Brincar na praia era uma actividade de esforço bruto e imaginação pura.
Depois foi a fase em que era preciso haver uma bola de futebol, embora jogar à bola na areia misture o pior de dois mundos: a gravidade da Lua e o atrito de uma lixa de carpinteiro. O jogo terminava sempre quando a bola, impulsionada por um chuto mais entusiasta e menos certeiro, aterrava em cima da barriga de um senhor que tentava dormir na toalha ao lado, ou ia mar dentro. O pedido de desculpas era um ritual sagrado, feito com os pés a queimar na areia quente e aquele sorriso de quem sabe que quase causou um incidente diplomático mas que daqui a minutos repetiria.
Depois foi a fase com que comecei este meu diário, que pode ser mensário ou sem periodicidade. A paixão segundo a idade. Era linda. A idade, claro. Mas ela foi-se alterando e não tem nada a haver com as alterações climáticas. Coisas próprias da vida. Hoje em dia, a brincadeira na praia modernizou-se. O clássico balde e a pá de plástico amarelo dão agora lugar a uma parafernália tecnológica e desportiva digna de uns Jogos Olímpicos de Verão, ou uma dor cervical associada a um lacrimejar.
Vejamos: olhamos para o lado e vemos as raquetes de praia a se tornarem no desporto nacional por excelência. Há sempre uma dupla que joga como se estivesse na final de um qualquer torneio, projetando a bola a velocidades supersónicas, enquanto o resto dos banhistas faz desvios acrobáticos para não perder um dente nem levar um estalo de uma tábua. Não tarda, ainda vemos alguém a tentar marcar um campo de pickleball na areia molhada e a tentar explicar as regras à beira-mar, ignorando o facto de que uma onda mais atrevida pode levar o equipamento todo até Marrocos: olhamos para outro e vemos alguém sentado, corcunda, a olhar um smartfone, numa concentração tal que nem uma onda gigante lhe ia acordar daquele estado quase hipnótico.
Mas há algo que o progresso não muda: o lanche. Ninguém sabe explicar o fenómeno científico, mas a verdade é que a areia tem asas. Pode não haver ponta de vento, podemos estar resguardados sob três chapéus de sol e a usar pinças cirúrgicas, mas no momento exato em que se pede uma mítica bola de Berlim, com creme, obviament ou se abre uma simples sandes, a areia aparece.
E nós, com a resiliência típica de quem está de férias, mastigamos aquele crocante marítimo com um orgulho poético. Faz parte do paladar à beira mar sentado, dizemos nós para consolo. Ir à praia e não comer pelo menos três gramas de sílica por via oral é o equivalente a ir a Roma e não ver o Papa.
No final do dia, vermelhos como lagostas apesar das três camadas de protetor fator 50, regressamos ao carro. Sacudimos os pés, batemos os chinelos, mas todos sabemos a verdade universal: a brincadeira na praia só termina verdadeiramente três meses depois, quando ainda encontramos grãos de areia escondidos no fundo da mala do carro. E aí, com um sorriso nostálgico, percebemos que a praia nunca sai verdadeiramente de nós.
E assim, numa sexta feira fui à praia, com diferentes idades e não sei se esqueci alguma ida mais especial que a de estar sentado nas arcadas a contemplar o meu futuro.



