recomeça o futuro sem esquecer o passado

20 de outubro de 2026

O passeio às hortas ou como quase morri de amor entre couves e alfaces

Olhar hoje para trás, recordar num sofá em fim de tarde, um passado que me orgulha e ao mesmo tempo faz-me pensar no que eu perdi, ou não, tem o seu ar de pôr-do-sol nostálgico. Mas sem esse passado eu não estava aqui a recordá-lo, é verdade. 
Ela foi, por obra do acaso ou do destino ou só porque o Sr. Corado resolveu mudar de latitude, ela foi morar ao meu lado. Eu já era amigo de casa. Embora o rosto dela estivesse estampado em qualquer gesto meu, ninguém sabia da minha paixão. Pelo menos ninguém ousava dizer uma só palavra sobre ela, a paixão, ou ela a pessoa. Era uma história de amor, daqueles que só aconteciam quando ainda não havia telemóveis para estragar o romantismo, nem redes sociais para espalhar a notícia ainda antes dela ser..

Em 1973, eu estava cada vez mais apaixonado por ela. Apaixonado a sério, com aquela gravidade própria dos adolescentes que ainda não sabem grande coisa da vida, mas já têm a certeza absoluta de que não podem viver sem ela. O que fazem os namorados? Eu não fazia a mínima ideia. Mas que estava apaixonado estava e o pior é que ela também não sabia.

Ou, se sabia, disfarçava muito bem. Tão bem que eu, apesar de já ter idade para desconfiar de certas coisas, continuava convencido de que um dia ela havia de descobrir em mim um homem irresistível. Na altura, eu ainda não era homem, era uma espécie de projecto de homem, com cabelo despenteado, sandálias e uma quantidade de sonhos que não cabiam no bolso das calções.

Foi então que surgiu o convite.

- Amanhã vamos dar um passeio às hortas. Queres vir?

Queres vir?! A pergunta caiu-me em cima de mim como se fosse uma declaração de amor assinada e reconhecida no notário. Ela convidava-me para um passeio! Às hortas! Eu teria ido com ela ao fim do mundo, mesmo que o fim do mundo fosse um terreno baldio cheio de pedras e lagartos. Mas era às hortas, e isso tinha uma vantagem: havia natureza, havia ar livre e, sobretudo, havia a possibilidade de ficarmos sozinhos e haver por ali alguma macieira. Na minha cabeça já havia. Pelo menos, foi isso que imaginei.

Naquela noite, quase não dormi. Passei horas a escolher mentalmente a roupa, a ensaiar conversas e a preparar frases que demonstrassem inteligência, cultura e sensibilidade. Cheguei a pensar em falar-lhe de poesia, mas achei que poderia assustá-la. Optei por assuntos mais seguros, como a praia, o deserto que eu conhecia quase nada e sabia que ela também me acompanhava nesse desconhecimento e, se a conversa se emudecesse, a agricultura podia salvar algumas palavras.

Um homem apaixonado tem de estar preparado para tudo. No dia seguinte, apareci impecavelmente vestido. Camisa de ginástica, calções largos para facilmente subir às árvores, e quedes para melhor me mover no meio de alfaces e rabanetes.

Eu, pelo contrário, estava em estado de emergência emocional. Os pensamentos atropelavam-se e com isso os meus movimentos eram um tanto ou quanto descoordenados.

Começámos a viagem em direcção às hortas, e eu procurava desesperadamente um assunto que me permitisse mostrar um lado mais interessante. A ponte do Rio Bero, construída para os caminhos de ferro e segundo uma lenda tinha sido feita com dinheiro falso de um tal Alves dos Reis. Mas não teve continuidade na conversa.

- Gosto muito da natureza — declarei, com a solenidade de quem acabava de descobrir uma nova espécie vegetal ou não percebia nada do que poderia vir a seguir.

Ela olhou para mim.

- Eu também.

E o carro continuava a andar. Os pais dela de quando em vez diziam qualquer coisa mas eu não conseguia ouvir porque o meu cérebro estava noutro comprimento de onda. O silêncio era quebrado pelo som do Rádio Clube de Moçâmedes e do programa O meu Mundo é o Mar.

Foi a primeira derrota do dia.

Eu esperava que ela perguntasse quais eram as minhas árvores preferidas, se gostava mais de flores ou de plantas aromáticas, ou até se alguma vez tinha pensado em escrever um poema sobre o amor e a terra. Mas nada. A natureza, aparentemente, não precisava de mais comentários. Prosseguimos o viagem em silêncio apreciador da natureza.

Chegámos às hortas do Giraul. As hortas estavam bonitas. Havia canteiros bem alinhados, árvores de não sei o quê, hortelã, couves e alfaces. Para qualquer pessoa normal, era um cenário agradável. Para mim, era um campo de batalha onde se decidia o futuro da minha vida amorosa. Ela falava disto e daquilo, ria-se de pequenas coisas e caminhava com uma naturalidade que me deixava ainda mais apaixonado. Eu ouvia tudo, embora metade do que ela dizia se perdesse numa região obscura do meu cérebro, ocupada por uma pergunta essencial:

- Será que ela gosta de mim?

A pergunta acompanhava-me como uma mosca persistente. A certa altura, parámos junto de um canteiro

Ela inclinou-se para observar umas plantas, e eu, tomado por um súbito impulso de galanteria, resolvi mostrar que também tinha conhecimentos práticos.

- Aquilo são tomates — disse eu, apontando para um canteiro.

Ela olhou, depois olhou para mim.

- Sim. São tomates.

A minha reputação intelectual sofreu ali um golpe difícil de reparar.

Ainda tentei recuperar.

- E aquelas são couves.

- São.

Estava a correr lindamente. Mais cinco minutos e eu estaria habilitado a dar consultas de horticultura.

Decidi mudar de estratégia. A ciência não me levaria ao coração daquela mulher. Talvez o humor. Contei-lhe uma anedota que ouvira na véspera. Uma anedota excelente, na minha opinião, capaz de provocar gargalhadas até num funeral pouco concorrido. Ela sorriu educadamente. Apenas sorriu. A anedota, que eu considerava uma obra-prima do humor universal, morreu ali, entre um pé de salsa e duas alfaces. Comecei a desconfiar de que as hortas não eram o lugar ideal para conquistar uma mulher. Mas também não podia desistir. Um apaixonado de 1973 não tinha redes sociais, mensagens instantâneas nem coraçõezinhos digitais. Tinha de trabalhar com o que havia, uma esperança desproporcionada.

Continuámos a caminhar, à vezes a correr. Acho que corríamos mais rápido que o rio que me parecia quase seco.

Foi então que ela me atirou:

-Estás agora tão calado. Em que estás a pensar?

Meu Deus!

A oportunidade! A grande oportunidade! O destino abrira uma janela e eu tinha de saltar por ela antes que alguém a fechasse. Pensei em dizer-lhe: Estou a pensar em ti desde que acordo até me deitar. Quando não estás, imagino-te. Quando estás, não sei o que dizer. E agora que estás aqui, só consigo distinguir tomates de couves. Mas não disse nada disso. A coragem, como certas plantas, precisa de condições favoráveis para crescer. E naquele momento estava tudo contra mim: o calor, a timidez, o medo do ridículo e uma couve particularmente grande que parecia assistir à cena.

-Nada de especial — respondi. - Estava a pensar de como é bonita a vida no campo.

Ela sorriu.

- Ah! Também penso muito na vida. - e começou a contar-me os seus planos para o futuro. Queria estudar, queria fazer isto, queria fazer aquilo. Tinha sonhos, ambições e uma determinação que eu admirava profundamente. Enquanto ela falava, percebi que gostava ainda mais dela. Não era apenas bonita. Era inteligente, tinha personalidade e sabia o que queria. Tinha uma vontade férrea e uma certeza absoluta.

Eu também sabia o que queria mas era uma coisa mais limitada no tempo. Queria beijá-la ou apenas dar-lhe a mão. Havia ali uma diferença importante entre nós, ela tinha planos para o futuro; eu tinha planos para os próximos cinco minutos. E esses planos estavam a correr muito mal.

Quando regressámos, o passeio tinha sido um sucesso para ela. Tinha visto as hortas, conversado, respirado ar puro e dado uma caminhada agradável. Os pais estavam felizes. Sorriam e perguntavam coisas que eu nem tinha reparado que lá estavam. A Cacimba... não vi. Os tractores também não vi. A casa dos trabalhadores, não encontrei. Para mim, tinha sido apenas uma tragédia sentimental com apontamentos de botânica.

Chegámos a casa e ela despediu-se de mim com um sorriso e um simples:

- Gostei muito do passeio. Temos de repetir!

Temos de repetir! Durante os segundos seguintes, senti-me o homem mais feliz de Moçâmedes. A frase parecia conter uma promessa, um compromisso, talvez até uma intenção matrimonial escondida nas entrelinhas. Passei o resto do dia a analisá-la enquanto via o tal de pôr-do-sol, que era sempre lindo mas naquele dia não passou de cinco minutos a rever uma matéria devastada pela timidez. Temos de repetir significava que gostava de estar comigo? Que queria conhecer-me melhor? Que estava à espera de uma declaração? Ou que simplesmente apreciara o passeio e achava que eu era uma companhia razoável para caminhadas rurais? Não cheguei a uma conclusão.

O que sei é que, em 1973, um homem pode percorrer quilómetros ao lado da mulher dos seus sonhos e continuar a não sair do mesmo sítio. Eu tinha ido às hortas para conquistar um coração e regressara com conhecimentos razoáveis sobre tomates, couves e alfaces. Quanto ao coração dela, esse continuava por cultivar. E o mais extraordinário é que, durante muitos anos, sempre que via uma horta, lembrava-me daquele passeio e sorria. Não sei se ela alguma vez percebeu que, naquele dia, eu estava perdidamente apaixonado. Talvez tenha percebido e fingido que não. Talvez nunca tenha desconfiado de nada.

Há uma coisa de que tenho a certeza, se o amor fosse uma cultura agrícola, em 1973 eu teria sido um péssimo agricultor. Reguei a esperança, adubei a imaginação, plantei sonhos e esperei pacientemente pela colheita. Só me esqueci de uma coisa essencial. Nunca perguntei à terra se queria dar frutos. E assim, entre uma couve e uma alface, lá ficou o meu primeiro grande projecto agrícola-sentimental. Sem colheita, é verdade. Mas com uma história que ainda hoje me faz rir.

Agora aqui sentado no sofá olho e vejo que a juventude tem destas coisas, a gente pensa que vai conquistar o mundo, começa por tentar conquistar uma rapariga e acaba a descobrir que o único ser que nos deu atenção durante toda a tarde foi um tomateiro. E esse, convenhamos, também não me pareceu particularmente apaixonado.


Sanzalando

19 de outubro de 2026

O carro dos meus sonhos e a menina lá dentro

Naquele tempo, ser adolescente era uma doença sem cura conhecida. Era doença crónica que não matava, felizmente, mas provocava sintomas graves, suspiros sem motivo, distração nas aulas, uma tendência inexplicável para olhar para o vazio e, nos casos mais agudos, uma incapacidade absoluta de conversar normalmente com raparigas bonitas.

Eu padecia de tudo isso. E o diagnóstico tinha nome, rosto e um lugar cativo no banco de trás de um automóvel.

Ela era a menina mais bonita que eu conhecia. Pelo menos, era o que eu pensava. E, como acontece com todas as grandes verdades da adolescência, não admitia discussão, muito menos uma segunda opinião.

Todas as tardes, os pais levavam-na a passear de carro pela cidade. Não sei se era para apanhar ar, ver as montras, visitar amigos ou simplesmente cumprir uma tradição familiar. O que sei é que aquele passeio vespertino se transformou, para mim, no acontecimento mais importante do dia.

Havia quem esperasse pelo noticiário, quem aguardasse a chegada do jornal e quem consultasse o relógio para saber a hora de uma coisa qualquer. Eu não. Eu esperava concretamente pelo carro. Aquele carro.

Era um automóvel que, aos meus olhos, reunia todas as qualidades de uma máquina extraordinária. Tinha rodas, motor, matrícula e, sobretudo, transportava a criatura que me roubava a tranquilidade. Se o carro fosse uma carroça puxada por dois burros, suspeito que eu teria desenvolvido uma súbita paixão pela vida rural.

O passeio começava sempre à mesma hora. E eu, que até aí não tinha grandes compromissos com a pontualidade, passei a ser um relógio suíço. À hora marcada, já estava na rua, penteado, lavado e com uma expressão de quem não esperava coisa nenhuma.

Era importante manter a dignidade.

Um apaixonado pode perder o sono, o apetite e até a capacidade de fazer contas de dividir, mas nunca deve parecer que está à espera de uma rapariga. Deve estar ali por acaso. Um acaso que se repete diariamente, à mesma hora, no mesmo passeio e com os olhos postos na mesma esquina.

Quando o carro aparecia, o meu coração começava a trabalhar como um motor de camioneta carregado, a subir uma ladeira da SOS.

Lá vinha ela! Sentada no carro, talvez a conversar com os pais, talvez a olhar para as casas, talvez a pensar no que faria no dia seguinte. Não sei. Nunca tive oportunidade de lhe perguntar. Naquela época, a comunicação entre mim e ela era sobretudo visual, e mesmo essa dependia da velocidade do automóvel e da minha localização estratégica. Eu ficava num ponto da cidade. O carro passava. Eu olhava. Ela seguia. E eu corria para o ponto seguinte. Sim, porque o meu amor tinha uma componente desportiva que hoje faria inveja a qualquer treinador de atletismo. Se o carro passava pela avenida, eu atalhava por uma rua. Se virava junto à praça, eu disparava pela travessa. Se seguia para o outro lado da cidade, lá ia eu, adolescente apaixonado, com as pernas a trabalhar e o coração a fazer horas extraordinárias. Era uma espécie de perseguição automóvel sem automóvel. Os pais dela passeavam a filha. Eu passeava a paixão. Eles tinham gasolina. Eu tinha esperança. Eles dispunham de quatro rodas. Eu dispunha de duas pernas, ambas cada vez mais cansadas. E assim fui descobrindo a geografia da cidade. Aprendi os cruzamentos, os atalhos, as ruas secundárias e até a localização de alguns estabelecimentos comerciais que nunca me tinham despertado o menor interesse. Se alguém me perguntasse onde ficava determinada mercearia, eu sabia. Onde se vendiam jornais? Também. Qual era o caminho mais rápido entre a praça e a avenida? Conhecia três. Não era um adolescente apaixonado. Era um guia turístico em formação, especializado em itinerários de automóveis familiares.

O mais extraordinário é que eu não precisava de falar com ela. Bastava-me vê-la. Um olhar de dois segundos alimentava-me durante a tarde inteira. Se por acaso ela olhava na minha direção, eu passava imediatamente a considerar que havia qualquer coisa no universo a trabalhar a meu favor. Se sorrisse, então era uma catástrofe. Um sorriso podia significar simpatia, educação, reconhecimento ou simplesmente que alguém lhe contara uma piada dentro do carro. Mas eu não perdia tempo com interpretações prudentes. Para mim, aquele sorriso era praticamente um pedido de casamento, embora ainda não tivéssemos trocado uma única palavra. Chegava a casa com a felicidade estampada no rosto.

A minha mãe perguntava:

 - Onde estiveste?

- Por aí. - e era verdade, era a resposta oficial dos adolescentes, uma expressão que podia esconder desde uma ida à mercearia até uma paixão capaz de comprometer a estabilidade emocional de um continente.

- E porque estás tão cansado?

- Andei muito. Há muitos aís nesta cidade.

O que era verdade. Nunca uma paixão platónica me obrigara a fazer tantos quilómetros sem sair da cidade. O pior era quando o carro não aparecia. Nesses dias, começava a imaginar desgraças. Talvez estivesse doente. Talvez tivesse ido visitar uma amiga. Talvez os pais tivessem decidido mudar o passeio para outra hora. Ou, hipótese verdadeiramente aterradora, talvez tivessem ido para outra cidade! A última possibilidade deixava-me de rastos. Eu ainda não tinha idade para compreender que as pessoas podiam viajar sem consultar previamente os sentimentos dos outros. Ficava de trombas, comia pouco e olhava para a rua como um viúvo que ainda não tinha recebido a certidão de óbito.

No dia seguinte, porém, lá aparecia o carro, e o mundo recuperava a ordem natural das coisas. Com o tempo, comecei a aperfeiçoar a estratégia. Já não bastava estar num ponto da cidade. Era preciso escolher o local onde as probabilidades de um encontro visual fossem maiores.

Fazia cálculos mentais, estudava percursos, avaliava horários. Se tivesse conhecido naquela altura a estatística, talvez tivesse elaborado uma tese sobre a frequência dos passeios familiares e a incidência de paixões adolescentes.

Mas havia um problema: eu não sabia se ela reparava em mim. Talvez me conhecesse de vista. Talvez me achasse um rapaz simpático. Talvez pensasse que eu tinha uma enorme quantidade de assuntos para tratar em ruas tão distantes umas das outras. Ou talvez nunca tivesse dado pela minha existência. Esta última hipótese era tão dolorosa que eu a afastava imediatamente da minha apaixonada cabeça. Um apaixonado pode aceitar muitas derrotas, mas não aceita facilmente a possibilidade de ser invisível.

Hoje, quando recordo aqueles passeios, sorrio com ternura e alguma compaixão pelo rapaz que fui. A vida ensinou-me entretanto que o amor é uma coisa complicada, que as mulheres têm vontade própria e que nem todos os olhares significam o início de uma história de amor. Ensinou-me também que andar atrás de alguém não é necessariamente o caminho mais curto para chegar ao seu coração. Mas, naquela época, eu não sabia nada disso. Era apenas um jovem adolescente, com o coração cheio de sonhos e a cabeça cheia de certezas, convencido de que o destino podia ser encontrado numa esquina.

Ela passeava de carro com os pais. Eu seguia-a, todo o percurso com os olhos, o corpo e a alma, atravessando a cidade como quem procura um tesouro escondido. Nunca soube se ela chegou a perceber o que se passava comigo. Talvez tenha percebido. Talvez não. O que sei é que, durante algum tempo, a cidade teve para mim um mapa secreto, cada rua era uma possibilidade, cada esquina uma esperança e cada automóvel que se aproximava fazia o meu coração perguntar:

- Será ela?

E se não fosse, eu continuava à espera. Porque a adolescência tem destas coisas: ainda não sabemos conduzir a vida, não temos dinheiro para comprar um carro, não sabemos muito bem o que fazer com as raparigas, mas já somos perfeitamente capazes de percorrer uma cidade inteira por causa de um sorriso que talvez nem fosse para nós. E, se me perguntarem hoje qual foi o automóvel mais importante da minha juventude, não hesitarei na resposta. Não era meu. Não o conduzi. Só muitos tempos depois eu me sentei nele. Mas foi o único carro que me ensinou a correr atrás do amor sem nunca sair verdadeiramente do lugar.

E a ela?

Ela continuou a passear. Eu é que, muitos anos depois, finalmente aprendi a parar.



Sanzalando

18 de outubro de 2026

Pertinências 31 - 5ª noite de Há Fado na Lota


Sanzalando

Pertinências 31 - 5ª noite de Há Fado na Lota

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 31 - Há Fado na Lota - 5ª noite com Adriana Marques e Hélder Coelho
O Museu de Portimão organiza na Antiga Lota, aos sábados à noite uma secção de fados durante 6 semanas. Assim, é pertinente, depois, de ver uma sala cheíssima, levar até quem não teve lugar, não pode ir pelas mais variadas razões, o que ali se passou.









Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências. Mesmo que as palavras sejam sons de guitarra e viola


Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também. 


Imperdível



Sanzalando

17 de outubro de 2026

A menina que namorava os livros e deixava os rapazes a estudar sozinhos

Nos anos 70, era eu adolescente armado aos cágados e havia uma menina que tinha uma missão na vida que era nem mais nem menos que estudar.

Não estudar para saber mais do que os outros, embora soubesse. Não estudar para impressionar os professores, embora os impressionasse. Nem sequer estudar para arranjar um bom emprego, embora essa fosse uma possibilidade que os pais viam com muito bons olhos. Não. Aquela menina estudava porque estudar era a sua paixão. Enquanto as outras raparigas da turma começavam a descobrir que os rapazes tinham uns olhos bonitos, umas mãos interessantes e uma voz capaz de provocar certas tonturas, ela descobria os encantos da matemática, as delícias da gramática e o erotismo moderado de uma equação do segundo grau. Vistas as coisas era uma questão de prioridades.

Nós, os rapazes, coitados, não estavámos preparados para semelhante concorrência. Naquele tempo, um rapaz apaixonado tinha poucas armas de sedução. Não havia telemóveis, mensagens de WhatsApp, fotografias com filtros nem declarações de amor nas redes sociais. Havia cartas dobradas em quatro, bilhetinhos passados por baixo da carteira e olhares furtivos que, quando descobertos pelo professor, davam direito a uma chamada de atenção e, em certos casos, a uma visita pedagógica à orelha. Um rapaz tinha de improvisar. O primeiro admirador da menina chamava-se, ai que agora esqueci, porque não me lembro como ela me chamava. Nome de família ou como a família me chamava? Era um rapaz de cabelo descuidadosamente penteado, porque rebelde e teimoso o cabelo, camisa aberta no primeiro botão e uma confiança em mim próprio que não encontrava correspondência nas notas mas também não me esforçava por isso.  Um dia, cai-me do céu coragem e aproximei-me dela à saída do Liceu.

-Olha posso acompanhar-te até casa, já que moramos quase lado a lado?

Ela nem levantou os olhos do livro.

- A que horas?

Ele sentiu que o destino lhe abria uma porta e sorriu.

- Às cinco, depois da aula de matemática.

- Não, vem o meu pai buscar-me.

- E às seis podes vir até à rua conversar?

- Tenho de estudar História.

- E logo a seguir ao jantar?

Ela finalmente olhou para ele, com a expressão de quem acaba de descobrir um erro num exercício.

- Tu não tens mais nada para fazer?

Eu fiquei tão abalado que, durante uma semana, estudei História. Não por interesse na matéria, mas na secreta esperança de ter um assunto de conversa com ela quando saísses as notas.

Foi um esforço inútil. Sairam as notas. Bati o meu recorde e enquanto discutia com ela a Revolução Francesa, ela corrigiu-me três datas e perguntou se já tinha lido o capítulo seguinte.

Nunca mais voltei a falar da Revolução Francesa. Digo mesmo que, anos mais tarde, ainda estremeço quando ouço a palavra guilhotina.

Mas eu não estava sozinho na desgraça. Havia também o Beto, que tocava viola e acreditava que nenhuma mulher resistia a um rapaz capaz de cantar uma canção romântica com sentimento. Passava as tardes a ensaiar músicas, imaginando a menina encostada ao seu ombro, enquanto o vento lhe agitava os cabelos e o mundo inteiro desaparecia. Na realidade, quando ele começou a cantar para ela no recreio, ela interrompeu-o:

- Beto, sabes que estás a desafinar?

- É da emoção — respondeu ele, procurando salvar a dignidade.

- Então controla a emoção. Temos um teste amanhã.

O Beto guardou a viola e foi estudar Física. Foi a primeira vez que alguém conseguiu transformar uma serenata numa sessão de recuperação escolar.

Havia ainda o Carlos, que era mais sofisticado. Levava-lhe flores, emprestava-lhe livros e escrevia poemas onde a palavra amor aparecia tantas vezes que o professor de Português lhe recomendou variar o vocabulário. A menina agradecia tudo com uma educação irrepreensível. As flores colocava-as num copo com água, os livros lia-os e os poemas corrigia-os a vermelho.

Uma vez, Carlos escreveu-lhe: És a estrela que ilumina a noite do meu coração.

Ela devolveu-lhe o poema com uma nota à margem: Imagem interessante, mas pouco original. Tenta outra metáfora mais original.

Carlos passou o resto do dia a pensar numa metáfora nova. Acabou por escrever:  És a tabela periódica da minha existência. 

Nem assim foi um sucesso. Ela perguntou-lhe se aquilo era uma declaração de amor ou um pedido de ajuda em Química.

E assim se passaram os anos setenta. Os rapazes galanteavam, ela estudava. Os rapazes suspiravam, ela sublinhava. Os rapazes sonhavam com beijos roubados atrás do pavilhão, enquanto ela sonhava com uma nota máxima nos exames.

Quando chegava a época dos testes, era impossível aproximar-se dela. O seu coração parecia ter sido temporariamente convertido numa biblioteca pública, silêncio obrigatório, entrada condicionada e proibição absoluta de perturbar os leitores.

Houve até quem tentasse conquistá-la oferecendo-lhe sebentas, apontamentos e resumos. A estratégia teve algum êxito, mas por razões que não abonam muito a favor do romantismo. Ela aceitou os apontamentos, agradeceu e passou a emprestar ao rapaz os seus próprios resumos. O pobre apaixonado acabou a trabalhar para a mulher dos seus sonhos sem receber sequer um beijo como gratificação.

Entretanto, os anos foram passando. Os rapazes cresceram, alguns casaram, outros já se divorciaram e alguns descobriram que a viola não pagava a renda e outros perceberam, demasiado tarde, que a Revolução Francesa não era assim tão importante para conquistar uma mulher.

Ela também cresceu. Tirou boas notas, fez os seus estudos, construiu a sua vida e continuou a acreditar que o conhecimento era uma das coisas mais importantes do mundo. E tinha razão. Mas, muitos anos depois, numa reunião de fim de Universidade, aconteceu uma coisa extraordinária.

Eu, cabelo curto, ar de quem acompanhou a revolução por dentro, aproximei-me dela.

- Sabes uma coisa? Naquele tempo, eu era doido por ti.

Ela olhou, mediu e disparou.

- Conheço-o?

Fiquei surpreendido.

- Sou eu! - em espanto porque afinal só tinham passado cinco anos.

- Claro que é. Mas é um desconhecido e desculpe-me... virou costas e partiu

Pensei um instante, como se estivesse a resolver um problema de matemática do último ano. Senti-me a cair num buraco sem fundo. Murmurei:

- Isso é cruel! Mas eu estudei por tua causa!

Ela olhou para trás.

- Então sou responsável por seres quem és? - deixei de a ver, de a ouvir. 

Quarenta anos depois, ainda não consegui vencer aquele exame. E aquela menina apaixonou-se primeiro pelos livros. Os rapazes ficaram para segunda época e outros chumbaram para sempre.



Sanzalando

16 de outubro de 2026

metafóricamente ou talvez não

No ano de 1974, o Liceu estava em polvorosa com a revolução, os debates políticos e as assembleias intermináveis. No entanto, para mim, a única revolução que realmente importava acontecia nas aulas.

Eu não estava inscrito até dois anos antes na linha dos quadros de honra. Na verdade, eu era estudante dum mundo feito de circuitos, frequências e os números eram demasiados complexos, tal como a história ou a geografia. Mas tudo havia mudado quando ela me apanhou e passámos a estar na mesma turma.

Por isso, troquei a acábula dos anúncios e bobinas por um bloco de notas de capa preta e assistia às aulas sempre na carteira ao lado dela.

O problema de ir às aulas só para suspirar em silêncio é que, mais cedo ou mais tarde, a realidade cobra a sua factura. Passei a ter notas a subir. E não foi nada lentamente. Até eu fiquei admirado. Imagino os professores que tinha, alguns já me conheciam de gingeira.

Deixei de fazer caricaturas, desenhos abstratos e outras ocupações de tempo e foquei-me no perfil dela e na voz emanada dos professores. Descobri que eles até falavam coisas que nem me passavam pela cabeça. 

- Ó jovem, de casaco de casaco de malha - disse o Doutor Rente, que por acaso devia ser capitão porque era o piloto da barra, apontando com a ponta do ponteiro diretamente no meu peito.

O coração falhou duas batidas, assim num mal contado por mim mesmo. Ela virou-se para o lado para ver quem era o jovem. Os olhares de ambos cruzaram-se e eu senti que ela estava a dar-me confiança. Ela olhava-me com curiosidade e com vontade de sussurrar enquanto eu sentia as orelhas a arder como dois aquecedores elétricos quase a explodir.

-  Diga aos seus colegas o que sabe sobre a França continental?

Vinte e tal pares de olhos fixados em mim. Na minha cabeça, o circuito integrado tinha acabado de entrar em curto-circuito, as válvulas estavam a derreter, o calor da rua entrou todo no meu corpo e desatei a falar.

— Bom...A música francesa como Edith Piaf, Charles Aznavour, Jacques Brel e o pop francês Yé-yé de Françoise Hardy passa com frequência na rádio e como tal no Rádio Clube de Moçâmedes. Os cinemas  exibem filmes da Nouvelle Vague e policiais com Alain Delon ou Jean-Paul Belmondo. - comecei, limpando a garganta com uma tossezinha e ajeitando a camisa. - A juventude académica lê entusiasticamente Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Simone de Beauvoir. A questão da... dualidade... é essencialmente uma questão de resistência...

Houve um murmúrio confuso na sala. Ela franziu o sobrolho, mas continuava a olhar para mim. Percebi que tinha entrado por caminhos não geográficos e mentalmente procurava dar a volta à questão e situar-me ali na sala. Na verdade ela reparou que eu me tinha perdido.

O Dr. Rente, que podia ser o capitão, olhou-me e perguntou se eu também ia falar do Bien-être, que era então o perfume mais falado na altura.

Dentro da minha cabeça morava o caos romântico. Olhava-a, tentava perceber o seu soletrar silencioso econtinuei.

-Metafóricamente falando também ia. Pois a França já havia perdido as suas colónias pelo que seria errado falar na França Continental. Era França e ponto final. Podia falar do champanhe mas não era essa a minha especialidade bebível. - tentei eu remendar um devaneio com outro. Na verdade fazia pouco tempo que eu era verdadeiramente aluno do Liceu, embora o frequentasse à mais anos.

A sala ficou em absoluto silêncio durante três longos segundos. O professor Rente retirou ponteiro da parede, olhou para mim com uma mistura de choque e fascínio filosófico, e bateu levemente com a mão na secretária.

- Metafórico... — disse o professor.

Respirei fundo e sentei-me, sentindo-se o homem mais sortudo à face da terra.

No final da aula, enquanto todos recolhiam as pastas de cabedal, apressei-me a sair para não ser apanhado em mais nenhuma rasteira geográfico-literária. Mas, na porta da sala, senti um toque no braço.

Era a  Ela

- Olá, homem da lábia— disse ela, com um sorriso divertido que me fez os joelhos vacilarem. — Não te sabia conhecedor de tanto francês

- Eu... bem, na verdade, só falei das coisas que ouvia na rádio e via no cinema - confessei, possivelmente mais vermelho que um tomate, decidindo que mais valia perder pela verdade do que pela ignorância.

Ela soltou uma gargalhada genuína que fez eco na minha cabeça. 

- Tens-te saído muito bem - continuou - é bom saber que voltaste a abrir os livros.

- Não... Sim... bem - solucei enquanto ganhava coragem que nem sabia que tinha. - Sabes, acho que me fica bem sabar algumas coisas, principalmente quando tenho colegas do quadro de honra. 

Ela olhou-me de alto a baixo, ajeitou a pasta ao ombro e disse, com o olhar brincalhão:

- Sendo assim, acho que na próxima aula deves sentar-te ao meu lado. 

E foi assim que um rapaz de desencontrado, sem perceber nada de literatura, geografia ou matemática aprendeu a lição mais importante dos anos 70 é que às vezes, o maior acto de coragem é simplesmente deixar a razão ir ao ar.


Sanzalando

15 de outubro de 2026

hoje ela faz anos

O meu amor faz anos.

É um dia importante. Para ela, porque soma mais um ano à sua existência. Para mim, porque tenho de demonstrar que me lembro da data sem consultar o calendário do telemóvel, o que, nos dias de hoje, constitui uma prova de amor quase equivalente a atravessar o deserto do Namibe a pé, sem água e sem reclamar. Felizmente, lembrei-me. Há uma diferença entre um homem que se lembra do aniversário da mulher e um homem que recebe sinais de fumo, mensagens subliminares e perguntas aparentemente inocentes como: 

- Sabes que dia é amanhã?

Se respondermos imediatamente, somos uns queridos. Se hesitarmos dois segundos, começa a investigação criminal.

-  Não te esqueceste de nada, pois não?

Esta pergunta, feita com um sorriso, tem a mesma tranquilidade de um cirurgião que pergunta ao colega se trouxe o bisturi certo. Sabemos que alguma coisa pode correr mal.

O problema dos aniversários é que o amor não se mede em presentes, mas o presente errado pode obrigar-nos a rever toda a teoria. Flores? São bonitas, mas morrem depressa. Perfume? E se ela disser que prefere outro? Um vestido? Seria preciso ter coragem, conhecimentos de moda e uma fé inabalável na própria capacidade de avaliar tamanhos. Dar dinheiro dentro de um envelope? Isso não é romantismo, é uma transferência bancária com sentimentos.

Resta o jantar romântico. Uma solução aparentemente segura, desde que o restaurante seja bom, a mesa esteja reservada e eu não me lembre de contar aquela história que já contei dezassete vezes. Porque o amor tem destas coisas: ela conhece-me tão bem que, por vezes, basta eu abrir a boca para ela saber como termina a frase. E, se começo com Sabes o que me aconteceu uma vez…, o olhar que recebo informa-me de que a história já foi ouvida, catalogada e arquivada.

Mas hoje é o dia dela. Hoje, prometo ouvi-la com atenção, concordar com elegância e não discutir a temperatura do ar condicionado. Prometo dizer-lhe que está bonita, mesmo que me pergunte isso quando estamos atrasados para sair. Prometo não transformar uma ida às compras numa expedição científica e não perguntar se precisamos mesmo de comprar aquilo que ela já tem na mão. Promessas, como se sabe, são fáceis de fazer. Cumpri-las é que exige uma longa experiência de convivência conjugal. E, no entanto, há uma coisa que não precisa de promessa: continuo apaixonado.

Não necessariamente da mesma maneira que no princípio. Nesse tempo, o coração batia desordenadamente, a voz tremia e um simples olhar dela provocava-me uma desorganização interna que nenhum médico conseguiria explicar sem recorrer à cardiologia. Hoje, o coração bate com mais prudência, a voz já não treme tanto e os olhares dela continuam a provocar alterações significativas nos meus sinais vitais. A diferença é que agora também tenho de me lembrar de comprar pão, despejar o lixo e deixar arrumada a cozinha.

O amor amadurece. Aprende a partilhar o silêncio, a reconhecer os dias difíceis, a rir das pequenas desgraças e a perceber que a felicidade nem sempre chega embrulhada em papel bonito. Às vezes, aparece de robe, pergunta o que vamos jantar e avisa que deixei a luz acesa na casa de banho. E é precisamente aí que mora o milagre. Entre as zangas que passaram, as gargalhadas que ficaram, as preocupações divididas e os planos que fomos inventando, construímos uma vida. Não perfeita, porque a perfeição seria insuportável e provavelmente muito cara. Mas nossa.

Por isso, hoje, no dia em que o meu amor faz anos, quero celebrar a mulher que é, a menina que ainda guarda dentro de si e a companheira que continua a aturar este rapaz que, apesar da idade, ainda acredita que tem sempre razão. Sobretudo quando não tem.

Quero desejar-lhe muitos anos de vida, muita saúde, muitas alegrias e paciência. Muita paciência. Não por causa da idade, evidentemente, mas por minha causa, que sou uma pessoa de trato relativamente fácil, desde que ninguém me contrarie ou provoque.

E quero agradecer-lhe por continuar aqui, ao meu lado, a fazer com que os dias tenham mais sentido e as noites menos solidão. Afinal, os anos passam para os dois. Os cabelos mudam de cor ou desaparecem misteriosamente, e o espelho começa a mostrar um senhor que, por razões que desconheço, insiste em vestir-se como eu. Mas há coisas que o tempo não consegue levar. A cumplicidade. A ternura. A vontade de rir juntos. E aquele sentimento extraordinário de olhar para a pessoa que amamos e pensar: Era mesmo contigo que eu queria envelhecer.

Hoje, portanto, o meu amor faz anos.

Ela recebe os parabéns, o bolo e os beijinhos. Eu recebo a oportunidade de continuar a gostar dela. E, convenhamos, há aniversários em que o maior presente não é o que damos. É a sorte de ainda termos alguém a quem dá-lo.

Parabéns!

E não te preocupes com a idade. A idade é apenas um número. Embora, no nosso caso, já seja um número que convém não dizer muito alto… porque os vizinhos podem ouvir e começar a fazer contas!

Hoje, amanhã e enquanto me lembrar onde pus os óculos vou gostar muito de ti. O que, espero eu, seja por muitos e bons anos.




Sanzalando

14 de outubro de 2026

Tesourinhos Musicais 110 - Duo Ouro Negro - K'arranca às Quartas 136


Sanzalando

Livro - Akbar – Lunário Poético duma Alma Ainda Árabe - Nero - K'arranca às Quartas 136


Sanzalando

Esta Música tem uma História 75 - Erasmo carlos e Marisa Monte - Mais um na Multidão - K'arranca às Quartas 136


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (33) - K'arranca às Quartas 136


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (41) - K'arranca às Quartas 136


Sanzalando

Crónica 123 - K'arranca às Quartas 136


Sanzalando

Programa 136 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 07 de Outubro tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é en que falei  das tecnologias e seus detractores e horrores
 Esta Música tem uma história com Erasmo Carlos e Marisa Monte - Mais um na Multidão, hoje sem a colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais com Duo Ouro Negro e o seu albúm Blackgraound
Carlos Osório hoje falou de cinema de ontem e de hoje com lição no meio
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas continuou a falar da poesia Guiné-Bissau
 No livro falei de Akbar – Lunário Poético duma Alma Ainda Árabe de Nero
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no que fazer para cair na felicidade ou suportar esta vida que é só uma


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Fugi da guerra por amor — e ainda hoje não sei se fiz bem!

Em 1975, Angola estava a ferro e fogo. Havia tiros, havia medo, havia incerteza e havia adultos a falar do futuro com aquela gravidade de quem sabe tudo, embora ninguém soubesse muito bem o que ia acontecer no dia seguinte. Eu, adolescente, vivia tudo isso com a despreocupação própria da idade. Ou quase. Porque, enquanto os mais velhos discutiam política, independência, partidos e destinos, eu tinha um problema infinitamente mais grave: estava apaixonado.

E quando um adolescente está apaixonado, a história pode esperar um bocadinho. Não muito, claro, mas o suficiente para ele acabar de ouvir uma canção romântica. Eu estava apaixonado por ela.

Tinha uns olhos que me faziam esquecer as tabuadas, as fórmulas químicas e a geografia mundial. Tinha um sorriso que me desorganizava o raciocínio e uma voz que, se me pedisse para saltar de um avião sem paraquedas, me faria perguntar apenas a que horas devia fazê-lo.

Ela era o meu grande amor. Digo grande porque, naquela idade, ainda não tinha tido oportunidade de comparar. Mas também porque, para mim, ela era enorme. Ocupava-me a cabeça toda, deixando pouco espaço para matérias de menor importância, como os estudos, o futuro profissional e a possibilidade de um dia vir a ter dinheiro para pagar um jantar.

Depois começaram as partidas. Famílias inteiras preparavam-se para abandonar Angola. Umas por receio, outras por necessidade, outras porque já não viam condições para continuar. As malas multiplicavam-se, os amigos desapareciam e as despedidas começavam a fazer parte da paisagem.

Foi então que soube que ela também ia embora.

Portugal.

A palavra caiu-me em cima como uma bomba embora eu, felizmente, não tivesse experiência suficiente para distinguir uma bomba duma panela de pressão a explodir ou o rebentar de um pneu.

- Ela vai mesmo? - perguntei ao Manel, que sabia tudo primeiro que eu.

- Vai, pá. A família já tem tudo preparado.

- Tudo?

- Tudo. As malas, os documentos, as passagens…

Fez uma pausa e rematou:

- E tu, se fosses esperto, também começavas a pensar na tua vida.

O Manel tinha um defeito terrível: era sensato. E a sensatez, na adolescência, é uma doença que ninguém deseja contrair. Eu não queria pensar na minha vida. Queria pensar na vida com ela. Havia uma diferença considerável entre as duas coisas, mas ainda não tinha idade para compreender a subtileza. Na verdade, eu não tinha medo dos tiros. Ou melhor, tinha algum, porque não era parvo. A ideia de uma bala perdida não me despertava qualquer entusiasmo. Mas, se me perguntassem o que mais me assustava naquele ano de 1975, eu responderia sem hesitar: a possibilidade dela partir sem que eu lhe tivesse dito nada.

Os tiros podiam acertar no corpo. A partida dela acertava-me num lugar muito mais complicado, que os médicos da época ainda não tinham identificado nos livros de anatomia. Foi aí que tomei uma decisão histórica: eu também ia fugir de Angola. Não por medo da guerra. Não por receio do futuro. Não por falta de coragem para enfrentar as dificuldades de um país em transformação. Ia fugir por amor.

Era uma decisão romântica, corajosa e financeiramente irresponsável. Sobretudo porque eu não sabia nada, não tinha conhecimentos, não tinha dinheiro e, tanto quanto me recordo, ainda dependia da autorização da mãe para comprar um par de sapatos. Mas os grandes heróis nunca se deixam intimidar por pormenores.

Naquela noite, anunciei a decisão em casa.

- Vou para Portugal.

A minha mãe parou o que estava a fazer e olhou-me com olhos fulminantes.

- Vais para Portugal fazer o quê?

Era uma pergunta razoável. Uma mãe tem o direito de saber o que pretende fazer o filho, sobretudo quando o filho pretende atravessar o oceano sem saber bem o que vai encontrar do outro lado.

- Vou estudar.

- O quê?

Hesitei.

- Ainda não decidi. De manhã queria ser advogado, agora apetece-me ser médico!

A minha mãe, que tinha um talento especial para descobrir mentiras antes de elas estarem completamente formadas, olhou para mim.

- Isso tem nome de rapariga.

Fiquei calado.

-Como se chama?

-  Ela! - disse-lhe o nome baixinho pois não me apetecia que mais gente soubesse

- Ah! Então não vais estudar. Vais fazer turismo sentimental em Portugal?

Foi a primeira vez que ouvi a expressão, mas reconheci imediatamente a sua exactidão. A família não ficou propriamente entusiasmada com o projecto. Havia preocupações reais, dificuldades, despesas e uma guerra que não se resolvia com poemas de amor. Mas eu insistia. A minha argumentação era imbatível: se ela vai para Portugal, eu tinha de ir também.

A minha mãe tentou explicar-me que um país não é um comboio que se apanha só porque uma rapariga vai sentada numa das carruagens. Eu disse que compreendia, mas não compreendia nada. Na minha cabeça, Portugal era uma espécie de extensão geográfica do namoro. Imaginava-me a passear com ela por ruas bonitas, a tomar café, a ver montras e a construir uma vida a dois. Não me passava pela cabeça que, em Portugal, também havia rendas para pagar, empregos difíceis, dias de chuva e senhorios que não aceitavam promessas de amor como caução. O meu conhecimento do mundo era limitado, mas o meu optimismo não tinha fronteiras.

Um dia ela partiu como eu já contei aí para trás. Eu fiquei. As ruas estavam desertas, As casas estavam fechadas. Aqui e ali ouvia-se o martelar de caixotes. Uns dias eram calmos, Outros tinha trovoada de barulhos de armas que nem se chovesses eles se iam calar. Tinha salvo-conduto. Ou vários conforme os dias e os locais. Tudo fechou. O silêncio humano assustava mais que o barulho infernal dos boatos e das armas. 

Desisti. Não resisti. A hora chegou e quando chegou o momento da partida, senti uma mistura de tristeza e entusiasmo. Deixava para trás a terra onde crescera, os poucos amigos que ficavam, as ruas, as praias e uma parte importante de mim. Angola era a minha casa, e partir não era uma aventura ligeira. Era uma mudança profunda, num tempo em que tantas vidas estavam a ser empurradas para destinos incertos.

Mas eu era jovem e tinha-a à minha espera. Pelo menos era isso que a minha imaginação me garantia e eu nunca tinha duvidado dela. A imaginação é uma coisa maravilhosa. Não paga bilhetes de avião, não trata de documentos e não faz as malas, mas consegue convencer um rapaz de que tudo vai correr bem. Parti.

E foi assim que, enquanto uns fugiam da guerra, eu fugi atrás de um amor.

Há uma diferença entre as duas coisas, embora o resultado pudesse ser o mesmo: deixar para trás uma vida inteira e começar outra sem saber muito bem como.

Quando cheguei a Portugal, descobri rapidamente que o amor não vinha incluído no preço da passagem. Ela tinha os seus problemas, a sua família, as suas preocupações e uma vida que não podia ficar eternamente à espera de um rapaz que atravessasse o mar com mais entusiasmo do que juízo. Ela tinha outros sonhos. Encontrámo-nos, conversámos, sorrimos. E eu descobri que a distância tem uma particularidade desagradável, permite-nos inventar uma pessoa perfeita, mas não garante que a realidade tenha recebido o recado.

Não vou dizer que ela me desiludiu. Seria injusto. Ela nunca me prometera aquilo que eu, sozinho, tinha decidido que me prometera.

O problema era meu. Eu tinha confundido um sorriso com um contrato, uma despedida com uma declaração de amor e uma viagem com o princípio de um casamento. Em suma, tinha feito tudo aquilo que um adolescente apaixonado deve fazer para complicar a vida.

Anos mais tarde, recordando aqueles dias, percebi que não tinha fugido apenas por causa dela. Fugi também porque era jovem, porque o mundo estava a mudar, porque tinha medo do que poderia acontecer e porque, no meio de tanta incerteza, precisava de acreditar que havia alguma coisa à minha espera.

Mas, na altura, se alguém me perguntasse por que razão deixara Angola, eu respondia com toda a convicção:

- Vim por amor!

E fazia uma pausa, para dar solenidade à declaração.

Hoje, confesso, tenho vontade de rir daquele rapaz. Não porque tenha sido ridículo, mas porque foi profundamente adolescente. Tinha coragem para atravessar um oceano por uma rapariga, mas provavelmente não tinha coragem para lhe perguntar, com todas as letras, se ela gostava dele.

Fui aprendendo com a vida. Ela ensina-nos que o amor não se força, que as partidas nem sempre são voluntárias, que os países podem mudar de destino e que as pessoas levam consigo saudades que não cabem nas malas. Ensina-nos também que, às vezes, a juventude nos empurra para decisões que só compreendemos décadas depois. E há uma coisa que nunca esqueci, em 1975, enquanto Angola vivia uma das páginas mais dramáticas da sua história, eu acreditava sinceramente que o meu maior problema era conseguir que ela se apaixonasse por mim.

A guerra era uma tragédia colectiva. O meu desgosto era uma tragédia particular. E, como qualquer adolescente que se preze, eu estava convencido de que a minha era muito pior. No fim, talvez tenha sido esse o meu maior acto de coragem, abandonar a minha terra sem saber o que me esperava, por acreditar que o amor podia dar sentido a uma partida. Não sei se valeu a pena. Sei que sobrevivi, cresci e aprendi a rir de mim próprio. E, se algum dia voltar a encontrar-la, talvez lhe diga finalmente aquilo que não consegui dizer em 1975:

- Sabes, fui para Portugal por tua causa!

Ela provavelmente responderá:

- Não me digas! Não sabia e acho que não quero saber ainda!

E eu, com a sabedoria que cinquenta anos de vida me deram, encolherei os ombros e responderei:

- Pois. Foi por isso que demorei tanto tempo a perceber que a guerra não era o único perigo em Angola. O outro era eu, quando me apaixonava. Porque há quem fuja das balas, há quem fuja das dificuldades e há quem fuja de um país inteiro atrás de um par de olhos bonitos. Eu pertencia à terceira categoria. E, olhando para trás, tenho de reconhecer que, para um rapaz sem dinheiro, sem experiência e sem a mínima noção das consequências, foi uma operação de fuga extraordinariamente bem-sucedida — excepto na parte daquele amor.

Outros houve e foram bonitos!

Sanzalando

13 de outubro de 2026

Uma estória de amor, saudade e outras calamidades da adolescência

Em 1975, eu tinha aquela idade perigosa em que um gajo julga que já sabe tudo sobre a vida, embora ainda não saiba fazer a barba sem deixar a cara como se fosse um mapa de guerra. Era adolescente, tinha o cabelo comprido, umas calças à moda e uma paixão tão grande que, se fosse possível exportá-la, Angola teria resolvido parte dos seus problemas económicos dos anos seguintes.

Chamava-se ela... e assim num repente esqueci.

O que eu me lembro é que ela tinha uns olhos que me desarrumavam o pensamento, um sorriso capaz de me fazer esquecer o meu próprio nome e uma maneira de dizer olá que eu interpretava como uma promessa de casamento, três filhos e uma vivenda com quintal num qualquer paraíso celestial. Ela dizia olá a toda a gente porque para além de tudo também tinha simpatia. Foi a minha primeira grande desilusão amorosa. E eu ainda nem tinha começado a namorar! Naquele tempo, Angola vivia dias conturbados. Falava-se de política, de independência, de partidos, de tropas, de partidas e de chegadas. Os adultos reuniam-se à volta das mesas, discutiam o futuro da pátria e baixavam a voz quando os miúdos se aproximavam. Nós, os adolescentes, discutíamos coisas igualmente importantes: quem tinha uma mota, quem conseguia entrar no cinema sem pagar e quem tinha beijado quem atrás do muro da escola, quem no liceu era o mais sortudo. Tínhamos assunto constantemente. Na verdade eu, por exemplo, estava muito mais preocupado com o destino dela do que com o destino da nação. Não por falta de patriotismo, mas porque a nação, até então, nunca me tinha dado a mão nem me tinha permitido segurar-lhe a cintura numa dança lenta. Ela, porém, começou a aparecer menos.

Primeiro, deixou de vir à rua onde nos encontrávamos. Depois, faltou a um aniversário. Finalmente, soube que a família ia partir. Partir de Angola. A palavra caiu-me em cima como um piano de cauda que tenha caído do prédio mais alto da cidade. Felizmente a cidade não tinha muitos prédios.

-Partir para onde? - perguntei ao meu amigo Manel, que tinha o talento extraordinário de saber tudo sobre toda a gente, incluindo coisas que ainda não tinham chegado ao conhecimento da gente

- Para Portugal, pá! Estão a ir todos!

Todos, não me importam. Ela sim. Não pode!

Eu não queria saber dos outros. Podiam partir presidentes, ministros, generais, jogadores de futebol e até o senhor que vendia gelados na praia. Mas ela não. Ela tinha de ficar. A história podia fazer o que entendesse, desde que respeitasse os meus sentimentos. Naquela noite, tomei uma decisão: ia declarar-lhe o meu amor. Era uma decisão corajosa, sobretudo porque nunca lhe tinha declarado coisa nenhuma. Tinha passado meses a treinar frases no silêncio e solidão do meu quarto, mas, sempre que a via, o meu vocabulário reduzia-se a três expressões: Olá, Tudo bem? e Também acho.

A minha mãe percebeu que eu andava estranho. Pouco saía de casa. As anedotas não surgiam, a piada rápida não saía. Humm.

- Que tens, rapaz?

- Nada.

- Estás doente?

- Não.

- Então por que é que estás a olhar para o prato como se tivesses perdido alguém importante?

Não respondi. Como explicar à minha mãe que o filho dela estava a viver uma tragédia sentimental sem sequer ter conseguido dar o primeiro beijo? A minha mãe, que tinha atravessado dificuldades bem maiores do que as minhas, provavelmente recomendaria um chá de limão e mandava-me estudar matemática ou química. Mas eu não precisava de matemática nem química. Precisava era dela.

No dia da partida, fui ao aeroporto. Acho até que fui no carro com ela, com a mãe dela e o pai bem como a irmã. O silêncio era total. Nem o carro ousava fazer barulho.

Levei comigo uma camisa que a minha mãe tinha acabado de passar a ferro, umas gotas de perfume e uma coragem de empréstimo, que ameaçava dissolver-se a qualquer momento.

Ela, rodeada de malas, caixas e daquela confusão triste de quem tenta meter uma vida inteira dentro de bagagens que nunca parecem chegar. Aproximei-me dela na placa do aeroporto. Ela sorriu-me como nunca tinha sorrido. Aquele sorriso que me fazia derreter e que bloqueava por completo o meu pensamento! Ainda hoje desconfio de que foi o sorriso mais caro da minha vida. Custou-me anos de recordações.

- Vais mesmo embora? -perguntei, com a inteligência de quem pergunta a um passageiro se o avião vai voar.

- Vou.

 - E voltas?

Ela encolheu os ombros e sorrindo-me disse

- Não sei. 

Não sei! Duas palavras. Duas palavras capazes de destruir um adolescente com mais eficácia do que qualquer discurso político.

Quis dizer-lhe o quanto lhe gostava. Quis contar-lhe que pensava nela quando ouvia música, quando ia à praia, quando passava diante da escola. Quis explicar-lhe que, desde que a conhecera, tinha desenvolvido uma estranha incapacidade de prestar atenção a qualquer outra rapariga. Mas, quando abri a boca, saiu-me:

- Está calor hoje, não está?

Ela riu-se.

E eu, que estava preparado para uma declaração digna de um poeta, acabei a falar do estado do tempo. Talvez tenha sido melhor assim. O meu coração não estava preparado para tamanha exposição pública. Chamaram os passageiros. Ela abraçou-me. Entregou-me um pedaço de papel.

Um abraço breve, daqueles que duram poucos segundos para quem os dá e uma eternidade para quem fica. Eu senti o perfume dela, o calor dos seus braços e uma vontade desesperada de lhe pedir que não fosse. Mas havia uma família à espera, um avião a chamar e um país inteiro a atravessar um dos períodos mais difíceis da sua história. Não havia ali lugar para os meus caprichos de adolescente.

-Escreve-me — pediu ela.

- Claro, se me deres a morada para onde o fazer!

- Está nesse papel.

Respondi com uma segurança que não tinha. Eu escreveria, sim. Escreveria cartas enormes, poemas, declarações, talvez até um romance. Naquele instante, senti que a literatura portuguesa estava prestes a ganhar um grande autor. A verdade é que passei três dias sem conseguir escrever mais do que Querida. Olhava para a casa dela com a esperança que as janelas se abrissem e ela aparece numa delas. O resto era sofrimento, e o sofrimento, como se sabe, não respeita a gramática.

A vida continuava. Havia jantar, havia adultos preocupados com notícias e havia sempre alguém a perguntar por que razão eu estava tão calado. Eu, que até então falava pelos cotovelos, descobri a melancolia. Foi uma descoberta importante. A melancolia dava-me um ar interessante, embora em casa suspeitassem que eu estava com febre. Durante semanas, ouvi as mesmas músicas. Cada canção romântica parecia ter sido composta exclusivamente para mim. Se o cantor falava de saudade, era ela. Se falava de distância, era ela. Se falava de um amor impossível, era ela outra vez. A certa altura, cheguei a desconfiar de que os músicos tinham acesso à minha correspondência.

Entretanto, Angola tornava-se independente. O mundo mudava, as pessoas partiam, outras ficavam, e cada família tentava descobrir como recomeçar a vida no meio da incerteza.

Eu também tive de recomeçar. Continuei a crescer, fui aprendendo que o amor nem sempre chega a acontecer para deixar marcas profundas. Que há pessoas que passam pela nossa vida durante pouco tempo e ficam instaladas na memória como se tivessem escritura da casa e ali morassem permanentemente. E que a adolescência tem esta particularidade maravilhosa, transforma uma despedida num fim do mundo e um sorriso numa promessa eterna.

Ela nunca soube que, durante muito tempo, fui capaz de reconhecer a sua ausência em cada canto da cidade. Também nunca soube que eu tinha planeado casar com ela, embora não tivesse dinheiro, profissão, casa nem sequer autorização para chegar depois das dez da noite. Era um projeto ambicioso. Faltava apenas convencer a noiva.

Hoje, quando olho para trás, tenho vontade de rir daquele rapaz. Tão cheio de certezas, tão pobre de experiência, tão convencido de que o amor se resolve com coragem e uma frase bem construída.

Se pudesse voltar a 1975, talvez lhe dissesse para não ter medo. Para dizer a ela o que sentia. Para não desperdiçar o momento a falar do tempo. Mas também lhe diria outra coisa: que não tivesse vergonha de sofrer. Porque aquele coração partido, por mais ridículo que lhe parecesse na altura, fazia parte de uma história muito maior. Uma história de juventude, de partidas, de um país em mudança e de pessoas que tiveram de deixar para trás lugares, casas, amigos e amores. E talvez lhe dissesse ainda que a vida tem um sentido de humor extraordinário. Passamos anos a imaginar a mulher da nossa vida, fazemos planos para o casamento, escolhemos mentalmente os nomes dos filhos e, no fim, ela vai-se embora num avião sem que tenhamos conseguido sequer beijá-la. É uma maneira cruel de aprender a humildade.

Mas há uma coisa que o tempo não conseguiu levar, a memória daquele abraço no aeroporto, o acenar dela e o rapaz que ficou para trás, convencido de que nunca mais seria feliz.

Foi feliz, sim. Voltou a apaixonar-se, voltou a fazer disparates e, como todos os adolescentes que sobrevivem à primeira paixão, descobriu que o coração tem uma capacidade de recuperação superior à de muitos hospitais. Só nunca voltou a ouvir a expressão está calor hoje sem se lembrar dela.

E, se um dia ela ler estas linhas, gostaria que soubesse uma coisa: em 1975, quando partiu de Angola, levou consigo malas, roupas, fotografias e talvez os sonhos dele, mas deixou lá um rapaz que passou muitos anos a acreditar que tinha perdido o grande amor da sua vida. O rapaz cresceu. O país mudou. A História seguiu o seu caminho. E ela, sem saber, tornou-se a protagonista de uma estória que eu nunca tive coragem de lhe contar. Porque há amores que não chegam a começar, mas passam uma vida inteira a acontecer dentro de nós. E há adolescentes que, mesmo cinquenta anos depois, ainda gostariam de ter dito, naquele aeroporto:

- Amo-te.

Embora, conhecendo-me como me conheço, seja bem possível que acabasse por perguntar:

- Achas que ainda vamos a tempo de comer um gelado?




Sanzalando

12 de outubro de 2026

PERTINÊNCIAS 30 - 4º Há Fado na Lota com Ana Marques e João Leote


Sanzalando

A ciência não exacta de olhar para longe

Nos anos setenta, a arte de não fazer nada atingia o meu ponto mais alto na escala da precisão e do talento. Hoje em dia, a juventude precisa de ecrãs, notificações e luzes a piscar para perder o juízo. Em 1970, para viajar para fora da galáxia, basta-nos uma coisa muito mais modesta: uma falésia, o horizonte à frente e um par chinelos e uns calções.

Ser adolescente em 1970 era viver com os pés presos à gravidade da província ou da praia da infância e a cabeça a flutuar algures entre a Lua onde os americanos tinham acabado de alunar há pouco tempo, para grande desconfiança das vizinhas e um solo de guitarra de dez minutos dos Led Zeppelin ou um albúm dos Deep Purple made in Japan.

O ritual do horizonte começava quase sempre ao final da tarde. O eu jovem sentava-se num sítio estratégico, entre o tribunal e a paróquia, não fosse o diabo tecê-las. Cruzava os braços, semicerravam-se os olhos para dar aquele ar de filósofo incompreendido de que a malta tanto gostava, e começava a navegação.

O horizonte, visto de longe, parecia uma linha traçada a régua, mas que quem passou por aulas sabe que ela é curva, mas na verdade, é o melhor ecrã de cinema do mundo.

Primeiro, vinham os pensamentos profundos. O que é que o tempo é? Será que no outro lado do mar as pessoas também comem pão com chouriço às quatro da tarde? Depois, a mente derivava inevitavelmente para a mecânica das coisas terrestres: Se eu usar calças à boca de sino a minha mãe vai-me contrariar? E, claro, o mistério insondável de todos os mistérios, porque razão a Maria da Dita olhou para mim no Liceu durante mais de três segundos inteiros? Terá sido amor profundo ou tinha eu uma nódoa de pastel de nata na camisa?

A grande vantagem de navegar pelos pensamentos em 1970 é que ninguém nos podia interromper com uma mensagem de texto. As únicas interrupções possíveis eram puramente acústicas e profundamente humanas.

— Ó puto! O que sonhas aí?! - ou a voz da mãe a dizer que são horas de jantar.

Era assim. A grande odisseia metafísica pelo cosmos terminava abruptamente por causa de uma cachucho frito e de um arroz de tomate.

Mas enquanto durava... ah, enquanto durava, o horizonte pertencia-me. Não precisáva de passaporte, nem de licença de pátrio poder. Bastava o cheiro a maresia, a brisa a despenteador as longos cabelos que insistiam em não crescer ao ritmo desejado, e a certeza absoluta de que o futuro era um território gigante, luminoso e imprevisível, à nossa espera logo ali depois daquela curva na água.



Sanzalando

Pertinências 30 - Há Fado na Lota com Ana Marques e João Leote

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 30 - Há Fado na Lota - 4ª noite com Ana Marques e João Leote
O Museu de Portimão organiza na Antiga Lota, aos sábados à noite uma secção de fados durante 6 semanas. Assim, é pertinente, depois, de ver uma sala cheíssima, levar até quem não teve lugar, não pode ir pelas mais variadas razões, o que ali se passou.









Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências. Mesmo que as palavras sejam sons de guitarra e viola


Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também. 


Imperdível



Sanzalando

10 de outubro de 2026

Me calo em três temas. Religião, política e futebol.

Me ponho à conversa. Falo disto e daquilo. Me calo em três temas. Religião, política e futebol.

Há um dogma antigo, trespassado em tom de aviso solene por tias, primos e empregados de mesa com anos de casa, que diz com todas as letras: Sobre política, religião e futebol não se discute.

Pois bem. Eu levei a lição tão a sério que fiz dela o meu refúgio e o meu mantra. Em qualquer jantar de grupo, ajuntamento familiar ou conversa de café ao fim da tarde, sou aquela figura exemplar que acena com a cabeça, sorri com benevolência universal e passa travessa do cozido com a destreza de quem manuseia porcelana fina. Olham para mim e pensam: Ali está um homem de paz, uma alma sem dogmas, uma mente leve que flutua acima das paixões terrenas.

Coitados. Se soubessem o vulcão de certezas absolutas que fervilha debaixo deste ar de monge franciscano, feito santo de pau carunchoso.

A verdade é que eu não sou isento; sou apenas um estratega do silêncio. Tenho sobre a política, a fé e a bola ideias tão redondas, bem formadas e afiadas que, se as pusesse em pratos limpos, a mesa de jantar transformava-se na Terceira Guerra Mundial antes do café.

No futebol, por exemplo, vejo pessoas a esganarem-se por causa de um fora de jogo de dois centímetros, a esbracejarem contra o ecrã do televisor e a insultarem os antepassados, os presentes e futuros do árbitro. Eu fico calado, a mastigar lentamente o meu croquete, rissol ou croassant. Mas, por dentro, o meu treinador interno já fez uma análise cirúrgica do jogo, identificou que a defesa está a jogar com o bloco demasiado alto, concluiu que o meio-campo não dobra os alas e já despediu o treinador três vezes antes do intervalo. Apenas não digo nada. Para quê estragar o croquete, o rissol ou o croassat?

Na política, a ginástica é ainda mais acrobática. Quando a conversa envereda pelos caminhos da governação, das ideologias e dos orçamentos, o ar da sala fica imediatamente denso. É ver quem grita mais alto para provar que o mundo está a cair aos bocadinhos. Eu limito-me a beber um gole de água, a olhar para o tecto com ar reflexivo e a soltar uma frase neutra e devastadora do género: Pois... é a conjuntura. Ninguém sabe o que significa, mas todos concordam. Ninguém desconfia que, na minha cabeça, tenho um plano de reestruturação socioeconómica tão perfeito e detalhado que resolveria o défice, a habitação e a carga fiscal antes do próximo trimestre. Simplesmente guardo-o para mim. O país ainda não está preparado para a minha clarividência.

E na religião? Ah, o terreno sagrado. Quando a discussão entra pelo mistério da fé, pelo cosmos e pelo destino das almas, eu recuso-me a entrar no debate de terço na mão ou de bandeira ateia ao vento. Contemplo o horizonte, dou um ar de profundidade filosófica e sussurro: O importante é sermos boas pessoas. Ganho a simpatia dos crentes, a aprovação dos agnósticos e a trégua de todos. Mal sabem eles que a minha teologia pessoal é um tratado de tal forma rigoroso e lógico que faria São Tomás de Aquino pedir uns dias para pensar.

O segredo não é a falta de convicção. É a poupança de energia.

Tenho a opinião tão bem formada, mas tão bem formada, que gastá-la numa discussão ruidosa entre a sobremesa e o digestivo seria um sacrilégio. Prefiro a posição confortável do observador silencioso. Enquanto o resto da mesa se debate entre cartões vermelhos, reformas fiscais e a existência do além, eu peço mais uma mousse de chocolate. Se há coisa sobre a qual a minha opinião é verdadeiramente inabalável, é que a tarte de maçã não é a minha preferida. E sobre isso, garanto-lhe, não há discussão possível.



Sanzalando

9 de outubro de 2026

Antes de inventarem a lusofonia, já eu ouvia música

Nos anos 70, do século passado, eu gostava de música lusófona. O problema é que ainda ninguém tinha inventado a lusofonia, o que me colocava numa situação bastante complicada: eu tinha gosto musical, mas faltava-me o nome científico para o justificar.

Hoje, é tudo mais fácil. Uma pessoa ouve música de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, do Brasil ou de Portugal e diz, com ar entendido: Tenho um gosto muito particular pela lusofonia.

Naquele tempo, se eu dissesse uma coisa dessas, arriscava-me a que me perguntassem se estava doente com paludismo e delirava, se tinha apanhado demasiado sol ou se precisavam de falar com o reitor para me mandar para uma consulta qualquer.

Nos anos 70, as coisas eram mais simples. Gostava-se de uma canção, gostava-se de um cantor, comprava-se um disco quando havia dinheiro e ouvia-se rádio até a família começar a ameaçar desligar o aparelho.

Eu gostava de música. E gostava particularmente daquela música que era de Angola, do Brasil, de Portugal e de outros lugares onde se falava português, embora ninguém tivesse ainda organizado a coisa numa grande família cultural, com congressos, seminários, discursos inaugurais e fotografias de grupo.

A música já se entendia muito bem sem precisar de reuniões diplomáticas.

Havia os Duo Ouro Negro, que levavam Angola para os palcos do mundo com uma naturalidade desconcertante. Havia vozes brasileiras que nos chegavam carregadas de ritmo, romantismo e uma capacidade extraordinária para nos fazer sofrer por amores que nunca tínhamos vivido. E havia a música portuguesa, que tanto nos punha a cantar como nos deixava a olhar para o horizonte com ar de quem tinha acabado de perder uma herança. 

Eu ouvia tudo.

Ou quase tudo, porque havia sempre alguém disposto a explicar-me que determinado cantor não prestava, que aquela música era comercial, que a outra era demasiado sentimental e que a terceira não tinha qualidade artística nem estrutura poética.

Essas pessoas existiram, e ainda existem. Mudaram apenas de roupa e passaram a escrever comentários na Internet.

Naquele tempo, eram especialistas de café. Tinham opiniões definitivas sobre música, política, futebol e mulheres, embora, na maior parte dos casos, as mulheres não lhes reconhecessem qualquer competência na matéria ou a gente sabia que aquilo era só teoria.

Eu, que era jovem e ainda acreditava na possibilidade de mudar o mundo, escutava-os com respeito. Depois ia para casa ouvir os discos de que gostava.

A minha paixão musical tinha também um lado geográfico. Angola não era apenas o lugar onde vivíamos. Era um universo sonoro que entrava pelas janelas, atravessava as ruas e se instalava na memória.

Em Moçâmedes, a música fazia parte da vida. Havia o rádio, os discos, a discoteca e as festas, as conversas e aquela permanente competição entre vizinhos para descobrir quem tinha o melhor equipamento de som. O que, na prática, significava quem conseguia fazer ouvir a sua música a uma distância maior. Reconheço que na minha rua não era assim. Mas que se ouvia música e muitas vezes ao vivo é verdade.

A acústica era excelente. 

Bastava alguém comprar um disco novo para a cidade inteira ficar informada. Não existiam redes sociais, mas existia o senhor da casa ao lado, que tinha o volume no máximo e uma janela estrategicamente aberta.

E depois havia os discos. Ah, os discos!

Um disco de vinil era uma coisa séria. Não se comprava com a ligeireza com que hoje se escolhe uma música no telemóvel. Era preciso poupar, procurar, comparar, negociar com a consciência e, por vezes, convencer os pais de que aquela aquisição constituía um investimento cultural de primeira necessidade.

O problema era explicar-lhes por que razão um rapaz precisava de mais um disco quando já tinha vários. Porque este é diferente, respondia eu, sem poder dizer que aquele era comprado escondido porque não se podia vender.

Era o argumento universal da juventude. Servia para discos, calças à boca de sino, camisas extravagantes e namoradas que os pais consideravam não termos idade para isso.

Quanto às namoradas, a minha argumentação era menos convincente. Mas isso é outra história, embora também pudesse ser acompanhada por música brasileira.

O mais curioso é que, sem o saber, eu andava a fazer aquilo que muitos anos depois receberia um nome pomposo: consumir cultura lusófona.

Na década de 70, porém, ninguém dizia «consumir cultura lusófona». Dizia-se que se gostava de música angolana, brasileira ou portuguesa. E, quando uma canção nos tocava, não precisávamos de saber a nacionalidade exacta do compositor, a classificação do género musical ou o enquadramento histórico da obra. Gostávamos. Ponto final. A língua portuguesa era o fio que nos ligava, mas a música fazia muito mais do que isso. Transportava ritmos, sotaques, maneiras de sentir, histórias de amor, saudades, alegrias e tristezas que atravessavam o Atlântico sem necessidade de visto.

Só mais tarde alguém se lembrou de chamar lusofonia a esta família de culturas e de línguas. A palavra é útil, tem dignidade e até fica bem em cartazes institucionais. Permite organizar festivais, promover encontros e escrever discursos com muitas referências à diversidade cultural.

Mas desconfio de que, se os músicos dos anos 70 tivessem esperado pela invenção da palavra para começar a fazer música, ainda hoje estaríamos à espera do primeiro concerto.

Felizmente, ninguém lhes pediu autorização.

Raul Indipwo e Milo MacMahon não precisaram de um gabinete de cooperação linguística para fazer os Duo Ouro Negro. Os músicos brasileiros não precisaram de uma comissão para atravessar o oceano. E os cantores portugueses não tiveram de preencher um formulário para chegar aos nossos ouvidos. A música circulava porque havia quem a tocasse e quem quisesse ouvi-la. E nós ouvíamos.

Podia ter-me tornado uma autoridade na matéria. Quem sabe, até ser consultor musical de algum organismo internacional. Passaria os dias a explicar a importância da circulação das expressões artísticas no espaço da língua portuguesa, enquanto alguém me servia um café e me perguntava se eu conhecia aquela canção brasileira que tinha ouvido na rádio. Eu responderia com ar grave:

- Conheço, naturalmente. Ouvi-a em 1973, antes da institucionalização do conceito. - E cobraria honorários. Mas não. Naquele tempo, eu era apenas um jovem apaixonado por música. Não tinha grandes teorias, não dominava o vocabulário académico e não fazia ideia de que um dia alguém inventaria uma palavra para juntar tantas coisas de que eu já gostava.

Tinha apenas discos, rádio, curiosidade e uma língua que me permitia reconhecer, em vozes diferentes, qualquer coisa de familiar. Talvez seja essa a verdadeira história da lusofonia: antes de ser uma palavra, já era uma emoção. E, se me perguntarem hoje o que é a lusofonia, posso dar uma resposta muito mais simples do que a de qualquer conferência internacional. É aquela canção angolana que me faz lembrar a terra. É aquela música brasileira que me faz acreditar que o amor ainda é possível, apesar das evidências em contrário. É aquela voz portuguesa que nos deixa melancólicos mesmo quando está sol. É o prazer de descobrir que, do outro lado do oceano, alguém canta numa língua que também é nossa, mas com uma maneira diferente de lhe dar vida. E é, sobretudo, a liberdade de gostar de tudo isso sem pedir licença a ninguém. Nos anos 70, eu já sabia. Só me faltava a palavra. E, francamente, entre ter a palavra certa e ter um bom disco para ouvir, sempre preferi o disco. Até porque a palavra não dá música. E um discurso sobre lusofonia, por muito bem escrito que seja, não substitui os Duo Ouro Negro a tocar na sala, com o vizinho a bater à porta e a minha mãe a gritar da cozinha:

- Ó rapaz, baixa isso!

Aí está uma expressão de verdadeira universalidade cultural. Em Angola, em Portugal ou no Brasil, há coisas que nunca precisam de tradução.



Sanzalando