recomeça o futuro sem esquecer o passado

28 de maio de 2026

eles e a saudade da juventude

Me sentei na escadaria do Tribunal a olhar só assim até onde a vista, já cansada, consegue chegar. O pensamento, esse ficou dentro de mim a magicar. Acho o meu cérebro é fábrica de pensamentos que têm de ser traduzidos em letras e levadas ao papel.
Há gente que vive com tanta saudade do passado que, se pudesse, ainda pagava o café em escudos, escrevia cartas com mata-borrão e ia ao barbeiro ouvir relatos da bola num rádio a pilhas do tamanho de um frigorífico pequeno. 
Eu, confesso, começo a ficar cansado dos saudosistas profissionais. Não daqueles que recordam o passado com ternura, que isso até que é bonito. Falo dos outros. Dos arqueólogos emocionais. Dos que acham que tudo antigamente era melhor. Tudo! Como se os anos sessenta fossem uma mistura permanente de poesia, tremoços e pôr do sol em câmara lenta.

Conheço gente que sempre começa as frases com:

- No meu tempo… - como se o facto dele estar agora vivo não é tempo dele. Querem ver que ele faleceu e não me disseram, nem a ele?

No tempo dele, pelos vistos, nunca havia trânsito, as laranjas tinham mais sumo e sabor, os políticos eram sérios, os jovens respeitavam os mais velhos e as galinhas punham ovos com dignidade moral.

Uma vez ouvi-lhe dizer:
- Antigamente não havia depressões.

Claro. Havia era pessoas tristes em silêncio, a fumar AC ou Hermínios e a olhar para a chuva com ar cansado a ver se deixava de chover e aparecia o cacimbo. Eram assim cancibados.

Outro garante-me:
- A juventude de hoje não sabe divertir-se.

Diz isto enquanto passa três horas no Facebook a partilhar fotografias a preto e branco de linha de eléctricos que já nem existem, acompanhadas da legenda: Quando Lisboa tinha alma. Queres ver que Lisboa ficou Desalmada? Como se a alma da cidade tivesse fugido no último eléctrico da Carris, provavelmente sem bilhete.

Os retrogrados têm um talento extraordinário: conseguem transformar qualquer avanço moderno numa ameaça civilizacional. O multibanco acabou com a conversa. O telemóvel destruiu a família. A internet matou os cafés. O micro-ondas arruinou a humanidade. Qualquer dia culpam o comando da televisão pelo declínio do Império Romano.

E depois há os especialistas do sofrimento antigo:
- Nós é que sabíamos viver com dificuldades!

Pois sabiam. Também tomavam óleo de fígado de bacalhau sem anestesia e sobreviveram. Mas isso não significa que alguém queira repetir a experiência voluntariamente hoje.

O curioso é que os maiores defensores do passado adoram os confortos do presente. Dizem mal da tecnologia… mas ficam aflitos se o Wi-Fi falha durante quatro minutos. Criticam os jovens por passarem a vida ao telemóvel… enquanto procuram os óculos com a lanterna do próprio telemóvel e vasculham o telemóvel alheio à procura duma qualquer pista que leve à discussão. É que nos confortos do presente eles queriam viver o passado.

Há também uma certa romantização absurda da dureza antiga:
- Na nossa infância brincávamos na rua!

Sim. E muitos também apanhavam sovas monumentais e constipações épicas. A nostalgia é uma espécie de filtro do Instagram emocional: apaga as dores de costas e deixa apenas o cheiro do pão quente. 

Eu gosto de recordar o passado. Gosto mesmo. Mas sem transformar a memória num museu onde é proibido mexer nos móveis.

Porque, sinceramente, se o passado fosse assim tão perfeito, ninguém tinha tido tanto trabalho a inventar o futuro.

E depois há esta verdade simples: quase todos os saudosistas querem voltar ao passado… desde que levem antibióticos, comprimidos para a tensão, ar condicionado, GPS, Netflix e uma boa prótese dentária.

O que eles têm saudades, no fundo, não é do mundo antigo. É da juventude deles.




Sanzalando

27 de maio de 2026

Programa K'arranca às Quartas 120



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 27 de maio de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Hiperconectividade

A Hora das Estrelas de Clarisse Lispector

Hoje houve Esta Música tem uma história e DJOYA – “Súplica” numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais Os Morgans
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos o aniversário de Manuel Teixeira Gomes e não só
Tivemos o poema SABEDORIA, José Régio na voz de Joana Carvalho
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Esta Música tem uma História 61 -Djoya - Súplica - K'arranca às Quartas 120


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Tesourinhos Musicais 95 - Os Morgans - K'arranca às Quartas 120


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LIVRO - A Hora da Estrela - Clarice Lispector - K'arranca às Quartas 120


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Crónicas de Carlos Osório 19 - K'arranca às Quartas 120


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Crónica de João Portelinha da Silva (25) - K'arranca às Quartas 120


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Crónica 107 - K'arranca às Quartas 120


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26 de maio de 2026

Fui e agora pareço

Durante trinta e nove anos anos fui quase cirurgião e cirurgião, daqueles a sério. Bata impecável, olhar concentrado, mãos firmes e uma caligrafia tão má que até os farmacêuticos me telefonavam para confirmar se eu tinha receitado um antibiótico ou uma máquina de lavar roupa. Aqui estou a exagerar mas com o passar dos anos a minha letra passou de redonda a gráfico de eletroencefalograma.

A cirurgia era a minha vida. Abria, fechava, cosia, recomendava repouso e depois passava noites sem dormir porque os doentes insistiam em não cumprir nada do que eu dizia. Um dizia:
- Doutor, posso beber um copinho?
E eu:
- Não.
Dois dias depois aparecia feliz:
- Doutor, só bebi a garrafa toda porque o copo era pequeno.

Com os anos fui ficando cansado. Não da medicina e nem das pessoas. A medicina até evoluiu muito. As pessoas já começaram a chegar ao gabinete diagnosticadas pela internet, o tal Dr. Google.

- Doutor, tenho quase a certeza que é uma doença rara da Mongólia Interior ou de um qualquer país que só aparece no Risco
- O que sente?
- Um soluço quando espirro.

A certa altura percebi que já não queria operar ninguém. A última vez que entrei num bloco operatório dei comigo a olhar para a mesa de cirurgia e a pensar:
“Era tão bom estar agora numa esplanada a discutir futebol e o colesterol alheio.”

Reformei-me da cirurgia. Mas como médico nunca nos deixam em paz, comecei a dar pareceres.

E aí encontrei finalmente a felicidade.

Hoje sou homem de pareceres. Não corto nada, não coso ninguém e não tenho de acordar às três da manhã porque alguém decidiu engolir uma espinha de robalo atravessada na horizontal.

Agora sento-me muito direito, cruzo os braços, faço cara séria e digo frases importantes:
- Hum… é preciso avaliar.
Ou então:
- Convém vigiar.

As pessoas adoram. 

Outro dia um colega telefonou-me:
— Precisamos do teu parecer urgente.
Fiquei vaidosíssimo. Pensei que fosse um caso raro, complexo, dramático.
Era para combinar um almoço.

Mesmo assim dei um parecer técnico:
- Há aqui claramente uma deterioração progressiva, cada vez vêm menos aos almoços..

Hoje dou pareceres sobre tudo. Medicina, política, vizinhos, casamentos e até bacalhau à Brás que não tolero. O Brás merecia melhor que o tal de bacalhau..

A minha mulher pergunta:
- Gostas desta cortina?
E eu respondo:
- Em princípio sim, mas aconselho uma segunda opinião.

Há dias um amigo disse-me:
- Tu agora não decides nada.
Respondi:
- Exactamente. O segredo da felicidade está aí. Quem decide, compromete-se. Quem dá pareceres parece sempre inteligente e raramente leva com alguma culpa.

É uma profissão maravilhosa.

Os cirurgiões salvam vidas. Os homens dos pareceres salvam-se a si próprios.

E digo-vos mais: depois de uma vida inteira a abrir pessoas, descobri finalmente a grande verdade da existência humana…

Toda a gente quer uma solução.
Mas o que tranquiliza mesmo é ouvir alguém dizer, muito devagar:
- Isso… depende.



Sanzalando

25 de maio de 2026

Será?

Olho agora lá para trás. Me vejo e se fosse hoje?

Naquele tempo, brincar na rua era uma profissão de risco. Não havia capacetes, joelheiras, protetor solar nem psicólogos especializados em traumas provocados por quedas de bicicleta. Havia apenas duas coisas essenciais: joelhos esfolados e mães à janela a gritar o nome quase completo dos filhos, o que já significava que a situação estava grave.

A nossa rua era um autêntico parque temático da imaginação. De manhã era pista de carrinhos de rolamentos, à tarde campo de futebol e à noite território de cowboys internacionais, pelo menos segundo a nossa imaginação. Uma vassoura servia de cavalo. E um pneu abandonado era motivo suficiente para três horas de felicidade gratuita.

Hoje fala-se muito em brincadeiras educativas. As nossas eram educativas porque ensinavam logo física, medicina e sobrevivência. Aprendíamos gravidade quando caíamos de um muro. Anatomia quando descobríamos músculos novos depois de jogar à bola. E diplomacia quando era preciso decidir quem levava a bola para casa sem provocar uma guerra civil. Acho que não foi por isso que possa ser mal educado.

Havia sempre um rapaz mais velho que mandava em tudo. Tinha um joelho permanentemente ligado com adesivo castanho e dizia frases misteriosas como:
- Eu cá já fui às furnas sozinho. - ou qualquer outra coisa que era ousada para nós.

Ninguém sabia se era verdade, mas aquilo dava-lhe estatuto de aventureiro internacional.

Os jogos eram simples. Jogava-se à apanhada, às escondidas e ao futebol. Ah… o futebol! O grande problema do futebol de rua era a baliza. Nunca havia postes verdadeiros. Usávamos pedras, chinelos ou pastas da escola com livros dentro.

E havia sempre um vizinho que odiava bolas. Bastava a bola tocar no muro dele para surgir à janela como um juiz:
- QUALQUER DIA FURO ESSA BOLA! - que até se ouvia na rua ao lado

Curiosamente, ameaçava aquilo desde 1900 e nunca furava nada, pelo que contavam os mais velhos que ali também moravam e já ali tinham brincado. Talvez porque também estivesse entretido a ver o jogo ou se lembrasse que também já foi jogador daquela idade.

As bicicletas merecem um capítulo à parte. Naquele tempo havia sempre uma bicicleta comunitária. Não tinha travões, o selim estava torto e a corrente saía a cada dez metros. Mesmo assim era tratada como um Ferrari italiano legítimo.
- Dá uma volta mas não estragues! - dizia o dono que o era numa décima mão.

E as correrias? Corríamos por tudo e por nada. Corríamos atrás da bola, atrás da tifa, do carro do Lã dos gelados, atrás do amigo que tinha roubado um berlinde… e às vezes corríamos apenas porque alguém começava a correr. Ninguém perguntava porquê. O instinto dizia:

“Se os outros fogem, foge também.”

As mães tinham métodos educativos muito avançados. Hoje existe controlo parental. Antigamente existia:
- Às oito em casa! - sabendo elas que nenhum de nós tinha relógio. Mas era indiferente. Não importava onde estivéssemos. Às oito menos cinco começávamos todos a regressar lentamente, suados, sujos e felizes, como pequenos mineiros.

O mais extraordinário era isto: passávamos o dia inteiro na rua sem telemóveis, sem internet e sem baterias portáteis. A única bateria que interessava era a da lanterna quando faltava a luz e alguém dizia:
- Vamos contar histórias de fantasmas!

Cinco minutos depois já estava tudo borrado de medo, mas ninguém admitia.

Hoje, quando vejo uma criança a carregar um tablet maior do que ela, penso com ternura nos nossos tempos. Nós não tínhamos Wi-Fi ou telemóvel, mas tínhamos uma coisa muito mais forte: o assobio. Esse sim… era a verdadeira notificação da felicidade.

Será que eu hoje conseguia brincar como brinquei?

Sanzalando

24 de maio de 2026

Conversas à Mesa 7 - Habitação e Qualidade de Vida


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Conversas à Mesa 7 - Habitação e Qualidade de Vida






O Programa que se fez a 23 de Maio de 2026 no Restaurante Faina, ao lado do Museu de Portimão
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.













Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


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23 de maio de 2026

Bom Dia Mercado 15 - Rádio Portimão





Programa de Rádio feito no Mercado de Portimão, ao vivo hoje, 23 de Maio de 2026.
Convidados e música ao vivo. Tal e qual foi feito

Ouça-nos tal e qual lá estivemos







Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

22 de maio de 2026

esplanada, eu, o sol e o vento

O sol e o vento decidiram, hoje, partilhar a mesma cadeira de esplanada. É um daqueles dias em que a meteorologia parece sofrer de uma bipolaridade deliciosa: o sol queima-nos a nuca com a promessa de um verão eterno, enquanto o vento nos sussurra ao ouvido, com um hálito fresco de maresia, que a primavera ainda é quem manda.

À minha frente, o mar ignora este braço de ferro. Está naquela pose de espelho azul, onde as ondas mal se atrevem a desmanchar o penteado da costa. O vento passa, encrespa a superfície como quem faz cócegas à água, e o sol, logo a seguir, trata de polir cada crista com um brilho de espuma salpicada.

Fico eu, no meio deste diálogo mudo, a fechar os olhos para sentir o calor e a abri-los logo depois porque o vento me desarruma as ideias. É um equilíbrio precário, mas perfeito. Olhar o mar é isto: perceber que o mundo continua a girar, ora aquecido pela luz, ora empurrado pela brisa, enquanto eu apenas tento não deixar que o que resta do cabelo levante voo.



Sanzalando

21 de maio de 2026

O Caos em Frequência Modulada

Às vezes eu devia ficar quieto, cruzar as pernas com a bunda no sofá e ver tv. Mas a irrequietude faz-me ser de outra forma e como tenho a mania que sou artista resolvi fazer rádio. Antevendo o futuro, sento-me frente ao écran, sim, sou moderno e já não escrevo na sebenta, mas sim num computador, e faço futurologia. Fazer rádio com seis pessoas numa mesa redonda é, tecnicamente, um desporto de combate. O tema da noite é ambicioso: 

- O Impacto da Inteligência Artificial no Cultivo da Batata e a Imortalidade da Alma

Um tema leve, portanto, ideal para preencher o silêncio da noite entre dois fados e um anúncio a uma oficina de pneus.

O problema da rádio com muitos convidados não é o que se diz, mas o tráfego aéreo das palavras. Os engarrafamentos de sons que querem sair todos ao mesmo tempo. Temos seis pessoas, mas apenas três microfones que funcionam e um que emite um zumbido estranho sempre que alguém diz a letra "S". Já mexi nos botões todos, agudos e graves, o "S" dá um CH que chateia. Mas deixemos a técnica.

Primeiro, temos o Estatístico, que trouxe três pastas de arquivo e insiste em ler tabelas de Excel em voz alta. Se olharem para a coluna B..., diz ele com entusiasmo, esquecendo-se que a única coisa que os ouvintes conseguem olhar é para o ponteiro do relógio de parede ou para a sintonia do velhinho rádio que sobreviveu a várias mudanças de casa.

Depois, há a Poetisa, que responde a qualquer pergunta sobre batatas citando o existencialismo francês. A batata não é um tubérculo, é um grito de angústia da terra, afirma ela numa voz melancólica, enquanto eu, como técnico de som, aproveito para ir buscar um café, sabendo que ela não vai parar de falar nos próximos dez minutos.

A meio da mesa, temos o Cético, cujo único contributo é suspirar ruidosamente junto ao microfone e dizer: Isto no meu tempo é que era. Ninguém sabe ao certo que tempo era esse, mas devia ser uma época fantástica onde a gravidade não existia e o pão era de graça.

O verdadeiro desafio surge quando o eu moderador, o único pobre santo com auriculares, tenta lançar uma pergunta. É como atirar um bife para dentro de um tanque de jacarés.

Três pessoas começam a falar ao mesmo tempo.

O som torna-se uma massa uniforme de ruído onde se distinguem apenas as palavras "algoritmo", "adubo" e "metafísica".

Lá em casa, o ouvinte pensa que o rádio avariou ou que os vizinhos estão a ter uma discussão acesa sobre a herança da tia-avó.

No meio do caos, há sempre o convidado Ninja. Está calado há quarenta minutos. Eu, por caridade, pergunto: "E o Dr. o que pensa disto?". O Dr. acorda do transe, aproxima-se demasiado do microfone e solta um Pois... tão profundo que faz vibrar os vidros dos copos. E volta ao silêncio.

A qualidade de vida de um radialista mede-se pelos minutos de publicidade que acabam por aparecer. É o momento em que tira os auscultadores e se descobre que a Poetisa está a tentar roubar os apontamentos do Estatístico e que o Cético adormeceu de olhos abertos.

A magia acontece. Continuamos a nossa fascinante conversa sobre a alma das batatas... É mentira, claro. Estamos apenas a tentar sobreviver à próxima meia hora sem que ninguém derrube o copo de água sobre a mesa de mistura.

No fim, as seis pessoas despedem-se com uma cortesia extrema, jurando que foi o debate do século. O ouvinte, do outro lado, desliga o rádio a pensar que, se calhar, as batatas têm mesmo uma alma complexa. 

A rádio tem destas coisas: é o único sítio onde o silêncio nada vale.




Sanzalando

20 de maio de 2026

Crónica 106 - K'arranca às Quartas 119


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Crónicas de Carlos Osório 18 - K'arranca às Quartas 119


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Crónica de João Portelinha da Silva (24) - K'arranca às Quartas 119


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Livro - O Silêncio do Kissanji - Anabela Quelhas - K'arranca às Quartas 119


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Tesourinhos Musicais 94 - N'zaji - K'arranca às Quartas 119


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Esta Música tem uma História 60 -Luandei - Nanutu - K'arranca às Quartas 119

Nanutu e o seu saxofone calaram-se de vez. António Manuel Fernandes, com o nome artístico de Nanutu, partiu na passada sexta-feira,15 de Maio, em Lisboa, aos 68 anos. Com ele calou-se um saxofone maior, mas não se apagou a respiração funda que deixou na música angolana.

Sanzalando

Programa 119 - K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 20 de maio de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Hiperconectividade

Silêncio do Kissanji, um livro de Anabela Quelhas

Hoje houve Esta Música tem uma história em homenagem a Nanutu e Luandei, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais Conjunto N'zaji, música de intervenção angolana
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos um caso escolar de sucesso

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

chegar aqui é fantástico

Chegar aqui já é uma vitória digna de um troféu, mesmo que o troféu seja apenas um desconto de sénior no cinema, nos transportes públicos ou a capacidade de prever a chuva através de um joelho, cotovelo ou anca. Para ir mais longe e com o espírito intacto o segredo não está em esconder as rugas, mas em transformá-las em linhas de leitura de uma boa comédia.

Aqui estão algumas estratégias para esticar a longevidade com um sorriso no rosto:

1. A Prática da Amnésia Seletiva Estratégica

Ir mais longe exige leveza. Se me lembro onde deixei as chaves ou o nome daquela pessoa que o cumprimentei na rua, não é velhice, é o meu disco rígido a apagar ficheiros inúteis para dar lugar a coisas mais importantes, como a letra de uma música dos anos 70 ou a receita perfeita de uma moamba ou de um arroz de ligueirão. Já que agora sei ligar o fogão sem ter medo que ele exploda. Quando me esqueço de algo, digo apenas que estou a fazer uma curadoria mental de alto nível.

2. O Desporto como Entretenimento, não Castigo

Se o corpo pede movimento, dou-lhe algo que não pareça uma sessão de tortura medieval. Actividades como o pickleball ou a petanca são geniais porque permitem socializar enquanto se finge que se está a queimar calorias. O objetivo não é ser o próximo campeão olímpico, mas sim garantir que consigo baixar-me para apanhar a bola sem emitir um efeito sonoro de dobradiça velha, tipo crocância de um folhado a estalar.

3. A Gastronomia da Moderação Imprudente

Dizem que devemos comer verdes. Um copo de um bom tinto do Alentejo ou do Douro vem da uva, que é tecnicamente um fruto, que se for tinto já foi verde. Uma boa crónica à mesa, rodeado de amigos e de uma conversa que se prolonga até ao café, alimenta mais a longevidade do que qualquer suplemento de farmácia. O humor é o melhor digestivo.

4. Cultivar a Curiosidade Atrevida

O que nos envelhece não é a passagem dos anos, mas sim a frase no meu tempo é que era bom. O segredo para ir mais longe é olhar para o presente com um olhar crítico, mas divertido. Seja a criar um programa de rádio, a escrever sobre o património ou a descobrir novos autores, mantenha o cérebro ocupado a tentar perceber como funciona a última aplicação de telemóvel nem que seja para decidir que não a vai usar. Este também é o meu tempo.

5. A Arte de rir de mim próprio

A gravidade é uma força implacável que me verga o corpo pelas costas, mas o riso é uma força de levitação que me eleva o queixo. Se o médico me dissesse que tenho de caminhar mais, caminharia até à pastelaria mais próxima. Se os amigos dizem que estou vintage, aceito o elogio, as coisas vintage são as mais valiosas e as que têm melhores histórias para contar.

No fundo, ir mais longe é uma questão de ritmo. Como numa boa rádio, não importa apenas o tempo de antena, mas sim a qualidade da emissão. Se mantivermos a sintonização no canal que dá programa para pensar e boa música, a viagem torna-se muito mais curta, mesmo que dure cem anos.

Como tem sido a minha experiência em equilibrar a nostalgia de outros tempos com as novidades que o presente me traz no dia a dia de agora? 

Vou pensar nisso. Mas agora vou escolher a música.



Sanzalando

19 de maio de 2026

sucesso

Há pessoas que acordam de manhã com objetivos. Eu acordo com uma vaga intenção do tipo vamos ver no que isto dá e, pelos vistos, isso é meio caminho andado para o sucesso. Não porque eu seja particularmente brilhante, mas porque a vida, coitada, às vezes também se engana na morada.

Sempre desconfiei de quem tem planos a cinco anos. Eu mal tenho planos para até à hora do jantar. E, no entanto, lá vou acumulando pequenas vitórias involuntárias, um elogio que era para o colega do lado, um projeto que aceitei porque não percebi bem do que se tratava, uma ideia que tive por engano enquanto procurava outra completamente diferente. Se isto não é sucesso, é pelo menos uma boa imitação.

Descobri, com o tempo, que há um talento raro que é o de não atrapalhar demasiado o próprio caminho. É uma espécie de arte marcial passiva em vez de atacar, a pessoa não estraga o momento. E eu, modestamente, sou cinturão negro em não estragar o momento. Há dias em que a minha maior conquista é não responder a um email complicado. E, curiosamente, nesses dias, tudo se resolve sozinho. É quase como se o universo me dissesse deixa estar, não mexas, que assim está bem, e eu deixo.

Uma vez perguntaram-me qual era o segredo do meu sucesso. Fiquei comovido. Primeiro, porque não sabia que tinha um. Depois, porque senti que estava prestes a desiludir alguém com uma resposta honesta. Ainda pensei inventar qualquer coisa sofisticada do estilo uso de disciplina, atenção ao foco, dizer resiliência, que agora está na moda mas a verdade escapou-me e eu disse que tinha sido por distração.

A pessoa ficou a olhar para mim com aquele ar de quem esperava uma resposta científica e recebeu uma conversa de café. Mas é isso mesmo. O meu percurso é uma sucessão de já agoras que deram certo. Já agora aceito. Já agora experimento. Já agora fico. E quando dou por mim, estou no sítio certo, à hora certa, sem saber muito bem como cheguei ali o que, convenhamos, é uma excelente forma de viajar.

Claro que há riscos. Este método exige uma certa confiança no acaso, o que nem sempre é confortável. Às vezes o acaso falha, ou então acerta mas ao lado. E lá vamos nós, com ar sério, a explicar que faz parte do processo, quando, na verdade, o processo era não haver processo nenhum.

Mas há também uma leveza nisto tudo. Enquanto outros carregam o peso das metas, eu levo apenas a mochila das circunstâncias. E, sendo honesto, pesa muito menos. Talvez o sucesso sem querer seja uma espécie de sucesso em pantufas. Não faz barulho, não exige pose, e aparece muitas vezes quando já estávamos a pensar em desistir ou em ir fazer um café.

No fundo, acredito que o sucesso, como certos gatos, gosta de pessoas que fingem não estar interessadas. Aproxima-se devagar, instala-se no colo e, quando damos por isso, já faz parte da casa. E nós, que nunca o chamámos, ficamos ali, um pouco surpreendidos, a fazer festas, como quem diz: Pronto… já que aqui estás, fica. E o gato fica.



Sanzalando

ser quase História

Aos 69 anos e alguns meses, a gente começa a olhar para o espelho e para o Bilhete de Identidade com uma mistura de respeito e dúvida. Chegar a esta fronteira não é para amadores; é uma maratona onde os quedes, ténis ou sapatilhas, foram trocados por sapatos ortopédicos de sola macia, e a meta parece sempre um pouco mais distante porque, aos 70, a gente para a meio do caminho para perguntar: O que é que eu vinha fazer a este quarto mesmo?

Dizem que a vida começa aos 40. Mentira. Aos 40 a vida dá-nos um estálo para acordarmos. Aos 70, ela dá-nos um abraço apertado com muito carinho, como convém, por ter cuidado com as costelas.

A minha trajetória até aqui foi feita de mais quases do que certezas, e é aí que reside o humor da coisa. Quase fui um atleta de alta competição, não fosse a minha crónica incapacidade de ver uma esplanada e não me sentar, de ver um banco frente ao zulmarinho e me perder a meditar. Quase fui um monge budista, mas a dieta do silêncio colidia frontalmente com a minha necessidade vital de comentar e gastar palavras desde o acordar.

As travessuras, essas, mudaram de figurino. Na juventude, envolveram saltar muros ou chegar a casa com o sol a bater na testa, tentando não acordar a D. Madalena. Hoje, a minha maior travessura é comer um doce escondido da patroa ou fingir que não ouvi o telemóvel para não ter de explicar a alguém como se grava um PDF ou se passa uma certidão de óbito digital. Há uma liberdade deliciosa em chegar a esta idade e usar o ah, esqueci-me como uma arma de arremesso legítima. É o nosso cartão de saída livre da prisão do velhinho jogo do Monopólio.

A memória é outra fonte de comédia. Tornei-me um perito em arqueologia doméstica. Procuro os óculos que estão na testa e as chaves que estão na minha mão. Às vezes, entro numa sala com tamanha determinação que pareço um general a planear uma qualquer invasão, apenas para ficar parado a olhar para o candeeiro, com a mente tão branca quanto as paredes da sala, na busca de uma vaga lembrança do que ali me levou.

Mas o melhor de quase chegar aos 70 é a perda absoluta do medo de fazer figuras tristes. Se quero usar meias com sandálias, uso. Se quero rir sozinho de uma piada que ouvi em 1984, rio. Se decido que vou começar a aprender uma coisa perfeitamente inútil agora, como tocar harmónica ou colecionar rótulos de vinho, quem é que me vai impedir?

Chegar aqui é como conduzir um carro clássico com a chapa a precisar de polimento, o motor faz uns barulhos estranhos ao arrancar a frio e a suspensão já viu melhores dias, mas o prazer de percorrer a estrada, com o braço de fora e o vento na cara, é muito maior do que quando o carro era novo e eu não sabia para onde ia.

Venham os 70. Estou pronto para eles. Só espero que, no dia da festa, alguém se lembre de onde pus o saca-rolhas, onde guardei os óculos ou estacionei o andarilho.

Na verdade, ser incrédulo é ciência, porque antes eu imaginava que ter 70 era figura de ficção, era matéria da cadeira de História.



Sanzalando