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Conversas à Mesa
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- PERTINÊNCIAS 11 - 14 Final de Leitura em Voz Alta
3 de junho de 2026
Programa K'arranca às Quartas 121
O Dia em Que Decidi Jogar Padel
A culpa foi dos amigos. É sempre dos amigos. Nunca ouvi ninguém dizer que foi assaltado pela sua imprudência ou que foi o bom senso que o meteu nisto. Não. Foram os amigos.
O que eles me disseram:
- Tens de experimentar!
- É divertido!
- É fácil!
- Qualquer pessoa joga!
Desconfiei logo, ainda mais da última frase. Sempre que alguém diz que qualquer pessoa consegue fazer alguma coisa, normalmente está a referir-se a pessoas que nasceram com talento, equilíbrio e articulações ainda dentro da garantia. Há anos que a minha garantia se foi e não há a quem reclamar.
Mas lá fui sem bem saber ao que ia. Vi no Youtube uns três vídeos. Percebi o mecanismo da coisa. Paredes de vido, uma rede a meio e uma tábua na mão como brinco na praia.
Cheguei ao campo equipado como quem vai disputar a final de Wimbledon. Ténis novos próprios para o padel segundo o empregado da loja, roupa desportiva impecável e uma raquete alugada na mão. Na verdade sentia-me um atleta. Durante aproximadamente três minutos que entrei no retângulo eu senti-me confortável e confiante.
O primeiro problema foi descobrir como se segurava a raquete. Uns diziam que era como quem pega num martelo e eu a pensar como é que seria uma coisa que nunca tinha pensado. Mas como raio eu pego um martelo. Como é que eu com o martelo ia bater no raio da bola se quase mal a vejo? O segundo foi perceber que a bola não colaborava minimamente com os meus planos. Eu pensava ia dirigi-la para ali e ela, por vontade própria ia para acolá.
No aquecimento, a bola passou por mim várias vezes. Não porque fosse rápida, mas porque eu era optimista, preguiçoso ou estava a faltar-me qualquer sentido posicional. Calculava a trajetória, preparava-me para o golpe perfeito e, no último instante, a bola escolhia outro destino que não o que eu tinha desenhado para a receber.
Parecia ter vontade própria a maldita amarelinha.
Quando finalmente consegui acertar-lhe duas vezes seguidas, foi um momento de glória. Infelizmente, a bola, à segunda, saiu do campo, atravessou a vedação e quase foi pedir nacionalidade ao concelho vizinho.
Os meus colegas foram pacientes.
- Muito bem! — gritavam. - Vais lá!
Eu conheço aquele muito bem. É o mesmo que se usa quando uma criança desenha um cavalo que parece um aspirador avariado ou um pai que só tem pernas e cabeça.
Depois descobri a particularidade mais intrigante do padel: as paredes.
Passei uma vida inteira a aprender que bater contra paredes era um erro. E várias vezes as bati com a cabeça. De repente, encontro um desporto onde a bola bate na parede e toda a gente acha normal.
A certa altura, fiquei tão concentrado a seguir a bola que dei por mim a rodar em círculos dentro do campo, como um cão a tentar apanhar a própria cauda e ainda por cima ria.
Houve um momento particularmente humilhante em que corri para a frente, recuei, avancei outra vez, olhei para cima, olhei para os lados e, no fim, a bola caiu calmamente ao meu lado, sem que eu lhe tocasse. Parecia que estava a observar um documentário sobre a minha incompetência.
Ao fim de noventa minutos eu estava exausto. Descobri músculos cuja existência em mim desconhecia. Alguns deles, suspeito, pertenciam a outras pessoas mas vieram doer em mim.
No dia seguinte, acordei com dores em locais do corpo que nem sequer aparecem nos livros de anatomia. Para me sentar precisava de um plano estratégico. Para me levantar, de muita fé.
Mas, estranhamente, gostei. Amor violentamente apresentado à primeira vista.
Talvez porque o padel seja uma metáfora da vida. Corremos atrás de coisas que nos escapam, batemos contra paredes, falhamos bolas fáceis e, de vez em quando, acertamos uma pancada tão boa que de imediato esquecemo-nos de todas as outras que falhámos.
Ou talvez porque, no fundo, gosto de fazer figuras ridículas desde que tenha testemunhas suficientes para se rirem comigo e de mim.
Seja como for, já logo combinei novo jogo para a semana seguinte, esperando ter recuperado muscular e mentalmente daquele primeiro dia.
Passei a ir mais bem preparado.
Passei a levar uma raquete que comprei, suave, com bom controle e boa saída apesar de faltar um jogador na extremidade da mesma, água... e um fisioterapeuta de prevenção.
2 de junho de 2026
Um conto que não contei
Sentei na secretária. Não. Sentei-me frente ao computador, na cadeira que está à freente da secretária onde está o PC. No tempo em que escrevia com caneta já estava uma folha amarrotada e eu zangado. Mas eu quero escrever um conto. Um conto de amor. De amor adolescente. Não. Vou cair no meloso e nos suspiros que não são de açúcar. Vou trocar os suspiros exagerados pelas situações embaraçosas, pelos mal-entendidos e pela forma dramática como os adolescentes transformam pequenos acontecimentos em grandes epopeias.
Em vez de dizer:
- Quando a vi, o meu coração disparou e o mundo parou.
Vou dizer:
- Quando a vi, esqueci-me do próprio nome, tropecei no degrau da escola e descobri que a gravidade continua a funcionar mesmo quando estamos apaixonados.
O humor nasce da distância entre aquilo que se imagina e aquilo que realmente aconteceu. Na minha cabeça, sou um herói romântico; na realidade, estou a ensaiar frases inteligentes há três dias para acabar por dizer apenas: Então... está calor, não está?
Não vale a pena recordar que os adolescentes vivem tudo em modo exagerado:
- Um sorriso vale um pedido de casamento.
- Um olá é sinal de destino carregado de emoção.
- Um até amanhã já serve para escolher os nomes dos filhos.
Podia brincar com os conselhos dos amigos, que costumam ser tão úteis como um guarda-chuva furado naqueles dias de tempestade:
O Zé garantiu que as raparigas adoravam rapazes misteriosos. Passei uma semana sem falar. Ela concluiu que eu era tímido, estranho ou tinha perdido a voz. Talvez as três coisas. Ou só que eu era parvo.
Outra técnica a usar podia ser autoironia. Podia olhar para trás e rir-se da minha própria ingenuidade:
Aos quinze anos eu tinha a certeza absoluta de três coisas: que ela era o amor da minha vida, que eu ia ser rico antes dos vinte e que o meu clube nunca perderia um jogo importante. Como se vê, a adolescência é uma fase fértil em imaginação.
O resultado seria uma história ternurenta sem ser açucarada, porque o leitor ia rir-se das situações e reconhecer emoções verdadeiras nelas.
Em resumo: menos luar e mais tropeções; menos poesia declamada e mais nervosismo; menos amor eterno e mais confusões, amigos intrometidos e planos que correm mal. O humor faz sorrir e, curiosamente, torna a paixão mais credível. Afinal, quase todos nos apaixonámos na adolescência; poucos escreveram poemas perfeitos, mas muitos disseram disparates memoráveis.
Desliguei o PC e não escrevi o tal conto por falta de assunto para contar.
1 de junho de 2026
No Meu Tempo de Criança, o Dia da Criança era Todos os Dias e Nenhum
No meu tempo de criança era como? Se eu dissesse à minha mãe que queria celebrar o “Dia da Criança”, ela provavelmente olhava para mim, pousava o ferro de engomar e dizia, com aquela doçura que só as mães dos anos 60/70 conseguiam reunir:
- Dia da Criança? Olha que levas já duas dores de dentes que te passa logo a mania do protagonismo. Vai mas é deitar o lixo fora e fazer os trabalhos de casa
E sabem que mais? Éramos incrivelmente felizes.
Sanzalando
31 de maio de 2026
Pertinências 11 - 14º Final de Leitura em Voz Alta
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Há escritores que nos contam histórias. E há outros — mais
raros — que nos devolvem memórias que nem sabíamos que eram nossas. Dulce Maria
Cardoso pertence claramente a este segundo grupo.
Quando se fala de O Retorno, não se fala apenas de um livro.
Fala-se de uma mala sempre por desfazer, de um país que cabe num sotaque e de
uma infância que ficou suspensa entre continentes — como roupa num estendal
apanhado por vento incerto.
Imperdível
30 de maio de 2026
eu a pensar
Há pessoas que têm o cérebro organizado. Pensam numa coisa de cada vez, resolvem-na, arquivam-na numa gaveta mental e seguem para a próxima como se fosse uma cadeia de normais acontecimentos. Eu admiro-as da mesma forma que admiro os equilibristas do circo, à distância e com a certeza absoluta de que nunca conseguirei fazer o mesmo.
O meu cérebro não é uma biblioteca. É uma fábrica. Uma fábrica antiga, daquelas que existiam antes de eu nascer, enormes, com chaminés a deitar funo dia e noite, onde as ideias entram em produção sem autorização da gerência. E como a gerência sou eu, posso garantir que raramente sou consultado.
Acordo de manhã e, antes mesmo de abrir os olhos, já há uma reunião de emergência. O eu e o mim reunen-se.
- E se escrevesses uma história sobre um reformado que decide aprender a andar de skate?
- E se inventasses uma receita de bacalhau com manga?
- E se os pombos fossem agentes secretos?
Tudo isto antes do mata-bicho.
Enquanto preparo o café, a linha de montagem acelera. Uma ideia empurra a outra como carrinhos de supermercado.
Olho para uma nuvem e penso num poema que nunca escreverei.
Vejo um gato e imagino um romance policial, que nunca escrevi.
Vejo uma torrada queimada e surge uma reflexão filosófica sobre os limites da civilização e a inteligência artificial que não me ajudou neste instante.
O problema é que a fábrica produz muito mais do que consegue expedir. Tenho a cabeça cheia de apontamentos misteriosos, que nem eu sei desvendar.
“Homem que reflete com semáforos.” “Galinha deprimida não põe ovos.” “Teoria revolucionária sobre meias desaparecidas.”
Confesso que, meses depois, recordo estas notas e não faço a mínima ideia do que pretendiam significar. Devem ter sido produtos experimentais que nunca chegaram ao mercado. Às vezes suspeito que o meu cérebro trabalha por objetivos de produção. Se passo uma hora sem ter uma ideia nova, parece soar uma sirene interna.
- Atenção! Quebra de produtividade! É preciso inventar qualquer coisa!
E imediatamente surge um pensamento absurdo, apenas para manter os números da fábrica.
A vantagem é que raramente me aborreço. A desvantagem é que raramente descanso. Enquanto os outros contam carneiros para adormecer, eu assisto ao turno da noite da minha fábrica fumegante.
Os carneiros entram, é verdade, mas cinco minutos depois já se estão a organizar num sindicato, a criar uma banda de rock ou a planear uma candidatura à junta de freguesia.
Nestas alturas percebo que a minha imaginação não conhece horários laborais.
Funciona aos fins de semana, aos feriados e até durante as férias, quando eu as tinha.
Aliás, as férias eram a pior altura. O cérebro interpreta qualquer descanso como uma oportunidade para aumentar a produção em 300%.
Mas não me queixo. Já agora era o início de uma pausa. Ou seria o fim?
Uma fábrica destas dá trabalho, faz barulho e, por vezes, produz artigos completamente inúteis. Porém, de vez em quando, entre uma ideia disparatada e outra ainda mais disparatada, aparece uma que vale ouro.
Uma história.
Uma crónica.
Uma lembrança.
Um sorriso.
E então percebo que talvez não seja assim tão mau viver com esta fábrica permanentemente ligada, mesmo que o cansaço me derrube. Alguém tem de se lembrar de desligar a sirene de vez em quando. Ou, pelo menos, de convencer os pombos agentes secretos a fazerem menos horas extraordinárias.
29 de maio de 2026
sociedade
Sentado no banco da avenida, olho os poucos carros que passam. É hora de trabalho, não é hora de passear. Eu, em vez de estar a jogar dominó, olhar a televisão com cara de parvo, prefiro este banco da avenida. Apanho ar e vagueio por entre pensamentos e outras ideias que possam nascer do vente mental.
Olha para mim: roupa simples, sandálias velhas mas cómodas para mimar estes pés cansados, olhar brilhante de quem está feliz, sorriso natural estampado na cara a vagabundear por mim dentro.
Mas posso garantir que ganhar um espaço na sociedade não foi uma corrida de cem metros; foi mais uma maratona em cima de brasas, enquanto tentava equilibrar uma bandeja de ideias, conceitos e vontades. Todos diziam que o segredo era trabalho e dedicação, mas esqueceram-se de mencionar que a sociedade é um clube exclusivo onde o porteiro é um algoritmo mal-humorado e a senha muda todas as terças-feiras.
Primeiro, vamos falar do trabalho. Antigamente, trabalhar era carregar sacos de cimento, era suportar insónias, ouvir recados, interpretar convicções. Hoje, ganhar espaço na sociedade exige um esforço hercúleo de... enviar e-mails. E não são e-mails comuns. São missivas digitais carregadas de termos como "sinergia", "fazer o follow-up" e "agregar valor", frases e "words" ou "powerpoints". Empregar fruir, narrativa e outros considerandos nos memorandos.
A dedicação começava no despertador. O cidadão que quer vencer acorda de madrugada. Não porque tenha algo útil para fazer a essa hora, mas porque o LinkedIn, o FaceBook, o Instagran e o X exigem que se poste uma foto de uma chávena de café com a legenda: "Enquanto eles dormem, eu já estou a sofrer."
Conta a estória que a formiga ganha o seu espaço pelo esforço contínuo. Mas a formiga é discreta. Se você quer um lugar ao sol ou pelo menos um lugar na sombra de um guarda-sol de marca, precisa de trabalho barulhento. Não basta ser bom; tem de parecer que está a ter um esgotamento de tanto sucesso. Andar depressa com uma pasta vazia debaixo do braço confere uma autoridade instantânea. Ganhar espaço implica conhecer pessoas. Isso significa ir a eventos onde se serve vinho quente e sorrir para alguém que você tem 90% de certeza que é o vice-presidente de algo, mas que na verdade é apenas o técnico do ar-condicionado. Não importa. Dedique-se a esse aperto de mão como se a sua vida dependesse disso.
Agora a dedicação total manifesta-se naquele momento em que se aceita fazer tarefas que ninguém quer. O espaço na sociedade é muitas vezes conquistado através da geografia da disponibilidade.
- Quem pode organizar o Excel das quotas do condomínio?
- EU! — gritava com o entusiasmo de quem acabou de ganhar o Totobola.
Pronto. Acabou de conquistar três metros quadrados de influência social. Agora as pessoas conhecem o nome e geralmente acompanham-no de aquele maluco que gosta de tabelas ou de se exibir.
28 de maio de 2026
eles e a saudade da juventude
Conheço gente que sempre começa as frases com:
No tempo dele, pelos vistos, nunca havia trânsito, as laranjas tinham mais sumo e sabor, os políticos eram sérios, os jovens respeitavam os mais velhos e as galinhas punham ovos com dignidade moral.
Uma vez ouvi-lhe dizer:
- Antigamente não havia depressões.
Claro. Havia era pessoas tristes em silêncio, a fumar AC ou Hermínios e a olhar para a chuva com ar cansado a ver se deixava de chover e aparecia o cacimbo. Eram assim cancimbados.
Outro garante-me:
- A juventude de hoje não sabe divertir-se.
Diz isto enquanto passa três horas no Facebook a partilhar fotografias a preto e branco de linha de eléctricos que já nem existem, acompanhadas da legenda: Quando Lisboa tinha alma. Queres ver que Lisboa ficou Desalmada? Como se a alma da cidade tivesse fugido no último eléctrico da Carris, provavelmente sem bilhete.
Os retrógrados têm um talento extraordinário: conseguem transformar qualquer avanço moderno numa ameaça civilizacional. O multibanco acabou com a conversa. O telemóvel destruiu a família. A internet matou os cafés. O micro-ondas arruinou a humanidade. Qualquer dia culpam o comando da televisão pelo declínio do Império Romano.
E depois há os especialistas do sofrimento antigo:
- Nós é que sabíamos viver com dificuldades!
Pois sabiam. Também tomavam óleo de fígado de bacalhau sem anestesia e sobreviveram. Mas isso não significa que alguém queira repetir a experiência voluntariamente hoje.
O curioso é que os maiores defensores do passado adoram os confortos do presente. Dizem mal da tecnologia… mas ficam aflitos se o Wi-Fi falha durante quatro minutos. Criticam os jovens por passarem a vida ao telemóvel… enquanto procuram os óculos com a lanterna do próprio telemóvel e vasculham o telemóvel alheio à procura duma qualquer pista que leve à discussão. É que nos confortos do presente eles queriam viver o passado.
Há também uma certa romantização absurda da dureza antiga:
- Na nossa infância brincávamos na rua!
Sim. E muitos também apanhavam sovas monumentais e constipações épicas. A nostalgia é uma espécie de filtro do Instagram emocional: apaga as dores de costas e deixa apenas o cheiro do pão quente.
Eu gosto de recordar o passado. Gosto mesmo. Mas sem transformar a memória num museu onde é proibido mexer nos móveis.
Porque, sinceramente, se o passado fosse assim tão perfeito, ninguém tinha tido tanto trabalho a inventar o futuro.
E depois há esta verdade simples: quase todos os saudosistas querem voltar ao passado… desde que levem antibióticos, comprimidos para a tensão, ar condicionado, GPS, Netflix e uma boa prótese dentária.
O que eles têm saudades, no fundo, não é do mundo antigo. É da juventude deles.
27 de maio de 2026
Programa K'arranca às Quartas 120
26 de maio de 2026
Fui e agora pareço
Durante trinta e nove anos anos fui quase cirurgião e cirurgião, daqueles a sério. Bata impecável, olhar concentrado, mãos firmes e uma caligrafia tão má que até os farmacêuticos me telefonavam para confirmar se eu tinha receitado um antibiótico ou uma máquina de lavar roupa. Aqui estou a exagerar mas com o passar dos anos a minha letra passou de redonda a gráfico de eletroencefalograma.
A cirurgia era a minha vida. Abria, fechava, cosia, recomendava repouso e depois passava noites sem dormir porque os doentes insistiam em não cumprir nada do que eu dizia. Um dizia:
- Doutor, posso beber um copinho?
E eu:
- Não.
Dois dias depois aparecia feliz:
- Doutor, só bebi a garrafa toda porque o copo era pequeno.
Com os anos fui ficando cansado. Não da medicina e nem das pessoas. A medicina até evoluiu muito. As pessoas já começaram a chegar ao gabinete diagnosticadas pela internet, o tal Dr. Google.
- Doutor, tenho quase a certeza que é uma doença rara da Mongólia Interior ou de um qualquer país que só aparece no Risco
- O que sente?
- Um soluço quando espirro.
Reformei-me da cirurgia. Mas como médico nunca nos deixam em paz, comecei a dar pareceres.
E aí encontrei finalmente a felicidade.
Hoje sou homem de pareceres. Não corto nada, não coso ninguém e não tenho de acordar às três da manhã porque alguém decidiu engolir uma espinha de robalo atravessada na horizontal.
Agora sento-me muito direito, cruzo os braços, faço cara séria e digo frases importantes:
- Hum… é preciso avaliar.
Ou então:
- Convém vigiar.
As pessoas adoram.
Outro dia um colega telefonou-me:
— Precisamos do teu parecer urgente.
Fiquei vaidosíssimo. Pensei que fosse um caso raro, complexo, dramático.
Era para combinar um almoço.
Mesmo assim dei um parecer técnico:
- Há aqui claramente uma deterioração progressiva, cada vez vêm menos aos almoços..
Hoje dou pareceres sobre tudo. Medicina, política, vizinhos, casamentos e até bacalhau à Brás que não tolero. O Brás merecia melhor que o tal de bacalhau..
A minha mulher pergunta:
- Gostas desta cortina?
E eu respondo:
- Em princípio sim, mas aconselho uma segunda opinião.
Há dias um amigo disse-me:
- Tu agora não decides nada.
Respondi:
- Exactamente. O segredo da felicidade está aí. Quem decide, compromete-se. Quem dá pareceres parece sempre inteligente e raramente leva com alguma culpa.
É uma profissão maravilhosa.
Os cirurgiões salvam vidas. Os homens dos pareceres salvam-se a si próprios.
E digo-vos mais: depois de uma vida inteira a abrir pessoas, descobri finalmente a grande verdade da existência humana…
Toda a gente quer uma solução.
Mas o que tranquiliza mesmo é ouvir alguém dizer, muito devagar:
- Isso… depende.
25 de maio de 2026
Será?
Olho agora lá para trás. Me vejo e se fosse hoje?
Naquele tempo, brincar na rua era uma profissão de risco. Não havia capacetes, joelheiras, protetor solar nem psicólogos especializados em traumas provocados por quedas de bicicleta. Havia apenas duas coisas essenciais: joelhos esfolados e mães à janela a gritar o nome quase completo dos filhos, o que já significava que a situação estava grave.
A nossa rua era um autêntico parque temático da imaginação. De manhã era pista de carrinhos de rolamentos, à tarde campo de futebol e à noite território de cowboys internacionais, pelo menos segundo a nossa imaginação. Uma vassoura servia de cavalo. E um pneu abandonado era motivo suficiente para três horas de felicidade gratuita.
Hoje fala-se muito em brincadeiras educativas. As nossas eram educativas porque ensinavam logo física, medicina e sobrevivência. Aprendíamos gravidade quando caíamos de um muro. Anatomia quando descobríamos músculos novos depois de jogar à bola. E diplomacia quando era preciso decidir quem levava a bola para casa sem provocar uma guerra civil. Acho que não foi por isso que possa ser mal educado.
Ninguém sabia se era verdade, mas aquilo dava-lhe estatuto de aventureiro internacional.
Os jogos eram simples. Jogava-se à apanhada, às escondidas e ao futebol. Ah… o futebol! O grande problema do futebol de rua era a baliza. Nunca havia postes verdadeiros. Usávamos pedras, chinelos ou pastas da escola com livros dentro.
Curiosamente, ameaçava aquilo desde 1900 e nunca furava nada, pelo que contavam os mais velhos que ali também moravam e já ali tinham brincado. Talvez porque também estivesse entretido a ver o jogo ou se lembrasse que também já foi jogador daquela idade.
E as correrias? Corríamos por tudo e por nada. Corríamos atrás da bola, atrás da tifa, do carro do Lã dos gelados, atrás do amigo que tinha roubado um berlinde… e às vezes corríamos apenas porque alguém começava a correr. Ninguém perguntava porquê. O instinto dizia:
“Se os outros fogem, foge também.”
Cinco minutos depois já estava tudo borrado de medo, mas ninguém admitia.
Hoje, quando vejo uma criança a carregar um tablet maior do que ela, penso com ternura nos nossos tempos. Nós não tínhamos Wi-Fi ou telemóvel, mas tínhamos uma coisa muito mais forte: o assobio. Esse sim… era a verdadeira notificação da felicidade.
24 de maio de 2026
Conversas à Mesa 7 - Habitação e Qualidade de Vida
23 de maio de 2026
Bom Dia Mercado 15 - Rádio Portimão
22 de maio de 2026
esplanada, eu, o sol e o vento
O sol e o vento decidiram, hoje, partilhar a mesma cadeira de esplanada. É um daqueles dias em que a meteorologia parece sofrer de uma bipolaridade deliciosa: o sol queima-nos a nuca com a promessa de um verão eterno, enquanto o vento nos sussurra ao ouvido, com um hálito fresco de maresia, que a primavera ainda é quem manda.
À minha frente, o mar ignora este braço de ferro. Está naquela pose de espelho azul, onde as ondas mal se atrevem a desmanchar o penteado da costa. O vento passa, encrespa a superfície como quem faz cócegas à água, e o sol, logo a seguir, trata de polir cada crista com um brilho de espuma salpicada.
Fico eu, no meio deste diálogo mudo, a fechar os olhos para sentir o calor e a abri-los logo depois porque o vento me desarruma as ideias. É um equilíbrio precário, mas perfeito. Olhar o mar é isto: perceber que o mundo continua a girar, ora aquecido pela luz, ora empurrado pela brisa, enquanto eu apenas tento não deixar que o que resta do cabelo levante voo.
21 de maio de 2026
O Caos em Frequência Modulada
O problema da rádio com muitos convidados não é o que se diz, mas o tráfego aéreo das palavras. Os engarrafamentos de sons que querem sair todos ao mesmo tempo. Temos seis pessoas, mas apenas três microfones que funcionam e um que emite um zumbido estranho sempre que alguém diz a letra "S". Já mexi nos botões todos, agudos e graves, o "S" dá um CH que chateia. Mas deixemos a técnica.
Primeiro, temos o Estatístico, que trouxe três pastas de arquivo e insiste em ler tabelas de Excel em voz alta. Se olharem para a coluna B..., diz ele com entusiasmo, esquecendo-se que a única coisa que os ouvintes conseguem olhar é para o ponteiro do relógio de parede ou para a sintonia do velhinho rádio que sobreviveu a várias mudanças de casa.
Depois, há a Poetisa, que responde a qualquer pergunta sobre batatas citando o existencialismo francês. A batata não é um tubérculo, é um grito de angústia da terra, afirma ela numa voz melancólica, enquanto eu, como técnico de som, aproveito para ir buscar um café, sabendo que ela não vai parar de falar nos próximos dez minutos.
A meio da mesa, temos o Cético, cujo único contributo é suspirar ruidosamente junto ao microfone e dizer: Isto no meu tempo é que era. Ninguém sabe ao certo que tempo era esse, mas devia ser uma época fantástica onde a gravidade não existia e o pão era de graça.
O verdadeiro desafio surge quando o eu moderador, o único pobre santo com auriculares, tenta lançar uma pergunta. É como atirar um bife para dentro de um tanque de jacarés.
Três pessoas começam a falar ao mesmo tempo.
O som torna-se uma massa uniforme de ruído onde se distinguem apenas as palavras "algoritmo", "adubo" e "metafísica".
Lá em casa, o ouvinte pensa que o rádio avariou ou que os vizinhos estão a ter uma discussão acesa sobre a herança da tia-avó.
No meio do caos, há sempre o convidado Ninja. Está calado há quarenta minutos. Eu, por caridade, pergunto: "E o Dr. o que pensa disto?". O Dr. acorda do transe, aproxima-se demasiado do microfone e solta um Pois... tão profundo que faz vibrar os vidros dos copos. E volta ao silêncio.
A qualidade de vida de um radialista mede-se pelos minutos de publicidade que acabam por aparecer. É o momento em que tira os auscultadores e se descobre que a Poetisa está a tentar roubar os apontamentos do Estatístico e que o Cético adormeceu de olhos abertos.
A magia acontece. Continuamos a nossa fascinante conversa sobre a alma das batatas... É mentira, claro. Estamos apenas a tentar sobreviver à próxima meia hora sem que ninguém derrube o copo de água sobre a mesa de mistura.
No fim, as seis pessoas despedem-se com uma cortesia extrema, jurando que foi o debate do século. O ouvinte, do outro lado, desliga o rádio a pensar que, se calhar, as batatas têm mesmo uma alma complexa.
A rádio tem destas coisas: é o único sítio onde o silêncio nada vale.













