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Conversas à Mesa
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31 de maio de 2021
filosofia do pedal
Sigo pedalando pela cidade feito um vazio mental. Tiro as mãos do guiador para sentir que não domino por completo a situação e para saber que qualquer distorção do meu corpo me levará ao chão. Pedalo na instabilidade para me sentir vivo mesmo que os meus olhos de um momento para outro possam parecer os de um morto que não sabe que lhe aconteceu. Pedalo vagabundo pelas ruas desertas da minha cidade. A minha cidade é deserta. Deve ser da hora ou somente se resguardam à minha passagem ou simplesmente sou eu que não quer ver ninguém. Pedalo porque sim ou talvez mais porque não me apetece ficar estático a olhar o céu azul que até pode estar cinzento chuvoso.
Sigo pedalando porque a vida que eu vivo apenas depende de mim como a sinto.
30 de maio de 2021
29 de maio de 2021
aqui e agora
Devo ficar na rotina da vida ou deixar-me ir ao sabor da aventura? Na verdade eu não quero magoar-me nem me queixar da dor da incerteza. Dilemas do quotidiano dum ser que pensa sem insultar, que observa sem criticar, que diz sem magoar e que por simples gestos que não tive, é magoado. Gestos que não só não tive como acho que nem deveriam nunca ter sido pensados. Dilemas do quotidiano.
Há quem pensa que eu não me encontrei. Há quem pensa que eu penso os pensamentos dos outros. Há quem veja vaidade no falar e estar simples duma vida escolhida simplesmente.
Fui e serei sempre o eu, com correcções, erros e omissões. Ser humano na minha particularidade.
Todas as mudanças na minha vida acho que foram necessárias. Voluntária ou obrigatóriamente tive que fazê-las. Optimo. Hoje estou neste aqui e agora, ave voando por sobre a terra redonda observando. Livro com palavras sábias de experiências sentidas. Ouvidos ouvindo melodias que às vezes vêm dum ruído chamado silêncio.
Felizmente aqui estou agora, gastando palavras sentidas.
28 de maio de 2021
altos e baixos são
E para não perder a pedalada lá vou eu escrevendo. Umas vezes para não me esquecer, outras para ocupar a minha mente e outras para dizer apenas que estou aqui.
Tem dias que apetece dizer desisto, independentemente de ser segunda, sexta ou sábado. Tem dias parece o encanto desapareceu e o escuro entra. Com calma me vou dizendo que logo passa, incluindo o tempo.
Um dia parece tudo mudou, me reencontro, as segundas são segundas e as sextas sextas são. Se é para rir riu-me se não o é não o faço.
Assim são os altos e baixos dias de vida. Assim são as palavras que levo comigo papel abaixo, às vezes com letra que nem consigo reler e re-invento, outras vezes com letra tão bem desenhada que até parece a antiga caligrafia que havia nas escolas do antigamente.
Hoje é sexta feira e fico-me por aqui nestas letras, palavras e parágrafos apenas para saberem que estou por aqui, ao sol, se o fizer.
27 de maio de 2021
imensurável
Tentando esquecer a luta que me ligou nestes tempos a uma escrita descritiva e inventada duma vida amorosa, desvio-me por palavras para outras paragens tentando mudar de rumo e forma.
Há muito para viver na vida por mais vida que já tenha passado, como há tanto amor para dar apesar do já dado. Haja palavras e vontade, haja céu e capacidade de o ver ou estrelas na noite para admirar.
Há tempo para dar tempo ao resto da minha vida e ser feliz na forma e desejo.
Tudo é possível porque a capacidade humana é imensurável
26 de maio de 2021
e se termina
Agora que já te contei a minha estória de amor por ti, passados anos de tudo ter sido uma verdade que imaginei, uma novela que vivi nas noites serenas da solidão, tu, minha conterra de opção e não de nascimento, deves imaginar que enlouqueci, que perdi ao longo da vida s coisas boas de mim e que desperdicei uma vida.
Na verdade, na vida, há três coisas muito importantes: o quanto amei; o quanto consegui fazer feliz alguém; e as coisas que me arrependi por não ter feito por mim ou por outrem.
Tive paciência por quem sou, esperei por aquilo de construi e sarei dores que senti. Tenho uma estória de amor completa mesmo que haja capítulos por escrever, por esquecer ou por viver.
Conterra, da tua parte, do teu porto seguro eu sei nada e nada quero continuar a saber porque assim não terei fantasias nem pesadelos por tentar mudar o tempo passado e viver um novo futuro que por ser incerto seria secreto.
Fui feliz porque resolvi problemas de memória, geógrafo de palavras e mapeador de vivências.
25 de maio de 2021
sol brilhante
O sol brilha parece quer dar colorido ao dia e consequente à minha vida. Uma ou outra nuvem do céu para me lembrar as festas do mar e o meu adorável algodão doce. O movimento das ruas a me recordar o que é a vida, azáfama e movimento mesmo que tenha gente a correr para lado nenhum. Um grupo de pessoas conversa numa algarviada imperceptível na esquina deste cruzamento como que a me fazer recordar as minhas esquinas da vida onde perdi ganhando horas de vidas.
Faz sol a cada momento deste brilhante tempo que aqui, no teus lados de porto seguro, chamam verão. Lá nos nossos lados era tempo do calor, tempo de ir à praia, tempo de saídas à noite quanto mais não seja para ver coelhos a saltar e a tentar nos fintas nas suas curvas apertadas para a gente não lhes acertar.
Faz sol e eu não faço a mínima ideia de como é o teu aspecto agora. Estou certo, sem medo de errar que mantens o corpo esguio, altamente belo e curvado porque o tempo deve ter-se curvado a ti e não num vice versa de memórias. Teimosamente cabelos longos, hoje cinzentos, porem livres como livre deve ser o teu estar por esta vida.
Eu, vadiando, curvado pelo mesmo tempo que me viu crescer e fazer coisas boas, grisalhei num escassear de cabelos, num apelo à terra que me curva como se tentasse me absorver, doendo-me aqui e ali por tentativa do contrariar este apelo.
24 de maio de 2021
não te disse adeus
E não te podendo dizer adeus fui-me perdendo por cada canto do porto seguro dela. Umas vezes pelo norte, centro ou sul, outras latitudes e não sei quantas longitudes.
Alturas houve em que eu só queria ir para casa, deixar-me de vagabundear neste mundo cheio de seres humanos e outros mais desumanos. Eu queria ter um lar onde não houvesse robots programados para nascer, crescer e desaparecer sem terem tempo para olhar, para ver e sentir.
Eu não queria mais ser um mais porque como bom passeante jamais esqueci os lugares, os sorrisos e os momentos por onde passei.
Ainda não foi desta que eu te disse adeus. Será certamente noutra vida, porque nesta não vejo hipóteses.
23 de maio de 2021
despaísei-me
Era manhã de outono e fazia frio que nem me passou pela cabeça um dia eu ia sentir assim. do meio de um nada eu cheguei ao teu porto seguro. Tu tinhas nascido aqui e ainda bebé tinhas ido ter comigo. Digo eu que acredito no destino e contra essas coisas eu não sou de contrariar. Agora era a minha vez de vir ter contigo. Tinha acabado de terminar a minha intensa luta interior. Ganhou a facção que não podia estar longe de ti. A outra, derrotada, lacrimejante, teve que acompanhar a vitoriosa. Consequências de lutas internas levam sempre a actos de violência e uma parte de mim sentiu-se arrancada do seu mundo. Mas quem perde cala e esse eu se calou, vencido por males de coração.
Um pedaço de papel me dizia onde morava um teu conhecido, um grande amigo do teu pai que havia ficado por cá. Por sorte nunca o perdi.
Mal refeito do susto temporal, de ver uma cidade grande que me dava sombra em todos os lados da rua, contrariando o meu ponto de partida ensolarado e térreo, a tremer de frio por mais casacos que tenha vestido, vou de papel em punho à procura. Pergunto uma, dias vezes e a rua encontrada. Mas alguém me podia ter dito que a rua tinha para aí uns 5 quilómetros. Eu não estava habituado a esta dimensão. Andei e os números iam mudando devagarinho. E havia ainda os A e B, quando não havia também o C.
Achei que o coração ia sair de dentro de mim. Era nervoso e era frio. Miscelânea cerebral. E se a morada estivesse errada.
Um pedaço de papel escrito a lápis de carvão num outono por aqui.
22 de maio de 2021
desinfantilizei-me
A minha família se perdia em discussão interna para saber o que estava a acontecer comigo. Notas subiram que até quase ficava no quadro de honra. Reclamações de comportamento deixaram de bater na porta de casa. Recados nos cadernos não havia mais. Vadiações nocturnas quase extintas. Também não precisa exagerar por isso o quase da frase anterior. De manhã era acordar cedo, matabichar, ir na praia ou só para o passeio depois duma pausa na varanda.
- Que é que este miúdo tem? ouvi a minha mãe perguntar na minha avó.
- Deve ter conhecido alguém que lhe pôs no lugar. disse a minha avó do alto dos seus anos de sabedoria.
Eu ouvi mas não me mostrei e sorri para mim. Estava orgulhoso mas ao mesmo tempo estava também preocupado. Não é saudável mudar assim tão radicalmente em tão pouco tempo, me dizia eu a mim.
Eu não queria deixar de aprender a lhe conhecer. Todos os instantes com ela me eram importantes. Com o pai dela aprendi a ser educado, fino no trato e subtil na afirmação da minha presença. Ele é o que eu queria ser quando crescer.
Nasceu a irmã dela. Diferença grande que a gente quando passeava eu me sentia parecia era tio ou... era assim como ser adulto ainda na adolescência.
Eu estou na fase em que quando olho as estrelas só a vejo a ela. Acho estúpido esta fase mas eu caí nela e vou dar a volta mais como?
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