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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
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- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
- Pertinências 6 - Escritores algarvios
- Pertinências 7 - Equipes de Rua - GRATO
- Pertinências 8 - Rastreio e Prevenção do cancro do colon e recto
- PERTINÊNCIAS 9 - Enredados nas Palavras - Dulce Maria Cardoso
- PERTINÊNCIAS 10 - H(á) Mercado - Brasa Doirada
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- PERTINÊNCIAS 13 - Por Dentro do CHEGA
- Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião
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- Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"
- Pertinências 18 - James McSill
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31 de março de 2022
ele há cada dia
Se me digo triste é porque o estou, mesmo não sabendo o porquê. Tantas vezes adivinho o futuro que ainda acabo ardendo numa fogueira. Mas desta vez o futuro não é ainda agora e por isso não sei o porquê. Talvez seja porque não me recordo de sorrir, de fazer uma cara de paisagem, uma dança de árvore em dia de vento ou um mar agitado em dia de vento leste. Só porque sim, ignorando a falsidade, a maldade, a hipocrisia e outros tantos adjectivos que a memória nem me leva a pensar em escrevê-los.
Se me digo triste é porque o céu está nublado encobrindo o sol de me alegrar.
Ele há cada dia!
30 de março de 2022
as palavras
Todas as palavras levam uma carga, um significado, uma emoção. Eu caminho pelas minhas palavras transportando essa carga, simplificando significados e desmontando emoções.
Já disse tantas coisas, umas sem pensar, que chegam e saem naquele instante e que poderiam, ou puderam, mudar o significado da minha existência. Já pensei tantas outras, carregadas de bondade, indicativas de caminhos, e que depois as perdi nos silêncios duma qualquer esperança, no acordar dum qualquer sonho ou na ventania dum estar apenas.
São as palavras, rabiscos feitos com tinta de imaginação, que me dão a valentia de viver a vida vivendo sabendo que poderia um dia não dizer que morri com vida vivida.
29 de março de 2022
viver a vida enquanto a há
Parece que às vezes a vida dá uma travadela súbita, daqueles que a cara até parece vai bater num vidro feito fronteira da vida e tudo parece inerte por algum tempo. É assustador ver os sonhos descartarem-se, os desejos evaporarem-se e os quereres esvaírem-se por entre os dedos duma mão cerrada. O cansaço, o desgaste e o abandono físico querem ocupar o lugar aparentemente vago da vida. Tudo se torna nublado, tudo parece uma bolha de fumo e em câmara lenta se vai clareando e damos conta que nada foi repentino. A petrificação começou faz tempo.
Abano a cabeça, acordo, respiro fundo e digo-me:
- viver a vida enquanto a há!
28 de março de 2022
é do tempo
Não sei se é do vento, do tempo cinzento ou se é mesmo dos tempo de hoje por esse mundo fora, mas a verdade é que ando amargo, triste e cheio de dúvidas. Isto não é efeito colateral de mal de amores nem de afogamentos em mares de saudade. Se eu tivesse o coração partido, as lágrimas e lastimas eram descritos em forma de poesia. Se é tristeza da forma de ser, eu o seria até nos momentos de introspecção, de cabeça baixa a cair no precipício do vazio mental. Se é de dúvida eu minimizava as palavras para não cair na contradição e livrava-me do mal.
Não sei se é do vento mas eu podia ter evitado fechando-me em portas e portos seguros, faria planos e não deixaria o meu corpo cair nessa amargura, tristeza ou dúvida.
Eu estou atento e tento ver sinais de modo a que possa correr para longe deste estado.
27 de março de 2022
vento
Sopra vento como que a querer limpar tudo à sua passagem. No tudo estão os pensamentos maus e as ideias cinzentas das mentes escuras do terror. Cá por mim acho ele devia por estes dias soprar com vontade ainda mais férrea. Isto é só a minha ideia.
Isto é só uma ideia, porque num contacto de amor tudo vira poesia e os poetas não sentiriam estes ventos, as garroas, estas rabanadas que até o poste abana.
Outra ideia, mesmo com este vento limpador, eu falarei com as estrelas e lhes roubarei palavras para dizer ao universo que os sonhos e os abraços são iguais em qualquer parte do mundo.
Mas vou só deixar o vento fazer o papel dele.
26 de março de 2022
imperdíveis
Hoje a caneta não queria ser usada. Olhava para ela e nada. Nem um suave e quase imperceptível movimento. Ela hoje estava a fazer-se cara.
Olhei-a como quem olha com olhos de ternura e disse-lhe.
- tenho uma ideia e quero trabalhá-la
- tenho um sonho e quero concretizá-lo
- tenho uma meta e quero atingi-la
- não tenho tempo e não posso perdê-lo
a caneta mexeu-se, rabiscou-se para fazer sair a tinta seca da ponta, e correu para a minha mão e desenhámos letras com a caligrafia mais bonita que alguma vez tive.
Guardei as folhas de papel em porto seguro para nunca mais me esquecer que os sonhos, ideias, metas e tempos não são perdíveis.
25 de março de 2022
24 de março de 2022
triste
Hoje fugi de mim e escondi-me num canto do meu passado. Dos meus olhos saíram palavras de silêncio e da minha boca um universo de ideias paralelas, um horizonte de linhas cruzadas, um beijo quente de verão, um sonho de sons cantados.
Hoje refugiei-me no calor da minha existência, nos monossílabos ditos pela minha mãe através do olhar, numa tradução livre de maumaria.
Hoje perguntei-me o que é que eu sabia da tristeza.
Hoje estou só assim: triste!
23 de março de 2022
Tia Eugénia
Foi no dia 13 de março deste agora que estamos que eu fui comprar caranguejos para a tia Eugénia. Fui lá na Torre do Tombo e parece eu estava a adivinhar que o tempo passa na vida das pessoas até ao fim.Hoje foi o fim da estória da tia Eugénia.
Assim, como não posso lhe ligar ao telefone eu vou-lhe escrever uma carta e esperar que os anjos lhe leiam lá no sítio para onde ela está.
Começo por lhe pedir desculpa porque acho esta é a primeira carta que lhe escrevo. Mas eu lembro que a tia, desde lá do Lubango, escrevia para a minha mãe quase todos os meses. Eu sei que nesse tempo era outro tempo e até me lembro que a tia escrevia Mossamedes e não Moçâmedes como eu tinha aprendido na escola. Mas era assim que se escrevia antigamente e a tia continuou a escrever assim. A carta chegava e isso era importante.
Quero também pedir desculpa porque cresci e deixei de a ver tantas quantas a via no nosso antigamente de criança, em que eu passava larga temporada na sua casa. Foi na sua casa que vi pela primeira vez uma máquina de lavar roupa e que não era a lavadeira que ia buscar. Foi lá que eu vi o velho empregado da tia a fazer formas para pudins com as latas de azeite usadas. Era uma maravilha a verdadeira obra de arte nas mãos dele, tia.
Quero lhe pedir desculpa por não ser do Sporting como a tia nem Benfica como o seu irmão, meu pai.
Quero pedir ainda desculpa, tia, por não ter a acompanhado quando faleceu o tio Artur. Sou um sobrinho e afilhado deslavado e indesculpável.
Minha tia, foi de certo um dos melhores tempos os que passei na sua casa, que passeei na caixa aberta da Chevrolet, que fui na Senhora do Monte, que comi pudim de claras, que cortei o bacalhau na faca fixa ao balcão da mercearia da tia, em que eu fazia de ajudante do tio e que imagino a paciência que ele devia ter perdido.
Minha tia, foram nove décadas que serviram para ensinar muita gente o que é ter amor à vida, ser feliz e fazer a gente, nós os outros, a ser feliz.
Acho eu, tia, que tinha muitas mais palavras para lhe dizer nesta primeira carta que lhe escrevo e que os anjos lhe vão ler, mas as lágrimas escorrem da cara para o papel e me turvam a vista.
A tia tinha uma sensibilidade que fazia com que a gente só tinha uma maneira de olhar para si: com amor!
Conheci muita gente boa e a tia foi uma das melhores. Até já, qualquer dia, Tia Eugénia Carranca Alves
22 de março de 2022
céu cósmico
Acho vou alinhar a minha linha cósmica que parece uma desilusão.
No céu de Março, em início da primavera, não vejo uma única estrela, nenhuma constelação conhecida se apresenta alinhada aos meus olhos e no meu coração palpita a luz ténue duma flor triste que resiste à força da chuva. Num canto do céu, onde não há nenhuma nuvem a cobri-lo, nem uma luz apagada de lua se observa. Acho que é um sinal dos céus para os tempos que correm.
De equívoco em equivoco deixo desadequadamente um suspiro, um desejo de reencontro, um quase nada de mim. Secreto silêncio se ouve no ar. Nem um som musical nem um qualquer outro ruído. Sinal dos tempos duma linha desalinhada no meu cósmico existir.
Falta-me um mar de estrelas
21 de março de 2022
sou o presente
Para já não quero esquecer o passado, quero viver o presente e ainda sonhar com o que resta de futuro. Vou ter tempo para deixar de ter passado, presente e inexistente futuro. Vou virar memória, mas quanto mais tarde melhor, para mim.
Na boa da verdade eu sou mais que o somatório dos meus passados, porque sou ele e mais o que aprendi com ele. Nesse de passado tem trauma? Eu lhe aprendi qualquer coisa. Esse de passado é gargalhada? Eu captei uma mensagem. Dificilmente eu deixei escapar uma aprendizagem, porque não dispenso o que há de mim em qualquer sítio.
Tenho medo dos traumas futuro? Claro que sim. Eu vou tê-los, mesmo que sejam parecidos aos passados ou nada tenham a ver com eles. Eu sou o presente.
20 de março de 2022
sou o poeta
Tantas vezes dou comigo a ser o poeta da minha vida. Descrevo-a florida, perfumada e arejada e tantas vezes estou seco, poerento e queimado. Ser poeta é ver com olhos de sentir e descrever. Por mais positivista que seja, também tenho momentos negativos, porém não os alimento. Não pinto com palavras garridas a tristeza, a doentia saudade nem o negro pessimismo. Contorno-os com palavras vulgares, desvalorizo acentos e pontuações, caligrafo-os com lápis de rascunho, rabisco com gatafunhos.
Sou o poeta da minha vida.
19 de março de 2022
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