recomeça o futuro sem esquecer o passado

27 de agosto de 2026

ter ou não ter tempo

Há pessoas que dizem que não têm tempo para ler. Eu compreendo. Também já tive dias em que não tinha tempo para nada: nem para ler, nem para pensar, nem sequer para procurar os óculos que estavam em cima da minha cabeça.

O problema é que o tempo tem esta mania de nos enganar. Dizemos que não temos tempo e, entretanto, passamos vinte minutos a olhar para o telemóvel, meia hora a ver coisas que amanhã já esquecemos e uma quantidade respeitável de minutos à espera que alguma coisa aconteça.

Para ler, porém, achamos sempre que é preciso uma tarde inteira, uma poltrona confortável, silêncio absoluto e talvez uma chávena de café ao lado. Como se para abrir um livro fosse necessário reservar um hotel, marcar mesa e quem sabe esperar resposta no mail.

Não é.

Às vezes, bastam dez páginas. Ou cinco. Ou duas, se o dia estiver particularmente mal-educado para a gente e não nos respeitar. Tem dias que isso pode acontecer. A gente se chateia com ele e tudo..

Porque ler não é apenas ocupar o tempo. É uma maneira de o multiplicar. Quando leio, entro numa história que aconteceu ontem, hoje ou daqui a cem anos. Conheço pessoas que nunca encontrei, lugares onde nunca estive e ideias que talvez nunca me ocorressem sozinho.

Ler é abrir uma janela. E, melhor ainda, é abrir um caminho.

Talvez seja por isso que os livros têm uma coisa extraordinária, enquanto nós envelhecemos, eles continuam a abrir futuros.

Um livro pode levar-nos para trás, à infância, à juventude, às ruas onde fomos felizes. Mas também pode levar-nos para diante, para aquilo que ainda não sabemos, para perguntas que ainda não fizemos, para futuros que ainda nem sequer imaginámos.

E aqui está uma pequena contradição: dizemos que não temos tempo para ler, precisamente quando mais precisamos de tempo para imaginar o futuro.

Talvez o segredo não seja encontrar tempo para ler.

Talvez seja perceber que ler é uma das melhores maneiras de dar sentido ao tempo que temos.

Porque o relógio só sabe contar horas. Um livro sabe transformá-las em caminhos.

E eu, quando penso que não tenho tempo para ler, lembro-me de uma coisa simples: posso não ter tempo para acabar um livro hoje. Mas tenho, certamente, tempo para abrir uma porta e começo pela primeira página e logo vejo quando fecho.



Sanzalando

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