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Conversas à Mesa
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2 de setembro de 2026
Programa 130 - K'arranca às Quartas
Joselito, Marisol e a minha infância cinematográfica
Hoje penso nisso e acho extraordinário.
O meu avô Serafim levava-me ao cinema.
Eu podia não perceber grande coisa da vida, mas sabia perfeitamente que, num filme de Marisol, haveria sempre uma menina loira, um vestido impecável, uma canção e alguém a tentar estragar-lhe a felicidade. E Joselito tinha sempre aquela voz que parecia vir de um sítio onde as crianças normais nunca tinham entrado.
Eu ia ao cinema preparado para tudo.
Sentava-me na cadeira, olhava para o ecrã e, quando começava a música, ficava completamente hipnotizado. Aquilo era cinema a sério. Não havia super-heróis, efeitos especiais nem explosões. Havia uma criança a cantar e nós, na plateia, em absoluto silêncio, como se estivéssemos perante um acontecimento histórico.
Eu, naturalmente, também queria cantar como Joselito.
O problema é que a minha voz não tinha sido informada dessa decisão. Lá em casa, eu cantava qualquer coisa que me lembrasse os filmes. A família ouvia com aquela expressão de quem está a tentar perceber se aquilo era uma manifestação artística ou um pedido de socorro.
- Cala-te, miúdo! - dizia-me um mais velho que não fosse um dos avós.
Eu interpretava aquilo como falta de sensibilidade musical.
Com Marisol era diferente. Marisol não precisava de fazer grandes esforços. Bastava aparecer e sorrir. Eu ficava convencido de que a vida era assim: as pessoas bonitas sorriam, cantavam, tinham bons vestidos e os problemas acabavam antes de aparecer em inglês que o filme tinha acabo.
Mais tarde descobri que não era bem assim.
Na infância, porém, o cinema ensinava-nos uma coisa maravilhosa, tudo podia acabar bem.
Se havia um órfão, aparecia alguém para o adoptar. Se havia uma injustiça, fazia-se justiça. Se havia uma menina triste, começava uma canção. E se Joselito cantava, até os adultos pareciam acreditar que o mundo tinha solução.
Eu saía do cinema convencido de que também podia ser artista. Chegava a casa, pegava numa vassoura como se fosse um microfone e começava o espectáculo. A família, que não tinha comprado bilhete para a sessão seguinte, tentava discretamente abandonar a sala. Eu não desistia. Porque naquela altura eu ainda não sabia que havia pessoas que nasceram para cantar e outras que nasceram para assistir aos que cantam. Eu pertencia claramente ao segundo grupo. Mas ficaram Joselito, Marisol e aquelas tardes de cinema. Ficou a música, ficou a emoção e ficou sobretudo aquela sensação de que, durante duas horas, o mundo lá fora podia esperar.
Hoje, quando penso nesses filmes, já não vejo apenas Joselito ou Marisol. Vejo o miúdo que eu era, sentado numa sala escura, olhos bem abertos, a acreditar que o cinema era capaz de explicar a vida. E talvez fosse. Pelo menos ensinou-me uma coisa que continuo a praticar: há memórias que não precisam de legendas. Basta começar a música.
1 de setembro de 2026
uma história de amor que não aconteceu
O destino tem um sentido de humor muito particular. Brinca com a gente e a gente lhe olha de espanto. Não estou a falar daquele humor refinado do estilo dos ingleses, é mais no género vamos atirar uma casca de banana à vida deste ser humano só para ver no que é que dá.
Eu e ela tínhamos tudo para ser o casal do século passado transposto para este. Não me refiro a um século modesto, refiro-me àqueles romances de proporções que até dá dor nos braços de levar a tira-colo e que fazem as pessoas suspirar no cinema. Partilhávamos o mesmo ódio visceral por passas e frutas cristalizadas, gostávamos de bandas desenhada se ela ensinava alguma coisa e gostávamos de algo tipo alforrecas que só três pessoas na Islândia também gostavam e ambos achávamos que salsa é uma planta divina na comida e não uma dança latina. Em termos, falando numa língua actual, de algoritmo amoroso, a taxa de compatibilidade era de 99,9% para não ser número quadrado e totalmente redondo.
O problema afinal estava nos restantes 0,1%. Essa margem de erro microscópica vestia-se de desencontros com uma pontualidade britânica, que não teve piada nenhuma vez.
Na primeira vez em que devíamos ter ficado juntos, numa festa de aniversário, ganhei coragem para ir falar com ela. Quando estava a meio metro de distância, uma perna de frango voadora arremessada por um convidado demasiado entusiasmado bateu no meu peito e fez o meu prato de croquetes voar diretinho para a camisa branca dela. Foi uma tonelada de maionese que me estragou a coragem e a oportunidade. Passei o resto da tarde a pedir desculpa e a tentar tirar as nódoas com Pedras de Água que alguém disse que limpava tudo, o que, como se sabe, é uma das atividades menos romântica do planeta. E afinal as Pedras Água sé tiram a azia e os gases do estômago, porque as nodoas lá ficaram. Pelo menos na minha cabeça e na raiva dela.
Anos mais tarde, o universo fez sinal com outra oportunidade. Num encontro por acaso, encontrámo-nos no Monte do Estoril. A iluminação era péssima, mas a química era palpável e via-se a olhos vistos. Trocámos olhares, sorrisos e a promessa de que desta vez era a sério e não nos iríamos perder. Ela me perguntou se eu andava à procura dela e eu disse que não. Era mesmo por acaso. Fez um sinal com a mão, apontou para uma cabine de telefone, mas as portas do comboio fecharam-se com um barulho dramático. Foi lindo, digno de Hollywood. O pequeno detalhe é que nenhuma das portas tinha deixado passar a informação importantíssima, nenhum de nós tinha o número do outro.
E assim o tempo foi-se gastando ao ritmo dele. Eu tinha decidido ter uma crise existencial e mudar-me para uma cidade desconhecida chamada de Porto, não para comer regueifas nem brincar ao S. João. Ficámos assim tipo dois cometas com órbitas impecáveis, programados para brilhar juntos, mas condenados a passar um pelo outro a quatrocentos quilómetros por hora, a contar na distância.
Um dia vi-a passar na rua a caminho de um Congresso que eu também ia. Ela não sorriu, não acenou e eu preparei-me para atravessar a estrada e finalmente resolver esta dependência de anos. Dei o primeiro passo com a determinação de quem vai tomar o destino nas mãos. Foi exatamente nesse segundo que lhe disse olá e ela respondeu que não falava com estranhos que eu senti que tinha sido atropelado por um tractor. Quando o tractor saiu de cima de mim, recuperei o olhar e já não voltei a vê-la. No Congresso desviou a cara sempre que o meu olhar lhe marcava tipo raio laser. Descruzamo-nos para todo o sempre.
Acho que o universo não queria que ficássemos juntos porque sabia que, se a coisa funcionasse, seríamos felizes demais. E um amor perfeito, sem drama nem desencontros, estragaria qualquer boa história.
31 de agosto de 2026
Fui ver o zulmarinho
30 de agosto de 2026
Pertinências 24 - Conversa com... Analita Santos com Teolinda Gersão
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
29 de agosto de 2026
a praia
28 de agosto de 2026
uma biblioteca
Há lugares onde vamos para fazer coisas. Ao supermercado vamos comprar, ao café vamos beber, ao estádio vamos sofrer e, se a nossa equipa perder, vamos imediatamente procurar culpados. Mas há um lugar onde, aparentemente, não se faz grande coisa. A biblioteca.
Ali não há máquinas de café a fazer barulho, televisões a gritar notícias, nem pessoas a discutir se o árbitro viu ou não viu. Há mesas, cadeiras, livros… e pessoas a pensar. O que, convenhamos, nos dias de hoje, já é uma actividade quase radical para não dizer rara.
Na biblioteca descobrimos uma coisa extraordinária, podemos estar sentados sem estar distraídos.
É verdade que também podemos estar sentados no sofá em casa. Mas aí aparece o telemóvel. Depois uma mensagem. Depois outra. Depois uma notícia que não pedimos. Depois um vídeo de um gato que sabe abrir uma porta. E, quando damos por nós, passaram duas horas e não sabemos absolutamente nada sobre a nossa própria vida, mas sabemos que o gato abriu a porta.
Na biblioteca é diferente. Pegamos num livro. Abrimos. E começamos a pensar. Pensar é uma actividade curiosa. Não faz barulho, não ocupa espaço e não precisa de carga nem ligar à eletricidade. E, pior ainda, não tem botão para desligar.
Um livro pode fazer-nos pensar sobre uma personagem, uma ideia, uma época, uma injustiça, um amor ou até sobre nós próprios. É talvez por isso que algumas pessoas têm medo das bibliotecas. Porque numa biblioteca ninguém nos diz exactamente o que devemos pensar.
Um livro apenas abre a porta. Depois somos nós que entramos.
E há livros que nos levam para lugares onde nunca estivemos. Outros levam-nos para lugares onde já estivemos, mas que tínhamos esquecido. E alguns, mais atrevidos, levam-nos directamente para dentro da nossa cabeça. A biblioteca é, por isso, um lugar de silêncio, mas não é um silêncio vazio. É um silêncio cheio de vozes. As vozes dos escritores, dos personagens, dos poetas, dos que viveram antes de nós e dos que imaginaram mundos que ainda não existem.
Podemos parar. Ler. Pensar. Voltar atrás. Discordar. Mudar de ideias. E até descobrir que estávamos enganados, uma experiência cada vez mais rara, porque hoje parece que toda a gente nasce já com opinião definitiva sobre tudo.
Na biblioteca, pelo contrário, podemos ter uma dúvida. E uma dúvida, às vezes, vale mais do que uma certeza mal pensada. Por isso gosto das bibliotecas.
São lugares onde se guardam livros, mas também onde se guarda uma coisa ainda mais importante, tempo para pensar. E talvez seja por isso que, quando entro numa biblioteca, sinto que estou a entrar num lugar muito especial. Um lugar onde o silêncio não manda calar ninguém. Pelo contrário. O silêncio dá-nos finalmente oportunidade para ouvir aquilo que pensamos. E, nos tempos que correm, isso já é um luxo. Ou, melhor ainda, uma pequena revolução. Uma revolução feita de livros, silêncio e cadeiras.
27 de agosto de 2026
ter ou não ter tempo
Há pessoas que dizem que não têm tempo para ler. Eu compreendo. Também já tive dias em que não tinha tempo para nada: nem para ler, nem para pensar, nem sequer para procurar os óculos que estavam em cima da minha cabeça.
O problema é que o tempo tem esta mania de nos enganar. Dizemos que não temos tempo e, entretanto, passamos vinte minutos a olhar para o telemóvel, meia hora a ver coisas que amanhã já esquecemos e uma quantidade respeitável de minutos à espera que alguma coisa aconteça.
Para ler, porém, achamos sempre que é preciso uma tarde inteira, uma poltrona confortável, silêncio absoluto e talvez uma chávena de café ao lado. Como se para abrir um livro fosse necessário reservar um hotel, marcar mesa e quem sabe esperar resposta no mail.
Não é.
Às vezes, bastam dez páginas. Ou cinco. Ou duas, se o dia estiver particularmente mal-educado para a gente e não nos respeitar. Tem dias que isso pode acontecer. A gente se chateia com ele e tudo..
Porque ler não é apenas ocupar o tempo. É uma maneira de o multiplicar. Quando leio, entro numa história que aconteceu ontem, hoje ou daqui a cem anos. Conheço pessoas que nunca encontrei, lugares onde nunca estive e ideias que talvez nunca me ocorressem sozinho.
Ler é abrir uma janela. E, melhor ainda, é abrir um caminho.
Talvez seja por isso que os livros têm uma coisa extraordinária, enquanto nós envelhecemos, eles continuam a abrir futuros.
Um livro pode levar-nos para trás, à infância, à juventude, às ruas onde fomos felizes. Mas também pode levar-nos para diante, para aquilo que ainda não sabemos, para perguntas que ainda não fizemos, para futuros que ainda nem sequer imaginámos.
E aqui está uma pequena contradição: dizemos que não temos tempo para ler, precisamente quando mais precisamos de tempo para imaginar o futuro.
Talvez o segredo não seja encontrar tempo para ler.
Talvez seja perceber que ler é uma das melhores maneiras de dar sentido ao tempo que temos.
Porque o relógio só sabe contar horas. Um livro sabe transformá-las em caminhos.
E eu, quando penso que não tenho tempo para ler, lembro-me de uma coisa simples: posso não ter tempo para acabar um livro hoje. Mas tenho, certamente, tempo para abrir uma porta e começo pela primeira página e logo vejo quando fecho.
26 de agosto de 2026
e assim escrevi o romance mais pequeno do mundo
Há momentos na vida em que começamos a desconfiar do que aquilo que nos está a acontecer não é simplesmente vida. É literatura. Oral ou escrita. Sonho ou sonhada.
Estou precisamente num desses momentos.
Olho para trás e vejo que a minha vida já tem personagens mais que suficientes para um romance, episódios suficientes para vários capítulos e algumas situações que, se fossem inventadas por um escritor de renome, o editor provavelmente pediria: Menos imaginação, faz favor.
Nasci em Angola, cresci entre o mar, o deserto e aquelas certezas absolutas da infância que duram até ao jantar. Depois viera a adolescência, os sonhos, os namoros que não aconteceram, os que aconteceram e os que talvez tivessem sido melhores se não tivessem acontecido. Vieram os estudos, a Medicina, o Porto, os doentes, a cirurgia, os medos que um cirurgião nunca confessa em voz alta e aquela estranha sensação de que, enquanto estamos ocupados a viver, a vida vai escrevendo por nós.
Agora, sentado numa falésia, olhar o Zulmarinho e retocando tudo isso, penso: isto dava um romance.
O problema é saber quem seria o autor.
Porque há vidas que parecem escritas por um génio e outras que parecem ter sido entregues a um argumentista de telenovela numa sexta-feira à tarde, já com vontade de ir de fim de semana.
A minha tem um pouco das duas coisas.
Há capítulos que eu escreveria de outra maneira. Há personagens que mandaria desaparecer mais cedo. Há outras que gostaria de trazer de volta. E há episódios que, por mais que tente, continuam sem explicação, talvez porque a vida também tem direito aos seus mistérios e segredos.
O mais curioso é que, quando somos jovens, pensamos que a vida é uma história que estamos a começar. Mais tarde percebemos que já vamos a meio do livro e ainda não sabemos qual é o título.
E talvez seja essa a graça.
Hoje, se a minha vida pudesse ser um romance, não seria certamente um romance de aventuras, nem uma história de amor perfeita. Seria antes uma espécie de romance com humor, algumas cicatrizes, muitas memórias e personagens que entraram sem cerimónias.
Teria Angola no primeiro capítulo, o mar de Namibe a aparecer de vez em quando, o Porto como cenário de aprendizagem, a Medicina como profissão e os doentes como professores inesperados.
Teria amores perdidos pelo caminho, amigos que ficaram, outros que se perderam nas curvas do tempo, e uma quantidade razoável de disparates porque a vida sem disparates é certamente uma biografia, não uma vida vivida com alma e coração.
E teria, sobretudo, uma personagem principal que continua sem perceber muito bem o que está a fazer.
Essa personagem sou eu, é claro e talvez por isso ainda não tenha escrito o romance. Como é que eu posso saber o fim? Eu estou à espera do fim e quando ele chegar recebê-lo-ei contrariado, isso é certo que nem a certeza absoluta.
Mas há um problema: cada vez que penso que cheguei ao último capítulo, a vida aparece com uma nova página debaixo do braço e diz:
- Ainda não acabámos.
E eu, que já devia saber que não se discute com a vida, pego na página e continuo.
Afinal, se isto é um romance, pelo menos que tenha uma coisa que os bons romances têm: vontade de chegar ao capítulo seguinte e assim sucessivamente até ao ponto final parágrafo sem travessão.
24 de agosto de 2026
liberdade de expressão
Há quem pense no que o que será que me deu para ter mudado o que escrevia para o que agora escrevo. Respondo simples: apeteceu e desenvolvo, justifico e comento.
Há uma coisa extraordinária na liberdade de expressão que é permitir-nos dizer aquilo que pensamos. E há outra ainda mais extraordinária nessa frase, permite-nos pensar antes de dizer.
Mas o grande problema é que esta segunda parte parece estar a cair em desuso.
Vivemos num tempo em que algumas pessoas confundem liberdade de expressão com licença para dizer tudo, sobre todos, a qualquer hora e, se possível, em público, mesmo que seja atrás de um teclado no silêncio da solidão. Como se a liberdade viesse acompanhada de um megafone e da imunidade diplomática.
A liberdade de expressão é um direito fundamental. Mas não é um salvo-conduto para a calúnia, a mentira ou a ofensa. Posso dizer que não gosto de alguém. Posso criticar o que essa pessoa fez. Posso até dizer que o acho um péssimo cozinheiro, se tiver provas suficientes depois de experimentar o arroz, a batata ou o suflé.
O que já é outra coisa é inventar factos, espalhar falsidades ou destruir a reputação de alguém apenas porque me apetece ou porque não gosto dele.
A diferença parece simples - opinião não é mentira, crítica não é insulto e liberdade não é impunidade.
Antigamente, para espalhar uma calúnia era preciso encontrar três pessoas no café, contar-lhes a história e esperar que elas a contassem aos seus cem melhores amigos. Hoje basta um telemóvel, um dedo e cinco segundos de desnorte mental.
E a mentira viaja depressa. Às vezes chega antes da verdade, instala-se confortavelmente no sofá e ainda pede um café, cruza as penas e fica a olhar.
Há também quem diga: Eu só estou a dar a minha opinião.
É uma frase muito útil. Serve para tudo. Serve para a crítica, para o insulto, para a invenção e até para aquela barbaridade que alguém acabou de publicar e que, cinco minutos depois, já está arrependido de ter escrito, apaga mas há sempre alguém que teve tempo para fazer um print-scren préviamente.
Mas uma opinião não transforma uma falsidade em verdade. Dizer acho que ele é incompetente é uma opinião. Dizer que ele roubou é uma acusação de facto. E entre uma coisa e outra existe uma enorme diferença, felizmente, porque senão qualquer discussão de café acabava no tribunal.
Também podemos discordar sem humilhar.
Aliás, talvez essa seja uma das grandes artes que estamos a perder, discordar de alguém sem querer destruí-lo.
Podemos combater ideias sem atacar pessoas. Podemos dizer não concordo sem acrescentar e quem pensa assim é um idiota. Podemos criticar uma decisão sem transformar o autor da decisão num inimigo pessoal.
A liberdade de expressão não fica mais forte quando gritamos alto. Fica mais forte quando conseguimos usá-la com responsabilidade.
Porque as palavras, depois de ditas, não voltam para a boca. E há palavras escritas na internet que parecem ter comprado casa própria e direito a primeira página.
No fundo, talvez precisemos de recuperar uma velha e sábia tecnologia, anterior ao telemóvel, às redes sociais e aos comentários instantâneos: o bom senso. Não precisa de bateria, não exige actualização e, tanto quanto sabemos, ainda não ficou fora de prazo.
Liberdade é podermos falar. Responsabilidade é sabermos o que estamos a dizer e respeito é lembrarmo-nos de que, do outro lado da frase, também está uma pessoa.
Até porque a liberdade de expressão é demasiado importante para ser confundida com a liberdade de ofender. E a verdade é demasiado preciosa para ser deixada à toa de quem tem pressa de publicar.
23 de agosto de 2026
Pertinências 23 - Jornalismo de Investigação
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
22 de agosto de 2026
curso acabado
Em 1983 despedi-me do Porto com uma mala, um diploma de Medicina debaixo do braço e aquela estranha sensação de quem acaba de cumprir uma promessa sem fazer a mínima ideia do que vai acontecer a seguir. Regresso.? Fico? Parto para parte incerta com a certeza que faço-o de consciência?
O curso estava feito. Um sonho estava cumprido. Depois de anos a negociar com anatomias, fisiologias, farmacologias e outras disciplinas cujo principal objetivo era testar até onde podia ir a resistência humana e a capacidade de beber café. Chegara o momento de fechar os livros de escola. No sentido literal e académico. Outros livros havia para consultar, revistas para ler, palavras para escrever. Mas escolares era o ponto final.
Mas despedir-me do Porto não era apenas despedir-me da Faculdade. Era despedir-me de uma cidade que, durante aqueles anos, tinha sido casa, escola, laboratório, refúgio e, sobretudo, cenário de uma extraordinária coleção de amizades.
Em 1983, um curso de Medicina não terminava exatamente como hoje termina uma aplicação no telemóvel: não havia grupos de WhatsApp e outras redes sociais, GPS, nem aquela maravilhosa possibilidade de saber, em três segundos, onde estava toda a gente. Terminava-se o curso e cada um seguia o seu destino, com uma morada escrita num papel, um número de telefone na agenda escrita com uma BIC e a vaga esperança de que as cartas não se perdessem e que haveria de haver um telefone numa qualquer cabina para ligar com duas ou três moedas.
E assim, de repente, os meus colegas ficaram espalhados por Portugal.
Uns foram para Lisboa, outros para Coimbra, Braga, Aveiro, Viseu, Vila Real, Faro ou terras ainda mais misteriosas, onde aparentemente também havia hospitais. Cada um partia com os seus sonhos, os seus receios e aquela confiança um bocadinho exagerada que só se tem aos vinte e poucos anos e depois de sobreviver a seis anos de Medicina.
Eu também parti.
Levei comigo o diploma, algumas fotografias, uma quantidade razoável de memórias e a convicção, completamente ingénua, de que haveria tempo para tudo: trabalhar, visitar os amigos, manter as amizades, descobrir o país, construir uma vida e, se sobrasse algum tempo, talvez dormir.
O Porto ficou para trás.
Ficaram as ruas percorridas tantas vezes, os cafés onde se discutia a vida com a mesma solenidade com que se discutiam os exames, as noites longas, as conversas que começavam com só um café e acabavam sabe Deus quando, e aquela cumplicidade especial de quem passou anos a sofrer pelas mesmas cadeiras, pelos mesmos exames e, sobretudo, pela mesma pergunta: Achas que isto sai?
Hoje, olhando para trás, percebo que o mais importante que trouxe do Porto não coube num diploma.
Trouxe amigos.
Amigos que o mapa distribuiu generosamente por Portugal, como se alguém tivesse pegado num punhado de jovens médicos e os tivesse lançado ao acaso pelo país. Cada um foi fazer a sua vida, construir a sua carreira, constituir família, envelhecer, uns com mais dignidade do que outros e continuar a colecionar histórias.
Naquele tempo não sabíamos ainda que aquelas despedidas seriam o princípio de uma nova etapa. Pensávamos que estávamos simplesmente a acabar o curso. Afinal, estávamos era a começar a vida.
O Porto ensinou-nos Medicina, mas ensinou-nos também uma coisa mais difícil: a importância das pessoas que encontramos pelo caminho.
E talvez seja por isso que, tantos anos depois, quando penso naquele adeus de 1983, não me lembro tanto da mala, nem do diploma, nem sequer da ansiedade pelo futuro.
Lembro-me dos rostos.
E penso que tive muita sorte.
Saí do Porto com um curso de Medicina feito e amigos espalhados por Portugal.
Não era nada mau para quem, poucos anos antes, ainda andava a tentar descobrir onde ficava a saída da Faculdade, como eram as ruas dessa coisa chamada de Europa.
E, olhando bem, talvez ainda ande. Talvez um dia ainda me encontre na Cristal a comer uma francezinha ou no Juca a comer uma moelas, ali na esquina da Praça da República, ou a ouvir a música que saía pela janela da Japonesa. Ou seria a jogar bilhar ali para os lado do Marquês ou em Campanhã a ouvir os Jáfumega?
21 de agosto de 2026
uma peça de roupa, muito alarido
Há dias em que basta uma peça de roupa para nos pôr a pensar na história, na cultura e, sobretudo, na nossa extraordinária capacidade de complicar tudo aquilo que parece simples.
A burca, por exemplo, é uma peça de vestuário que, por razões culturais e religiosas, cobre grande parte do corpo. Quando a vemos, o que nunca me aconteceu, pensamos imediatamente no Afeganistão, no mundo islâmico, nas diferenças culturais e nas discussões sobre liberdade, identidade e costumes.
Depois olhamos para o Algarve e percebemos que também nós temos uma longa tradição de vestir a história.
Temos os trajes regionais algarvios, bioco, além das suas saias, aventais, lenços, coletes, cores e rendas. Há roupas para trabalhar, para ir à feira, para dançar, para casar e, provavelmente, algumas que tinham tanta goma que, se fossem abandonadas numa cadeira, continuavam lá sentadas sozinhas.
O traje regional não é apenas roupa. É memória.
É a maneira como uma comunidade se apresentava, como trabalhava, como celebrava e como distinguia os dias comuns dos dias de festa. Antes da moda rápida, havia roupa que durava uma vida inteira. Hoje compramos uma camisola de manhã e à tarde já estamos a pensar se não haverá uma versão mais moderna.
No Algarve, o vestuário tradicional também fala de uma região habituada ao sol, ao trabalho, ao campo, ao mar e às festas. E há uma coisa curiosa: enquanto algumas culturas cobrem o corpo por razões religiosas ou sociais, outras criaram roupas que, sem esconder completamente a pessoa, diziam muito sobre de onde ela vinha.
É aqui que percebemos que o mundo é muito mais parecido do que julgamos.
Todos temos maneiras de vestir que dizem: Eu sou daqui.
Uns usam burca. Outros usam traje algarvio. Outros usam fato e gravata. Outros ainda usam calções, chinelos e uma t-shirt onde está escrito Algarve, como se houvesse o risco de se esquecerem onde estão.
E depois há a moda contemporânea, que conseguiu a proeza de tornar toda a gente diferente exatamente da mesma maneira.
No fundo, a roupa é uma espécie de documento de identidade sem fotografia. Conta histórias, revela costumes, mostra diferenças e, às vezes, esconde mais do que devia.
E talvez seja por isso que devemos olhar para a burca e para os trajes regionais com curiosidade, respeito e algum sentido de humor. Não para os comparar como se fossem concorrentes de um desfile, mas para perceber que todos os povos têm maneiras próprias de vestir a sua cultura.
No Algarve, felizmente, ainda podemos ver esses trajes nas festas, nos ranchos folclóricos, nas celebrações tradicionais mas fundamentalmente em fotos nos museus.
E eu cá acho bonito. Porque num tempo em que tanta gente quer parecer jovem, moderna e internacional, há qualquer coisa de profundamente elegante em alguém vestir-se como os seus avós e dizer, sem precisar de discurso:
- Eu venho daqui.
E isso, convenhamos, é uma maneira muito mais interessante de estar na moda.
20 de agosto de 2026
e desta invasão poucos falam
Há dias em que suspeito que a língua portuguesa está a ser vítima de um daqueles esquemas de burla em que ninguém sabe muito bem como começou, mas, quando dá por isso, já perdeu a carteira, o relógio, a dignidade e o conhecimento. Antes de qualquer juízo de valor, pare para pensar. A cultura que me foi transmitida é solida e a transmitiram-me pela língua pelo que não é assim fácilmente roubada. Mas a dos meus filhos, netos e filhos deles será?
Vai-se aos poucos. Sem violência. Ninguém nos aponta uma arma à cabeça e diz: A partir de hoje, deixe de dizer reunião e passe a dizer meeting. Não. Seria demasiado evidente. O processo é muito mais elegante: começa-se por um coffee break, passa-se por um deadline, marca-se um briefing, faz-se um follow-up, entra-se num workshop e, quando finalmente se chega a casa, já ninguém sabe se foi trabalhar ou participar num congresso internacional sobre a própria existência.
O mais curioso é que nós aceitamos tudo isto com uma serenidade admirável. Nem um único comentário contra. Simples e fácil.
Antigamente, quando alguém queria dizer que tinha uma ideia, dizia: Tenho uma ideia. Hoje tem um insight. Se quer dar uma opinião, faz um feedback. Se quer começar um projecto, faz um kick-off. Se correu bem, foi um success. Se correu mal, foi um challenge. E se não fazemos a menor ideia do que estamos a fazer, dizemos que estamos a explorar novas oportunidades.
A língua portuguesa, entretanto, está ali ao canto, sentada numa cadeira, a olhar para nós com aquele ar de avó que já percebeu tudo, mas não quer estragar o almoço.
E não se trata de declarar guerra ao inglês. O inglês é uma língua magnífica. Tem palavras úteis, música própria e uma capacidade extraordinária para transformar três sílabas numa coisa que parece uma estratégia empresarial de 40 milhões de euros. O problema não é usarmos inglês quando precisamos dele. O problema é usá-lo quando temos português e, muitas vezes, português melhor.
Porque uma palavra não é apenas uma palavra.
Dentro de cada palavra há uma pequena memória. Há maneiras de pensar, de sentir, de contar o mundo. Há séculos inteiros escondidos numa expressão. Quando dizemos saudade, não estamos simplesmente a transmitir uma informação: estamos a convocar uma parte da nossa história. Quando dizemos desenrascanço, levamos connosco uma certa maneira portuguesa de sobreviver ao absurdo. Quando dizemos amanhã, desassossego, miúdo, serão, alvoroço, quinquilharia ou lamúria, estamos a usar pequenas cápsulas de memória colectiva.
Uma língua é também o eco daqueles que já cá não estão.
É a voz dos avós que não aprenderam online, mas sabiam explicar a vida inteira com meia dúzia de palavras. É a voz dos livros, das cartas, dos pregões, das cantigas, das histórias contadas à mesa. É Camões, Eça, Pessoa, Sophia, Garrett e é também o homem que, há cem anos, gritava da janela: Ó Maria, põe a sopa na mesa!
Tudo isso vive dentro da língua.
E nós, com a maior das naturalidades, vamos entregando bocadinhos.
Já quase ninguém marca uma reunião: marca uma call. Já não fazemos uma pausa: fazemos um break. Já não damos os parabéns: damos props. Já não dizemos que algo está na moda: está trending. E há pessoas que, se lhes perguntarmos simplesmente Como estás?, parecem estar à espera que a pergunta venha acompanhada de um formulário em inglês.
O mais engraçado é que muitas destas palavras nem sequer nos tornam mais modernos. Apenas nos tornam mais complicados.
Porque dizer praz» é uma palavra pequena, directa, eficiente. Dizer deadline faz parecer que estamos numa sala envidraçada, perante sete pessoas chamadas Kevin Klan, a decidir o futuro da humanidade.
Vamos conversar sobre isto é perfeitamente compreensível.
Vamos fazer um brainstorming já implica, no mínimo, post-its coloridos.
Talvez o nosso problema não seja a invasão do inglês. Talvez seja a nossa vontade de parecer outra coisa.
E, enquanto tentamos parecer modernos, esquecemo-nos de que há uma forma muito mais sofisticada de modernidade: saber quem somos.
Não precisamos de fechar a língua portuguesa numa redoma, como uma peça de museu. As línguas sempre mudaram, sempre roubaram palavras umas às outras, sempre inventaram, adaptaram e transformaram. Uma língua viva não é uma língua pura. É uma língua que respira. Lemos Luandino, Mia Couto, Amado, Ondjaki, Peixoto, Lídia, Teolinda, Afonso ou Couceiro e vemos que ela está viva, crescida e acrescida.
Mas respirar não é engolir tudo.
Podemos aprender outras línguas sem desaprender a nossa. Podemos dizer software quando não há uma boa alternativa, mas também podemos continuar a dizer programa. Podemos usar marketing, se for mesmo necessário, sem esquecer que divulgação e comunicação continuam a existir. Podemos fazer downloads sem fazer downloads à nossa identidade.
Porque o verdadeiro perigo não está em uma ou outra palavra inglesa.
Está em começarmos a achar que português é pouco.
Pouco moderno. Pouco elegante. Pouco profissional. Pouco sofisticado.
E isso, convenhamos, seria a maior das nossas derrotas.
A língua que atravessou oceanos, que deu palavras a outros povos, que foi falada em quatro continentes e que conseguiu sobreviver a reis, impérios, terramotos e ministros não precisa de nós para sobreviver.
Mas nós precisamos dela para nos lembrarmos quem somos.
Por isso, da próxima vez que alguém disser que tem um meeting, talvez possamos perguntar, com toda a inocência:
É uma reunião?
E quando nos responderem que sim, podemos sorrir.
Não por purismo.
Por resistência.
Porque às vezes defender uma língua começa simplesmente por continuar a usá-la. E, se possível, com todas as palavras bonitas que ela ainda tem antes que alguém as transforme num upgrade.
19 de agosto de 2026
Namorar no Porto e era estudante
No início dos anos 80, do século passado, o Porto não se descobria na ecran de um telemóvel; descobria-se pelo faro, pelo bater do vento nas esquinas da Cedofeita e pelo ruído cadenciado dos elétricos a ranger nos carris, subindo os Clérigos ou descendo a Boavista. Chegar aqui para estudar Medicina, vindo de um lugar bem distante, era como saltar de um avião sem grande instrução prévia: éramos um grupo de miúdos caídos de pára-quedas, aterrados diretamente entre a bruma da Foz, as fardas brancas do Hospital de São João e as mesas de madeira gasta dos cafés, como o Piolho.
Namorar nessa altura era um exercício de paciência e de presença absoluta. Não havia mensagens instantâneas a perguntar onde estás". A certeza do encontro baseava-se numa promessa feita na véspera, à saída duma aula teórica de Anatomia: às seis na Praça dos Leões, ou na RUF, conforme fosse o plano. E lá ficávamos, de golas do casaco levantadas contra o frio nortenho, a ver as horas passar no relógio de pulso, com o coração a dar saltos a cada figura que emergia no horizonte. Se o outro se atrasava vinte minutos, a angústia era real, mas a recompensa de ver chegar trazia uma densidade que o mundo digital jamais conseguirá reproduzir.
A vida de estudante era um malabarismo entre o rigor assustador dos livros espessos e a descoberta da liberdade. Dividíamos apartamentos velhos de teto alto no Marquês, na Boavista, na Álvares Cabral, na Areosa ou sei lá mais onde´o frio entrava pelas frestas das janelas e a comida era uma invenção dominical à base de atum e massa ou frango no forno, porque durante a semana éramos salvos por uma cantina. Vivemos a transição do país, mas para nós o mundo resumia-se àquela irmandade de estrangeiros na cidade invicta. Aprendemos as gírias portuenses, o orgulho nortenho e a solidariedade crua de quem partilha o mesmo destino.
Os encontros amorosos desenrolavam-se ao som de cassetes gravadas à mão — com fita ajustada à ponta de uma caneta Bic. Namorava-se na penumbra do Piolho, entre fumaça de cigarros e copos de cerveja, trocando olhares por cima das sebentas marcadas a amarelo. O primeiro beijo acontecia muitas vezes nas escadarias dos Clérigos ou ao longo da Ribeira, quando o Rio Douro ainda pertencia aos barcos e aos habitantes. Não me lembro de ver turistas naquelas bandas.
Olhando para trás, esse namoro dos anos 80 no Porto tinha a cor das fotografias em papel e o cheiro a maresia misturado com desinfetante hospitalar. Éramos jovens, estávamos longe de casa e tínhamos o futuro inteiro para diagnosticar. Mas, por entre os corredores do São João e as noites longas na Baixa, a maior lição que a Medicina nos deu foi a de que nada cura melhor a nostalgia do que o abraço certo numa tarde cinzenta de inverno nortenho.
18 de agosto de 2026
Um exame do 2.º ano
Cheguei ao exame munido de tudo o que a ciência tinha produzido até então: sebentas, apontamentos, esquemas, cafés e uma confiança cuidadosamente disfarçada de panico. Tinha estudado. Ou, pelo menos, tínhamos estado fisicamente próximos dos livros durante várias horas, dias, melhor, noites.
Entrava o professor e, de repente, a sala parecia uma sala de operações antes de uma intervenção delicada. Silêncio absoluto. Até o virar de páginas adquiria significado bíblico.
O problema era que, com o Prof. Sobrinho Simões, pai, uma pergunta aparentemente inocente podia abrir uma cratera no conhecimento. Nessa cratera ficava o vácuo, esse fenómeno em que o vazio fica cheio de nada. Assim podia ficar o meu cérebro.
- Então, explique-me "isto". O "isto” podia ser uma coisa que tinha estudado durante três noites consecutivas. Mas, no momento em que a pergunta foi feita, o cérebro decidia democraticamente que nunca tinha ouvido falar do assunto.
Comecei a responder com prudência, inventei palavras, revoltei conceitos vazios, mas não me calei:
- Bem… isto relaciona-se com…
Era o início da estratégia conhecida como medicina de aproximação: dizer tudo aquilo que nos lembrávamos na esperança de que, algures no meio da frase, aparecesse por acidente a resposta certa.
O professor ouvia. Sem pressa. O que era ainda pior.
Interpretava cada movimento das sobrancelhas como um boletim clínico. Sobrancelha esquerda ligeiramente levantada: diagnóstico reservado. Um pequeno silêncio: situação muito grave. Um olhar para o relógio: eu já não tenho salvação.
Havia ainda a terrível sensação de que o professor sabia exatamente onde estava a minha ignorância. Não era uma ignorância vaga. Era uma ignorância localizada, com morada, código postal e ficha clínica.
E, no entanto, houve uma coisa extraordinária naquele exame: obrigava-me a pensar. Não bastou decorar. Era preciso perceber, compreender e falar. O professor fazia mexer o raciocínio, como quem me dizia, sem precisar de o dizer, que Medicina não era uma colecção de respostas certas era saber fazer as perguntas certas.
Claro que, naquele momento, não apreciei tanto esta filosofia que vejo agora. Queria apenas, naquele instante, sobreviver.
Quando finalmente saí da sala, encontrei-me com outros no corredor com a expressão de quem tinha regressado de uma expedição ao Everest.
- Então?
A pergunta era sempre a mesma.
- Acho que correu bem.
Mentira piedosa.
Cinco minutos depois:
- Aquela pergunta sobre…?
Silêncio.
- Pois. Essa.
E começava a autópsia colectiva do exame, com reconstrução minuciosa de cada pergunta, cada resposta e cada possível erro cometido desde o nascimento.
Hoje, muitos anos depois, é fácil sorrir ao recordar aquele exame. Na altura, não tinha graça nenhuma.
Mas talvez seja precisamente essa a graça: entre o medo, a adrenalina e a sensação de que o nosso conhecimento cabia inteiro numa colher de café, estávamos a começar a aprender uma coisa essencial, que na Medicina ninguém sabe tudo, que é preciso pensar, duvidar e continuar a estudar.
E que, perante o Prof. Sobrinho Simões, pai, era também aconselhável nunca, mas nunca mesmo, confundir confiança com preparação.
A nota quando saiu dizia assim: 12 + . Para saber o que o mais queria dizer eu tinha de ir à oral. Pois fiquemos pelo 12 que o Evarest é muito alto para subir duas vezes seguidas.
17 de agosto de 2026
no Lar da Álvares Cabral
No lar da Rua Álvares Cabral, no Porto, havia tradições que não estavam escritas em lado nenhum, mas que toda a gente conhecia. Uma delas era o julgamento dos caloiros. Outra era a lerpa à sexta-feira. E havia ainda uma terceira, muito mais misteriosa: aos sábados, apareciam ao pequeno-almoço muito mais residentes do que durante toda a semana.
O Lar tinha uma população curiosamente internacional. A maioria tinha vindo de Angola, com a experiência de quem já conhecia outros céus, outros calores e outras maneiras de olhar para o mundo. Do Norte de Portugal eram poucos, suficientes, contudo, para garantir que ninguém se esquecia de que estávamos no Porto.
Quando chegavam os caloiros, começava o julgamento. Não era exactamente um tribunal apesar de parecer e tivesse acusação, defesa, testemunhas, sentença e uma boa dose de arbitrariedade. Os veteranos assumiam a nobre missão de avaliar os recém-chegados, como se a entrada na universidade exigisse, além das matrículas e propinas, uma espécie de certificado de sobrevivência social.
Os caloiros eram chamados a responder por crimes que ainda não tinham cometido, intenções que talvez nunca tivessem tido e, sobretudo, pela imperdoável falta de conhecimento das regras da casa que digamos eram criadas na altura. Havia perguntas embaraçosas, provas ridículas e acusações inventadas no momento. O objectivo não era propriamente humilhar ninguém era, sobretudo, estabelecer rapidamente uma hierarquia e garantir que, dali em diante, ninguém poderia dizer que não conhecia os costumes. A Sangria e a Santa Cerveja não faltavam. Não fossem os veteranos desidratarem ou os caloiros utilizarem o silêncio para benefício próprio.
E costumes não faltavam embrar não estivem escritos.
À sexta-feira, por exemplo e por regra, havia os jogos de lerpa. A lerpa tinha a extraordinária capacidade de transformar estudantes aparentemente pobres em banqueiros de alta finança durante algumas horas. As moedas mudavam de mãos com uma rapidez suspeita, surgiam estratégias que ninguém percebia e havia sempre alguém que jurava que, naquela noite, tinha sido vítima de uma injustiça.
Na realidade, a única coisa certa era que, no fim, havia menos dinheiro no bolso de uns e mais conversa fiada no bolso dos outros.
Mas um outro mistério do Lar acontecia aos sábados de manhã.
Durante a semana, o pequeno-almoço era uma cerimónia quase deserta. Havia sempre uns quantos resistentes, evidentemente os mais disciplinados, os mais famintos ou simplesmente aqueles que ainda não tinham descoberto que as aulas começavam a horas.
Ao sábado, porém, dava-se o milagre. Apareciam quase todos. Só não iam os que tinham aproveitado a tarde de sexta para irem a casa. O que eram poucos entenda-se.
A senhora que tomava conta do Lar durante o horário normal de expediente começou a reparar na coisa. Durante a semana, parecia que alimentava um grupo de fantasmas universitários: pouca gente, poucas cadeiras ocupadas, silêncio relativo. Chegava o sábado e, de repente, o refeitório enchia-se.
Aquilo intrigava-a.
- Mas por que é que ao sábado vêm tantos tomar o pequeno-almoço?
Era uma pergunta perfeitamente legítima. O problema é que ninguém parecia disposto a responder com a verdade.
Porque a verdade era simples: na sexta-feira à noite ninguém dormia.
Havia a lerpa, havia as conversas, havia as visitas aos quartos uns dos outros, havia histórias de Angola e do Porto, havia namoros e as noites de namorada, discussões, gargalhadas e a inevitável promessa de só mais um bocadinho, como dizia o Sérgio Godinho. Quando finalmente era hora de ir dormir coincidia com a hora do dito pequeno-almoço porque já o sábado ia bem avançado. Esperávamos a chegada dela. Pequeno-amoçávamos e então era dormir até hora de procurar cantina para o almoço.
E, depois de uma noite dessas, quem é que tinha forças para se levantar?
Pois precisamente: todos.
O pequeno-almoço de sábado era, portanto, mais uma refeição em continuação oficial da noite anterior.
A senhora, naturalmente, não podia saber disso. Dentro das horas normais de expediente, havia regras, horários e alguma preocupação com a ordem. O que acontecia depois, quando os estudantes começavam a viver verdadeiramente, pertencia a outra administração a administração da juventude.
E talvez tenha sido essa a grande aprendizagem do Lar Álvares Cabral: os caloiros podiam ser julgados, os jogadores de lerpa podiam perder dinheiro, e os estudantes podiam desaparecer misteriosamente durante a semana. Mas, chegado o sábado de manhã, lá estavam quase todos, de olhos pequenos e consciência tranquila, sentados à mesa.
Como se nada tivesse acontecido.
E talvez não tivesse mesmo acontecido.
Pelo menos, oficialmente.
16 de agosto de 2026
Pertinências 22 - GonçaloMTavares à Conversa com Analita Santos
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível















