Há decisões que mudam uma vida: casar; mudar de emprego; comprar uma casa. E depois há a decisão que eu tomei numa bela manhã de confinamento: jogar padel.
A culpa foi dos amigos. É sempre dos amigos. Nunca ouvi ninguém dizer que foi assaltado pela sua imprudência ou que foi o bom senso que o meteu nisto. Não. Foram os amigos.
O que eles me disseram:
- Tens de experimentar!
- É divertido!
- É fácil!
- Qualquer pessoa joga!
Desconfiei logo, ainda mais da última frase. Sempre que alguém diz que qualquer pessoa consegue fazer alguma coisa, normalmente está a referir-se a pessoas que nasceram com talento, equilíbrio e articulações ainda dentro da garantia. Há anos que a minha garantia se foi e não há a quem reclamar.
Mas lá fui sem bem saber ao que ia. Vi no Youtube uns três vídeos. Percebi o mecanismo da coisa. Paredes de vido, uma rede a meio e uma tábua na mão como brinco na praia.
Cheguei ao campo equipado como quem vai disputar a final de Wimbledon. Ténis novos próprios para o padel segundo o empregado da loja, roupa desportiva impecável e uma raquete alugada na mão. Na verdade sentia-me um atleta. Durante aproximadamente três minutos que entrei no retângulo eu senti-me confortável e confiante.
O primeiro problema foi descobrir como se segurava a raquete. Uns diziam que era como quem pega num martelo e eu a pensar como é que seria uma coisa que nunca tinha pensado. Mas como raio eu pego um martelo. Como é que eu com o martelo ia bater no raio da bola se quase mal a vejo? O segundo foi perceber que a bola não colaborava minimamente com os meus planos. Eu pensava ia dirigi-la para ali e ela, por vontade própria ia para acolá.
No aquecimento, a bola passou por mim várias vezes. Não porque fosse rápida, mas porque eu era optimista, preguiçoso ou estava a faltar-me qualquer sentido posicional. Calculava a trajetória, preparava-me para o golpe perfeito e, no último instante, a bola escolhia outro destino que não o que eu tinha desenhado para a receber.
Parecia ter vontade própria a maldita amarelinha.
Quando finalmente consegui acertar-lhe duas vezes seguidas, foi um momento de glória. Infelizmente, a bola, à segunda, saiu do campo, atravessou a vedação e quase foi pedir nacionalidade ao concelho vizinho.
Os meus colegas foram pacientes.
- Muito bem! — gritavam. - Vais lá!
Eu conheço aquele muito bem. É o mesmo que se usa quando uma criança desenha um cavalo que parece um aspirador avariado ou um pai que só tem pernas e cabeça.
Depois descobri a particularidade mais intrigante do padel: as paredes.
Passei uma vida inteira a aprender que bater contra paredes era um erro. E várias vezes as bati com a cabeça. De repente, encontro um desporto onde a bola bate na parede e toda a gente acha normal.
A certa altura, fiquei tão concentrado a seguir a bola que dei por mim a rodar em círculos dentro do campo, como um cão a tentar apanhar a própria cauda e ainda por cima ria.
Houve um momento particularmente humilhante em que corri para a frente, recuei, avancei outra vez, olhei para cima, olhei para os lados e, no fim, a bola caiu calmamente ao meu lado, sem que eu lhe tocasse. Parecia que estava a observar um documentário sobre a minha incompetência.
Ao fim de noventa minutos eu estava exausto. Descobri músculos cuja existência em mim desconhecia. Alguns deles, suspeito, pertenciam a outras pessoas mas vieram doer em mim.
No dia seguinte, acordei com dores em locais do corpo que nem sequer aparecem nos livros de anatomia. Para me sentar precisava de um plano estratégico. Para me levantar, de muita fé.
Mas, estranhamente, gostei. Amor violentamente apresentado à primeira vista.
Talvez porque o padel seja uma metáfora da vida. Corremos atrás de coisas que nos escapam, batemos contra paredes, falhamos bolas fáceis e, de vez em quando, acertamos uma pancada tão boa que de imediato esquecemo-nos de todas as outras que falhámos.
Ou talvez porque, no fundo, gosto de fazer figuras ridículas desde que tenha testemunhas suficientes para se rirem comigo e de mim.
Seja como for, já logo combinei novo jogo para a semana seguinte, esperando ter recuperado muscular e mentalmente daquele primeiro dia.
Passei a ir mais bem preparado.
Passei a levar uma raquete que comprei, suave, com bom controle e boa saída apesar de faltar um jogador na extremidade da mesma, água... e um fisioterapeuta de prevenção.