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Conversas à Mesa
4 de março de 2026
Programa K'arranca às Quartas 108
o meu carro de rolamentos
Na minha rua, a Fórmula 1, que a gente conhecia de ler nos jornais e revistas e quem gostava de motores sabia até como é que eram os barulhos, mas nunca ninguém tinha visto um só, começava logo a seguir ao almoço, quando as mães ainda estavam a arrumar a cozinha e nós já estávamos a montar os bólides com a mesma seriedade dos engenheiros da Formula 1 de verdade.
Os carros eram feitos de tábuas roubadas ao destino, pregos tortos e quatro rolamentos que tinham tido uma vida anterior numa oficina qualquer. Cada carro tinha um nome. O nome era ambicioso pelo menos a julgar pelo com dos ditos rolamentos a rolar no passeio liso que começava na casa da D. Maria e acabava depois da curva dos Fonsecas. Curioso é que do outro lado, da casa do Sr. Robalo também era liso e tinha a mesma distância mas não entrava nas nossas corridas. Será que era caminho assombrado. Deslembro a ideia.
Quem sabe da estória da altura sabe que os carros de rolamentos não tinham travões, era mesmo o tacão da sandália ou do kedes. A travagem era quase inexistente pois ninguém queria estragar o calçado
O regulamento era simples:
-
Ganha quem chegar lá abaixo primeiro
-
Sobrevive quem tiver sorte.
-
Se bater nas pernas de alguém ou alguém mandar vir a gente só tem de fogir.
O meu maior rival era o o JC Robalo que tinha uma garra e um talento especial para escolher sempre a pior trajectória possível para a gente dar a curva. O carrinho de rolamentos tinha volante de corda. Sim, de corda. Aquilo não virava, negociava curvas, assim como a báscula da bacia que a gente tinha de fazer de vez em quando para melhor curvar, sem bater no poste de luz que estava ali mesmo depois da curva.
Nos dias de corrida, juntava-se à janela o senhor Artur Gomes que não sei se fazia de comissário de pista mas dava sempre um palpite ou uma palavra de coragem. E nós, pilotos de calções e joelhos esfolados, alinhámos no topo da descida com o ar concentrado de quem ia disputar o Grande Prémio de Monte Carlo — versão com buracos e meias solas.
Acabava noite fechada e com a frase
- Amanhã fazemos outras.
E fizemos muitas .
Porque naquela rua, com tábuas, rolamentos e uma coragem que só existe antes da adolescência, éramos todos campeões do mundo pelo menos até à hora do jantar.
3 de março de 2026
eu e a carta de condução
O examinador, o Sr. Hilário, entrou no carro e resmungou qualquer coisa que eu não entendi. Olhei-lhe bem e lá estava ele com um bloco para mim era de cimento e uma caneta pronta a riscar os meus sonhos.
- Porque não andaste na escola de condução?
- Bem... para aprender o código comprei livros e achei que não precisava ir para a escola para o aprender.
- Como aprendeste a conduzir o carro?
- Hum... acho que foi nato. Via a minha mão e dentro da garagem eu andava com o carro para a frente e para trás. - já eu transpirava e não era verão
- Eras desses que anda às noites a fazer rally no meio da cidade?
- Há disso? Nunca ouvi falar. - sendo que eu era um deles e estava difícil manter-me concentrado
- Arranca.
Fiz o que tinha a fazer e fui seguindo as instruções ou indicações.
Chegámos à temida subida. O Sr. Hilário mandou-me parar.
- Arranca sem deixar o carro descair.
Nesse momento, a minha perna esquerda começou a tremer com a intensidade de um tremor de terra em modo vibração. O carro parado. Eu quase comecei a tremer. A minha mãe à janela sorria e acho estava a rezar o terço mentalmente pelo que eu conseguia imaginar.
O carro nem soluçou. O motor não tossiu. Por um milagre da física e da adrenalina, o carro avançou suave. Não descaiu. Em contrapartida, deitei tanto fumo mental que parecia que estávamos a acender um forno com lenha molhada. Por acaso era um exercício que eu fazia todos os dias quando tirava o carro da garagem da minha mão porque ela nunca consegui tirá-lo. Mas eu não podia dizer nada naquele instante.
Seguimos.
- Estaciona ali entre aquele Mercedes novo e aquele DKW - disse o Sr. Hilário, claramente com tendências sádicas, a julgar pelo olhar sorridente de quem estava pronto a me tramar.
Fiz a manobra. Olhei para o espelho, olhei para o passeio, rodei o volante. Na primeira tentativa fiquei a um metro do passeio. Até parecia que ali estava uma mota. Na segunda tentativa quase atropelei uma arvore que estava no passeio. Terceira tentativa encaixei numa perfeição quase perfeita.
Ele olhou para fora e atirou:
- Demasiadas manobras. Mas vá, arranca.
E lá ia eu. Descontraído porque estava a correr como eu pensava que ia ser.
Estávamos a chegar ao fim. Eu já sentia o cheiro da carta de condução ou do papel que a substituía enquanto ela propriamente dita não chegasse. Foi então que vi um sinal de STOP. Mas a minha mente decidiu lê-lo como um sinal de "Sugestão de Travar Opcional se aPetecer". Travei no último milésimo de segundo.
Olhou-me e sussurrando disse-me que pensava que eu ia seguir. E eu respondi:
- O carro é que não queria parar...
De volta às Obras Públicas ele disse-me
- Conduzes como se estivesses a tentar fugir de um crime, mas não cometeste nenhum erro eliminatório. Está apto. Mas tem cuidado com os Stops... e aprenda a diferença entre óleo e água quando fores meter gasolina.
E assim, num 3 de Março tirei a carta de condução
1 de março de 2026
Pertinências 1 - Dr. Carlos Osório - Palestra sobre o ROBLOX
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
A abrir esta série, assistimos à palestra do Dr. Carlos Osório, na Escola Judice Fialho, sobre o ROBLOX e os perigos que se escondem nos seus recantos. Infelizmente na palestra poucos eram os Encarregados de Educação presentes. Resolvi, com os devidos consentimentos, transformá-lo em programa de Rádio - nasceu o pertinências
E hoje é Março
28 de fevereiro de 2026
eu na escola primária
Quando eu cheguei à escola primária eu descobri três certezas absolutas
- O recreio era curto demais.
- os alunos mais velhos eram ruins
- a professora sabia tudo — inclusive quando alguém estava a mentir… mesmo antes de mentir.
A professora chamava-se Dona Maria. Tinha um radar invisível para os meus disparates. Bastava um lápis voar com ar suspeito e ela já levantava a cabeça devagarinho, naquele movimento que dizia até parecia estar a dizer eu vi… mesmo que eu sabia que ela não tinha visto.
Eu sentava-me na terceira fila, lugar estratégico: nem demasiado à frente para ser voluntário involuntário, nem demasiado atrás para ser automaticamente culpado de todas as coisas ruins que iam acontecendo na aula.
Um dia, a Dona Maria decidiu fazer a pergunta mais perigosa da minha infância:
- Quem quer vir ao quadro?
Silêncio. Um silêncio tão profundo que se ouvia o cérebro do Manel a pensar: Se eu não respirar, ela não me vê.
Mas a professora tinha superpoderes.
- João Carlos!
Quando um professor diz o nome completo, uma pessoa envelhece três anos de imediato. Levantei-me como quem vai cumprir pena leve.
Era uma conta de dividir. Na minha cabeça, os números começaram a dançar. Escrevi qualquer coisa com convicção artística. A matemática, percebi ali, é muito mais sobre fé do que sobre cálculo.
A turma olhava para mim como se eu estivesse a desarmar uma bomba.
- Tens a certeza? — perguntou a professora.
Essa pergunta é uma armadilha. Nunca temos a certeza quando nos fazem essa pergunta. Mas respondi:
- Tenho.
Ela sorriu. Aquele sorriso pedagógico que significa qualquer coisa como ele vai aprender agora.
Estava errado, claro. Mas saí do quadro com a dignidade possível e um aplauso silencioso do Manel, que tinha escapado naquele dia. Mais dias existirão, pensei.
No recreio, éramos todos génios. O campo de futebol era inclinado, as balizas eram duas pedras e as regras mudavam conforme o resultado ou conforme estávamos a jogar contra os mais velhos que até parecia já tinham barba. Se a bola saía do recreio estava democraticamente, que a gente nem sabia existia essa coisa, que tinha sido falta do vento que não travou a bola.
Havia também a Inês, que sabia sempre a matéria toda e ainda tinha letra bonita. Isso, na primária, era praticamente bruxaria.
E depois havia o momento sublime da sexta-feira: Podem arrumar tudo.
Essas duas palavras tinham mais poder do que qualquer hino nacional.
Hoje, quando passo por uma escola primária, ouço o barulho dos miúdos e penso que a vida devia ser sempre assim: metade nervos no quadro, metade gargalhadas no recreio.
E, no fundo, todos continuamos iguais - só mudámos o tamanho e o nome da mochila, que no meu tempo era pasta.
27 de fevereiro de 2026
Pertinências
Amanhã faço nascer um novo programa de rádio. Esta é a minha história de como o Pertinências salvou uma cidade do esquecimento, não com grandes manchetes, mas com o som de uma colher de chá a bater numa chávena de porcelana.
Aos 69 anos, pensando no "Pertinências", imaginava que conseguia ouvir a diferença entre uma mentira e uma hesitação apenas pela frequência dos graves. O programa não será um sucesso de massas — não tem passatempos, nem música. É feito num estúdio, com uma chávena de café, às vezes frio e um computador que já foi veloz.
A premissa é simples, mas sei que perigosa: "Trazer o que é dito no escuro para a luz da antena."
Tudo começou com uma comunicação que fui ouvir. Esperava-se uma multidão, mas nem à dezena se chegou. Então pensei:
"Eles dizem que é progresso, são jogos, hão de crescer e mudar, mas não sabem o que se esconde por trás daquelas horas perdidas no computador ou no telemóvel. Talvez seja demasiado tarde quando descobrirem."
Talvez uns decidam apenas ignorar, outros proibir e eu penso "e porquê?"
Eu fui ouvir uma denuncia sonora, uma preocupação sincera. Eu e poucos mais.
Tenho de levar isto para outros ouvidos, pensei.
Tratei o som. Para muitos talvez seja ruído, para outros silêncio e para muitos apenas ignorância. Para mim é preocupação.
Nasceu O Pertinências com o sinal horário das 21 num sábado, mas a cidade, lá fora, já não sei se ouvirá o mesmo silêncio de antes.
26 de fevereiro de 2026
o meu carro vermelho berrante
Mais ou menos aos 6 eu tive o meu primeiro meu carro, que era de um vermelho berrante, com um número "5" colado de lado que prometia velocidades estonteantes na minha cabeça de criança. Tinha um volante de baquelite que rangia como um navio pirata e umas rodas de borracha rígida, ou seria madeira forrada, aqui a memória me falhou e que em contacto com o alcatrão da rua, faziam mais barulho do que um concerto de tampas de panela na minha cozinha.
25 de fevereiro de 2026
Programa K'arranca às Quartas 107
uma estória quase verídica
Entrei no gabinete de urgência como quem entra num palco. Fato que parece pijama azul escuro, impecável, máscara descaída para o pescoço numa preguiça de tirar, olhar treinado para distinguir uma apendicite de uma indisposição causada por excesso de bacalhau à Brás.
Parei aos pés da marquesa, fiquei a olhar para o doente como quem olha para uma obra de arte. Em silêncio e olhar profundo.
O doente, deitado, ficou a olhar para mim como quem espera uma sentença.
Durante uns segundos, ninguém disse nada. Era um duelo silencioso: bisturi contra pânico, autoridade contra bata que estava substituída por pijama, porque é mais higiénico, cómodo e prático.
- Então, doutor? - perguntou o doente, desconfiado. - É grave?
Inclinei ligeiramente a cabeça, como se estivesse a contemplar uma obra de arte contemporânea chamada Homem Deitado nº 3.
- Hummm.
O “hummm” de um cirurgião devia vir com legenda. Pode significar “não é nada”, “vamos já abrir”, ou “onde é que eu deixei os óculos?”.
O doente engoliu em seco.
- Doutor… esse “hummm” é de quê?
- Ainda não lhe toquei, andei não vi uma única análise. Quer que seja adivinho?
Aproximei-me mais, olhar pensativo, mãos na barriga do doente e comecei a fazer perguntas. Desde sérias até as de futebol-
- Diga-me uma coisa - perguntei - Quando carrego aqui, dói?
E carreguei.
- AI! - gritou o doente.
Abanei com a cabeça, satisfeito e disse:
- Excelente.
- Excelente?! - indignou-se o paciente. - Eu estou a gritar!
- Precisamente. Se não gritasse é que eu ficava preocupado. A medicina aprecia reações. O silêncio é que é suspeito. O silêncio é coisa de estátuas. - disse na mais serena tranquilidade.
O doente ficou a olhar para mim, dividido entre o alívio e a vontade de pedir transferência.
Começou a andar de um lado para o outro, mãos atrás das costas e a fazer perguntas. Continuadamente sérias alternando com coisas banais. Até que parei, ao lado dele e olhando-o nos olhos disse
- A questão é filosófica.
- Eu preferia que fosse clínica, por isso vim ao hospital…
- Toda a boa cirurgia começa na filosofia - continuei, ignorando o olhar furioso do doente. - A pergunta não é “o que tem?”, mas “porque é que insiste em ter?”.
- Eu não insisto em nada! Eu tenho!
- Tudo aparece. A idade aparece. As rugas aparecem. As contas aparecem. O apêndice inflama-se e chamam-me.
Ao mesmo tempo sentei-me ao lado da marquesa onde estava o doente.
- Diga-me: numa escala de zero a dez, quanto dói?
- Oito.
- Oito honesto ou oito dramático?
- Oito! - já num tom mais irritado que indeciso
Suspirei e disse:
- Gosto de pacientes decididos. O problema dos sete é que são indecisos. Nem sofrem plenamente nem melhoram com convicção. - Filosofei
Fui ao computador decido e escrevi. Consegui perceber que o doente estava curioso com o que escrevia. Mas mantive o meu silêncio enquanto os dois indicadores batiam no teclado.
- O que está a escrever? - irritada voz que saiu daquela boca
- Paciente com forte vocação para queixar-se. - disse sem tirar os olhos do ecran
- Isso não é diagnóstico que se dê a um doente!
- Claro que é. A queixa é o princípio da ciência.
Levantei-me, compôs o pijama e olhei o doente de alto a baixo mais uma vez.
- Fique descansado. Vamos fazer exames.
- E se for preciso opera?
Sorri com aquela tranquilidade inquietante de quem tem um bisturi como extensão da personalidade.
- Meu caro, eu sou cirurgião. Se não operar hoje, opero amanhã. A diferença entre nós é que o senhor teme a cirurgia e eu temo um dia sem ela.
Dei dois passos em direção à porta, depois voltei atrás e, com ar conspiratório, disse:
- Mas não se preocupe. Só corto o estritamente necessário. Às vezes até menos.
Saiu do gabinete.
Acho que o doente ficou a olhar para o teto, profundamente pensativo. Nunca tinha pensado que o maior sintoma da sua doença fosse estar nas mãos de alguém tão entusiasmado com lâminas.
E suspirou:
- Se eu soubesse, tinha ficado só com o bacalhau e não tinha comido o prato de carne.
24 de fevereiro de 2026
fui no comboio
Eu tenho o prazer de ter feito uma das mais espetaculares viagens de comboio do mundo. Pelo menos do meu mundo, tenha ele o tamanho que tiver. O Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM) não é apenas um transporte; é uma transição dramática entre o deserto e a montanha.
Na estação, antes do Sr. Alves dar a partida ao comboio eu sentia o cheiro do deserto e também o do gasóleo, porque já não me lembro do fumo do vapor daquela locomotiva preta enorme que nem gigante cabia na minha imaginação de agora. O sol ainda era uma promessa tímida no horizonte quando o comboio dá o primeiro solavanco. Pela janela, a paisagem é dominada por um vazio de gente mas ocupada por um arvoredo luxuriante que desequilibrava o deserto daquele lado da cidade. O Bero era o motor daquela revolução verde assim como depois o Rio Giraul. Quando dou por mim estava no Caraculo. A estepe, a savana o deserto, o semi-deserto, estava lá. Do outro lado do corredor eu via o Morro Maluco a nos acompanhar. Eu delirava e dizia que morro tinha pernas maiores que as minhas pois nos acompanhava, literalmente. O comboio ia em ritmo constante, aqui e ali uma apitadela, o barulho do diesel característico fazia força para puxar a meia dúzia de carruagens. Às vezes a gente cruzava num apeadeiro com três locomotivas que puxavam uns 40 vagões carregados de ferro. Eu digo uns porque me perdia sempre quando lhes queria contar.
Os passageiros partilham fatias de fruta e conversas sobre a família, enquanto o comboio corta a planície árida em direção ao interior. A gente sabe que depois de Vila Arriaga esse comboio vai sofrer.
É aqui que o comboio enfrenta a Serra da Chela. A linha serpenteia como uma serpente de aço, subindo centenas de metros em poucos quilómetros. De um lado, a parede de pedra; do outro, um abismo que revela a imensidão lá embaixo. O ar torna-se subitamente mais fresco. O castanho do deserto dá lugar a tons de verde-escuro e arbustos mais densos.
O esforço do motor é audível, num batimento rítmico que parece fazer eco nas encostas rochosas. É um prodígio da engenharia que nos faz sentir minúsculos perante a geografia angolana.
Finalmente, o terreno estabiliza. Estamos perto dos 1.700 metros de altitude. O comboio desliza agora pelo planalto da Huíla, onde o clima é temperado e a luz tem uma suavidade diferente.
Ao avistar o Lubango, a cidade estende-se num vale abraçado pelas montanhas. O Cristo Rei, no topo da serra, parece dar as boas-vindas aos viajantes que subiram do mar. A estação é um formigueiro de gente: vendedores de múcua, taxistas e famílias que se reencontram.
Eu corro para os braços do meu avô e vou de férias.
23 de fevereiro de 2026
Eu e a minha falésia
Mesmo em frente do Palácio ficava a falésia. A vista só acabava onde o olhar não conseguia chegar. Mas em baixo ainda tinha a marginal. Nunca medi, mas vou inventar que a falésia eram cerca de 40 metros e para aqula minha altura de criança eu acho eram trezentos. Era bué alta a falésia à frente da casa do Governador.
Um dia, em armado com a minha capa de super-homem invisível resolvi que ia descer ali mesmo até na marginal. Na verdade quando eu não tinha problemas eu arranjava. Bem que podia ir um pouco mais atrás tinha já um carreiro feito, mas não. Tinha de ser ali, porque era ali que me apetecia. Que piada ia ter descer no carreiro?
Era imponente aquela falésia. Pelo menos para mim e se calhar tinha gigantes adormecidos no meio caminho. Mais lá para frente havia umas grutas escavadas nela que disseram-me era a casa dos primeiros colonos. Mas ali não. Esses fantasmas ali não ia ter.
Antes de iniciar a minha descida admirei o horizonte e fiquei com pena que os meus olhos não conseguissem, ir mais para lá do que eu via. Paciência, quando eu crescer eu vou. Agora comecei a olhar para onde tinha de pôr os pés. A falha de pé era o meu mostro mais temido. A areia descia depressa, mal eu colocava o pé lá ia um pedaço dela a trambolhar para baixo. Também havia uns pedragulhos que eu deslocava com a ponta do pé para não lhe pisar e escorregar eu. Uma ou outra vez eu parecia ia cair mas era só escorregadela de meio metro.
No final eu estava exausto. Era raro isso acontecer. Mas acho era mais do medo do que do exercício. Cá embaixo olhei para cima e uau, era alto para caramba. Não vou subir aqui. Vou voltar pela marginal, isto é como dar a volta ao bilhar grande mas eu não sou capaz de subir isto. Além de força me ia faltar pulmão.
Me sentei à borda da marginal a ver as ondas se atirarem contra as pedras que seguravam a dita. Como foi que eles fabricaram esta marginal se eu já vi fotografias e aqui era praia e estaleiro? Não importa. Eu consegui descer, olhar e ver só meio palácio e meia igreja. E sozinho. Uê, estou a crescer, pensei.
Comecei a caminhar no passeio de lage que paralelizava com a marginal e com os meus botões fui inventando estórias, porque as falésias contam sempre uma estória e eu com medo não perguntei àquela qual a estória dela.
A minha estória da falésia é que lhe tinha descido num lugar muito perigoso. Criança sem juízo ia dizer a minha mãe se soubesse que eu tinha descido ali.
22 de fevereiro de 2026
Conversas à mesa 4 - Ensino e Educação
Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 21 de fevereiro
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.






