os meus dedos exploram as tuas linhas, sentem a tua textura, os meus olhos regalam de ver a tua beleza e o meu nariz inspira o teu perfume. Misturamo-nos um no outro sem encontrar o princípio final, sem perder o desejo de o encontrar. Sinto-me ser beijado pela tua alma enquanto sou atraído pelo teu corpo. A minha pele é a tua pele e vice-versa.
Escuto a minha respiração ofegante numa ânsia que me invade. Aperto-te contra mim num medo de te perder.
Sussurro-te promessas feitas, canto-te esperanças enquanto o meu corpo se eleva.
Se isto é um sonho eu não quero acordar. Quero continuar este caminho por ruas de fantasia.
Este momento parece eterno, o nosso corpo transformado num só. Te abraço mais e em silêncio enquanto deixo este fogo arder-me.
Desperto-me transpirado e pouco a pouco vou saindo do meu sonho mas continuo a sentir que os teus olhos estão a olhar para mim.

Sanzalando

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11 de novembro de 2007

Aqui sentado festejo

Me sento aqui neste muro desta casa velha e abandonada e caminho por pensamentos de festa. Faz hoje anos que eu estava lá na festa rodeado de amigos, vertendo umas e outras, trocando palavras e dizeres heróicos.
Hoje, nesta luta de palavras que mais não são que orações de ervas daninhas crescendo sobre o sal do silêncio, vivo de recordações nas poucas letras que são olhadas como carícias. Talvez porque as poucas palavras nos comovem a alma e nos cicatrizam as feridas num orgasmo de tímido sorriso.
Aqui sentado, embrulhado em solidão, recordo os filmes da vida como um lago salgado de sentimentos, uma mescla de algazarra festiva e dor de nostalgia.
Aqui sentado atiro palavras transformadas em brisa marítima sob o sol escaldante de um verão que se inicia no filme das recordações.
Aqui sentado festejo, à minha maneira.

Sanzalando

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