recomeça o futuro sem esquecer o passado

28 de agosto de 2026

uma biblioteca

Há lugares onde vamos para fazer coisas. Ao supermercado vamos comprar, ao café vamos beber, ao estádio vamos sofrer e, se a nossa equipa perder, vamos imediatamente procurar culpados. Mas há um lugar onde, aparentemente, não se faz grande coisa. A biblioteca.

Ali não há máquinas de café a fazer barulho, televisões a gritar notícias, nem pessoas a discutir se o árbitro viu ou não viu. Há mesas, cadeiras, livros… e pessoas a pensar. O que, convenhamos, nos dias de hoje, já é uma actividade quase radical para não dizer rara.

Na biblioteca descobrimos uma coisa extraordinária, podemos estar sentados sem estar distraídos.

É verdade que também podemos estar sentados no sofá em casa. Mas aí aparece o telemóvel. Depois uma mensagem. Depois outra. Depois uma notícia que não pedimos. Depois um vídeo de um gato que sabe abrir uma porta. E, quando damos por nós, passaram duas horas e não sabemos absolutamente nada sobre a nossa própria vida, mas sabemos que o gato abriu a porta.

Na biblioteca é diferente. Pegamos num livro. Abrimos. E começamos a pensar. Pensar é uma actividade curiosa. Não faz barulho, não ocupa espaço e não precisa de carga nem ligar à eletricidade. E, pior ainda, não tem botão para desligar.

Um livro pode fazer-nos pensar sobre uma personagem, uma ideia, uma época, uma injustiça, um amor ou até sobre nós próprios. É talvez por isso que algumas pessoas têm medo das bibliotecas. Porque numa biblioteca ninguém nos diz exactamente o que devemos pensar.

Um livro apenas abre a porta. Depois somos nós que entramos.

E há livros que nos levam para lugares onde nunca estivemos. Outros levam-nos para lugares onde já estivemos, mas que tínhamos esquecido. E alguns, mais atrevidos, levam-nos directamente para dentro da nossa cabeça. A biblioteca é, por isso, um lugar de silêncio, mas não é um silêncio vazio. É um silêncio cheio de vozes. As vozes dos escritores, dos personagens, dos poetas, dos que viveram antes de nós e dos que imaginaram mundos que ainda não existem.

Podemos parar. Ler. Pensar. Voltar atrás. Discordar. Mudar de ideias. E até descobrir que estávamos enganados, uma experiência cada vez mais rara, porque hoje parece que toda a gente nasce já com opinião definitiva sobre tudo.

Na biblioteca, pelo contrário, podemos ter uma dúvida. E uma dúvida, às vezes, vale mais do que uma certeza mal pensada. Por isso gosto das bibliotecas.

São lugares onde se guardam livros, mas também onde se guarda uma coisa ainda mais importante, tempo para pensar. E talvez seja por isso que, quando entro numa biblioteca, sinto que estou a entrar num lugar muito especial. Um lugar onde o silêncio não manda calar ninguém. Pelo contrário. O silêncio dá-nos finalmente oportunidade para ouvir aquilo que pensamos. E, nos tempos que correm, isso já é um luxo. Ou, melhor ainda, uma pequena revolução. Uma revolução feita de livros, silêncio e cadeiras.



Sanzalando

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