Há quem veja futebol pela táctica. Outros pelas fintas, pelos golos ou pelo ambiente. Eu vejo pela esperança. E, curiosamente, é exatamente ela que costuma sair derrotada. Quantas vezes eu fui no campo pelado perto da esatação dos comboios ver o Matela, o Travassos, o Leopoldo ou Bitacaia se atirar no ar feito era passarinho num voo picado e segurar a bola. Ainda me lembro do Monteiro da Costo ou do Neto do Independente. Mas quem ganhava era sempre o Marcelino lá da Chela que voava mais alto.
O ritual começava sempre igual. Uma hora antes do jogo já estava convencido de que "hoje é diferente". A equipa deve ter treinado bem, o treinador, o Sr. Bauleth e o avançado prometeram marcar muitos golose até o Zé Manel Frota disse:
- Hoje é a reviravolta da época.
Pronto. Caiu-me a armadilha.
Sento-me na micro bancada como quem vai assistir a um documentário sobre vitórias. Dez minutos depois já estou a discutir com a paciência, como se o lateral esquerdo conseguisse ouvir-me através do silêncio e transmitisse lá para dentro que a velocidade não significa jogar parado.
- Cruza a bola! - gritei como se eu percebesse o que estava a dizer
Ele não cruza.
- Agora remata! - voltei eu a gritar
Ele faz um passe para trás.
Começo a perceber que a minha equipa tem uma filosofia de jogo muito própria: fazer o adepto acreditar até ao último minuto... e desiludi-lo precisamente nesse instante.
Quando sofremos um golo, entro na fase da negociação.
-Não faz mal. Foi um acaso. O Flávio não queria fazer aquilo.
-Ainda falta muito? - pergunto ao vizinho do lado que não me responde.
Cinco minutos depois sofremos o segundo e eu já estou a procurar explicações científicas. Talvez o tereno esteja duro, ou o campo estivesse inclinado. Talvez o árbitro tenha confundido as balizas. Talvez a bola tivesse um íman escondido. Na verdade ainda não percebi se eles são mais que nós ou somos nós que não sabemos ganhar. Matela, Travassos, Leopoldo, Bitacaia e antes o Monteiro da Costa era igual. Iam buscar várias vezes a bola dentro da baliza. É curioso eu não perceber nada de futebol. Talvez o Rui Moutinho fizesse ali uns dribles para a gente dizer olé, mas afinal é o Armandinho que nos baila.
O mais curioso é o pós-jogo. Na Oásis não se falou de mais nada. Jurei solenemente que nunca mais ia ver futebol.
- Acabou! Não volto a sofrer por isto. - disse em voz alta, mas por acaso esva sozinho a caminhar para casa cabisbacho.
Passam uns dias. Sai a convocatória para o próximo jogo que seria lá na Serra da Chela. Leio no Namibe e disse:
- Desta vez é que vai ser.
E lá estou eu, desta feita ouvido no rádio, equipado com uma fé inabalável, pronto para assistir a mais noventa minutos de terapia desportiva. O Zé Manel e o Edgar vão fazer o relato. Foi só mais uma vez.
No fundo, o verdadeiro campeão não é quem levantou a taça. É quem continuou a acreditar depois de ver a sua equipa transformar um 0-2 num inesquecível 0-3, sempre para os lados de cima e ainda sorrir com esperança que um dia conseguiria derrotar os mapundeiros.







