Há pessoas que dizem que não têm tempo para ler. Eu compreendo. Também já tive dias em que não tinha tempo para nada: nem para ler, nem para pensar, nem sequer para procurar os óculos que estavam em cima da minha cabeça.
O problema é que o tempo tem esta mania de nos enganar. Dizemos que não temos tempo e, entretanto, passamos vinte minutos a olhar para o telemóvel, meia hora a ver coisas que amanhã já esquecemos e uma quantidade respeitável de minutos à espera que alguma coisa aconteça.
Para ler, porém, achamos sempre que é preciso uma tarde inteira, uma poltrona confortável, silêncio absoluto e talvez uma chávena de café ao lado. Como se para abrir um livro fosse necessário reservar um hotel, marcar mesa e quem sabe esperar resposta no mail.
Não é.
Às vezes, bastam dez páginas. Ou cinco. Ou duas, se o dia estiver particularmente mal-educado para a gente e não nos respeitar. Tem dias que isso pode acontecer. A gente se chateia com ele e tudo..
Porque ler não é apenas ocupar o tempo. É uma maneira de o multiplicar. Quando leio, entro numa história que aconteceu ontem, hoje ou daqui a cem anos. Conheço pessoas que nunca encontrei, lugares onde nunca estive e ideias que talvez nunca me ocorressem sozinho.
Ler é abrir uma janela. E, melhor ainda, é abrir um caminho.
Talvez seja por isso que os livros têm uma coisa extraordinária, enquanto nós envelhecemos, eles continuam a abrir futuros.
Um livro pode levar-nos para trás, à infância, à juventude, às ruas onde fomos felizes. Mas também pode levar-nos para diante, para aquilo que ainda não sabemos, para perguntas que ainda não fizemos, para futuros que ainda nem sequer imaginámos.
E aqui está uma pequena contradição: dizemos que não temos tempo para ler, precisamente quando mais precisamos de tempo para imaginar o futuro.
Talvez o segredo não seja encontrar tempo para ler.
Talvez seja perceber que ler é uma das melhores maneiras de dar sentido ao tempo que temos.
Porque o relógio só sabe contar horas. Um livro sabe transformá-las em caminhos.
E eu, quando penso que não tenho tempo para ler, lembro-me de uma coisa simples: posso não ter tempo para acabar um livro hoje. Mas tenho, certamente, tempo para abrir uma porta e começo pela primeira página e logo vejo quando fecho.
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