recomeça o futuro sem esquecer o passado

6 de agosto de 2012

travessia no deserto

Me atiro deserto dentro. Literalmente me apetece fazer a travessia no deserto. Preciso mudar. Melhor, acho tenho mesmo de mudar. Não posso depender assim de pessoas, não preciso acreditar assim nas pessoas. Acho mesmo meu destino é ficar perdido no deserto, deixar de acreditar nas falsas palavras ouvidas e não me encontrar depois de usado. 
Vou mesmo me atravessar no deserto, onde não tenho de virar costas porque não tem quem as veja, onde não tem silêncios para retribuir porque só ele existe, onde não tenho que dar nada em troca porque é deserto e como tal não tem nada.
Me enjoei de mim assim como que é que sou?
Deixei de querer ser como sou. Apenas. Simples. Quero ser simples como o deserto. Cansei das idas e voltas da vida. Faz conta eu sou criança que cansou de brincar com um velho brinquedo apenasmente porque cresceu. Quero mudar para crescer. 
Enfim, quero poder estar sempre a teu lado, mesmo quando tu não vês, mesmo quando me levei a atravessar no deserto.


Sanzalando

5 de agosto de 2012

por aqui

Me sento no muro da casa. Ainda bem que fizeram o muro direito na rua que é a descer. Mas iso é assunto que não me interessa. Importa é que estou sentado a olhar para lado nenhum e a ver quem não passa que a esta hora não é habito passar quem quer que seja. 
Mas eu estou aqui só para me dizer que é bom poder segurar a tua mão, olhar os teus olhos, atirar pedrinhas de brincar, serenatar fingindo serenatas e se tiver oportunidade te pedir que me sorrias. Quem mais ia ficar aqui sentado a ver se tu estás e mentalmente te oferecer uma rosa. Linda por sinal. Quem ia ficar aqui só para te perguntar se queres ajuda para levar o saco em troca dum sorriso?
Afinal de contas estou sentado no muro direito da rua que é a descer só pelo simples prazer de estar a te esperar e ver sorrir numa ligeira troca de olhares.


Sanzalando

TIRA 57

Sanzalando

4 de agosto de 2012

Bicicleta 53

Sanzalando

A minha cidade faz anos

Me viste gatinhar, andar cambaleando e cair em choros sem dor enquanto aprendia a andar. Viste ser criança e adolescente. Viste os meus segredos e conheceste os meus medos. Testemunhaste as minhas alegrias e cúmplice das minhas tristezas.
Passados muitos anos, eu que penso sou o mesmo apesar das muitas mudanças, tentei esquecer, mesmo sabendo impossível, não tenho como deixar de ser assim. Não tem mais forma de viver de dizer sim e fazer não, de adiar e criar sonhos nas palavras que te digo. Não tenho mais forma de viver estas dores e engolir estas lágrimas carregadas de nostalgia e saudade. Sou o mesmo que tenta achar uma maneira de me fixar em ti quando diz que te esqueci.
Hoje fazes festa e eu me digo que dou mais uma chance a mim de apagar culpas, de afastar sentires, de abafar cansativos suspiros de monólogos soliloquiados.
Hoje fazes festa e nessa festa eu não tenho lugar porque te sou irreconhecível, porque te esqueceste de abrir os braços e me gritar quando eu estava distraído nas horas de juventude a fazer as coisas que me foram aparecendo e fazendo feliz num preço alto de pagar.
Me viste triste, grisalho, exausto, torcido de lembranças e sobrevivendo pela metade e te mantiveste calada.
Me viste chorando nos meus rasgos de neo-romantismo desabados em impulsos desequilibrados e te mantiveste serena.
Reconheço meus erros, pequenos e grandes e me redimo perante eles de modo que me curvo sobre ti num beijo de parabéns.


Sanzalando

3 de agosto de 2012

foi assim

Sentado nas arcadas da praia, esquecendo que é cacimbo mas sabendo que não faz vento, me deixo, sentado, sonhar. Não sei se adormeci ou se foi mesmo sonho sonhado acordado.
Foi assim que eu vi que às vezes eu preciso que alguém me abrace forte, me segure na mão e me diga silêncios doces ao ouvido, conte piadas sem graça ou apenasmente me atire um sorriso sem pedir nada em troca.
Foi assim que eu vi que tem altura que eu preciso que alguém me salve da melancolia, das velhas canções e da nostalgia.
Foi assim que eu vi que às vezes eu preciso de alguém que entenda o meu silêncio, antes de mudar de estação de rádio ou de frequência.
Foi assim que eu vi que às vezes eu preciso de alguém que guarde as minhas palavras caladas.
Sentado nas arcadas da praia, esquecendo é cacimbo e a jangada está em terra, que eu vivi um pesadelo que não tem disfarce e que em qualquer altura pode desabar como falésia sobre o mar. 
Foi assim que eu acordei dum sonho que não sei se estava a dormir ou se sonhava acordado que eu percebi que nem sempre se é feliz sozinho.
Foi assim que eu olhei o zulmarinho e me levantei com um sorriso de regresso a casa.

Sanzalando

1 de agosto de 2012

parágrafo sem ponto final

Ponto final parágrafo. Era hoje o dia que eu tinha decretado em papel selado e assinatura reconhecida o fim dum ciclo e começo de outro.
Estava testamentado que eu deserdava tudo aquilo que me fez mal e passava a ser o presente do agora sem ontens nem amanhãs.
Estava com as letras todas escrito que eu ia esquecer e apagar algumas passagens, alguns erros de actos e atitudes, de palavras e silêncios e que ia ser o agora presentemente.
Estava solidamente definido quem eu ia apagar da memória e quem eu queria que fizesse parte dela.
Mas trespensado tantas vezes quantas a exaustão, eu me conclui que isso não é possível porque tem gente que a gente nem sabe como entrou na nossa vida e não tem ponta por onde pegar para deitar fora. Tem momentos que nos doeram que a gente já não lembra mais como foi que aconteceu para poder fazer um format memória dois pontos.
As coisas não funcionam assim como eu tinha decretado no papel selado e assinatura reconhecida.
Tudo acontece simplesmente e as decepções misturadas nas alegrias, num batido de vida, nos faz seguir em frente, cabeça erguida, sorriso aparente porque amanhã vai nascer o sol outra vez, quem sabe.


Sanzalando

30 de julho de 2012

já não era uma vez

Jardim da Praia do Bonfim. Caramachão de bungavílias e bancos de madeira. Eu sentado pensando em mim. Parece impossível mas é verdade, eu tentei me pensar que estava ali sentado contigo como dois velhinhos a conversar do tempo em que tínhamos tempo para estar agarradinhos a falar de futuros.
Era para ser um dia normal, um dia como outros, mas não foi. Foi onde tudo começou a se acabar, onde misturei os meus sentimentos com a minha angustia e a vontade de rever outros futuros mais verdadeiros. Não era madrugada, nem manhã, nem tarde, era um dia sem hora que gastei a te dizer que vou embora. Não pensei muito nem estudei em livros soluções de matemáticas pouco práticas de respostas rápidas. Era para ser um dia normal que acabou com toda a normalidade e ainda hoje não sei porquê.
Já não vejo o casal de velhinhos sentado no banco de madeira do jardim da Avenida da Praia do Bonfim. Já não revejo o sorriso de futuro sonhado nesse passado. Já não sinto o perfume do teu respirar adolescente, normal, suspirando por mim. 
O banco do jardim está vazio esperando por mim na avenida da Praia do Bonfim.
Já não tem mais estória de era uma vez um casal de velhinhos sentados no caramachão a falar de passados.

Sanzalando

Bicicleta 51

Sanzalando

29 de julho de 2012

delírio duma manhã de verão

Olho na tua casa e como sempre não te vejo. 
Olho na minha memória e lá estás nos teus anos vinte. É, ficaste assim, congelada na memória e eu aluguei um espaço de tempo e me escondi lá para te ver melhor e sem outros olhos a me roubar a nitidez. De imaginação te acariciei, te beijei e sorri de felicidade, aquela que me fazia rir na gargalhada pura, aquela que parecia até brilhava no som, aquela que os olhos pareciam eram de sonho. A ti que nunca me deixaste te tocar.
Neste pedaço de tempo que eu aluguei para estar contigo me recordei que houve tempos cegos que tu viste e zangaste-te que ate hoje ainda não perdoaste. Não disseste. Eu apenas sei. Recordei também pedaços de inocência nas escolhas que fizeste, na coragem que escondeste e que num dia, assim sem mais nem menos, desapareceste do meu mundo real.
Olho na tua cara e como sempre não consigo ver o que pensas e eu mantenho o meu corpo sem cortes e a minha alma sem rasgos.
Inteiramente teu até ao dia que não.

Sanzalando

28 de julho de 2012

sabor de sorriso preciso

Mergulho na praia. Pouco importa é inverno, está cacimbo e mãe me mandou vestir casaco. É, ela manda vestir quando ela tem frio.
Mergulho mesmo como que a lhe castigar. O corpo, o meu corpo que leva a alma junto. Esse que pensa é jovem mas sofre de idade, de saudade e de amor de tantas coisas. Lhe dou um banho de mar gelado que ele até se arrepia na alma. Certeza tenho é que hoje não tem pica-pica no mar a me deixar gritar de dor de urticaria. Dói mesmo é de frio.
Mas que lhe faço sofrer, faço. Não me interrompas que eu já te digo mais o porquê.
Hoje comecei mais um dia de linhas direitas. Vou fazer isto, aquilo e mais aquele outro. Só não vou mesmo é pensar, sonhar, recordar, imaginar e fazer esforços de memória para ver só as cisas boas. Não vou no parque infantil, porque a idade já não é a mesma e o tempo passou. Não vou na saída da missa que hoje não é dia e também a idade e as hormonas não são mais as mesmas. Vou fazer só mais linhas perfeitas, caminhar longos caminhos em direcção no futuro, não me desviando do risco invisível que tracei e picotei de interrupções umas tantas vezes. 
Bumba, virou na rotina. 
Pensei-te. Sonhei-te. Recordei-te. Quando é assim, não termina bem. 
Se apagou o sorriso que se afogou na lágrima que não saiu. 
Porque é que eu não consigo seguir a linha recta feita de régua e esquadro, como as ruas simétricas da minha cidade, imagino está de ruas desertas deste cacimbo que cai parece é noite branca.
Mergulho. Me arrepio. Suspiro e me sento na areia à espera duma qualquer reacção que eu não quero é pensar. Apenas se desprendem lágrimas que caiem silenciosamente sem perturbar o marulhar desse mar gelado que me entrelaçou arrepios sem me tocar na alma e não me mandou nenhuma canção de kianda.
Bem, vou ter de esperar amanhã eu consiga seguir a linha recta traçada, fugir desse mar, desta simetria de ruas, destes cruzamentos de pensamentos e sonhos, engolir o sabor amargo da saudade e quem sabe ganhar um sabor doce de sorriso.


Sanzalando

27 de julho de 2012

liceu de memória

Percorri vezes sem conta os compridos corredores do meu Liceu. Também lhe abri janelas para entrar sem me verem, ou sair, fugindo de aulas, sem que o stôr saber. Neste liceu conheci gente marcante, importante e outros inesquecíveis. Hoje me sento frente a uma fotografia e o silêncio me ocupa num empoeirar de emoções. 
Pobre alma de garoto apaixonado numa parva adolescência.
Uma ou outra lágrima rola pela cara caindo mesmo sobre a fotografia como a lhe querer afogar num mar de sal. Um teste à memória escrito em linhas tortas duma infância passada lá no longe num tempo amarrotado e por vezes sepultado na argamassa do esquecimento.
O coração acelera quando se lembra de amores platónicos escondidos num espreitar atrás de cada coluna. Embaraço de voz no soletrar de cada nome que a memória fixou. Tropeço palavras sobre sentimentos, salas, escadas, rostos, vozes, andares e posturas. Vagabundos se me encontram no degrau da porta final do corredor da secretaria onde mais velhos gastam faltas em fumos de cigarro ou outros que fazem sorrir. Eu, tímido, me coloco em bicos de pés para parecer maior e me juntar neste grupo de bons malfeitores, gente boa que nem o tempo nem a memória, alguma vez atraiçoou. 
No pátio, feito de areia e brita, em que as brincadeiras mais violentas davam direito a esfoladela grossa, mercúriócromo para amanhã, se fazem equipes de trouxa lavada, garrafão ou picles.
A fotografia, já ondulada pelas lágrimas, parece criar vida e deita fora o que restou de desilusão como que a dizer-me que não me esqueceu e que o meu eu faz parte desta importante peça de memória escolar.
Limpei os olhos, entrei numa sala de aula e atentamente, pela primeira vez na vida, ouvi uma aula com a maior atenção do mundo


Sanzalando

Bicicleta 50

Sanzalando

25 de julho de 2012

pragas em dia de feira

Em Março se fazem aqui as Festas do Mar. Hoje, dia de inverno cacimbado soprado de vento leste percorro a feira vazia de gente e barracas. Dou comigo a falar sozinho, aqui era o Barbeiro Latinhas e os seus cavalos de corrida que tinha direito a relato parecia era jogo de bola e mais não era que um jogo de dados que tinha de prémio um cabaz de mercearia, ali com direito a rampa era o estúdio da Rádio que diariamente fazia a sua reportagem e tinha direito a pedir uma música e uma vez me pediram os dez mil russos que eu fiquei a saber era o Demis. Ali era o Sétimo Céu, onde nunca me deixaram entrar. Ali a feira dos espelhos, onde eu trinca espinhas virava gordo e a gente ria. 
E neste diálogo interior dou comigo a desviar pensamentos para mais do mesmo. Se pensas que te esqueço é melhor esqueceres tu. Eu vou ouvir as tuas músicas vezes sem conta, olhar as tuas fotografias até elas ficarem mesmo já sem imagem, eu vou dar as tuas formas aos livros que leio e o teu nome vai aparecer de surpresa nas conversas que tenho por ali e por aqui.
Melhor é me esqueceres se é que já não esqueceste de vez a adolescência do nosso amor infantil.
Fica a saber que os beijos que deres, seja a quem for, vão-te saber ao gosto dos meus lábios. Os olhares que trocares com outros olhos verás os meus no caminho. Os nomes que pronunciares serão automaticamente transformados no teu subconsciente no meu nome.
É, aqui onde fazem as Festas do Mar, te prago que vou permanecer nos teus beijos, nas tuas carícias, quer queiras quer não.
Depois, um dia, quando nos juntarmo-nos num eternamente enfim, juro, te farei esquecer todos os pesadelos que sonhaste.


Sanzalando

24 de julho de 2012

falando de Amor

O Amor nos contos de fadas é bonito, enquanto que o Amor da vida real às vezes faz rir e outras faz chorar. 
Que se vai fazer no Amor? Zangar com ele? Lhe esquecer de vez? 
Não tem mais como fazer isso. Ele é doença pegajosa, por vezes doce e outras vezes amarga.
Tem Amor que vale mesmo a pena. Aquele que quando está longe a gente quer ele bem no coração, aquele que apetece correr para dar um abraço, aquele a quem a gente sente vontade de dizer coisas doces. Também àquele que mesmo assim ainda nos faz perder uma lágrima de saudade. 
O Amor é colorido. Não tem sueste nem vento norte e raramente o ar é pouco mais que uma alegre brisa.
O Amor é como um filme que a gente nunca viu. Não sabe como acaba!
Tudo falei sobre o Amor porque me recordei do velho Liceu que tinha sido Escola Comercial e antes fora Escola de Pesca. Era por trás da minha casa. Da casa onde eu me sentava na varanda a ver o cacimbo cair e me tapar a vista do quintalão.
Porque em Julho tem de haver nevoeiro como na minha infância?
Mas me consigo lembrar de jogares o cabelo para o lado depois de deixares de usar franja. De sorrires sorriso forçado por simpatia. De olhares com desdém porque te convém.
Mesmo com o cacimbo eu consigo me lembrar e depois me admiro de ir navegar por palavras que falam de Amor.
Antes de adormecer eu fecho os olhos e penso palavras que te dizem Boa noite!

Sanzalando

23 de julho de 2012

saudade

Dou comigo a caminhar junto do velho campo da bola que hoje é apenas um espaço vazio. Me lembro de ver aqui jogar o Leopoldo, o Travassos, O Bitacaia, o Neto, o Marcelino, o Monteiro da Costa e o Capela, não obrigatoriamente por esta ordem, mas foi assim que falei e é assim que registei. 
Pois é, hoje só me estou a lembrar de guarda redes. Se calhar por pensar que são seres que têm de tomar conta de espaços grandes e que não podem falhar nunca se não o caldo se entorna. Mas eu não posso falar da bola que disso ainda percebo um pouco menos que nada e por isso seria difícil conversar-me. Mas como caminhei por aqui e ainda vejo restos do velho campo marcado com cal, senti saudade de quando tudo era mais simples, sem nunca me entristecer ou olhar para o meu corpo e ver que passou tempo nele. 
Como caminhei por aqui senti saudade da minha imaginação e cegamente me lembrei daqueles que estavam aqui parados a tomar conta desta baliza que ficava mais perto do jardim onde por vezes passeio em devaneios mentais sem ter a triste consciência da realidade que me pesa no corpo. 
Eu sei que parece que eu quero ter o peso da minha inocência juvenil onde era apenasmente feliz.
Mas é só um parece, porque não esqueço os oscilantes momentos inebriantes da minha vida e eu hoje faria coisas diferentes, mas muito iguais a tantas coisas que fiz e às que desejei fazer. Teria arriscado mais. Teria querido mais. Teria feito mais. Mas ainda vou a tempo que o tempo sobra numa sombra mutável de tanto custo a que baptizei de saudade.


Sanzalando

22 de julho de 2012

salada de palavras

Já me perdi de tantas voltas, te tantos retornos e e outros tronos sem dono. As ruas são pequenas, o cacimbo é muito e a vontade é quase nenhuma, por isso me perco nos labirintos do pensamento. Às vezes precisamos de nos perder para aprender. Ora bolas, a dar valor, quanto mais não seja. Não vale a pena chorar, espernear, insultar ou arrancar cabelos e dar voltas ao estômago. Tudo não passa duma aprendizagem.
Vá lá, às vezes sabe bem chorar por um amor de adolescência, por um amor frustrado ou por uma dor qualquer tipo cólica. Não passa, mas alivia. Pelo menos a alma. 
Quanto ao resto, passada a fase de aprendizagem, vem a fase da restauração. Janta-se aqui e ali e o tempo vai apagando e se perdeu o tempo da lamentação. 
Nada é por acaso. Todos julgam.
Perdido, me encontro num irreal mundo em que me esqueci de viver a minha vida para viver a de outros. Chega. Até as decepções amadurecem. Eu também. Cresço e faço as minhas escolhas. Gente adulta de princípios.
Chorei por me ter perdido. Chorei pelo tempo perdido. Chorei pelos amor esquecido.
Depois sorri e olhei-me e confiei em mim para continuar a percorrer os caminhos das minhas ruas, a subir e descer as minhas avenidas, a aguentar os meus sóis e os meus cacimbos.
Perder-me foi uma aprendizagem.
Digo eu, que já volto não tarda!


Sanzalando

21 de julho de 2012

quantas vezes

Quantas vezes percorri as tuas ruas em busca de adjectivos, palavras bonitas de som agradável e ao mesmo tempo comparei a minha vida a um conto de fadas? É mais do que claro que há erros de estória, desencontros de datas, de olhares e de tempos.
Quantas vezes te procurei, sem artifícios nem artefactos, com a ideia de que tudo entre nós ia dar um certo de palavras grandes e afinal tu respondias com nadas e eu tentava sempre? É mais do que claro que os meus olhos eram os únicos que viam.
Quantas vezes pensei que precisava de tempo para poder confiar de novo e que os meus olhos necessitavam de água limpa para verem mais claro mesmo nas noites escuras? É mais do que certo que as palavras meigas nunca foram pronunciadas.
Rua após rua num quadriculado geométrico de estirador desrimado, cantei poemas e chorei dramas em tramas cinematográficas de filmes de meia-noite.
Quantas vezes deitei fora as minhas preferências, as minhas alegrias e as minhas paixões para entrar nos teus sonhos? É mais certo que fiquei de fora porque sonhar nunca o fizeste.
Quantas vezes chorei sem lágrimas as minhas alegrias abafadas porque as tuas palavras nunca me chegaram aos ouvidos? É certo que nem sabes que eu existo como eu.
Rua após rua sou gente confusa, livro sem letras, canção sem música, aventura sem acção.
Quantas vezes deixei a minha marca e esperei? É claro que ainda sentado, numa rua que já foi tua, espero num desespero de páginas em branco à espera de versos declamados em palavras agradáveis de se ouvir como se fossem um conto de fadas em que todos são felizes antes da palavra fim?
Um dia, tantas vezes depois de ter tentado, conseguirei escrever em palavras agradáveis de se ouvir o quem sou e tu me dirás no teu silêncio que já cheguei tarde.



Sanzalando

20 de julho de 2012

impossivel

Sentado no vão da escada, escondido de mim e do mundo, fugindo de prisões, medos e reflexões é-me impossível não contar os segundos, as horas e os dias que não estamos juntos. Não te esqueço. Cada tua curva, cada teu movimento, cada teu olhar mesmo aqueles que eu nunca soube entender. Aquela mania parva que eu tinha de te falar brincando atrapalhou a minha ideia, misturou minhas emoções e os meus amores se confundiram em becos e ruas sem nome.
Passa o tempo e eu concluo que esquecer eu não consigo, habituar é-me impossível e até parece eu me viciei na tua ausência de mim.
Eu sei que te prometi eu logo logo apareço e até hoje foi um adiar, um me enganar e um desejar-me pela metade.
Eu sei que percorri outros mares, procurei outros sabores, olhei outros horizontes, mas tu... és tu e assim sempre o serás para mim.
Sentado no vão da escada sinto-me em vão da vida e aprendi a não te merecer nem me achar o melhor para ti. 
Mas fugindo de prisões e medos eu não me esqueço que te amo como daqui até ao fundo da minha rua, seja onde ela for.



Sanzalando

18 de julho de 2012

medos

Já tive medo de ser o que sou, de tentar o que não consegui. Tive medo da chuva e de me perder no escuro. Já tive medo de noites sem dormir e de dormir e não acordar. Tive medo da vida agitada, do silêncio e das vozes sem dono.
Já tive medo de não saber o que seria a felicidade.Tive medo que ela fosse um presente embrulhado em papel de passado ou um futuro rasgado em tiras de desperdício.
Já tive medo de não ter planos e de não conseguir sonhar.
Já tive medo de não ter palavras, assim como tive muito medo de não existir.
Já tive e ainda tenho medos que não esqueci.


Sanzalando

17 de julho de 2012

tem dias

Tem dias que acho estou aqui como tem outros que acho estou lá. Lá onde tudo são memórias coloridas, sons de tardes ensolaradas e manhãs de cacimbo, onde me lembro que tudo existe como se fosse peça dum jogo, página dum livro que imaginei, sombra de uma árvore que nunca plantei.
Tem dias onde encontro todas as memórias, abraços e lágrimas, quase sempre de alegria. Tem dias que chorei de tanto rir enquanto choro de tanto me lembrar.
Tem dias curtos e outros bem compridos, mais longos que a mais longa rua da minha cidade. Tem dias em que eu apenas vivo para amanhã me recordar.
Tem dias eu gostava outros nem por isso.
São assim os dias


Sanzalando

16 de julho de 2012

me prometi

Me sento no muro da casa da frente e fico a olhar para a minha como quem não vê nada. Estou mesmo é sentado nos pensamentos. Nesta casa já morou muitos amigos meus. Não sei, não lhes entendo porque mudam. Também não sei quem é mesmo o dono verdadeiro dela. Mas pouco importa. Eu sinto saudades dos que me lembro que moraram aqui. Mas hoje estou aqui sentado nos meus pensamentos e não em recordações de quem morou aqui.
Acho já me fiz mil promessas. Tenho a certeza não cumpri nem metade. Eu me digo é agora mas nem uma semana chega para lhe esquecer. Se calhar nem um ano me faz recordar o que me prometi. Mas agora eu digo que é agora e ponto final. Sorri para mim e me esqueci. Olhei na casa do lado. 


Sanzalando