recomeça o futuro sem esquecer o passado

23 de julho de 2026

O puto que chegou a kota

Há um momento exato na vida de um homem em que o espelho deixa de ditar as regras e o conforto assume o poder absoluto. Para mim, esse momento chegou algures entre o terceiro analgésico para as costas e a descoberta de que o suspensório é a maior invenção da humanidade. Hoje, aos meus cinquenta e muitos quês (vamos ficar por aqui), assumi a minha forma final, sou o kota de calções e chinelos.
Tem gente que diz que pareço um turista alemão que se perdeu a caminho de Portimão em 1996. Eu chamo-lhe pragmatismo estival porque se fosse para lá da linha recta que é curva eu chamaria apenasmente de ser Eu em letra de mais velho.
Sair à rua nesta figura é um acto de libertação e comodidade. Os calções que idealmente deviam ter bolsos laterais suficientes para guardar as chaves do carro, a carteira, os óculos de leitura e um canivete suíço, nunca se sabe quando é preciso descascar uma maçã no banco do jardim, revelam ao mundo dois joelhos com mobilidade e que veem a luz do sol, não como os do meu avô que não a viam desde o Mundial de 46, se é que houve algum antes de eu nascer. Estão aqui para as curvas, os joelhos. Mas que importa? O vento passa por ali e eu sinto-me o rei da marginal ou do areal. Estou somente a ser Eu.
Depois, temos os chinelos. São uns chinelos de marca, daqueles fininhos que dão estilo na praia ou no passeio de fim de tarde. Não são os de pneu que esses já eram faz tempo. São os clássicos chinelos de enfiar no dedo, sola de cortiça e suspensão última geração. Mas que tenho saudades daqueles que quase pareciam ser de pneu de trator. O som que faço ao andar pela calçada portuguesa é a minha assinatura sonora: pateca, pateca, pateca. É o fado do homem livre. Diz o povo que andar de chinelos deforma o pé. Eu digo que deforma é a paciência de quem tem de apertar atacadores com o estômago a fazer pressão contra o cinto e quase a deitar o conteúdo gástrico boca fora.
A melhor parte de ser um kota nesta fatiota é a ida ao café. Entro com o meu pateca, pateca, a vizinhança olha, as miúdas da esplanada desviam os olhos, provavelmente encandeadas pelo reflexo das minhas canelas, e eu sento-me a ler o jornal. O empregado já nem pergunta, traz a bica e o pastel de nata. Há hábitos que não se perdem.
Os jovens de hoje sofrem muito. Vejo-os ali, com trinta graus à sombra, de calças de ganga justas até ao tornozelo e ténis brancos que custaram os olhos da cara, a transpirar pelas costuras só para parecerem giros no Instagram. Olho para eles, dou um gole na bica, ajusto os meus calções que sobem quase até ao umbigo e penso: Coitados. Ainda não sabem o que é a verdadeira felicidade.
Aos vinte anos, queremos engatar o mundo. Aos cinquenta e muitos quês, só queremos que o mundo nos deixe andar frescos. E entre um par de calças que aperta e uns calções que respiram, o kota aqui já escolheu o seu campeonato. Podem rir-se dos meus chinelos. Mas enquanto vocês sofrem com o calor, eu vou ali dar mais uma patecada até à sombra.


Sanzalando

22 de julho de 2026

Tesourinhos Musicais 102 - Amália Rodrigues - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Livro - O Dicionário (Anabela Quelhas) - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Esta Música tem uma História 66 -Chico Buarque - Futuros Amantes - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (27) - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (33) - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Crónica 115 - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Programa 128 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 22 de Julho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é a que intitulei Há quem associe o verão à liberdadeEsta Música tem uma história com Chico Buarque e Futuros amantes, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, 102º edição com Amáilia Rodrigues
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde 
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos IA e os que precisam de ser substituídos...
Falei do Dicionário com as palavras de Anabela Quelhas e tivemos poesia angolana na escrita e voz A Paz e nada Mais de Sandra bande
Homenageamos Luís Represas que aos 69 anos deixou-nos

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

20 de julho de 2026

abraço pensado

Dizem os entendidos em física que nada viaja mais rápido do que a luz. Claramente, esses cientistas nunca experimentaram a velocidade a que a saudade aperta quando se está longe de quem se gosta. A saudade é aquele passageiro clandestino que se instala sem pedir licença, toma conta do peito e, se não tivermos cuidado, ainda nos faz suspirar para a janela como se estivéssemos num momento trágico dos anos 70 do século passado.

Mas a distância, essa grande desenhadora de mapas e fazedora de quilómetros, cometeu um erro grave ao subestimar a ferramenta mais poderosa do ser humano, a imaginação sem vergonha nenhuma.

Quando os quilómetros teimam em fazerem-se de fortes, a mente assume o papel de engenheira de pontes invisíveis. Afinal, a geografia é apenas uma convenção burocrática inventada por quem desenha mapas. No mundo real do pensamento, a física quântica é um jogo de crianças. Na impossibilidade de dobrar o espaço-tempo ou de inventar uma máquina de teletransporte que, convenhamos, estaria constantemente avariada ou presa na alfândega, a mente desenvolve os seus próprios truques de ilusionismo. De repente, aquela chávena de café de manhã não é tomada a solo. A mente encarrega-se de puxar a cadeira em frente e colocar lá o sorriso de quem está longe. O café continua a ser um expresso normal, mas o sabor passa a ser o de uma conversa cruzada a uns tantos fusos horários de distância. Fecha-se os olhos e, num piscar de pestanas, faz-se uma viagem e estamos lá. A gargalhada ouvida ontem ao telefone ecoa hoje na sala como se estivesse a ser emitida em som surround de alta definição. A verdadeira magia da criatividade é que ela recusa-se a aceitar o ditado longe da vista, longe do coração. Na verdade, quanto mais longe da vista, mais a mente se desdobra em acrobacias para manter tudo perto.

Criam-se piadas privadas que só o ecran do telemóvel entende, inventam-se rituais absurdos de presença à distância e descobre-se que a saudade, quando devidamente temperada com bom humor, perde aquele peso poeirento e transforma-se numa espécie de combustível. Um combustível estranho, é certo, mas capaz de fazer a mente voar por cima de qualquer oceano sem pagar taxa de bagagem de mão.

A distância pode mandar nos quilómetros, no relógio e no preço da viagem. Mas a mente? A mente ri-se do GPS, traça um atalho na imaginação e encarrega-se de encurtar o mundo até caber inteirinho dentro de um abraço pensado.

É, a minha mente, a minha imaginação, o meu sonho, tudo está numa conjugação de tempo e espaço, numa equação em que as incógnitas X ou Y não são meras ilusões, mas apenas sentimentos de simplicidade.


Sanzalando

19 de julho de 2026

os pelos do antebraço

Há dias em que a nostalgia bate forte. Mas esqueçam que eu não vou falar da saudade da antiga namorada, do carro de juventude ou daquela viagem épica de mochila s costas. A minha nostalgia é muito mais capilar, mais localizada. Tenho saudades e assumo sem qualquer pudor de ver os pelos dos meus braços ficarem louros no verão.

Antigamente, o processo era um clássico do Mar e Março. Bastavam dois ou três dias de praia, uma pomada de sol na Praia das Miragens e o milagre acontecia: a pele ficava morena e os pelos dos braços ganhavam aquele tom dourado, digno de um anúncio a gelados nos anos 70. Olhava para os braços e sentia-me o próprio um astro de bem usar a praia. Havia ali um orgulho estival, uma medalha de ouro capilar que gritava ao mundo: Sim, eu estive ao sol e isto é pura sedução.

Corta-se o pensamento e regresso ao presente.

Hoje olhei para os meus braços sob a luz implacável do sol de julho. E o que é que vi? Oirinhos espetados nos meus antebraços? Reflexos de solstício do verão? Nada disso. Vi uma colónia de fios brancos, reluzentes, que parecem agulhas de gelo ou filamentos de lâmpadas LED de alta intensidade.

O meu corpo saltou a fase do louro-surfista e passou diretamente para a fase Pai Natal da Costa Algarvia.

O mais fascinante para não dizer assustador é a textura. O pelo branco não é um pelo normal que perdeu a cor. Não, ele ganha uma personalidade própria. Fica mais espetado, mais rebelde, com uma espessura que quase me permite sintonizar a rádio local se os apontar na direção certa. Se o braço fica moreno, então o contraste é uma obra de arte do surrealismo, pareço uma zebra invertida ou um dálmata ao contrário.

Tentei convencer-me de que isto me dá um ar interessante, uma aura de George Clooney dos trópicos, mas a verdade é que quando o vento sopra, os meus braços parecem o topo da Serra da Estrela em pleno janeiro.

Dizem que a velhice traz sabedoria. Olho para os meus braços e a única coisa que vejo é que os meus pelos decidiram reformar-se mais cedo e vestir-se de linho branco para ir jogar dominó num banco de jardim.

Tenho saudades daquele dourado, confesso. Mas, pensando bem, há que ver o lado prático: se a coisa continuar a este ritmo, no próximo inverno já nem preciso de casaco. Basta pentear os braços para o lado e fingir que estou de casaco de pele. Uma pele muito sábia, muito experiente... e irremediavelmente branca.



Sanzalando

Pertinências 18 - James McSill e Júlia Domingues

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas








O programa Pertinências transmite, em diferido, James MsSill
A conversa abordou os desafios da Inteligência Artificial, criatividade e não só com tanto para falar e discutir

Na Feira do Livro de Portimão

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

18 de julho de 2026

posfácio do livro que não escrevi

Viver a saudade misturando humor e nostalgia é uma das formas mais bonitas e saudáveis de manter o passado vivo sem ficar preso a ele. A saudade pura pode ser pesada, mas quando lhe juntamos uma pitada de ironia e um sorriso de canto de boca, ela transforma-se numa espécie de melancolia feliz.

Aqui ficam algumas pistas de como navegar nessa arte que cultivo, transformando o tenho saudade num lembras-te daquela loucura ou daquele dia?

A memória tem a mania de romantizar as coisas, mas o humor vive nos detalhes imperfeitos. Recordar o passado com nostalgia e humor exige que olhemos para quem éramos sem filtros de grandiosidade.

Riu-me das modas e dos penteados: Lembro-me daquela fotografia antiga com um corte de cabelo indefensável ou uma roupa que, na altura, parecia o auge do estilo. As grandes  tragédias que olho hoje e me parecem comédia: Aquela viagem de férias em que o carro avariou no meio do nada, a tempestade que inundou a tenda de campismo, ou o primeiro desgosto de amor que parecia o fim do mundo e hoje é só uma boa história de café.

Olhar para as memórias como se eu fosse um narrador da minha própria vida, ajuda a distanciar a dor e a focar na piada das situações.

Ao lembrar-me de um verão antigo ou da infância, tento focar nos contrastes: como a vida parecia incrivelmente analógica, as praias cheias de de gente picnicando, ou os verões infinitos onde a maior preocupação era saber se a bicicleta tinha ar nos pneus ou eu tinha liberdade para sair.

A nostalgia ganha leveza quando a trato como um filme ligeiro e castiço, cheio de personagens caricatas como aquele tio que contava sempre a mesma estória, ou o vizinho resmungão que nunca vi sorrir.

A música é o gatilho mais rápido para a nostalgia. Mas para manter o humor, brinco com os contrastes temporais. Faça uma viagem no tempo e ouço aquelas canções antigas que hoje soam deliciosamente datadas. Vale tudo: desde os clássicos da rádio dos anos 60 e 70, às que os meus pais ouviam no gira-discos, até aos refrões, agora pimba, ou os pop exagerados da adolescência. Cantar alto um drama musical do passado enquanto se conduz ou se cozinha tira o peso à ausência e transforma a saudade numa celebração vibrante.

A saudade solitária tende a carregar no drama; a saudade partilhada tende a virar comédia. Quando escrevo para os amigos de longa data ou família, recupero as velhas histórias, Uso o clássico recurso do exagero humorístico: aumento o tamanho da onda que quase vos levou na praia, acrescento drama àquela vez em que me esqueci de ir ter com alguém. O acto de contar e rir em conjunto exorciza a melancolia da perda e foca-me no privilégio de ter vivido algo digno de ser lembrado.

Viver a saudade assim é aceitar que o olho pode ficar húmido, mas a boca curva-se para cima. Não há mal nenhum em sentir um aperto no peito por um tempo que já lá vai ou por pessoas que estão longe ou que já partiram. O segredo está em olhar para trás, não com o lamento de quem perdeu, mas com a cumplicidade de quem sabe que foi muito feliz naquelas imperfeições.

Como dizia o outro, a melhor forma de honrar os bons velhos tempos é garantir que eles renderam boas novas gargalhadas cada vez que são lembrados.



Sanzalando

17 de julho de 2026

futebol de rua

Nos anos 60, o asfalto da rua era o maior campo de futebol do mundo, e não precisava de relva, de holofotes ou de VAR. Bastava que o sol desse tréguas e que alguém abrisse a janela para dar o grito de convocatória: "Ó Manel, traz a bola!", mesmo que não fosse o Manel o dono da bola

A bola, na verdade, era um elemento de luxo. Quase sempre era de plástico leve, que fazia uma curva impossível ao mínimo sopro de vento ou, no melhor dos cenários, de couro já gasto, cosida tantas vezes que parecia ter mais cicatrizes do que os joelhos da gente. Quando não havia nenhuma das duas, jogava-se com uma meia cheia de trapos e restos de jornal. O futebol não escolhia texturas nem classes.

As balizas? Duas pedras de cada lado, ou dois casacos empilhados ou os livros da escola. A largura do golo era medida a passos, e ai de quem tentasse fazer batota:

-Isso foi golo! 

Qual golo, o tanas - palavrão não havia porque a gente não era como o Zé Malcriado! 

- Passou por cima da pedra - dizia o mais espigado.

O trânsito raramente interrompia a partida. Porque na minha cidade isso era coisa de hora de almoço e fim de tarde, no chamado passeio dos tristes. De meia em meia hora, lá aparecia um carocha ou uma carrinha de caixa aberta a avançar lentamente. O jogo parava com o grito clássico: "Olha o carro!". Os jogadores encostavam-se aos muros, sentavam-se no passeio, o veículo passava, e o jogo recomeçava exatamente no mesmo segundo, com a mesma intensidade de uma final da Taça dos Campeões.

O verdadeiro perigo não eram os carros; eram as janelas das vizinhas e os muros intransponíveis. 

Havia também a D. Maria, com a sua permanente impecável, feita na cabeleireira Carlota, que odiava o barulho da bola a bater no portão:

- Se a bola cai aqui dentro, furo-a! — ameaçava.

E, claro, pela lei de Murphy do futebol de rua, era precisamente para o quintal da D. Maria que a bola ia parar depois de um remate em balão. Ficava tudo em silêncio. Olhavam uns para os outros, a medir quem tinha a coragem de ir tocar à campainha ou saltar o muro. O mais novo era quase sempre o sacrificado para a missão de espionagem. E lá estava o salta-muros pronto para a confusão. Tirando um ou outro grito de vez em quando nunca ela furou a bola e nunca com ela ficou.

O jogo só terminava verdadeiramente quando acontecia uma de duas coisas ou a bola rebentava do gasto, ou a noite caía e uma mãe gritava " Jantar!"

Davam de dez a zero uns aos outros, com os pés negros do pó da rua, os sapatos esfolados na biqueira, o pavor das mães e os joelhos corados com o inevitável mercurocromo vermelho. Mas iamos para casa felizes, com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, o campeonato recomeçava.



Sanzalando

16 de julho de 2026

O campeão da mesa verde do Aero-Clube

Na escola sempre me disseram que eu tinha um futuro promissor. Nunca explicaram era em quê. As aulas começavam às sete e meia, mas o salão de bilhar abria às nove ou dez. Eu achava que era um sinal do destino: primeiro fazia o sacrifício de faltar à primeira aula, depois dedicava-me à ciência das tabelas.

Enquanto os colegas estudavam Matemática, eu calculava ângulos com uma precisão que faria inveja a qualquer professor. A diferença era que, no meu exame, se falhasse uma conta, a bola branca não tocava na terceira bola e toda a gente ria e alguns até que aplaudiam.

- Rapaz, com a quantidade de horas que passas aqui, já devias pagar renda em vez do que marca o contador. - diziam-me o encarregado daquele estabelecimento de batota e pouco aéreo, pelo menos ali.

Eu respondia  que estava a investir na minha formação profissional.

E era verdade. Aprendi a perder sem fazer drama, a ganhar sem fazer alarde e, sobretudo, a fugir pela porta das traseiras quando passava algum professor ou familiar.

Um dia encontraram-me por mero acaso.
- Então, Carranca, porque não está na escola?

Olhei para a mesa, para o taco e depois para ele.

- Professor, estou numa aula prática de Física. Estamos a estudar o movimento, os choques e as leis da reflexão e refracção.

Ele sorriu, abanou a cabeça e respondeu:
- O problema é que, no fim do período, quem leva com a tabela és tu.

Tinha razão. Eu perdi o ano. Quer dizer, ele passou, eu é que não, portanto foi o ano que me perdeu.

Pouco tempo mais tarde percebi que as aulas faziam falta. Mas também descobri que o bilhar me tinha ensinado uma coisa importante: antes de cada jogada é preciso parar, pensar e escolher bem a bola. Ela, não a bola, foi a razão da tacada aos estudos ter primazia em relação à tacada de bilhar de fim de tarde, depois da voltinha dos tristes que eu em triste figura ficava na esquina a ver o carro passar.

Com muito mais estratégia eu até que apanhei o comboio e lá encontrei o tal de futuro, que não só foi promissor como me é grato olhar para todo o passado e ter orgulho de ter tido tal passado. O taco está na caixa, a mesa mantem o pano verde, algum pó e o passeio dos tristes agora dou eu com alegria estampada no rosto


Sanzalando

15 de julho de 2026

Livro - Terra Sonâmbula - Mia Couto - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Esta Música tem uma História 66 -Rui Veloso - Eu nunca me esqueci ti - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 101 - Wanderey Cardoso - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (26) - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (32) - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Crónica 114 - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Programa 127 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 15 de Julho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é, Esta Música tem uma história com Rui Veloso e Nunca me esqueci de ti, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, 101º edição com o Wanderley Cardoso
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde e da Revista Claridade
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos os 'inteligentes de trazer por casa'.
Falei do Livro Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Segunda vez que falo deste livro porque é marcante e mereceu uma nova leitura e abordagem.
Tivemos poesia de Carlos Drumond de Andrade com o poema José


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

14 de julho de 2026

quem me dera descriançar

O processo voluntário de descriançar, a transição oficial para o mundo dos adultos, devia vir com um manual de instruções e um aviso de letras garrafais: Atenção, contém altos níveis de stress e dores nas costas. A verdade é que nenhum de nós quer realmente crescer. Nós fomos enganados pela falsa promessa de que ser adulto significava apenas comer gelado quando apetece e ir para a cama à hora que quisermos. Ninguém nos avisou sobre o preço da eletricidade ou sobre a humilhação que é escolher uma marca de detergente para a roupa com base no nível de suavidade, no perfume e na qualidade da água.
O diagnóstico de que fomos definitivamente descriançados não vem com a certidão de nascimento, mas sim com pequenos e trágicos sinais do quotidiano. O entusiasmo que antes sentíamos no corredor dos brinquedos foi substituído por uma alegria genuína ao encontrar um gel anti-inflamatório em promoção. Antigamente, dormir era um castigo penoso e havia birra na hora de ir. Hoje, dormir oito horas seguidas sem acordar com o pescoço preso é considerado um milagre divino e o ponto alto da semana. Damos por nós a discutir a qualidade do isolamento térmico das janelas com vizinhos que nem sequer conhecemos pelo nome.
Que saudades de quando o único despertador era o grito da mãe a dizer que já estás atrasado, em vez deste toque eletrónico infernal que nos causa micro-enfartes diários. E agora é o relógio de pulso que até parece está a ter uma convulsão no braço.
Se a maturidade é obrigatória por lei, a nostalgia devia ser um direito constitucional com direito a subsídio. Há dias em que a única coisa que realmente apetece é acionar um botão de emergência, encolher um metro de altura e voltar para o tempo em que o mundo se resolvia com uma moeda de dois e quinhentos na Oásis.

Sanzalando

13 de julho de 2026

O dia em que a tristeza se cansou de esperar

A tristeza é uma nuvem cinzenta e gorda que adorava sentar-se na cabeça das pessoas. Aloja-se, aninha-se e por ali permanece. Um dia, ela escolheu-me. 
Aqui vou eu, disse-me a tristeza, ajeitando as malas sobre os meus ombros enquanto procurava maneira de entrar.
No primeiro dia, a tristeza soprou um desânimo pesado. Senti a carga, mas disse:
- Bom, a pia está cheia. E comecei a lavar os pratos que ali jaziam faz horas. 
A tristeza achou estranho, pois esperava que eu chorasse no sofá. Ela pesou mais nos meus ombros como que a querer dizer que estava ali para me entristecer.
No segundo dia, a tristeza tentou apagar o sol. Olhei para o céu nublado, calei as sapatilhas velhas e fui caminhar. ~
- Só uma volta no quarteirão - murmurei. 
A tristeza, arrastada pelo vento da caminhada, começou a ficar despenteada e irritada. Sujeito teimoso, pensei eu tê-la ouvido.
No terceiro dia, a tristeza atacou com memórias melancólicas. Suspirei, sentei-me à mesa e peguei num caderno. Em vez de me lamentar, comecei a escrever uma lista de piadas ruins que me lembrava. A tristeza tentou ler, mas achou os trocadilhos tão infames que começou a ter uma enxaqueca existencial.
No quarto dia, a tristeza já estava exausta. Eu tinha mudado os móveis de sítio, insistia em regar as plantas e até tentava assobiar mesmo desafinado as músicas da minha infância. A persistência estava a ser uma máquina de moer a paciência dela.
No quinto dia, acordei, abri a janela e sorri para um pátio vazio. Foi o limite.
A tristeza pegou nas suas malas, indignada. 
- Desisto! Não há quem consiga trabalhar com este homem a mexer-se o tempo todo - reclamou ela, quase arrancando-me os ombros ao sair dali.
Senti o peso desaparecer, respirei fundo e percebi: a tristeza até pode ser forte, mas não tem pernas para acompanhar quem decide continuar a andar.


Sanzalando

12 de julho de 2026

Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas






O programa Pertinências transmite, em diferido, a tertúlia "O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios", que teve como convidada a jornalista da revista Visão, Alexandra Correia.
A conversa abordou os desafios que o jornalismo enfrenta na atualidade, desde a desinformação e a proliferação das redes sociais até à importância da liberdade de imprensa e do rigor informativo.
A iniciativa foi organizada pelo Clube dos Poetas Vivos, no âmbito do Philosophy Spring Festival.

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

11 de julho de 2026

Não vale nada fugir ao tempo

No dia em que a minha amiga decidiu fugir, ela não fez as malas. Ela levou apenas a roupa do corpo, a carteira e uma determinação feroz de deixar o passado para trás. 
- Não olho mais para trás - decretou para si mesma, pisando no acelerador do seu corpo. Ela queria fugir da rotina, das cobranças, dos olhares e, acima de tudo, do tempo que parecia correr depressa demais na cidade da vida.
Cinco quilómetros depois, uma primeira paragem para abastecer o olhar e repousar o corpo do cansaço, Ela olhou para o lado.
Ali, confortavelmente sentado ao seu lado e a ajustar um par de óculos de leitura imaginários, estava o Tempo. Não o tempo metafórico, mas um senhor de barba cinzenta, vestido com um fato feito de folhas de calendário e a segurar uma ampulheta como se fosse uma caneca de café.
- O que é que estás aqui a fazer? - gritou ela, assustada. - Eu fugi!
- Eu sei - disse o Tempo, bocejando. - Mas tu fugiste à pressa. E quem corre contra o tempo, acaba por me levar de boleia. Tu não olhaste para trás, mas eu estava no banco da tua frente.
Ela tentou ignorar a assombração cronológica e continuou o caminho para bem longe, em direção a um outro qualquer litoral. Pensou que, se vivesse sem horários, ele acabaria por desaparecer.
Não funcionou.
No dia seguinte, na praia, ela decidiu relaxar e não fazer absolutamente nada durante horas. Olhou para o lado e o Tempo estava deitado numa espreguiçadeira, a banhar-se em protetor solar fator 50.
- Ah, o ócio! - exclamou o Tempo, satisfeito. - Adoro quando não fazes nada. É aí que eu passo mesmo devagarinho. Repara como este minuto está a parecer uma hora?
Irritada, ela decidiu mudar de estratégia. Começou a fazer tudo a correr. Comeu o pequeno-almoço em trinta segundos, correu dez quilómetros na areia e limpou o quarto da vida duas vezes. Quando olhou para o lado, o Tempo estava a fazer flexões ao ritmo de uma música de aeróbica dos anos 80.
- Uau! - disse o Tempo, transpirando ponteiros. - Assim passamos num sopro! Já é noite, viste? Nem deste por ela!
Ela percebeu que não importava o quanto rápido corria, para onde viajava ou o quanto tentava ignorar o relógio. O Tempo era o passageiro mais fiel e irritante que ela alguma vez teria. Ele mudava de forma: às vezes pesado como chumbo quando ela estava aborrecida, às vezes veloz como um foguetão quando ela se estava a divertir.
Uma noite, sentada num restaurante a beber um copo de vinho e a ver o pôr do sol, ela parou de lutar. Olhou para o Tempo, que agora operava o saca-rolhas com uma precisão cirúrgica.
- Sabes - disse ela, a sorrir pela primeira vez em dias - eu fugi para não te ver passar.
O Tempo serviu o vinho, sentou-se e cruzou as pernas.
- O teu erro foi achar que eu estava a perseguir-te. Eu só estava a acompanhar-te. O truque não é fugir de mim. É saber o que fazer comigo enquanto estamos na estrada.
Ela brindou ao seu companheiro inevitável. Ela tinha fugido sem olhar para trás, mas percebeu que o futuro só valia a pena porque o Tempo tinha decidido ir com ela.

Sanzalando