recomeça o futuro sem esquecer o passado

27 de setembro de 2026

Pertinências 28 - 2º Episódio de Há Fado na Lota , com Custódio Castelo e Ana Paula Martins

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 28 - Há Fado na Lota - 2ª noite com Custódio Castelo e Ana Paula Martins

O Museu de Portimão organiza na Lota Sábados de Fado à noite. Assim, é pertinente, depois de ver uma sala cheíssima, levar até quem não teve lugar, não pode ir pelas mais variadas razões, o que ali se passou.
















Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências. Mesmo que as palavras sejam sons de guitarra e viola


Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também. 


Imperdível



Sanzalando

Fui passear na avenida e dei-me bem

O sol do final de tarde batia na terra vermelha da avenida, mas a verdadeira luz vinha do fato de domingo do meu avô, um azul-petróleo de pano tão rijo, que acho que se o avô se dissolvesse no ar como que por magia, o fato continuava de pé, sozinho, a cumprimentar os passeantes. Corria o ano de 1970, mais coisa menos coisa, e passear na avenida com os meus avós não era um mero exercício físico nem obrigação social, era um desfile militar de etiqueta, vaidade e absoluta desconfiança em relação ao futuro.

O meu avô, sereno e sério, caminhava com a postura de quem tinha fundado o concelho, usando o cabelo grisalho penteado para trás, com brilhantina, sapato de verniz que no fim ia ficar parecia era tijolo, costas direitas, olhos abertos como que a olhar para dentro das pessoas. Não era maldade ne, estava zangado com o mundo. Era só mesmo a pose natural de ser dele. Ao seu lado, a minha avó desfilava de permanente impecável, feita no sábado no salão da D. Carlota, e eu achava que ela dormia sentada para não despentear aquela estrutura arquitetónica à prova de furacões e ventos vespertinos, segurava a mala delicadamente na mão contrária ao lugar do meu avô. D. Leovegilda era primorosa na seu fato de xadrez branco e preto

A avenida em 1970 era o epicentro do choque geracional. De um lado, rapazes de cabelos compridos e patilhas gigantescas para além das calças à boca-de-sino que pareciam varrer a areia vermelha bem pisada à sua passagem. Do outro, o meu avô, que olhava para aquelas bainhas voadoras com o desgosto de quem prevê o fim da civilização. 

- Olha para aquilo -  resmungava ele tocando-me no ombro - gastam o dobro do tecido para parecerem um sino de igreja e nem um nó de gravata sabem fazer!

Cada dez metros, pelo menos na minha cabeça, exigiam uma paragem estratégica para uma saudação protocolar. O meu avô levantava acenava a cabeça com uma precisão cirúrgica. 

- Muito bom dia, Sr. Doutor! Como está minha senhora. - para a senhora que ele sabia perfeitamente ter falado mal da nossa família em 1958 ou mesmo antes de eu ter nascido. Mas ele não tinha zangas, nem amuos, nem maus fígados.

A minha avó, pelo seu lado, desempenhava o papel de radar de intriga social. Não olhava em frente; olhava na diagonal, medindo a bainha dos vestidos das vizinhas e descobrindo escândalos através do movimento das cortinas das janelas. 

- Viste a filha do barbeiro?-  cochichava ela sem mover os lábios para a minha mãe  que caminhava do lado da mala da minha avó. Acho eu que esta técnica de falar baixinho tinha sido apurada nos muitos anos de rezar o terço. - Olha aquela, trouxe uma saia dois dedos acima do joelho. O pai deve estar cego.

O ponto alto da expedição era sentar num banco corrido, de baixo do caramanchão de buganvílias que bordavam um dos lados da avenida. Ali iam passar todos os que iam e vinham nos domingos de tarde no seu passeio pela avenida. A minha mãe, provocadora estava alerta para mais uma qualquer brincadeira com uma sua amiga que estava descuidadamente a passear. Era susto sobre susto. E ainda por cima ria enquanto me olhava.

- Mãe, isso não se faz. As pessoas podem ficar gagas! - repreendia eu a minha mãe. Mais ela fazia. 

Passear na avenida em 1970 com os meus avós era a garantia de que o mundo podia estar a mudar a um ritmo vertiginoso lá fora, mas ali, entre quem ia de norte para sul ou vice versa, a autoridade máxima continuava nas mãos de quem guardava rebuçados de mentol no bolso do colete, o meu avô.



Sanzalando

26 de setembro de 2026

Bom Doa Mercado 19 - 26 de Setembro de 2026





Programa de Rádio feito no Mercado de Portimão, ao vivo hoje, 26 de Setembro de 2026.
Convidados e música ao vivo. Tal e qual foi feito

Ouça-nos tal e qual lá estivemos







Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

25 de setembro de 2026

Fui e sou eu na essência de mim

A fita do gravador de cassetes estava a reproduzir o Rock da Stock que tinha gravado directamente do rádio, enquanto a névoa característica do Porto insistia em entrar pelas frestas da janela do lar onde morava com uma outra dúzia de deslocados. 

Em 1980, o Porto não era uma cidade para fracos de coração, nem para estudantes de Medicina sem um sentido de humor à prova de aulas de Anatomia às oito da manhã.

Eu tinha vinte e poucos anos, o peito cheio de sonhos e a cabeça cheia de planos que raramente sobreviviam ao primeiro copo de vinho. A Medicina era o meu objetivo supremo, uma espécie de farol luminoso que me atraía com a promessa solene de salvar vidas, vestir um fato branco de bom corte e olhar para radiografias com um ar de quem decifra os segredos do universo. Eu ia ser um daqueles que sabe tudo só de olhar.

O problema é que, entre a teoria e a prática, metia-se a vida. E a vida no Porto, naquele ano de 1980, era incomparavelmente mais sedutora do que os livros infindáveis de Anatomia Humana, Patologia e outras ias que ainda não eram artificiais.

Lembro-me perfeitamente das semanas de campanha para a Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina. Enquanto alguns colegas encaravam a política académica com a gravidade de um conselho de ministros em plena crise governamental, eu descobri que ser jovem e ter piada era uma excelente ferramenta diplomática. Fazer uma piada bem metida no momento certo valia mais do que dez panfletos doutrinários impressos numa policopiadora  (stencil?) de qualidade duvidosa. Na verdade, suspeito que metade dos votos que recebi na altura não foram pela minha visão para o associativismo, mas porque devo ter prometido tentar garantir uma distribuição mais equitativa de rissóis e croquetes no bar da faculdade.

A minha rotina dividia-se num equilíbrio precário: de manhã, tentava memorizar a fisionomia do plexo braquial; à tarde, debatia a cotação das francesinhas; à noite, discutia-se a revolução, a música, os amores impossíveis e as notas que teimavam em não subir. Os meus cadernos de apontamentos eram um monumento ao surrealismo, nas margens onde deviam estar esquemas do sistema nervoso central, havia caricaturas de professores, rascunhos de crónicas que nunca cheguei a enviar para o jornal e poemas dedicados a meninas que nem sabiam que eu existia.

Havia qualquer coisa de profundamente mágico naqueles dias cinzentos da Invicta. A humidade entranhava-se-me nos ossos, mas a juventude tratava de aquecer o resto. Olhava para os meus colegas mais dedicados, aqueles que pareciam ter nascido com um estetoscópio ao pescoço e sentia uma ponta e admiração misturada com um enorme alívio por não conseguir ser como eles. Eu queria ser médico, sim, mas não queria que a Medicina engolisse o rapaz engraçado que gostava de ver a vida a acontecer fora do anfiteatro e das enfermarias que cheiravam a tintura de iodo ou mercuruiocrómo. 

Afinal de contas, a Medicina podia ser o sonho que me trouxera até àquelas alamedas frias do Hospital de São João, mas a vida com o seu barulho, a sua desordem, a sua ironia e as suas noites infinitas essa sim, era o meu verdadeiro lugar. E, olhando para trás, acho que foi exatamente essa vida que me ensinou tudo o que a faculdade não conseguia pôr nos livros.

E com tudo isto passaram-se 46 anos, mais coisa menos coisa, não fui o que pensei, mas cheguei lá bem perto e ainda tenho a vida que vivo e que é o meu verdadeiro lugar. 



Sanzalando

24 de setembro de 2026

à conversa com o tempo

Quando eu estava noutra latitude não tinha esse de verão, outono ou primavera. Fazia calor ou cacimbava. Era simples. Mudei latitude e se complicaram as voltas e dou comigo com esse de outono ameaça a bater à porta, mas me recuso a arrumar a toalha de praia. Para mim, o final de setembro na praia não é uma simples mudança de estação, é um retiro espiritual que dura esse de outono e inverno. Me acinzento.

Agora me sento no areal praticamente deserto, ajusto os óculos de sol já ligeiramente tortos da sua idade e suspiro com uma sonoridade poética. O mar de fim de verão ganha uma transparência nostálgica, como se guardasse nos murmúrios da água o segredo de todos os dias quentes. E vêm-me à memória outros mares, outros azuis, outras gentes.

- Pá, podes parar de falar sozinho? Estás a assustar as gaivotas — resmungou alguém que me era totalmente invisível, talvez fosse só a minha consciência. E ainda disse mais:

- Vieste para aqui apanhar uma pneumonia ou quê?

Ninguém percebe a minha sensibilidade. Mantendo o olhar fixo no horizonte fico com uma serenidade mágica na praia. Quando as multidões desaparecem e o mar volta a ser apenas sopro, espuma, imensidão e marulhar com sabor a maresia.

Não a bola de Berlim, não há a gastronomia da marmita da salada fria, da geleira de esferovite, do toldo ou sombrinha a cortar o olhar. Inspiro fundo, fecho os olhos e se tivesse cultura viajava se calhar até à Grécia antiga, mas sendo assim fico-me pela minha adolescência, pelo ardor do pica-pica, pela saudade dos meus dotes atléticos, pelo meu tempo em que tinha tempo e agora vejo que ele se encurta em cada onda de sonho. Aqui consigo conversar com o tempo.


Sanzalando

23 de setembro de 2026

Balada dos Homens que Sonham - antologia dos contos angolanos - K'arranca às Quartas 133


Sanzalando

Esta Música tem uma História 72 - Jorge Palma - A Gente Vai Continuar - K'arranca às Quartas


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 107 - Alice Amaro - K'arranca às Quartas 133


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (31) - K'arranca às Quartas 133


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (38) - K'arranca às Quartas 133


Sanzalando

Crónica 120 - K'arranca às Quartas 133


Sanzalando

Programa 133 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 09 de Setembro de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é
 Esta Música tem uma história Jorge Palma e Isto vai Continuarnuma colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais com Alice Amaro
Carlos Osório falou do VOLTA e das voltas da vida
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas continuou a falar da poesia de Cabo Verde 
 No livro falei  Balada dos Homens que Sonham, antologia do conto angolano , de António Quino
COMO TEMA - ALGUMAS PALAVRAS DO PORTUGUÊS

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Eu, menino, queria ser grande

Nos anos 70, eu, menino, tinha muita pressa de crescer. Não era uma pressa qualquer. Era uma espécie de urgência. Queria ser grande para poder fazer tudo aquilo que os adultos faziam, ficar acordado até tarde, conduzir um carro, entrar num café sem ninguém perguntar se já tinha feito os trabalhos de casa e, sobretudo, apaixonar-se sem ter de esconder a paixão atrás de uma bola, de uma ida à mercearia ou fazer piruetas na rádio para ser notado. Naquele tempo, ser adulto parecia-me mesmo ser uma profissão muito interessante. Os adultos tinham dinheiro no bolso, chaves de casa, relógio no pulso e uma autoridade que parecia vir incluída no estatuto.

Eu olhava para eles e pensava:

- Quando eu for grande, vou ser assim.

Não sabia ainda que alguns adultos passavam a vida a procurar as chaves que tinham acabado de pousar em cima da mesa. Nem que o dinheiro desaparecia misteriosamente. Nem que o relógio servia para perceber que já estava atrasado. 

Mas havia outra coisa que eu queria experimentar: o amor. E aí começou cedo. Muito cedo. Tive a primeira paixão platónica por uma menina que provavelmente nem sabia da minha existência. Eu sabia tudo sobre ela. Sabia como ela prendia o cabelo, que carteira levava para a escola e até a hora aproximada a que aparecia à janela. Ela, em contrapartida, sabia apenas que havia um rapaz que passava muitas vezes naquela rua. Era uma relação profunda, pelo menos da minha parte.

Depois vieram outras paixões. Houve uma por uma colega de escola que me sorriu duas vezes. Duas vezes! Na minha cabeça, aquilo já era praticamente um noivado. Passei três noites a imaginar o futuro. Na primeira, cassávamos. Na segunda, tínhamos filhos. Na terceira, discutiamos porque eu tinha deixado as meias no chão, a sala desarrumada. Tudo isto sem ela ter sequer sido informada do romance.

Foi então que descobri uma das primeiras grandes leis da vida - o amor pode ser platónico, mas a concorrência é muito concreta. E assim fui crescendo, entre paixões impossíveis, bilhetes nunca entregues, olhares interpretados como declarações de amor e algumas tentativas que acabaram desconseguidas. Uma delas foi particularmente educativa. Criei coragem, aproximei-me da rapariga de quem gostava e, depois de vários minutos a ensaiar mentalmente uma frase brilhante, conseguiu dizer:

- Queres ir comigo ao cinema?

Ela olhou para mim. Sorriu. E respondeu:

- Com quem?

Foi nesse momento que percebi que, afinal, ainda precisava de crescer bastante. O tempo passou. Cresci. Tirei a carta, estudei, fui trabalhar, tomei decisões, paguei contas e percebi que os adultos não tinham assim tanta certeza sobre aquilo que estavam a fazer. Olhei para trás e percebei uma coisa curiosa - tinha conseguido ser grande. Era aquilo que tinha desejado desde a infância. Era adulto, tinha responsabilidades, tinha histórias, tinha algumas cicatrizes, tinha amores que deram certo, outros que deram errado e alguns que nem chegaram a dar. Mas  tinha conhecido pessoas que ficaram e outras que desapareceram como certas paixões de adolescência: sem deixar morada para correspondência e então percebi a grande ironia, quando era pequeno, imaginava que ser grande era deixar de ter dúvidas agora sabia que ser grande era aprender a viver com elas. Imaginava que os adultos sabiam sempre o caminho mas descobri que muitos andavam com o mapa ao contrário, imaginava que o amor seria simples e descobriu que algumas paixões precisavam apenas de coragem, outras de sorte e algumas, francamente, precisavam de um milagre. E, sobretudo, imaginava que quando fosse grande deixaria de ser aquele menino. Enganei-me. O menino continua cá. Continuo a apaixonar-me por coisas impossíveis, embora agora tenha mais experiência para reconhecer o perigo. Continuo a sonhar, a olhar para o mundo com alguma curiosidade e, de vez em quando, ainda penso:

- Se eu tivesse vinte anos...

Hoje, quando recordo aquele menino dos anos 70, não sei se lhe diria para ter mais pressa ou mais calma. Talvez lhe dissesse simplesmente:

- Aproveita, porque vais crescer, vais ser grande, vais apaixonar-te, vais desapaixonar-te, vais acertar, vais fazer asneiras, vais conhecer pessoas extraordinárias e outras que devias ter conhecido apenas por fotografia. E vais descobrir que a vida adulta não é o lugar onde os sonhos acabam. É o lugar onde finalmente percebemos que alguns sonhos eram mesmo para cumprir.


Sanzalando

22 de setembro de 2026

e às vezes assim se fazia rádio

Dizem que a história é escrita pelos vencedores, mas, na Angola dos anos 1970, a história da música também foi gravada por corajosos miúdos e sonoplastas cúmplices que mereciam, no mínimo, um monumento ao microfone.

Para o cidadão comum, o rádio da época era um aparelho sagrado. Ligava-se e ouvia-se o que a censura ou a ordem vigente mandavam. Tudo muito formal, muito certinho, muito "boa noite, caros ouvintes". Mas o que ninguém contava era que, assim que o sol se punha e o chefe da estação ia para casa dormir o sono dos justos, o estúdio de rádio mudava de dono. À meia-noite, a emissora virava um quartel-general da clandestinidade musical.

Imaginem a cena da porta da rádio a ranger devagarinho e, de repente, entram às escondidas três ou quatro músicos carregando uma viola com o braço meio empenado, uma dikanza feito à pressa e um batuque improvisado. O técnico de som, com cara de quem não está a ver nada mas a controlar todos os botões, dava o sinal:

- Malta, o chefe só volta às sete da manhã. Temos cinco horas para gravar a revolução!

Gravava-se nas condições mais surreais do mundo. Não havia cá isolamento acústico de última geração; o isolamento era o silêncio da noite. Se um cão ranhoso resolvesse latir lá fora a meio do refrão, o latido virava ritmo. Se alguém tossisse, repetia-se. A fita estava ali a metro. Microfones eram dois. 

Então, a resistência fazia-se em metáforas culinárias e amorosas. Cantava-se sobre uma vizinha refilona que "não deixava a panela ferver", mas toda a gente na cidade sabia perfeitamente que a "panela" era o país e a "vizinha" era a cusca que bufava no bufo. Era o único país do mundo onde uma canção sobre um prato de moamba podia fazer o poder tremer nas bases.

Assim que a fita magnética terminava de rodar, o milagre acontecia. A bobina clandestina era guardada a sete chaves e no dia certo, que era o domingo de manhã, a gente passava uma ou outra.

E no dia seguinte, quando a rádio começava a emitir, a magia da cumplicidade estava feita e o recado na mesa do director estava a reclamação.

- Mas não temos cá essa música. Quem é o autor? - através do silêncio o segredo era mantido e o pobre do sonoplasta assobiava para o lado para não se denunciar. - Os gajos da censura são doidos e fazem cada confusão.

Domingo seguinte lá estava mais uma das músicas gravadas nas tantas da noite. Desta vez foi Zeca Afonso na versão do Beto. Mas os vampiros não disseram nada.

A rádio e os oficiais pensavam que controlavam o ar, mas os músicos amadores dos anos 70 provaram que a noite sempre foi do ritmo. E se a censura tinha as armas, a madrugada tinha as melhores guitarras.



Sanzalando

21 de setembro de 2026

hoje fui ao hóquei

O sol das 6 da tarde em Moçâmedes já não queimava, mas o chão do ringue do Atlético já fumegava como uma frigideira de ferro antevendo um jogo de ferro em brasa depois das 9 da soite. Na bancada, a assistência ia-se acomodando entre um copo de cerveja bem gelado, tremoços e um burburinho carregado de certezas táticas que envergonhariam qualquer treinador lá da metrópole.

Mas o verdadeiro espetáculo não era a táctica. Era a convivência entre a gravidade do desporto e a total falta de condições para a praticar com solenidade perante aquele público que merecia uma casa maior.

Nos anos 70, o hóquei em patins em Moçâmedes era uma mistura fina de arte, velocidade e perigo iminente. A começar pelas patins. As rodas, gastas por mil quilómetros de cimento abrasivo, dividiam-se entre as que ainda giravam e as que protestavam a cada curva com um guincho que parecia o de um animal assustado. O material vinha de longe, durava anos a mais e recebia reparações caseiras com fita cola, massa concistente, arame de fardo e uma dose generosa de fé.

O jogo começava, e o piso de cimento tinha regras próprias. Havia o tal buraco do lado esquerdo da baliza do lado do mar, um pequeno desnível no piso que todos os jogadores locais conheciam de cor. A equipa da casa jogava sempre com esse conhecimento estratégico, bastava empurrar a bola na direção do buraco para que ele ganhasse uma trajetória doida, saltando por cima do stick do defesa visitante, enganado tolos e acessórios. Quando o árbitro apitava e os visitantes protestavam, a resposta do público era em coro: 

- É o vento do mar, pá! Aprende a ler as correntes!

Depois, havia os equipamentos. As caneleiras eram rijas como tábuas de pinho e as luvas de cabedal tinham um cheiro tão intenso a suor e mofo antigo que funcionavam quase como arma de arremesso. Defender um remate de meia-distância com o peito exigia mais coragem do que ir à pesca, até porque o equipamento de proteção do guarda-redes parecia montado com sobras de almofadas e mantas velhas.

O ponto alto da tarde, contudo, dava-se quando, uma figura local que se auto-proclamara cronometrista oficial, perdia a cabeça com uma decisão do árbitro. Sem relógio eletrónico — apenas um cronómetro de bolso que já tinha pertencido ao seu avô, ele gesticulava tanto com os braços nas jogadas polémicas que o tempo regulamentar passava a ser uma questão puramente subjetiva. 

- Quanto tempo falta?! - gritava o treinador de fora. 

- Falta o tempo que for preciso para a gente empatar isto! - respondia ele com toda a serenidade institucional.

E no fim, ganhasse quem ganhasse, o protocolo era sagrado. Desatavam-se as correias de cabedal, descalçavam-se as botas pesadas, ficavam os pés a respirar a brisa da noite e a discussão continuava, agora com o mesmo ardor, mas com uma cerveja na mão e o som das muitas vozes ao fundo. Porque em Moçâmedes, o hóquei podia não ter os requintes dos rinques europeus, mas tinha algo muito melhor: o charme inconfundível do improviso, da poeira e da boa gargalhada no final do jogo e os encontros no bar do Sporting.



Sanzalando

19 de setembro de 2026

PERTINÊNCIAS 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota

O Museu de Portimão organiza na Lota Sábados de Fado à noite. Assim, é pertinente, depois de ver uma sala cheíssima, levar até quem não teve lugar, não pode ir pelas mais variadas razões, o que ali se passou.
Neste 1º temos uma parte com a Abertura da Exposição O que é o Fado, que contou com a presença de fadistas, tendo uma chegado a cantar num barco - a moira - e outra a cantar na Janela da Antiga Lota, para além das palavras da Directora do Museu, Do Dr. Paulo Félix, curador da exposição e sua Exa. Sr. Presidente da Càmara. Depois temos então toda a primeira noite de Fado do Há Fado na Lota, com Rafael Pacheco e seus convidados







Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências. Mesmo que as palavras sejam sons de guitarra e viola


Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também. 


Imperdível



Sanzalando

Fui às Hortas

Eu tinha um plano e disse-o à minha mãe:

- Vou às hortas. Chegou a hora de ver o que consumirmos, de ter contacto com a terra, de ver a comunhão da natureza com o que comemos. Não foi exactamente assim porque naquela altura eu não sabia falar caro e tão claro. O meu português era mais suave, mais oral. Mas agora eu aprendi e conto com as palavras de hoje, mas com o pensamento de então.

Ela olhou para mim por cima dos óculos. Não disse uma palavra, mas o olhar trazia uns tantos anos de sabedoria acumulada sobre as minhas fases. Já tinha sido a fase da pão e a fase do aquário. Agora era a horta.

Peguei na bicicleta e lá fui em direcção ao Bero, à horta do Sr. Carriço. Ele tinha acabado de sair, Levou coisas para o mercado, me disseram. O ar fresco do campo parecia prometer um dia bem passado. À minha frente, estendia-se um mar verde. Um mar verde profundamente misterioso, onde para mim tudo parecia rigorosamente a mesma coisa - ervas com folhas.

- Bom, vou começar pelo básico - declarei, agachando-me junto a um canteiro com ar entendido. Olha para o vigor destas folhas! Isto sim, é uma alface biológica de primeira categoria.- Foi o que eu pensei mas para afastar mau-olhado não disse nada.

- Isso é salsa, menino — disse o capataz parecendo que estava a ler o que eu tinha pensado

- Salsa graúda - disse eu rapidamente, para manter o meu prestígio.

Aproximei-me de um arbusto que me pareceu ter potencial gastronómico. Tinha umas coisas penduradas que me pareceram, sem margem para dúvidas, pequenos frutos em gestação.

- Vejam só! Belos frutos! Quem diria que a terra aqui é tão fértil?

O capataz riu, apoiou-se no pau que trazia sempre, olhou para mim, cuspiu para o lado e disse: 

- Isso são tomates. E ainda estão verdes. Se comer isso agora, passa a noite a falar com o cagatório.

Agradeci a dica técnica com um aceno digno e mudei de sector. Decidi que o meu forte seriam os tubérculos. Os tubérculos não enganam: estão debaixo da terra, ninguém vê, logo a probabilidade de eu passar vergonha diminuía drasticamente.

Encontrei umas ramagens verdes a sair do chão. 

- Cenouras! - disse triunfalmente. - Sinto o cheiro a cenoura daqui!

Agarrei nos ramos com a determinação de um agricultor ancestral e puxei com toda a força. Saí disparado para trás, caí de costas em cima de um calhau e fiquei a olhar para o troféu na minha mão: uma raiz miserável, do tamanho de um palito, acompanhada por um carolo minúsculo e atrofiado que parecia pedir-me desculpa por existir.

O capataz abanou a cabeça, coçou a testa e comentou para o ar: 

- Arrancou erva... Isso nem para os coelhos serve.

- Estava a testar a resistência do solo — justifiquei-me, limpando a terra das calções e tentando recuperar a postura.

Voltei para casa. No caminho, passei pela quitanda da Laurinda, olhei bem para uma alface verdadeira, toquei nos tomates que eu pensava já nasciam vermelhos e prometi a mim mesmo que a minha próxima comunhão com a terra seria, exclusivamente, através de um bom prato de sopa servido à mesa pela minha mãe, sem certificado de origem.


Sanzalando

18 de setembro de 2026

Uma hora de rock em 1972 - Formula POP

Em 1972, fazer um programa de rádio de uma hora dedicado ao rock era uma coisa muito séria. E a gente fazia. Quando cheguei na rádio já lhe tinham começado faz tempo. Partiram para ir estudar fora e novos fomos entrando. Uns mais tempo, outros menos tempo, mas o programa diário se mantinha. Mas era sério mesmo que a gente ainda não parecesse ser. Tão séria que, antes de começar, era preciso ter a certeza de que ninguém em casa tinha decidido ir passear, que o vizinho não estava a partir uma parede e a mãe não tinha resolvido chamar para ir comprar pão. 

Porque uma hora de rock, em 1972, não era simplesmente uma hora. Era uma missão. Cada um chegava à rádio com uma pilha de discos debaixo do braço, alguns cuidadosamente escolhidos e outros que tinham aparecido sabe-se lá de onde. Vinil preto, capas grandes, fotografias de músicos com cabelos compridos e expressões que pareciam dizer:

- Nós sabemos uma coisa que vocês ainda não sabem. Eu tenho este que mais ninguém por aqui tem!

Eu também queria parecer que sabia e que tinha. Não sabia e não tinha. Rock não era a minha escolha de compra. Balada sim. Mas aquela hora era de rock e por isso se chamava Formula Pop. Eu só tinha um microfone à frente, um prato de gira discos de cada lado e muita fé em fazer. E isso dava-me uma certa autoridade. 

O programa começava com uma voz muito séria e que dizia qualquer coisa como -Boa tarde. Está no ar mais uma hora dedicada ao melhor do rock... Dizer "rock" ao microfone em 1972 fazia-nos sentir quase revolucionários. Depois vinha a música. E que música! Os discos rodavam no gira-discos da rádio e, durante alguns minutos, ninguém falava. O locutor ficava a olhar para o ponteiro, atento à agulha.  Um risco no disco e lá vinha um crac, para além de ter de justificar ao dono o que é que tinha acontecido e era uma carga de trabalhos.

Outro risco e outro crac. Mas esse crac já tinha vindo de casa assim. Era de ter sido tanto tocado, tanto emprestado que acho se gastou, dizia para me animar. Mas ninguém reclamava. Era rock. E o rock, naquele tempo, tinha direito a tudo. Entre uma música e outra, era preciso falar. Essa era a parte perigosa. De vez em quando saía argolada porque o disco estava trocado na capa.

- E acabámos de ouvir esta magnífica banda... - Pausa. Olhar para a capa do disco. - ...que dispensa apresentações. Porque a gente tinha dado com a marosca. Mas fechado o microfone saía palavrão contra o autor que normalmente não era o dono do disco. Era uma frase maravilhosa - que dispensa apresentações -  Servia para tudo, principalmente quando nós próprios não sabíamos muito bem quem eram. Depois anunciávamos a próxima:

- E agora, vamos ouvir mais um grande tema...

Mais uma vez, a solução universal. Uma hora inteira dava para dizer "grande tema" umas quinze vezes sem ninguém notar. O problema era o relógio. Uma hora de rádio parecia muito tempo antes do programa começar. Depois, já com vinte minutos de música, descobríamos que afinal uma hora passava depressa como um solo de guitarra. E ainda faltavam três discos. Começávamos então a cortar.

- Este tema fica para uma próxima emissão... Era mentira. Nunca mais nos lembrávamos na próxima emissão. Mas ficava bem, isso ficava. Dava aspecto de continuidade.

Acabado o programa lá fora continuava tudo igual. Os carros, as pessoas, as preocupações, os vizinhos e o mundo. Mas durante uma hora tínhamos conseguido uma coisa extraordinária, em 1972, dentro daquela pequena rádio, o mundo tinha cabido num gira-discos.

E o mais curioso é que, quando hoje penso nessa hora de rock, já não me lembro apenas das músicas. Lembro-me do cheiro dos discos, do ruído da agulha, das capas enormes, do medo de deixar o silêncio entrar no ar e daquela sensação maravilhosa de estar a fazer rádio quando fazer rádio ainda parecia uma aventura. Uma hora. Sessenta minutos. E uma quantidade de rock suficiente para convencer qualquer rapaz de 1972 de que o futuro, afinal, podia ter uma guitarra elétrica.

Ao Maló, Van Der Kellen, Carlos Matias e o disco cracou na hora de dizer mais nomes. Talvez o Luís Mendes se lembre.


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16 de setembro de 2026

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