recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de março de 2021

primaverou-se o cérebro 10

ÀS 11 horas era hora de ir comer um pastel de nata e beber um café na Oásis do sr. Reis e Moreira, gerenciada pelo sr. Reis de simpática figura e aspereza por vezes no trato. Mas isso era secundário para os frequentadores da esplanada, mesa ao lado dos mais cotas que fazia seculos ali permaneciam a dar-nos baile no seu comportamento de mais criança que nós armados em grandes. Depois do almoço era obrigatório ir no Aéro-Club jogar bilhar ao perde paga. Os do Turismo não iam ali. E havia ainda os outros que iam aos Magriços, bilhar e snooker que havia na sede do Sporting. Ah, havia também os que ficavam sempre no Café Avenida. Porquê estas fronteiras? Deslembro completamente as causas porque não era a origem ou a conta bancária que estava ali. Acho era só pela beleza de ter sido assim e sem saber mais como.
Mas o perde-paga do aéro-club era um festival. Eu e o Reis, filho do da pastelaria éramos uns azes. Tínhamos mestria no taco. E quando jogávamos com os pinos? Era uma delícia aqueles pensamentos rápidos. Se fosse futebol eu ia dizer que a gente driblava com qualidade.
E foi assim ali que comecei a receber as minhas hormonas, a formação do meu esguio corpo e da minha sabedoria de rua feitos.
Para trás tinham ficado as corridas de patins, as partidas à D. Maria Guedes, as conversas exageradas do Raul Gomes e tantas outras coisas que quase me ia esquecendo dos doces da Sra. Santana, a mãe do Pedro e Douglas. Chupa-chupas do melhor.


Sanzalando

30 de março de 2021

#comida


primaverou-se o cérebro 9

Entrei assim numa adolescência turbo-bolorentamente. 
Ao mesmo tempo comecei a fazer uma horas na rádio. Era assim como o técnico de som mais novo e com grande futuro pela frente, graças ao Sousa Santos que tinha a maior paciência do mundo para responder as quinhentas perguntas por minuto que eu lhe mandava, às vezes parecia metralhadora. 
Com ordenado fresco ao fim do mês, sem despesas porque a mãe aguentava tudo sozinha, conta de cigarros que eram na altura baratos porque acho ainda não se sabia faziam mal, as festas de fim de semana metia vinho ou cerveja até eu cantar o Jacques Brel em 'ne me quitte pas'. Eu acho cantava tão mal que me deixavam porque a conta era só minha e todos estávamos felizes mesmo que não soubéssemos ou déssemos conta disso. Acho eu uma vez foi no café Avenida, eu e Amorim e Manel VP, se me enganei foi porque o tempo apagou, bebemos tanto que ainda hoje não me lembro como foi que acabou. Eu cheguei ao hoje assim, eles que eu saiba também. Mas foi mesmo para esquecer. Era aqui e depois mais tarde nas festas de pré-finalista daquele liceu onde passei dum aluno à rasca para um bom aluno por causa dum rabo de saia que me deu a volta à cabeça ainda hoje eu não sei como foi possível. E em tão pouco tempo, entenda-se. Mas isso é mais tarde porque agora ainda estou na fase turbulenta da minha adolescência. Gente pequena a pensar que era grande, apesar de pensar que não era grande coisa. 
Eu comecei a frequentar a Oásis. Não era do Hotel Turismo. Aí estava já uma diferença. Grande até, mesmo para os dias de hoje onde as teias de aranha e Alzheimer deveriam ter feito um buraco de esconderijo no cérebro dum gajo.

Sanzalando

29 de março de 2021

primaverou-se o cérebro 8

Regressado à minha cidade Real e como havia prometido eu ia contar a minha estória real se a memória ou a verdade não disserem o contrário. E ela começa mesmo no início da minha adolescência, marco importante na minha viragem social, mental e até comportamental.
De verdade que eu sempre mantive um pé mental na minha cidade de Imaginação e na minha cidade Fantasma, porém acho refugiei-me de vez e até à proxima na minha cidade Real. Mas isso não afecta a minha estória, isso não cria obstáculos ou barreiras, saltos e sobressaltos na minha estória de nunca ter chegado à Glória.
As hormonas começavam a sair das suas fabrica intimas acrescentando masculinidade no meu corpo esguio, na minha cara linda afeizada por umas orelhas a dar para o abano, ao meu pensamento que aparentemente até aí não tinha o que fazer e ao meu outro órgão que até então servia para verter águas. 
As orelhas me pareciam uns travões de vento por causa da magreza que eu tinha, não era por fome, era mesmo por inquietação intrínseca, física e mental que mais tarde apelidei que era por causada pela minha ideia revolucionária e contestatária, contagiado pela História que ia acontecer num futuro que eu não fazia a mínima ideia.
O meu pensamento andava pelos cigarros, bilhar e pastelaria e um ou outro carro de competição. Queria lá saber de mais o quê.
O outro é que se foi rodeando de pelo e engrossando e mudando o estado de estar de mole a duro apenas por causa dum olhar.
Mas lá andava eu por vezes com voz grossa alternado por uma voz criançada. Eram as hormonas a dar sinal que eu andava na fase do crescimento. Até essa data, por causa duma rebeldia ou por falta de mão macho em casa, eu faltava nas aulas, eu fumava nas escondidas avenidas abertas por onde ninguém conhecido passava


Sanzalando

28 de março de 2021

primaverou-se o cérebro 7

Volto à minha cidade Real onde poderei viver com imaginação e fantasmas sem perder a minha atitude nem o meu celestial posto de observação e critica. O meu passado não é imaginário, os meus fantasmas podem ser fruto duma realidade imaginada e sofrida porém facilmente exorcizados pelo testemunho da minha existência, pela verticalidade dos meus actos sem necessidade de me pôr em bico de pés para ser observado pelos vários condutores e motoristas da minha Real cidade. Não precioso palanque para me verem. Sabem só que eu estou aqui.
Todas as tochas que atirei à minha fogueira, todos os incêndios que provoquei, todas as lagoas que inundei são afirmações da minha existência real e humana. Acertos e erros são parte integrante do meu ser e iria poder ser de outra forma? Não estou travestido de laser espadachim, luminosa luz de corte cabelo e barba, mas de sangue e coração que bate por enquanto ritmado e lentamente.
Assim, regressado à minha cidade Real vou contar a estória de que eu nunca atingi a Glória, Nunca lhe cheguei por mais que eu tivesse tentado. Mas com a ajuda da inspiração e dos fantasmas eu tentarei, com verdades, inverdades e talvez com precisões e imprecisões devido ao esquecimento de factos desmarcados na memória.


Sanzalando

27 de março de 2021

#caminhos confinado


#momentos


primaverou-se o cérebro 6

Repousado levantei-me e segui o meu caminho pela minha cidade Fantasma. 
Porque deixei a minha cidade Imaginação? Porque caminho num sem parar? Que significado dou às palavras que digo e aos silêncios com que respondo? A beleza do pôr-do-sol é uma constante ou um estado de espírito? O crepúsculo alaranjado fogo tem sempre o mesmo efeito em mim? A lua cheia mete-se comigo ou sou só eu que implico porque sim? As pessoas sorriem ou lamentam-se apenas para serem notadas e mimadas? 
Será que aqui na minha cidade Fantasma eu conseguirei olhar o céu?
Tantos fantasmas eu transporto no meu espírito que não sei se terei vida suficiente para os enumerar? 
Mais um fantasma arranjado para juntar à minha colecção. Deixei a minha cidade Imaginária por falta de imaginação. Deixo a minha cidade Fantasma porque acrescento novos à minha colecção e não os desamparo nos meus caminhares errantes.

Sanzalando

#selfie


26 de março de 2021

#flores


primaverou-se o cérebro 5

Desci à cidade, a minha cidade Fantasma, procurei um café, sentei-me de frente para uma vidraça aberta de modo a contemplar a azáfama da rua, sem perceber que aquele caos não eram pessoas a preencher todos os espaços vazios da rua mas apenas e tão só os meus medos e complexos sistemas acumulados ao longo dos anos. Tontamente me embaralhei na confusão e fui fluindo como um rio descontrolado descendo uma encosta. Quantas vezes deixo a minha porta aberta? Quantas vezes deixo as minhas chaves à vista de todos? Como é possível ter acumulado tanta coisa dentro de mim ao ponto de provocar uma efervescência tal qual eu vivia naquele instante? E o café? Arrefeceu. 
Tentei mudar de rota no pensamento mas a minha cidade Fantasma continuava a levar-me qualquer pensamento que fosse diferente do caos. Me apeteceu atirar o corpo vidraça fora e esborrachar-me na rua onde a confusão imperava. Nem que fosse para a parar. Mas lembrei-me que me podia magoar e manter-me-ia caoticamente crítico de mim. Resolvi pedir que fechassem a vidraça e ao menos o ruído diminuiu ao ponto de eu quase adormecer frente ao meu café frio.


Sanzalando

25 de março de 2021

#mangueira


primaverou-se o cérebro 4

Sobre mim ia caindo uma chuva de pensamentos, uma salada de ideias e um avinagrado sabor a saudade começava a fazer-se sentir. Para onde me levam os passos cada vez mais pesados e decididos? Muito caminhei, sem saber qual o cardeal a seguir até que cheguei à minha cidade Fantasma. Estava adormecida, talvez por ser madrugada, talvez porque fizesse frio, talvez porque eu estivesse desnudado de sentimentos que me poderiam ligar à minha cidade de Imaginação. Eu tremia e quanto mais entrava na cidade mais eu percebia o meu total desconhecimento dela. Procurei o ponto mais alto dela para melhor a ver com a luz do sol nascente. A minha cidade Fantasma não era quadriculada, era um cruzamento de assimetrias com altos e baixos sombreando-se sucessivamente. As casas mais perto da minha vista pareciam-me um castelo de pedras como que a defender a cidade da minha invasão ocular. Desertas ruas mostravam a cidade triste que cada vez mais se iluminava com o nascer do sol e seu crescimento. A cidade acordava muito lentamente. Via-se movimento e imaginava-se o caos a instalar-se. Indiscritivelmente não conseguia ver gente, sentir a existência de pessoas. Percebia o caos instalado mas descompreendi de quê. Foi o meu primeiro contacto com a minha cidade Fantasma. 

Sanzalando

24 de março de 2021

#selfie


primaverou-se o cérebro 3

Já tinha saído da minha cidade de Imaginação e parecia ainda eu estava lá. Chuvia-me e ventava-me como se fosse uma tempestade interior a revoltar-se contra a minha decisão de deixar a minha cidade de Imaginação. 
Acho fez um ano que ela já tinha saída da minha cidade de Imaginação. Eu não aguentei este tempo todo com o sorriso na cara, com a felicidade no corpo ou com a alegria de estar vivo. Contorcia-me na saudade e eu não conseguia bailar ao vento, não tinha capacidade de sorrir os risos arrepiantes de ser feliz. Acho tinha-me deixado cair num outono de existência. No abandono que ela me deixou dava-me uma sensação de frio permanente, uma culpa formada de frios indecisos da minha existência, do vazio dum fazer nada porque nada havia para fazer. Um ano gasto a esticar as pernas num vagabundar interno entrecruzado pelo medo e heroísmo. Nunca deu para perceber porque alguém me dizia que o bom estava na demora da incerteza, no morar na indefinição e no percorrer os refúgios duma viagem nunca feita.
As ruas da minha cidade de Imaginação entrecruzavam-se no meu pensamento como se fosse um mapa em constante mutação enquanto a distância crescia a cada passo, a cada pensamento.



Sanzalando

23 de março de 2021

primaverou-se o cérebro 2

Ao sair da minha cidade de Imaginação, levando comigo o ornamento da noite, que para mim era escura, não sei se por não querer olhar ou simplesmente porque o era, levei comigo uma montanha de recordações e memórias. Tentei evitar olhar para trás, tentei esquecer as horas de felicidade e amor ali vividas. Era escuro e pareceu-me que cada vez ficava pior. Eu estava de saída da minha cidade de Imaginação e entrava na zona escura do mundo. Os sons que eu nunca tinha ouvido eram agora os meus acompanhamentos, eram a minha música de chorar. Com muita atenção ouvi as lágrimas a se rasparem na pele da minha cara num deslizar dos olhos para o chão, ouvi os gritos da gravilha que os meus pés pisavam a cada passo firme e a cada passo dado a minha cidade de Imaginação ficava mais lá para trás, como se cada um dado levasse metros de avanço à realidade. Eu chovia em mim enquanto me afastava. Aos poucos fui perdendo da vista a minha cidade de Imaginação.


Sanzalando

#memorias


22 de março de 2021

Pimaverou-se o cérebro 1

Chegados à primavera, descinzenta-se o cérebro, se auto-estima-se e se reencontra o brilho do sol na alma. Novos caminhos estão à espera de ser percorridos, novas estradas prontas a serem desenhadas e novos sonhos prontos a verem o seu retrato estampado nos meus olhos. 
Na cidade da minha Imaginação era noite quando de lá saí. Não faço a mais pequena ideia se o céu estava estrelado ou só escuro como as noites eram naquela minha idade. Se houvesse alguma constelação eu não faria a menor ideia porque eu não ia olhar o céu para decifrar os pontos cintilantes e uní-los com uma imaginária linha. Eu só tinha olhos para ela e tudo resto era imaginação dos mais velhos só para me darem o que fazer. Sei que na cidade da minha Imaginação o céu estava lá todo, a cair pelo horizonte, atrás da terra, onde eu já não via. Eu tinha uma abóbada em cima da cabeça. Era uma campânula escura o que eu tinha sobre a minha cabeça. O seu ponto central era a verticalidade da minha cabeça. Uns infinitos metros acima.
Tudo estava escuro. Nem me lembro se as luzes da cidade estavam acesas ou era mesmo só noite. 
Sai de lá sem olhar para trás, sem olhar para lado nenhum. Era escuro como era escura a minha alma de desgosto ou só alma.


Sanzalando

#comida


21 de março de 2021

#mangueira #imbondeiro


primaverou

E se fez sol ventado. Primaverou. Se eu ligasse a essas coisas diria que as andorinhas chegaram. Mas eu ainda não vi nenhuma e também não lhes procurei. Só vi que o sol brilha doutro modo. Não tenho noção do tempo mas parece foi ontem que era a primavera. Quando aprendi que era hoje lá nas aulas do Comandante Resende. Era outra época e eram outras datas para as estações. Naquele tempo eu deixava as pessoas a falar sozinhas e ia nos meu divagares pelos cantos do mundo e queria lá saber dessa matéria. Naquele tempo eu queria lá saber as horas que começavam as estações do ano. Saber os comboios só quando tinha interesse directo.
Hoje me complicam os neurónios só de saber que a primavera afinal foi a 20 e não 21. Importante e para realçar é que primavaverou.

Sanzalando

20 de março de 2021

imperfeitamente

E até parece contrariada por ir embora esta estação que lhe chamam de inverno. À noite faz frio a nos lembrar que ela ainda está aqui, mas de dia está brilhante parece vai ser aquecida a temperatura fria da noite. Assim, numa letargia fico à espera que qualquer coisa aconteça, que as minha palavras mais doces sejam faladas, que as minhas músicas surdas sejam assobiadas, os meus livros não escritos sejam lidos. Eu me moldei a este inverno. Eu saí da minha realidade e me tranquei no meu modo cinzento de estar, num canto imundo de pensamentos imaturos, numa infância tardia de complexos. Este inverno, confinado, me trouxe a imperfeição como normalidade. 
Mas como brilha o sol, durante o dia saio desse estado e navego por águas claras, mares calmos, sorrisos abertos e como quem diz que a cicatriz da noite foi apenas um sinal de estar vivo e ser humano.


Sanzalando

#lugaresincriveis


#lugaresincriveis


19 de março de 2021

dia do Pai

Na despedida do inverno ainda cabe lá o dia do pai. 
Para mim o pai devia ser eterno. Pai e mãe têm aquele ombro que a gente sempre precisa, mesmo quando não precisa. Por isso eles deviam durar enquanto a gente dura. Mas hoje vou só falar com o meu pai mesmo sabendo que ele não me vai ouvir nem ler.
Meu pai não estava lá no meu primeiro dia em que fui na escola. Nem quando entrei no Liceu. Nem quando fui na Universidade, nem quando comecei a usar os conhecimentos que fui aprendendo. O meu pai não estava nos natais de que me lembro. Em nenhuma festa que me recorde. O meu pai não estava lá quando estive doente. Também não estava nos momentos em que fui o mais feliz dos mortais.
O meu pai não soube das minhas paixões e desamores. Não sentiu o sal das minhas lágrimas de amor nem as de dor de alma de tanto desalento. 
O meu cabelo foi-se ralando e branqueando e o meu pai não estava lá. E no dia do pai o meu pai não está lá.
O meu pai não está em nenhum momento da minha vida, mas o meu pai está sempre comigo desde o dia que lhe levaram para parte incerta quando eu era criança de não me lembrar de quase nada.
Na verdade, em cada momento meu eu lhe sinto a me olhar e parece até me toca no ombro a me dizer se estou no caminho certo ou não. Eu sempre tenho o ombro dele mesmo quando é só para encostar a cabeça e vagabundear-me por aí.



Sanzalando