Hoje vou dar um nome à personagem, não vão pensar eu estou a falar de mim. É verdade, mesmo que não seja assim como eu vou contar. Na minha cabeça é, no meu talento vamos ver.
O João sempre teve duas ambições perfeitamente incompatíveis já que sonhava com a glória de deixar o seu nome gravado na história, mas tinha pavor, quase religioso, de que alguém reparasse nele e lhe apontasse o dedo.
Em 1970, com a cidade embalada num cinzento empoeirado e a música a sair dos aparelhos a válvulas chamados rádio de grande porte e pouco portáteis, o João tomou a sua primeira grande decisão de carreira. Queria ser o cérebro por trás dos grandes acontecimentos mundiais, o estratega invisível. Inspirado pelos filmes e começou por treinar a arte do disfarce. Não usava gabardina bege em pleno verão, nem óculos escuros quando nem havia sol. O resultado? Toda a gente na rua achava que ele era ele em carne e osso. A invisibilidade começava mal.
Nos anos que se seguiram, João percebeu que o verdadeiro poder residia nas finanças. Decidiu assim ser um magnata discreto. Comprou o seu primeiro fato, mas escolheu um tom de bege tão neutro que, quando se encostava à parede das Finanças para estudar a concorrência, o contínuo quase lhe pendurava o casaco em cima, confundindo-o com um cabide. Tentou negociar boas ações por telefone na rua, mas baixava tanto a voz para manter o segredo que o cliente do outro lado da linha julgava tratar-se de uma chamada de engano feita por um asmático, pelo que de imediato desligava. Desistir nunca, dizia. Foi mudando de ramo até que com a chegada de novo milénio e o nascimento da internet, João viu a oportunidade perfeita. Criaria o blogue mais influente da esfera lusófona, um espaço onde reis, presidentes e intelectuais iriam beber sabedoria. Para garantir a discrição, assinou sob o pseudónimo O Observador Silencioso. Mas foi mais longe na prudência: não contou a ninguém que o blogue existia, não partilhou o endereço e, por segurança, desativou os comentários. Durante anos, escreveu análises brilhantes que só foram lidas pelo motor de busca do Yahoo e depois pelo Google e, por erro, por uma senhora em Wisbaden que procurava uma receita de pão de ló e entrou no silencio do Obeservador Silenciado.
Nos anos 2010, veio a era das redes sociais. Para quem quer ser importante e invisível, o Instagram revelou-se um pesadelo técnico. O João queria ser um influencer de culto, uma espécie de guru enigmático. Criou uma conta, mas recusou-se a pôr fotografia de perfil, usava a imagem de um quadrado cinzento, não publicava fotos de comida e as suas stories eram vídeos de três segundos a focar o teto da sala em silêncio. Chegou a ter quatro seguidores, dos quais três eram contas falsas de venda de criptomoedas e o outro era a sua tia, que lhe ligou preocupada a perguntar se o teto tinha infiltrações.
Hoje em dia, em pleno 2026, João encontrou finalmente o equilíbrio perfeito. Domina a arte do trabalho remoto com câmara desligada e microfone sem fios e quase sem bateria. Nas reuniões por vídeo, a sua voz ecoa metálica, ditando sentenças sobre inteligência artificial e o futuro da humanidade, enquanto a sua imagem é apenas uma inicial branca sobre fundo escuro. É respeitado, ouvido e temido por colegas que nunca lhe viram a cara.
Na semana passada, no entanto, a consagração quase esteve ao seu alcance. Ao sair do supermercado, passou por uma reportagem de televisão. O repórter, que procurava o cidadão comum, apontou-lhe o microfone. Era o momento de ouro. A oportunidade de dizer uma frase histórica que figuraria nos manuais do século XXI.
O João olhou para a câmara, sentiu o peso do destino nos ombros, limpou a garganta com solenidade e... baixou a cabeça e murmurou:
- Não sou daqui, desculpe.








