Ah, a Marginal. Aquele cenário de postal dos correios que, às sete da manhã, cheira a maresia e ao desespero silencioso de quem decidiu que "hoje é o dia em que mudo de vida".
Correr ao longo da baía é um exercício de humilhação pública em parcelas. De um lado, temos o mar, vasto, imperturbável, rindo-se das nossas articulações. Do outro, os "Super-Humanos do Asfalto": aqueles que andam de carro e nos chamam de loucos.
Eu, por outro lado, corro com o entusiasmo de um frigorífico a ser empurrado numa ribanceira. Corro para desanuviar as saudades do tempo que gastei, pois não sei quantos tenho para gastar. Corro pelo bem-estar físico, e também por aquele doce que comerei à sobremesa.
Mas o fenómeno mais curioso acontece por volta do terceiro quilómetro, quando o oxigénio decide abandonar o cérebro para ir socorrer os meus gémeos em chamas. É nesse estado de semi-delírio de falta de oxigénio que a máquina do tempo liga. De repente, não sou mais aquele adulto com dores nas costas e uma folha de tarefas a fazer. Sou um adolescente de novo.
Na minha cabeça, a playlist de música dos anos 80 transforma a marginal na passadeira vermelha do meu próprio filme de amadurecimento. Começo a imaginar que, ao dobrar a próxima curva, vou encontrar aquela paixão não correspondida do 5º ano. Ela estará lá, a olhar para o horizonte e eu passarei por ela com uma passada leve, um aceno casual e um cabelo que, milagrosamente, não está colado à testa como uma alga morta. Mas na realidade passo por um grupo de reformados que caminham a passo acelerado e que, para meu profundo horror, me ultrapassam enquanto discutem o preço do quilo do robalo ou da morianga.
Correr na marginal permite-nos alimentar estas fantasias porque a paisagem é cinematográfica. O adolescente interior, aquele que ainda acha que vai ser uma estrela de rock ou um avançado da intelectualidade, alimenta-se desta estética. Tudo parece mais épico quando o sol reflete na água. Sinto que estou a treinar para um combate decisivo, quando na verdade estou apenas a tentar não ser atropelado por um miúdo num triciclo. Olho para a minha sombra e verifico que o meu cérebro filtra a barriga e a t-shirt que já foi camisa interior ou simplesmente camiseta e devolve-me a imagem de um herói de acção. É um filtro natural chamado "Falta de Ar". Na adolescência, queríamos fugir da cidade. Agora, corremos ao longo da água a fingir que estamos a ir para algum lado, quando o único destino real é a padaria no fim do percurso.
A minha estória acaba sempre da mesma forma. O sonho de adolescente desvanece-se quando o relógio inteligente apita, anunciando que o meu batimento cardíaco atingiu níveis que fariam um cardiologista benzer-se.
Paro. As mãos nos joelhos. O "eu adolescente" volta para o porão da memória, resmungando sobre como a vida era suposto ter mais guitarras elétricas e menos joelheiras. Caminho o resto do caminho com a dignidade possível, sentindo-me 10 anos mais velho, mas estranhamente feliz por ter sobrevivido a mais uma sessão de "cinema mental" à beira-mar.
No final, correr na baía não é sobre o exercício. É sobre aquela meia hora em que a gravidade e as contas para pagar não existem, e somos apenas nós, o vento e a audácia de acreditar que ainda temos 17 anos, pelo menos até à próxima subida.


