Há momentos na vida em que começamos a desconfiar do que aquilo que nos está a acontecer não é simplesmente vida. É literatura. Oral ou escrita. Sonho ou sonhada.
Estou precisamente num desses momentos.
Olho para trás e vejo que a minha vida já tem personagens mais que suficientes para um romance, episódios suficientes para vários capítulos e algumas situações que, se fossem inventadas por um escritor de renome, o editor provavelmente pediria: Menos imaginação, faz favor.
Nasci em Angola, cresci entre o mar, o deserto e aquelas certezas absolutas da infância que duram até ao jantar. Depois viera a adolescência, os sonhos, os namoros que não aconteceram, os que aconteceram e os que talvez tivessem sido melhores se não tivessem acontecido. Vieram os estudos, a Medicina, o Porto, os doentes, a cirurgia, os medos que um cirurgião nunca confessa em voz alta e aquela estranha sensação de que, enquanto estamos ocupados a viver, a vida vai escrevendo por nós.
Agora, sentado numa falésia, olhar o Zulmarinho e retocando tudo isso, penso: isto dava um romance.
O problema é saber quem seria o autor.
Porque há vidas que parecem escritas por um génio e outras que parecem ter sido entregues a um argumentista de telenovela numa sexta-feira à tarde, já com vontade de ir de fim de semana.
A minha tem um pouco das duas coisas.
Há capítulos que eu escreveria de outra maneira. Há personagens que mandaria desaparecer mais cedo. Há outras que gostaria de trazer de volta. E há episódios que, por mais que tente, continuam sem explicação, talvez porque a vida também tem direito aos seus mistérios e segredos.
O mais curioso é que, quando somos jovens, pensamos que a vida é uma história que estamos a começar. Mais tarde percebemos que já vamos a meio do livro e ainda não sabemos qual é o título.
E talvez seja essa a graça.
Hoje, se a minha vida pudesse ser um romance, não seria certamente um romance de aventuras, nem uma história de amor perfeita. Seria antes uma espécie de romance com humor, algumas cicatrizes, muitas memórias e personagens que entraram sem cerimónias.
Teria Angola no primeiro capítulo, o mar de Namibe a aparecer de vez em quando, o Porto como cenário de aprendizagem, a Medicina como profissão e os doentes como professores inesperados.
Teria amores perdidos pelo caminho, amigos que ficaram, outros que se perderam nas curvas do tempo, e uma quantidade razoável de disparates porque a vida sem disparates é certamente uma biografia, não uma vida vivida com alma e coração.
E teria, sobretudo, uma personagem principal que continua sem perceber muito bem o que está a fazer.
Essa personagem sou eu, é claro e talvez por isso ainda não tenha escrito o romance. Como é que eu posso saber o fim? Eu estou à espera do fim e quando ele chegar recebê-lo-ei contrariado, isso é certo que nem a certeza absoluta.
Mas há um problema: cada vez que penso que cheguei ao último capítulo, a vida aparece com uma nova página debaixo do braço e diz:
- Ainda não acabámos.
E eu, que já devia saber que não se discute com a vida, pego na página e continuo.
Afinal, se isto é um romance, pelo menos que tenha uma coisa que os bons romances têm: vontade de chegar ao capítulo seguinte e assim sucessivamente até ao ponto final parágrafo sem travessão.
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