recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de junho de 2022

me deixa

Me deixa ir só por aí caminhar nas minhas memórias, louvar as minhas muitas paixões, desgastar os milhões de amores perfeitos que me deram na forma de carícias, mimos e beijos. Me deixa ir só sem necessidade de perceber se se passa alguma coisa, se passou algo, se irá acontecer, ou se é só a minha imaginação a usar as palavras que um dia eu aprendi a dizer e outras que vou ainda ouvindo como novas por ai.
Me deixa só olhar para todos os meus momentos, descontar os vazios, os possuídos e os roubados, descolorir os enganados e esquecer os envergonhados.
Me deixa só revisitar cada momento meu, cada silêncio ou grito, cada calor ou gelo, cara instante que já usei e que mais tarde poderei recordar.
Faz conta que esses instantes divagantes, fruto da imaginação ou da realidade, conseguem preencher todos os vazios do meu instante de vida.
Faz de conta esses momentos são um olhar não registado nem carimbado na minha realidade de contemplação futura mas deste agora, momento ou instante. 
Faz de conta eu me sinto confortável neste vagabundear mental, embriagado de alegria, embrulhado no papel cinzento da tristeza ou somente confortável por acreditar-me.
Me deixa só esquecer que se eu olhar para trás tem coisas que já não me lembro e o esquecimento é ensurdecer o cérebro de memórias que fizeram a circunstância de ser eu agora.
Sempre fui real, mesmo que por vezes possa ser ruim, fantasmagórico ou apalhaçado, e nesse sentido tenho os meus momentos por onde me passeio, mesmo que em passo trocado ou truncado.
Me deixa só ir por aqui, sem ter urgência em apagar desconfortos, lembrar desaforos ou desesperar tristezas.
Me deixa só ir.



Sanzalando

29 de junho de 2022

quantas

Pé ante pé lá vou eu fazendo o meu caminho. Tantas vezes o fiz à beira do zulmarinho, com os olhos postos para lá da linha recta que é curva, que até parece que não faz sentido ter vida para além deste olhar. Neste olhar há uma infinita amálgama de sentimentos cruzados, opostos, misturados e justapostos. pelo que tem vezes que é-me difícil me encontrar puramente, desvinculadamente agarrado a uma ideia pré-concebida. Quantas vezes sentindo medo de simplesmente pensar? Quantas vezes doridamente por esconder a dor dos meus olhos? Quantas vezes saltando de aleria por os meus olhos me imagiram para lá da linha?

Sanzalando

#mangueira


28 de junho de 2022

acho

Está na altura de transformar as minhas caminhadas em passeios de silêncios, meditações sem gastar palavras, introspecções na paz do vazio de significados ou interpretações. Não me apetece gastar palavras que me poderão ser preciosas para descrever estrelas, borboletas e outras insignificâncias muito significativas.
Acho vou aproveitar o tempo para congelar as minhas borboletas mentais num verão de praia, sol e caminhos vadios.
Acho vou descansar o corpo, caminhando sem parar em palavras, parágrafos e outras frases.
Acho vou por aí, desrumado, desarrumado ou apenas des.


Sanzalando

27 de junho de 2022

espuma de mar

Ponho-me a caminho dos caminhos das ideias e dou comigo a pensar que o amor é como a espuma do mar que surge do ondular e tem uma durabilidade demasiado delicada. São pequenas bolhas de ar que se juntam e se desfazem num momento incerto. Se tivesse o ouvido apurado, afinado para ouvir os intermináveis pufs, ouviria uma sinfonia desequilibrada e incessante de sons surdos, do desfazer da espuma, do desfazer de amores eternos que duram o tempo máximo de um mínimo indefinido.
A espuma do mar, o amor, pequenas bolhas de ar que se desfazem porque sim, em contacto com areia, com o próprio mar e desconseguem deixar marcas para qualquer eternidade para além do instante.


Sanzalando

26 de junho de 2022

oculto

Acho virei sonambulo ou qualquer coisa assim parecida. Eu acho que os meus pensamentos se escondem num misterioso inconsciente, que pensa e manobra desde o oculto dos meus mundos e se transformam em letras que vos mando. Não acredito em inspirações ou acasos. As minhas letras são fabricadas num qualquer oculto interior de mim, a que eu não tenho acesso, a não ser para as pôr á fora assim elas saem.
Se eu já as teria esquecido mal as pensasse, como iriam elas colorir a minha jornada? Tem ocultismo nisso.


Sanzalando

25 de junho de 2022

#imbondeiro


Um dia fui criança

Sento-me a ver o zulmarinho. Tanto mar a me separar da realidade. Tivesse eu poder e mudava o meu mundo, mesmo sabendo-o redondo, encontrava o meu canto e ali ficava a admirar um amor de verdade. Ele não é palavra, ele é facto, acção, detalhe. Eu a olhar o mar sinto-o e as palavras que soletro transmitem-me esse amor, iluminam-me a escuridão da tristeza, e protegem-me dos medos que invento. O zulmarinho tem uma força de me levar aos recantos da minha infância. Se falo da Avenida do Bonfim, das Ruas dos pescadores, das Hortas e da Fábrica, eram porque serem as principais e porque há lá gente nova, da idade que eu já fui e que pode rebuscar as brincadeiras que eu lá brinquei. Naquele quadriculado onde se destacavam o Colégio das Madres, o Parque Infantil, o Liceu, A Escola Industrial, O pelourinho e as fontes da Avenida, a Rotunda da Aguada, as escolas primárias, o palácio do Governador, a Igreja de santo Adrião, a do Forte Santa Rita, O Cine Moçâmedes, o Impala, o Aeródromo chamado aeroporto por boa vontade, a Câmara Municipal, a sede do Benfica, o salão de Baile do Ferrovia e do Atlético, a inacabada obra do Sporting. E desde aqui sentado dei a volta à cidade sem me esquecer de Monumentos e outras obras de arte.
Sento-me a ver o Zulmarinho e posso dizer às netas que um dia eu fui criança numa cidade quadriculada, calma e serena rodeada de areia, muita e duma baía que arregalava aos olhos pelo diâmetro da sua circunferência. 
Um dia fui criança e hoje me recordo.


Sanzalando

#maracujá polpa de 1,5 kg


#imbondeiro


24 de junho de 2022

#comida , #sobremesa


#comida


os caminhos

Vou caminhando por aí, umas vezes sem rumo, outras com trajecto bem definido e outras seguindo o desenho mental. Sigo só, palavra sobre palavra, ideia sobre ideia ou sem ideia nenhuma. Detesto caminhar na passada da indecisão ou sobre promessas incompletas. Quando vou sem norte, ao deus dará, não vou indeciso nem vazio, vou só mesmo ver onde paro, onde encontro-me ou onde me esqueci de parar. Tem vezes que o fim é o meio de chegar a qualquer poiso nem que seja ao centro da minha alma.
Nos meus caminhos não tem lugar a fuga, o esconde só porque sim. O caminho leva-me nem que eu não faça ideia nenhuma para onde. Tem vezes que os passos, que penso perdidos, me levam a encontrar-me e a reconhecer imperfeições pessoais. Logo ganhei-me.

Sanzalando

23 de junho de 2022

calcorreei mundos

Já corri mundo. Forma errada de dizer que passei por vários locais deste planeta. Não corro e se o fizesse não conseguia ver nada de tão ofegante que estava. Já percorri alguns lugares desta Terra que os humanos tão maltratam e ela se esforça em sobreviver. Neste caminho, nesta procura de conhecer vi lugares lindos, senti perfumes intensos, enchi de alegria o corpo e a alma. Sem esquecer os mosquitos, os cheiros fétidos e os encontrões de tanta gente aglomerada no mesmo metro quadrado. Assim fui abrindo portas sem me importar por onde andava. Gosto de conhecer, gosto de saber e gosto de viver cada local como localmente se vive. Escolher para sempre é outra opção não enquadrada neste meu percorrer de mundo. 
Já tantas vezes rompi o coração, por desilusão ou falsa expectativa, que com propriedade poderei dizer que a ruptura do coração foi remédio santo para a cura. Local riscado de futuras visitas.
Já alegrei a alma quando estava convencido que aquele ponto deste planeta era escusado, que modifiquei por completo a visão, a minha intuição e aprendi que ver para crer também é uma opção para saber que há amores que nascem do quase nada.

Sanzalando

22 de junho de 2022

estórinha

Me deu para pedalar por ai, num faz de conta que estou a dar a volta a mim mesmo. Ele faz sol e frio e chuva e... eu só pedalo em direcção a pensamento nenhum. Troco voltas e vou ter sempre a estórias que um dia me contei ou vivi. 
Me lembrei de Maria. Garota sofisticada, rica de sonhos e ambições, plena de qualidades e educação. Tinha um sonho, só se apaixonar quando acabasse de estudar. 
Ele, João, arisco, crescido na idade de miúdo, esperto, inteligente, educado e modesto, desconheço seus sonhos se é que os tinha. Não deixava transparecer a sua revolução interior, a sua revolta constante. Seus olhos aparentemente serenos escondiam suas ambições e o desejo ardente de amar Maria.
Todos os dias se encontravam. Todos os dias se falavam e se pareciam namorados era só parecença. Maria dava atenção quanto baste. João era-lhe cavalheiro, simpático e fazedor de bons momentos de conversa e brincadeira. 
João sofria mas a ninguém ele dizia. Sofreria de depressão se naquela altura ele soubesse o que é que isso significava. Para ele era paixão, pura e simples. Ele morria de amor e ninguém sabia.
Para João, Maria era bela, criativa, exponente máximo dum teorema ainda não consciencializado. Perfume maravilho ele sentia ao lhe olhar. Maria nem imaginava o que ia na cabeça do João. 
Revejo as pedaladas e vejo que esta bicicleta não é minha, esta voltinha não é minha. Eu me contei esta estória e nem faço ideia como acabou, porque simplesmente nem começou.


Sanzalando

#comida


21 de junho de 2022

realidade e imaginação

Sento-me na areia da praia e deixo o meu corpo como se esparramar. Um relaxamento completo. Eu fosse água e depressa era absorvido numa mancha de areia. O calor se tinha abraçado a mim de tal forma que qualquer passo era um sacrifício, qualquer gesto um sofrimento. Eu precisava agora um arrepio de frio para temperar este calor interior que sinto. 
Aqui sentado sinto que as minhas articulações se vão derreter. É o calor e o peso que trago neste corpo. Eu devia ter mais cuidado com o que penso, pois peso na consciência pesa mais que o peso pesado em balança. Esse peso não suportado pelos braços, não altera a postura mas pode alterar a compostura. Eu não devia nem mexer o tapete da minha consciência porque para além de peso ainda levanta pó.
Acho mesmo hoje é melhor eu derreter-me feito água nesta areia de praia que imaginei estar. Às vezes eu já nem sei distinguir a minha imaginação e a realidade. Não me pesa a consciência porque é que eu vou sentir peso? A imaginação é que passou por onde não devia. Porque a realidade é que tem de pagar? 


Sanzalando

20 de junho de 2022

#imbondeiro


as minhas estórias

Eu estava a escrever uma estória. Pelo menos tentava. Ela passava-se na minha cidade quadriculada, feita de régua e esquadro. Uma pessoa ia no passeio, introspectivo era o seu caminhar. Monótono caminhar duma pessoa solitária numa cidade onde nada acontece e onde pouco há para fazer. A pessoa provavelmente até nem tinha amigos da sua idade com quem conversar, rir ou simplesmente estar. Na minha cidade quadriculada não havia sitio para estar a não ser na avenida onde se passeava para cima e para baixo e se cumprimentava os passeantes que por ali passeavam. Era giro ver as caras das pessoas num acenar múltiplo tantas quantas se cruzavam. Mas aquela pessoa não estava na avenida a fazer o seu passeio. Ela caminhava monotonamente, se calhar pela vida. Alguém a chamou porque ela para trás olhou.
Eu ouvi uma pergunta rasgando o silêncio daquele instante:
- comeste alguma coisa?
e a voz tímida da pessoa que caminhava solitária e monotonamente que parecia não ter amigos respondeu:
-não, não tinha fome
voltando-se ao silêncio do caminhar solitário e passada monótona da pessoa que se calhar não tinha amigos e por acaso não tinha fome, dou comigo a pensar que a minha estória até que não tem grande diferença da estória que eu estava a tentar escrever. 
Desisti e tentei me lembrar de todas as ruas da minha cidade quadriculada que não tinha estórias para contar.


Sanzalando

#lugaresincriveis


19 de junho de 2022

eu e ela

Me deixo só embalar nos sonhos que um dia eu tive acordado. Vou dizer é saudade, vou dizer é recordação, vou dizer é memória ou vou dizer é sonho duma noite destas. O que importa é que é. 
Ela corria elegante pela rua, na sua mini-saia folhada de jogar ténis, se calhar com o sr. Maurício, era hora de ir para casa e eu era rosas que via. O branco da roupa contrastava com o moreno do mês de março que ainda perdurava, e eu era rosas que via. O seu cabelo comprido ondulava como se estive no mar e eu olhava especado como se visse sereias.
Acho eu só via passarinhos e borboletas na barriga. Era um quadro lindo se eu tivesse jeito para pintar. Era mais giro se fosse um quadro em movimento. O seu rosto sereno de quem estava neste mundo por puro prazer. E eu sorria feito cara de paisagem.
Ela não me olhou e eu não tirava os olhos dela. Se ela me olhasse eu ia fugir, fugir de mim deixando o meu corpo ali especado feito estátua. Faz tempo o meu cérebro tinha voado dali numa correria atrás dela. 
Um dia eu lhe vou dizer estas coisas e eu sei ela vai dizer eu as inventei na hora de lhe contar. Se calhar até nisso ela tem razão. Ela vai dizer eu enlouquei e me imagino num campo de rosas brancas.


Sanzalando

18 de junho de 2022

eu e a Kitanda


Eu estava a ajudar a tia Laurinda na sua Kitanda. Mesmo em frente da DTA. Eu sonhava andar de avião mas esse dia ia chegar um dia que eu não ia adivinhar. Eu olhava na montra e lá estava o Friendship, que eu procurei no balcão saber o nome próprio e me disseram era o Fokker F27, a fazer-se aos céus. Todos os dias ele trazia os jornais para a minha mãe vender: Jornal do Comércio e o Diário de Luanda. O província de Angola era vendido pelo Bauleth. Mas eu estava a falar de avião e não de jornais porque ainda não tenho idade para acompanhar as notícias que esses papeis trazem. Eu sei que servem também para embrulhar as panelas de arroz que a avó faz. Mas afinal também não estava a falar de aviões porque estava a tentar ajudar a tia Laurinda na Kitanda. Pesar e dar troco. Escolher as coisas é que não dava muito o meu jeito. Era o que estava à mão, mesmo se estavam a protestava que não estava maduro ou estava demais. Sei é que a tia Laurinda comprou uma arca para condicionar frescos os produtos e estava a ser instalado por técnico altamente qualificado, electrecista formado na escola industrial. Tanto fio para apertar, tanto parafuso. E ali diante dos meus olhos se erguia a arca. Assim se fazia acontecer modernidade na kitanda da Tia Laurinda.
É assim a vida. É preciso fazer acontecer.


Sanzalando

#maracujá #frutas


#mangueira


#zulmarinho