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10 de junho de 2026
Programa K'arranca às Quartas 122
Como Não Morrer na Fonte Luminosa
Mas a verdade é que existir consome-me, esgota-me e a factura da vida está demasiado cara para eu não fazer da vida uma coisa que valha a pena. De vez em quando, tenho de me auto-infantilizar para não entrar em curto-circuito. Outras vezes viro programa de rádio e outras ainda mandam-me para o raio que me parta e na verdade ainda não o encontrei.
Parece que o mundo se uniu para me irritar, se não foi assim que o Rui Veloso cantou, pouco diferente terá sido.
As pessoas esperam sempre que eu fale como um autor de bestsellers, um bibliógrafo, um eurodito, quando na verdade mal consigo formular um bom bom dia sem dar erros na gramática, ou dar um simples nó na língua que até parece tenho sopa de massa dentro da boca. Já nem sei se as histórias que conto sonhei, ou aconteceram mesmo ou se preciso de medicação porque entrei em delírio. Penso a 200 km/h e já não sei se alguém roubou a régua e o esquadro aos engenheiros ou sou só eu a fazer geometria na memória. Agora é tudo cheio de elipses. Clips! Claramente desenhadas para eclipsar a malta anonimamente das estórias que eu sei que aconteceram mesmo que não sejam reais.
Pular de laje em laje, ao pé coxinho, feito um miúdo hiperativo que bebeu café a mais na fonte luminosa não parece próprio para a minha proveta idade..
Mas não se enganem, isto exige uma logística militar. Saber a que hora exata o carro passa, com ela lá dentro, naquele passeio de fim de tarde ritualístico exige mais concentração do que um exame de neurocirurgia. E, honestamente, uma quantidade absurda de sorte para não ser atropelado no processo nem me perder nesta confusão mental de querer contar tudo tim por tim num parágrafo para não gastar tinta nem tempo.
A D. Elsa já veio à varanda fazer disse qualquer coisa, mas na verdade ignorei-a olimpicamente. Nem um adeus simpático lhe fiz. Ela estava quase de certeza a mandar vir comigo. Do Grémio? Ninguém saiu para ver se eu tinha finalmente enlouquecido por amor. Malta ingrata. Estou aqui a dar um espetáculo de contorcionismo gratuito na curva-contracurva do circuito das memórias e nem uma palmadinha nas costas nem um incentivo ao fervor..
Aqui estou eu, sozinho, a jogar à macaca em cima de lajes que são mais rugosas e abrasivas do que lixa, pronto para me lixar todo . Um deslize com a perna nua e faço uma depilação forçada até ao osso. Mas hey, ao menos as quedas escondem as minhas crises existenciais e as minhas filosofias baratas de trazer por casa.
Olhando para a avenida que nunca mais acaba, chego à conclusão científica de que viver dá um trabalho desgraçado. Amar desamado ainda mais. Descrever a minha própria vida parece-me um exercício de egoísmo digno de uma panela de pressão prestes a saltar a válvula sob o assobio estridente do vapor. Chegado ao capítulo 30 desta coleção de embaraços públicos, apetece-me só meter um ponto de exclamação, parágrafo, e gritar que viver é difícil como o raio!
Morrer? Ah, morrer seria super poético, muito cool, mas dramaticamente fácil demais. E eu não quero facilidades nesta comédia romântica falhada. Metade desta cidade geométrica é minha família; a outra metade podia ser, se eu tivesse a decência de me apaixonar por alguém daqui e assentar a cabeça.
Tudo seria mais simples se eu tivesse ido patinar para o ringue do parque infantil. Ao menos lá chateava o Sr. Sousa, que já me conhece as costelas todas de tantas vezes que mas teve de endireitar com as suas milagrosas ventosas.
9 de junho de 2026
sentado no passeio
Há duas maneiras de enfrentar o calor de fim de tarde quando somos adolescentes: ou sucumbimos ao ar condicionado, um luxo sem alma que só sentimos quando vamos no banco levantar um cheque ou regressamos às origens da sabedoria popular e fazemos da beira do passeio a nossa bancada presencial e presidencial.
Sentar no passeio com aquela técnica ancestral de encolher os joelhos para não ser atropelado por um carrinho de bebé ou por um ciclista distraído é um acto de pura filosofia urbana que faz tempo já se perdeu. Não se está ali para ir a lado nenhum. Está-se ali para ver o mundo passar. E hoje, o objetivo é claro: ver se o carro especial aparece como é habitual.
Toda a gente sabe que cada bairro, cada vila ou cada rua tem o seu carro especial. Não estamos a falar de um Aston Martin ou de um Ferrari de colecção. Isso é para principiantes. O verdadeiro carro especial da vizinhança tem de ter... personalidade, estatuto e se fôr só paixão, também vale.
Enquanto o carro não vem, a beira do passeio oferece um desfile de aquecimento. Sentado, ao nível dos canos de escape, a perspetiva muda completamente:
O "Fangio" das motoretas: Uma motorizada que até é mini e que faz tanto barulho que parece que vai quebrar a barreira do som, mas que na verdade avança a uns estonteantes 30 km/h. O condutor curva com o joelho quase a tocar no chão, motivado pelo olhar do que está sentado a ver um nada específico.
O Clássico: Um modesto citadino dos anos 50, cuja única peça original que resta é o condutor. Tem uma ponteira de escape do tamanho de uma panela de pressão e uma música a tocar que faz vibrar não só os vidros do carro, mas também as minhas costelas e as pedras da calçada onde estou sentado.
Jeep que parece fez guerra: Conduzido geralmente por alguém que parece tem medo de subir passeios, mas que comprou um veículo projetado para atravessar o deserto do Saara só para ir buscar pão.
O tempo passa. O cimento do passeio começa a transferir o calor do dia diretamente para as calças, um tratamento termal gratuito, por assim dizer. As pessoas passam e olham de lado. Quem não percebe o ritual acha que caí ou estou desesperado que naquele tempo acho não havia depressão ou que me esqueci das chaves ou que estou a fazer um protesto silencioso. Quem percebe, acena com a cabeça. É a irmandade dos contemplativos.
De repente, um silêncio no tráfego. O vento para. Os pombos voam assustados.
"Será agora?" pensei no meu silêncio
Ao fundo da rua, surge uma silhueta. Não faz barulho. Não deita fumo. É ele. O verdadeiro, o único, o carro especial do dia.
Não desaponta. É aquele clássico. Ele passa devagar, sabe que o passeio o observa. Olha de soslaio, certifica-se de que o seu público, eu e um gato vadio que por acaso estava a passar por cima de um muro, está atento, e dá um pequeno toque nos lábios como quem sorri camufladamente. Missão cumprida neste meu fim de tarde como todas as tardes anteriores.
Passou. Foram dez segundos de pura magia mecânica cardíaca.
Levanto-me com a dignidade possível de quem passou uma hora com o rabo no cimento, dou uma palmada nas calças para sacudir a poeira da rua e dou o dia por ganho. Amanhã à mesma hora, o passeio estará lá outra vez. E quem sabe se o carro especial não traz um sorriso mais descarado?
8 de junho de 2026
um dia diferente na praia
Tem gente que vai na praia para nadar. Outras para apanhar sol e ficar assim que nem torresmo curado ou só mesmo cor de camarão cozinhado. Eu vou para desenvolver uma relação de respeito mútuo com as alforrecas, pica-pica, as garinas e quem sabe fazer mergulhos de figura artística que às vezes só sai da forma estatelado.
O meu plano é simples. Acordar cedo, vestir os calções mais optimistas que tenho, pegar na toalha e rumar à praia com aquele entusiasmo de quem acredita que a vida ainda lhe deve alguns mergulhos felizes.
O dia está sempre perfeito. Céu azul, mar azul, pessoas felizes e gaivotas a fazerem aquilo que fazem melhor: parecer que estão sempre a criticar alguém e de vez em quando deitam bombas que nem a aviação. Se estiver vento, mantem-se a perfeição do dia com a derivação que é jogar à bola.
Chego à areia e sinto logo aquela felicidade especial que só existe nos primeiros cinco minutos de praia, antes de descobrirmos que a areia está demasiado quente para caminharmos sem chinelos e o vento está demasiado forte e não há espaço livre para jogar a bola, porque está muita gente.
Olhei para o mar. Magnífico.
Foi então que alguém me gritou.
- Atenção: presença de alforrecas em barda.
O meu entusiasmo entrou imediatamente em modo de poupança de energia.
Uma alforreca é um ser extraordinário. Não tem cérebro, não tem coração, não tem ossos e, mesmo assim, consegue estragar as férias de uma praia inteira. Há políticos que invejam essa eficácia.
Fiquei ali, à beira-mar, a analisar a situação, a ponderar as minhas premissas, a contar os meus enganos e desenganos.
Os adolescentes mergulhavam heroicamente. Alguns senhores mais velhos nadavam como se estivessem a treinar para atravessar o Atlântico, num paralelo á costa
Eu observava tudo com a prudência de um entendor.
Molhei um pé.
Nada.
Molhei o outro.
Também nada.
Avancei mais dois passos.
Foi nesse instante que alguém saiu da água a dizer:
- Cuidado! Acabei de ver uma!
Pronto.
Terminou a minha carreira aquática daquele dia.
Recuar não foi cobardia. Foi uma retirada estratégica. Os grandes generais da História também recuavam. Eu recuei até à toalha. Olhei em volta e procurei o guarda-sol azul. Alforrecas e pica-pica no mar e na areia gente muita mas sem o tal guarda-sol azul.
Ali fiquei durante horas a vigiar o oceano como se fosse guarda-costas da areia com ar de desilusão.
De vez em quando aparecia alguém a dizer:
- Nem picam muito.
Essa frase nunca me tranquilizou.
É como dizer a alguém:
- O leão só morde um bocadinho.
Ou:
- O paraquedas costuma abrir.
Ou ainda:
- O dentista hoje parece bem-disposto.
Não inspira confiança.
Por isso passei a tarde inteira a fazer atividades alternativas fui para casa, arrumei livros e cadernos e preparei-me para um tempo de solidão.
Em casa alguém perguntou:
- Então, a água estava boa?
Respondi com toda a sinceridade:
- Não faço ideia. Hoje tive uma relação exclusivamente visual com o mar e uma desilusão com a areia..
E assim terminou mais um dia de praia.
Porque há uma idade em que percebemos uma grande verdade da vida: não temos de provar coragem a uma alforreca ou a um pica-pica, nem lamentar um amor desamado.
7 de junho de 2026
Pertinências 12 - Música e Filosofia
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Gustavo falou de Música e de conceitos, ideias e pensamentos
Imperdível
6 de junho de 2026
saudade e adolescência
Me disseram que a adolescência é aquela idade em que somos um rascunho de gente, escrito a caneta bic de corpo transparente que falha a meio e com demasiados erros de ortografia emocional. Olhar para trás, para esse território cinzento entre as calças curtas e os primeiros pelos do bigode exige sempre um de dois superpoderes: ou uma amnésia profundamente selectiva, ou uma robusta e saudável dose de humor. Escolho a segunda, com a leveza de quem sabe que o tempo é o melhor amaciador de memórias.
Crescer é um despropósito biológico. Aos catorze anos, as nossas articulações parecem não ter recebido a notificação de que o resto do corpo mudou de tamanho. É a idade de ouro dos joelhos esfolados, do acne que decidia fazer uma convenção na ponta do nariz exatamente no dia da festa da escola, e daquela timidez incapacitante que nos fazia gaguejar ao pedir um simples pastel de nata na pastelaria da esquina. Éramos uma espécie de girafas recém-nascidas a tentar dançar uma valsa num chão inclinado
E, no entanto, que saudade há nessa maravilhosa e ridícula vulnerabilidade!
Hoje, com a distância da segurança que os anos nos dão, olho para as fotografias desse tempo com uma ternura e uma vontade incontrolável de rir. As modas, por exemplo. Que pacto coletivo de insanidade mental nos levava a usar aquelas roupas? Havia uma necessidade visceral de pertença que nos fazia adotar penteados que hoje seriam classificados como crimes contra a estética. Se o cabelo estivesse farto, o gel tratava de o transformar numa arma branca; se a atitude exigisse rebeldia, o olhar melancólico e os braços cruzados faziam o resto do trabalho.
Tínhamos certezas absolutas sobre coisas das quais não sabíamos absolutamente nada. Discutíamos filosofia barata nas esquinas até às duas da manhã, jurávamos amor eterno a cada três semanas e sofríamos por desgostos de amor que duravam tanto tempo quanto uma canção no rádio. O mundo era um palco gigante e nós éramos os protagonistas de um drama intenso, quando, na verdade, éramos apenas figurantes dum filme cómico barato.
A grande beleza de olhar para a adolescência com uma saudade feliz é perceber que toda aquela intensidade não passou de um ensaio geral. Os complexos que nos pareciam montanhas intransitáveis hoje são apenas pequenas dunas de areia que o vento da maturidade desfez. Aquela rapariga que não nos ligava nenhuma? Hoje já nem nos lembramos bem do apelido dela. A nota dramática no teste de Matemática? Acabou por não ditar o resto do nosso destino trágico.
Recordar esses anos com um sorriso largo é fazer as pazes com o miúdo que fomos. É abraçar a nossa própria tontice. Afinal, fomos felizes na nossa ignorância. Sobrevivemos às primeiras festas de garagem com luzes psicadélicas improvisadas, às fitas gravadas com a voz do locutor a meio só para nos lixar a gravação, aos verões intermináveis que pareciam durar uma eternidade e às promessas feitas ao luar que o amanhecer fazia esquecer.
Ter uma adolescência saudável na memória não significa que ela tenha sido perfeita; significa que aprendemos a rir dos nossos próprios naufrágios de copo de água. E há uma enorme dignidade em olhar para o espelho do passado, ver aquele jovem desajeitado e de sobrancelhas rebeldes, e dizer-lhe, baixinho e com orgulho: Obrigado pela coragem. Olha que, apesar de tudo, não nos correu nada mal.
5 de junho de 2026
praia, passado, presente e futuro
Brincar na praia era uma actividade de esforço bruto e imaginação pura.
Depois foi a fase em que era preciso haver uma bola de futebol, embora jogar à bola na areia misture o pior de dois mundos: a gravidade da Lua e o atrito de uma lixa de carpinteiro. O jogo terminava sempre quando a bola, impulsionada por um chuto mais entusiasta e menos certeiro, aterrava em cima da barriga de um senhor que tentava dormir na toalha ao lado, ou ia mar dentro. O pedido de desculpas era um ritual sagrado, feito com os pés a queimar na areia quente e aquele sorriso de quem sabe que quase causou um incidente diplomático mas que daqui a minutos repetiria.
Depois foi a fase com que comecei este meu diário, que pode ser mensário ou sem periodicidade. A paixão segundo a idade. Era linda. A idade, claro. Mas ela foi-se alterando e não tem nada a haver com as alterações climáticas. Coisas próprias da vida. Hoje em dia, a brincadeira na praia modernizou-se. O clássico balde e a pá de plástico amarelo dão agora lugar a uma parafernália tecnológica e desportiva digna de uns Jogos Olímpicos de Verão, ou uma dor cervical associada a um lacrimejar.
Vejamos: olhamos para o lado e vemos as raquetes de praia a se tornarem no desporto nacional por excelência. Há sempre uma dupla que joga como se estivesse na final de um qualquer torneio, projetando a bola a velocidades supersónicas, enquanto o resto dos banhistas faz desvios acrobáticos para não perder um dente nem levar um estalo de uma tábua. Não tarda, ainda vemos alguém a tentar marcar um campo de pickleball na areia molhada e a tentar explicar as regras à beira-mar, ignorando o facto de que uma onda mais atrevida pode levar o equipamento todo até Marrocos: olhamos para outro e vemos alguém sentado, corcunda, a olhar um smartfone, numa concentração tal que nem uma onda gigante lhe ia acordar daquele estado quase hipnótico.
Mas há algo que o progresso não muda: o lanche. Ninguém sabe explicar o fenómeno científico, mas a verdade é que a areia tem asas. Pode não haver ponta de vento, podemos estar resguardados sob três chapéus de sol e a usar pinças cirúrgicas, mas no momento exato em que se pede uma mítica bola de Berlim, com creme, obviament ou se abre uma simples sandes, a areia aparece.
E nós, com a resiliência típica de quem está de férias, mastigamos aquele crocante marítimo com um orgulho poético. Faz parte do paladar à beira mar sentado, dizemos nós para consolo. Ir à praia e não comer pelo menos três gramas de sílica por via oral é o equivalente a ir a Roma e não ver o Papa.
No final do dia, vermelhos como lagostas apesar das três camadas de protetor fator 50, regressamos ao carro. Sacudimos os pés, batemos os chinelos, mas todos sabemos a verdade universal: a brincadeira na praia só termina verdadeiramente três meses depois, quando ainda encontramos grãos de areia escondidos no fundo da mala do carro. E aí, com um sorriso nostálgico, percebemos que a praia nunca sai verdadeiramente de nós.
E assim, numa sexta feira fui à praia, com diferentes idades e não sei se esqueci alguma ida mais especial que a de estar sentado nas arcadas a contemplar o meu futuro.
4 de junho de 2026
ler ao vento
Há quem faça palavras cruzadas, há quem veja séries na tv, há quem passe horas a discutir política nas redes sociais como se estivesse a negociar a paz mundial ou a abrir novas guerras, há quem nas redes se sinta importante e impune e despache palavras como quem esvazia o rancor. Eu descobri uma atividade muito mais simples e muito mais útil: ler ao vento.
Note-se que não me refiro a ler sobre o vento. Refiro-me a pegar num livro, sentar-me num banco de jardim, numa esplanada ou à beira-mar, e deixar que a brisa participe activamente na leitura. Porque o vento não é um simples espectador. O vento é um leitor crítico, daqueles que não respeitam a ordem das páginas nem a velocidade que leio.
Abro o livro na página 23 e, como se houvesse um sopro de entusiasmado, passo imediatamente para a 57. A personagem ainda nem tinha saído de casa e já estava divorciada, reformada e com três netos. É uma leitura dinâmica, quase um curso acelerado de literatura.
O vento também tem a mania de funcionar como marcador de páginas. O problema é que escolhe sempre uma página diferente daquela que eu estava a ler. Quando volto ao livro, encontro-me no meio de uma descrição de uma sopa de nabiças ou de uma batalha medieval sem perceber como lá cheguei. É como viajar de comboio e acordar numa estação errada. Muito gosta ele de me dobrar páginas em vez de usar um marcador.
Mas ler ao vento tem vantagens. O tempo passa sem darmos por isso. Uma hora de leitura ao vento equivale a três horas de entretenimento convencional. Não apenas lemos um livro, como seguramos páginas rebeldes, protegemos chapéus, recuperamos marcadores desaparecidos e afastamos grãos de areia que insistem em tornar-se personagens secundárias da história.
Há ainda o lado poético da coisa. O vento parece querer ler connosco. Espreita as páginas, mexe nas folhas, sopra frases para o ar. É uma espécie de clube de leitura atmosférico, embora os seus comentários sejam sempre um pouco difíceis de interpretar. Ou será que sou eu que já estou tonto de tanto o contrariar?
No fim, quando fecho o livro, percebo que talvez não tenha compreendido todos os capítulos. Algumas partes ficaram misturadas, outras voaram literalmente para longe. Mas o objetivo foi cumprido: o tempo passou.
E talvez esse seja um dos grandes segredos da leitura. Não importa se estamos numa biblioteca silenciosa ou num banco de jardim em luta aberta contra uma ventania. Um livro tem essa capacidade extraordinária de fazer os minutos correrem mais depressa.
Embora, convenhamos, quando o vento leva o marcador de páginas para longe num voar rotativo, já não é apenas literatura, é um duatlo, que mete já a corrida nos entretantos.
3 de junho de 2026
Programa K'arranca às Quartas 121
O Dia em Que Decidi Jogar Padel
A culpa foi dos amigos. É sempre dos amigos. Nunca ouvi ninguém dizer que foi assaltado pela sua imprudência ou que foi o bom senso que o meteu nisto. Não. Foram os amigos.
O que eles me disseram:
- Tens de experimentar!
- É divertido!
- É fácil!
- Qualquer pessoa joga!
Desconfiei logo, ainda mais da última frase. Sempre que alguém diz que qualquer pessoa consegue fazer alguma coisa, normalmente está a referir-se a pessoas que nasceram com talento, equilíbrio e articulações ainda dentro da garantia. Há anos que a minha garantia se foi e não há a quem reclamar.
Mas lá fui sem bem saber ao que ia. Vi no Youtube uns três vídeos. Percebi o mecanismo da coisa. Paredes de vido, uma rede a meio e uma tábua na mão como brinco na praia.
Cheguei ao campo equipado como quem vai disputar a final de Wimbledon. Ténis novos próprios para o padel segundo o empregado da loja, roupa desportiva impecável e uma raquete alugada na mão. Na verdade sentia-me um atleta. Durante aproximadamente três minutos que entrei no retângulo eu senti-me confortável e confiante.
O primeiro problema foi descobrir como se segurava a raquete. Uns diziam que era como quem pega num martelo e eu a pensar como é que seria uma coisa que nunca tinha pensado. Mas como raio eu pego um martelo. Como é que eu com o martelo ia bater no raio da bola se quase mal a vejo? O segundo foi perceber que a bola não colaborava minimamente com os meus planos. Eu pensava ia dirigi-la para ali e ela, por vontade própria ia para acolá.
No aquecimento, a bola passou por mim várias vezes. Não porque fosse rápida, mas porque eu era optimista, preguiçoso ou estava a faltar-me qualquer sentido posicional. Calculava a trajetória, preparava-me para o golpe perfeito e, no último instante, a bola escolhia outro destino que não o que eu tinha desenhado para a receber.
Parecia ter vontade própria a maldita amarelinha.
Quando finalmente consegui acertar-lhe duas vezes seguidas, foi um momento de glória. Infelizmente, a bola, à segunda, saiu do campo, atravessou a vedação e quase foi pedir nacionalidade ao concelho vizinho.
Os meus colegas foram pacientes.
- Muito bem! — gritavam. - Vais lá!
Eu conheço aquele muito bem. É o mesmo que se usa quando uma criança desenha um cavalo que parece um aspirador avariado ou um pai que só tem pernas e cabeça.
Depois descobri a particularidade mais intrigante do padel: as paredes.
Passei uma vida inteira a aprender que bater contra paredes era um erro. E várias vezes as bati com a cabeça. De repente, encontro um desporto onde a bola bate na parede e toda a gente acha normal.
A certa altura, fiquei tão concentrado a seguir a bola que dei por mim a rodar em círculos dentro do campo, como um cão a tentar apanhar a própria cauda e ainda por cima ria.
Houve um momento particularmente humilhante em que corri para a frente, recuei, avancei outra vez, olhei para cima, olhei para os lados e, no fim, a bola caiu calmamente ao meu lado, sem que eu lhe tocasse. Parecia que estava a observar um documentário sobre a minha incompetência.
Ao fim de noventa minutos eu estava exausto. Descobri músculos cuja existência em mim desconhecia. Alguns deles, suspeito, pertenciam a outras pessoas mas vieram doer em mim.
No dia seguinte, acordei com dores em locais do corpo que nem sequer aparecem nos livros de anatomia. Para me sentar precisava de um plano estratégico. Para me levantar, de muita fé.
Mas, estranhamente, gostei. Amor violentamente apresentado à primeira vista.
Talvez porque o padel seja uma metáfora da vida. Corremos atrás de coisas que nos escapam, batemos contra paredes, falhamos bolas fáceis e, de vez em quando, acertamos uma pancada tão boa que de imediato esquecemo-nos de todas as outras que falhámos.
Ou talvez porque, no fundo, gosto de fazer figuras ridículas desde que tenha testemunhas suficientes para se rirem comigo e de mim.
Seja como for, já logo combinei novo jogo para a semana seguinte, esperando ter recuperado muscular e mentalmente daquele primeiro dia.
Passei a ir mais bem preparado.
Passei a levar uma raquete que comprei, suave, com bom controle e boa saída apesar de faltar um jogador na extremidade da mesma, água... e um fisioterapeuta de prevenção.
2 de junho de 2026
Um conto que não contei
Sentei na secretária. Não. Sentei-me frente ao computador, na cadeira que está à freente da secretária onde está o PC. No tempo em que escrevia com caneta já estava uma folha amarrotada e eu zangado. Mas eu quero escrever um conto. Um conto de amor. De amor adolescente. Não. Vou cair no meloso e nos suspiros que não são de açúcar. Vou trocar os suspiros exagerados pelas situações embaraçosas, pelos mal-entendidos e pela forma dramática como os adolescentes transformam pequenos acontecimentos em grandes epopeias.
Em vez de dizer:
- Quando a vi, o meu coração disparou e o mundo parou.
Vou dizer:
- Quando a vi, esqueci-me do próprio nome, tropecei no degrau da escola e descobri que a gravidade continua a funcionar mesmo quando estamos apaixonados.
O humor nasce da distância entre aquilo que se imagina e aquilo que realmente aconteceu. Na minha cabeça, sou um herói romântico; na realidade, estou a ensaiar frases inteligentes há três dias para acabar por dizer apenas: Então... está calor, não está?
Não vale a pena recordar que os adolescentes vivem tudo em modo exagerado:
- Um sorriso vale um pedido de casamento.
- Um olá é sinal de destino carregado de emoção.
- Um até amanhã já serve para escolher os nomes dos filhos.
Podia brincar com os conselhos dos amigos, que costumam ser tão úteis como um guarda-chuva furado naqueles dias de tempestade:
O Zé garantiu que as raparigas adoravam rapazes misteriosos. Passei uma semana sem falar. Ela concluiu que eu era tímido, estranho ou tinha perdido a voz. Talvez as três coisas. Ou só que eu era parvo.
Outra técnica a usar podia ser autoironia. Podia olhar para trás e rir-se da minha própria ingenuidade:
Aos quinze anos eu tinha a certeza absoluta de três coisas: que ela era o amor da minha vida, que eu ia ser rico antes dos vinte e que o meu clube nunca perderia um jogo importante. Como se vê, a adolescência é uma fase fértil em imaginação.
O resultado seria uma história ternurenta sem ser açucarada, porque o leitor ia rir-se das situações e reconhecer emoções verdadeiras nelas.
Em resumo: menos luar e mais tropeções; menos poesia declamada e mais nervosismo; menos amor eterno e mais confusões, amigos intrometidos e planos que correm mal. O humor faz sorrir e, curiosamente, torna a paixão mais credível. Afinal, quase todos nos apaixonámos na adolescência; poucos escreveram poemas perfeitos, mas muitos disseram disparates memoráveis.
Desliguei o PC e não escrevi o tal conto por falta de assunto para contar.
1 de junho de 2026
No Meu Tempo de Criança, o Dia da Criança era Todos os Dias e Nenhum
No meu tempo de criança era como? Se eu dissesse à minha mãe que queria celebrar o “Dia da Criança”, ela provavelmente olhava para mim, pousava o ferro de engomar e dizia, com aquela doçura que só as mães dos anos 60/70 conseguiam reunir:
- Dia da Criança? Olha que levas já duas dores de dentes que te passa logo a mania do protagonismo. Vai mas é deitar o lixo fora e fazer os trabalhos de casa
E sabem que mais? Éramos incrivelmente felizes.
Sanzalando
31 de maio de 2026
Pertinências 11 - 14º Final de Leitura em Voz Alta
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Há escritores que nos contam histórias. E há outros — mais
raros — que nos devolvem memórias que nem sabíamos que eram nossas. Dulce Maria
Cardoso pertence claramente a este segundo grupo.
Quando se fala de O Retorno, não se fala apenas de um livro.
Fala-se de uma mala sempre por desfazer, de um país que cabe num sotaque e de
uma infância que ficou suspensa entre continentes — como roupa num estendal
apanhado por vento incerto.
Imperdível
30 de maio de 2026
eu a pensar
Há pessoas que têm o cérebro organizado. Pensam numa coisa de cada vez, resolvem-na, arquivam-na numa gaveta mental e seguem para a próxima como se fosse uma cadeia de normais acontecimentos. Eu admiro-as da mesma forma que admiro os equilibristas do circo, à distância e com a certeza absoluta de que nunca conseguirei fazer o mesmo.
O meu cérebro não é uma biblioteca. É uma fábrica. Uma fábrica antiga, daquelas que existiam antes de eu nascer, enormes, com chaminés a deitar funo dia e noite, onde as ideias entram em produção sem autorização da gerência. E como a gerência sou eu, posso garantir que raramente sou consultado.
Acordo de manhã e, antes mesmo de abrir os olhos, já há uma reunião de emergência. O eu e o mim reunen-se.
- E se escrevesses uma história sobre um reformado que decide aprender a andar de skate?
- E se inventasses uma receita de bacalhau com manga?
- E se os pombos fossem agentes secretos?
Tudo isto antes do mata-bicho.
Enquanto preparo o café, a linha de montagem acelera. Uma ideia empurra a outra como carrinhos de supermercado.
Olho para uma nuvem e penso num poema que nunca escreverei.
Vejo um gato e imagino um romance policial, que nunca escrevi.
Vejo uma torrada queimada e surge uma reflexão filosófica sobre os limites da civilização e a inteligência artificial que não me ajudou neste instante.
O problema é que a fábrica produz muito mais do que consegue expedir. Tenho a cabeça cheia de apontamentos misteriosos, que nem eu sei desvendar.
“Homem que reflete com semáforos.” “Galinha deprimida não põe ovos.” “Teoria revolucionária sobre meias desaparecidas.”
Confesso que, meses depois, recordo estas notas e não faço a mínima ideia do que pretendiam significar. Devem ter sido produtos experimentais que nunca chegaram ao mercado. Às vezes suspeito que o meu cérebro trabalha por objetivos de produção. Se passo uma hora sem ter uma ideia nova, parece soar uma sirene interna.
- Atenção! Quebra de produtividade! É preciso inventar qualquer coisa!
E imediatamente surge um pensamento absurdo, apenas para manter os números da fábrica.
A vantagem é que raramente me aborreço. A desvantagem é que raramente descanso. Enquanto os outros contam carneiros para adormecer, eu assisto ao turno da noite da minha fábrica fumegante.
Os carneiros entram, é verdade, mas cinco minutos depois já se estão a organizar num sindicato, a criar uma banda de rock ou a planear uma candidatura à junta de freguesia.
Nestas alturas percebo que a minha imaginação não conhece horários laborais.
Funciona aos fins de semana, aos feriados e até durante as férias, quando eu as tinha.
Aliás, as férias eram a pior altura. O cérebro interpreta qualquer descanso como uma oportunidade para aumentar a produção em 300%.
Mas não me queixo. Já agora era o início de uma pausa. Ou seria o fim?
Uma fábrica destas dá trabalho, faz barulho e, por vezes, produz artigos completamente inúteis. Porém, de vez em quando, entre uma ideia disparatada e outra ainda mais disparatada, aparece uma que vale ouro.
Uma história.
Uma crónica.
Uma lembrança.
Um sorriso.
E então percebo que talvez não seja assim tão mau viver com esta fábrica permanentemente ligada, mesmo que o cansaço me derrube. Alguém tem de se lembrar de desligar a sirene de vez em quando. Ou, pelo menos, de convencer os pombos agentes secretos a fazerem menos horas extraordinárias.
29 de maio de 2026
sociedade
Sentado no banco da avenida, olho os poucos carros que passam. É hora de trabalho, não é hora de passear. Eu, em vez de estar a jogar dominó, olhar a televisão com cara de parvo, prefiro este banco da avenida. Apanho ar e vagueio por entre pensamentos e outras ideias que possam nascer do vente mental.
Olha para mim: roupa simples, sandálias velhas mas cómodas para mimar estes pés cansados, olhar brilhante de quem está feliz, sorriso natural estampado na cara a vagabundear por mim dentro.
Mas posso garantir que ganhar um espaço na sociedade não foi uma corrida de cem metros; foi mais uma maratona em cima de brasas, enquanto tentava equilibrar uma bandeja de ideias, conceitos e vontades. Todos diziam que o segredo era trabalho e dedicação, mas esqueceram-se de mencionar que a sociedade é um clube exclusivo onde o porteiro é um algoritmo mal-humorado e a senha muda todas as terças-feiras.
Primeiro, vamos falar do trabalho. Antigamente, trabalhar era carregar sacos de cimento, era suportar insónias, ouvir recados, interpretar convicções. Hoje, ganhar espaço na sociedade exige um esforço hercúleo de... enviar e-mails. E não são e-mails comuns. São missivas digitais carregadas de termos como "sinergia", "fazer o follow-up" e "agregar valor", frases e "words" ou "powerpoints". Empregar fruir, narrativa e outros considerandos nos memorandos.
A dedicação começava no despertador. O cidadão que quer vencer acorda de madrugada. Não porque tenha algo útil para fazer a essa hora, mas porque o LinkedIn, o FaceBook, o Instagran e o X exigem que se poste uma foto de uma chávena de café com a legenda: "Enquanto eles dormem, eu já estou a sofrer."
Conta a estória que a formiga ganha o seu espaço pelo esforço contínuo. Mas a formiga é discreta. Se você quer um lugar ao sol ou pelo menos um lugar na sombra de um guarda-sol de marca, precisa de trabalho barulhento. Não basta ser bom; tem de parecer que está a ter um esgotamento de tanto sucesso. Andar depressa com uma pasta vazia debaixo do braço confere uma autoridade instantânea. Ganhar espaço implica conhecer pessoas. Isso significa ir a eventos onde se serve vinho quente e sorrir para alguém que você tem 90% de certeza que é o vice-presidente de algo, mas que na verdade é apenas o técnico do ar-condicionado. Não importa. Dedique-se a esse aperto de mão como se a sua vida dependesse disso.
Agora a dedicação total manifesta-se naquele momento em que se aceita fazer tarefas que ninguém quer. O espaço na sociedade é muitas vezes conquistado através da geografia da disponibilidade.
- Quem pode organizar o Excel das quotas do condomínio?
- EU! — gritava com o entusiasmo de quem acabou de ganhar o Totobola.
Pronto. Acabou de conquistar três metros quadrados de influência social. Agora as pessoas conhecem o nome e geralmente acompanham-no de aquele maluco que gosta de tabelas ou de se exibir.
28 de maio de 2026
eles e a saudade da juventude
Conheço gente que sempre começa as frases com:
No tempo dele, pelos vistos, nunca havia trânsito, as laranjas tinham mais sumo e sabor, os políticos eram sérios, os jovens respeitavam os mais velhos e as galinhas punham ovos com dignidade moral.
Uma vez ouvi-lhe dizer:
- Antigamente não havia depressões.
Claro. Havia era pessoas tristes em silêncio, a fumar AC ou Hermínios e a olhar para a chuva com ar cansado a ver se deixava de chover e aparecia o cacimbo. Eram assim cancimbados.
Outro garante-me:
- A juventude de hoje não sabe divertir-se.
Diz isto enquanto passa três horas no Facebook a partilhar fotografias a preto e branco de linha de eléctricos que já nem existem, acompanhadas da legenda: Quando Lisboa tinha alma. Queres ver que Lisboa ficou Desalmada? Como se a alma da cidade tivesse fugido no último eléctrico da Carris, provavelmente sem bilhete.
Os retrógrados têm um talento extraordinário: conseguem transformar qualquer avanço moderno numa ameaça civilizacional. O multibanco acabou com a conversa. O telemóvel destruiu a família. A internet matou os cafés. O micro-ondas arruinou a humanidade. Qualquer dia culpam o comando da televisão pelo declínio do Império Romano.
E depois há os especialistas do sofrimento antigo:
- Nós é que sabíamos viver com dificuldades!
Pois sabiam. Também tomavam óleo de fígado de bacalhau sem anestesia e sobreviveram. Mas isso não significa que alguém queira repetir a experiência voluntariamente hoje.
O curioso é que os maiores defensores do passado adoram os confortos do presente. Dizem mal da tecnologia… mas ficam aflitos se o Wi-Fi falha durante quatro minutos. Criticam os jovens por passarem a vida ao telemóvel… enquanto procuram os óculos com a lanterna do próprio telemóvel e vasculham o telemóvel alheio à procura duma qualquer pista que leve à discussão. É que nos confortos do presente eles queriam viver o passado.
Há também uma certa romantização absurda da dureza antiga:
- Na nossa infância brincávamos na rua!
Sim. E muitos também apanhavam sovas monumentais e constipações épicas. A nostalgia é uma espécie de filtro do Instagram emocional: apaga as dores de costas e deixa apenas o cheiro do pão quente.
Eu gosto de recordar o passado. Gosto mesmo. Mas sem transformar a memória num museu onde é proibido mexer nos móveis.
Porque, sinceramente, se o passado fosse assim tão perfeito, ninguém tinha tido tanto trabalho a inventar o futuro.
E depois há esta verdade simples: quase todos os saudosistas querem voltar ao passado… desde que levem antibióticos, comprimidos para a tensão, ar condicionado, GPS, Netflix e uma boa prótese dentária.
O que eles têm saudades, no fundo, não é do mundo antigo. É da juventude deles.










