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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
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- Pertinências 3 - "A Mulher (e as mulheres) segundo Fernando Pessoa"
- Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair
- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
- Pertinências 6 - Escritores algarvios
- Pertinências 7 - Equipes de Rua - GRATO
- Pertinências 8 - Rastreio e Prevenção do cancro do colon e recto
- PERTINÊNCIAS 9 - Enredados nas Palavras - Dulce Maria Cardoso
- PERTINÊNCIAS 10 - H(á) Mercado - Brasa Doirada
- PERTINÊNCIAS 11
- PERTINÊNCIAS 12
- PERTINÊNCIAS 13 - Por Dentro do CHEGA
- Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião
- Pertinências 15
- Pertinências 16 - As Abelhas
- Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"
- Pertinências 18 - James McSill
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- Pertinências 21 - O Grande Võrtice da Desinformação
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- Pertinências 23 - Jornalismo de Investigação
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- Pertinências 25 - Júlia Domingues e João Ventura
- Pertinências 26 - A Música na Feira do Lovro em Portimão 2926
- Pertinèncias 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)
6 de outubro de 2026
Três velhas à conversa
5 de outubro de 2026
chuva triste ou nada disso
Foi numa terça-feira cinzenta, daquelas que tanto podia ser quinta como sexta, daquelas em que o céu veste o fato de treino mais velho e gasto que tem no armário, que a cidade inteira se preparou para o melodrama.
O boletim meteorológico não deixava margem para dúvidas. O senhor no rádio disse-o com graves na voz. A voz dele, solene e melodramática, anunciava uma depressão isolada de alto rendimento emocional. Prometia chuva. Mas não uma chuva qualquer, daquelas que regam as alfaces e lavam os carros de graça. Não. Seria uma chuva quase triste, como eram sempre as chuvas na minha terra. Uma chuva de alagar a esquina dos Fonsecas.
Às três da tarde, o cenário estava montado. As nuvens arrastavam-se baixas, com um ar vagamente trágico, como quem vai a um velório de alguém que nem conhecia muito bem, mas sentiu que devia marcar presença. O vento uivava uma melodia desafinada por entre as árvores da avenida.
Na ruas, a população se vestiu a rigor, desapareceram. Eu com ar contemplativo olhava para o horizonte, ensaiando mentalmente frases profundas sobre a vida. Hoje eu não ia ver o boca-de-sapo passear.
Às quatro e um quarto, o ponto chave parecia iminente. O céu escureceu mais dois tons de cinzento que quase parecia ia ser de noite antes da hora. Uma senhora mais velha abriu o guarda-chuva no meio do passeio, previdente e até parece que corria à frente da chuva que ainda não lhe caía.
E depois... nada.
Absolutamente nada. Um trovão e nenhuma gota caiu. Nem uma pinga para amostra. Nem aquele molha-tolos.
A chuva, que tinha tudo para ser um poema triste, desandou sem cair.
Às cinco e meia, o drama do tempo ruiu por completo. A tristeza que devia ter caído sob a forma de água transformou-se numa coisa muito mais prosaica: uma dor nas costas e uma vaga ideia que afinal podia haver passeio.
O sol nem sequer se deu ao trabalho de aparecer em grande estilo. Limitou-se a rasgar um buraco amarelo e tímido entre duas nuvens envergonhadas, como quem diz: apareçam para beber um copo!
E assim terminou a tarde em que a cidade esteve quase, quase a ser poeticamente infeliz. Fui para a rua ver as caras melancólicas de quem previra o dilúvio prometido na rádio.
Eu fui ver o boca de sapo passar, sentado nas escadas do tribunal com o sorriso mais feliz daquele mundo.
4 de outubro de 2026
Pertinências 29 - Há Fado na Lota com Teresa e Pedro Viola
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível
senta aí e vamos conversar
3 de outubro de 2026
outono tropicalizado
Estamos em outubro e aqui o calendário tinha como garantido que as folhas das árvores deviam estar a cair numa suave melancolia dourada mas lá, na cidade quadriculada que desaparece em cada dia que passa, eu estariaa na fila na loja dos gelados Tico-Tico a ponderar seriamente se um gelado de castanha assada funcionaria como alento do outono de cá.
A resposta é não. Gelado a pingar no punho da camisola de malha que vesti por pura teimosia sazonal só traz desespero e recordações que não tenho na memória.
O outono encalorad" é a estação da crise de identidade vestuária. Acordamos de manhã, vemos 3 de outubro no telemóvel e o cérebro activa imediatamente o modo aconchegado: botas, camisola quentinha e um lenço ao pescoço. Saímos de casa a sentirmo-nos personagens de uma série nórdica de mistério. Meia hora depois, com o sol a bater impiedosamente no asfalto, parecemos apenas sobreviventes de uma sauna sem saída de emergência e lembramo-nos que do outro lado da tal linha recta que é curva existe uma terra que nos contraria, acorda quente, aquece uns graus mais, ao ponto do asfalto parecer o tal gelado a escorrer pelos dedos até ao punho.
Mas agora estou aqui e tenho a ideia que a transição para o outono costumava ser simples. Mudava-se a hora, tiravam-se as mantas do baú e bebiam-se bebidas quentes a olhar para a chuva pela janela. Agora, o ritual do outono consiste em carregar o casaco na mão como se fosse um recém-nascido, a suar do buço, enquanto nos recusamos a voltar aos calções por uma questão de dignidade pessoal. Não se pode usar fato de banho em outubro, há regras não escritas na sociedade, mas que a vontade aperta, aperta. Mentalmente dou um mergulho nas Miragens.
O mais trágico é o comércio tradicional. As montras das lojas já exibem golas altas, sobretudos de lã espessa e cachecóis do tamanho de mantas de solteiro. Quem passa na rua, de t-shirt e a abanar-se com um panfleto da farmácia, sente um misto de culpa e desidratação. Olhamos para os manequins vestidos para a neve e pensamos que nem eles mereciam este castigo.
Até a gastronomia sofre. A vontade de comer um cozido à portuguesa ou uma sopa de abóbora bem quente choca de frente com os 28 graus à sombra. Termina-se a comer uma salada fria de melão com presunto enquanto se acende uma vela com cheiro a canela e maçã assada na esperança de enganar os sentidos. O ar condicionado está ligado no máximo, a vela fumega no balcão e a ilusão do outono custa-nos metade do ordenado na fatura da eletricidade.
Resta-nos aceitar este outono tropicalizedo. Se o clima decidiu que as folhas caem mas o bronzeado fica, o melhor é abraçar o ridículo: óculos de sol numa mão, castanhas assadas na outra e a firme promessa de que, um dia destes, a camisola de malha vai finalmente fazer sentido.
Vamos à praia porque por enquanto podemos, nem que seja uma miragem.
2 de outubro de 2026
uma biografia desautorizada
Hoje vou dar um nome à personagem, não vão pensar eu estou a falar de mim. É verdade, mesmo que não seja assim como eu vou contar. Na minha cabeça é, no meu talento vamos ver.
O João sempre teve duas ambições perfeitamente incompatíveis já que sonhava com a glória de deixar o seu nome gravado na história, mas tinha pavor, quase religioso, de que alguém reparasse nele e lhe apontasse o dedo.
Em 1970, com a cidade embalada num cinzento empoeirado e a música a sair dos aparelhos a válvulas chamados rádio de grande porte e pouco portáteis, o João tomou a sua primeira grande decisão de carreira. Queria ser o cérebro por trás dos grandes acontecimentos mundiais, o estratega invisível. Inspirado pelos filmes e começou por treinar a arte do disfarce. Não usava gabardina bege em pleno verão, nem óculos escuros quando nem havia sol. O resultado? Toda a gente na rua achava que ele era ele em carne e osso. A invisibilidade começava mal.
Nos anos que se seguiram, João percebeu que o verdadeiro poder residia nas finanças. Decidiu assim ser um magnata discreto. Comprou o seu primeiro fato, mas escolheu um tom de bege tão neutro que, quando se encostava à parede das Finanças para estudar a concorrência, o contínuo quase lhe pendurava o casaco em cima, confundindo-o com um cabide. Tentou negociar boas ações por telefone na rua, mas baixava tanto a voz para manter o segredo que o cliente do outro lado da linha julgava tratar-se de uma chamada de engano feita por um asmático, pelo que de imediato desligava. Desistir nunca, dizia. Foi mudando de ramo até que com a chegada de novo milénio e o nascimento da internet, João viu a oportunidade perfeita. Criaria o blogue mais influente da esfera lusófona, um espaço onde reis, presidentes e intelectuais iriam beber sabedoria. Para garantir a discrição, assinou sob o pseudónimo O Observador Silencioso. Mas foi mais longe na prudência: não contou a ninguém que o blogue existia, não partilhou o endereço e, por segurança, desativou os comentários. Durante anos, escreveu análises brilhantes que só foram lidas pelo motor de busca do Yahoo e depois pelo Google e, por erro, por uma senhora em Wisbaden que procurava uma receita de pão de ló e entrou no silencio do Obeservador Silenciado.
Nos anos 2010, veio a era das redes sociais. Para quem quer ser importante e invisível, o Instagram revelou-se um pesadelo técnico. O João queria ser um influencer de culto, uma espécie de guru enigmático. Criou uma conta, mas recusou-se a pôr fotografia de perfil, usava a imagem de um quadrado cinzento, não publicava fotos de comida e as suas stories eram vídeos de três segundos a focar o teto da sala em silêncio. Chegou a ter quatro seguidores, dos quais três eram contas falsas de venda de criptomoedas e o outro era a sua tia, que lhe ligou preocupada a perguntar se o teto tinha infiltrações.
Hoje em dia, em pleno 2026, João encontrou finalmente o equilíbrio perfeito. Domina a arte do trabalho remoto com câmara desligada e microfone sem fios e quase sem bateria. Nas reuniões por vídeo, a sua voz ecoa metálica, ditando sentenças sobre inteligência artificial e o futuro da humanidade, enquanto a sua imagem é apenas uma inicial branca sobre fundo escuro. É respeitado, ouvido e temido por colegas que nunca lhe viram a cara.
Na semana passada, no entanto, a consagração quase esteve ao seu alcance. Ao sair do supermercado, passou por uma reportagem de televisão. O repórter, que procurava o cidadão comum, apontou-lhe o microfone. Era o momento de ouro. A oportunidade de dizer uma frase histórica que figuraria nos manuais do século XXI.
O João olhou para a câmara, sentiu o peso do destino nos ombros, limpou a garganta com solenidade e... baixou a cabeça e murmurou:
- Não sou daqui, desculpe.
1 de outubro de 2026
A redacção que valia vinte, pelo menos para mim
Uma nota era uma espécie de sentença. Eu estava ali para ter boas notas. Não era um génio mas pensava que se a minha mãe me pôs ali era para ter boas notas. Eu estava na escola primária. Era pública, gratuíta e eu tinha que dar provas que aproveitava o que me davam. Masi trde isso passou-me mas e foi só mais tarde e não interessa aqui levantar esse futuro.
Um dia, a professora Estrelinha mandou fazer uma redacção. Eu escrevi, com alma e coração. Não foi uma simples redacção. Foi, na minha cabeça, uma obra-prima da literatura. Tinha princípio, meio e fim. Tinha palavras que eu nunca tinha usado antes e que, provavelmente, também não sabia muito bem o que queriam dizer. Mas soavam bem. E isso, para um rapaz da escola primária, já era meio caminho para um prémio. Entreguei o texto à professora com a serenidade de quem acabava de depositar uma fortuna no banco, uma obra de arte num museu.
No dia seguinte, a professora Estrelinha começou a distribuir as redacções. Eu estava preparado, peito inchado e sorriso nos lábios. Já tinha imaginado o momento, ela chamaria o meu nome, levantaria a folha e diria qualquer coisa como:
- Excelente! Uma obra-prima! Temos aqui um futuro escritor! - talvez até acrescentasse - não percas esta inspiração!
Eu, modestamente, responderia:
- Obrigado, senhora professora.
Por dentro, estaria a receber aplausos.
Mas a professora Estrelinha chamou o meu nome e entregou-me a folha. Olhei para a nota. E foi aí que a minha infância sofreu uma das maiores injustiças da história. Não era a nota máxima. Fiquei parado. Olhei outra vez porque podia ter visto mal. Virei a folha. Nada. Voltei a olhar para a nota. Não era a máxima. Foi nesse momento que amuei.
Amuei mesmo. Mas aquele amuo não era um simples amuo. Era uma greve geral embora eu ainda não soubesse o que isso era e que até era proibido. Uma manifestação. Uma crise institucional. Uma revolução sem saber que a estava a fazer. Passei a olhar para a professora Estrelinha como quem olha para alguém que acabou de cometer uma injustiça irreparável. Eu tinha escrito aquilo tudo! Tinha pensado! Tinha apagado! Tinha voltado a escrever! Tinha feito letras bonitas! E ela, em vez de reconhecer o génio que tinha diante dela, resolvera atribuiu-me uma nota inferior àquela que, na minha opinião, a humanidade merecia. Naquele dia, na escola primária, descobri uma verdade que me acompanharia pela vida fora - nós nunca achamos que a nossa nota corresponde exactamente ao nosso mérito.
Quando somos crianças, queremos a nota máxima. Quando somos adultos, queremos reconhecimento. E, se possível, que venha acompanhado de um aumento.
Passei o resto do dia amuado. Se alguém me perguntasse o que tinha, eu respondia:
- Nada. - um nada mais seco que a areia do deserto que nos rodeava. Era o nada mais carregado de significado da história da escola primária. A professora Estrelinha provavelmente nem dormiu nessa noite por causa daquilo. Por todas as pragas que lhe roguei sem ter aberto a boca. Ou talvez tenha chegado a casa, jantado tranquilamente e esquecido tudo cinco minutos depois.
Eu não. Eu carreguei aquela injustiça comigo. Porque há notas que ficam escritas numa folha e há outras que ficam escritas na memória. Hoje, tantos anos depois, já não me lembro da redacção. Não me lembro sequer exactamente do que escrevi. Mas lembro-me perfeitamente de não ter tido a nota máxima. E isso diz muito sobre a infância.
Às vezes, não precisamos de ganhar. Só precisamos de acreditar que merecíamos ganhar. E eu, naquele dia, tinha a certeza absoluta de que a professora Estrelinha tinha cometido um erro pedagógico de proporções históricas.
Hoje, pensando bem, talvez a redacção tivesse mesmo alguns erros. Talvez a pontuação fosse uma tragédia. Talvez eu tivesse confundido um verbo com uma coisa qualquer. Talvez aquela palavra complicada que eu usei nem sequer existisse. Mas uma coisa continua certa - na minha cabeça, aquela redacção valia vinte. E ai de quem dissesse o contrário. E foi logo a professora Estrelinha.
Anos mais tarde, uma professora de Inglês do liceu me disse:
- Nunca serás ninguém na vida! - estava zangada, amuada, sentida ou só tinha tido um dia não. mas aquilo que me disse ficou gravado no raio da memória. Sei que me comportava mal, sei que não tinha jeito para aquilo, sei que brincava quando devia estar atento. Mas... eu era assim e o inglês não era a minha praia, como agora se diz.
Bem mais tarde, encontrei-a na Meia-Praia e lhe atirei:
- Posso não ter ido longe mas aqui cheguei com orgulho.
Ela olhou-me, olhou para o marido que me chamaou pelo nome pondo um Dr. antes.
- Se aqui chegaste foi porque eu te espicacei.
Obrigado Estrelinha, Obrigado Mitó.
30 de setembro de 2026
Programa 134 - K'arranca às Quartas
era assim a rádio
Ainda me lembro de com os meus cerca de 10 anos sentar-me a ouvir rádio na sala da casa do avô. Era rádio e giradisco, um móvel completo com quatro delicados pés. Era lindo. O ponteiro vermelho navegava a passo de lento pela escala do rádio a válvulas que ocupava o lado direito daquele móvel Pousado na sala, contra-lateral ao móvel dos cristais que mais não eram que um serviço de copos finos, bem como um serviço de mesa que devia ter sido prenda de casamento da minha mãe. Era o mais importante e mexido móvel daquela sala.
Depois de alguns minutos de um chiar que parecia o fritar numa frigideira gigante, um estalido de válvulas em sofrimento e a voz: pontual, nasalada e com uma dicção tão empolada que parecia ter sido engomada com o ferro de engomar a carvão que a minha avó tinha.
"Da Emissora Nacional, transmitimos para todo o Ultramar... e territórios adjacentes!"
Nos anos 60, nas terras de Angola, o rádio não era apenas um aparelho: era o único parente saudável da família. Chegava a todo o lado. Nas roças de café, nos postos administrativos onde o administrador já falava sozinho há três meses, e nas varandas onde a malta se juntava para beber uma Cuca bem fresca enquanto tentava perceber o que se passava no mundo.
O programa começava invariavelmente com uma marcha militar para acordar os mortos, seguida pelo momento mais alto do dia: as mensagens e ofertas musicais. O locutor, com uma gravidade de quem está a ler o Testamento do Rei, começava a desfiar a lista:
“A D. Gertrudes, em Silva Porto, envia saudades ao seu afilhado Tonito, recém-chegado no paquete Vera Cruz, e oferece-lhe a canção ‘Cheirinho a Alecrim’. Nota da redação: a D. Gertrudes lembra também ao Tonito que ainda não pagou a dívida do alfaiate.” É evidente que esta parte já é delírio meu mas que às vezes apetecia brincar apetecia.
Depois também havia as grandes rádios provinciais que entre a publicidade indispensável ao sabão Clarim que garantia lavar desde o fato de domingo até ao motor da carrinha e uns comprimidos milagrosos para a malária que sabiam a sabão de lavar a roupa, lá vinha a música. As emissoras oficiais tentava impingir o fado corporativo e umas orquestras de salão que punham qualquer um a dormir em pé, mas o rádio tinha vida própria. Assim que a Emissora Oficial abrandava o cerco, o ponteiro saltava para as rádios privadas ou vizinhas. E aí a confusão era gloriosa: Roberto Carlos a berrar sobre o seu calhambeque, o semba a começar a partir tudo nos musseques, guitarras elétricas desafinadas dos conjuntos académicos locais e, se o vento soprasse a favor de Brasavile, um rumba congolesa com tanto ritmo que fazia até o cão da família abanar a cauda em contratempo ou a Voz Combatente que dava informações que nós não podíamos ouvir e nunca comentar.
Às nove da noite, no rádio clube local era a hora do Tic-Tac. A família inteira calava-se para ouvir histórias de embalar ou episódios recorrentes na cidade com a malícia própria do Sr. Director da Rádio que tinha um paleio que, acredito vendia areia no próprio deserto. Era hora sagrada de ouvir rádio
À meia noite, quando a A Portuguesa tocava e o sinal se afundava de novo na estática, ficava apenas o som dos tubos a arrefecer com um estalido suave e o rumor dos pirilampos que eu pensava não existirem. A emissão terminava mas com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, à mesma hora, o Sr. Tonito continuaria sem pagar ao alfaiate e os discos pedidos iam voltar...
29 de setembro de 2026
No Cine-Moçâmedes eu também queria ser artista
Ali, entre uma matiné e outra, descobríamos que o mundo era muito maior do que a nossa rua, a praia, o deserto e o caminho para casa. Bastava comprar o bilhete, entrar na sala, sentar e esperar que as luzes se apagassem. Eu tinha a sorte de ir para o balcão, na companhia do meu avô.
E depois começava a verdadeira educação sentimental. Primeiro apareceram Joselito e a sua voz. Joselito cantava com uma força que me deixava estupefacto, não sabendo naquela altura nem soletrar a palavra. Era ele um rapazinho e cantava como se tivesse dentro dele uma orquestra sinfónica, três padres e um coro de anjos. Eu, que ainda tinha dificuldade em cantar o Parabéns a Você sem me enganar na letra, olhava para o ecrãn e pensava:
- Este miúdo é o máximo. E era mesmo. O problema é que nós, sentados no cinema, também começávamos a achar que cantar podia resolver quase tudo. Se havia uma discussão em casa, cantava-se. Se aparecia uma rapariga bonita, cantava-se. Se o professor perguntava quem tinha feito os trabalhos de casa, talvez cantar fosse uma boa estratégia para mudar de assunto.
Depois veio Marisol. Marisol não era simplesmente uma rapariga que cantava. Marisol era uma instituição. Ela aparecia no ecrãn, cantava, sorria, chorava, apaixonava-se, voltava a cantar e parecia sempre saber exatamente o que fazer da vida. Nós, pré-adolescentes, ainda não sabíamos sequer o que fazer das nossas tardes. Eu via Marisol e começava a perceber que as raparigas podiam ser perigosíssimas. Não porque fizessem alguma coisa de mal. Era pior. Faziam-nos sonhar. E um rapaz de doze ou treze anos, com sonhos românticos, era uma criatura bastante desorientada.
Havia ainda Rita Pavone. Pequenina, energética, irreverente e com uma voz que parecia ter tomado café antes de entrar em cena. Rita Pavone cantava e nós ficávamos a pensar que talvez também pudéssemos ser modernos. O problema era explicar isso aos pais ou avós.
- Onde vais?
- Vou ali.
- Ali onde?
- Ao cinema.
- Ver o quê?
- A Rita Pavone.
E o avô ficava com aquele olhar de quem estava a tentar perceber se aquilo era cinema ou uma doença passageira.
Mas o grande perigo sentimental talvez fosse Gianni Morandi. Gianni Morandi tinha aquele ar de rapaz que parecia ter saído diretamente de um postal italiano para complicar a adolescência de meio mundo. Cantava, sorria e fazia parecer que apaixonar-se era uma coisa simples e nós acreditávamos. Só mais tarde descobrimos que não era. Na verdade, apaixonarmo-nos naquela idade era uma espécie de curso intensivo sem professor. Gostávamos de uma menina da escola. Depois de outra. Depois daquela que passava na rua com um vestido bonito. Depois da prima de um amigo. Depois de uma atriz que vivia a milhares de quilómetros e que, evidentemente, nem sabia que nós existíamos. E assim surgiam as primeiras paixões platónicas. Platónicas porque não havia outra maneira. Não havia telemóveis, mensagens, redes sociais, emojis nem likes. Se gostávamos de alguém, tínhamos duas hipóteses, olhar para ela ou apenas escrever o nome dela em todos os cadernos. E mesmo escrever o nome já era uma operação de alto risco.
O Cine-Moçâmedes era, portanto, uma espécie de universidade. Ali aprendíamos geografia, porque conhecíamos países onde nunca tínhamos estado. Aprendíamos música. Aprendíamos romances e paixões. Aprendíamos sofrimento. E, sobretudo, aprendíamos que no cinema toda a gente tinha problemas muito maiores do que os nossos mas, curiosamente, quase todos acabavam a cantar.
À saída, voltávamos para a rua de Moçâmedes. O filme terminado. As luzes acendiam-se. E nós regressávamos à vida real. Sem orquestra. Sem Marisol. Sem Rita Pavone. Sem Gianni Morandi. E sem ninguém a aparecer de repente para nos dizer que éramos talentosos. Mas levávamos qualquer coisa connosco. Levávamos a imaginação.
A magia daqueles filmes foi terem-nos ensinado que crescer não era apenas ficar mais alto. Era começar a imaginar quem gostaríamos de ser. Eu, naquela época, ainda não sabia muito bem quem queria ser. Mas uma coisa sabia, se um dia a minha vida tivesse banda sonora, queria que começasse no Cine-Moçâmedes. E, se possível, com a Rita Pavone a cantar. Porque Joselito podia ter uma voz extraordinária, Marisol podia ser encantadora e Gianni Morandi podia fazer suspirar meio mundo, mas nós, os pré-adolescentes de Moçâmedes, tínhamos uma vantagem, saíamos do cinema e ainda tínhamos uma rua inteira para sonhar.
28 de setembro de 2026
Como fui - Um drama em três actos
Sempre tive a ideia que a minha adolescência daria um best-seller de literatura à séria. Não uma daquelas biografias solenes e em papel encorpado, cheias de fotos de um rapaz contemplativo a olhar a linha recta que é curva ou a saborear a maresia do zulmarinho. Não. O meu livro de memórias juvenis pertencia, por direito próprio, ao género da comédia trágica, com forte pendor para o absurdo e um toque de drama do estilo telenovela.
O título está pensado há anos: Tinha Tudo Para Dar Certo - As Inconfessáveis Memórias de um Genio Incompreendido.
O problema para escrever esse livro é que a memória é uma aldrabona de primeira categoria. Quando fecho os olhos para recordar os meus gloriosos catorze anos, a minha mente tenta vender-me a imagem de um jovem rebelde, de casaco de malha e sandálias de pneu, olhar misterioso e postura de melancólico. Depois cai a ficha da realidade e lembro-me: o casaco de malha era da feira, o olhar misterioso era apenas um disfarce de quem finge que não vê mas dá conta de tudo e a postura de nostálgica devia-se a uma escoliose provocada por uma má postura no dia a dia.
Se a vida é uma praia, a adolescência é a maré baixa em que toda a gente tropeça nos rochedos e fica com a sola dos pés cheia de cortes e raspaduras.
No meu livro, dedicaria um capítulo inteiro às minhas técnicas de sedução. Um compêndio de três páginas sendo que duas seriam em branco para dar luz à sombria existência desse tal D. Juan. Recordo-me de passar tardes inteiras a treinar à frente ao espelho do quarto a forma como encostaria o ombro ao armário para falar com a rapariga da carteira ao lado. Na minha cabeça, o gesto transbordava charme urbano. Na prática, quando chegou o momento, calculei mal a distância, bati com o cotovelo no caixilho da porta, derrubei um ponteiro e o apagador do quadro e limitei-me a tossir pó de gis enquanto lhe perguntava se por acaso ela sabia a matéria para o teste de Geografia. Ela mudou de passeio. Compreensível.
Haveria também espaço para a análise sociológica das festas de garagem. Aqueles eventos épicos onde a iluminação era assegurada por uma lâmpada vermelha roubada do candeeiro da avó de alguém e a mesa de mantimentos exibia três pacotes de batatas fritas de marca branca e uma garrafa de refrigerante de ananás sem gás. Ficávamos ali, em pé, encostados às paredes húmidas, a fingir que percebíamos as letras das músicas em inglês e a rezar fervorosamente para que ninguém nos tirasse para dançar um slow, sob o risco iminente de revelarmos ao mundo a nossa total incapacidade de coordenar dois pés no mesmo ritmo.
E os pais? Ah, os pais no meu livro teriam o papel de vilões involuntários. Para um adolescente, não há figura mais perigosa do que um pai com uma câmara fotográfica nos anos 70, ou uma mãe que decide gritar pela janela da rua, à vista de toda a turma: Não te esqueças de vestir a camiseta que está vento!. Aquela simples frase tinha o poder destruidor de aniquilar anos de construção de reputação social em escassos três segundos.
Gostaria muito de escrever esta obra. Já me vejo na Feira do Livro, a assinar exemplares para leitores que balançam a cabeça em sinal de empatia. Mas depois penso: e se os meus amigos da altura leem o livro e resolvem publicar a versão deles?
Aí, meu caro leitor, a história muda de figura. E o meu best-seller arrisca-se a ser desmentido pelo capítulo mais temido de todos: A verdade sobre o dia em que ele tentou saltar o muro da escola e ficou preso pelos calções.
Acho que vou adiar a escrita mais uns anos. A humanidade ainda não está preparada para tanta revelação.
27 de setembro de 2026
Pertinências 28 - 2º Episódio de Há Fado na Lota , com Custódio Castelo e Ana Paula Martins
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível
Fui passear na avenida e dei-me bem
O sol do final de tarde batia na terra vermelha da avenida, mas a verdadeira luz vinha do fato de domingo do meu avô, um azul-petróleo de pano tão rijo, que acho que se o avô se dissolvesse no ar como que por magia, o fato continuava de pé, sozinho, a cumprimentar os passeantes. Corria o ano de 1970, mais coisa menos coisa, e passear na avenida com os meus avós não era um mero exercício físico nem obrigação social, era um desfile militar de etiqueta, vaidade e absoluta desconfiança em relação ao futuro.
O meu avô, sereno e sério, caminhava com a postura de quem tinha fundado o concelho, usando o cabelo grisalho penteado para trás, com brilhantina, sapato de verniz que no fim ia ficar parecia era tijolo, costas direitas, olhos abertos como que a olhar para dentro das pessoas. Não era maldade ne, estava zangado com o mundo. Era só mesmo a pose natural de ser dele. Ao seu lado, a minha avó desfilava de permanente impecável, feita no sábado no salão da D. Carlota, e eu achava que ela dormia sentada para não despentear aquela estrutura arquitetónica à prova de furacões e ventos vespertinos, segurava a mala delicadamente na mão contrária ao lugar do meu avô. D. Leovegilda era primorosa na seu fato de xadrez branco e preto
A avenida em 1970 era o epicentro do choque geracional. De um lado, rapazes de cabelos compridos e patilhas gigantescas para além das calças à boca-de-sino que pareciam varrer a areia vermelha bem pisada à sua passagem. Do outro, o meu avô, que olhava para aquelas bainhas voadoras com o desgosto de quem prevê o fim da civilização.
- Olha para aquilo - resmungava ele tocando-me no ombro - gastam o dobro do tecido para parecerem um sino de igreja e nem um nó de gravata sabem fazer!
Cada dez metros, pelo menos na minha cabeça, exigiam uma paragem estratégica para uma saudação protocolar. O meu avô levantava acenava a cabeça com uma precisão cirúrgica.
- Muito bom dia, Sr. Doutor! Como está minha senhora. - para a senhora que ele sabia perfeitamente ter falado mal da nossa família em 1958 ou mesmo antes de eu ter nascido. Mas ele não tinha zangas, nem amuos, nem maus fígados.
A minha avó, pelo seu lado, desempenhava o papel de radar de intriga social. Não olhava em frente; olhava na diagonal, medindo a bainha dos vestidos das vizinhas e descobrindo escândalos através do movimento das cortinas das janelas.
- Viste a filha do barbeiro?- cochichava ela sem mover os lábios para a minha mãe que caminhava do lado da mala da minha avó. Acho eu que esta técnica de falar baixinho tinha sido apurada nos muitos anos de rezar o terço. - Olha aquela, trouxe uma saia dois dedos acima do joelho. O pai deve estar cego.
O ponto alto da expedição era sentar num banco corrido, de baixo do caramanchão de buganvílias que bordavam um dos lados da avenida. Ali iam passar todos os que iam e vinham nos domingos de tarde no seu passeio pela avenida. A minha mãe, provocadora estava alerta para mais uma qualquer brincadeira com uma sua amiga que estava descuidadamente a passear. Era susto sobre susto. E ainda por cima ria enquanto me olhava.
- Mãe, isso não se faz. As pessoas podem ficar gagas! - repreendia eu a minha mãe. Mais ela fazia.
Passear na avenida em 1970 com os meus avós era a garantia de que o mundo podia estar a mudar a um ritmo vertiginoso lá fora, mas ali, entre quem ia de norte para sul ou vice versa, a autoridade máxima continuava nas mãos de quem guardava rebuçados de mentol no bolso do colete, o meu avô.
26 de setembro de 2026
Bom Doa Mercado 19 - 26 de Setembro de 2026
25 de setembro de 2026
Fui e sou eu na essência de mim
A fita do gravador de cassetes estava a reproduzir o Rock da Stock que tinha gravado directamente do rádio, enquanto a névoa característica do Porto insistia em entrar pelas frestas da janela do lar onde morava com uma outra dúzia de deslocados.
Em 1980, o Porto não era uma cidade para fracos de coração, nem para estudantes de Medicina sem um sentido de humor à prova de aulas de Anatomia às oito da manhã.
Eu tinha vinte e poucos anos, o peito cheio de sonhos e a cabeça cheia de planos que raramente sobreviviam ao primeiro copo de vinho. A Medicina era o meu objetivo supremo, uma espécie de farol luminoso que me atraía com a promessa solene de salvar vidas, vestir um fato branco de bom corte e olhar para radiografias com um ar de quem decifra os segredos do universo. Eu ia ser um daqueles que sabe tudo só de olhar.
O problema é que, entre a teoria e a prática, metia-se a vida. E a vida no Porto, naquele ano de 1980, era incomparavelmente mais sedutora do que os livros infindáveis de Anatomia Humana, Patologia e outras ias que ainda não eram artificiais.
Lembro-me perfeitamente das semanas de campanha para a Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina. Enquanto alguns colegas encaravam a política académica com a gravidade de um conselho de ministros em plena crise governamental, eu descobri que ser jovem e ter piada era uma excelente ferramenta diplomática. Fazer uma piada bem metida no momento certo valia mais do que dez panfletos doutrinários impressos numa policopiadora (stencil?) de qualidade duvidosa. Na verdade, suspeito que metade dos votos que recebi na altura não foram pela minha visão para o associativismo, mas porque devo ter prometido tentar garantir uma distribuição mais equitativa de rissóis e croquetes no bar da faculdade.
A minha rotina dividia-se num equilíbrio precário: de manhã, tentava memorizar a fisionomia do plexo braquial; à tarde, debatia a cotação das francesinhas; à noite, discutia-se a revolução, a música, os amores impossíveis e as notas que teimavam em não subir. Os meus cadernos de apontamentos eram um monumento ao surrealismo, nas margens onde deviam estar esquemas do sistema nervoso central, havia caricaturas de professores, rascunhos de crónicas que nunca cheguei a enviar para o jornal e poemas dedicados a meninas que nem sabiam que eu existia.
Havia qualquer coisa de profundamente mágico naqueles dias cinzentos da Invicta. A humidade entranhava-se-me nos ossos, mas a juventude tratava de aquecer o resto. Olhava para os meus colegas mais dedicados, aqueles que pareciam ter nascido com um estetoscópio ao pescoço e sentia uma ponta e admiração misturada com um enorme alívio por não conseguir ser como eles. Eu queria ser médico, sim, mas não queria que a Medicina engolisse o rapaz engraçado que gostava de ver a vida a acontecer fora do anfiteatro e das enfermarias que cheiravam a tintura de iodo ou mercuruiocrómo.
Afinal de contas, a Medicina podia ser o sonho que me trouxera até àquelas alamedas frias do Hospital de São João, mas a vida com o seu barulho, a sua desordem, a sua ironia e as suas noites infinitas essa sim, era o meu verdadeiro lugar. E, olhando para trás, acho que foi exatamente essa vida que me ensinou tudo o que a faculdade não conseguia pôr nos livros.
E com tudo isto passaram-se 46 anos, mais coisa menos coisa, não fui o que pensei, mas cheguei lá bem perto e ainda tenho a vida que vivo e que é o meu verdadeiro lugar.
24 de setembro de 2026
à conversa com o tempo
Quando eu estava noutra latitude não tinha esse de verão, outono ou primavera. Fazia calor ou cacimbava. Era simples. Mudei latitude e se complicaram as voltas e dou comigo com esse de outono ameaça a bater à porta, mas me recuso a arrumar a toalha de praia. Para mim, o final de setembro na praia não é uma simples mudança de estação, é um retiro espiritual que dura esse de outono e inverno. Me acinzento.
Agora me sento no areal praticamente deserto, ajusto os óculos de sol já ligeiramente tortos da sua idade e suspiro com uma sonoridade poética. O mar de fim de verão ganha uma transparência nostálgica, como se guardasse nos murmúrios da água o segredo de todos os dias quentes. E vêm-me à memória outros mares, outros azuis, outras gentes.
- Pá, podes parar de falar sozinho? Estás a assustar as gaivotas — resmungou alguém que me era totalmente invisível, talvez fosse só a minha consciência. E ainda disse mais:
- Vieste para aqui apanhar uma pneumonia ou quê?
Ninguém percebe a minha sensibilidade. Mantendo o olhar fixo no horizonte fico com uma serenidade mágica na praia. Quando as multidões desaparecem e o mar volta a ser apenas sopro, espuma, imensidão e marulhar com sabor a maresia.
Não a bola de Berlim, não há a gastronomia da marmita da salada fria, da geleira de esferovite, do toldo ou sombrinha a cortar o olhar. Inspiro fundo, fecho os olhos e se tivesse cultura viajava se calhar até à Grécia antiga, mas sendo assim fico-me pela minha adolescência, pelo ardor do pica-pica, pela saudade dos meus dotes atléticos, pelo meu tempo em que tinha tempo e agora vejo que ele se encurta em cada onda de sonho. Aqui consigo conversar com o tempo.











