recomeça o futuro sem esquecer o passado

27 de outubro de 2026

Em memória de um amigo, aprendiz de sonoplasta e pianista dos Mini-Nota

Tem pessoas que tocam na nossa vida e deixam marcas que o tempo não consegue apaga como o Ermelindo Sena, que, mesmo sendo tímido por natureza, deixa uma presença que continua a fazer-se ouvir depois de se calar.

Conheci o Ermelindo na década de 70, quando foi meu aprendiz de sonoplasta no Rádio Clube de Moçâmedes. Eram tempos de rádio, de experiências, de descobertas e de sonhos. A rádio tinha os seus mistérios, os seus botões, os seus microfones e aquela magia de transformar sons em emoções. E o Ermelindo foi aprendendo a dominar esse mundo, com a paciência de quem não precisava de levantar a voz para mostrar que estava presente. Aliás, tinha vezes que ele falava e ninguém lhe ouvia. A timidez ficava-lhe com o som e deixava passar o sorriso. Era tímido, sim. Daquela timidez genuína, que não se aprende nem se representa. Uma timidez que, por vezes, o fazia falar pouco, mas que não o impedia de sentir muito. 

E depois havia o piano. O Ermelindo era pianista dos Mini-Nota. Quer dizer organista porque ele tocava era órgão que tem o som de piano mas não é piano. Acho tem um circuito lá dentro, tipo gente minúscula que toca tudo. E talvez seja essa uma das mais bonitas contradições da sua personalidade, o homem que a timidez convidava ao silêncio encontrava na música uma maneira de dizer aquilo que as palavras, tantas vezes, não conseguiam exprimir.

Ao piano, os dedos falavam por ele. As notas ganhavam voz, as melodias abriam caminhos e aquele puto discreto mostrava-nos que a sensibilidade nem sempre se anuncia. Às vezes, sentava-se diante de um teclado e deixava que a música faça o resto que lhe faltava.

Hoje, a notícia da sua morte traz-nos uma tristeza difícil de traduzir. Depois de uma doença prolongada, o Ermelindo partiu. E, perante a partida de alguém que conhecemos desde tão longe, percebemos como a vida tem esta maneira cruel de nos devolver ao passado, revemos rostos, recordamos conversas, escutamos sons que julgávamos esquecidos e encontramos, dentro de nós, pessoas que nunca deixaram verdadeiramente de estar presentes.

Volto, por isso, à década de 70. Volto à rádio, ao aprendiz que procurava aprender, ao companheiro de jornada, ao pianista dos Mini-Nota. Volto a um tempo em que talvez não soubéssemos que aquelas horas, aparentemente tão comuns, haveriam de se transformar em memórias tão preciosas.

Na altura, tínhamos o futuro pela frente e não imaginávamos quantas despedidas íamos ter pela frente. Vivíamos sem pensar demasiado no fim das coisas, porque a juventude tem essa generosidade: faz-nos acreditar que haverá sempre mais um programa, mais uma música, mais um encontro. Mas a vida não nos concede todas as repetições que desejamos.

Hoje, Ermelindo, não posso ensinar-te mais nada sobre sonoplastia. Também já não podemos conversar sobre a música, sobre os sons ou sobre os silêncios. O teu percurso chegou ao fim, e custa aceitar que alguém com quem partilhámos uma parte da vida passe a existir apenas na lembrança.

Mas há uma coisa que a morte não consegue fazer que é apagar aquilo que vivemos.

Continuas presente nas memórias de quem te conheceu, na história dos Mini-Nota, nos sons de uma época e, muito particularmente, na minha própria história. Foste meu aprendiz, mas a passagem dos anos ensinou-me que estas relações nunca têm apenas um sentido. Quem ensina também aprende. E quem acompanha alguém no início de um caminho acaba por receber, muitas vezes sem dar por isso, lições que guarda para sempre.

A tua timidez nunca foi ausência. Foi apenas outra maneira de estar no mundo. E talvez seja por isso que a tua partida nos deixa agora um silêncio tão grande.

Descansa em paz, Ermelindo Sena.

Que a música te acompanhe nesta última viagem. Que encontres a serenidade que mereces. E que, onde quer que estejas, haja sempre um piano à tua espera e alguém disposto a escutar. Hoje, a rádio perde uma pessoa discreta, a música perde um pianista e eu perco alguém que fez parte da minha história. Fica a saudade. Fica a amizade. Fica a memória de um tempo que já não volta, mas que continuará vivo enquanto houver quem o recorde. E, quando o silêncio parecer demasiado grande, talvez possamos fechar os olhos e imaginar que o Ermelindo voltou a sentar-se ao piano.

E que, por instantes, a música nos devolve aquilo que a vida nos levou.

Até sempre, Ermelindo.


Sanzalando

26 de outubro de 2026

Uma estória de amor, rádio e outras avarias sentimentais

Nos idos anos de 1970, eu tinha uma certeza absoluta: queria trabalhar na rádio. Não só por sentir aquela vocação jornalística, amor à comunicação social ou desejo de informar o povo. Nada disso. Eu queria também impressioná-la.

A menina em questão frequentava o mesmo liceu, tinha uns olhos capazes de provocar perturbações na emissão de qualquer estação de rádio e uma maneira de sorrir que me fazia esquecer, simultaneamente, qualquer teorema, a matéria de História e o meu próprio apelido.

Ela não sabia da existência do meu amor. Ou, se sabia, fazia de conta que não sabia, o que, para um adolescente apaixonado, era uma forma particularmente cruel de censura prévia.

Foi então que descobri a rádio. Um desejo há muito desejado mas agora com necessidade acrescentada.

No liceu, entre duas aulas, havia um intervalo durante o qual alguns alunos se dedicavam a actividades de grande importância para o futuro da humanidade: comer uma sandes, copiar os trabalhos de casa, perseguir colegas pelos corredores ou fingir que tinham percebido a aula anterior. Eu decidi fazer rádio.

Arranjei maneira de ser admitido no Rádio Clube. Não lhes disse que eu não queria público, que queria uma ouvinte. Uma única, ela.

Mas, como a tecnologia da época ainda não permitia transmitir directamente para o coração de uma rapariga, tive de recorrer ao sistema tradicional: falar para toda a gente, esperando que ela percebesse que tudo aquilo era para ela.

Comecei por estudar os grandes locutores. Treinava a voz diante do espelho, tentando encontrar aquele tom, seguro e ligeiramente misterioso que fazia as pessoas acreditar que o homem do microfone conhecia os segredos do universo. O problema era que, aos dezasseis anos, a minha voz ainda não tinha decidido se queria ser de homem ou continuar a ser de menino. Às vezes começava grave, como um locutor dos documentários antes do filme, e acabava aguda, como uma chaleira a ferver da minha avó. Não desisti.

Todos os tempos eram uma oportunidade para aperfeiçoar a arte de falar ao microfone e, sobretudo, para lançar mensagens subliminares à minha amada.

- Muito bom dia, estimados ouvintes! Está no ar mais um momento musical dedicado à juventude, ao amor e à beleza da vida! - fazia uma pausa dramática. Era importante que ela percebesse.

- Esta próxima canção é dedicada a todas as pessoas que, mesmo sem saberem, tornam os nossos dias mais bonitos.

Olhava discretamente para a minha memória, onde estava fixada um fotografia dela.

Aparentemente, a mensagem tinha sido recebida por toda a população, incluindo o contínuo do liceu, duas professoras de Português e um rapaz que estava a comer um pastel de nata. Não sei se pela destinatária, também. Aqueles foram o que posteriormente se referiram à minha frase.

Passei, então, a escolher músicas de acordo com a gravidade da situação sentimental. Se estava optimista, punha uma canção alegre. Se ela me ignorava, escolhia uma música melancólica. Se a via a conversar com outro rapaz, entrava numa fase artística que os ouvintes poderiam confundir com o fim da civilização ocidental.

Foi assim que o liceu ficou a conhecer o meu gosto musical, a minha capacidade de improvisação e, sem que eu o desejasse, a instabilidade emocional da minha adolescência. Um dia, resolvi elevar a fasquia. Preparei uma emissão especial dedicada ao amor. Tinha escolhido cuidadosamente as músicas, escrito algumas frases que considerava de uma profundidade filosófica extraordinária e ensaiado diante do espelho a expressão de quem sofre muito, mas sofre com elegância. O programa começou bem.

- Há sentimentos que não precisam de palavras. Basta um olhar, um sorriso, um gesto...

Nesse preciso instante, alguém abriu a porta do estúdio e gritou:

— Ó pá, despacha-te! A tua professora já chegou ao Liceu!

A minha poesia morreu ali, entre o microfone e uma chamada de atenção. Ainda assim, mantive a dignidade.

- E agora, meus amigos, vamos ouvir uma canção para aqueles que acreditam que o amor vence todas as dificuldades!

Carreguei no botão errado. Em vez da música romântica, entrou um disco de música popular tão animada que parecia ter sido gravado para acompanhar a inauguração de uma fábrica de refrigerantes. Eu sorri, fingindo que tudo fazia parte de uma sofisticada experiência radiofónica destinada a demonstrar a versatilidade da música contemporânea. Era preciso salvar a reputação. Quanto a ela, vi-a rir quando entrei esbaforido pela sala de aula.

E foi nesse instante que compreendi que talvez tivesse conseguido alguma coisa. Não sabia se tinha percebido as minhas dedicatórias. Não sabia sequer se me considerava um locutor talentoso ou apenas um rapaz com acesso indevido a um microfone. Mas tinha-se rido. E, para um adolescente apaixonado, fazer rir a mulher amada era quase tão importante como fazê-la apaixonar-se. A diferença era que, no primeiro caso, bastava uma boa piada. No segundo, era necessário um milagre.

Continuei a fazer rádio durante uns anitos. Anunciei discos, dediquei canções, falei de artistas, improvisei notícias e desenvolvi uma voz radiofónica que, com o tempo, deixou de parecer uma chaleira a ferver. Ela, entretanto, continuou a sua vida. Estudava, conversava com as amigas e, suspeito, não fazia a menor ideia de que tinha um adolescente a organizar a programação musical por sua causa. Talvez tenha sido melhor assim. Porque, se ela tivesse sabido, poderia ter-me pedido para dedicar menos canções e estudar mais Matemática.

E teria toda a razão.

Hoje, quando olho para trás, percebo que, naquele tempo, eu não fazia rádio apenas para impressionar uma rapariga. Fazia rádio porque tinha descoberto uma maneira de dizer coisas que, frente a frente, nunca teria coragem de lhe dizer. Ao microfone, eu era eloquente, seguro e quase irresistível. Na presença dela, tornava-me um móvel. Um móvel de boa qualidade, reconheço, mas ainda assim um móvel bantente imóvil.

A rádio deu-me uma voz. O amor deu-me assunto. E a adolescência encarregou-se de me convencer de que as duas coisas, juntas, poderiam resolver todos os problemas da existência humana. Não resolveram. Ela não se apaixonou necessariamente por mim, eu não me tornei uma estrela da rádio e a Matemática continuou a ser uma ciência hostil embora agradável. Aprendi uma coisa que os manuais escolares nunca ensinaram: às vezes, começamos uma carreira por razões muito pouco profissionais. Há quem entre na política para mudar o mundo, quem estude Medicina para salvar vidas e quem faça rádio para dar voz aos que não a têm.

Eu, em 1970, queria apenas que uma menina me ouvisse. O destino, que tem um sentido de humor muito particular, acabou por me deixar o microfone na mão.

E ela? Ela ficou na memória, entre uma canção dos anos 70 e o ruído de fundo de um liceu onde um rapaz tentava desesperadamente transformar uma paixão platónica num programa de sucesso. Se hoje pudesse voltar àquele tempo, faria tudo de novo. Talvez escolhesse melhor as músicas, talvez falasse menos de amor e talvez estudasse um pouco mais. Mas não abdicaria do microfone. Porque, afinal, há amores que não chegam a acontecer, mas dão excelentes programas de rádio. E há adolescentes que nunca conseguem conquistar a rapariga dos seus sonhos, mas acabam por descobrir a sua própria voz.

Eu não a conquistei. Mas, durante os programas, consegui conquistar o éter. E, convenhamos, para um rapaz de dezasseis anos, com borbulhas, calças à boca de sino e um coração em permanente estado de emergência, já não era nada mau.



Sanzalando

25 de outubro de 2026

Há dias em que na rádio tudo conspira contra nós

Há dias em que trabalhar na rádio é uma experiência espiritual. Não porque nos aproxime de Deus, mas porque nos faz chamar por Ele com uma frequência que nem o melhor transmissor consegue captar.

Começa logo na montagem do material. Chegamos com a boa disposição de quem acredita que vai salvar o mundo. Cumprimentamos os colegas, ligamos os equipamentos e preparamos o programa com rigor.

Afinal, anos de experiência ensinam-nos que, na rádio, como na medicina, não basta saber o que se vai fazer. É preciso que os instrumentos colaborem. E é aí que começa a tragédia. O microfone não funciona. Os auscultadores só dão som de um lado. O computador decide actualizar-se precisamente quando precisamos de abrir a aplicação. A mesa de mistura, que ontem era uma senhora respeitável, hoje comporta-se como uma adolescente malcriada.

Carregamos num botão e desaparece o som. Carregamos noutro e aparece um ruído que mia parece uma manada de térmitas a trabalhar.

- Está tudo bem? — pergunta o colega, com aquela serenidade irritante de quem ainda não percebeu que estamos a dois minutos de entrar em antena.

- Está óptimo! — respondemos, com um sorriso que mais parece uma ameaça, escondendo uma vontade enorme de nos esganarmos.

É então que descobrimos que a entrevista que preparámos cuidadosamente não está assim tão fácil. O convidado chega em cima da hora. O telefone toca, mas ninguém sabe onde está o telemóvel que deveria atender a chamada. E a música de abertura sai colada a uma m~usica que temos pensa de interromper. A rádio tem destas coisas. Quanto mais preparados estamos, mais empenhada parece em demonstrar que a preparação é uma forma de optimismo excessivo. E chega a hora de entrar em directo. Acende-se a luz vermelha. Respiramos fundo. Endireitamos as costas. Aproximamos a boca do microfone e assumimos aquela voz segura, grave e confiante, própria de quem sabe exactamente o que está a fazer.

- Boa tarde daqui da Meia-Praia... - só que é noite e a praia é a de Alvor. A cabeça faz piruetas, o buraco da agulha não está à mão de semear e o frio transforma-se numa enorme transpiração que até parece fazer nevoeiro à volta do resto do pensamento

Nesse preciso instante, decidimos continuar a falar embora desejemos que falhe a luz ou a internet. Afinal, a rádio também é uma questão de fé. Talvez os ouvintes ainda nos escutem. Talvez o sinal tenha seguido por caminhos misteriosos. Talvez exista uma antena escondida no céu, alimentada pela boa vontade dos profissionais da comunicação entretanto falecidos.

Do outro lado nós, o que também fazemos de técnico, fazemos gestos desesperados. Pareço um árbitro a tentar anular um golo. Mantemos a dignidade, porque um locutor pode perder o som, o alinhamento e até a paciência, mas nunca deve perder a pose. Mas a emissão continua

O microfone de quem está a meu lado chia, range, faz ruído por cima da voz dela. Equalizo. Nada. Tiro ganho. Nada. Mudo de microfone. O ruído está lá para me irritar. Carregamos nos botões. Dá vontade de interromper e deixar um silêncio no ar. Mantenho a compostura. Vai assim e depois pensarei. Naquele momento, também nós precisávamos de desentupir qualquer coisa: a mesa de mistura, o computador ou, de preferência, a cabeça. O mais extraordinário é que, no final, tudo acaba por correr razoavelmente bem. Os convidados chegaram, a conversa correu fluente e até o computador parece ter recuperado a educação, a mesa reeducou-se e os microfones estavam quase perfeitos. Só mesmo aquele lugar ao lado de mim...

E quando saímos, alguém me pergunta:

- Então, como correu o programa?

Respondo com a tranquilidade dos grandes profissionais:

-Correu muito bem!

Porque há verdades que não precisam de ser transmitidas em FM. A verdade é que, nesses dias, a rádio ensina-nos uma lição preciosa: o directo não é a arte de fazer tudo bem; é a arte de impedir que os outros percebam tudo o que correu mal. E talvez seja precisamente isso que nos faz gostar tanto disto.

A rádio é feita de vozes, música, histórias e imprevistos. É feita de pessoas que, mesmo quando tudo falha, encontram maneira de continuar. Afinal, o ouvinte não tem culpa de o computador estar a viver uma crise existencial ou de o microfone ter decidido entrar em greve.

E amanhã voltaremos. Com a mesma vontade, a mesma paixão e, se possível, um cabo suplente no bolso. Porque na rádio há dias em que tudo corre mal. Mas há uma coisa que continua a correr bem: a vontade de voltar a abrir o microfone. Só não prometemos que seja o microfone certo.


Sanzalando

Conversas à Mesa 8 - Pescas e Áreas Marinhas Protegidas








O Programa que se fez a 24 de Outubro no Restaurante Trópico, Praia dos Três Irmãos
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.







Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


Sanzalando

24 de outubro de 2026

Fui à pesca… mas esqueci-me de levar a cana!

E porque hoje tenho um programa que se chama Conversas à Mesa e vai falar de Pesca e Áreas Marítimas Protegidas que me deu para dissertar sobre mim. Não sou peixe, nem de signo se é que isso poderia significar alguma coisa. Mas aqui sentado, a olhar o mar da minha imaginação recordei-me que podia ter sonhado, embora isso não tenha acontecido, em que há dias em que um homem acorda com uma vocação irresistível para a aventura. Não quer saber de política, de contas para pagar, nem sequer das notícias que anunciam o fim do mundo para a próxima terça-feira ou no dia de Todos os Santos que nos valham. Quer saber apenas de paz, sossego e uma boa pescaria, seja lá o que isso significa.

Foi assim que decidi ir à pesca.

Acordei cedo, com aquela determinação própria dos grandes exploradores. Disse em casa que ia passar umas horas junto ao mar, em contacto com a natureza, a ouvir o silêncio e a refletir sobre os grandes mistérios da existência. A família olhou para mim com uma expressão de quem já conhece os meus grandes projectos e sabe que, mais cedo ou mais tarde, haverá sempre qualquer coisa que corre mal.

- Vais pescar? — perguntou alguém que para além de ter cara de quem estava a gozar comigo sabia o que eu ia responder.

- Claro! — respondi, não sei se convincente ou só porque sim.

E lá fui eu.

Cheguei à praia, escolhi um lugar magnífico, sentei-me numa pedra e contemplei o oceano. O mar estava lindo, as ondas vinham e iam, as gaivotas gritavam como se estivessem a discutir a proibição de que peixes apanhar, e eu senti-me um homem verdadeiramente integrado na natureza.

Foi então que decidi começar a pescar. Abri o saco. Olhei para dentro. Voltei a olhar. O saco continuava tão vazio como vazio eu o tinha deixado o ano passado.

Não tinha cana de pesca. Não tinha anzóis. Não tinha linha. Não tinha isco. Não tinha sequer uma minhoca que pudesse apresentar às autoridades marítimas como prova das minhas intenções, caso elas aparecessem por ali. Na mochila tinha levado levado uma garrafa de água, duas sandes e um optimismo absolutamente injustificado. Tinha me esquecido de levar tudo aquilo que distingue um pescador de um simples cidadão sentado numa pedra. Durante alguns minutos, fiquei imóvel, a olhar para o mar. Talvez um peixe, impressionado com a minha postura contemplativa, resolvesse saltar para a areia e entregar-se voluntariamente. Nunca se deve subestimar a força da esperança, sobretudo quando não se tem mais nada à mão. Mas os peixes, pelos vistos, não apreciavam a minha filosofia.

Passavam ao largo, indiferentes à minha presença. Um deles chegou mesmo a dar um salto fora de água, num gesto que interpretei como provocação pessoal.

 - Está bem, está bem!  -murmurei. - Não precisas de te armar em importante. Um dia pode calhar-te um azar.

O peixe desapareceu, provavelmente para contar aos amigos que tinha encontrado um maluco na praia.

Entretanto, chegaram pescadores, carregados de canas, baldes, redes, caixas de isco e equipamentos que pareciam preparados para capturar desde uma sardinha até ao próprio Adamastor. Um deles, vendo-me sentado, perguntou:

- Então, amigo, está a dar alguma coisa?

Olhei para o mar, depois para as minhas sandes e respondi com a dignidade de um homem que não admite derrotas:

- Está a dar uma excelente manhã. Quanto a peixe, ainda estamos em negociações. Se decido pescar ou se os deixo crescer mais um pouco.

O homem olhou para mim, olhou para o saco vazio e percebeu tudo.

- Não trouxe a cana?

- Hoje estou a experimentar uma modalidade nova. Pesca por telepatia ou simples simpatia.

Ele riu-se tanto que quase deixou cair a caixa dos anzóis.

- E funciona?

- Funciona lindamente! Até agora, nenhum peixe me incomodou.

E continuei ali, firme, a praticar aquela modalidade desportiva que consiste em esperar por alguma coisa sem ter os meios necessários para a conseguir.

Ao meio-dia, comi as sandes. Não apanhei peixe, mas consegui capturar duas migalhas na camisa e uma mancha de mostarda nas calças. Foi a única captura documentada da manhã.

Regressei a casa de mãos vazias, mas com a consciência pacificada. Afinal, não tinha gasto dinheiro em isco, não tinha perdido anzóis, não tinha partido a cana e, sobretudo, nenhum peixe poderia acusar-me de perturbar a sua vida privada.

Quando me perguntaram se tinha pescado alguma coisa, respondi:

- Claro! Pesquei uma grande lição de vida.

- Qual?

- Para ir à pesca, é preciso levar o material.

Houve um silêncio.

Depois acrescentaram:

- E peixe?

- O peixe é secundário. O importante é a experiência adquirida!

Desde então, quando anuncio que vou à pesca, a família faz sempre a mesma pergunta:

- Já verificaste se levas tudo?

E eu respondo, ofendido:

- Sou um homem experiente! Sei perfeitamente o que estou a fazer!

Depois saio de casa, dou meia-volta e nem sempre vou buscar a cana. Porque a idade ensina-nos muitas coisas. Ensina-nos a distinguir o essencial do acessório, a aceitar as derrotas com humor e a perceber que nem sempre conseguimos aquilo que procuramos por mais apetrechados que estejamos.

Mas há uma coisa que a idade ainda não conseguiu ensinar-me: que, para apanhar peixe, convém levar uma cana. E assim continuo a ir à pesca, cada vez mais sábio, cada vez mais experiente e, invariavelmente, cada vez mais desconfiado da minha própria memória. A única vantagem é que, quando não apanho nada, nunca preciso de inventar desculpas sobre o tamanho dos peixes que me escaparam. Afinal, como se costuma dizer entre pescadores, há dias em que o mar não dá nada. E há outros em que o mar até dava, mas o pescador esqueceu-se de levar com quê!


Sanzalando

23 de outubro de 2026

O amor entrou no liceu e eu passei de ano!

Em 1973, eu andava naquela idade perigosa em que um rapaz começa a desconfiar de que o mundo é muito maior do que a rua onde joga à bola, mas ainda não tinha percebido bem para que serve a Matemática. Tinha descoberto, entretanto, uma coisa extraordinária, havia uma rapariga no liceu que fazia com que qualquer disciplina se tornasse interessante. Até a Geometria e o próprio Canto Coral!

Eu, que até então encarava a escola como uma espécie de castigo inventado pelos adultos para impedir os miúdos de serem felizes, comecei a levantar-me de manhã com uma disposição que até começou a preocupar a família.

- Este rapaz está doente? — perguntava a minha mãe, desconfiada.

Não lhe respondia mas não estava. Estava única e simplesmente apaixonado.

E o amor, como se sabe e até está nos livros, provoca alterações profundas no comportamento humano, algumas das quais ainda não foram devidamente estudadas pela Medicina Moderna, mas que os poetas antigos bem o explicam. Como se pode reparar até em Português eu fiquei interessado.

A minha paixão tinha nome, rosto, cabelo e um lugar habitual na sala de aula. Eu sabia onde se sentava, com quem falava, quando sorria e até a maneira como segurava a caneta. Sabia tudo sobre ela, menos uma coisa absolutamente essencial, se ela sabia que eu existia.

Para mim, aquilo era secundário como veria a saber uns anos bem mais tarde, mas isso agora não vem para aqui para o liceu. O importante era ir ao liceu e eu deixei de faltar. Havia quem frequentasse as aulas para aprender. Havia quem fosse para passar de ano. Havia ainda os que apareciam porque os pais ameaçavam confiscar-lhes a bicicleta, os passeios e, em casos mais graves, a própria liberdade que por aqueles anos tínhamos. Eu tinha uma motivação muito mais nobre: contemplar a minha musa em ambiente pedagógico.

Acordava cedo, lavava-me com um rigor quase militar, penteava o cabelo com uma dedicação que nunca mais voltaria a dedicar à minha aparência e escolhia a roupa como se fosse participar numa reunião diplomática entre o meu coração e o destino. O espelho era o meu primeiro professor.

- Estás apresentável - dizia eu ao meu reflexo. O reflexo, que me conhecia melhor, não respondia.

Chegava ao liceu com uma pontualidade que teria feito corar de vergonha os próprios relógios. Se antes, o toque da campainha era para mim um sinal de tortura iminente, agora, é música celestial. Se tocasse duas vezes, eu considerava que o estabelecimento estava a oferecer um bónus romântico. O problema era que, para a ver, tinha de assistir às aulas. E foi assim que começou a minha desgraça académica. Na aula de Português, comecei a prestar atenção aos textos. Não por interesse especial na literatura, mas porque, se a professora fizesse uma pergunta e eu respondesse correctamente, talvez a minha amada pensasse:

- Ele até tem alguma coisa naquela cabeça!

Na História, passei a saber datas. Descobri reis, batalhas, tratados e revoluções. Em 1974, com o país inteiro a mudar de rumo, eu tinha também uma revolução em curso, queria deixar de ser o rapaz que ela nunca notava para me transformar num intelectual digno de uma olhadela. Na Matemática, aconteceu o impensável. Comecei a resolver problemas!

Eu, que até então olhava para uma equação como quem olha para uma tratado numérico sem sentido ou finalidade, comecei a encontrar soluções. Se o professor escrevia um problema no quadro, eu debruçava-me sobre o caderno com uma determinação que só não era maior do que aquela com que procurava o rosto dela entre os colegas. Havia, naturalmente, uma estratégia. Eu sentava-me num lugar de onde conseguia ver a professora, o quadro e, sobretudo, ela. Era uma posição cuidadosamente calculada, uma espécie de triângulo amoroso em que os vértices eram a sabedoria, a paixão e a possibilidade de copiar os apontamentos.

Quando ela levantava a mão para responder, eu ficava atento. Se acertava, sentia orgulho, como se tivesse sido eu a descobrir a cura para uma doença rara. Se errava, experimentava uma solidariedade tão profunda que me apetecia pedir ao professor que anulasse a pergunta.

Uma vez, a professora perguntou:

- Quem sabe explicar a diferença entre sujeito e predicado?

Eu sabia.

Levantei a mão com uma rapidez que surpreendeu a turma inteira. A professora, que me conhecia de outros anos, olhou para mim espantada.

- Muito bem! Então diz lá.

Respondi correctamente.

Ela elogiou-me. Coisa raríssima até àquele dia e eu em vez de olhar para a professora, procurei imediatamente a reacção da minha musa. Ela estava a escrever no caderno. Nem sequer levantou a cabeça. Foi uma derrota terrível. Mas não desisti. Um homem apaixonado não abandona uma batalha por causa de um pequeno pormenor, como a indiferença da pessoa pela qual está disposto a aprender gramática.

A partir daí, comecei a estudar em casa.

No início, os livros serviam-me de pretexto para imaginar conversas com ela. Depois, comecei a perceber a matéria. E, quando dei por mim, já sabia as respostas antes de o professor acabar de formular as perguntas. Os meus colegas começaram a desconfiar.

- Tu andas a tomar alguma coisa?

- Não.

- Tens explicador?

- Não.

- Então o que se passa contigo?

Eu não podia confessar a verdade. Havia segredos que um adolescente em 1974 guardava com mais cuidado do que os documentos classificados.

Limitei-me a responder:

- Estou a interessar-me pelos estudos. Acabei de ver que isto afinal é interessante.

A gargalhada foi geral. O pior veio quando começaram os testes. Eu estudava com afinco, resolvia exercícios, decorava datas e lia os textos recomendados. Na véspera das provas, em vez de pensar em passeios, cinemas ou conversas imaginárias, ficava até tarde debruçado sobre os livros. O bilhar fazia tempo tinha saudades de mim e eu já nem me lembrava dele. Mas não tinha começado  exactamente como vocação académica,  era uma forma de sedução intelectual que não tinha qualquer garantia de chegar a bom porto.

Quando saíram as primeiras notas, tive uma surpresa: eram boas! Boas não. Muito boas! A minha mãe soube os resultados com a expressão de quem acaba de descobrir petróleo no quintal. A minha mãe emocionou-se. E desde então os professores passaram a chamar-me pelo nome. E os colegas, que até então me consideravam um rapaz perfeitamente normal, começaram a tratar-me como se eu tivesse sido substituído por um primo inteligente vindo do estrangeiro. Eu estava feliz. Naturalmente, havia uma pequena contrariedade: a rapariga continuava sem me dedicar a atenção especial. Para ela, eu era apenas um colega que, de repente, sabia responder às perguntas do professor e tirava boas notas.

Para mim, ela era a razão de todo aquele milagre. Chegou o fim do ano, e os resultados confirmaram o que parecia impossível: eu era um bom aluno! A família festejou. Os professores sorriram. Os colegas aceitaram, com alguma dificuldade, que a inteligência também podia aparecer em pessoas que anteriormente tinham demonstrado uma relação pouco amistosa com os livros. E eu? Eu continuei apaixonado.

Nunca lhe disse que, por causa dela, tinha aprendido mais História, mais Português e mais Matemática do que em todos os anos anteriores. Nunca lhe confessei que a minha súbita dedicação escolar era uma operação sentimental cuidadosamente disfarçada de sucesso académico. Talvez tenha sido melhor assim. Porque, se lhe tivesse contado, ela poderia ter-se sentido responsável pelas minhas notas e não era justo atribuir-lhe tamanha responsabilidade. Já bastava a responsabilidade que eu próprio lhe atribuía pela minha felicidade, pelo meu penteado e pela quantidade de vezes que olhava para o relógio durante os intervalos.

Hoje, quando olho para trás e recordo aquele adolescente de 1974, reconheço que a vida tem um sentido de humor admirável. Eu, no liceu, por causa de uma rapariga, acabei por descobrir que era capaz de estudar. Fui à procura de um amor e encontrei uma vocação que nem sabia que tinha. Queria conquistar o coração de uma colega e, pelo caminho, conquistei o respeito dos professores, a satisfação lá de casa e umas notas que ainda hoje me dão vontade de mostrar os boletins escolares.

Só não a conquistei. Mas também não se pode exigir tudo à adolescência. Ela já tem de lidar com as hormonas, as espinhas, os cabelos rebeldes, as paixões escondidas por trás daquela cara de quem não se importa com coisas mundanas e aquela convicção absurda de que um sorriso dado no corredor pode equivaler a uma promessa de casamento.

A verdade é que, em 1974, eu ainda não sabia que a vida raramente nos dá aquilo que pedimos. Às vezes, dá-nos outra coisa, muito mais útil, embora menos romântica. Eu queria que ela olhasse para mim. Acabei por aprender a olhar para os livros.

E, sem dar por isso, passei de ano. Quanto a ela, nunca soube que fui o grande amor da sua vida. Mas tenho a certeza de uma coisa, foi a única paixão que me ajudou a melhorar as notas sem nunca me ter dado uma única explicação.



Sanzalando

22 de outubro de 2026

as voltas na Mini-honda

Nesta altura o cacimbo já tinha ido para outras paragens, o sol já espreitava tímido nas manhãs de praia e durante a tarde aquecia que até apetecia passear. 

O sol de final de tarde batia no asfalto quente e o som que se ouvia ao longe não enganava ninguém, era o zumbido inconfundível, agudo e sobressaltado de uma Mini-Honda a aproximar-se.

Podiam ser vários, desde o Edgar, ao Matias ou o César. Mas o meu desejo é que fosse ela.

Ela vinha ao volante se é que se pode chamar "volante" àquele guiador elevado que a fazia parecer uma heroína de filme em escala reduzida. Tinha o cabelo a esvoaçar, um sorriso de quem dominava o mundo sobre duas rodas, de dez polegadas que aprendi muito depois, e uma capacidade extraordinária de transformar qualquer tristeza minha numa acrobacia ensaiada para que eu a pudesse ver.

Eu, se estava parado no passeio, a tentar manter a postura de quem tinha tudo sob controlo. Na verdade, tinha anos que o meu coração batia ao ritmo de dois tempos e um plano infalível para a impressionar, plano esse que se desmoronava a cada vez que ela acelerava.

- Vens dar uma volta ou vais ficar aí a ganhar raízes? gritou ela, travando à minha frente.

A Mini-Honda era uma maravilha da engenharia moderna, mas a verdade é que parecia um brinquedo sofisticado. Com ela ao guiador, porém, parecia um veículo de alta competição. O meu grande problema não era a mota; era a forma como ela olhava para mim. Havia sempre um brilho de troça nos olhos dela, uma diversão constante, como se eu fosse a sua comédia favorita em exibição diária. Eu não tinha motorizada e bicicleta era bem velhinha que até os travões eram uma história que eu quase não conheci.

- Posso ir - respondi, tentando parecer natural e baixando a voz. - Mas olha que esse motorzinho vai sofrer com a minha velocidade de corrida.

Ela deu uma gargalhada que até parece fez eco na rua inteira.

- Não te preocupes.

Sentei-me como pude no lancil do passeio. Para quem queria manter uma distância charmosa e misteriosa, a Mini-Honda era uma péssima escolha: a única forma de não cair de costas ao primeiro arranque era agarrar-me com força à cintura dela. Se ela me desse boleia. Mas ela desafiava mas não havia maneira de dar boleia. Segurança era nome do meio dela. Eu ali sentado, olhando-a a sonhando uma cena que sabia nunca iria acontecer. E ela sabia perfeitamente disso.

Engatou a mudança e acelerou, começou o espetáculo. Ela foi embora e deixou-me ali especado. Algum tempo depois voltou. 

- Queres dar uma volta? perguntou ela com um misto de pena e uma provocaçãozinha.

- Dás-me boleia?

- Estás com medo? - perguntava ela por cima do ombro, a rir-se com a minha aflição ou má intenção.

- Medo? Eu? Nada disso, só estou a apreciar a paisagem! - garantia eu, de dentes cerrados.

E lá ia e voltava provocantemente. Para ela, eu era pura brincadeira, um passeio divertido com o rapaz prestável que suspirava. Para mim, era o evento do século. Ela brincava comigo, provocava-me, dizia que eu era o seu amigo favorito porque nunca me zangava nem irritava.

Ela tirou as chaves depois de desligar a Mini-Honda, entrou em casa, ainda olhou para mim com aquele ar divertido de quem sabia exatamente o efeito que causava.

E lá ia eu para casa, sentar-me na varanda, na cadeira de baloiço que alguém tinha feito para o meu avô com duelas de barris de vinho, possivelmente chegados u dia à loja do João Padeiro, com o olhar atirado para a varanda dela. Eu sempre fazia apostas, se ela viesse à varanda era porque gostava de mim. Às vezes sim e outras não.




Sanzalando

21 de outubro de 2026

Tesourinhos Musicais 111 - Conjunto Sousa Pinto e Grupo 5 - K'arranca às Quartas 137


Sanzalando

FILME - As Meninas Exemplares - João Botelho - K'arranca às Quartas 137


Sanzalando

Esta Música tem uma História 76 - Paulo de Carvalho e Alda Lara - Prelúdio - Mãe Negra - K'arranca às Quartas 137


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (34) - K'arranca às Quartas 137


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (42) - K'arranca às Quartas 137


Sanzalando

Crónica 124 - K'arranca às Quartas 137


Sanzalando

Programa 137 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 07 de Outubro tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é en que falei  da habitação e os tempo que correm
 Esta Música tem uma história com Paulo de Carvalho e Alda Lara em Prelúdio ou Mãe Negra, com a colaboração de José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais - Conjunto Sousa Pinto e Grupo 5
Carlos Osório hoje falou de de tanto em tão pouco tempo... imperdível
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas continuou a falar da poesia Guiné-Bissau
 No livro falei com as palavras de Anabela Quelhas do FILME - As Meninas Exemplares - João Botelho

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no que fazer para cair na felicidade ou suportar esta vida que é só uma


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

sonhos de mar

Tem dias que o mar é mais azul que outros dias em que me parece é verde. Os meus olhos me atraiçoam? Os cientistas explicam. Eles sabem tudo e quando não sabem vão no laboratório e investigam até concluírem que a conclusão não tem fim ou acabou ali. Mas eu estava a falar de mar e já me ia perdendo no laboratório com uma qualquer pipeta ou tubo de ensaio. Esse mar, esse que não tem rio que vai dizer é fronteira, que não tem muro e não te vai dizer aqui não passas. Ele é uma planície que às vezes se revolta e te arrasa, enquanto outras vezes é um chão que até parece é ringue de patinagem. E os peixes. Que opinião têm eles desse mar? Já alguém lhes perguntou? Tem mariquita, cachucho, peixe que é espada e tem outros miles que não sei que fazem a não ser nadar o dia inteiro. Peixe chora? Como pode ser a lágrima do peixe se a minha é salgada?

É o mar e os seus segredos. Um dia vou fazer um barco e vou entrar nele e navegar até não ver terra e sonhar que eu sou um peixe. Espera aí? Já tem gente que fez isso e eu não ia gostar de estar ali sem ver ninguém, só mar à volta. Não, deixa-me estar aqui sentado a lhe olhar. Zulmarinho. É esse mar. Zulmarinho. Porque mesmo quando é verde ele tem tons de azul. Se eu soubesse usar águarela eu ia pintar tudo de zulmarinho. Ele é tão grande mas não tem capacidade de dissolver os meus sonhos. O mar me dá sonhos.



Sanzalando

20 de outubro de 2026

O passeio às hortas ou como quase morri de amor entre couves e alfaces

Olhar hoje para trás, recordar num sofá em fim de tarde, um passado que me orgulha e ao mesmo tempo faz-me pensar no que eu perdi, ou não, tem o seu ar de pôr-do-sol nostálgico. Mas sem esse passado eu não estava aqui a recordá-lo, é verdade. 
Ela foi, por obra do acaso ou do destino ou só porque o Sr. Corado resolveu mudar de latitude, ela foi morar ao meu lado. Eu já era amigo de casa. Embora o rosto dela estivesse estampado em qualquer gesto meu, ninguém sabia da minha paixão. Pelo menos ninguém ousava dizer uma só palavra sobre ela, a paixão, ou ela a pessoa. Era uma história de amor, daqueles que só aconteciam quando ainda não havia telemóveis para estragar o romantismo, nem redes sociais para espalhar a notícia ainda antes dela ser..

Em 1973, eu estava cada vez mais apaixonado por ela. Apaixonado a sério, com aquela gravidade própria dos adolescentes que ainda não sabem grande coisa da vida, mas já têm a certeza absoluta de que não podem viver sem ela. O que fazem os namorados? Eu não fazia a mínima ideia. Mas que estava apaixonado estava e o pior é que ela também não sabia.

Ou, se sabia, disfarçava muito bem. Tão bem que eu, apesar de já ter idade para desconfiar de certas coisas, continuava convencido de que um dia ela havia de descobrir em mim um homem irresistível. Na altura, eu ainda não era homem, era uma espécie de projecto de homem, com cabelo despenteado, sandálias e uma quantidade de sonhos que não cabiam no bolso das calções.

Foi então que surgiu o convite.

- Amanhã vamos dar um passeio às hortas. Queres vir?

Queres vir?! A pergunta caiu-me em cima de mim como se fosse uma declaração de amor assinada e reconhecida no notário. Ela convidava-me para um passeio! Às hortas! Eu teria ido com ela ao fim do mundo, mesmo que o fim do mundo fosse um terreno baldio cheio de pedras e lagartos. Mas era às hortas, e isso tinha uma vantagem: havia natureza, havia ar livre e, sobretudo, havia a possibilidade de ficarmos sozinhos e haver por ali alguma macieira. Na minha cabeça já havia. Pelo menos, foi isso que imaginei.

Naquela noite, quase não dormi. Passei horas a escolher mentalmente a roupa, a ensaiar conversas e a preparar frases que demonstrassem inteligência, cultura e sensibilidade. Cheguei a pensar em falar-lhe de poesia, mas achei que poderia assustá-la. Optei por assuntos mais seguros, como a praia, o deserto que eu conhecia quase nada e sabia que ela também me acompanhava nesse desconhecimento e, se a conversa se emudecesse, a agricultura podia salvar algumas palavras.

Um homem apaixonado tem de estar preparado para tudo. No dia seguinte, apareci impecavelmente vestido. Camisa de ginástica, calções largos para facilmente subir às árvores, e quedes para melhor me mover no meio de alfaces e rabanetes.

Eu, pelo contrário, estava em estado de emergência emocional. Os pensamentos atropelavam-se e com isso os meus movimentos eram um tanto ou quanto descoordenados.

Começámos a viagem em direcção às hortas, e eu procurava desesperadamente um assunto que me permitisse mostrar um lado mais interessante. A ponte do Rio Bero, construída para os caminhos de ferro e segundo uma lenda tinha sido feita com dinheiro falso de um tal Alves dos Reis. Mas não teve continuidade na conversa.

- Gosto muito da natureza — declarei, com a solenidade de quem acabava de descobrir uma nova espécie vegetal ou não percebia nada do que poderia vir a seguir.

Ela olhou para mim.

- Eu também.

E o carro continuava a andar. Os pais dela de quando em vez diziam qualquer coisa mas eu não conseguia ouvir porque o meu cérebro estava noutro comprimento de onda. O silêncio era quebrado pelo som do Rádio Clube de Moçâmedes e do programa O meu Mundo é o Mar.

Foi a primeira derrota do dia.

Eu esperava que ela perguntasse quais eram as minhas árvores preferidas, se gostava mais de flores ou de plantas aromáticas, ou até se alguma vez tinha pensado em escrever um poema sobre o amor e a terra. Mas nada. A natureza, aparentemente, não precisava de mais comentários. Prosseguimos o viagem em silêncio apreciador da natureza.

Chegámos às hortas do Giraul. As hortas estavam bonitas. Havia canteiros bem alinhados, árvores de não sei o quê, hortelã, couves e alfaces. Para qualquer pessoa normal, era um cenário agradável. Para mim, era um campo de batalha onde se decidia o futuro da minha vida amorosa. Ela falava disto e daquilo, ria-se de pequenas coisas e caminhava com uma naturalidade que me deixava ainda mais apaixonado. Eu ouvia tudo, embora metade do que ela dizia se perdesse numa região obscura do meu cérebro, ocupada por uma pergunta essencial:

- Será que ela gosta de mim?

A pergunta acompanhava-me como uma mosca persistente. A certa altura, parámos junto de um canteiro

Ela inclinou-se para observar umas plantas, e eu, tomado por um súbito impulso de galanteria, resolvi mostrar que também tinha conhecimentos práticos.

- Aquilo são tomates — disse eu, apontando para um canteiro.

Ela olhou, depois olhou para mim.

- Sim. São tomates.

A minha reputação intelectual sofreu ali um golpe difícil de reparar.

Ainda tentei recuperar.

- E aquelas são couves.

- São.

Estava a correr lindamente. Mais cinco minutos e eu estaria habilitado a dar consultas de horticultura.

Decidi mudar de estratégia. A ciência não me levaria ao coração daquela mulher. Talvez o humor. Contei-lhe uma anedota que ouvira na véspera. Uma anedota excelente, na minha opinião, capaz de provocar gargalhadas até num funeral pouco concorrido. Ela sorriu educadamente. Apenas sorriu. A anedota, que eu considerava uma obra-prima do humor universal, morreu ali, entre um pé de salsa e duas alfaces. Comecei a desconfiar de que as hortas não eram o lugar ideal para conquistar uma mulher. Mas também não podia desistir. Um apaixonado de 1973 não tinha redes sociais, mensagens instantâneas nem coraçõezinhos digitais. Tinha de trabalhar com o que havia, uma esperança desproporcionada.

Continuámos a caminhar, à vezes a correr. Acho que corríamos mais rápido que o rio que me parecia quase seco.

Foi então que ela me atirou:

-Estás agora tão calado. Em que estás a pensar?

Meu Deus!

A oportunidade! A grande oportunidade! O destino abrira uma janela e eu tinha de saltar por ela antes que alguém a fechasse. Pensei em dizer-lhe: Estou a pensar em ti desde que acordo até me deitar. Quando não estás, imagino-te. Quando estás, não sei o que dizer. E agora que estás aqui, só consigo distinguir tomates de couves. Mas não disse nada disso. A coragem, como certas plantas, precisa de condições favoráveis para crescer. E naquele momento estava tudo contra mim: o calor, a timidez, o medo do ridículo e uma couve particularmente grande que parecia assistir à cena.

-Nada de especial — respondi. - Estava a pensar de como é bonita a vida no campo.

Ela sorriu.

- Ah! Também penso muito na vida. - e começou a contar-me os seus planos para o futuro. Queria estudar, queria fazer isto, queria fazer aquilo. Tinha sonhos, ambições e uma determinação que eu admirava profundamente. Enquanto ela falava, percebi que gostava ainda mais dela. Não era apenas bonita. Era inteligente, tinha personalidade e sabia o que queria. Tinha uma vontade férrea e uma certeza absoluta.

Eu também sabia o que queria mas era uma coisa mais limitada no tempo. Queria beijá-la ou apenas dar-lhe a mão. Havia ali uma diferença importante entre nós, ela tinha planos para o futuro; eu tinha planos para os próximos cinco minutos. E esses planos estavam a correr muito mal.

Quando regressámos, o passeio tinha sido um sucesso para ela. Tinha visto as hortas, conversado, respirado ar puro e dado uma caminhada agradável. Os pais estavam felizes. Sorriam e perguntavam coisas que eu nem tinha reparado que lá estavam. A Cacimba... não vi. Os tractores também não vi. A casa dos trabalhadores, não encontrei. Para mim, tinha sido apenas uma tragédia sentimental com apontamentos de botânica.

Chegámos a casa e ela despediu-se de mim com um sorriso e um simples:

- Gostei muito do passeio. Temos de repetir!

Temos de repetir! Durante os segundos seguintes, senti-me o homem mais feliz de Moçâmedes. A frase parecia conter uma promessa, um compromisso, talvez até uma intenção matrimonial escondida nas entrelinhas. Passei o resto do dia a analisá-la enquanto via o tal de pôr-do-sol, que era sempre lindo mas naquele dia não passou de cinco minutos a rever uma matéria devastada pela timidez. Temos de repetir significava que gostava de estar comigo? Que queria conhecer-me melhor? Que estava à espera de uma declaração? Ou que simplesmente apreciara o passeio e achava que eu era uma companhia razoável para caminhadas rurais? Não cheguei a uma conclusão.

O que sei é que, em 1973, um homem pode percorrer quilómetros ao lado da mulher dos seus sonhos e continuar a não sair do mesmo sítio. Eu tinha ido às hortas para conquistar um coração e regressara com conhecimentos razoáveis sobre tomates, couves e alfaces. Quanto ao coração dela, esse continuava por cultivar. E o mais extraordinário é que, durante muitos anos, sempre que via uma horta, lembrava-me daquele passeio e sorria. Não sei se ela alguma vez percebeu que, naquele dia, eu estava perdidamente apaixonado. Talvez tenha percebido e fingido que não. Talvez nunca tenha desconfiado de nada.

Há uma coisa de que tenho a certeza, se o amor fosse uma cultura agrícola, em 1973 eu teria sido um péssimo agricultor. Reguei a esperança, adubei a imaginação, plantei sonhos e esperei pacientemente pela colheita. Só me esqueci de uma coisa essencial. Nunca perguntei à terra se queria dar frutos. E assim, entre uma couve e uma alface, lá ficou o meu primeiro grande projecto agrícola-sentimental. Sem colheita, é verdade. Mas com uma história que ainda hoje me faz rir.

Agora aqui sentado no sofá olho e vejo que a juventude tem destas coisas, a gente pensa que vai conquistar o mundo, começa por tentar conquistar uma rapariga e acaba a descobrir que o único ser que nos deu atenção durante toda a tarde foi um tomateiro. E esse, convenhamos, também não me pareceu particularmente apaixonado.


Sanzalando

19 de outubro de 2026

O carro dos meus sonhos e a menina lá dentro

Naquele tempo, ser adolescente era uma doença sem cura conhecida. Era doença crónica que não matava, felizmente, mas provocava sintomas graves, suspiros sem motivo, distração nas aulas, uma tendência inexplicável para olhar para o vazio e, nos casos mais agudos, uma incapacidade absoluta de conversar normalmente com raparigas bonitas.

Eu padecia de tudo isso. E o diagnóstico tinha nome, rosto e um lugar cativo no banco de trás de um automóvel.

Ela era a menina mais bonita que eu conhecia. Pelo menos, era o que eu pensava. E, como acontece com todas as grandes verdades da adolescência, não admitia discussão, muito menos uma segunda opinião.

Todas as tardes, os pais levavam-na a passear de carro pela cidade. Não sei se era para apanhar ar, ver as montras, visitar amigos ou simplesmente cumprir uma tradição familiar. O que sei é que aquele passeio vespertino se transformou, para mim, no acontecimento mais importante do dia.

Havia quem esperasse pelo noticiário, quem aguardasse a chegada do jornal e quem consultasse o relógio para saber a hora de uma coisa qualquer. Eu não. Eu esperava concretamente pelo carro. Aquele carro.

Era um automóvel que, aos meus olhos, reunia todas as qualidades de uma máquina extraordinária. Tinha rodas, motor, matrícula e, sobretudo, transportava a criatura que me roubava a tranquilidade. Se o carro fosse uma carroça puxada por dois burros, suspeito que eu teria desenvolvido uma súbita paixão pela vida rural.

O passeio começava sempre à mesma hora. E eu, que até aí não tinha grandes compromissos com a pontualidade, passei a ser um relógio suíço. À hora marcada, já estava na rua, penteado, lavado e com uma expressão de quem não esperava coisa nenhuma.

Era importante manter a dignidade.

Um apaixonado pode perder o sono, o apetite e até a capacidade de fazer contas de dividir, mas nunca deve parecer que está à espera de uma rapariga. Deve estar ali por acaso. Um acaso que se repete diariamente, à mesma hora, no mesmo passeio e com os olhos postos na mesma esquina.

Quando o carro aparecia, o meu coração começava a trabalhar como um motor de camioneta carregado, a subir uma ladeira da SOS.

Lá vinha ela! Sentada no carro, talvez a conversar com os pais, talvez a olhar para as casas, talvez a pensar no que faria no dia seguinte. Não sei. Nunca tive oportunidade de lhe perguntar. Naquela época, a comunicação entre mim e ela era sobretudo visual, e mesmo essa dependia da velocidade do automóvel e da minha localização estratégica. Eu ficava num ponto da cidade. O carro passava. Eu olhava. Ela seguia. E eu corria para o ponto seguinte. Sim, porque o meu amor tinha uma componente desportiva que hoje faria inveja a qualquer treinador de atletismo. Se o carro passava pela avenida, eu atalhava por uma rua. Se virava junto à praça, eu disparava pela travessa. Se seguia para o outro lado da cidade, lá ia eu, adolescente apaixonado, com as pernas a trabalhar e o coração a fazer horas extraordinárias. Era uma espécie de perseguição automóvel sem automóvel. Os pais dela passeavam a filha. Eu passeava a paixão. Eles tinham gasolina. Eu tinha esperança. Eles dispunham de quatro rodas. Eu dispunha de duas pernas, ambas cada vez mais cansadas. E assim fui descobrindo a geografia da cidade. Aprendi os cruzamentos, os atalhos, as ruas secundárias e até a localização de alguns estabelecimentos comerciais que nunca me tinham despertado o menor interesse. Se alguém me perguntasse onde ficava determinada mercearia, eu sabia. Onde se vendiam jornais? Também. Qual era o caminho mais rápido entre a praça e a avenida? Conhecia três. Não era um adolescente apaixonado. Era um guia turístico em formação, especializado em itinerários de automóveis familiares.

O mais extraordinário é que eu não precisava de falar com ela. Bastava-me vê-la. Um olhar de dois segundos alimentava-me durante a tarde inteira. Se por acaso ela olhava na minha direção, eu passava imediatamente a considerar que havia qualquer coisa no universo a trabalhar a meu favor. Se sorrisse, então era uma catástrofe. Um sorriso podia significar simpatia, educação, reconhecimento ou simplesmente que alguém lhe contara uma piada dentro do carro. Mas eu não perdia tempo com interpretações prudentes. Para mim, aquele sorriso era praticamente um pedido de casamento, embora ainda não tivéssemos trocado uma única palavra. Chegava a casa com a felicidade estampada no rosto.

A minha mãe perguntava:

 - Onde estiveste?

- Por aí. - e era verdade, era a resposta oficial dos adolescentes, uma expressão que podia esconder desde uma ida à mercearia até uma paixão capaz de comprometer a estabilidade emocional de um continente.

- E porque estás tão cansado?

- Andei muito. Há muitos aís nesta cidade.

O que era verdade. Nunca uma paixão platónica me obrigara a fazer tantos quilómetros sem sair da cidade. O pior era quando o carro não aparecia. Nesses dias, começava a imaginar desgraças. Talvez estivesse doente. Talvez tivesse ido visitar uma amiga. Talvez os pais tivessem decidido mudar o passeio para outra hora. Ou, hipótese verdadeiramente aterradora, talvez tivessem ido para outra cidade! A última possibilidade deixava-me de rastos. Eu ainda não tinha idade para compreender que as pessoas podiam viajar sem consultar previamente os sentimentos dos outros. Ficava de trombas, comia pouco e olhava para a rua como um viúvo que ainda não tinha recebido a certidão de óbito.

No dia seguinte, porém, lá aparecia o carro, e o mundo recuperava a ordem natural das coisas. Com o tempo, comecei a aperfeiçoar a estratégia. Já não bastava estar num ponto da cidade. Era preciso escolher o local onde as probabilidades de um encontro visual fossem maiores.

Fazia cálculos mentais, estudava percursos, avaliava horários. Se tivesse conhecido naquela altura a estatística, talvez tivesse elaborado uma tese sobre a frequência dos passeios familiares e a incidência de paixões adolescentes.

Mas havia um problema: eu não sabia se ela reparava em mim. Talvez me conhecesse de vista. Talvez me achasse um rapaz simpático. Talvez pensasse que eu tinha uma enorme quantidade de assuntos para tratar em ruas tão distantes umas das outras. Ou talvez nunca tivesse dado pela minha existência. Esta última hipótese era tão dolorosa que eu a afastava imediatamente da minha apaixonada cabeça. Um apaixonado pode aceitar muitas derrotas, mas não aceita facilmente a possibilidade de ser invisível.

Hoje, quando recordo aqueles passeios, sorrio com ternura e alguma compaixão pelo rapaz que fui. A vida ensinou-me entretanto que o amor é uma coisa complicada, que as mulheres têm vontade própria e que nem todos os olhares significam o início de uma história de amor. Ensinou-me também que andar atrás de alguém não é necessariamente o caminho mais curto para chegar ao seu coração. Mas, naquela época, eu não sabia nada disso. Era apenas um jovem adolescente, com o coração cheio de sonhos e a cabeça cheia de certezas, convencido de que o destino podia ser encontrado numa esquina.

Ela passeava de carro com os pais. Eu seguia-a, todo o percurso com os olhos, o corpo e a alma, atravessando a cidade como quem procura um tesouro escondido. Nunca soube se ela chegou a perceber o que se passava comigo. Talvez tenha percebido. Talvez não. O que sei é que, durante algum tempo, a cidade teve para mim um mapa secreto, cada rua era uma possibilidade, cada esquina uma esperança e cada automóvel que se aproximava fazia o meu coração perguntar:

- Será ela?

E se não fosse, eu continuava à espera. Porque a adolescência tem destas coisas: ainda não sabemos conduzir a vida, não temos dinheiro para comprar um carro, não sabemos muito bem o que fazer com as raparigas, mas já somos perfeitamente capazes de percorrer uma cidade inteira por causa de um sorriso que talvez nem fosse para nós. E, se me perguntarem hoje qual foi o automóvel mais importante da minha juventude, não hesitarei na resposta. Não era meu. Não o conduzi. Só muitos tempos depois eu me sentei nele. Mas foi o único carro que me ensinou a correr atrás do amor sem nunca sair verdadeiramente do lugar.

E a ela?

Ela continuou a passear. Eu é que, muitos anos depois, finalmente aprendi a parar.



Sanzalando

18 de outubro de 2026

Pertinências 31 - 5ª noite de Há Fado na Lota


Sanzalando

Pertinências 31 - 5ª noite de Há Fado na Lota

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 31 - Há Fado na Lota - 5ª noite com Adriana Marques e Hélder Coelho
O Museu de Portimão organiza na Antiga Lota, aos sábados à noite uma secção de fados durante 6 semanas. Assim, é pertinente, depois, de ver uma sala cheíssima, levar até quem não teve lugar, não pode ir pelas mais variadas razões, o que ali se passou.









Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências. Mesmo que as palavras sejam sons de guitarra e viola


Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também. 


Imperdível



Sanzalando