A humildade política é uma espécie rara. Quase tão rara como um político que, depois de perder umas eleições, diga simplesmente:
- Perdemos. O povo não gostou. Vamos pensar no assunto.
Em vez disso, ouvimos:
- Tivemos uma vitória moral. - rebuscando palavras e ideias que nada têm a a haver com o número final.
A vitória moral é uma coisa extraordinária. Não aparece nas urnas, não consta dos resultados oficiais e não se sabe muito bem onde se guarda. Mas é sempre muito útil quando faltam votos.
Há também o político humilde que diz:
- Eu não estou aqui por interesses pessoais.
E imediatamente pensamos: que homem extraordinário! Depois percebemos que está rodeado por quinze assessores, três carros, quatro câmaras, dois microfones e uma equipa de comunicação que já publicou nas redes sociais uma fotografia dele a apertar a mão a uma senhora de oitenta anos. A humildade foi fotografada de vários ângulos. Na política, até a modéstia precisa de produção.
O problema é que muitos políticos confundem humildade com baixar ligeiramente o tom de voz. Falam mais devagar, fazem uma pausa dramática e dizem:
- Eu sou apenas um servidor do povo.
Servidor até que é uma palavra bonita. Sobretudo quando quem a pronuncia está há vinte anos a tentar continuar a servir. Eu cá gostava de ver um político verdadeiramente humilde. Um que entrasse numa conferência de imprensa e dissesse:
- Meus amigos, não sei! - seria revolucionário. E repetia - Não sei resolver isto! - e acrescentava depois de uma pausa para desembargar a voz - Enganei-me e enganei-vos! - seria revolucionário.
Aí, provavelmente, teríamos de chamar a UNESCO para classificar aquele instante como património imaterial da humanidade. Porque reconhecer um erro, na política, parece ser mais difícil do que reconhecer uma vitória.
E há outra forma muito interessante de humildade, ouvir. Não aquela coisa de ficar calado enquanto o outro fala, já preparando mentalmente a resposta. Ouvir mesmo. Ouvir quem discorda. Ouvir quem não votou em nós. Ouvir aquele cidadão que aparece numa reunião e faz uma pergunta incómoda. Aliás, uma pergunta incómoda é, para certos políticos, uma espécie de exame médico, preferem não fazer.
Porque a humildade não diminui ninguém. Pelo contrário: aproxima. O cidadão não espera políticos perfeitos. Espera políticos humanos. E talvez a maior demonstração de humildade política fosse perceber que o poder é emprestado. Hoje estamos no palco. Amanhã estamos na plateia.
E o público, esse, tem uma memória extraordinária. Não precisa sequer de apontamentos. Guarda tudo. Por isso, se algum político quiser realmente praticar a humildade, proponho-lhe um exercício muito simples - De vez em quando, desligue o microfone, deixe o teleponto em casa e vá ouvir as pessoas. Porque, às vezes, a verdadeira humildade política começa precisamente quando ninguém está a olhar.









