recomeça o futuro sem esquecer o passado

10 de setembro de 2026

Fui ao Cinema domingo de manhã

As manhãs de domingo cheiravam a café fresco na cozinha da minha avó e a pão torrado no fogareiro com azeite. A mim, vestiam-me os calções de algodão, que podiam ser de chita ou outro tecido qualquer que eu não protestava desde que não picassem nas coxas, meias altas até ao joelho e um par de sapatos de fivela encerados até parecerem espelhos. Era domingo, que é que julgam.

O meu avô agarrava-me pela mão e marchávamos pelo passeio a caminho do Cine Moçâmedes. Marchávamos porque não podíamos chegar tarde e não havia distrações no caminho. Para mim, ele era uma espécie de capitão de mar e guerra, impecável e postura ereta, mas com um ponto fraco terrível, não gostava de ir à praia.

Naquele domingo em particular, a fita era do Cantinflas. O cinema estava composto por uma legião de miúdos irrequietos e avôs resignados. Os projetores arranjaram vida, o feixe de luz cortou o escuro e, exactamente aos três minutos de filme, ouvi o ruído, gargalhada geral. Não era uma gargalhada qualquer. Era uma sinfonia, num crescendo que parecia competir com a orquestra da banda sonora.

Às tantas, na tela, o Cantinflas saltou para cima de um comboio em movimento e disparou um tiro para o ar, o meu avô deu um pulo na cadeira, e eu e eles os miúdos todos. Inesperadamente estávamos aos gritos. A sala de cinema parou. Pelo menos uns vinte miúdos atiraram-se literalmente para debaixo das cadeiras, espalhando medo por todo o lado. Eu, de calções e meias altas, encolhi-me no assento, dividindo-me entre a vergonha absoluta e uma gargalhada histérica.

O meu avô gargalhou como eu nunca tinha lhe visto. Era domingo e era um filme para crianças

Quando voltámos para casa, a minha avó perguntou se o filme tinha sido bonito. O meu avô piscou-me o olho e disse: 

- Uma palhaçada, Leovegilda. Mas o miúdo tem bons reflexos



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9 de setembro de 2026

Esta Música tem uma História 69 - António Zambujo - Eu Já Não Sei - K'arranca às Quartas 131


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Tesourinhos Musicais 105 - Roberto Carlos - K'arranca às Quartas 131


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Prantos, Amores e Outros Desvarios – Teolinda Gersão - K'arranca às Quartas 131


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O que é o FADO - Entrevista com o Dr. Pedro Félix - K'arranca às Quartas 131


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Crónica de João Portelinha da Silva (36) - K'arranca às Quartas 131


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Crónica 118 - K'arranca às Quartas 131


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Programa K'arranca às Quartas 131





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 09 de Setembro de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é
 Esta Música tem uma história com António Zambujo e Eu já não sei, com Roberta Sá e Yamandu Costa , numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, Roberto Carlos
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde 
 No livro falei de Prantos, Amores e Outros Desvarios – Teolinda Gersão
E estive à conversa com o Dr. Pedro Félix sobre o Há Fado na Lota e o facto do Fado ser património Imaterial da Humanidade

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

8 de setembro de 2026

A humildade política

Há uma coisa que a política moderna ainda não conseguiu ter que é a humildade. Inventou sondagens, assessores de imagem, especialistas em comunicação, consultores de estratégia, discursos com teleponto e até aquela expressão maravilhosa que tantos dizem humildemente, temos de reconhecer e que é normalmente pronunciada por alguém que, cinco minutos antes, acabara de explicar ao país que tinha razão em tudo.

A humildade política é uma espécie rara. Quase tão rara como um político que, depois de perder umas eleições, diga simplesmente:

 - Perdemos. O povo não gostou. Vamos pensar no assunto.

Em vez disso, ouvimos:

 - Tivemos uma vitória moral. -  rebuscando palavras e ideias que nada têm a a haver com o número final.

A vitória moral é uma coisa extraordinária. Não aparece nas urnas, não consta dos resultados oficiais e não se sabe muito bem onde se guarda. Mas é sempre muito útil quando faltam votos.

Há também o político humilde que diz:

- Eu não estou aqui por interesses pessoais.

E imediatamente pensamos: que homem extraordinário! Depois percebemos que está rodeado por quinze assessores, três carros, quatro câmaras, dois microfones e uma equipa de comunicação que já publicou nas redes sociais uma fotografia dele a apertar a mão a uma senhora de oitenta anos. A humildade foi fotografada de vários ângulos. Na política, até a modéstia precisa de produção.

O problema é que muitos políticos confundem humildade com baixar ligeiramente o tom de voz. Falam mais devagar, fazem uma pausa dramática e dizem:

 - Eu sou apenas um servidor do povo.

Servidor até que é uma palavra bonita. Sobretudo quando quem a pronuncia está há vinte anos a tentar continuar a servir. Eu cá gostava de ver um político verdadeiramente humilde. Um que entrasse numa conferência de imprensa e dissesse:

- Meus amigos, não sei! - seria revolucionário. E repetia - Não sei resolver isto! - e acrescentava depois de uma pausa para desembargar a voz - Enganei-me e enganei-vos! - seria revolucionário.

Aí, provavelmente, teríamos de chamar a UNESCO para classificar aquele instante como património imaterial da humanidade. Porque reconhecer um erro, na política, parece ser mais difícil do que reconhecer uma vitória.

E há outra forma muito interessante de humildade, ouvir. Não aquela coisa de ficar calado enquanto o outro fala, já preparando mentalmente a resposta. Ouvir mesmo. Ouvir quem discorda. Ouvir quem não votou em nós. Ouvir aquele cidadão que aparece numa reunião e faz uma pergunta incómoda. Aliás, uma pergunta incómoda é, para certos políticos, uma espécie de exame médico, preferem não fazer.

Porque a humildade não diminui ninguém. Pelo contrário: aproxima. O cidadão não espera políticos perfeitos. Espera políticos humanos. E talvez a maior demonstração de humildade política fosse perceber que o poder é emprestado. Hoje estamos no palco. Amanhã estamos na plateia.

E o público, esse, tem uma memória extraordinária. Não precisa sequer de apontamentos. Guarda tudo. Por isso, se algum político quiser realmente praticar a humildade, proponho-lhe um exercício muito simples - De vez em quando, desligue o microfone, deixe o teleponto em casa e vá ouvir as pessoas. Porque, às vezes, a verdadeira humildade política começa precisamente quando ninguém está a olhar.

(não falo de política, de futebol ou religião mas hoje cansei-me de ouvir as notícias. Todas!)

Sanzalando

7 de setembro de 2026

Pertinências 25 - Júlia Domingues e João Ventura

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 25 - Júlia Domingues e Analita conversa com João Ventura






Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar. 


Imperdível



Sanzalando

no barco do Luís

O zulmarinho estava de um azul de capa de revista, mas o barco do Luís inspirava bem menos confiança que a própria física. O barco de madeira e lona, montado na própria praia e muita fé, rangia só de olhar para ele. Era de compra mas era único. Parecia uma construção de papel que se ia abrindo e ficava uma canoa de puxar estilo quando paraleleava a beira mar e elas me olhavam.

- Isto aguenta quanto peso? - perguntavam...

- Aguenta três pessoas! - respondi ajustando um boné cheio de salitre, enquanto pensava que só tinha lá andado com o Luís, mas a maior parte das vezes andava sozinho porque ele o tinha deixado à minha guarda, vantagem de não ser trabalhador das 8 às 17 e sim estudante em partime. 

A viagem começou gloriosa. O motor, um monstro de dois tempos, uma remada para a direita, uma para a esquerda e um rastro de água revolta na retaguarda que chamam de ré e que por acaso fica nas minhas costas. Eu parecia um campeão olímpico.

A duzentos metros  paralelo à costa e eu era sorriso e peito inchado. Eles, os que estavam na areia acho me invejavam. Bem, gente acabou na areia e dou a volta para regressar. O vento está do contra, Um tempo para a frente, um vento para trás. Acho já me faltava de ar no carburador, coração e pulmões, com autoridade remei mais forte mas o remo acho encolheu e ficou assim tipo colher de pau. Ao menos eu não saía do lugar pelo que optei por vir para terra. .

- Calma, que o centro de gravidade disto é dinâmico, pelo que deitei-me na areia como que a banhar-me de sol. Recuperei o folego. Fechei o barco como quem o põe dentro dum envelope e à beira mar fiz a circunavegação de regresso. Não sei se foi por acaso ou se foi de propósito, fiz esse regresso sempre a olhar para o horizonte. 

E assim, com o barco do Luís fiz muitas viagens de beira-mar remado ou a pé

Sanzalando

6 de setembro de 2026

Fiquei na esquina

Naquele meu tempo a tarde caía lentamente, parecia até que era pesada daquele calor quente de verão que colava a camisa às costas e fazia o asfalto parecer cemitério de tampinhas. Naqueles fins de tarde a minha missão era de importância capital, quase a pedir estratégia militar, ficar na esquina da Rua da Fábrica com o caminho do Impala Cine, encostado ao poste, com um ar perfeitamente banal para ninguém desconfiar. A ideia, claro, era parecer que eu tinha acabado de aterrar ali por mero acaso. Assim do estilo alguém que passava, sentia uma súbita vontade de contemplar o trânsito de carros e motorizadas, e que, por coincidência divina, se cruzaria com ela.

A estratégia exigia treino e muita preparação. Cruzar os braços? Muito defensivo. Mãos nos bolsos? Demasiado descontraído, corria o risco de parecer um miúdo sem rumo. Ficar de pé, com um pé apoiado no poste e o olhar fixo no horizonte, parecia a pose ideal. O problema do horizonte é que ele não mudava, mas as pernas começaram a tremer ao fim dos primeiros vinte minutos.

- Estás à espera do machimbombo, ó miúdo? — perguntou o Sr. Latinhas, ao passar saído da barbearia. -  Olha que aqui só passa o lá vai um de vez em quando. - e desatou a rir Engoli em seco e tentei esboçar um sorriso de sabedoria incompreendida:

 - Não, Sr. Latinhas. Estou só a apanhar ar.

 - A apanhar ar na esquina deste tempo? Tá bem, tá. Vê lá no que te metes...

Aos trinta minutos, o ar de verão já me tinha cozido o lado esquerdo da cara a se notar pelo encarnado que estava. A camisa de manga curta, passada a ferro começava a colar-se à pele. Cada carro que eu via ao longe fazia o coração disparar para batimentos cardíacos incompatíveis com a vida humana. Olhava de lado, disfarçando com uma tossezinha seca, só para ver chegar o carro da Laurinda da Quitanda.

Uma hora depois a esquina já não era um posto de observação; era uma tortura como as que eu tinha aprendido nas aulas de História. E então, aconteceu. A esquina iluminou-se e até parece ganhou uma outra luz de fim de tarde. Lá vinha ela, como sempre sentada no banco de trás, mesmo atrás do pai. O carro passou e acho ela nem olhou para esquina. 

Acho era eu estava do lado escondido do candeeiro. Foi assim que naquele dia parece ela se tinha evaporado. Pensei rápido e rápidamente decidi que tinha que mudar de lugar, seguindo a rota diária daquele passeio de fim de tarde, de todas as tardes.



Sanzalando

5 de setembro de 2026

O ininfluenciador

Antigamente as pessoas precisavam de ter um talento, uma profissão ou, no mínimo, uma história bizarra para contar nas reuniões de família para serem ouvidas. Hoje, graças à democratização do ecossistema digital, basta ter um telemóvel, uma luz circular de de 15 euros e uma determinação inabalável para chamar comunidade a três amigos, duas tias e um robô algures no mundo que vende criptomoedas e tem bué de perfis nas redes e eis que surge a figura mais fascinante do nosso século: o Influenciador Digital.

O influenciador vive num estado perpétuo de prontidão executiva. Acorda às seis da manhã — não para trabalhar, mas para fotografar uma chávena de café fumegante acompanhada pela legenda: A preparar as grandes novidades de hoje. Fiquem atentos!. Ninguém fica atento. O seu público é composto por pessoas que clicaram em seguir por engano, ou até por vício, enquanto tentavam fechar um anúncio de aspiradores.

O seu momento de maior apogeu acontece quando recebe a primeira parceria. Não estamos a falar de marcas de luxo ou estadias em Bora-Bora, mas sim de uma marca de chá de hibisco que lhe envia uma caixa de amostras em troca de dez vídeos, três reels e a alma da sua avó. O influenciador grava um vídeo de dez minutos a fazer o unboxing da caixa de cartão com as mãos a tremer de emoção:

- Vocês têm-me perguntado MUITO sobre o meu chá favorito...

(Spoiler: ninguém perguntou. A caixa de mensagens está tão deserta quanto um centro comercial às quatro da manhã de uma terça-feira. Mas a ilusão precisa de continuar.)

O verdadeiro drama do influenciador reside no impacto real da sua palavra. Se ele disser não comprem este casaco, a loja esgota o stock por pura coincidência estatística. Se organizar um evento de encontro com seguidores num parque público, a única entidade a marcar presença é a polícia municipal, intrigada com aquele jovem a falar sozinho para um tripé enquanto segura um um stick com um telemóvel na ponta.

E, no entanto, há algo de profundamente poético e admirável nesta bravura. O influenciador é o último romântico da internet. Ele mantém a fé num algoritmo que o ignora com a mesma dedicação com que continua a partilhar o look do dia no meio da paragem do autocarro, debaixo de chuva, sorrindo como se estivesse na semana da moda de Milão ou no Festival de Cannes.

No fundo, todos devíamos aprender com eles. Num mundo obcecado por métricas, alcance e conversões financeiras, o ininfluenciador (é de propósito) é a prova viva de que é possível ter uma autoconfiança de nível olímpico sem ter absolutamente nenhum resultado para mostrar. E se isso não é inspirador, então não sei o que será.

nota - tem por aqui palavras que tive que ir ver se as havia em português mas desencontrei e nem sei bem o que querem dizer.

Sanzalando

4 de setembro de 2026

relaxamento de bicicleta

Há uma ilusão perigosa que circula na nossa sociedade que é a ideia de que subir para cima de um selim de dois centímetros de largura é uma forma válida de relaxamento.

Dizem os entendidos e por entendidos refiro-me às pessoas que usam fato de treino de licra fluorescente, justíssimo ao corpo mostrando a famosa barriguinha criada pela idade, e mais nada para além disso, às oito da manhã de um domingo, que pedalar limpa a mente. O que ninguém avisa é que limpa a mente porque a substitui imediatamente por instintos primitivos de sobrevivência. Não há espaço para pensar nas contas da água ou nos prazos do trabalho quando 90% do cérebro está focado em manter o equilíbrio e os outros 10% em rogar pragas ao inventor das estradas de  paralelepípedos irregulares, ou asfalto com várias formas de arrefecimento tipo buracos e buraquinhos. Para não contabilizar os 100% do subconsciente, que vai com a sua atenção virada para os automóveis e seus palavrões.

O ritual do descanso sobre rodas começa logo na escolha da vestimenta. Olhamo-nos ao espelho enfiados num equipamento justo e a pergunta surge inevitável: estarei pronto para o Tour de France ou apenas para ser confundido com um pirilampo gigante em crise da idade? Superada a fase estética, vem a afinação da máquina. Pinta-se a ideia idílica de deslizar suavemente pela brisa marinha, mas a realidade do primeiro quilómetro resume-se a uma batalha campal contra um vento frontal que parece ter sido destacado pessoalmente pelo Instituto do Mar e da Atmosfera para nos testar a paciência e transformar um plano em subida que ontem ao fim do dia não estava ali.

Depois há a relação com o relevo. No mapa, a subida parecia apenas uma ligeira inclinação poética. Na prática, transforma-se no Evereste. A partir do terceiro minuto de subida, o tal descanso evapora-se com o suor que se solta. O coração bate num ritmo que faria inveja a um baterista de heavy metal, os joelhos emitem estalidos em código morse e a respiração ganha o tom melodioso de um fole de acordeão estragado. É neste preciso momento que cruzamos com outro ciclista que desce a montanha, fresco como uma alface, e nos lança um alegre Bom dia!  A nossa resposta, claro, é um aceno de cabeça, agonizante e um esboço de sorriso, que tenta transparecer dignidade, enquanto internamente ponderamos vender a bicicleta ao primeiro que passe a pé.

Mas o verdadeiro milagre acontece quando finalmente paramos. Encaminhamo-nos para a esplanada mais próxima, arrastando os pés como quem acabou de completar uma maratona nas dunas, e pedimos uma imperial. Sentamo-nos. Os músculos das pernas ainda tremem ligeiramente, a brisa finalmente sabe bem e o mundo parece rodar a um ritmo imensamente mais calmo.

É aí que se percebe a grande mentira do ciclismo recreativo, andar de bicicleta não descansa rigorosamente nada durante o percurso. O verdadeiro descanso é a paz absoluta, a glória incomparável e o alívio indescritível de, finalmente, conseguir desmontar da dita.


Sanzalando

3 de setembro de 2026

Tesourinhos Musicais 104 - Corina Freire - Programa 130


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Esta Música tem uma História 68 - Gal Costa - Contigo Aprendi - K'arranca às Quartas 130


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O Pintor debaixo do Lava loiças - Afonso Cruz (Anabela Quelhas) Livro - K'arranca às Quartas 130


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Crónica de João Portelinha da Silva (35) - K'arranca às Quartas 130


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Crónicas de Carlos Osório (29) - K'arranca às Quartas 130


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Crónica 117 - K'arranca às Quartas 130


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2 de setembro de 2026

Programa 130 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 02 de Setembro de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que éEsta Música tem uma história com Gal Costa e Contigo Aprendi, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, Corina Freire
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde 
 Crónicas de Carlos Osório que falou sobre notícias e catastrofismos, e do livro fui buscar as palavras a Anabela Quelhas - O Pintor debaixo do Lava loiças - Afonso Cruz.
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Joselito, Marisol e a minha infância cinematográfica

Quando eu era criança, havia uma coisa que eu levava muito a sério, os filmes de Joselito e Marisol que o avô Serafim me levava a ver no Cine-Moçâmedes. Ontem estava a falar com um amigo sobre as memórias que os avós deixam na nossa infância. E eu me lembrei e lhe disse que as melhores memórias que tenho desse tempo é mesmo com os avós. Com os pais estamos todos os dias e vira rotina. Os avós marcam, tatuam a alma e grafitam o nosso cérebro. Eles acabam por ser os nossos heróis.

Hoje penso nisso e acho extraordinário. 

O meu avô Serafim levava-me ao cinema.

Eu podia não perceber grande coisa da vida, mas sabia perfeitamente que, num filme de Marisol, haveria sempre uma menina loira, um vestido impecável, uma canção e alguém a tentar estragar-lhe a felicidade. E Joselito tinha sempre aquela voz que parecia vir de um sítio onde as crianças normais nunca tinham entrado.

Eu ia ao cinema preparado para tudo.

Sentava-me na cadeira, olhava para o ecrã e, quando começava a música, ficava completamente hipnotizado. Aquilo era cinema a sério. Não havia super-heróis, efeitos especiais nem explosões. Havia uma criança a cantar e nós, na plateia, em absoluto silêncio, como se estivéssemos perante um acontecimento histórico.

Eu, naturalmente, também queria cantar como Joselito.

O problema é que a minha voz não tinha sido informada dessa decisão. Lá em casa, eu cantava qualquer coisa que me lembrasse os filmes. A família ouvia com aquela expressão de quem está a tentar perceber se aquilo era uma manifestação artística ou um pedido de socorro.

- Cala-te, miúdo! - dizia-me um mais velho que não fosse um dos avós.

Eu interpretava aquilo como falta de sensibilidade musical.

Com Marisol era diferente. Marisol não precisava de fazer grandes esforços. Bastava aparecer e sorrir. Eu ficava convencido de que a vida era assim: as pessoas bonitas sorriam, cantavam, tinham bons vestidos e os problemas acabavam antes de aparecer em inglês que o filme tinha acabo.

Mais tarde descobri que não era bem assim.

Na infância, porém, o cinema ensinava-nos uma coisa maravilhosa, tudo podia acabar bem.

Se havia um órfão, aparecia alguém para o adoptar. Se havia uma injustiça, fazia-se justiça. Se havia uma menina triste, começava uma canção. E se Joselito cantava, até os adultos pareciam acreditar que o mundo tinha solução.

Eu saía do cinema convencido de que também podia ser artista. Chegava a casa, pegava numa vassoura como se fosse um microfone e começava o espectáculo. A família, que não tinha comprado bilhete para a sessão seguinte, tentava discretamente abandonar a sala. Eu não desistia. Porque naquela altura eu ainda não sabia que havia pessoas que nasceram para cantar e outras que nasceram para assistir aos que cantam. Eu pertencia claramente ao segundo grupo. Mas ficaram Joselito, Marisol e aquelas tardes de cinema. Ficou a música, ficou a emoção e ficou sobretudo aquela sensação de que, durante duas horas, o mundo lá fora podia esperar.

Hoje, quando penso nesses filmes, já não vejo apenas Joselito ou Marisol. Vejo o miúdo que eu era, sentado numa sala escura, olhos bem abertos, a acreditar que o cinema era capaz de explicar a vida. E talvez fosse. Pelo menos ensinou-me uma coisa que continuo a praticar: há memórias que não precisam de legendas. Basta começar a música.



Sanzalando

1 de setembro de 2026

uma história de amor que não aconteceu

O destino tem um sentido de humor muito particular. Brinca com a gente e a gente lhe olha de espanto. Não estou a falar daquele humor refinado do estilo dos ingleses, é mais no género vamos atirar uma casca de banana à vida deste ser humano só para ver no que é que dá.

Eu e ela tínhamos tudo para ser o casal do século passado transposto para este. Não me refiro a um século modesto, refiro-me àqueles romances de proporções que até dá dor nos braços de levar a tira-colo e que fazem as pessoas suspirar no cinema. Partilhávamos o mesmo ódio visceral por passas e frutas cristalizadas, gostávamos de bandas desenhada se ela ensinava alguma coisa e gostávamos de algo tipo alforrecas que só três pessoas na Islândia também gostavam e ambos achávamos que salsa é uma planta divina na comida e não uma dança latina. Em termos, falando numa língua actual, de algoritmo amoroso, a taxa de compatibilidade era de 99,9% para não ser número quadrado e totalmente redondo.

O problema afinal estava nos restantes 0,1%. Essa margem de erro microscópica vestia-se de desencontros com uma pontualidade britânica, que não teve piada nenhuma vez.

Na primeira vez em que devíamos ter ficado juntos, numa festa de aniversário, ganhei coragem para ir falar com ela. Quando estava a meio metro de distância, uma perna de frango voadora arremessada por um convidado demasiado entusiasmado bateu no meu peito e fez o meu prato de croquetes voar diretinho para a camisa branca dela. Foi uma tonelada de maionese que me estragou a coragem e a oportunidade. Passei o resto da tarde a pedir desculpa e a tentar tirar as nódoas com Pedras de Água que alguém disse que limpava tudo, o que, como se sabe, é uma das atividades menos romântica do planeta. E afinal as Pedras Água sé tiram a azia e os gases do estômago, porque as nodoas lá ficaram. Pelo menos na minha cabeça e na raiva dela.

Anos mais tarde, o universo fez sinal com outra oportunidade. Num encontro por acaso, encontrámo-nos no Monte do Estoril. A iluminação era péssima, mas a química era palpável e via-se a olhos vistos. Trocámos olhares, sorrisos e a promessa de que desta vez era a sério e não nos iríamos perder. Ela me perguntou se eu andava à procura dela e eu disse que não. Era mesmo por acaso. Fez um sinal com a mão, apontou para uma cabine de telefone, mas as portas do comboio fecharam-se com um barulho dramático. Foi lindo, digno de Hollywood. O pequeno detalhe é que nenhuma das portas tinha deixado passar a informação importantíssima, nenhum de nós tinha o número do outro.

E assim o tempo foi-se gastando ao ritmo dele. Eu tinha decidido ter uma crise existencial e mudar-me para uma cidade desconhecida chamada de Porto, não para comer regueifas nem brincar ao S. João. Ficámos assim tipo dois cometas com órbitas impecáveis, programados para brilhar juntos, mas condenados a passar um pelo outro a quatrocentos quilómetros por hora, a contar na distância.

Um dia vi-a passar na rua a caminho de um Congresso que eu também ia. Ela não sorriu, não acenou e eu preparei-me para atravessar a estrada e finalmente resolver esta dependência de anos. Dei o primeiro passo com a determinação de quem vai tomar o destino nas mãos. Foi exatamente nesse segundo que lhe disse olá e ela respondeu que não falava com estranhos que eu senti que tinha sido atropelado por um tractor. Quando o tractor saiu de cima de mim, recuperei o olhar e já não voltei a vê-la. No Congresso desviou a cara sempre que o meu olhar lhe marcava tipo raio laser. Descruzamo-nos para todo o sempre.

Acho que o universo não queria que ficássemos juntos porque sabia que, se a coisa funcionasse, seríamos felizes demais. E um amor perfeito, sem drama nem desencontros, estragaria qualquer boa história.


Sanzalando

31 de agosto de 2026

Fui ver o zulmarinho

Sempre tive um objectivo de vida muito claro, embora todos a chamassem de vadiagem profissional. O plano consiste em sentar-me numa falésia, exatamente às quatro da tarde, e olhar para o zulmarinho. Não um olhar apressado de turista, mas uma contemplação profunda, quase científica. Analisava a crista das ondas com a seriedade de um engenheiro aero-especial, prestes a lançar um foguetão de ideias e fantasias.
Às vezes, o oceano exibe um tom azul-turquesa digno de cartão-postal, ajeito os meus óculos na ponta do nariz, cruzo as pernas e suspiro, pronto para entrar em num transe filosófico interior. Uma vez ou outra sou interrompido por um turista, carregado com três boias de flamingo, duas cadeiras de praia, um guarda-sol e um cobertor que aparenta pesar metade do seu peso e parou mesmo à minha frente. O homem bloqueou-me totalmente a linha de visão.
Resmunguei num entre-dentes, mas o homem estava demasiado ocupado a tentar espetar o guarda-sol no chão duro da falésia. Vendo que a força bruta não funcionava na rocha portuguesa, o turista virou-se para o veterano da falésia, eu mesmo, e perguntou-me se a maré ia subir muito nas próximas duas horas.
Olhei para o homem, depois para o mar escondido atrás bóia plástica do flamingo gigante, e respondi que dependia muito do humor da lua, mas que o verdadeiro perigo eram os ataques iminentes de caranguejos acrobatas que costumam assaltar turistas naquela zona específica da falésia. O turista arregalou os olhos, agarrou o flamingo pelo pescoço e arrastou toda a sua tralha dez metros para o lado, deixando livre a paisagem.
Novamente a sós com a imensidão atlântica, voltei a focar o horizonte. Eu gosto do mar porque a água não pede satisfações, não reclama do preço do quilo do carapau e, acima de tudo, muda de assunto a cada onda que quebra contra a falésia. Um jovem windsurfista passou a deslizar sobre a água, afastando umas tantas gaivotas que repousavam com água pela cintura. Sorri e murmurei para mimmesmo que a comédia marítima era muito superior a qualquer programa de televisão.
O transe foi quebrado de forma definitiva quando o telemóvel no meu bolso começou a vibrar intensamente. Era a dona de mim, exigindo saber se eu já tinha descoberto o sentido da vida e se podia passar na padaria para comprar quatro carcaças para o lanche antes que o sol se pusesse. Levantei-me a contra-gosto, sacudi a areia imaginária das pernas e dei um último aceno cúmplice ao oceano, prometendo regressar no dia seguinte para mais uma sessão gratuita de terapia salgada.


Sanzalando