Escrever por escrever é, muitas vezes, como tentar montar um móvel da pré-fabricado sem seguir o manual, termina-se com algo que não se parece em nada com uma estante, mas que tem uma personalidade admirável e, por obra do acaso, sobra um parafuso que decido guardar no coração, não vá um dia precisar dele.
Tantas vezes começou com uma caneta azul, da bic, que falhava e um guardanapo de papel folha simples aquele que se rasga só de se olhar com muita intensidade para ele e que às vezes está nas mesas numa caixinha com ranhura que faz lembrar o mealheiro dos tempos de criança, só com ranhura um pouco maior. Aqui para tirar e os outros era para pôr.
Quantas vezes não tinha a mínima ideia, mas em troca tinha uma grande vontade. Sentava-me à mesa, como ainda agora faço, só que já não de caneta na mão, e escrevia uma frase. A primeira que me viesse à cabeça. Um ovo estrelado parece o sol. Poético? Estado a fazer lembrar-me que tenho fome? Certeza ou dúvida? Como posso começar um romance com um ovo estrelado? Desenhei-o. Aos meus olhos era um ovo estrelado, aos olhos de quem poderia espreitar, se calhar era um borrão com um círculo no meio. O que tem um ovo a haver com um romance de amor, se calhar passado numa cidade tropical, se calhar em Paris, se calhar num simples lugar no meio de nenhures?
Olhava para a frase. Olhava para o desenho. e nada mais havia no papel.
Continuei a escrever frases soltas. Algumas sem nexo, outras lembranças de passagens lidas já nem sei onde.
E foi assim que tudo começou. É assim que tudo continua, com a diferença que já não há bic na minha mão, já não há guardanapo na caixinha nem desenhos a ocupar o tempo à espera da frase que pode dar início ao tal de romance.
Ainda no tempo do guardanapo, tenho uma história de ter uma lista de frases escritas. Olhava para ela a ver se alguma me dava a tal ideia. Passa uma amiga, espreita e diz-me:
- Pedido de namoro? A resposta é não!
Não não é, disse-lhe com firmeza e se calhar até chateado. Agora estar a espreitar para um papel particular. Onde já se viu. Logo ela continuou:
- Se é lista de convidados para uma festa não te esqueças de fulano que é meu namorado.
- Não. É a lista de compras! disse-lhe irritado e amachuquei o guardanapo de tal forma que ele se esfrangalhou em pedacitos.
Mas agora é diferente. No PC ou no telemóvel escrevo. às vezes palavras tão soltas que quase vão por wi-fi fora. E romance, nada! Não nasci para ser criador. Guardo palavras, algumas soltas e outras vadias, umas naufragas e outras circulam vagarosamente numa vagabundagem que até dá dó.
No final, escrever por escrever é esse acto de coragem. É permitir que as mãos corram mais rápido que o julgamento que alguém possa fazer ao espreitar para o guardanapo que agora pode ser tanta coisa, desde ecrán, tela, tablet, e-booker, ou mesmo uma folha de papel impressa.
Mas nem rascunho de romance, nem um mini-conto. Ah, tenho milhentas palavras escritas de felicidade, de vontade, de está tudo bem, mesmo quando as palavras saem de forma desordenada. Tenho versos sem poesia. Tenho silabas sem palavras. Virgulas sem pontos. Tenho vontade. Mas um dia a tal frase sairá e tudo vai ser como um dia eu pensei poderia ser.









