recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de janeiro de 2021

memórias e agora

Apesar do vento frio lá fora está um sol parece é verão. Me mantenho aqui no aconchego, faz conta não me apetece sair. Brilha sol que me encantas e finjo não precisar do calor da lareira. Assim, neste brilhante dia de inverno madito sucintamente porque é domingo, dia de descanso e não estou para grandes vagabundações mentais.
Me imagino nos meus 18 anos feitos faz muito tempo. Recuei no tempo e parei na memória dessa altura. Na altura em que passeavas na rua como que a desfilares encantos e eu, na minha varanda te via e desafiava a imaginação num beijo que nunca dei. Quantas noites perdi nessa altura em sonhos acordados contigo? Te vi distribuir sorrisos, te senti cravares no meu coração um amor profundo e na dança dos dias me ignorares de encantos e desencontros.
As nossas vidas não brilharam como brilha o sol lá fora. As nossas vidas não se aqueceram uma à outra e nunca mais se cruzaram. Fez-se um frio entre nós que nem o frio dum inverno por aqui. Mas sei cada um é feliz no seu lugar e instante.

Sanzalando

30 de janeiro de 2021

constato

Hoje não acendo a lareira mesmo que arrefeça à noite. Não está o frio de lá porque aqui faz mesmo muito mais frio. Mas eu sou forte e me vou aguentar. Não quero estar hipnotizado a olhar para a anarquia dançante das chamas. Quero estar mesmo só a olhar para os meus pensamentos e com eles divagar por esse mundo fora ao som duma música qualquer. 
Hoje eu sei que o mundo está dividido nas pessoas que sabem que amar é uma necessidade básica, de primeira necessidade, e as que fingem que não. Estas não sentem sabor nem cheiro e da boca só sai mau hálito. Eu sei disto porque aqui me divago em meditações e científicas conclusões. Tem gente que é apenas o seu próprio retrato, lhes falta a alma, o por dentro, a essência.
Queres dizer que é por causa do frio que eu estou assim. Desconsegues. Eu não tenho medo nem do frio nem de ser um pensador divagante. Constato e vou por aí fora rumo a outra ideia.


Sanzalando

#comida


29 de janeiro de 2021

eu sou agora

Olha só para mim. Mas olha com olhos de ver e sentir. Eu sei que o frio já não é mais o frio  que me congelava a alma e acinzentava as ideias e o pensamento. Mas náo é também o frio de lá. Não é mais o tempo de adolescente. Cresci a ver bem das coisas. Digo eu que não sou de intrigar. Mas te pedia para me olhares bem com olhos de ver e sentir. 
Te lembras como é que eu era nesse antigamente que faz história pessoal e intransmissível?
Eu já só faço uma ideia. Mas faz de conta eu me lembro que já tive dias cinzentos escuros na minha vida e de uma hora para a outra houve alguém que me arrepiou e mudou todo o sentimento ruim que eu tinha ou possa ter existido. Não tem hora marcada ou encontro programado. Apareceu assim num devagar de quanto menos esperar. Me inventou o sorrir, me criou o acreditar e me explicou o inexplicavel. Foi assim eu virei o este eu eu sou agora.


Sanzalando

28 de janeiro de 2021

#mangueira


recordando-me

E se mantendo o tempo assim, olho pela janela e brilhante se encontra o dia me enganado no quente que imagino sentiria se estivesse lá fora. Assim, perdidamente a olhar para lugares comuns dou comigo a imaginar como é que terá sido o dia em que te vi pela primeira vez. Na verdade eu só tenho a memória de como penso que foi. Gostava de rever como se revê num filme. Devo feito cara de parvo, devo ter empalidecido, devo ter feito aquele riso de circunstancia irritante, devo ter soletrado num gaguejar palavras em vez de falar com a minha verdadeira voz.
O teu sorriso, esse guardo bem na memória, com a tua cara de 15 anos. O teu ar de quem torce mas não quebra. A tua personalidade de quem merece o universo e só dão um lugar. Tudo aquilo que encheu o meu coração, me lembro como hoje. Mas a minha reacção não. Assim não vale que eu saio a perder nesta batalha pensante em que eu não dou em ver o arco-íris da minha felicidade.

Sanzalando

27 de janeiro de 2021

#mangueira


#lugaresincriveis


tem dias

Olhando pela janela da sala que ainda não arrefeceu porque faz um dia que não acendo a lareira, imagino o zulmarinho onduladamente livre se espraiando na areia. Eu sei  que às vezes a gente espera coisas, mas o que a gente precisa é só de dar à gente mesmo um pouco da nossa atenção e que por vezes a falta de coragem faz com que se perca momentos incríveis da vida. 
Tem dias que parece não sei o que fazer e só apetece ficar deitado e quase nem respirar para não cansar e não saber que há pessoas que estão só ali porque lhes sou útil. Tem dias que a idade chega mais um bocado e a paciência parece é inversamente proporcional a ela.
Tem dias que o que faz falta é mesmo só o sol do lado de lá-


Sanzalando

26 de janeiro de 2021

desabafo

Hoje deixo apagar a lareira porque o sol brilhou que nem imitação barata do sol de lá de baixo. Se eu pudesse ia ver o zulmarinho e lhe ia desabafar as minhas mágoas, gargalhar os meus risos e falar as minhas palavras soletradas em letra audível. Mas eu não posso porque cumpro as leis que dizem que eu devo ficar em casa e eu fico. Assim, pensando no zulmarinho que me tem saudades, no calor imitado do sol, eu vou por mim dentro desafiando pensamentos, sabendo que o amor próprio não se constrói numa noite, que exige esforço e dedicação, tempo e paciência. Vou sendo amável e compreensivo para comigo de modo que consiga saborear aquilo que construi.
Sabendo que um dia desaparecerei e que poucos notarão a minha falta, é sabido que levarei comigo tantas palavras que não tive tempo de dizer, tantos pensamentos pensados que não viram a luz do dia. Ficará nalgumas memórias, ficará no amor eterno.


Sanzalando

25 de janeiro de 2021

filosofando-me

Tenho de arranjar maneira de me aquecer sem dar cabo das árvores. Esta lareira para me deixar confortável consome que nem queimadas da minha juventude. Me lembro criança a olhar para longe e delirar a ver a noite invadida por aquelas labaredas serra a cima. Aqui sentado, longe o início do zulmarinho, num exílio voluntário e comodista, a olhar para uma lareira que arde em labaredas anarquicamente dançantes, harmoniosas chamas que às vezes parecem brincar comigo, a vaguear pensamentos como que a gastá-los tal a rapidez com que passam por mim. 
Já não sei se por hábito, ou por ser vulgar vagabundar ideias feitas, acho eu gostava mais do tempo em que  via a grandeza dos outros mesmo não a havendo, quando eu imaginava erros sem os cometer, em que sonhava poesia mesmo sem rima. 
Eu sei que sou uma mistura de cores e palavras soltas, um solitário porém não um isolado, um sonhador onde cabem todos os sonhos e todas as pessoas que um dia tive o privilégio de conhecer ou penas me cruzar.
É, aqui na lareira dá-me para ser assim, um filósofo que mora dentro de mim a toda a hora.

Sanzalando

#mangueira


23 de janeiro de 2021

#comida


#flores


dias

Arrefeceu e chove. Não dá para ir ver o zulmarinho nem me embalar no seu marulhar ou me perfumar na sua maresia. Me dizem ele está calemado. Eu tranquilo aqui na lareira me desfaço em saudade enquanto vagabundo-me por caminhos do pensamento, uns escolhidos e outros que me aparecem nem sei eu de onde. Eu estou satisfeito e pronto para morrer hoje? Nem pensar. Ainda estou ocupado a fazer coisas e ainda não estou realizado para parar. Acho estou pronto é para  recomeçar. Acho que que um final só é feliz se não o houver.

Sanzalando

22 de janeiro de 2021

é a vida

E vou controlando o calor da minha lareira consoante o frio que vou sentindo. Mais lenha, mais ou menos ar e lá me mantenho numa temperatura agradavelmente suportada. Pensar arrefece porque me mantenho aqui sentado a vagabundar. Eu sou um peão da vida. Ela me controla. É a vida. É da vida. Se eu levantar o volume da música para abafar o som dos meus pensamentos remeto-me à saudade e o meu coração chora. Se desligo a música ouço-me pensar e caio na saudade dum tempo vivido com calor. É a vida. É a minha vida.


Sanzalando

21 de janeiro de 2021

livre pensar

Se está frio e o mundo se confinou vou fazer mais o quê para além de estar à lareira vagabundado por lugares idos ou por ir, pensamentos pensados ou a pensar, ideias tidas ou a ter, lugares comuns ou banalidades? Me anima a dança das chamas na sua anarquia delgada e assimétrica. Se eu soubesse uns mantras eu lhes cantava ao ritmo das chamas da minha lareira. Olhando a janela vejo que passa uma nuvem cinzenta carregada de água que irá deitar num lugar que nem tento saber qual. É rotina imaginar as nuvens passeando livremente pelos céus e ver as suas múltiplas formas e disformas alternando com céu limpo. Do lado de cá da janela não vejo o zulmarinho, apenasmente o posso imaginar e a julgar pelo que ouvi dizer ele hoje está que nem bravo, a calema lhe chegou e ele galga até na praia toda. Aqui, neste quente aquecido pela lenha da minha lareira, não tem tanto faz ou pouco importa. Aqui existe um amor que não acabou, uma vida que não terminou, um sorriso que não se fechou porque existe um vagabundo a pensar solto. Aqui existe um carinho grande, um ser feliz que felizmente vive, um mágico que nada sabe de magia, porque se deixa livremente passear pelos caminhos livres da vida. Não tem como parar esta liberdade de pensar.

 
Sanzalando

20 de janeiro de 2021

assim para dar

E aqui à lareira lá vou eu vagabundando-me por ideias soltas e caminhos vadios. Em algum sítio, pequeno lugar que seja, alguém me procura ou procura algo que eu possa ajudar. Tem de haver. O mundo não é assim tão tão que não haja alguém que precise de mim ou de algo meu. Orgulho não tenho para dar porque já o gastei em saudade e dor. Tempo também não porque já usei mais do que tenho de sobra. Coragem também não porque acho me falta alguma. Força acho não há nem para mim. Mas tem de haver alguma coisa. Amor. É isso, eu tenho e até para distribuir por aí. Pensei eu aqui à volta da lareira, vagabundando entre ideias e caminhos. 


Sanzalando

19 de janeiro de 2021

temporizado

E hoje além do frio chegou a chuva. Já tinha saudades de ver chover e continuo a sentir saudades do cheiro da minha infância: a terra depois de chover. Há coisas que eu sei não é imaginação e esta saudade é bem real. Há coisas que nos tocam tão profundamente que não precisam nos tocar para sabermos que existem. Esta é uma delas e pronto final sobre isto. Bem vistas as coisas e depois de eu falar disso me lembrei que tenho saudade dos tempos de criança em que as raspadelas das canelas eram assim como agora são as carícias. Tenho saudade do tempo em que eu olhava para a lua e me imaginava a passear com ela e ver a noite sobre os seus reflexos. E já agora também tenho saudades do tempo em que eu não sentia cansado nem preocupado depois de não fazer nada. Não tenho saudades de me irritar de estar na minha pele com desejo de voltar e ser um outro que o tempo não gastou.

Sanzalando

18 de janeiro de 2021

#pordosol


#caminhos #lugaresincriveis


o bicho

E com o aumento do frio tive de reacender a lareira. Vejo o dançar das labaredas e me deixo vaguear por sorrisos que sorrio sem tino que até parece virei maluquinho. Mas este dançar anacrónico faz-me pensar em toda a matemática que andei a estudar e que não sei se existe uma fórmula que preveja estas chamas no espaço e no momento. E fico para ali a conjecturar teorias, ypslons e xizes, elevações ao quadrado e integrais. Nada. Não acerto uma. Confino-me à ignorância momentânea e sorrio. 

Há quem ande por aí a vaguear sem saber a formula mágica de passar ao lado desta pandemia e por ele paro o meu sorriso. Um que abusivamente vai ocupar o lugar de alguém que teve todos os cuidados porém inadvertidamente foi apanhado por um bicho que procura um momento que pode ser único do baixar a defesa. Bicho de tão pouco tamanho que até parece é maior que muitas inteligências raras que por aí abundam. E tem gente que só procura como fazer para contornar aquilo que foi pensado para lhe defender. Não do bicho, só mesmo das complicações que ele pode causar, directa ou indirectamente. Tem gente que se calhar precisa levar no corpo, viver mesmo sem ter qualquer liberdade porque o bicho parece tem mais inteligência. 

A dança das chamas, aleatórias, me acalmam e me dizem que outra ditadura não, pois sou agora mais inteligente do que era faz anos passados e não é por causa duma centena de zerados mentais que eu vou ficar sem a minha liberdade de pensar.


Sanzalando