A Minha Sanzala
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- Pertinências 2 - Diagnóstico Dual - GRATO
- Pertinências 3 - "A Mulher (e as mulheres) segundo Fernando Pessoa"
- Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair
- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
- Pertinências 6 - Escritores algarvios
- Pertinências 7 - Equipes de Rua - GRATO
- Pertinências 8 - Rastreio e Prevenção do cancro do colon e recto
7 de maio de 2026
o nada
6 de maio de 2026
Programa 117 - K'arranca às Quartas
5 de maio de 2026
e porque me fui lembrar do 10 de Junho
Dizem que Homem tem um desejo velhinho de voar. Leonardo da Vinci desenhou máquinas, Gago Coutinho e Sacadura foram até à terra do outro Cabral e eu... bom, eu decidi que o meu destino estava traçado num trampolim de borracha, rodeado de crianças de cinco anos que pareciam ter ossos feitos de mola e coragem de de ferro.
Olhando de fora, parece fácil. É física pura. O problema é que a minha massa é considerável e a aceleração que a gravidade exerce sobre mim tem um sentido de humor muito refinado.
Subi os degraus com a confiança de um ginasta olímpico. No topo, a vista era magnífica. Eu sentia-me o Super-Homem. Olhei para baixo, vi a lona presa por molas que me faziam lembrar as camas velhas do hospital e pensei: "Vou fazer um mortal." Nunca tente fazer um mortal se a última vez que viu os seus próprios pés sem a ajuda de um espelho foi no século passado.
O primeiro pulo foi tímido. Um "inho" discreto. Só para ver como é que eu estava. O segundo já me deu uma confiança perigosa porque deve ter havido uma rabanada de vento que a verticalidade era obliqua. No terceiro, decidi que era hora de mostrar ao mundo e à miudagem que me olhava com desconfiança do que é que sou feito.
Desejei as nuvens. Empurrei a lona com toda a força das minhas convições. Subi. Subi tanto que por num segundo achei que ia precisar de um passaporte ou de um fato espacial. O ar estava rarefeito. O silêncio era absoluto. Eu era a própria aerodinâmica.
O resultado foi uma sequência de eventos que a física ainda está a tentar explicar: Não caí de pés. Caí com o rabo, mas de uma forma que os meus joelhos decidiram cumprimentar o meu queixo com convicção. A lona, fiel ao seu propósito, devolveu-me aos ares. Mas não para cima. Devolveu-me na diagonal. Acabei estatelado na borda almofadada.
Fiquei ali, imóvel, a contemplar o tecto e a questionar todas as minhas escolhas de vida desde a escola primária. Um miúdo de quatro anos, a mastigar uma pastilha elástica, aproximou-se e perguntou:
- Tio, isso fazia parte do truque?
Levantei o polegar, mesmo sem sentir metade do braço, e respondi com a voz trémula de quem acabou de ver a luz:
- Claro... É só para profissionais.
Acordei, não estava no Estádio do benfica e não era o 10 de Junho
4 de maio de 2026
O Velho Luandino e a Arte de "Muximar" as Palavras
Fazer 91 anos em plena forma de espírito é um despropósito para os simples mortais. O homem caminha pelos dias como quem caminha pelas ruas de Luanda antiga: sem pressa de chegar, porque o importante não é o destino, é a conversa que se apanha pelo caminho.
Dizem que o português é uma língua rígida, cheia de regras e sapatos apertados. Pois o Luandino olhou para o dicionário e disse: “Moço, tira lá essa gravata que aqui o calor é muito!”. Ele não escreve frases, ele faz pirão com as letras. Mistura o Kimbundo com Camões, tempera com um bocado de jindungo, e quando dás por ti, estás a ler uma palavra que nunca existiu, mas que tu entendes perfeitamente porque ela te bateu direto no peito.
"Ele não inventa palavras, ele só lhes tira o pó e ensina-as a dançar."
Celebrar o Luandino é celebrar aquela Luanda que ele desenhou na nossa cabeça. Aquela dos musseques onde a vida é um emaranhado de histórias, onde o "Luuanda" é uma personagem viva que acorda com remela nos olhos e vai dormir com um sorriso de quem sabe das coisas.
Ele ensinou-nos que se pode estar preso e ele esteve, que o Tarrafal não era propriamente um resort de cinco estrelas e, ainda assim, ser o homem mais livre do mundo. Como? Criando mundos. O homem escrevia tanto e tão bem que as paredes da cela devem ter pedido por favor para ele parar, só para não ficarem com demasiada alma.
Diz que aos 91 anos a pessoa deve sossegar. Mas o Luandino não sossega. Ele continua aí, com aquele ar de quem sabe um segredo que nós ainda não descobrimos. Se calhar o segredo é esse: manter a a alma viva. Não deixar a língua secar, não deixar a memória virar estátua.
Luandino, meu kota de referência, hoje não há "Vidas Novas", hoje é a tua vida que a gente celebra. Bebe-se uma Cuca mesmo que seja imaginária, para não subir à cabeça e agradece-se por teres ensinado Portugal e Angola a falarem um com o outro sem precisarem de tradutor, apenas de sentimento.
Que a vida continue a ser esse teu "Luuanda" infinito, cheio de sol e de palavras bem "muzunguiadas".
3 de maio de 2026
Dia da Mãe
O Dia da Mãe chegou sem pedir licença um ano depois do outro Dia da Mãe e com uma pontinha de nostalgia que se instala entre o café da manhã e a primeira tentativa de não pensar muito no assunto.
Levantei-me decidido: hoje vai ser um dia alegre. Nada de dramatismos, nada de suspiros profundos a olhar pela janela. A minha mãe, se cá estivesse, diria logo:
- Ó rapaz, deixa-te disso, que a vida não é um velório permanente nem uma espera eterna!
E pronto, comecei o dia como ela gostava com barulho na cozinha. Não há melhor homenagem do que fazer um pequeno-almoço digno de confusão: torradas ligeiramente queimadas como ela fazia de propósito, café forte que acorda até o vizinho e uma tentativa falhada de arrumar tudo sem sujar mais.
Sentei-me à mesa e, quase sem dar conta, comecei a falar em voz alta:
- Então, mãe, hoje deram-te de folga aí no céu ou andas por aí a inspeccionar o que o teu filho faz?
Claro que não houve resposta… mas houve aquela sensação estranha e boa de que, de alguma forma, ela estava ali. Talvez a rir-se da torrada demasiado escura.
Depois veio a parte mais perigosa: mexer em fotografias antigas. Aquilo é uma armadilha. Começa-se com um vou só ver uma e, de repente, já estamos a rir de penteados impossíveis, roupas que hoje dariam direito a intervenção familiar e expressões que só as mães conseguem fazer uma mistura de autoridade e ternura com um toque de já te conheço há demasiado tempo.
E lá estava ela, em todas as fotos, com aquele olhar que dizia tudo:
- Podes fazer asneiras à vontade, mas eu estou aqui.
E esteve. Sempre.
Ao meio do dia, dei por mim a fazer outra coisa muito típica dela: falar com pessoas que não conheço. No café, meti conversa com o empregado como se fosse primo afastado. E pensei: pronto, isto é herança. Não vem no testamento, mas vem na vida.
A verdade é que o Dia da Mãe mudou. Já não há telefonema, nem abraço, nem aquele leva um casaco que está vento, dito mesmo quando estão 30 graus. Mas há outra coisa uma espécie de presença teimosa, bem-disposta, que aparece nas pequenas coisas.
No fundo, a minha mãe não desapareceu. Espalhou-se.
Está na maneira como faço café, mal, mas com convicção, na forma como implico com quem gosto, nas frases que me saem sem autorização e até naquele talento especial para rir nos momentos menos apropriados.
Ao final do dia, levantei o copo sozinho, mas não propriamente e disse:
- Feliz dia, mãe. Continuas a dar trabalho… mas também continuas a dar alegria.
E, juro, naquele instante, tive quase a certeza de ouvir:
- Claro que dou, filho. Quem é que pensavas que te ensinou a ser assim?
Pertinências 8 - Rastreio e prevenção do cancro colo-rectal (Cirurgia 2 - Portimão)
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Março Azul - mês da prevenção e rastreio do cancro colo-rectal. Uma secção de esclarecimento realiazada pelo Serviço de Cirurgia 2 da ULS ALGARVE - Unidade Hospitalar de Portimão
Imperdível
um dia escreverei e tudo mudará
Estava aqui sentado quando me lembrei que faz tempo ouvi dizer que o poeta é um fingidor, e sem querer completei a frase com: o escritor que não escreve, ao meio-dia numa praia portuguesa no auge do verão, é essencialmente um suicida por convecção.
Lá estava eu, o "Mestre da Busca do Silêncio", abandonando o conforto da minha página em branco e do ar-condicionado para enfrentar o elemento mais hostil do universo recém conhecido: a areia de Alvor às doze badaladas de um dia de sol de Agosto.
Eu já caminhara no deserto mesmo sem nunca ter ido ao dito propriamente dito. Na margem do deserto, melhor escrevendo, e não é a mesma coisa. No deserto eu tinha os meus nonkakos, os meus kedes ou, nas palavras novas que aprendi, sapatilhas. Na praia os meus pés de estufa fria estavam pelados, descalçados ou descalçados de pele. Verdade acima de tudo.
Mas voltemos ao assunto para não me perder em labirintos de palavras ocas e depois já não sei por onde ando. Se eu deixasse palavras perdidas pelo caminho de modo a voltar por elas, ainda vá, mas tenho por hábito deixar silêncios e esses vão com o vento..
O plano era romântico, digno de uma obra que eu jamais escreverei: caminhar à beira-mar para ouvir o que as ondas têm a dizer. Spoiler: as ondas só diziam: Sai daí, ó tonto, que vais ficar em brasa e à noite não te aguentas. É estrangeirismo mas na tugália eu tenho de saber falar como é que é.
Na verdade a logística da caminhada revelou-se um pesadelo existencial: Entre o meu pé e a linha da água, havia dez metros de um areia que, suspeito, era composto por restos de lava vulcânica e mágoa, pois não parecia mas estava incandescente ao meu pisar . Cada passo era um passo de bailado histérico. Eu não caminhava; eu executava uma dança folclórica de sofrimento e que até me fez lembrar uma dança zulu que eu tinha visto num filme qualquer. E o sol não brilhava, ele martelava-me com os seus raios. Eu sentia o meu couro cabeludo a fritar como um ovo. Olhando-me eu parecia estar a evaporar-me numa núvem que me contornava, fazendo-me ver o mundo através de um filtro de névoa e ardor.
A meio do caminho, cruzei-me com um grupo de turistas alemães. Eles estavam rosados um tom de rosa, tipo camarão ou lagostins já que qualquer deles era maior que o outro. Olharam para mim, o Grande Escritor, à espera de uma frase profunda. Pelo menos foi isso que me pareceu ao vê-los. Eu ia vociferar algo sobre o ser efémero que me estava a tornar, quase a passar do estado sólido ao volátil, mas a único som que saiu foi em muito semelhante ao rasgar de uma folha de papel queimada pelo tempo.
A inspiração é como a areia da praia: entra em todos os sítios onde não foi convidada e queima-te as plantas dos pés se não fores rápido. Foi a frase que consegui rabiscar ao chegar à toalha. Repousei com os pés virados para o céu à espera que arrefecessem. Achados mais frios finalmente, fui a água. O choque térmico foi tão violento que o meu cérebro, por um breve segundo, considerou realmente escrever um japonês. Mas a sensação de passar de frango de churrasco para bacalhau demolhado em dois segundos é a única coisa que importou naquele instante.
Fiquei ali, boiando como um tronco à deriva, observando as pessoas a lutarem com guarda-sóis que teimavam em voar. Pensei: “Eis a metáfora da minha carreira. O guarda-sol é a minha fama; o vento é a minha total ausência de obra; e eu sou o gajo que está só a ver o circo pegar fogo porque tem preguiça de correr.”
Saí da água renovado. Voltei para casa, abri o meu documento em branco e escrevi o meu maior sucesso do dia:
Fui à praia. Estava calor. Amanhã vejo o resto.
Apaguei logo a seguir. A perfeição, como sabem, não admite rascunhos.
2 de maio de 2026
eu, luso-metafísico
Sempre que me perguntam como é a rotina de um escritor de renome mundial que, tecnicamente, nunca publicou uma única linha, eu respondo com um sorriso enigmático, aquele que os críticos chamam de profundidade luso-metafísica, mas que na verdade é apenas o medo de que percebam que meu teclado ainda tem aquele plástico protetor de fábrica. É assim mais ou menos como um rótulo de um vinho famoso com sabor a frutos silvestres que só levou uva e meia dúzia de aromatizantes que só os poetas do rótulo conseguem sentir.
Ser um génio do silêncio exige um esforço monumental. Enquanto os meus colegas perdem cabelos a cumprir prazos, ouvir revisores e sentem ansiedades de página em branco, eu sofro com a crise da página imaculada. É uma questão de pureza estética. Por que corromper a brancura perfeita do papel com substantivos comuns e adjetivos desgastados? Sou o complemento directo da pureza do papel. Há Arte de Não Fazer Nada.
Um dia alguém me perguntou, ou fui só eu que imaginei, o que é que eu estava a escrever? Respondo sempre que exploro o silêncio que existe entre vogais e consoante o vento estruturo a palavra como um amontoado de ideias gramaticais. Chorei de emoção sobre esta frase que me tem levado a colóquios, simpósios e a exposições. Na verdade eu olho para o horizonte, componho um pensamento épico e a ideia é tão densa que ainda está no estado gasoso pelo que não faço ideia como será o líquido nem a sua materialização em forma de palavra escrita.
Já procurei ao menos escrever o título, mas para lá de Estórias Materializadas em Monte de Palavras, só me sai a Geometria Assimétrica do Nada. E na indecisão, mantenho a página em branco porque não tenho vontade de reescrever o que ainda não foi escrito.
O escritor que não escreve é um arquiteto de castelos de ar. E, convenhamos, não me apetece encher o disco do pc com palavras vazias, pois posso precisar dele para guardar os meus sonhos, as minhas fantasias, os meus delírios, ou só o manter virgem por forretice.
Uma qualquer tarde, darei autógrafos em guardanapos em branco. Os fãs dirão: a ausência de palavras diz tudo!. Eu concordo, emocionado. Afinal, escrever dá um trabalho danado, tem que concordar sujeito com verbo, cuidar da pontuação... Uma canseira que não estou nem a imaginar fazer quanto mais materializá-la
Hoje decidi escrever um parágrafo. Sentei-me no pc e verifiquei que as palavras estavam em greve de fome por um mundo melhor.
Pensei, eu mereço um prémio Nobel, sou o melhor escritor da minha geração, pelo menos no restrito mundo da minha casa. Não tenho erros ortográficos, não me perco em virgulas, não tropeço em aspas nem rasteiro em parêntesis. A minha obra é perfeita. Tem todas as qualidades que nenhuma obra real possui. Ela é a imagem que cada um dá dela.
Agora, se me dão licença, aproveitando a greve das palavras, vou ali não escrever o próximo capítulo. O silêncio não se cultiva sozinho.
1 de maio de 2026
dia do trabalhador
30 de abril de 2026
eu, em autobiografia não autorizada
Nasci sem manual de instruções, como toda a gente, acho eu, mas com uma particularidade: desde cedo ficou claro que eu tinha um talento raro… para fazer asneiras.
Cresci numa casa onde a paciência dos adultos era posta à prova como se fosse um concurso dos jornais que chegavam á província. E eu concorria para ganhar e nunca soube se alguém ganhava. Havia miúdos que aprendiam a andar de bicicleta, eu, pessoa rara, aprendi a cair de bicicleta com estilo. Havia quem desmontasse relógios para perceber como funcionavam, eu desmontava e depois ficava com peças suficientes para montar… outro problema que nunca conseguia justificar.
Na escola, a minha relação com o saber era cordial, mas distante. Eu olhava para a matéria, a matéria olhava para mim, e nenhum de nós dava o primeiro passo. Já os disparates… esses vinham ter comigo sem convite nem qualquer tipo de preparação. Uma vez levei um grilo para uma aula, tipo estudo científico para estudo científico. O grilo saiu mais instruído do que eu e a professora nunca mais confiou na minha vocação académica.
Na adolescência, refinei o meu talento. Já não eram só asneiras pequenas, eram asneiras ambiciosas. Uma vez tentei impressionar num baile. Treinei passos de dança em casa, sozinho, com uma vassoura como parceira , foi a única que alinhou sem se queixar. Chegado ao baile entrei em pista cheio de confiança… e saí de lá com a dignidade em coma. Descobri que o problema não era a vassoura: era mesmo eu.
Mas há uma coisa curiosa nas asneiras que fiz: ensinaram-me. Às vezes devagar, às vezes com nódoas negras, mas ensinaram. Cada disparate vinha com uma lição escondida, normalmente bem escondida, que eu também não ajudava muito a encontrá-la e quando isso acontecia tentava assobiar para o lado.
Com o tempo, comecei a perceber que a vida não é um concurso de perfeição. É mais um campeonato de resistência ao ridículo. E nisso, modéstia à parte, eu já tinha anos de treino.
Fui tropeçando, levantando-me, voltando a tropeçar num estilo para não perder o hábito, até que um dia dei por mim… a acertar. Não sempre que isso poderia parecer suspeito, mas o suficiente para dizer que afinal, isto vai. E não é que foi?!
Hoje, quando olho para trás, vejo um percurso cheio de asneiras. Algumas memoráveis, outras que ainda me fazem corar quando me lembro sobretudo nas madrugadas de insónia, que é quando o cérebro decide fazer reposições como nos cinemas de antigamente. Mas também vejo uma coisa importante: sobrevivi a todas elas e com diploma a atestar.
E mais, aprendi a rir-me delas.
Porque, no fundo, vencer não foi deixar de fazer asneiras. Foi começar a usá-las como degraus, ainda que, de vez em quando, eu suba dois e desça três, só para manter a coerência.
E cá continuo: nasci, cresci, fiz asneiras… e, entre tropeções e gargalhadas, vou vencendo. Nem que seja por pontos, nem que seja com palavras soltas e estórias de inventar, mas no concurso do Província ou do Diário eu agora ia ganhar... tempo de recordar

