O examinador, o Sr. Hilário, entrou no carro e resmungou qualquer coisa que eu não entendi. Olhei-lhe bem e lá estava ele com um bloco para mim era de cimento e uma caneta pronta a riscar os meus sonhos.
- Porque não andaste na escola de condução?
- Bem... para aprender o código comprei livros e achei que não precisava ir para a escola para o aprender.
- Como aprendeste a conduzir o carro?
- Hum... acho que foi nato. Via a minha mão e dentro da garagem eu andava com o carro para a frente e para trás. - já eu transpirava e não era verão
- Eras desses que anda às noites a fazer rally no meio da cidade?
- Há disso? Nunca ouvi falar. - sendo que eu era um deles e estava difícil manter-me concentrado
- Arranca.
Fiz o que tinha a fazer e fui seguindo as instruções ou indicações.
Chegámos à temida subida. O Sr. Hilário mandou-me parar.
- Arranca sem deixar o carro descair.
Nesse momento, a minha perna esquerda começou a tremer com a intensidade de um tremor de terra em modo vibração. O carro parado. Eu quase comecei a tremer. A minha mãe à janela sorria e acho estava a rezar o terço mentalmente pelo que eu conseguia imaginar.
O carro nem soluçou. O motor não tossiu. Por um milagre da física e da adrenalina, o carro avançou suave. Não descaiu. Em contrapartida, deitei tanto fumo mental que parecia que estávamos a acender um forno com lenha molhada. Por acaso era um exercício que eu fazia todos os dias quando tirava o carro da garagem da minha mão porque ela nunca consegui tirá-lo. Mas eu não podia dizer nada naquele instante.
Seguimos.
- Estaciona ali entre aquele Mercedes novo e aquele DKW - disse o Sr. Hilário, claramente com tendências sádicas, a julgar pelo olhar sorridente de quem estava pronto a me tramar.
Fiz a manobra. Olhei para o espelho, olhei para o passeio, rodei o volante. Na primeira tentativa fiquei a um metro do passeio. Até parecia que ali estava uma mota. Na segunda tentativa quase atropelei uma arvore que estava no passeio. Terceira tentativa encaixei numa perfeição quase perfeita.
Ele olhou para fora e atirou:
- Demasiadas manobras. Mas vá, arranca.
E lá ia eu. Descontraído porque estava a correr como eu pensava que ia ser.
Estávamos a chegar ao fim. Eu já sentia o cheiro da carta de condução ou do papel que a substituía enquanto ela propriamente dita não chegasse. Foi então que vi um sinal de STOP. Mas a minha mente decidiu lê-lo como um sinal de "Sugestão de Travar Opcional se aPetecer". Travei no último milésimo de segundo.
Olhou-me e sussurrando disse-me que pensava que eu ia seguir. E eu respondi:
- O carro é que não queria parar...
De volta às Obras Públicas ele disse-me
- Conduzes como se estivesses a tentar fugir de um crime, mas não cometeste nenhum erro eliminatório. Está apto. Mas tem cuidado com os Stops... e aprenda a diferença entre óleo e água quando fores meter gasolina.
E assim, num 3 de Março tirei a carta de condução






