A Minha Sanzala
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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
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- PERTINÊNCIAS 13 - Por Dentro do CHEGA
- Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião
- Pertinências 15
- Pertinências 16 - As Abelhas
8 de julho de 2026
Programa K'arranca às Quartas 126
Pertinências 16 - As Abelhas
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
7 de julho de 2026
eu fui ver a bola
Há quem veja futebol pela táctica. Outros pelas fintas, pelos golos ou pelo ambiente. Eu vejo pela esperança. E, curiosamente, é exatamente ela que costuma sair derrotada. Quantas vezes eu fui no campo pelado perto da esatação dos comboios ver o Matela, o Travassos, o Leopoldo ou Bitacaia se atirar no ar feito era passarinho num voo picado e segurar a bola. Ainda me lembro do Monteiro da Costo ou do Neto do Independente. Mas quem ganhava era sempre o Marcelino lá da Chela que voava mais alto.
O ritual começava sempre igual. Uma hora antes do jogo já estava convencido de que "hoje é diferente". A equipa deve ter treinado bem, o treinador, o Sr. Bauleth e o avançado prometeram marcar muitos golose até o Zé Manel Frota disse:
- Hoje é a reviravolta da época.
Pronto. Caiu-me a armadilha.
Sento-me na micro bancada como quem vai assistir a um documentário sobre vitórias. Dez minutos depois já estou a discutir com a paciência, como se o lateral esquerdo conseguisse ouvir-me através do silêncio e transmitisse lá para dentro que a velocidade não significa jogar parado.
- Cruza a bola! - gritei como se eu percebesse o que estava a dizer
Ele não cruza.
- Agora remata! - voltei eu a gritar
Ele faz um passe para trás.
Começo a perceber que a minha equipa tem uma filosofia de jogo muito própria: fazer o adepto acreditar até ao último minuto... e desiludi-lo precisamente nesse instante.
Quando sofremos um golo, entro na fase da negociação.
-Não faz mal. Foi um acaso. O Flávio não queria fazer aquilo.
-Ainda falta muito? - pergunto ao vizinho do lado que não me responde.
Cinco minutos depois sofremos o segundo e eu já estou a procurar explicações científicas. Talvez o tereno esteja duro, ou o campo estivesse inclinado. Talvez o árbitro tenha confundido as balizas. Talvez a bola tivesse um íman escondido. Na verdade ainda não percebi se eles são mais que nós ou somos nós que não sabemos ganhar. Matela, Travassos, Leopoldo, Bitacaia e antes o Monteiro da Costa era igual. Iam buscar várias vezes a bola dentro da baliza. É curioso eu não perceber nada de futebol. Talvez o Rui Moutinho fizesse ali uns dribles para a gente dizer olé, mas afinal é o Armandinho que nos baila.
O mais curioso é o pós-jogo. Na Oásis não se falou de mais nada. Jurei solenemente que nunca mais ia ver futebol.
- Acabou! Não volto a sofrer por isto. - disse em voz alta, mas por acaso esva sozinho a caminhar para casa cabisbacho.
Passam uns dias. Sai a convocatória para o próximo jogo que seria lá na Serra da Chela. Leio no Namibe e disse:
- Desta vez é que vai ser.
E lá estou eu, desta feita ouvido no rádio, equipado com uma fé inabalável, pronto para assistir a mais noventa minutos de terapia desportiva. O Zé Manel e o Edgar vão fazer o relato. Foi só mais uma vez.
No fundo, o verdadeiro campeão não é quem levantou a taça. É quem continuou a acreditar depois de ver a sua equipa transformar um 0-2 num inesquecível 0-3, sempre para os lados de cima e ainda sorrir com esperança que um dia conseguiria derrotar os mapundeiros.
6 de julho de 2026
a minha cidade
O parque infantil da minha cidade, que em tempos pareceu um
recreio de todas as escolas, ganhou um eco tão grande que agora basta um espirro para assustar os
pombos, andorinhas e borboletas durante meia hora.
Mesmo assim, quando a minha cidade existia de papel passado e assinatura reconhecida, havia dias estranhos.
No verão, que nela era em Março que até tinha Mar e Março nos cartazes por toda a cidade, chegavam carros de matrícula ASB. E a gente sorria ao ver sair deles gente branquinha que acho nunca tinham visto sol até naquele dia que chegavam na minha cidade
As ruas enchiam-se de abraços, malas,
crianças aos gritos e avós a distribuir comida suficiente para alimentar um
batalhão. Era a festa de família que ali tão perto se viam de ano a ano, à torreira do sol e no salgado do mar.
Durante quinze dias a cidade voltava a
acreditar que podia ser uma cidade de Cê grande.
Os cafés faziam horas extraordinárias e as esplanadas passavam a ser pequenas.
A padaria esgotava o pão. A Quintanda deixava cedo de ter frescura verde e fruta de gosto.
Ao fim da tarde os bancos de jardim tinham fila de espera. A avenida virava mar de gente que punha as palavras em dia num interminável gosto de estar. Fazia-se balanço da vida e até o relógio da praça parecia mexer um dos ponteiros, só para não parecer completamente desinteressado.
Mas Abril aproximava-se com a delicadeza de um carteiro que traz más notícias e as malas voltavam às bagageiras, os abraços ficavam mais demorados e os beijos secavam as lágrimas das promessas feitas. Para o ano há mais verão na minha cidade, dizia-se quando ela existia de vida passada. O tempo estava escondido porque se dizia havia tempo de sobra.
Nesse tempo a cidade não perdia habitantes apesar de haver ausências.
Agora a ausência virou constância e a cidade não existe de certidão e papel carimbado, ela é mais uma cidade de memória, com memórias nas conversas levadas pelas brisas de reencontros furtuitos em bancos de jardim de certa idade madura.
Mas eu tenho saudade dos bancos de madeira do jardim onde os meus avós se sentavam nas tardes de domingo. Eu tenho saudade dos escorregas do parque onde todos os recreios eram brincadeira de escola. Eu tenho saudade dos tempos em que o meu corpo não conhecia a força da gravidade e o meu cérebro não ouvia o chamar da terra.
A minha cidade tem ruas mas não as ruas que eu corri de sandálias e calções. Hoje as ruas são passagens de memória, becos de recordações, flashes de sonhos. Hoje a minha cidade não tem cheiro, não sabe a maresia nem tem brisa carregada de areia amarela do deserto.
O tempo pode levar habitantes, mas nunca conseguirá levar o coração da minha terra.
Esse continua sempre à espera de quem
regresse… nem que seja só para matar saudades e dizer, como todos dizem, antes
de voltar à estrada:
- Um dia ainda venho para cá viver.
O tempo sorri.
Já ouviu essa frase milhares de vezes.
Mas, no fundo, até ele gostava que um dia
fosse verdade.
5 de julho de 2026
A Saída da Missa
A missa de domingo termina sempre da mesma maneira: com um "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe" e dita esta frase pelo Padre Dinis eu já cheguei à Igreja faz um tempinho e estou no lado de lá da estrada, do lado da falésia, umas vezes a olhar o mar outras a olhar para dentro a imaginar.
Mal o padre diz as últimas palavras, há quem agradeça tão depressa que já vai no terceiro banco antes do coro acabar o último acorde. Parece que a fé é profunda, mas o ar cá fora é mais puro.
À porta, porém, acontece o verdadeiro milagre. Quem lá dentro esteve uma hora em silêncio transforma-se num comentador profissional da vida alheia.
— Como está?
— Vou andando...
— E o reumático?
— Anda mais depressa do que eu.
Esta seria a conversa dos mais velhos que vêm á missa das 6. Poucos estão a esta hora. É a missa dos jovens.
às seis, duas senhoras trocariam receitas de bacalhau como se estivessem a negociar tratados internacionais. A esta hora é mais o que vais fazer a seguir.
- Eu vou para a praia?
- Eu também. Vou como os colegas. E tu?
- Vou com os meus pais.
- Que achaste o serão de hoje? Não percebi onde ele queria ir...
- Não faço ideia... mas gostei muito da parte em que o padre levantou a voz. Dá sempre mais convicção.
As crianças da catequese, que sobreviveram heroicamente aos sessenta minutos sem correr pela igreja, explodem finalmente em energia. Correm pelo passeio como se alguém tivesse carregado no botão "libertar" e elas se sentem livres.
Os mais velhos, que vieram só para tomar contas das mais novas, despedem-se pela décima vez.
— Então, até para a semana!
— Se Deus quiser.
— E se a minha mulher deixar.
Toda a gente ri. Até a mulher.
Ao fim de meia hora, metade das pessoas continua à porta da igreja. Afinal, a missa durou uma hora, mas o convívio pós-missa é que é verdadeiramente eterno. É assim um repositório de conversas adiadas, de dizeres que a semana esqueceu.
E há uma conclusão inevitável: a fé reúne as pessoas lá dentro. Mas é cá fora, entre apertos de mão, gargalhadas, receitas, futebol e promessas de café que a comunidade faz o seu segundo acto litúrgico sem precisar de missal. E outros, como eu e mais alguns, ficam babados a vê-las saírem como a sua roupa dominical, o seu ar angelical e beatificadas sorrindo.
Até para a semana, na mesma saída de missa, porque agora vou para a praia ver se quem não foi à missa já lá está.
3 de julho de 2026
Na minha cidade o tempo é Presidente da Câmara
O primeiro a abandonar a cidade foi o
relógio da praça. Ouviram-se tiros, criaram-se boatos, desapareceram sentimentos e as verdades evaporaram-se num cacimbo cerrado que até hoje ninguém mais encontrou. Uns ainda vão na sua procura, mas não encontram. O espaço está, o ar desértico está, mas falta aquela coisa que a gente sentia e não explicava. As palavras não têm significado para descrever o que é a minha cidade. É só a minha cidade, num ponto paragráfico e já está dito e explicado.
E o relógio de quando em vez volta a parar. A minha cidade perdeu mais um, levado pelo tempo. Não por avaria, só mesmo porque chegou o tempo dele deixar a cidade. Um dia vai chegar o meu tempo e eu deixarei a minha cidade, mesmo que contrariado. Nunca por cansaço, apenas porque chegou o tempo.
Nunca ninguém me ouvirá dizer:
- Já vivi horas suficientes. Agora
desenrasquem-se sem mim. Mas eu sei que o tempo tem limite mesmo que incógnito.
Ninguém consegue reparar o tempo ou enganá-lo. Afinal,
naquela terra todos sabiam as horas. Eram sempre “quase hora do almoço”, “daqui
a bocadinho”, ou “já é tarde para isso”. Era assim o tempo na minha cidade antes do relógio da praça ter parado de dizer à sua gente o tempo que era. Hoje o tempo, que ninguém diz, vai levando um a um e a minha cidad, vai perdendo gente por causa do tempo que passa.
No tempo em que havia o relógio da praça, desapareciam crianças porque cresciam. Apareciam outras e outras. Hoje na minha cidade não aparecem crianças porque na minha cidade faz tempo que o tempo deixou de ter tempo para ver as crianças nascerem. Eram as pessoas da minha cidade, aquelas que respiravam o mesmo ar, que sentiam a mesma areia, que mergulhavam no mesmo mar. Hoje aquele espaço existe. Tem crianças, tem gente que mergulha no mar, que brinca, que corre, que ri que chora, mas não são da minha cidade porque a minha cidade mudou-se quando o relógio da praça deixou de dizer as horas.
É um fenómeno pouco estudado, mas muito frequente. Um rapaz de doze anos acorda um dia com vinte e cinco, milhares de quilómetros de distância. Promete voltar um dia. Depois descobre que os fins de semana também envelhecem, que os meses passam a anos e décadas depois o tempo escasseia.
Os senhores que discutiam futebol na minha cidade já foram faz tempo levados por ele, o tempo que passa. Hoje há senhores que se calhar no mesmo lugar continuam a discutir futebol, mas não são os da minha cidade.
Hoje, se encontrar alguém da minha cidade a conversa que terei será tão antiga que um dos dois vai tossir por causa do pó das palavras. Olhando para as minhas conversas conversadas em papel vejo que elas até têm musgo.
Hoje a minha cidade tem mais silêncio do que conversas. As esplanadas da vida levaram as palavras, a areia do deserto enterrou frases. Hoje sobra o silêncio que de quando em vez lhe interrompo para dizer de memória as coisas que não visitei por preguiça e que agora poderá faltar-me tempo.
Nunca ninguém arranjou um relógio novo para a praça! Se calhar não ia ser a mesma coisa e a minha cidade, esta que eu lhes estou a contar, não existiria. Nesta minha cidade os cães ladram devagar porque só os tenho na memória e esta já não corre como corriam os discos de 33 rpm nem os de 45 rpm.
Hoje a minha cidade leva cada silêncio a ser merecido.
Sanzalando
2 de julho de 2026
O dia em que quase conquistei o ringue ou antes pelo contrário
1 de julho de 2026
Programa 125 - K'arranca ás Quartas
30 de junho de 2026
Pertinências 15 - Concerto dos Terrakota
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
26 de junho de 2026
eu e Babel
Diz o mito que Deus baralhou as línguas em Babel para castigar a vaidade humana, e espalhou a confusão. Claramente, quem escreveu essa história lá nunca tentou pedir um café numa esplanada na Praia da Rocha ou em Alvor. Babel não foi um castigo, foi o ensaio geral para a cidade moderna.
Hoje, entrar num elevador ou caminhar pela rua é mergulhar numa polifonia absurda. À esquerda, discute-se o mercado num inglês nórdico; à direita, gesticula-se em espanhol; ao fundo, negoceia-se em mandarim e por cima voa um avião americano feito com chips da China e coisas da Coreia.
O verdadeiro milagre, contudo, opera-se numa cafetaria qualquer. Isto é, já não as há. Mas nos similares que têm nome pomposo onde antes se pedia um galão e uma torrada, hoje exige-se um flat white com leite de aveia e um avocado toast em pão de sourdough. O cliente, baralhado perante os hieróglifos do menu, tenta pagar com uma nota de dez euros. O funcionário, um jovem estrangeiro em ano sabático, olha para o dinheiro como se fosse um artefacto do Neolítico. MbWay please! Não partilham mais nenhuma palavra, mas a transação faz-se com um aceno de cabeça universal.
Na rua, a sinfonia ganha rodas. Condutores de Uber guiam-se por vozes robóticas, turistas em trotinetes gritam "Sorry!" enquanto galgam passeios, e ciclistas tentam explicar por gestos que a ciclovia não é uma passadeira.
Se o plano original de Babel era separar-nos pela incompreensão, falhou redondamente. A cidade moderna criou a sua própria língua franca: o desenrascanço. É o idioma de quem se entende por mímica, sorrisos e Google Maps ou Waze.
A nossa torre contemporânea continua de pé, tem Wi-Fi e não cai. No fundo, descobrimos o que os babilónios esqueceram: para conviver, não precisamos de falar a mesma língua. Só precisamos de partilhar o mesmo espanto por estarmos todos no mesmo caos.
25 de junho de 2026
eu e o futebol de rua
Na minha rua havia uma regra sagrada, escrita em lugar nenhum, mas respeitada por toda a gente: quem fosse o dono da bola jogava sempre.
Era uma espécie de Constituição da República do Futebol de Rua, ainda a gente nem sabia havia Constituição
Não interessava se o rapaz corria como um armário ou avestruz, não interessava se confundia um passe com um remate ou se tinha medo de cabecear porque despenteava. O dono da bola era titular absoluto.
E esse dono, às vezes era eu.
O problema é que Deus distribuiu talento futebolístico pelos meus amigos todos e, quando chegou à minha vez, já devia estar na pausa para café ou tinha ido à casa de banho. Tinha bola mas faltava-me o tal de jeito. Era assim um tipo mais de uma verdadeira queda vertical no gráfico da eficácia chutativa.
Os outros faziam fintas. Eu fazia acidentes em que o acidentado quase sempre era eu.
Eles dominavam a bola com o peito. Eu dominava-a com a testa, com as costas ou canela e sempre sem querer.
Quando me gritavam:
— Passa!
Eu passava, quase sempre ao adversário.
Era uma visão democrática do futebol, quando esta palavra era altamente proibida. Eu acreditava que todos tinham direito a tocar na bola, incluindo a equipa contrária.
Mas ninguém se atrevia a dizer:
— Não jogas.
Porque a resposta era imediata:
— Então a bola também não joga.
Seguia-se um silêncio dramático.
A bola debaixo do braço tinha um poder que nem o melhor árbitro do munndo possuía.
Começavam logo as negociações.
— Está bem jogas à defesa.
Cinco minutos depois alguém da minha equipa dizia:
— Se calhar ficas melhor a guarda-redes.
Outros cinco minutos depois:
— Sabes que mais? Fica ali no meio-campo mas sem mexer muito, para ver se não atrapalhas o Zé.
No fundo, tinham acabado de inventara a posição de obstáculo humano. Eu não marcava ninguém, mas ocupava espaço. Havia dias em que nem tocava na bola. Ainda assim, era considerado um jogador importante, porque, sem mim, não havia jogo.
A minha carreira futebolística viveu sempre desse paradoxo extraordinário: era o pior jogador em campo e, simultaneamente, o mais indispensável.
Nunca marquei um grande golo e só por acaso também não me lembro de nenhum pequeno.
Marquei, isso sim, muitos postes de iluminação já que ficávamos muitas vezes lado a lado e só não à conversa porque ele era o candeeiro e eu não sou parvo.
Uma vez rematei com tanta força que a bola foi parar ao quintal da Dona Teodora. A bola voltou três dias depois. Eu ainda hoje desconfio que ela lhe deu um castigo por mau comportamento ou estava com pensa da minha fraca evolução desportiva.
Quando os meus amigos gritavam:
— Chuta para a baliza!
E eu obedecia... desde que a baliza estivesse aproximadamente na direção para onde a bola saía, naquele acaso.
Discutia-se meia hora.
Se existisse VAR naquela rua, ainda hoje estávamos a analisar o lance.
O mais curioso é que ninguém queria saber de contratos milionários, chuteiras de última geração ou relvados perfeitos.
A bola já tinha perdido a cor original, levava remendos, parecia ter sobrevivido a três guerras e dois carnavais. Mas era a melhor bola do mundo, porque era a minha e era a única maneira de eu jogar.
Hoje, vejo crianças com equipamentos iguais aos dos grandes clubes, bolas oficiais, aplicações que contam os quilómetros percorridos e relógios que medem o ritmo cardíaco.
Nós medíamos outra coisa: quantas vezes a mãe chamava da janela até decidirmos ir jantar.
E esse era o verdadeiro apito final.
Nunca tive jeito para jogar à bola.
Mas tive o privilégio de ser dono da bola.
E, olhando para trás, percebo que, na infância, ter a bola era muito mais importante do que saber jogar.
Porque o talento fazia ganhar partidas. Mas a bola fazia nascer amizades que ainda hoje continuam a vigorar, como aquelas tardes intermináveis em que o campeonato só acabava quando desaparecia a luz do dia ou quando alguém levava a bola para casa debaixo do braço, lembrando a todos quem era, afinal, o verdadeiro presidente da federação da rua.











