recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de março de 2012

Chove na esquina dos Fonsecas

Tá chover parece o céu vai cair não tarda nada. Estou na esquina dos Fonsecas e tem aqui lago que vai dar para andar de barco. Carros quando estão a passar parecem mesmo barcos. E ainda parecem fazem de propósito para me molhar. 
Mas é agora que eu melhor sinto o teu aroma, imagino a tua suavidade e revejo a tua beleza. 
Sei que cada esquina tem um perfume diferente, depende mesmo só de quem cheira. Mas aqui, não sei se é das flores que estão a separar a estrada por entre o gradeado de arame feito em meios arcos, se é das árvores grandes que começam e acabam esta pequena avenida. Eu aqui sinto o perfume que gosto de sentir. Eu sei que não é o mesmo perfume que adoro na Senhora do Monte quando vou lá no planalto. Mas este é o que eu tenho mais à mão, que me atrai cada vez mais a ti. 
Chove a cântaros, como se eu alguma vez tivesse visto algum aqui na areia do meu deserto de alma, e parece que tu te afastas cada vez mais de mim embora eu me enrosque cada vez mais no mimmesmo do teu perfume chamado saudade. 
Foi aqui, nesta esquina que me encharco, que eu prometi que ia olhar por ti toda a minha eternidade e foi aqui, anos mais tarde, num futuro que já passou, que chorei por não ter conseguido cumprir.
Hoje chove e toda a água que cai sobre mim é pouca para me lavar os remorsos.
Chove e eu sinto o teu perfume desta esquina como se fosse a minha nostalgia a abraçar-me, o teu carinho ao adormecer-me, como se o mundo parasse e eu não morresse de te ver cada vez mais longe do mimmesmo que escudei.
Chove na esquina dos Fonsecas e eu grito no meu silêncio, encharcado, para que não me abandones como eu te abandonei num dia que esqueci.



Sanzalando

Tira 23

Sanzalando

26 de março de 2012

duvidamente

Eis-me aqui passeando onde era o velho campo de futebol. Atrás de mim foi o matador. As bancadas ainda aqui estão, o plano semi marcado no chão ainda aqui está. As casas do Caminho de Ferro, carregadas de árvores e trepadeiras ainda aqui estão. A estrada por asfaltar ainda aqui está. Eu aqui, olhando o pelado que me parece enorme me deixo vagabundear por imagens que não sei se sonhei, se alguma vez as vi, gritando golo ou batendo palmas.
Por aqui esperando me entender, lembrando promessas que não sei se fiz, deixo os meus olhos apaixonados fazerem filmes. 
Grande Defesa do Travassos. Ou foi o Leopoldo. Não, acho foi o Bitacaia. De certeza foi o Capela, o Rui Monteiro da Costa ou teria sido o Marcelino do Lubango? Me perdi nestes filmes ainda a preto e branco e com tantos cortes deve ter sido para esquecer momentos. Dizem-me que o Benfica perdeu e o meu pai não vai sair de casa porque lhe vão dar músicas dele perder a calma. 
Faço um intervalo para afastar a dor da saudade que me cega e me cansa.
Sento-me no que resta da pequena bancada que aqui perdida parece um monumento ao abandono.
A cabeça cai-me sobre os joelhos, apoiada pelos queixos e os olhos disparam para tão longe que a grande árvore me parece até pequena. 
Me cansei de acreditar cegamente na esperança. Mas um dia a visão vai voltar e eu não terei outras opções se não acreditar que os antigamentes existem para a gente lhes melhorar no presentemente.
Não sou segunda opção, não tenho outra opção e resisto como se fosse uma antiguidade para não me esquecer do passado.
Sentado nas bancadas do velho campo de futebol, de costas para o matador abandonado, sentido o perfume das trepadeiras e árvores das casas do caminho de ferro decido viver feliz sonhando sempre com o perfume que não sei se alguma vez dei valor.



Sanzalando

24 de março de 2012

passeio na praia feito miragem

Passeio na praia, qual miragem de mim. Me imagino de músculos desenhados em perfeição, postura correta esquecendo a cifose que parece me faz arrastar o nariz no chão, e passeio na praia galando o mês de Março. Eu sei que não me olham, preocupadas estão em que o vermelhão passa a bronze de moda e os ares do planalto se transformem num ar de mar diário dum ano inteiro. Eu, a minha praia e os meus sonhos de galã.
Sei, eu sei que tenho falado muito em ti, pensado exageradamente em ti e não te digo mas na verdade quase sonho contigo dia a dia. O que vale é que não te fiz juras de amor, não prometi que ia conhecer-te em cada recanto, em cada pedra duma calçada que calada me suporta constantemente chorando saudade. 
Agora tenho pensado na nossa despedida que não chegou a haver porque dum momento para outro resolvi partir sem ter tempo até de pensar. Chorei? Não me lembro! Choro hoje por todo este tempo. Pensei morrer quando jurei te voltar a ver. Vi-te e sorri como se tivesse acabado de sair de ti uns segundos antes. Com o olhar percorri todas as tuas curvas, saboreei cada recanto. Não te toquei num tocar sensual. Notei que me olhavam como um estranho. Em silêncio chorei escondido e prometi voltar um dia outra vez.
Aguardo essa hora, percorrendo a praia com a miragem de ser um escultural idoso que foi adolescente nos teus braços, nas tuas curvas, no teu calor.
A minha felicidade não depende de ninguém para além de mim e dos meus sonhos. E se calhar das minhas memórias. E talvez das tão boas recordações que me recordas em cada fotografia que te tirei.
Músculos desenhados passeiam-me à beira mar, olhando-te de soslaio.


Sanzalando

Tira 18

Sanzalando

23 de março de 2012

Reflexões facebookianas (21)

A minha vida resume-se a duas palavras: ela continua. JCCarranca reflectindo pela última vez

Uma coisa é certa, ficar me sentindo miserável não me tornará mais alegre. JCCarranca reflectindo enquanto pensa em ir beber um copo com amigos 

Quando a saudade me aperta, tomo uma boa dose de coragem e aprendo a suportar, afinal, ela não vai passar. JCCarranca reflectindo enquanto verifica as parcelas duma soma

Porque se gastam os segundos se a vida corre tão rápida? JCCarranca reflectindo enquanto espera que o telemóvel faça uma ligação

Seguir em frente pode ser doloroso mas é fundamental. JCCarranca reflectindo enquanto não decide o que faz esta tarde

Tenho momentos que não sei se ponho virgula, outros se uso ou não reticências, pedaços com ponto final e outros tenho com necessidade de virar a página. JCCarranca reflectindo sobre pedaços de mim

A simplicidade me faz feliz, o complicado me aborrece. JCCarranca reflectindo enquanto decide como se vai pentear de hoje em diante


Sanzalando

22 de março de 2012

a 30ª vez que me conto

Hoje brinco equilibrado na fonte luminosa. As gazelas parece me olham de lado mas eu vou aqui no parapeito brincado faz de conta jogo à macaca. Se cair me posso molhar ou ficar vermelho da terra vermelha com que lhe fizeram de passeio. Se tem alguém na janela do tribunal a me mirar vai dizer ele endoidou de vez. Mas a verdade é que viver me consome, me esgota e me custa caro e por isso de vez em quando eu tenho que me brincar. 
Parece tudo me agride, as pessoas que esperam eu lhes fale best selleres, as dúvidas das estórias que eu sonhei e penso são de verdade, as faltas de rigor da geometrida da cidade nova que deixou de ser feita com régua e esquadro e se encheu de elipses que parece querem eclipsar gente anonimamente.
Eu pulo de lage em lage ao pé coxinho parece criança não pára de brincar. Mas eu sei que viver é complicado e exige muito de mim. Saber a que horas o carro vai passar com ela lá dentro no passeio de fim de tarde de todas as tardes, exige muita concentração, se calhar também determinação e por sorte um pouco de sorte também.
A D. Elsa já passeou na varanda mas acho não me olhou porque não disse simpático adeus de quem me conhece desde eu era bebé. Do Grémio ninguém saiu para ver se eu louquei numa loucura de amor em que me divirto na fonte luminosa que fica na curva contracurva do circuito de tantas memórias.
Afinal de contas, sozinho, jogo à macaca sobre as lages do parapeito da fonte luminosa, rugosas, ásperas e abrasivas de esfolar-me vivo se me escorrego num raspar de perna desnuda, me divertindo num não cansar de imagens que escondem crises, filosofias baratas de ideais ofendidos e desejos ardentes.
Aqui, olhando num não mais acabar de avenida lá em baixo, decido que viver dá um trabalho danado, que descrever a minha vida me parece fútil, explosão de egoísmo que nem panela de pressão e que chegado ao 30 da colecção me apetece fazer um ponto de exclamação paragrafo sem travessão e dizer que viver é difícil para caramba e que morrer seria tão poético, porém tão fácil que não daria piada nesta complicada vida de paradoxo nostálgicos duma cidade geométrica em que metade me é família e a outra metade poderia ser se me calhasse a sorte de me apaixonar por estas bandas.
Tudo seria mais simples eu hoje tivesse ido patinar no ringue do parque infantil onde chatearia o Sr Sousa que me conhece de tantas costelas me ter endireitado com ventosas.



Sanzalando

Tira 17

Sanzalando

21 de março de 2012

faz de conta

Faz de conta são 11 duma manhã de sol não quente que me fez ficar sentado na esplanada da Oásis em vez de ir ver as garinas bonitas na praia. Faz mesmo só de conta assim num faz favor de me fazer companhia, que os habituais estão a trabalhar e não me apetece estar aqui sozinho, acordado pelos pensamentos que me povoam a cabeça e me podem estragar o resto dum dia qualquer que eu tenha inventado.
No Turismo não está ninguém. No Avenida não faço odeia porque nunca me habituei a lá ir a não ser no intervalo das matinés de domingo. 
Faz de conta e te senta aqui comigo a dialogar palavras que não dão sono em que juntamos imagens coloridas de tantas ruas, como a das Hortas e a da Fábrica para não esquecer a Avenida do Bonfim. Senta só um bocado se é que tens pressa e me fala do Bairro da Mineira, do Forte de Santa Rita, da Torre do Tombo, Sanzala dos Brancos e do Bairro da Junta Autónoma das Estradas. Me conta só casa a casa quem que fazia o quê. Não me deixes embrenhar num caminho solitário até na Sofrio que não me apetece comer caranguejos das hortas nesta horas de faz de conta são 11 horas.
Te senta aqui e me conta uma estória, inventada ou verdadeira, que me faça recordar uma rua escondida da cidade que passeio em fim de tarde faz de conta são 11 horas duma manhã de sol fraco que não me leva a ir na praia ver as garinas.
Se já me tivessem inventado a televisão eu iria estar esparramado num sofá a fazer um zaping e não estaria a te pedir para fazeres de conta que estás aqui comigo a me contar uma estória.
Preciso manter os meus pensamentos distantes um bocado.
Senta aqui e me conta qualquer coisa do Bairro da Facada, por exemplo.
Tanto te pedi que não me ligaste, como sempre e eu faço de conta são 11 da manhã e me afogo nos pensamentos que queria ver distantes.
Valeu ter comido um pastel de nata e bebido uma coca cola que já me tinham inventado faz muito tempo.

Sanzalando

Tira 16

Sanzalando

20 de março de 2012

A minha rua - Rua dos Pescadores

Hoje deu uma saudade assim sem mais nem porquê e, com ela, veio uma vontade de chorar rios de lágrimas, que nem o Bero ia aguentar tanta água castanha que até ia atirar caniços e outros restos que iam parece subir na subida da SOS. 
Um choro de criança sem colo, de medo, de perdido. Assim uma misto de saudade e vontade enorme de poder calcorrear a rua dos Pesacoadres desde o Bairro da Facada até na subida da Helena Rocha, passando pelos hoteis, Loja das Noivas, Zé Côco, Drogaria do Rosas, escritório dos Cavacos, Aeroclube, casa da Dada, do Reis e do Carriço e até parar na minha casa onde secaria as lágrimas no colo da minha mãe que me ia contar uma estória qualquer sobre o meu pai, depois de eu lhe pedir muito, quase em birra.
A seguir íamos rir de falar assunto que parece é tabu mas a conversa se ia esticar até que eu ia ver uma lágrima correr dos olhos dela e pensar que Festas do Mar teve um dedo dele na sua nascença nos idos anos antes de eu nascer.
De olhos já secos, íamos os dois ficar sentados na cadeira de baloiço da varanda a ver as estrelas e ver quem ia descobrir a primeira estrela cadente e ia ganhar um beijo do outro.
Hoje deu uma saudade porque ontem não tive tempo de lembrar nas letras e palavras que ele poderia ter escrito sobre o pai dele.
Foi na Rua dos Pescadores, 275, que me ensinaram a ter a memória dele e eu comecei a querer imitar o seu talento para um dia poder dizer que choro as lágrimas sentidas dum amor eterno.



Sanzalando

Tira 15

Sanzalando