Em 1973, eu estava cada vez mais apaixonado por ela. Apaixonado a sério, com aquela gravidade própria dos adolescentes que ainda não sabem grande coisa da vida, mas já têm a certeza absoluta de que não podem viver sem ela. O que fazem os namorados? Eu não fazia a mínima ideia. Mas que estava apaixonado estava e o pior é que ela também não sabia.
Ou, se sabia, disfarçava muito bem. Tão bem que eu, apesar de já ter idade para desconfiar de certas coisas, continuava convencido de que um dia ela havia de descobrir em mim um homem irresistível. Na altura, eu ainda não era homem, era uma espécie de projecto de homem, com cabelo despenteado, sandálias e uma quantidade de sonhos que não cabiam no bolso das calções.
Foi então que surgiu o convite.
- Amanhã vamos dar um passeio às hortas. Queres vir?
Queres vir?! A pergunta caiu-me em cima de mim como se fosse uma declaração de amor assinada e reconhecida no notário. Ela convidava-me para um passeio! Às hortas! Eu teria ido com ela ao fim do mundo, mesmo que o fim do mundo fosse um terreno baldio cheio de pedras e lagartos. Mas era às hortas, e isso tinha uma vantagem: havia natureza, havia ar livre e, sobretudo, havia a possibilidade de ficarmos sozinhos e haver por ali alguma macieira. Na minha cabeça já havia. Pelo menos, foi isso que imaginei.
Naquela noite, quase não dormi. Passei horas a escolher mentalmente a roupa, a ensaiar conversas e a preparar frases que demonstrassem inteligência, cultura e sensibilidade. Cheguei a pensar em falar-lhe de poesia, mas achei que poderia assustá-la. Optei por assuntos mais seguros, como a praia, o deserto que eu conhecia quase nada e sabia que ela também me acompanhava nesse desconhecimento e, se a conversa se emudecesse, a agricultura podia salvar algumas palavras.
Um homem apaixonado tem de estar preparado para tudo. No dia seguinte, apareci impecavelmente vestido. Camisa de ginástica, calções largos para facilmente subir às árvores, e quedes para melhor me mover no meio de alfaces e rabanetes.
Eu, pelo contrário, estava em estado de emergência emocional. Os pensamentos atropelavam-se e com isso os meus movimentos eram um tanto ou quanto descoordenados.
Começámos a viagem em direcção às hortas, e eu procurava desesperadamente um assunto que me permitisse mostrar um lado mais interessante. A ponte do Rio Bero, construída para os caminhos de ferro e segundo uma lenda tinha sido feita com dinheiro falso de um tal Alves dos Reis. Mas não teve continuidade na conversa.
- Gosto muito da natureza — declarei, com a solenidade de quem acabava de descobrir uma nova espécie vegetal ou não percebia nada do que poderia vir a seguir.
Ela olhou para mim.
- Eu também.
E o carro continuava a andar. Os pais dela de quando em vez diziam qualquer coisa mas eu não conseguia ouvir porque o meu cérebro estava noutro comprimento de onda. O silêncio era quebrado pelo som do Rádio Clube de Moçâmedes e do programa O meu Mundo é o Mar.
Foi a primeira derrota do dia.
Eu esperava que ela perguntasse quais eram as minhas árvores preferidas, se gostava mais de flores ou de plantas aromáticas, ou até se alguma vez tinha pensado em escrever um poema sobre o amor e a terra. Mas nada. A natureza, aparentemente, não precisava de mais comentários. Prosseguimos o viagem em silêncio apreciador da natureza.
Chegámos às hortas do Giraul. As hortas estavam bonitas. Havia canteiros bem alinhados, árvores de não sei o quê, hortelã, couves e alfaces. Para qualquer pessoa normal, era um cenário agradável. Para mim, era um campo de batalha onde se decidia o futuro da minha vida amorosa. Ela falava disto e daquilo, ria-se de pequenas coisas e caminhava com uma naturalidade que me deixava ainda mais apaixonado. Eu ouvia tudo, embora metade do que ela dizia se perdesse numa região obscura do meu cérebro, ocupada por uma pergunta essencial:
- Será que ela gosta de mim?
A pergunta acompanhava-me como uma mosca persistente. A certa altura, parámos junto de um canteiro
Ela inclinou-se para observar umas plantas, e eu, tomado por um súbito impulso de galanteria, resolvi mostrar que também tinha conhecimentos práticos.
- Aquilo são tomates — disse eu, apontando para um canteiro.
Ela olhou, depois olhou para mim.
- Sim. São tomates.
A minha reputação intelectual sofreu ali um golpe difícil de reparar.
Ainda tentei recuperar.
- E aquelas são couves.
- São.
Estava a correr lindamente. Mais cinco minutos e eu estaria habilitado a dar consultas de horticultura.
Decidi mudar de estratégia. A ciência não me levaria ao coração daquela mulher. Talvez o humor. Contei-lhe uma anedota que ouvira na véspera. Uma anedota excelente, na minha opinião, capaz de provocar gargalhadas até num funeral pouco concorrido. Ela sorriu educadamente. Apenas sorriu. A anedota, que eu considerava uma obra-prima do humor universal, morreu ali, entre um pé de salsa e duas alfaces. Comecei a desconfiar de que as hortas não eram o lugar ideal para conquistar uma mulher. Mas também não podia desistir. Um apaixonado de 1973 não tinha redes sociais, mensagens instantâneas nem coraçõezinhos digitais. Tinha de trabalhar com o que havia, uma esperança desproporcionada.
Continuámos a caminhar, à vezes a correr. Acho que corríamos mais rápido que o rio que me parecia quase seco.
Foi então que ela me atirou:
-Estás agora tão calado. Em que estás a pensar?
Meu Deus!
A oportunidade! A grande oportunidade! O destino abrira uma janela e eu tinha de saltar por ela antes que alguém a fechasse. Pensei em dizer-lhe: Estou a pensar em ti desde que acordo até me deitar. Quando não estás, imagino-te. Quando estás, não sei o que dizer. E agora que estás aqui, só consigo distinguir tomates de couves. Mas não disse nada disso. A coragem, como certas plantas, precisa de condições favoráveis para crescer. E naquele momento estava tudo contra mim: o calor, a timidez, o medo do ridículo e uma couve particularmente grande que parecia assistir à cena.
-Nada de especial — respondi. - Estava a pensar de como é bonita a vida no campo.
Ela sorriu.
- Ah! Também penso muito na vida. - e começou a contar-me os seus planos para o futuro. Queria estudar, queria fazer isto, queria fazer aquilo. Tinha sonhos, ambições e uma determinação que eu admirava profundamente. Enquanto ela falava, percebi que gostava ainda mais dela. Não era apenas bonita. Era inteligente, tinha personalidade e sabia o que queria. Tinha uma vontade férrea e uma certeza absoluta.
Eu também sabia o que queria mas era uma coisa mais limitada no tempo. Queria beijá-la ou apenas dar-lhe a mão. Havia ali uma diferença importante entre nós, ela tinha planos para o futuro; eu tinha planos para os próximos cinco minutos. E esses planos estavam a correr muito mal.
Quando regressámos, o passeio tinha sido um sucesso para ela. Tinha visto as hortas, conversado, respirado ar puro e dado uma caminhada agradável. Os pais estavam felizes. Sorriam e perguntavam coisas que eu nem tinha reparado que lá estavam. A Cacimba... não vi. Os tractores também não vi. A casa dos trabalhadores, não encontrei. Para mim, tinha sido apenas uma tragédia sentimental com apontamentos de botânica.
Chegámos a casa e ela despediu-se de mim com um sorriso e um simples:
- Gostei muito do passeio. Temos de repetir!
Temos de repetir! Durante os segundos seguintes, senti-me o homem mais feliz de Moçâmedes. A frase parecia conter uma promessa, um compromisso, talvez até uma intenção matrimonial escondida nas entrelinhas. Passei o resto do dia a analisá-la enquanto via o tal de pôr-do-sol, que era sempre lindo mas naquele dia não passou de cinco minutos a rever uma matéria devastada pela timidez. Temos de repetir significava que gostava de estar comigo? Que queria conhecer-me melhor? Que estava à espera de uma declaração? Ou que simplesmente apreciara o passeio e achava que eu era uma companhia razoável para caminhadas rurais? Não cheguei a uma conclusão.
O que sei é que, em 1973, um homem pode percorrer quilómetros ao lado da mulher dos seus sonhos e continuar a não sair do mesmo sítio. Eu tinha ido às hortas para conquistar um coração e regressara com conhecimentos razoáveis sobre tomates, couves e alfaces. Quanto ao coração dela, esse continuava por cultivar. E o mais extraordinário é que, durante muitos anos, sempre que via uma horta, lembrava-me daquele passeio e sorria. Não sei se ela alguma vez percebeu que, naquele dia, eu estava perdidamente apaixonado. Talvez tenha percebido e fingido que não. Talvez nunca tenha desconfiado de nada.
Há uma coisa de que tenho a certeza, se o amor fosse uma cultura agrícola, em 1973 eu teria sido um péssimo agricultor. Reguei a esperança, adubei a imaginação, plantei sonhos e esperei pacientemente pela colheita. Só me esqueci de uma coisa essencial. Nunca perguntei à terra se queria dar frutos. E assim, entre uma couve e uma alface, lá ficou o meu primeiro grande projecto agrícola-sentimental. Sem colheita, é verdade. Mas com uma história que ainda hoje me faz rir.
Agora aqui sentado no sofá olho e vejo que a juventude tem destas coisas, a gente pensa que vai conquistar o mundo, começa por tentar conquistar uma rapariga e acaba a descobrir que o único ser que nos deu atenção durante toda a tarde foi um tomateiro. E esse, convenhamos, também não me pareceu particularmente apaixonado.













