Dizem os entendidos em física que nada viaja mais rápido do que a luz. Claramente, esses cientistas nunca experimentaram a velocidade a que a saudade aperta quando se está longe de quem se gosta. A saudade é aquele passageiro clandestino que se instala sem pedir licença, toma conta do peito e, se não tivermos cuidado, ainda nos faz suspirar para a janela como se estivéssemos num momento trágico dos anos 70 do século passado.
Mas a distância, essa grande desenhadora de mapas e fazedora de quilómetros, cometeu um erro grave ao subestimar a ferramenta mais poderosa do ser humano, a imaginação sem vergonha nenhuma.
Quando os quilómetros teimam em fazerem-se de fortes, a mente assume o papel de engenheira de pontes invisíveis. Afinal, a geografia é apenas uma convenção burocrática inventada por quem desenha mapas. No mundo real do pensamento, a física quântica é um jogo de crianças. Na impossibilidade de dobrar o espaço-tempo ou de inventar uma máquina de teletransporte que, convenhamos, estaria constantemente avariada ou presa na alfândega, a mente desenvolve os seus próprios truques de ilusionismo. De repente, aquela chávena de café de manhã não é tomada a solo. A mente encarrega-se de puxar a cadeira em frente e colocar lá o sorriso de quem está longe. O café continua a ser um expresso normal, mas o sabor passa a ser o de uma conversa cruzada a uns tantos fusos horários de distância. Fecha-se os olhos e, num piscar de pestanas, faz-se uma viagem e estamos lá. A gargalhada ouvida ontem ao telefone ecoa hoje na sala como se estivesse a ser emitida em som surround de alta definição. A verdadeira magia da criatividade é que ela recusa-se a aceitar o ditado longe da vista, longe do coração. Na verdade, quanto mais longe da vista, mais a mente se desdobra em acrobacias para manter tudo perto.
Criam-se piadas privadas que só o ecran do telemóvel entende, inventam-se rituais absurdos de presença à distância e descobre-se que a saudade, quando devidamente temperada com bom humor, perde aquele peso poeirento e transforma-se numa espécie de combustível. Um combustível estranho, é certo, mas capaz de fazer a mente voar por cima de qualquer oceano sem pagar taxa de bagagem de mão.
A distância pode mandar nos quilómetros, no relógio e no preço da viagem. Mas a mente? A mente ri-se do GPS, traça um atalho na imaginação e encarrega-se de encurtar o mundo até caber inteirinho dentro de um abraço pensado.
É, a minha mente, a minha imaginação, o meu sonho, tudo está numa conjugação de tempo e espaço, numa equação em que as incógnitas X ou Y não são meras ilusões, mas apenas sentimentos de simplicidade.










