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Conversas à Mesa
7 de março de 2026
Bom Dia Mercado 12 - Rádio Portimão
eu li Luandino quando comecei a ter dinheiro
Primeiros 10 minutos li uma frase e o cérebro fazia um barulho de engrenagem enferrujada. Luandino escrevia "estória" com "e", inventava verbos que não pediam licença ao dicionário e as palavras pareciam que estavam a dançar sem música.
- Mas esse gajo está a escrever em português ou está a semear sementes de palavras no papel e eu vou ter que esperar elas cresçam? perguntei-me.
Depois de uma hora, a magia começou a bater, já não estava na sala de leitura. Eu estava lá, no meio do pó da rua, a ouvir o banzé dos miúdos e o cheiro do peixe a fritar. O problema é que o Luandino tem um feitiço, ele desarruma a gramática de um jeito que a gente começa a achar que o erro é que é o certo.
Lá pelas tantas, os companheiros me gritaram vais jantar ou ficas por aqui o comer palavras?
Eu, possuído pelo espírito do Ngangula, olhou para eles e respondi:
- Ó pá, não me venham com estórias de comer que o meu estômago está a fazer maka com a minha fome. A vida é um desassossego de palavras e eu estou aqui a "estoriar" com os meus botões!
Eles me olharam estupefactos e pararam. Nunca me tinham ouvido dizer "maka" na vida. Mas me deixaram ali a passear as palavras ou a ser passeado por elas.
O livro foi lido em três dias. No quarto dia, fui ao banco. O gerente, muito engomado, veio explicar-me as taxas de juro:
- Veja bem, a flutuação do mercado... blá blá - por aí fora, conversa de banco
Eu, com aquela cadência que só quem leu Luandino entende, interrompi:
- Ouça-me, deixe lá esses papéis. O que o senhor está a fazer é uma conversa de fiado, um banzé de números que não têm coração. O dinheiro é como o vento no capim: assobia mas não se apanha!
O gerente ficou mudo. Eu sai do banco a gingar, sentindo-se o dono da língua de estalar.
A Lição da Estória
Ler Luandino Vieira é um perigo público:
Risco 1: começas a achar que a gramática tradicional é uma camisa de forças dois tamanhos abaixo do meu, que nem respirar consegues.
Risco 2: passas a ver poesia num pneu velho ou numa conversa de vizinha.
Risco 3: a boca ganha um balanço que nenhum curso de oratória consegue ensinar. Até gingas a falar.
6 de março de 2026
eu a correr na marginal, da memória
Ah, a Marginal. Aquele cenário de postal dos correios que, às sete da manhã, cheira a maresia e ao desespero silencioso de quem decidiu que "hoje é o dia em que mudo de vida".
Correr ao longo da baía é um exercício de humilhação pública em parcelas. De um lado, temos o mar, vasto, imperturbável, rindo-se das nossas articulações. Do outro, os "Super-Humanos do Asfalto": aqueles que andam de carro e nos chamam de loucos.
Eu, por outro lado, corro com o entusiasmo de um frigorífico a ser empurrado numa ribanceira. Corro para desanuviar as saudades do tempo que gastei, pois não sei quantos tenho para gastar. Corro pelo bem-estar físico, e também por aquele doce que comerei à sobremesa.
Mas o fenómeno mais curioso acontece por volta do terceiro quilómetro, quando o oxigénio decide abandonar o cérebro para ir socorrer os meus gémeos em chamas. É nesse estado de semi-delírio de falta de oxigénio que a máquina do tempo liga. De repente, não sou mais aquele adulto com dores nas costas e uma folha de tarefas a fazer. Sou um adolescente de novo.
Na minha cabeça, a playlist de música dos anos 80 transforma a marginal na passadeira vermelha do meu próprio filme de amadurecimento. Começo a imaginar que, ao dobrar a próxima curva, vou encontrar aquela paixão não correspondida do 5º ano. Ela estará lá, a olhar para o horizonte e eu passarei por ela com uma passada leve, um aceno casual e um cabelo que, milagrosamente, não está colado à testa como uma alga morta. Mas na realidade passo por um grupo de reformados que caminham a passo acelerado e que, para meu profundo horror, me ultrapassam enquanto discutem o preço do quilo do robalo ou da morianga.
Correr na marginal permite-nos alimentar estas fantasias porque a paisagem é cinematográfica. O adolescente interior, aquele que ainda acha que vai ser uma estrela de rock ou um avançado da intelectualidade, alimenta-se desta estética. Tudo parece mais épico quando o sol reflete na água. Sinto que estou a treinar para um combate decisivo, quando na verdade estou apenas a tentar não ser atropelado por um miúdo num triciclo. Olho para a minha sombra e verifico que o meu cérebro filtra a barriga e a t-shirt que já foi camisa interior ou simplesmente camiseta e devolve-me a imagem de um herói de acção. É um filtro natural chamado "Falta de Ar". Na adolescência, queríamos fugir da cidade. Agora, corremos ao longo da água a fingir que estamos a ir para algum lado, quando o único destino real é a padaria no fim do percurso.
A minha estória acaba sempre da mesma forma. O sonho de adolescente desvanece-se quando o relógio inteligente apita, anunciando que o meu batimento cardíaco atingiu níveis que fariam um cardiologista benzer-se.
Paro. As mãos nos joelhos. O "eu adolescente" volta para o porão da memória, resmungando sobre como a vida era suposto ter mais guitarras elétricas e menos joelheiras. Caminho o resto do caminho com a dignidade possível, sentindo-me 10 anos mais velho, mas estranhamente feliz por ter sobrevivido a mais uma sessão de "cinema mental" à beira-mar.
No final, correr na baía não é sobre o exercício. É sobre aquela meia hora em que a gravidade e as contas para pagar não existem, e somos apenas nós, o vento e a audácia de acreditar que ainda temos 17 anos, pelo menos até à próxima subida.
5 de março de 2026
Eu e o Lobo Antunes
Conheci o António Lobo Antunes apenas uma vez, ou pelo menos gosto de contar a história como se tivesse sido um encontro memorável. Na verdade, foi mais um daqueles encontros de circunstância em que duas pessoas ocupam o mesmo espaço, o mesmo ar e, durante alguns segundos, tive uma dúvida existencial: será que devo dizer alguma coisa inteligente?.
Eu estava num café da cidade do Porto, armado em intelectual, estudante de Medicina, com um livro aberto à minha frente a fazer horas para a sessão do Fantasporto. Não o estava propriamente a ler; estava na fase mais avançada da leitura moderna: olhar para a página com ar profundo enquanto se pensa noutra coisa qualquer, geralmente no preço dos pastéis de nata.
De repente, entra Lobo Antunes. Coincidência do caraças. O livro que eu tinha: Memória de Elefante. Será que há por acasos ou está tudo escrito nos céus do destino? Depois de ter devorado Fernando Namora eu estava a devorar António Lobo Antunes. E não é que ele entra ali. Desfila na minha mente ainda hoje.
Há pessoas que entram num café. Ele entra como quem atravessa um romance de 600 páginas: devagar, com peso literário e uma certa aura de quem sabe coisas que nós ainda não percebemos.
Sentou-se numa mesa ao lado.
E foi então que começou a luta interior.
Uma voz dentro de mim dizia:
- Vai lá cumprimentar o homem. Diz qualquer coisa sobre literatura!
Outra voz, muito mais sensata, respondia:
- Tu mal consegues explicar a conta da cantina, quanto mais a literatura do Lobo Antunes.
Fiquei ali, entre a coragem e a prudência, que é o sítio onde a maioria dos portugueses vive.
Finalmente, levantei-me. Dei dois passos. Parei. Voltei para trás. Sentei-me outra vez. Pedi outro café, porque o pensamento profundo seca a garganta e eu precisava cafeína ou julgava precisar.
Nisto, ele levanta-se para sair.
Ao passar por mim, olhou para o meu livro aberto há meia hora na mesma página e disse, com um sorriso muito leve:
- Esse capítulo é difícil, não é?
Eu respondi com a maior honestidade literária da minha vida:
- É… mas estou quase a vencê-lo.
Ele acenou, compreensivo, como quem reconhece um colega de profissão na arte nacional de demorar a ler.
E saiu.
Desde esse dia gosto de dizer que tive uma conversa profunda com António Lobo Antunes.
Durou sete palavras.
Mas, convenhamos, para certos escritores… já foi um diálogo bastante longo.
4 de março de 2026
Programa K'arranca às Quartas 108
o meu carro de rolamentos
Na minha rua, a Fórmula 1, que a gente conhecia de ler nos jornais e revistas e quem gostava de motores sabia até como é que eram os barulhos, mas nunca ninguém tinha visto um só, começava logo a seguir ao almoço, quando as mães ainda estavam a arrumar a cozinha e nós já estávamos a montar os bólides com a mesma seriedade dos engenheiros da Formula 1 de verdade.
Os carros eram feitos de tábuas roubadas ao destino, pregos tortos e quatro rolamentos que tinham tido uma vida anterior numa oficina qualquer. Cada carro tinha um nome. O nome era ambicioso pelo menos a julgar pelo com dos ditos rolamentos a rolar no passeio liso que começava na casa da D. Maria e acabava depois da curva dos Fonsecas. Curioso é que do outro lado, da casa do Sr. Robalo também era liso e tinha a mesma distância mas não entrava nas nossas corridas. Será que era caminho assombrado. Deslembro a ideia.
Quem sabe da estória da altura sabe que os carros de rolamentos não tinham travões, era mesmo o tacão da sandália ou do kedes. A travagem era quase inexistente pois ninguém queria estragar o calçado
O regulamento era simples:
-
Ganha quem chegar lá abaixo primeiro
-
Sobrevive quem tiver sorte.
-
Se bater nas pernas de alguém ou alguém mandar vir a gente só tem de fogir.
O meu maior rival era o o JC Robalo que tinha uma garra e um talento especial para escolher sempre a pior trajectória possível para a gente dar a curva. O carrinho de rolamentos tinha volante de corda. Sim, de corda. Aquilo não virava, negociava curvas, assim como a báscula da bacia que a gente tinha de fazer de vez em quando para melhor curvar, sem bater no poste de luz que estava ali mesmo depois da curva.
Nos dias de corrida, juntava-se à janela o senhor Artur Gomes que não sei se fazia de comissário de pista mas dava sempre um palpite ou uma palavra de coragem. E nós, pilotos de calções e joelhos esfolados, alinhámos no topo da descida com o ar concentrado de quem ia disputar o Grande Prémio de Monte Carlo — versão com buracos e meias solas.
Acabava noite fechada e com a frase
- Amanhã fazemos outras.
E fizemos muitas .
Porque naquela rua, com tábuas, rolamentos e uma coragem que só existe antes da adolescência, éramos todos campeões do mundo pelo menos até à hora do jantar.
3 de março de 2026
eu e a carta de condução
O examinador, o Sr. Hilário, entrou no carro e resmungou qualquer coisa que eu não entendi. Olhei-lhe bem e lá estava ele com um bloco para mim era de cimento e uma caneta pronta a riscar os meus sonhos.
- Porque não andaste na escola de condução?
- Bem... para aprender o código comprei livros e achei que não precisava ir para a escola para o aprender.
- Como aprendeste a conduzir o carro?
- Hum... acho que foi nato. Via a minha mão e dentro da garagem eu andava com o carro para a frente e para trás. - já eu transpirava e não era verão
- Eras desses que anda às noites a fazer rally no meio da cidade?
- Há disso? Nunca ouvi falar. - sendo que eu era um deles e estava difícil manter-me concentrado
- Arranca.
Fiz o que tinha a fazer e fui seguindo as instruções ou indicações.
Chegámos à temida subida. O Sr. Hilário mandou-me parar.
- Arranca sem deixar o carro descair.
Nesse momento, a minha perna esquerda começou a tremer com a intensidade de um tremor de terra em modo vibração. O carro parado. Eu quase comecei a tremer. A minha mãe à janela sorria e acho estava a rezar o terço mentalmente pelo que eu conseguia imaginar.
O carro nem soluçou. O motor não tossiu. Por um milagre da física e da adrenalina, o carro avançou suave. Não descaiu. Em contrapartida, deitei tanto fumo mental que parecia que estávamos a acender um forno com lenha molhada. Por acaso era um exercício que eu fazia todos os dias quando tirava o carro da garagem da minha mão porque ela nunca consegui tirá-lo. Mas eu não podia dizer nada naquele instante.
Seguimos.
- Estaciona ali entre aquele Mercedes novo e aquele DKW - disse o Sr. Hilário, claramente com tendências sádicas, a julgar pelo olhar sorridente de quem estava pronto a me tramar.
Fiz a manobra. Olhei para o espelho, olhei para o passeio, rodei o volante. Na primeira tentativa fiquei a um metro do passeio. Até parecia que ali estava uma mota. Na segunda tentativa quase atropelei uma arvore que estava no passeio. Terceira tentativa encaixei numa perfeição quase perfeita.
Ele olhou para fora e atirou:
- Demasiadas manobras. Mas vá, arranca.
E lá ia eu. Descontraído porque estava a correr como eu pensava que ia ser.
Estávamos a chegar ao fim. Eu já sentia o cheiro da carta de condução ou do papel que a substituía enquanto ela propriamente dita não chegasse. Foi então que vi um sinal de STOP. Mas a minha mente decidiu lê-lo como um sinal de "Sugestão de Travar Opcional se aPetecer". Travei no último milésimo de segundo.
Olhou-me e sussurrando disse-me que pensava que eu ia seguir. E eu respondi:
- O carro é que não queria parar...
De volta às Obras Públicas ele disse-me
- Conduzes como se estivesses a tentar fugir de um crime, mas não cometeste nenhum erro eliminatório. Está apto. Mas tem cuidado com os Stops... e aprenda a diferença entre óleo e água quando fores meter gasolina.
E assim, num 3 de Março tirei a carta de condução
1 de março de 2026
Pertinências 1 - Dr. Carlos Osório - Palestra sobre o ROBLOX
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
A abrir esta série, assistimos à palestra do Dr. Carlos Osório, na Escola Judice Fialho, sobre o ROBLOX e os perigos que se escondem nos seus recantos. Infelizmente na palestra poucos eram os Encarregados de Educação presentes. Resolvi, com os devidos consentimentos, transformá-lo em programa de Rádio - nasceu o pertinências
E hoje é Março
28 de fevereiro de 2026
eu na escola primária
Quando eu cheguei à escola primária eu descobri três certezas absolutas
- O recreio era curto demais.
- os alunos mais velhos eram ruins
- a professora sabia tudo — inclusive quando alguém estava a mentir… mesmo antes de mentir.
A professora chamava-se Dona Maria. Tinha um radar invisível para os meus disparates. Bastava um lápis voar com ar suspeito e ela já levantava a cabeça devagarinho, naquele movimento que dizia até parecia estar a dizer eu vi… mesmo que eu sabia que ela não tinha visto.
Eu sentava-me na terceira fila, lugar estratégico: nem demasiado à frente para ser voluntário involuntário, nem demasiado atrás para ser automaticamente culpado de todas as coisas ruins que iam acontecendo na aula.
Um dia, a Dona Maria decidiu fazer a pergunta mais perigosa da minha infância:
- Quem quer vir ao quadro?
Silêncio. Um silêncio tão profundo que se ouvia o cérebro do Manel a pensar: Se eu não respirar, ela não me vê.
Mas a professora tinha superpoderes.
- João Carlos!
Quando um professor diz o nome completo, uma pessoa envelhece três anos de imediato. Levantei-me como quem vai cumprir pena leve.
Era uma conta de dividir. Na minha cabeça, os números começaram a dançar. Escrevi qualquer coisa com convicção artística. A matemática, percebi ali, é muito mais sobre fé do que sobre cálculo.
A turma olhava para mim como se eu estivesse a desarmar uma bomba.
- Tens a certeza? — perguntou a professora.
Essa pergunta é uma armadilha. Nunca temos a certeza quando nos fazem essa pergunta. Mas respondi:
- Tenho.
Ela sorriu. Aquele sorriso pedagógico que significa qualquer coisa como ele vai aprender agora.
Estava errado, claro. Mas saí do quadro com a dignidade possível e um aplauso silencioso do Manel, que tinha escapado naquele dia. Mais dias existirão, pensei.
No recreio, éramos todos génios. O campo de futebol era inclinado, as balizas eram duas pedras e as regras mudavam conforme o resultado ou conforme estávamos a jogar contra os mais velhos que até parecia já tinham barba. Se a bola saía do recreio estava democraticamente, que a gente nem sabia existia essa coisa, que tinha sido falta do vento que não travou a bola.
Havia também a Inês, que sabia sempre a matéria toda e ainda tinha letra bonita. Isso, na primária, era praticamente bruxaria.
E depois havia o momento sublime da sexta-feira: Podem arrumar tudo.
Essas duas palavras tinham mais poder do que qualquer hino nacional.
Hoje, quando passo por uma escola primária, ouço o barulho dos miúdos e penso que a vida devia ser sempre assim: metade nervos no quadro, metade gargalhadas no recreio.
E, no fundo, todos continuamos iguais - só mudámos o tamanho e o nome da mochila, que no meu tempo era pasta.
27 de fevereiro de 2026
Pertinências
Amanhã faço nascer um novo programa de rádio. Esta é a minha história de como o Pertinências salvou uma cidade do esquecimento, não com grandes manchetes, mas com o som de uma colher de chá a bater numa chávena de porcelana.
Aos 69 anos, pensando no "Pertinências", imaginava que conseguia ouvir a diferença entre uma mentira e uma hesitação apenas pela frequência dos graves. O programa não será um sucesso de massas — não tem passatempos, nem música. É feito num estúdio, com uma chávena de café, às vezes frio e um computador que já foi veloz.
A premissa é simples, mas sei que perigosa: "Trazer o que é dito no escuro para a luz da antena."
Tudo começou com uma comunicação que fui ouvir. Esperava-se uma multidão, mas nem à dezena se chegou. Então pensei:
"Eles dizem que é progresso, são jogos, hão de crescer e mudar, mas não sabem o que se esconde por trás daquelas horas perdidas no computador ou no telemóvel. Talvez seja demasiado tarde quando descobrirem."
Talvez uns decidam apenas ignorar, outros proibir e eu penso "e porquê?"
Eu fui ouvir uma denuncia sonora, uma preocupação sincera. Eu e poucos mais.
Tenho de levar isto para outros ouvidos, pensei.
Tratei o som. Para muitos talvez seja ruído, para outros silêncio e para muitos apenas ignorância. Para mim é preocupação.
Nasceu O Pertinências com o sinal horário das 21 num sábado, mas a cidade, lá fora, já não sei se ouvirá o mesmo silêncio de antes.
26 de fevereiro de 2026
o meu carro vermelho berrante
Mais ou menos aos 6 eu tive o meu primeiro meu carro, que era de um vermelho berrante, com um número "5" colado de lado que prometia velocidades estonteantes na minha cabeça de criança. Tinha um volante de baquelite que rangia como um navio pirata e umas rodas de borracha rígida, ou seria madeira forrada, aqui a memória me falhou e que em contacto com o alcatrão da rua, faziam mais barulho do que um concerto de tampas de panela na minha cozinha.



