Olho agora lá para trás. Me vejo e se fosse hoje?
Naquele tempo, brincar na rua era uma profissão de risco. Não havia capacetes, joelheiras, protetor solar nem psicólogos especializados em traumas provocados por quedas de bicicleta. Havia apenas duas coisas essenciais: joelhos esfolados e mães à janela a gritar o nome quase completo dos filhos, o que já significava que a situação estava grave.
A nossa rua era um autêntico parque temático da imaginação. De manhã era pista de carrinhos de rolamentos, à tarde campo de futebol e à noite território de cowboys internacionais, pelo menos segundo a nossa imaginação. Uma vassoura servia de cavalo. E um pneu abandonado era motivo suficiente para três horas de felicidade gratuita.
Hoje fala-se muito em brincadeiras educativas. As nossas eram educativas porque ensinavam logo física, medicina e sobrevivência. Aprendíamos gravidade quando caíamos de um muro. Anatomia quando descobríamos músculos novos depois de jogar à bola. E diplomacia quando era preciso decidir quem levava a bola para casa sem provocar uma guerra civil. Acho que não foi por isso que possa ser mal educado.
Ninguém sabia se era verdade, mas aquilo dava-lhe estatuto de aventureiro internacional.
Os jogos eram simples. Jogava-se à apanhada, às escondidas e ao futebol. Ah… o futebol! O grande problema do futebol de rua era a baliza. Nunca havia postes verdadeiros. Usávamos pedras, chinelos ou pastas da escola com livros dentro.
Curiosamente, ameaçava aquilo desde 1900 e nunca furava nada, pelo que contavam os mais velhos que ali também moravam e já ali tinham brincado. Talvez porque também estivesse entretido a ver o jogo ou se lembrasse que também já foi jogador daquela idade.
E as correrias? Corríamos por tudo e por nada. Corríamos atrás da bola, atrás da tifa, do carro do Lã dos gelados, atrás do amigo que tinha roubado um berlinde… e às vezes corríamos apenas porque alguém começava a correr. Ninguém perguntava porquê. O instinto dizia:
“Se os outros fogem, foge também.”
Cinco minutos depois já estava tudo borrado de medo, mas ninguém admitia.
Hoje, quando vejo uma criança a carregar um tablet maior do que ela, penso com ternura nos nossos tempos. Nós não tínhamos Wi-Fi ou telemóvel, mas tínhamos uma coisa muito mais forte: o assobio. Esse sim… era a verdadeira notificação da felicidade.



















