Diz-se que a voz humana é um instrumento divinal. Se assim for, há dias em que o meu instrumento precisa urgentemente de ir à oficina ou, no mínimo, de ser afinado com uma marreta. Fazer locução é um exercício de alta cavalgada: exige postura, respiração cuidada, uma dicção impecável e, acima de tudo, a ilusão absoluta de que temos o controlo da situação mesmo quando as linhas do texto se cruzam na nossa cabeça como os rabiscos de uma criança em folha de papel. O problema é quando o cérebro decide fazer uma pausa para café a meio da frase e deixa a boca a funcionar em piloto automático. O resultado nunca é bonito.
Tudo começa com a falsa sensação de segurança. Olhamos para o texto, as palavras parecem fáceis, amigáveis, quase familiares. Respiramos fundo, colocamos aquele tom aveludado de quem jantou com o locutor da BBC e arrancamos:
— “Muito boa tarde. Sejam bem-vindos a mais uma edição do nosso programa, onde hoje vamos analisar a lusofonia na palavra e na música sem que haja um consenso" e aqui "constitucional ou apenas institucional sobre o que é a língua portuguesa”
E é aqui que o destino se ri de nós. A palavra seguinte é "constitucional". Uma palavra simples, certo? Errado. Na boca de um locutor confiante, "constitucional" transforma-se, por artes mágicas, em "consti-tu-xio-nal" e paro, corrijo ou sigo
O erro em locução tem várias fases, todas elas dolorosas, que acontecem no espaço de um microssegundo. O Tropeço em que a língua bate no céu da boca de forma errada. É o equivalente fonético a ir a andar na rua e tropeçar num paralelo levantado da calçada. O Pânico dos Olhos em que os olhos arregalam-se. Percebemos que o que saiu pela boca não pertence a nenhum dicionário da língua portuguesa. Acabámos de inventar um dialeto novo. A Tentativa de Salvação em que em vez de pararmos, tentamos corrigir enquanto continuamos a falar, criando um efeito de areia movediça. Quanto mais tentamos sair dali, mais nos enterramos. O "consenso constitucional" passa a ser o "tecido constituxu... constitulal... o tecido das leis!". Pronto, improvisou-se, ninguém notou, pensamos nós.
O pior são as consoantes dobradas. Quem foi o sádico que decidiu colocar "rres" e "lles" seguidos em textos que têm de ser lidos sem respirar? Há dias em que a frase "o rato roeu a rolha" parece um tratado de física quântica. A meio do caminho, o "rato" já é um "gato", a "rolha" desapareceu e nós estamos a arquejar como se tivéssemos corrido uma maratona.
Há outras formas de errar. Se a gravação for em diferido, temos o maravilhoso botão de delete na nossa consola e após praguejar um bocadinho contra os antepassados do autor do texto, bebe-se um golo de água e repete-se a faixa pela décima vez, fingindo que somos profissionaisíssimos.
Mas se for em direto... Ah, o direto! O direto tem o requinte de crueldade de congelar o tempo. Quando falhamos uma palavra em direto, fazem-se dois segundos de silêncio que parecem durar duas semanas. Conseguimos ouvir o suor a escorrer pela testa. Conseguimos ouvir os ouvintes em casa a largar a colher de sopa e a perguntar: "O senhor da rádio está a ter um AVC?" O truque clássico do locutor apanhado em falso é a "tosse de recurso". Enganaste-te numa palavra? Dá um pigarro autoritário, como se um grão de poeira cósmica tivesse entrado na tua garganta sagrada, e repete a frase com o dobro da imponência. Se fores suficientemente confiante, as pessoas acham que a culpa é do dicionário, não tua.
A verdade é que há uma beleza escondida na gaffe. O ouvinte não quer uma máquina de inteligência artificial a debitar sílabas perfeitas sem alma. O ouvinte quer saber que do outro lado do microfone está alguém que, tal como ele, também se embrulha a tentar dizer "paralelepípedo" à segunda feira de manhã ou na noite de sexta.
Por isso, celebremos os nós na língua. São eles que dão sabor à emissão. E agora, se me dão licença, vou ali treinar a leitura de um texto sobre a desestatização dos estabelecimentos agropecuários, prisionais e os dos caleidoscópios espaciais. Desejem-me sorte, ou chamem já o terapeuta da fala.








