recomeça o futuro sem esquecer o passado

21 de maio de 2026

O Caos em Frequência Modulada

Às vezes eu devia ficar quieto, cruzar as pernas com a bunda no sofá e ver tv. Mas a irrequietude faz-me ser de outra forma e como tenho a mania que sou artista resolvi fazer rádio. Antevendo o futuro, sento-me frente ao écran, sim, sou moderno e já não escrevo na sebenta, mas sim num computador, e faço futurologia. Fazer rádio com seis pessoas numa mesa redonda é, tecnicamente, um desporto de combate. O tema da noite é ambicioso: 

- O Impacto da Inteligência Artificial no Cultivo da Batata e a Imortalidade da Alma

Um tema leve, portanto, ideal para preencher o silêncio da noite entre dois fados e um anúncio a uma oficina de pneus.

O problema da rádio com muitos convidados não é o que se diz, mas o tráfego aéreo das palavras. Os engarrafamentos de sons que querem sair todos ao mesmo tempo. Temos seis pessoas, mas apenas três microfones que funcionam e um que emite um zumbido estranho sempre que alguém diz a letra "S". Já mexi nos botões todos, agudos e graves, o "S" dá um CH que chateia. Mas deixemos a técnica.

Primeiro, temos o Estatístico, que trouxe três pastas de arquivo e insiste em ler tabelas de Excel em voz alta. Se olharem para a coluna B..., diz ele com entusiasmo, esquecendo-se que a única coisa que os ouvintes conseguem olhar é para o ponteiro do relógio de parede ou para a sintonia do velhinho rádio que sobreviveu a várias mudanças de casa.

Depois, há a Poetisa, que responde a qualquer pergunta sobre batatas citando o existencialismo francês. A batata não é um tubérculo, é um grito de angústia da terra, afirma ela numa voz melancólica, enquanto eu, como técnico de som, aproveito para ir buscar um café, sabendo que ela não vai parar de falar nos próximos dez minutos.

A meio da mesa, temos o Cético, cujo único contributo é suspirar ruidosamente junto ao microfone e dizer: Isto no meu tempo é que era. Ninguém sabe ao certo que tempo era esse, mas devia ser uma época fantástica onde a gravidade não existia e o pão era de graça.

O verdadeiro desafio surge quando o eu moderador, o único pobre santo com auriculares, tenta lançar uma pergunta. É como atirar um bife para dentro de um tanque de jacarés.

Três pessoas começam a falar ao mesmo tempo.

O som torna-se uma massa uniforme de ruído onde se distinguem apenas as palavras "algoritmo", "adubo" e "metafísica".

Lá em casa, o ouvinte pensa que o rádio avariou ou que os vizinhos estão a ter uma discussão acesa sobre a herança da tia-avó.

No meio do caos, há sempre o convidado Ninja. Está calado há quarenta minutos. Eu, por caridade, pergunto: "E o Dr. o que pensa disto?". O Dr. acorda do transe, aproxima-se demasiado do microfone e solta um Pois... tão profundo que faz vibrar os vidros dos copos. E volta ao silêncio.

A qualidade de vida de um radialista mede-se pelos minutos de publicidade que acabam por aparecer. É o momento em que tira os auscultadores e se descobre que a Poetisa está a tentar roubar os apontamentos do Estatístico e que o Cético adormeceu de olhos abertos.

A magia acontece. Continuamos a nossa fascinante conversa sobre a alma das batatas... É mentira, claro. Estamos apenas a tentar sobreviver à próxima meia hora sem que ninguém derrube o copo de água sobre a mesa de mistura.

No fim, as seis pessoas despedem-se com uma cortesia extrema, jurando que foi o debate do século. O ouvinte, do outro lado, desliga o rádio a pensar que, se calhar, as batatas têm mesmo uma alma complexa. 

A rádio tem destas coisas: é o único sítio onde o silêncio nada vale.




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20 de maio de 2026

Crónica 106 - K'arranca às Quartas 119


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Crónicas de Carlos Osório 18 - K'arranca às Quartas 119


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Crónica de João Portelinha da Silva (24) - K'arranca às Quartas 119


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Livro - O Silêncio do Kissanji - Anabela Quelhas - K'arranca às Quartas 119


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Tesourinhos Musicais 94 - N'zaji - K'arranca às Quartas 119


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Esta Música tem uma História 60 -Luandei - Nanutu - K'arranca às Quartas 119

Nanutu e o seu saxofone calaram-se de vez. António Manuel Fernandes, com o nome artístico de Nanutu, partiu na passada sexta-feira,15 de Maio, em Lisboa, aos 68 anos. Com ele calou-se um saxofone maior, mas não se apagou a respiração funda que deixou na música angolana.

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Programa 119 - K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 20 de maio de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Hiperconectividade

Silêncio do Kissanji, um livro de Anabela Quelhas

Hoje houve Esta Música tem uma história em homenagem a Nanutu e Luandei, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais Conjunto N'zaji, música de intervenção angolana
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos um caso escolar de sucesso

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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chegar aqui é fantástico

Chegar aqui já é uma vitória digna de um troféu, mesmo que o troféu seja apenas um desconto de sénior no cinema, nos transportes públicos ou a capacidade de prever a chuva através de um joelho, cotovelo ou anca. Para ir mais longe e com o espírito intacto o segredo não está em esconder as rugas, mas em transformá-las em linhas de leitura de uma boa comédia.

Aqui estão algumas estratégias para esticar a longevidade com um sorriso no rosto:

1. A Prática da Amnésia Seletiva Estratégica

Ir mais longe exige leveza. Se me lembro onde deixei as chaves ou o nome daquela pessoa que o cumprimentei na rua, não é velhice, é o meu disco rígido a apagar ficheiros inúteis para dar lugar a coisas mais importantes, como a letra de uma música dos anos 70 ou a receita perfeita de uma moamba ou de um arroz de ligueirão. Já que agora sei ligar o fogão sem ter medo que ele exploda. Quando me esqueço de algo, digo apenas que estou a fazer uma curadoria mental de alto nível.

2. O Desporto como Entretenimento, não Castigo

Se o corpo pede movimento, dou-lhe algo que não pareça uma sessão de tortura medieval. Actividades como o pickleball ou a petanca são geniais porque permitem socializar enquanto se finge que se está a queimar calorias. O objetivo não é ser o próximo campeão olímpico, mas sim garantir que consigo baixar-me para apanhar a bola sem emitir um efeito sonoro de dobradiça velha, tipo crocância de um folhado a estalar.

3. A Gastronomia da Moderação Imprudente

Dizem que devemos comer verdes. Um copo de um bom tinto do Alentejo ou do Douro vem da uva, que é tecnicamente um fruto, que se for tinto já foi verde. Uma boa crónica à mesa, rodeado de amigos e de uma conversa que se prolonga até ao café, alimenta mais a longevidade do que qualquer suplemento de farmácia. O humor é o melhor digestivo.

4. Cultivar a Curiosidade Atrevida

O que nos envelhece não é a passagem dos anos, mas sim a frase no meu tempo é que era bom. O segredo para ir mais longe é olhar para o presente com um olhar crítico, mas divertido. Seja a criar um programa de rádio, a escrever sobre o património ou a descobrir novos autores, mantenha o cérebro ocupado a tentar perceber como funciona a última aplicação de telemóvel nem que seja para decidir que não a vai usar. Este também é o meu tempo.

5. A Arte de rir de mim próprio

A gravidade é uma força implacável que me verga o corpo pelas costas, mas o riso é uma força de levitação que me eleva o queixo. Se o médico me dissesse que tenho de caminhar mais, caminharia até à pastelaria mais próxima. Se os amigos dizem que estou vintage, aceito o elogio, as coisas vintage são as mais valiosas e as que têm melhores histórias para contar.

No fundo, ir mais longe é uma questão de ritmo. Como numa boa rádio, não importa apenas o tempo de antena, mas sim a qualidade da emissão. Se mantivermos a sintonização no canal que dá programa para pensar e boa música, a viagem torna-se muito mais curta, mesmo que dure cem anos.

Como tem sido a minha experiência em equilibrar a nostalgia de outros tempos com as novidades que o presente me traz no dia a dia de agora? 

Vou pensar nisso. Mas agora vou escolher a música.



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19 de maio de 2026

sucesso

Há pessoas que acordam de manhã com objetivos. Eu acordo com uma vaga intenção do tipo vamos ver no que isto dá e, pelos vistos, isso é meio caminho andado para o sucesso. Não porque eu seja particularmente brilhante, mas porque a vida, coitada, às vezes também se engana na morada.

Sempre desconfiei de quem tem planos a cinco anos. Eu mal tenho planos para até à hora do jantar. E, no entanto, lá vou acumulando pequenas vitórias involuntárias, um elogio que era para o colega do lado, um projeto que aceitei porque não percebi bem do que se tratava, uma ideia que tive por engano enquanto procurava outra completamente diferente. Se isto não é sucesso, é pelo menos uma boa imitação.

Descobri, com o tempo, que há um talento raro que é o de não atrapalhar demasiado o próprio caminho. É uma espécie de arte marcial passiva em vez de atacar, a pessoa não estraga o momento. E eu, modestamente, sou cinturão negro em não estragar o momento. Há dias em que a minha maior conquista é não responder a um email complicado. E, curiosamente, nesses dias, tudo se resolve sozinho. É quase como se o universo me dissesse deixa estar, não mexas, que assim está bem, e eu deixo.

Uma vez perguntaram-me qual era o segredo do meu sucesso. Fiquei comovido. Primeiro, porque não sabia que tinha um. Depois, porque senti que estava prestes a desiludir alguém com uma resposta honesta. Ainda pensei inventar qualquer coisa sofisticada do estilo uso de disciplina, atenção ao foco, dizer resiliência, que agora está na moda mas a verdade escapou-me e eu disse que tinha sido por distração.

A pessoa ficou a olhar para mim com aquele ar de quem esperava uma resposta científica e recebeu uma conversa de café. Mas é isso mesmo. O meu percurso é uma sucessão de já agoras que deram certo. Já agora aceito. Já agora experimento. Já agora fico. E quando dou por mim, estou no sítio certo, à hora certa, sem saber muito bem como cheguei ali o que, convenhamos, é uma excelente forma de viajar.

Claro que há riscos. Este método exige uma certa confiança no acaso, o que nem sempre é confortável. Às vezes o acaso falha, ou então acerta mas ao lado. E lá vamos nós, com ar sério, a explicar que faz parte do processo, quando, na verdade, o processo era não haver processo nenhum.

Mas há também uma leveza nisto tudo. Enquanto outros carregam o peso das metas, eu levo apenas a mochila das circunstâncias. E, sendo honesto, pesa muito menos. Talvez o sucesso sem querer seja uma espécie de sucesso em pantufas. Não faz barulho, não exige pose, e aparece muitas vezes quando já estávamos a pensar em desistir ou em ir fazer um café.

No fundo, acredito que o sucesso, como certos gatos, gosta de pessoas que fingem não estar interessadas. Aproxima-se devagar, instala-se no colo e, quando damos por isso, já faz parte da casa. E nós, que nunca o chamámos, ficamos ali, um pouco surpreendidos, a fazer festas, como quem diz: Pronto… já que aqui estás, fica. E o gato fica.



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ser quase História

Aos 69 anos e alguns meses, a gente começa a olhar para o espelho e para o Bilhete de Identidade com uma mistura de respeito e dúvida. Chegar a esta fronteira não é para amadores; é uma maratona onde os quedes, ténis ou sapatilhas, foram trocados por sapatos ortopédicos de sola macia, e a meta parece sempre um pouco mais distante porque, aos 70, a gente para a meio do caminho para perguntar: O que é que eu vinha fazer a este quarto mesmo?

Dizem que a vida começa aos 40. Mentira. Aos 40 a vida dá-nos um estálo para acordarmos. Aos 70, ela dá-nos um abraço apertado com muito carinho, como convém, por ter cuidado com as costelas.

A minha trajetória até aqui foi feita de mais quases do que certezas, e é aí que reside o humor da coisa. Quase fui um atleta de alta competição, não fosse a minha crónica incapacidade de ver uma esplanada e não me sentar, de ver um banco frente ao zulmarinho e me perder a meditar. Quase fui um monge budista, mas a dieta do silêncio colidia frontalmente com a minha necessidade vital de comentar e gastar palavras desde o acordar.

As travessuras, essas, mudaram de figurino. Na juventude, envolveram saltar muros ou chegar a casa com o sol a bater na testa, tentando não acordar a D. Madalena. Hoje, a minha maior travessura é comer um doce escondido da patroa ou fingir que não ouvi o telemóvel para não ter de explicar a alguém como se grava um PDF ou se passa uma certidão de óbito digital. Há uma liberdade deliciosa em chegar a esta idade e usar o ah, esqueci-me como uma arma de arremesso legítima. É o nosso cartão de saída livre da prisão do velhinho jogo do Monopólio.

A memória é outra fonte de comédia. Tornei-me um perito em arqueologia doméstica. Procuro os óculos que estão na testa e as chaves que estão na minha mão. Às vezes, entro numa sala com tamanha determinação que pareço um general a planear uma qualquer invasão, apenas para ficar parado a olhar para o candeeiro, com a mente tão branca quanto as paredes da sala, na busca de uma vaga lembrança do que ali me levou.

Mas o melhor de quase chegar aos 70 é a perda absoluta do medo de fazer figuras tristes. Se quero usar meias com sandálias, uso. Se quero rir sozinho de uma piada que ouvi em 1984, rio. Se decido que vou começar a aprender uma coisa perfeitamente inútil agora, como tocar harmónica ou colecionar rótulos de vinho, quem é que me vai impedir?

Chegar aqui é como conduzir um carro clássico com a chapa a precisar de polimento, o motor faz uns barulhos estranhos ao arrancar a frio e a suspensão já viu melhores dias, mas o prazer de percorrer a estrada, com o braço de fora e o vento na cara, é muito maior do que quando o carro era novo e eu não sabia para onde ia.

Venham os 70. Estou pronto para eles. Só espero que, no dia da festa, alguém se lembre de onde pus o saca-rolhas, onde guardei os óculos ou estacionei o andarilho.

Na verdade, ser incrédulo é ciência, porque antes eu imaginava que ter 70 era figura de ficção, era matéria da cadeira de História.



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17 de maio de 2026

PERTINÊNCIAS 10 - H(Á) NOITE NO MERCADO - Brasa Doirada

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.












Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar, porém hoje foi lugar ao convívio e à música


A campanha nacional “Gosto do meu Mercado” é um evento integrado numa outra acção de âmbito internacional denominada “Love Your Local Market”, que visa criar redes que envolvam as comunidades em torno dos seus mercados de proximidade.

O objetivo é conduzir os consumidores a um envolvimento com os seus mercados locais, onde os comerciantes são proativos e dinamizam ações, promoções e eventos específicos.

Assim, o Pertinências, por achar que é pertinente associar-se a este evento e por querer divulgar os Brasa Dourada, uma banda com residência aqui, marca presença com um directo.

Há campanhas que passam por nós como um folheto esquecido no fundo do saco de compras ou na caixa do correio. E depois há aquelas que cheiram a coentros, a peixe fresco e a conversa boa — como a campanha “Gosto do Meu Mercado” no Mercado Municipal de Portimão.




Imperdível





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16 de maio de 2026

fui a um bar em fim de tarde

Eu considerava-me o Shakespeare do Facebook. Não usava frases batidas. Não, estudava o ambiente. Ser adolescente sério dava trabalho. 

Certo fim de tarde, num bar sofisticado, eu avistei-a. Ela lia um livro de capa dura e bebia um vinho tinto. Tinha classe, tinha charme. Ajustei pulóver mesmo estando perto dos 25 graus, aproximei-me com o meu melhor sorriso de intelectual misterioso e disparei:

- Sabes... é um crime ler algo tão profundo num sítio com luz tão fraca. Estás a arriscar a tua visão, e o mundo não merece perder o brilho desses olhos por causa de um par de óculos precoces.

Ela baixou o livro devagar, olhou para mim de cima a baixo, tirando as medidas e respondeu-me:

- Na verdade, eu sou oftalmologista. E isto que estou a ler é o menu das sobremesas, que está dentro desta capa de couro porque o bar é fino.

Bem, sem perder o ritmo, tentei recuperar:

- Ah! Uma médica! Perfeito. Porque eu acabo de sentir uma arritmia cardíaca só de te ouvir falar. É grave?

Levou o copo à boca e deu um gole no vinho, fechou o "livro" e disse:

- Como médica, o meu diagnóstico é que tens um caso severo de excesso de confiança sem base científica. Mas como cliente deste bar, o meu diagnóstico é que o teu pulóver está a entrar dentro do meu copo de vinho.

Concluindo, não consegui o número dela, mas ganhei nódoa cor-de-vinho e a lição de que, às vezes, o melhor é apenas perguntar se a mousse de chocolate é boa.


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14 de maio de 2026

eu na avenida

Reescrever a minha estória, os tempos dos meus 12 anos com os olhos de agora é a minha forma de fazer uma homenagem aos meus avós, aos meus amigos, conhecidos e às crianças de hoje que não imaginam que eu também já fui noutro tempo criança.

Era Domingo e para os meus avós sentarem-se na avenida ao fim da tarde era, confesso hoje, a forma mais económica de fazerem terapia e, convenhamos, a única onde podiam julgar, discretamente, a vida alheia sem pagar.

Escolhiam o banco como quem escolhe o lugar num espetáculo, desde que estivesse vazio e na área préviamente definida. Porque é disso que se tratava: um desfile contínuo de personagens que não sabem que estão a ser observadas por gente atenta a tudo, incluindo pormenores.

No tempo em que se ia à avenida as pessoas iam mais leves, as roupas encurtavam, os sorrisos esticavam e até os tempos pareciam menos urgentes nos relógios de bolso.

Passavam também os corredores profissionais, esses atletas urbanos que correm com um ar sofrido, como se estivesse a fugir de uma dívida antiga ou a fugir de uma outra vida paralela. Faziam a avenida uma dúzia de vezes, mas sem nunca perderem o sorriso ou a educação. Os meus avós contavam as voltas e diziam-me, não tenhas pressa porque o tempo tem o seu tempo. Depois vinha o passeante filosófico, mãos atrás das costas, a resolver os problemas do mundo ao ritmo de um passo por minuto, provavelmente já ia na terceira solução para o universo antes de chegar ao quiosque e voltar para trás.

Havia também os grupos de amigos, que falam todos ao mesmo tempo com a convicção de que alguém está a ouvir. Riem alto, gesticulam mais ainda, e deixam no ar aquela invejável sensação de que a vida, naquele momento, está exatamente onde devia estar.

E, claro, os cães. Não me lembro se havia alguém que fosse passear o cão. Não estou a ver um cão a puxar o dono com autoridade e a parar para refletir profundamente sobre um poste, na forma líquida de esvaziar. Uma profundidade que nós, humanos, raramente atingimos na praça pública.

Eu, sentado ao lado dos meus avós, fazia parte do cenário. Com ar cansado, porque observar dá trabalho e com aquela cara de quem queria estar a fazer coisas mais importantes, quando na verdade estava apenas a tentar perceber se aquele senhor passou três vezes ou se existem três senhores iguais com o mesmo casaco.

A luz começava a dourar tudo. A avenida ganhava um tom de postal ilustrado, desses que já ninguém envia mas todos reconhecem e sorriem quando recebem. 

Na avenida havia um momento breve, quase tímido, em que tudo parecia em equilíbrio, o barulho certo, a temperatura certa, a quantidade exacta de gente e de sossego.

É nessa altura que pensava: isto é felicidade em versão simples. Sem filtros, sem pressa, sem necessidade de grande explicação.

Depois aparecia sempre alguém da família que dizia estás tão crescido, como se eu tivesse crescido de ontem para hoje.

E pronto. A avenida por hoje acabou, levanto-me e vou dar uma volta, levando na memória os meus avós, os meus amigos que tinham e faziam as mesmas caras que eu. 

Era a tarde na avenida, que por acaso era a do Bonfim.



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13 de maio de 2026

Livros - MAJORA (Anabela Quelhas) - K'arranca às Quartas 118


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Esta Música tem uma História 59 - O teu Baton - Herman José - K'arranca às Quartas 118


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Tesourinho Musical 93 - Cândida Branca Flôr - K'arranca às Quartas 118


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Crónica de João Portelinha da Silva (23) - K'arranca às Quartas 118


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Crónicas de Carlos Osório 17 - K'arranca às Quartas 118


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Crónica 105 - K'arranca às Quartas 118


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Programa 118 - K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 13 de maio de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Amor de Amizade

Hoje falámos do Capochinho Vermelho e dos livros de pano da MAJORA através das palavras de Anabela Quelhas

Hoje houve Esta Música tem uma história com a Cor do teu Baton, com Herman José, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Cândida Branca Flôr
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de Mia Couto
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos a toponimia da cidade e a existência AINDA de uma Rua 28 de Maio na cidade de Portimão  

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

vai ser como um dia eu pensei poderia ser.

Escrever por escrever é, muitas vezes, como tentar montar um móvel da pré-fabricado sem seguir o manual, termina-se com algo que não se parece em nada com uma estante, mas que tem uma personalidade admirável e, por obra do acaso, sobra um parafuso que decido guardar no coração, não vá um dia precisar dele.

Tantas vezes começou com uma caneta azul, da bic, que falhava e um guardanapo de papel folha simples aquele que se rasga só de se olhar com muita intensidade para ele e que às vezes está nas mesas numa caixinha com ranhura que faz lembrar o mealheiro dos tempos de criança, só com ranhura um pouco maior. Aqui para tirar e os outros era para pôr.

Quantas vezes não tinha a mínima ideia, mas em troca tinha uma grande vontade. Sentava-me à mesa, como ainda agora faço, só que já não de caneta na mão, e escrevia uma frase. A primeira que me viesse à cabeça. Um ovo estrelado parece o sol. Poético? Estado a fazer lembrar-me que tenho fome? Certeza ou dúvida? Como posso começar um romance com um ovo estrelado? Desenhei-o. Aos meus olhos era um ovo estrelado, aos olhos de quem poderia espreitar, se calhar era um borrão com um círculo no meio. O que tem um ovo a haver com um romance de amor, se calhar passado numa cidade tropical, se calhar em Paris, se calhar num simples lugar no meio de nenhures?

Olhava para a frase. Olhava para o desenho. e nada mais havia no papel. 

Continuei a escrever frases soltas. Algumas sem nexo, outras lembranças de passagens lidas já nem sei onde. 

E foi assim que tudo começou. É assim que tudo continua, com a diferença que já não há bic na minha mão, já não há guardanapo na caixinha nem desenhos a ocupar o tempo à espera da frase que pode dar início ao tal de romance. 

Ainda no tempo do guardanapo, tenho uma história de ter uma lista de frases escritas. Olhava para ela a ver se alguma me dava a tal ideia. Passa uma amiga, espreita e diz-me:

- Pedido de namoro? A resposta é não!

Não não é, disse-lhe com firmeza e se calhar até chateado. Agora estar a espreitar para um papel particular. Onde já se viu.  Logo ela continuou:

- Se é lista de convidados para uma festa não te esqueças de fulano que é meu namorado.

- Não. É a lista de compras! disse-lhe irritado e amachuquei o guardanapo de tal forma que ele se esfrangalhou em pedacitos.

Mas agora é diferente. No PC ou no telemóvel escrevo. às vezes palavras tão soltas que quase vão por wi-fi fora. E romance, nada! Não nasci para ser criador. Guardo palavras, algumas soltas e outras vadias, umas naufragas e outras circulam vagarosamente numa vagabundagem que até dá dó.

No final, escrever por escrever é esse acto de coragem. É permitir que as mãos corram mais rápido que o julgamento que alguém possa fazer ao espreitar para o guardanapo que agora pode ser tanta coisa, desde ecrán, tela, tablet, e-booker, ou mesmo uma folha de papel impressa. 

Mas nem rascunho de romance, nem um mini-conto. Ah, tenho milhentas palavras escritas de felicidade, de vontade, de está tudo bem, mesmo quando as palavras saem de forma desordenada. Tenho versos sem poesia. Tenho silabas sem palavras. Virgulas sem pontos. Tenho vontade. Mas um dia a tal frase sairá e tudo vai ser como um dia eu pensei poderia ser.



Sanzalando

12 de maio de 2026

eu na esplanada

Diz-se na minha terra que não há inverno, há cacimbo. É uma distinção semântica importante. O inverno é uma estação, o cacimbo é um estado de suspensão. É aquele momento do ano em que a cidade acorda dentro de um tubo de vapor de água frio e o ar decide que já não quer ser gás, quer ser líquido, mas sem o compromisso de se tornar chuva.

Ontem, cometi o erro romântico de querer tomar um café na esplanada. O boca de sapo podia estar a passar e eu queria acompanhá-lo com o meu olhar. Adolescente gosta de ver.

Sentei-me com a confiança de quem desafia a física. O empregado, com aquele olhar de quem já viu impérios caírem e clientes ficarem com reumatismo precoce, passou um pano pela mesa. Foi um gesto meramente simbólico. Dois segundos depois, a superfície da mesa brilhava novamente, acumulando uma película de água que nem lamela de laboratório que parecia decidida a reclamar o território.

Pedi um café. Quando a chávena chegou, vinha acompanhada de uma pequena nuvem privada e uma torre de fumo mais denso que o habitual.

Beber café no cacimbo é uma corrida contra a termodinâmica. Se bebes depressa, queimas a língua; se esperas um minuto, o café não só arrefece como ele dilui-se. O ar está tão saturado que a chávena começa a ganhar volume. É o único lugar do mundo onde o café rende por geração espontânea de humidade.

À minha volta, a fauna urbana tentava manter a dignidade. Havia o senhor de balalaica, que começou a crónica matinal como um lorde e, dez minutos depois, parecia que tinha atravessado o Atlântico a nado com a roupa no corpo. O linho e o cacimbo são inimigos mortais; o tecido absorve a neblina até que a pessoa pesa mais três quilos do que quando saiu de casa.

Depois há os óculos. Ah, os óculos no cacimbo! É o fim da visão periférica. Limpas a lente com o guardanapo que já é uma massa mole de celulose húmida, colocas os óculos e, na primeira expiração, o mundo desaparece num branco leitoso e meias denso que o próprio cacimbo. Desisti de ver. Passei a guiar-me pelo som das buzinas distantes e pelo tilintar das colheres nas chávenas vizinhas.

Mas há algo de profundamente desértico nesta teimosia. O sol pode estar escondido atrás daquela cortina cinzenta, o humidade pode estar a transformar o nosso pão numa esponja morna, mas a esplanada é sagrada. Ficamos ali, mergulhados na bruma, a fingir que não estamos a tiritar ligeiramente, comentando que hoje o tempo está mesmo fechado, mas ela vai passar não tarda..

No final, paguei e levantei-me. O meu lugar na cadeira ficou marcado como uma silhueta seca num deserto de humidade. Saí dali com o cabelo em modo empastado total e a alma lavada literalmente. No cacimbo, não se toma apenas um café; recebe-se um baptismo de orvalho, cortesia de uma cidade que, por uns meses, decide que quer ser Londres, mas com palmeiras e muito mais suor frio.

Fiquei em pé na esquina e o boca de sapo não passou.

Sanzalando

11 de maio de 2026

eu e o fim da rádio

Tinha 12 ou 13 quando fui no Rádio Clube oferecer o meu trabalho. Curiosamente aceitaram e lá durante uns dois meses eu fui aprendendo com os mais velhos numa aprendizagem de que é assim que se faz. Tirando a rádio só havia os jornais e revistas. Ah, também havia os documentários antes dos filmes no cinema., mas estes não eram em cima da hora, alguns até tinham teias de aranha no texto. Mas não é isto que me levou a sentar aqui e a pensar. O marulhar hoje está estranho porque o mar ora está revoltado, ora está calmo. Desconcentra-me.

Ouço dizer que o rádio está para morrer desde que a primeira televisão ligou um tubo catódico. Depois veio a internet, o streaming, os podcasts e até geladeiras que tocam música e têm ecran a dizer o que é que falta. Mas aqui vai uma verdade inconveniente que me ecoa no cérebro, se o rádio acabar, o tecido da realidade se desfaz em 45 minutos.

O rádio não é apenas um meio de comunicação, é o último fio de sanidade que nos liga à civilização. Já reparou? No dia em que o sinal de FM sumir, o caos será absoluto. Imagine.

Primeiro, o trânsito. Sem o rádio, o condutor fica entregue aos seus próprios pensamentos. Isso é perigoso. O rádio serve para nos dizer que o IC19 está parado ou que a Marginal virou um estacionamento a céu aberto nas horas de ponta.

Sem o locutor com voz de veludo dizer que há lentidão devido a excesso de veículos, o condutor percebe que está preso no inferno por livre e espontânea vontade. Sem a piadinha sem graça do apresentador matinal, o cidadão médio percebe que odeia o seu emprego. O rádio é o amortecedor psicológico da classe trabalhadora. 

E quem vai manter a indústria das pilhas? Ninguém compra pilhas para controles remotos que agora a gente carrega via USB. As pilhas existem para o rádio de pilhas. Aquele radiozinho prateado ou preto que o pedreiro coloca no topo do andaime e que, por algum milagre da engenharia acústica, toca uma moda que se ouve a três quarteirões.

Se o rádio acabar, as obras param. Não se assenta um tijolo neste país sem a trilha sonora de uma rádio. Sem rádio, o PIB da construção civil cai a zero.

Em todo filme de fim de mundo, o que é que o herói faz? Ele não tenta abrir o TikTok para ver se há sobreviventes. Ele gira o botão dum rádio velho que está ali na cena esquecido. 

Se o rádio acabar, o apocalipse perde a etiqueta. Se um meteorito estiver a caminho da terra e não houver um radialista de serviço para dizer "É isso aí, gente boa, o mundo vai acabar, mas fiquem agora com esse clássico do Queen", e a gente nem vai saber como se comportar no pânico. O rádio dá o tom do desastre. Sem ele, a gente morre no vácuo, sem uma publicidadezinha ao super mercado pague menos.

Por fim, o futebol. Assistir ao jogo na TV é bestial, mas ouvir no rádio é uma experiência mística, é um quadro sonoro do renascimento. No rádio, um tipo para a bandeirola de canto vira um tiro que passou a rasar a pintura da trave esquerda!. O rádio melhora a vida. Ele transforma o jogo medíocre entre dois clubes da Série caseira numa final de Taça do Mundo.

Sem o rádio, a realidade vai ser crua e seca. Vamos ver as coisas como elas realmente são: chatas, silenciosas e sem um locutor para nos convencer de que agora o bicho vai tocar.

Portanto, protejam as antenas. Enquanto houver uma rádio a tocar um hit dos anos 80 com interferência de um walkie-talkie da polícia, do frigorífico ou da máquina de lavar, a humanidade terá uma chance. Se o rádio se calar, podem desligar o sol. O último que sair, por favor, deixe o rádio sintonizado na saudade.

Mas antes disso e 50 e tal anos depois, ponho pilhas novas, subo a antena, sento-me no muro da imaginação e vou ouvir Baby Love que um locutor nostálgico pôs a tocar.

Sanzalando

10 de maio de 2026

uma dia sonhei, nas arcadas

Me deixei sentado na mesma arcada de onde todas as tardes revejo um passado que guardo com alegria. A banda sonora é o marulhar, por vezes frio, por vezes com sabor a sal, por vezes silêncio de um fim de tarde ameno. 

Neste sentado, me deixo vagabundar pela imaginação, tropeçando palavras, plantando frases, debitando vidas, estórias, encantos, desencontros, sorrisos, memórias. 

Diz-se que o primeiro amor é como uma cicatriz, fica lá para sempre, mas que com o tempo deixa de doer. A metáfora real é quase literal, com a ironia adicional do que hoje me ocorreu, quando me lembrei que durante anos fechei feridas e deixei cicatrizes nos outros.

A paixão aos 16 anos, foi um clássico de biologia e hormonas. Jurámos amor eterno entre resumos de fotossíntese e partilhas de trabalhos de casa. Assim se passaram três anos platónicos. Carregados de paixão que se via a olhos vistos, sem ser necessário testes laboratoriais, exames psicológicos ou trocas de vocábulos que materializassem tal paixão em ambos sentidos. Quando as notas do exame de admissão saíram ambos entrámos em Medicina e o mundo parecia um guião de cinema simples, cor-de-rosa e fácil de mais. Mas o destino, que tem um sentido de humor muito particular, decidiu que o dia da matrícula seria também o dia do óbito da relação.

Um mal-entendido num corredor da vida, um visto não respondido num qualquer recanto e pronto, cortaram relações com a precisão de um bisturi bem afiado.

Seguiram-se anos de silêncio absoluto. Seis anos de curso, mais uns quantos de especialidade, e cada um seguiu a sua trajetória como se o outro tivesse sido apenas uma alucinação da adolescência. Eu tornei-me um cirurgião capaz de martelar um esterno ou de delicadamente coser uma veia cava rota num acidente. Ela, ao que sei, virou uma cirurgiã minuciosa, daquelas que olha para um corpo e vê milímetros de perfeição à espera de acontecer.

O mais fascinante? Nunca trabalharam no mesmo raio de dez quilómetros e nunca se cruzaram em reuniões ou congressos. É uma espécie de física quântica hospitalar: dois corpos que ocupam o mesmo espaço profissional, mas nunca o mesmo tempo. 

Vivemos décadas na mesma cidade e sendo ambos cirurgiões foi como jogar um jogo de  euromilhões de desencontros. 

Se hoje se encontrassem num bloco operatório por erro de agendamento, o diálogo seria digno de um episódio escrito por um autor de comédia absurda. Ou seria a escuridão do silêncio?

É uma coincidência estatística notável. Dois miúdos que se apaixonaram, prometendo pela troca de olhar, pela doçura nas palavras, cuidar um do outro, acabaram de facto a cuidar da humanidade apenas em salas de operações separadas e com um bloqueio permanente nas ruas da vida.

No fundo, talvez tenha sido melhor assim. Algumas paixões de adolescência não foram feitas para durar, mas para servir de treino. Eles aprenderam a abrir corações aos 16 para poderem abrir abdómenes aos trinta. E se algum dia o destino os colocar frente a frente numa urgência de sábado à noite, esperemos que o paciente não tenha pressa, porque a primeira coisa que eles vão precisar é de uma consulta de psicologia para decidir quem é que liga o aspirador primeiro.

Ups... deixei-me dormir na arcada e sonhei. Foi um sonho lindo que não tenho oportunidade de partilhar com a minha mãe que sempre me disse para não sonhar alto, para nunca me esquecer de que os meus pés devem estar assentes na terra. Na verdade, sempre que voei, foi de avião.



Sanzalando