A Minha Sanzala
Rádio Portimão
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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
- Pertinências 1 - Carlos Osório - Roblocks e os seus caminhos
- Pertinências 2 - Diagnóstico Dual - GRATO
- Pertinências 3 - "A Mulher (e as mulheres) segundo Fernando Pessoa"
- Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair
- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
- Pertinências 6 - Escritores algarvios
- Pertinências 7 - Equipes de Rua - GRATO
- Pertinências 8 - Rastreio e Prevenção do cancro do colon e recto
- PERTINÊNCIAS 9 - Enredados nas Palavras - Dulce Maria Cardoso
- PERTINÊNCIAS 10 - H(á) Mercado - Brasa Doirada
- PERTINÊNCIAS 11
- PERTINÊNCIAS 12
- PERTINÊNCIAS 13 - Por Dentro do CHEGA
- Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião
- Pertinências 15
- Pertinências 16 - As Abelhas
- Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"
- Pertinências 18 - James McSill
- Pertinências 19 - Alexandra do Carmo
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- Pertinências 21 - O Grande Võrtice da Desinformação
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- Pertinências 23 - Jornalismo de Investigação
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- Pertinências 25 - Júlia Domingues e João Ventura
- Pertinências 26 - A Música na Feira do Lovro em Portimão 2926
- Pertinèncias 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)
- Pertinências 28 - 2ª noite de Há Fado na Lota
- Pertinências 29 - 3º noite de Há fado na Lota
- Pertinências 30 - 4ª noite de há fado na lota
12 de outubro de 2026
A ciência não exacta de olhar para longe
Ser adolescente em 1970 era viver com os pés presos à gravidade da província ou da praia da infância e a cabeça a flutuar algures entre a Lua onde os americanos tinham acabado de alunar há pouco tempo, para grande desconfiança das vizinhas e um solo de guitarra de dez minutos dos Led Zeppelin ou um albúm dos Deep Purple made in Japan.
O ritual do horizonte começava quase sempre ao final da tarde. O eu jovem sentava-se num sítio estratégico, entre o tribunal e a paróquia, não fosse o diabo tecê-las. Cruzava os braços, semicerravam-se os olhos para dar aquele ar de filósofo incompreendido de que a malta tanto gostava, e começava a navegação.
O horizonte, visto de longe, parecia uma linha traçada a régua, mas que quem passou por aulas sabe que ela é curva, mas na verdade, é o melhor ecrã de cinema do mundo.
Primeiro, vinham os pensamentos profundos. O que é que o tempo é? Será que no outro lado do mar as pessoas também comem pão com chouriço às quatro da tarde? Depois, a mente derivava inevitavelmente para a mecânica das coisas terrestres: Se eu usar calças à boca de sino a minha mãe vai-me contrariar? E, claro, o mistério insondável de todos os mistérios, porque razão a Maria da Dita olhou para mim no Liceu durante mais de três segundos inteiros? Terá sido amor profundo ou tinha eu uma nódoa de pastel de nata na camisa?
A grande vantagem de navegar pelos pensamentos em 1970 é que ninguém nos podia interromper com uma mensagem de texto. As únicas interrupções possíveis eram puramente acústicas e profundamente humanas.
— Ó puto! O que sonhas aí?! - ou a voz da mãe a dizer que são horas de jantar.
Era assim. A grande odisseia metafísica pelo cosmos terminava abruptamente por causa de uma cachucho frito e de um arroz de tomate.
Mas enquanto durava... ah, enquanto durava, o horizonte pertencia-me. Não precisáva de passaporte, nem de licença de pátrio poder. Bastava o cheiro a maresia, a brisa a despenteador as longos cabelos que insistiam em não crescer ao ritmo desejado, e a certeza absoluta de que o futuro era um território gigante, luminoso e imprevisível, à nossa espera logo ali depois daquela curva na água.
Pertinências 30 - Há Fado na Lota com Ana Marques e João Leote
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível
10 de outubro de 2026
Me calo em três temas. Religião, política e futebol.
Há um dogma antigo, trespassado em tom de aviso solene por tias, primos e empregados de mesa com anos de casa, que diz com todas as letras: Sobre política, religião e futebol não se discute.
Pois bem. Eu levei a lição tão a sério que fiz dela o meu refúgio e o meu mantra. Em qualquer jantar de grupo, ajuntamento familiar ou conversa de café ao fim da tarde, sou aquela figura exemplar que acena com a cabeça, sorri com benevolência universal e passa travessa do cozido com a destreza de quem manuseia porcelana fina. Olham para mim e pensam: Ali está um homem de paz, uma alma sem dogmas, uma mente leve que flutua acima das paixões terrenas.
Coitados. Se soubessem o vulcão de certezas absolutas que fervilha debaixo deste ar de monge franciscano, feito santo de pau carunchoso.
A verdade é que eu não sou isento; sou apenas um estratega do silêncio. Tenho sobre a política, a fé e a bola ideias tão redondas, bem formadas e afiadas que, se as pusesse em pratos limpos, a mesa de jantar transformava-se na Terceira Guerra Mundial antes do café.
No futebol, por exemplo, vejo pessoas a esganarem-se por causa de um fora de jogo de dois centímetros, a esbracejarem contra o ecrã do televisor e a insultarem os antepassados, os presentes e futuros do árbitro. Eu fico calado, a mastigar lentamente o meu croquete, rissol ou croassant. Mas, por dentro, o meu treinador interno já fez uma análise cirúrgica do jogo, identificou que a defesa está a jogar com o bloco demasiado alto, concluiu que o meio-campo não dobra os alas e já despediu o treinador três vezes antes do intervalo. Apenas não digo nada. Para quê estragar o croquete, o rissol ou o croassat?
Na política, a ginástica é ainda mais acrobática. Quando a conversa envereda pelos caminhos da governação, das ideologias e dos orçamentos, o ar da sala fica imediatamente denso. É ver quem grita mais alto para provar que o mundo está a cair aos bocadinhos. Eu limito-me a beber um gole de água, a olhar para o tecto com ar reflexivo e a soltar uma frase neutra e devastadora do género: Pois... é a conjuntura. Ninguém sabe o que significa, mas todos concordam. Ninguém desconfia que, na minha cabeça, tenho um plano de reestruturação socioeconómica tão perfeito e detalhado que resolveria o défice, a habitação e a carga fiscal antes do próximo trimestre. Simplesmente guardo-o para mim. O país ainda não está preparado para a minha clarividência.
E na religião? Ah, o terreno sagrado. Quando a discussão entra pelo mistério da fé, pelo cosmos e pelo destino das almas, eu recuso-me a entrar no debate de terço na mão ou de bandeira ateia ao vento. Contemplo o horizonte, dou um ar de profundidade filosófica e sussurro: O importante é sermos boas pessoas. Ganho a simpatia dos crentes, a aprovação dos agnósticos e a trégua de todos. Mal sabem eles que a minha teologia pessoal é um tratado de tal forma rigoroso e lógico que faria São Tomás de Aquino pedir uns dias para pensar.
O segredo não é a falta de convicção. É a poupança de energia.
Tenho a opinião tão bem formada, mas tão bem formada, que gastá-la numa discussão ruidosa entre a sobremesa e o digestivo seria um sacrilégio. Prefiro a posição confortável do observador silencioso. Enquanto o resto da mesa se debate entre cartões vermelhos, reformas fiscais e a existência do além, eu peço mais uma mousse de chocolate. Se há coisa sobre a qual a minha opinião é verdadeiramente inabalável, é que a tarte de maçã não é a minha preferida. E sobre isso, garanto-lhe, não há discussão possível.
9 de outubro de 2026
Antes de inventarem a lusofonia, já eu ouvia música
Hoje, é tudo mais fácil. Uma pessoa ouve música de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, do Brasil ou de Portugal e diz, com ar entendido: Tenho um gosto muito particular pela lusofonia.
Naquele tempo, se eu dissesse uma coisa dessas, arriscava-me a que me perguntassem se estava doente com paludismo e delirava, se tinha apanhado demasiado sol ou se precisavam de falar com o reitor para me mandar para uma consulta qualquer.
Nos anos 70, as coisas eram mais simples. Gostava-se de uma canção, gostava-se de um cantor, comprava-se um disco quando havia dinheiro e ouvia-se rádio até a família começar a ameaçar desligar o aparelho.
Eu gostava de música. E gostava particularmente daquela música que era de Angola, do Brasil, de Portugal e de outros lugares onde se falava português, embora ninguém tivesse ainda organizado a coisa numa grande família cultural, com congressos, seminários, discursos inaugurais e fotografias de grupo.
A música já se entendia muito bem sem precisar de reuniões diplomáticas.
Havia os Duo Ouro Negro, que levavam Angola para os palcos do mundo com uma naturalidade desconcertante. Havia vozes brasileiras que nos chegavam carregadas de ritmo, romantismo e uma capacidade extraordinária para nos fazer sofrer por amores que nunca tínhamos vivido. E havia a música portuguesa, que tanto nos punha a cantar como nos deixava a olhar para o horizonte com ar de quem tinha acabado de perder uma herança.
Eu ouvia tudo.
Ou quase tudo, porque havia sempre alguém disposto a explicar-me que determinado cantor não prestava, que aquela música era comercial, que a outra era demasiado sentimental e que a terceira não tinha qualidade artística nem estrutura poética.
Essas pessoas existiram, e ainda existem. Mudaram apenas de roupa e passaram a escrever comentários na Internet.
Naquele tempo, eram especialistas de café. Tinham opiniões definitivas sobre música, política, futebol e mulheres, embora, na maior parte dos casos, as mulheres não lhes reconhecessem qualquer competência na matéria ou a gente sabia que aquilo era só teoria.
Eu, que era jovem e ainda acreditava na possibilidade de mudar o mundo, escutava-os com respeito. Depois ia para casa ouvir os discos de que gostava.
A minha paixão musical tinha também um lado geográfico. Angola não era apenas o lugar onde vivíamos. Era um universo sonoro que entrava pelas janelas, atravessava as ruas e se instalava na memória.
Em Moçâmedes, a música fazia parte da vida. Havia o rádio, os discos, a discoteca e as festas, as conversas e aquela permanente competição entre vizinhos para descobrir quem tinha o melhor equipamento de som. O que, na prática, significava quem conseguia fazer ouvir a sua música a uma distância maior. Reconheço que na minha rua não era assim. Mas que se ouvia música e muitas vezes ao vivo é verdade.
A acústica era excelente.
Bastava alguém comprar um disco novo para a cidade inteira ficar informada. Não existiam redes sociais, mas existia o senhor da casa ao lado, que tinha o volume no máximo e uma janela estrategicamente aberta.
E depois havia os discos. Ah, os discos!
Um disco de vinil era uma coisa séria. Não se comprava com a ligeireza com que hoje se escolhe uma música no telemóvel. Era preciso poupar, procurar, comparar, negociar com a consciência e, por vezes, convencer os pais de que aquela aquisição constituía um investimento cultural de primeira necessidade.
O problema era explicar-lhes por que razão um rapaz precisava de mais um disco quando já tinha vários. Porque este é diferente, respondia eu, sem poder dizer que aquele era comprado escondido porque não se podia vender.
Era o argumento universal da juventude. Servia para discos, calças à boca de sino, camisas extravagantes e namoradas que os pais consideravam não termos idade para isso.
Quanto às namoradas, a minha argumentação era menos convincente. Mas isso é outra história, embora também pudesse ser acompanhada por música brasileira.
O mais curioso é que, sem o saber, eu andava a fazer aquilo que muitos anos depois receberia um nome pomposo: consumir cultura lusófona.
Na década de 70, porém, ninguém dizia «consumir cultura lusófona». Dizia-se que se gostava de música angolana, brasileira ou portuguesa. E, quando uma canção nos tocava, não precisávamos de saber a nacionalidade exacta do compositor, a classificação do género musical ou o enquadramento histórico da obra. Gostávamos. Ponto final. A língua portuguesa era o fio que nos ligava, mas a música fazia muito mais do que isso. Transportava ritmos, sotaques, maneiras de sentir, histórias de amor, saudades, alegrias e tristezas que atravessavam o Atlântico sem necessidade de visto.
Só mais tarde alguém se lembrou de chamar lusofonia a esta família de culturas e de línguas. A palavra é útil, tem dignidade e até fica bem em cartazes institucionais. Permite organizar festivais, promover encontros e escrever discursos com muitas referências à diversidade cultural.
Mas desconfio de que, se os músicos dos anos 70 tivessem esperado pela invenção da palavra para começar a fazer música, ainda hoje estaríamos à espera do primeiro concerto.
Felizmente, ninguém lhes pediu autorização.
Raul Indipwo e Milo MacMahon não precisaram de um gabinete de cooperação linguística para fazer os Duo Ouro Negro. Os músicos brasileiros não precisaram de uma comissão para atravessar o oceano. E os cantores portugueses não tiveram de preencher um formulário para chegar aos nossos ouvidos. A música circulava porque havia quem a tocasse e quem quisesse ouvi-la. E nós ouvíamos.
Podia ter-me tornado uma autoridade na matéria. Quem sabe, até ser consultor musical de algum organismo internacional. Passaria os dias a explicar a importância da circulação das expressões artísticas no espaço da língua portuguesa, enquanto alguém me servia um café e me perguntava se eu conhecia aquela canção brasileira que tinha ouvido na rádio. Eu responderia com ar grave:
- Conheço, naturalmente. Ouvi-a em 1973, antes da institucionalização do conceito. - E cobraria honorários. Mas não. Naquele tempo, eu era apenas um jovem apaixonado por música. Não tinha grandes teorias, não dominava o vocabulário académico e não fazia ideia de que um dia alguém inventaria uma palavra para juntar tantas coisas de que eu já gostava.
Tinha apenas discos, rádio, curiosidade e uma língua que me permitia reconhecer, em vozes diferentes, qualquer coisa de familiar. Talvez seja essa a verdadeira história da lusofonia: antes de ser uma palavra, já era uma emoção. E, se me perguntarem hoje o que é a lusofonia, posso dar uma resposta muito mais simples do que a de qualquer conferência internacional. É aquela canção angolana que me faz lembrar a terra. É aquela música brasileira que me faz acreditar que o amor ainda é possível, apesar das evidências em contrário. É aquela voz portuguesa que nos deixa melancólicos mesmo quando está sol. É o prazer de descobrir que, do outro lado do oceano, alguém canta numa língua que também é nossa, mas com uma maneira diferente de lhe dar vida. E é, sobretudo, a liberdade de gostar de tudo isso sem pedir licença a ninguém. Nos anos 70, eu já sabia. Só me faltava a palavra. E, francamente, entre ter a palavra certa e ter um bom disco para ouvir, sempre preferi o disco. Até porque a palavra não dá música. E um discurso sobre lusofonia, por muito bem escrito que seja, não substitui os Duo Ouro Negro a tocar na sala, com o vizinho a bater à porta e a minha mãe a gritar da cozinha:
- Ó rapaz, baixa isso!
Aí está uma expressão de verdadeira universalidade cultural. Em Angola, em Portugal ou no Brasil, há coisas que nunca precisam de tradução.
7 de outubro de 2026
Programa 135 - K'arranca às Quartas
Passeei na memória
O carocha azul do pai do Juleco estava parado ali na esquina, como se tivesse chegado de viagem e estivesse à espera que alguém lhe dissesse para onde devia continuar, acho que vai até na Oásis. Juleco, esse, estava mesmo na esquina a conversar com o Major, assunto sério, certamente. Em Moçâmedes, até para não fazer nada é preciso ter companhia. Foi então que o Sr. Castro apareceu à janela da casa da esquina:
— Faxavor, pouco barulho! disse assim como que estava zangado que nem a sexta podia dormir.
E desligaram. Essas crianças eram mesmo traquinas. E, pior ainda, eram barulhentamente traquinas. Mas não era barulho de malcriação, não. Era barulho de admiração, porque estavam a comentar as histórias de caça do Beto Reis. E quando o Beto começava a contar histórias de caça, até quem nunca tinha visto um leão acreditava que já tinha estado a fugir de um. Eu, cá por mim, nunca fui à caça. A minha caça era outra. Os animais mais selvagens que conheci eram os que o Sr. Sousa tinha lá no parque infantil. E ainda por cima o A. Sousa, que não tem nada a haver com o outro acabado de escrever, o senhor Reitor A. Sousa, de vez em quando olhava para nós com aquela autoridade toda e dizia:
- Vocês são uns selvagens!- nós achávamos aquilo injusto. Selvagens? Nós? Éramos apenas crianças com excesso de energia e falta de juízo. O que é completamente diferente.
“Pica a burra!”, diria eu, se fosse o Dr. Coutinho. Mas não sendo, fico-me pela recordação, que é mais barato e não dá trabalho ao tribunal.
E ali, naquela estrada que tinha árvores pelo meio, a coisa até parecia uma grande avenida. Só que era uma avenida em miniatura. Moçâmedes tinha dessas coisas: fazia-nos acreditar que vivíamos numa grande cidade, embora a cidade coubesse praticamente toda dentro de uma conversa quadriculada de ruas conhecidas. E, diga-se em abono da verdade, naquela cidade só morava e passava gente boa. Incluindo eu, é claro. Convém esclarecer isto, porque uma memória bem contada também precisa de justiça.
O Juleco ainda não se tinha mudado para o bairro da gente fina. Morava ali. Ainda. Naquele tempo ninguém tinha muita pressa de subir na vida. Subia-se, quando muito, para uma árvore, para um muro ou para o banco traseiro de um carro que estivesse mal estacionado.
Mais abaixo era o Xonera. Esse, sim, tinha outra conversa. Só pensava em carros de grande velocidade.
Nunca percebi muito bem por que razão todos queriam imitar o Novais. Talvez porque o Novais tivesse carro, ou porque tivesse fama de andar depressa, ou simplesmente porque, naquela idade, qualquer pessoa que fizesse barulho com um motor já era considerada uma espécie de Fangio de Moçâmedes.
A verdade é que a cidade era pequena. Muito pequena. Se alguém acelerasse a sério, saía da Torre do Tombo, passava pela Facada e, quando desse por ela, já estava a ser multado, no meio. Era uma cidade onde o polícia conhecia o carro, o carro conhecia o dono e o dono conhecia o polícia. E todos se tratavam pelo nome.
Já sei! A malta queria era acelerar na recta curva do aeroporto. Pois claro. A recta curva! Só em Moçâmedes é que uma estrada podia ser simultaneamente recta e curva e ninguém achava estranho. Mas pronto. Já me perdi outra vez nesta vagabundagem em que me meto nas estradas de tinta.
Comecei com um carocha azul, passei pelo Juleco, pelo Major, pelo Sr. Castro, pelo Beto Reis, pelos animais selvagens do Sr. Sousa, pelo Reitor, pelo Dr. Coutinho, pelo Xonera, pelo Novais e acabei numa recta curva.
É assim a memória. A gente começa por uma esquina e acaba não sabe onde. Mas, pensando bem, talvez seja precisamente aí que ela mora. Naquela esquina. Naquele carocha azul. Naquele barulho que alguém mandava desligar. E sobretudo naquele tempo em que éramos tão selvagens que ainda não sabíamos que um dia íamos ter saudades de o ser.
6 de outubro de 2026
Três velhas à conversa
5 de outubro de 2026
chuva triste ou nada disso
Foi numa terça-feira cinzenta, daquelas que tanto podia ser quinta como sexta, daquelas em que o céu veste o fato de treino mais velho e gasto que tem no armário, que a cidade inteira se preparou para o melodrama.
O boletim meteorológico não deixava margem para dúvidas. O senhor no rádio disse-o com graves na voz. A voz dele, solene e melodramática, anunciava uma depressão isolada de alto rendimento emocional. Prometia chuva. Mas não uma chuva qualquer, daquelas que regam as alfaces e lavam os carros de graça. Não. Seria uma chuva quase triste, como eram sempre as chuvas na minha terra. Uma chuva de alagar a esquina dos Fonsecas.
Às três da tarde, o cenário estava montado. As nuvens arrastavam-se baixas, com um ar vagamente trágico, como quem vai a um velório de alguém que nem conhecia muito bem, mas sentiu que devia marcar presença. O vento uivava uma melodia desafinada por entre as árvores da avenida.
Na ruas, a população se vestiu a rigor, desapareceram. Eu com ar contemplativo olhava para o horizonte, ensaiando mentalmente frases profundas sobre a vida. Hoje eu não ia ver o boca-de-sapo passear.
Às quatro e um quarto, o ponto chave parecia iminente. O céu escureceu mais dois tons de cinzento que quase parecia ia ser de noite antes da hora. Uma senhora mais velha abriu o guarda-chuva no meio do passeio, previdente e até parece que corria à frente da chuva que ainda não lhe caía.
E depois... nada.
Absolutamente nada. Um trovão e nenhuma gota caiu. Nem uma pinga para amostra. Nem aquele molha-tolos.
A chuva, que tinha tudo para ser um poema triste, desandou sem cair.
Às cinco e meia, o drama do tempo ruiu por completo. A tristeza que devia ter caído sob a forma de água transformou-se numa coisa muito mais prosaica: uma dor nas costas e uma vaga ideia que afinal podia haver passeio.
O sol nem sequer se deu ao trabalho de aparecer em grande estilo. Limitou-se a rasgar um buraco amarelo e tímido entre duas nuvens envergonhadas, como quem diz: apareçam para beber um copo!
E assim terminou a tarde em que a cidade esteve quase, quase a ser poeticamente infeliz. Fui para a rua ver as caras melancólicas de quem previra o dilúvio prometido na rádio.
Eu fui ver o boca de sapo passar, sentado nas escadas do tribunal com o sorriso mais feliz daquele mundo.
4 de outubro de 2026
Pertinências 29 - Há Fado na Lota com Teresa e Pedro Viola
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível
senta aí e vamos conversar
3 de outubro de 2026
outono tropicalizado
Estamos em outubro e aqui o calendário tinha como garantido que as folhas das árvores deviam estar a cair numa suave melancolia dourada mas lá, na cidade quadriculada que desaparece em cada dia que passa, eu estariaa na fila na loja dos gelados Tico-Tico a ponderar seriamente se um gelado de castanha assada funcionaria como alento do outono de cá.
A resposta é não. Gelado a pingar no punho da camisola de malha que vesti por pura teimosia sazonal só traz desespero e recordações que não tenho na memória.
O outono encalorad" é a estação da crise de identidade vestuária. Acordamos de manhã, vemos 3 de outubro no telemóvel e o cérebro activa imediatamente o modo aconchegado: botas, camisola quentinha e um lenço ao pescoço. Saímos de casa a sentirmo-nos personagens de uma série nórdica de mistério. Meia hora depois, com o sol a bater impiedosamente no asfalto, parecemos apenas sobreviventes de uma sauna sem saída de emergência e lembramo-nos que do outro lado da tal linha recta que é curva existe uma terra que nos contraria, acorda quente, aquece uns graus mais, ao ponto do asfalto parecer o tal gelado a escorrer pelos dedos até ao punho.
Mas agora estou aqui e tenho a ideia que a transição para o outono costumava ser simples. Mudava-se a hora, tiravam-se as mantas do baú e bebiam-se bebidas quentes a olhar para a chuva pela janela. Agora, o ritual do outono consiste em carregar o casaco na mão como se fosse um recém-nascido, a suar do buço, enquanto nos recusamos a voltar aos calções por uma questão de dignidade pessoal. Não se pode usar fato de banho em outubro, há regras não escritas na sociedade, mas que a vontade aperta, aperta. Mentalmente dou um mergulho nas Miragens.
O mais trágico é o comércio tradicional. As montras das lojas já exibem golas altas, sobretudos de lã espessa e cachecóis do tamanho de mantas de solteiro. Quem passa na rua, de t-shirt e a abanar-se com um panfleto da farmácia, sente um misto de culpa e desidratação. Olhamos para os manequins vestidos para a neve e pensamos que nem eles mereciam este castigo.
Até a gastronomia sofre. A vontade de comer um cozido à portuguesa ou uma sopa de abóbora bem quente choca de frente com os 28 graus à sombra. Termina-se a comer uma salada fria de melão com presunto enquanto se acende uma vela com cheiro a canela e maçã assada na esperança de enganar os sentidos. O ar condicionado está ligado no máximo, a vela fumega no balcão e a ilusão do outono custa-nos metade do ordenado na fatura da eletricidade.
Resta-nos aceitar este outono tropicalizedo. Se o clima decidiu que as folhas caem mas o bronzeado fica, o melhor é abraçar o ridículo: óculos de sol numa mão, castanhas assadas na outra e a firme promessa de que, um dia destes, a camisola de malha vai finalmente fazer sentido.
Vamos à praia porque por enquanto podemos, nem que seja uma miragem.
2 de outubro de 2026
uma biografia desautorizada
Hoje vou dar um nome à personagem, não vão pensar eu estou a falar de mim. É verdade, mesmo que não seja assim como eu vou contar. Na minha cabeça é, no meu talento vamos ver.
O João sempre teve duas ambições perfeitamente incompatíveis já que sonhava com a glória de deixar o seu nome gravado na história, mas tinha pavor, quase religioso, de que alguém reparasse nele e lhe apontasse o dedo.
Em 1970, com a cidade embalada num cinzento empoeirado e a música a sair dos aparelhos a válvulas chamados rádio de grande porte e pouco portáteis, o João tomou a sua primeira grande decisão de carreira. Queria ser o cérebro por trás dos grandes acontecimentos mundiais, o estratega invisível. Inspirado pelos filmes e começou por treinar a arte do disfarce. Não usava gabardina bege em pleno verão, nem óculos escuros quando nem havia sol. O resultado? Toda a gente na rua achava que ele era ele em carne e osso. A invisibilidade começava mal.
Nos anos que se seguiram, João percebeu que o verdadeiro poder residia nas finanças. Decidiu assim ser um magnata discreto. Comprou o seu primeiro fato, mas escolheu um tom de bege tão neutro que, quando se encostava à parede das Finanças para estudar a concorrência, o contínuo quase lhe pendurava o casaco em cima, confundindo-o com um cabide. Tentou negociar boas ações por telefone na rua, mas baixava tanto a voz para manter o segredo que o cliente do outro lado da linha julgava tratar-se de uma chamada de engano feita por um asmático, pelo que de imediato desligava. Desistir nunca, dizia. Foi mudando de ramo até que com a chegada de novo milénio e o nascimento da internet, João viu a oportunidade perfeita. Criaria o blogue mais influente da esfera lusófona, um espaço onde reis, presidentes e intelectuais iriam beber sabedoria. Para garantir a discrição, assinou sob o pseudónimo O Observador Silencioso. Mas foi mais longe na prudência: não contou a ninguém que o blogue existia, não partilhou o endereço e, por segurança, desativou os comentários. Durante anos, escreveu análises brilhantes que só foram lidas pelo motor de busca do Yahoo e depois pelo Google e, por erro, por uma senhora em Wisbaden que procurava uma receita de pão de ló e entrou no silencio do Obeservador Silenciado.
Nos anos 2010, veio a era das redes sociais. Para quem quer ser importante e invisível, o Instagram revelou-se um pesadelo técnico. O João queria ser um influencer de culto, uma espécie de guru enigmático. Criou uma conta, mas recusou-se a pôr fotografia de perfil, usava a imagem de um quadrado cinzento, não publicava fotos de comida e as suas stories eram vídeos de três segundos a focar o teto da sala em silêncio. Chegou a ter quatro seguidores, dos quais três eram contas falsas de venda de criptomoedas e o outro era a sua tia, que lhe ligou preocupada a perguntar se o teto tinha infiltrações.
Hoje em dia, em pleno 2026, João encontrou finalmente o equilíbrio perfeito. Domina a arte do trabalho remoto com câmara desligada e microfone sem fios e quase sem bateria. Nas reuniões por vídeo, a sua voz ecoa metálica, ditando sentenças sobre inteligência artificial e o futuro da humanidade, enquanto a sua imagem é apenas uma inicial branca sobre fundo escuro. É respeitado, ouvido e temido por colegas que nunca lhe viram a cara.
Na semana passada, no entanto, a consagração quase esteve ao seu alcance. Ao sair do supermercado, passou por uma reportagem de televisão. O repórter, que procurava o cidadão comum, apontou-lhe o microfone. Era o momento de ouro. A oportunidade de dizer uma frase histórica que figuraria nos manuais do século XXI.
O João olhou para a câmara, sentiu o peso do destino nos ombros, limpou a garganta com solenidade e... baixou a cabeça e murmurou:
- Não sou daqui, desculpe.
1 de outubro de 2026
A redacção que valia vinte, pelo menos para mim
Uma nota era uma espécie de sentença. Eu estava ali para ter boas notas. Não era um génio mas pensava que se a minha mãe me pôs ali era para ter boas notas. Eu estava na escola primária. Era pública, gratuíta e eu tinha que dar provas que aproveitava o que me davam. Masi trde isso passou-me mas e foi só mais tarde e não interessa aqui levantar esse futuro.
Um dia, a professora Estrelinha mandou fazer uma redacção. Eu escrevi, com alma e coração. Não foi uma simples redacção. Foi, na minha cabeça, uma obra-prima da literatura. Tinha princípio, meio e fim. Tinha palavras que eu nunca tinha usado antes e que, provavelmente, também não sabia muito bem o que queriam dizer. Mas soavam bem. E isso, para um rapaz da escola primária, já era meio caminho para um prémio. Entreguei o texto à professora com a serenidade de quem acabava de depositar uma fortuna no banco, uma obra de arte num museu.
No dia seguinte, a professora Estrelinha começou a distribuir as redacções. Eu estava preparado, peito inchado e sorriso nos lábios. Já tinha imaginado o momento, ela chamaria o meu nome, levantaria a folha e diria qualquer coisa como:
- Excelente! Uma obra-prima! Temos aqui um futuro escritor! - talvez até acrescentasse - não percas esta inspiração!
Eu, modestamente, responderia:
- Obrigado, senhora professora.
Por dentro, estaria a receber aplausos.
Mas a professora Estrelinha chamou o meu nome e entregou-me a folha. Olhei para a nota. E foi aí que a minha infância sofreu uma das maiores injustiças da história. Não era a nota máxima. Fiquei parado. Olhei outra vez porque podia ter visto mal. Virei a folha. Nada. Voltei a olhar para a nota. Não era a máxima. Foi nesse momento que amuei.
Amuei mesmo. Mas aquele amuo não era um simples amuo. Era uma greve geral embora eu ainda não soubesse o que isso era e que até era proibido. Uma manifestação. Uma crise institucional. Uma revolução sem saber que a estava a fazer. Passei a olhar para a professora Estrelinha como quem olha para alguém que acabou de cometer uma injustiça irreparável. Eu tinha escrito aquilo tudo! Tinha pensado! Tinha apagado! Tinha voltado a escrever! Tinha feito letras bonitas! E ela, em vez de reconhecer o génio que tinha diante dela, resolvera atribuiu-me uma nota inferior àquela que, na minha opinião, a humanidade merecia. Naquele dia, na escola primária, descobri uma verdade que me acompanharia pela vida fora - nós nunca achamos que a nossa nota corresponde exactamente ao nosso mérito.
Quando somos crianças, queremos a nota máxima. Quando somos adultos, queremos reconhecimento. E, se possível, que venha acompanhado de um aumento.
Passei o resto do dia amuado. Se alguém me perguntasse o que tinha, eu respondia:
- Nada. - um nada mais seco que a areia do deserto que nos rodeava. Era o nada mais carregado de significado da história da escola primária. A professora Estrelinha provavelmente nem dormiu nessa noite por causa daquilo. Por todas as pragas que lhe roguei sem ter aberto a boca. Ou talvez tenha chegado a casa, jantado tranquilamente e esquecido tudo cinco minutos depois.
Eu não. Eu carreguei aquela injustiça comigo. Porque há notas que ficam escritas numa folha e há outras que ficam escritas na memória. Hoje, tantos anos depois, já não me lembro da redacção. Não me lembro sequer exactamente do que escrevi. Mas lembro-me perfeitamente de não ter tido a nota máxima. E isso diz muito sobre a infância.
Às vezes, não precisamos de ganhar. Só precisamos de acreditar que merecíamos ganhar. E eu, naquele dia, tinha a certeza absoluta de que a professora Estrelinha tinha cometido um erro pedagógico de proporções históricas.
Hoje, pensando bem, talvez a redacção tivesse mesmo alguns erros. Talvez a pontuação fosse uma tragédia. Talvez eu tivesse confundido um verbo com uma coisa qualquer. Talvez aquela palavra complicada que eu usei nem sequer existisse. Mas uma coisa continua certa - na minha cabeça, aquela redacção valia vinte. E ai de quem dissesse o contrário. E foi logo a professora Estrelinha.
Anos mais tarde, uma professora de Inglês do liceu me disse:
- Nunca serás ninguém na vida! - estava zangada, amuada, sentida ou só tinha tido um dia não. mas aquilo que me disse ficou gravado no raio da memória. Sei que me comportava mal, sei que não tinha jeito para aquilo, sei que brincava quando devia estar atento. Mas... eu era assim e o inglês não era a minha praia, como agora se diz.
Bem mais tarde, encontrei-a na Meia-Praia e lhe atirei:
- Posso não ter ido longe mas aqui cheguei com orgulho.
Ela olhou-me, olhou para o marido que me chamaou pelo nome pondo um Dr. antes.
- Se aqui chegaste foi porque eu te espicacei.
Obrigado Estrelinha, Obrigado Mitó.












