Chamar-lhe a minha moral é, desde logo, uma manifestação de optimismo. Dá a entender que ela é um objeto sólido, bem esculpido, guardado numa redoma de vidro algures entre o bom senso e o civismo. Mas a verdade, que confesso aqui entre nós, sem a presença de um juiz ou de um fiscal de linha, é que a minha moral se parece muito mais com um elástico de escritório: extraordinariamente maleável, surpreendentemente resistente nas grandes crises, mas com uma perigosa tendência para ceder nas pequenas coisas do quotidiano.
Eu gosto de pensar que sou um homem de princípios inabaláveis. Perante os grandes dilemas da humanidade, a minha bússola aponta sempre para o Norte da virtude. Se me cruzar com uma carteira recheada no meio da rua, sinto o peso da integridade esmagar-me os ombros; devolvo-a intacta, com cartões e notas alinhadas por ordem decrescente de valor, e ainda recuso a recompensa com um aceno de mão vagamente heroico. A minha macro-moral é impecável. O problema é a micro-moral. É no retalho do dia a dia que a coisa ganha contornos de comédia.
A micro-moral é aquela que é posta à prova, por exemplo, na fila do supermercado quando a caixa ao lado abre de repente. O protocolo civilizacional dita que a prioridade pertence a quem já esperava há mais tempo na fila original. Mas a minha moral bate o olho no tapete rolante vazio e sofre uma mutação instantânea, transformando-se num tratado de sobrevivência. Num piscar de olhos, o meu corpo move-se com a agilidade de um felino, o carrinho de compras descreve uma curva perfeita e, quando dou por mim, já estou a descarregar os iogurtes com um ar falsamente distraído, evitando fixar o olhar no casal de mais idosos que ultrapassei por milímetros. Se a minha consciência me morde? Morde, mas o remorso passa logo quando percebo que vou chegar a casa cinco minutos antes dele.
A verdade é que a nossa relação com a ética é profundamente sazonal e geográfica. Veja-se o caso do trânsito. Sou um cidadão exemplar a pé, peço desculpa se esbarro em alguém e respeito as passadeiras com o zelo de um seminarista. Mas ponham-me ao volante de um carro e a minha moralidade passa a ser ditada pelo código de conduta de um pirata das Caraíbas. O condutor que não faz o pisca na rotunda deixa de ser um concidadão distraído para passar a ser um inimigo público que merece ir a julgamento. No entanto, se for eu a esquecer-me do pisca, a minha moral autojustifica-se de imediato: Foi uma distração legítima, toda a gente percebeu para onde eu ia.
Há também a fascinante moral da conveniência desportiva. Jogar padel ou qualquer outra atividade com amigos é um teste de fogo. Se a bola bate na linha e favorece o adversário, a minha visão torna-se instantaneamente telescópica e infalível: Claramente fora, meu caro, vi o pó a levantar a dois centímetros do risco. Se favorece o meu lado: Tocou na linha, de certeza absoluta, a geometria não mente. A justiça, descobri tardiamente, é uma questão de perspetiva e de quem está a segurar a raquete.
E o que dizer da moral ecológica e do civismo urbano? Separo o plástico, o vidro e o papel com uma disciplina quase militar. Mas se estou na rua, o vento me arranca um pequeno talão de multibanco dos dedos e o papelinho sai a voar pela calçada fora como uma folha de árvore no outono, a minha moral faz um cálculo rápido de custo-benefício. Olho para a esquerda, olho para a direita. Correr cem metros atrás de um pedaço de papel térmico com este calor, correndo o risco de parecer um louco a caçar borboletas invisíveis? Ou assumir que o talão agora pertence ao universo e que a equipa de limpeza urbana precisa de ter trabalho? Vence o universo, claro. Sigo o meu caminho com as mãos nos bolsos, assobiando uma melodia qualquer, normalmente original porque o ouvido para a música não me calhou em sorte, convencido de que, no grande esquema das coisas, acabei de contribuir para a economia local.
No fundo, a minha moral é uma criatura pragmática. Ela não quer o pedestal da santidade, porque o topo do pedestal é frio e não tem onde apoiar o café. Ela prefere caminhar por aqui, no rés do chão, cometendo pequenos pecados que não vêm no Código Penal, mas que dão sabor aos dias. Afinal de boa intenção está o inferno cheio, e eu prefiro ir garantindo o meu lugar no purgatório, onde a conversa é certamente mais animada e as regras, com um bocado de jeito, também se podem negociar.









