Eu tinha um plano e disse-o à minha mãe:
- Vou às hortas. Chegou a hora de ver o que consumirmos, de ter contacto com a terra, de ver a comunhão da natureza com o que comemos. Não foi exactamente assim porque naquela altura eu não sabia falar caro e tão claro. O meu português era mais suave, mais oral. Mas agora eu aprendi e conto com as palavras de hoje, mas com o pensamento de então.
Ela olhou para mim por cima dos óculos. Não disse uma palavra, mas o olhar trazia uns tantos anos de sabedoria acumulada sobre as minhas fases. Já tinha sido a fase da pão e a fase do aquário. Agora era a horta.
Peguei na bicicleta e lá fui em direcção ao Bero, à horta do Sr. Carriço. Ele tinha acabado de sair, Levou coisas para o mercado, me disseram. O ar fresco do campo parecia prometer um dia bem passado. À minha frente, estendia-se um mar verde. Um mar verde profundamente misterioso, onde para mim tudo parecia rigorosamente a mesma coisa - ervas com folhas.
- Bom, vou começar pelo básico - declarei, agachando-me junto a um canteiro com ar entendido. Olha para o vigor destas folhas! Isto sim, é uma alface biológica de primeira categoria.- Foi o que eu pensei mas para afastar mau-olhado não disse nada.
- Isso é salsa, menino — disse o capataz parecendo que estava a ler o que eu tinha pensado
- Salsa graúda - disse eu rapidamente, para manter o meu prestígio.
Aproximei-me de um arbusto que me pareceu ter potencial gastronómico. Tinha umas coisas penduradas que me pareceram, sem margem para dúvidas, pequenos frutos em gestação.
- Vejam só! Belos frutos! Quem diria que a terra aqui é tão fértil?
O capataz riu, apoiou-se no pau que trazia sempre, olhou para mim, cuspiu para o lado e disse:
- Isso são tomates. E ainda estão verdes. Se comer isso agora, passa a noite a falar com o cagatório.
Agradeci a dica técnica com um aceno digno e mudei de sector. Decidi que o meu forte seriam os tubérculos. Os tubérculos não enganam: estão debaixo da terra, ninguém vê, logo a probabilidade de eu passar vergonha diminuía drasticamente.
Encontrei umas ramagens verdes a sair do chão.
- Cenouras! - disse triunfalmente. - Sinto o cheiro a cenoura daqui!
Agarrei nos ramos com a determinação de um agricultor ancestral e puxei com toda a força. Saí disparado para trás, caí de costas em cima de um calhau e fiquei a olhar para o troféu na minha mão: uma raiz miserável, do tamanho de um palito, acompanhada por um carolo minúsculo e atrofiado que parecia pedir-me desculpa por existir.
O capataz abanou a cabeça, coçou a testa e comentou para o ar:
- Arrancou erva... Isso nem para os coelhos serve.
- Estava a testar a resistência do solo — justifiquei-me, limpando a terra das calções e tentando recuperar a postura.
Voltei para casa. No caminho, passei pela quitanda da Laurinda, olhei bem para uma alface verdadeira, toquei nos tomates que eu pensava já nasciam vermelhos e prometi a mim mesmo que a minha próxima comunhão com a terra seria, exclusivamente, através de um bom prato de sopa servido à mesa pela minha mãe, sem certificado de origem.
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