Hoje estou reformado. O que, em linguagem médica, significa que deixei de operar os outros e passei a tentar operar a minha própria rotina, quase sempre com sucesso.
Recordo os meus tempos de cirurgião com uma certa nostalgia. Não daquela nostalgia triste, que nos faz olhar para o passado como quem contempla um funeral, mas de uma nostalgia bem-disposta, daquelas que nos fazem sorrir enquanto pensamos: «Meu Deus, como é que eu sobrevivi àquilo?»
No bloco operatório, tudo tinha uma ordem. Havia horários, procedimentos, decisões, responsabilidades. Um silêncio concentrado, interrompido apenas pelas indicações à equipa e pelo som dos instrumentos. Eu sentia-me útil, importante e, por vezes, ligeiramente convencido. Afinal, não é qualquer profissão que nos permite dizer: «Vamos abrir!» sem que alguém pense que estamos a tirar a rolha a uma garrafa de champanhe.
Agora, reformado, continuo a dar ordens. A diferença é que já não são tão respeitadas.
Se, no hospital, eu dizia «preciso de silêncio», toda a gente se calava. Em casa, digo o mesmo e alguém responde: «Então desliga a televisão.»
Também descobri que a reforma tem uma particularidade extraordinária: os dias são muito mais compridos do que antigamente. Quando trabalhava, nunca tinha tempo para nada. Agora tenho tempo para tudo, mas falta-me a vontade para metade. E a outra metade depende de saber onde estão arrumadas as coisas.
A memória, essa, continua a funcionar. Pelo menos a memória profissional. Ainda me lembro de operações complicadas, de decisões tomadas em segundos, de noites intermináveis e de doentes que me ensinaram mais do que muitos livros.
Curiosamente, não me lembro onde pus as chaves do carro.
É uma espécie de ironia clínica: o cérebro que durante décadas conseguiu coordenar uma intervenção cirúrgica complexa, agora entra em falência perante a pergunta «onde é que deixei o comando da televisão?».
De vez em quando, encontro antigos colegas. Abraçamo-nos, falamos dos tempos do hospital, recordamos histórias de serviço, pacientes insólitos, pequenos dramas e grandes vitórias. Rimos como se ainda estivéssemos no corredor, à espera de entrar no bloco.
E há sempre alguém que pergunta:
- Então, ainda tens saudades de operar?
Respondo com a sinceridade de um homem que já não precisa de fingir coragem:
- Tenho, mas só até me lembrar das horas de trabalho, das urgências de madrugada e da responsabilidade de ter uma vida nas mãos. Logo me passa.
A verdade é que a reforma não apaga o cirurgião. Apenas lhe muda o cenário. Continuamos a observar, a analisar, a desconfiar de sintomas e a tentar encontrar soluções. Só que agora o paciente mais frequente somos nós próprios.
E, convenhamos, somos pacientes bastante difíceis.
O passado tem o seu encanto. Não porque fosse perfeito, mas porque foi vivido intensamente. Houve cansaço, medo, responsabilidade, alegrias e aquela sensação extraordinária de que o nosso trabalho fazia diferença.
Hoje, quando olho para trás, não sinto que tenha perdido uma profissão. Sinto que ganhei o privilégio de a recordar. E isso é uma espécie de milagre da reforma. Afinal, fui cirurgião durante muitos anos. Agora sou um reformado com bisturi na memória, histórias na gaveta e uma ligeira dificuldade em levantar-me do sofá. Mas continuo a ter espírito de cirurgião. Só já não opero. Agora, quando alguém me diz que está mal, faço o diagnóstico mais prudente da minha nova carreira:
- Isso deve passar. Mas, por favor, não me marque consulta para amanhã. Tenho uma vida muito ocupada… a não fazer nada.
E sorrio.
Porque, no fundo, há coisas que nunca se reformam: a memória, o humor e a saudade de termos sido, um dia, indispensáveis. Embora hoje, cá em casa, a minha maior intervenção cirúrgica seja conseguir abrir um frasco de grão sem pedir ajuda. E nem sempre consigo.
