recomeça o futuro sem esquecer o passado

Programas K'arranca às Quartas no Blog

6 de novembro de 2026

O cirurgião, o bisturi e as saudades do tempo em que ainda mandava no corpo (42 anos de curso feito)

Houve um tempo em que eu era cirurgião. Digo isto com alguma solenidade, porque há profissões que nos ficam agarradas à pele, mesmo quando já não usamos bata, não entramos no bloco e o bisturi passou a ser uma peça de museu guardada na memória.

Hoje estou reformado. O que, em linguagem médica, significa que deixei de operar os outros e passei a tentar operar a minha própria rotina, quase sempre com sucesso.

Recordo os meus tempos de cirurgião com uma certa nostalgia. Não daquela nostalgia triste, que nos faz olhar para o passado como quem contempla um funeral, mas de uma nostalgia bem-disposta, daquelas que nos fazem sorrir enquanto pensamos: «Meu Deus, como é que eu sobrevivi àquilo?»

No bloco operatório, tudo tinha uma ordem. Havia horários, procedimentos, decisões, responsabilidades. Um silêncio concentrado, interrompido apenas pelas indicações à equipa e pelo som dos instrumentos. Eu sentia-me útil, importante e, por vezes, ligeiramente convencido. Afinal, não é qualquer profissão que nos permite dizer: «Vamos abrir!» sem que alguém pense que estamos a tirar a rolha a uma garrafa de champanhe.

Agora, reformado, continuo a dar ordens. A diferença é que já não são tão respeitadas.

Se, no hospital, eu dizia «preciso de silêncio», toda a gente se calava. Em casa, digo o mesmo e alguém responde: «Então desliga a televisão.»

Também descobri que a reforma tem uma particularidade extraordinária: os dias são muito mais compridos do que antigamente. Quando trabalhava, nunca tinha tempo para nada. Agora tenho tempo para tudo, mas falta-me a vontade para metade. E a outra metade depende de saber onde estão arrumadas as coisas.

A memória, essa, continua a funcionar. Pelo menos a memória profissional. Ainda me lembro de operações complicadas, de decisões tomadas em segundos, de noites intermináveis e de doentes que me ensinaram mais do que muitos livros.

Curiosamente, não me lembro onde pus as chaves do carro.

É uma espécie de ironia clínica: o cérebro que durante décadas conseguiu coordenar uma intervenção cirúrgica complexa, agora entra em falência perante a pergunta «onde é que deixei o comando da televisão?».

De vez em quando, encontro antigos colegas. Abraçamo-nos, falamos dos tempos do hospital, recordamos histórias de serviço, pacientes insólitos, pequenos dramas e grandes vitórias. Rimos como se ainda estivéssemos no corredor, à espera de entrar no bloco.

E há sempre alguém que pergunta:

- Então, ainda tens saudades de operar?

Respondo com a sinceridade de um homem que já não precisa de fingir coragem:

- Tenho, mas só até me lembrar das horas de trabalho, das urgências de madrugada e da responsabilidade de ter uma vida nas mãos. Logo me passa.

A verdade é que a reforma não apaga o cirurgião. Apenas lhe muda o cenário. Continuamos a observar, a analisar, a desconfiar de sintomas e a tentar encontrar soluções. Só que agora o paciente mais frequente somos nós próprios.

E, convenhamos, somos pacientes bastante difíceis.

O passado tem o seu encanto. Não porque fosse perfeito, mas porque foi vivido intensamente. Houve cansaço, medo, responsabilidade, alegrias e aquela sensação extraordinária de que o nosso trabalho fazia diferença.

Hoje, quando olho para trás, não sinto que tenha perdido uma profissão. Sinto que ganhei o privilégio de a recordar. E isso é uma espécie de milagre da reforma. Afinal, fui cirurgião durante muitos anos. Agora sou um reformado com bisturi na memória, histórias na gaveta e uma ligeira dificuldade em levantar-me do sofá. Mas continuo a ter espírito de cirurgião. Só já não opero. Agora, quando alguém me diz que está mal, faço o diagnóstico mais prudente da minha nova carreira:

- Isso deve passar. Mas, por favor, não me marque consulta para amanhã. Tenho uma vida muito ocupada… a não fazer nada.

E sorrio.

Porque, no fundo, há coisas que nunca se reformam: a memória, o humor e a saudade de termos sido, um dia, indispensáveis. Embora hoje, cá em casa, a minha maior intervenção cirúrgica seja conseguir abrir um frasco de grão sem pedir ajuda. E nem sempre consigo.



Sanzalando

5 de novembro de 2026

O beijo que nunca chegou a ser… e o chapadão que ficou na história

E para acabar de te contar esta história, que já vai longa porque como sabes ela não aconteceu, mas na minha cabeça é real, no meu corpo é física e palpável. Porque as minhas estórias mesmo que não tenham acontecido o são. Vivem-me. Mas deixemos de filosofia.

Tive amores que começam com um beijo, outros com um olhar, e os que, por manifesta falta de colaboração da outra parte, poderiam ter começado por uma chapada.

Ouviste bem a minha história com a menina dos seis anos e a ela pertence ou poderia pertencer à terceira categoria. Poderia ter sido à chapada. Mas vamos lá mais devagar.

Anos depois daquele célebre «daqui a seis anos a gente volta a falar nisso», a vida resolveu proporcionar-nos um reencontro. Não foi num jardim romântico, nem numa praia do Monte Estoril, nem sequer num café onde se pudesse disfarçar o embaraço com uma bica nem nada mais que um acaso político. Foi numa assembleia de jovens acabados de se formarem, em Lisboa.

Ambos tínhamos acabado o mesmo curso. Éramos, portanto, dois profissionais recém-formados, devidamente preparados para enfrentar os desafios da vida, as responsabilidades da profissão e, aparentemente, os perigos de uma aproximação amorosa.

Ela estava lá. A menina dos seis anos. Reconheci-a imediatamente porque há gente que a gente não esquece. O tempo tinha passado, mas a minha memória sentimental continuava a funcionar com uma precisão que nem os melhores arquivos clínicos conseguiam igualar.

Aproximei-me. Afinal, já tinham passado os seis anos. Eu tinha amadurecido, adquirido experiência, tomado juízo na cabeça, muito juízo, aliás, porque a vida nunca foi poupada na distribuição de reprimendas.

Achei que, naquele contexto de confraternização entre colegas, seria perfeitamente razoável recuperar alguma cordialidade. Com a confiança de quem já tinha sobrevivido a muitas coisas, perguntei-lhe:

- Posso cumprimentar-te com um beijo?

Não sei se a pergunta foi mal formulada, se o pedido chegou fora de prazo ou se a senhora continuava a considerar-me um caso perdido. O que sei é que, em plena assembleia, se ouviu um chapadão. Um estalo daqueles que dispensam microfone, amplificação sonora ou qualquer intervenção da mesa de mistura. Não havia duplos. Era mesmo a minha cara que levou com aquela mão.

O silêncio que se seguiu foi tão profundo que, por momentos, pensei que a assembleia tinha aprovado uma moção de censura à minha pessoa por eu ainda não ter aberto a boca para a senhora assembleia. Toda a gente olhou. Eu fiquei ali, com a face a aquecer e a dignidade a arrefecer. A menina dos seis anos acabara de me dar uma resposta que, desta vez, não precisava de calendário. Não era «daqui a seis anos». Era simplesmente:

 - Não! - com uma pontuação bastante expressiva.

Qual canídeo dali sai calado, rabo entre pernas e um orgulho a precisar de ser reanimado. 

Casei, tive filhos, o som do estaladão na memória nunca mais desapareceu, como se fosse uma cicatriz.

Mas o mais curioso disto tudo é que, por sorte, azar ou alguma conspiração do destino, acabámos por tirar a mesma especialidade. Imagina dois profissionais com a mesma formação, a mesma especialidade, os mesmos conhecimentos técnicos e, provavelmente, a mesma capacidade de resolver problemas complexos. Mas incapazes de resolver o problema de um beijo ou de um simples não. A vida, essa grande ironista, ainda nos reservou outro pormenor. Durante muito tempo, morámos a escassos sete quilómetros um do outro. Sete quilómetros! Uma distância perfeitamente razoável para dois colegas se cruzarem, tomarem um café, trocarem duas palavras ou, pelo menos, confirmarem se a face do agredido já tinha recuperado a temperatura normal.

Mas nunca mais nos cruzámos.

Nem uma vez.

Aparentemente, o destino tinha decidido que sete quilómetros eram uma distância emocionalmente intransponível.

Talvez ela tivesse medo de me encontrar. Talvez eu tivesse aprendido a respeitar a sinalização de perigo. Ou talvez o universo, depois de assistir ao chapadão em plena assembleia, tivesse concluído que não valia a pena insistir.

E assim ficou a história.

Acabámos o mesmo curso, tirámos a mesma especialidade, vivemos durante anos a escassos sete quilómetros um do outro e nunca mais nos vimos.

Há quem diga que o amor é cego.

No meu caso, foi também surdo, porque não ouvi os avisos; imprudente, porque pedi o beijo; e, finalmente, muito esclarecedor, porque a resposta veio em alta definição.

Hoje, quando recordo a menina dos cinco anos, penso que talvez tenha sido a única pessoa que conseguiu fazer-me compreender, de uma vez por todas, que há especialidades para as quais nunca estamos devidamente preparados.

E que, na medicina como no amor, existem procedimentos que não devem ser realizados sem consentimento prévio.

Quanto ao beijo, nunca aconteceu. Quanto ao chapadão, esse foi o único contacto físico oficialmente registado entre nós.

E, convenhamos, para uma relação que começou com um «daqui a cinco anos», acabou por ter uma duração bastante respeitável.

Sete quilómetros de distância.

Uma vida inteira de memória.

E uma face que, apesar de todo o juízo que me meteram na cabeça, ainda hoje se lembra.



Sanzalando

segunda vez em lisboa

Quando voltei a Lisboa, dois ou três meses depois do Carnaval. Isto é, depois de ter poupado nalgumas refeições para vir de camionete até Lisboa e desta vez sozinho, achei que estava finalmente em condições de resolver alguns assuntos sentimentais que, por razões de calendário e económicas, por distância e alguma cobardia juvenil, tinham ficado pendentes por um fio mais fino que um cabelo, de quando eu tinha-os forte e fartos

Entre esses assuntos havia uma namorada que me esperava ansiosa pelo que lhe lia nas cartas diárias, ou, pelo menos, era essa a interpretação que eu fazia da realidade, apesar dela me mandar dinheiro para eu ir até Lisboa, em vales de correio que eu ia prontamente levantar aos CTT, mas tinha muito que estudar e não dava. Tantas desculpas que eram até correspondidas nas notas, entenda-se.  

Mas havia também a menina dos seis anos de curso cívico. Já tinha passado um mas ainda faltavam cinco para termos a tal conversa em continuação àquela que, em 1976, no Monte Estoril, perante o meu pedido de namoro, me tinha respondido com uma sentença que ainda hoje me ecoa nos ouvidos:

- Daqui a seis anos a gente volta a falar nisso.

Ora, eu, que era um jovem cheio de esperança e com uma capacidade de interpretação emocional bastante limitada, tinha levado aquilo a sério. Cinco anos! Na minha cabeça, era quase um compromisso sentimental com prazo de validade. Quando cheguei a Lisboa, pensei que seria prudente visitar a namorada que cá tinha. Afinal, um homem não pode viver eternamente de promessas feitas à beira-mar. E lá fui eu, sozinho, com a confiança de quem acredita que a vida amorosa ainda lhe deve algumas indemnizações. A visita correu menos mal. Não me recordo se a namorada estava de mau humor, se eu disse alguma coisa inconveniente ou se, simplesmente, o meu currículo sentimental já não inspirava confiança. O que sei é que levei uma rabecada monumental. Daquelas que começam num tom civilizado e acabam com o cidadão a reconsiderar toda a sua existência. Fiquei ali, a ouvir, sem saber se devia responder, pedir desculpa ou fingir que tinha sido convocado para uma urgência médica. E foi então que percebi que, afinal, a vida não era uma sucessão de romances. Era uma sucessão de chamadas de atenção. Ela tinha toda a razão do mundo. Eu tinha as minhas, algumas dizíveis e outras tão secretas que nem eu sabia como poderia justificar ser um pinga amor. Mas lá as pazes caíram por aquelas bandas, a compreensão feminina sobrepôs-se à masculinidade intrasigente de que tudo é desculpável desde que seja para o bem do meu lado. Sorrimos e pareceu que não tinha havido intervalos maiores que o desejado.

Mas o pior ainda estava para vir. Porque a menina dos agora cinco anos, aquela que me tinha mandado esperar seis, voltou a saber que eu andava por Lisboa.

E fui novamente visto e desta vez eu vi que o tinha sido. 

Não sei se por acaso, se por espionagem rival ou apenas intervenção divina. O certo é que o destino, que até então tinha sido bastante discreto, resolveu assumir funções de fiscal de comportamento. Imagino o que lhe terá passado pela cabeça:

- Este gajo não só não esperou os seis anos como ainda anda por Lisboa sem vir até cá a casa! Está visto que precisa de formação cívica e sentimental. - isto é o meu pensamento brando a defender-me. A realidade desconheço. Porque se houve julgamento, fui condenado sem direito a recurso.

Ao fim da tarde, como quem não quer a coisa fui lá a casa. Peguei no carro da velhota, senhora minha mãe, e fui até lá. Os pais receberam-me, a irmã também mas ela, ela quase podia dizer-se que mandou dizer que não estava. Os pais deram-me um sermão. Era a segunda vez que me sabiam em Lisboa e coisa e tal, era desonesto da minha parte, não parecia o mesmo menino tímido e bem comportado que conheciam de outras eras e terras. 

Como é que me terão visto no Carnaval, era uma das minhas grandes intrigas. Pois bem, ela estava no baile de Carnaval, mascarada e mal entrou deu comigo e desapareceu de volta para a casa. Ah, eu estava tal e qual eu era. Bonito serviço arranjei. 

Meia-hora depois, que para mim demorou um julgamento no purgatório, fui diplomaticamente convidado a desaparecer dali, de agora em diante. Pensei, daqui a uns meses passa. O amor sobrepõe-se a pequenos desvarios adolescentes, pensei.

E assim saí da capital em direcção ao norte com duas certezas: uma rabecada bem levada e a convicção de que o amor, quando se mistura com promessas antigas, pode ser mais perigoso do que uma operação cirúrgica sem anestesia e ainda não tinha decidido qual a especialidade eu iria tirar.

A verdade é que ao longo dos anos seguintes, tomei muito juízo na cabeça. Ou melhor, deram-me, em doses industriais. Algumas pessoas fizeram questão de me endireitar, outras de me corrigir, e houve até quem acreditasse que eu ainda tinha salvação. A namorada do norte, hoje ainda minha amiga, dava-me conselhos, chamava-me a atenção, dava-me na cabeça a cada comportamento mau. A que mandava dinheiro para o comboio ia ela lá aos fins de semana, pelo menos uma vez por mês. Na verdade, as mulheres da minha vida, que começara na minha mãe, irmã e avó, e depois nas outras todas, foram o meu guia, estrada e quem sabe, o motor da revolução que se deu em mim.

Bem, bem. Mas a verdade é que, apesar de tanta rabecada, tanto conselho e tanto juízo administrado à força, nunca me endireitei completamente. Continuo a ser aquele rapaz que, em 1976, ouviu um «daqui a seis anos» e julgou que tinha recebido uma promessa de amor. A diferença é que agora tenho setenta anos. E continuo sem saber se aqueles cinco anos já passaram… ou se ela ainda está a contar porque há amores que não nos endireitam, pelo contrário, deixam-nos definitivamente tortos., com aquela sensação de que falta qualquer coisa na minha vida que ainda não está concluída.


Sanzalando

4 de novembro de 2026

Tesourinhos Musicais 112 - Sérgio Godinho - K'arranca às Quartas 139


Sanzalando

Pepetela - A Montanha da Água Lilás - K'arranca às Quartas 139


Sanzalando

Esta Música tem uma História 77 - Waldemar Bastos - D. Xica - K'arranca às Quartas 139


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (36) - K'arranca às Quartas 139


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (44) - K'arranca às Quartas 139


Sanzalando

Crónica 126 - K'arranca às Quartas 139


Sanzalando

Programa 139 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 28 de Outubro tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Hoje foi um programa totalmente diferente porque diferente também foi o dia

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.

Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este hoje teve convidados e festa. Ouçam e digam-me que tal foi.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  falei sobre pinchar monumentos.
 Esta Música tem uma história com Waldemar Bastos e D. Xica, colaboração de José Leite
Tesourinhos Musicais que foi Sérgio Godinho
Carlos Osório hoje falou de uma figura do século passado que circulava pela Praia da Rocha, não tinha casa mas tem Rua
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas continuou a falar da poesia Guiné-Bissau
 A Montanha da Àgua Lilás - de Pepetela, foi o livro falado com as palavras de Anabela Quelhas

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no que fazer para cair na felicidade ou suportar esta vida que é só uma


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Lisboa, a cidade onde até os namoros tinham vigilância

Não me lembro se foi no segundo ano da faculdade ou se já andava a caminho de me tornar um estudante com mais experiência do que juízo. Sei que, num belo fim de semana de carnaval, resolvi ir a Lisboa com uma namorada. Uma viagem perfeitamente inocente, pelo menos na versão oficial dos acontecimentos.

Lisboa, naquela época, era uma cidade cheia de encantos, monumentos, cafés e, no meu caso, tinha também perigos sentimentais.

Porque eu tinha por lá uma namorada com quem me correspondia por carta diáriamente. E tinha também a outra, que não era bem namorada, mas que ocupava um lugar especial no complicado organigrama amoroso da minha juventude. Era aquela que, em 1976, no Monte Estoril, me tinha deixado com uma sentença que ainda hoje me provoca arrepios:

- Daqui a seis anos a gente volta a falar nisso.

Seis anos! Uma eternidade para um adolescente apaixonado. Um prazo mais longo do que muitos cursos universitários e quase tão difícil de cumprir como uma promessa eleitoral.

Ora, naquele dia, vim a Lisboa acompanhado de uma namorada. E, por uma questão de prudência, de gestão de riscos e talvez de alguma falta de vergonha, decidi não visitar nem a namorada lisboeta nem a menina dos seis anos. A estratégia parecia-me brilhante. Lisboa era suficientemente grande para esconder um estudante universitário mas suficientemente pequena para lhe estragar os planos. Passeámos, conversámos, namorámos. Eu estava convencido de que tinha tudo sob controlo. O meu lado romântico funcionava em pleno, enquanto o meu lado estratégico, que nunca foi particularmente desenvolvido, descansava à sombra. Mas o destino, esse grande argumentista de comédias sentimentais, tinha outros planos.

A menina dos seis anos viu-me! Não sei se foi por acaso, se por obra do Espírito Santo, se por uma qualquer conspiração dos transportes da Carris. O certo é que me viu acompanhado. E não acompanhado de um amigo, de um primo ou de um colega da faculdade. Não. Acompanhado de uma namorada! Se calhar até ia de mão dada. Imagino o que lhe terá passado pela cabeça.

Talvez tenha pensado que o rapaz que devia esperar seis anos tinha encontrado uma solução provisória para a longa espera. Eu, que não a tinha procurado, fui encontrado.

E de repente, aquela Lisboa que me parecia tão vasta transformou-se num pequeno tribunal sentimental, onde eu era simultaneamente o arguido, a testemunha e o advogado de defesa, este último, infelizmente, sem grande preparação jurídica. A minha namorada daquele dia não sabia de nada. A namorada lisboeta também não sabia que eu não a tinha visitado. E a menina dos seis anos, essa, tinha agora motivos para rever o calendário. Arrumou-me num canto com uma precisão geográfica assustadora. Tão assustadora que ela ainda hoje não sabe em que canto fui arrumado.

Julgamos que somos donos dos nossos segredos, quando na verdade eles andam pelas ruas de Lisboa à nossa procura, de olhos bem abertos. A juventude tem destas coisas, mania que sabe e controla tudo.  Hoje, passados tantos anos, penso que aquele episódio foi uma lição importante, já que aprendi que, na vida sentimental, não basta saber para onde se vai, é fundamental saber quem pode estar a olhar. E sobretudo aprendi que, quando uma mulher nos diz «daqui a seis anos a gente volta a falar nisso», não devemos interpretar a frase como uma autorização para passear livremente por Lisboa com outra. Porque ela pode não estar à nossa espera. Mas pode estar a ver-nos. E, convenhamos, para um estudante do segundo ano da faculdade, já havia exames suficientes sem ter de fazer também uma prova oral de fidelidade.

Mas o baile de carnaval na cantina foi divinal e abrilhantado pelos Vapores do Rego.


Sanzalando

3 de novembro de 2026

e ao Porto fui parar

Ano de 1977. O comboio arrancava da Estação de Santa Apolónia com um ruído esforçado e dramático de filme a preto e branco, e eu, com 20 anos completos e um buço que tentava desesperadamente passar por bigode revolucionário, encostava a testa ao vidro frio da carruagem. Deixava para trás a luz de Lisboa, o cheiro do Tejo e, acima de tudo, ela, a rapariga que me tinha dito que faltavam seis anos para conversar, faz conta era a validade de uma promessa de amor eterno. 

A minha bagagem consistia numa mala vulgar que tinha três pares de calças à boca de sino, dois discos do José Afonso e uma quantia em escudos tão reduzida que fazia um frade franciscano sentir-se o rei do petróleo na terra de onde eu tinha vindo. O objetivo? Estudar no Porto. O problema? Não conhecia rigorosamente nada nem ninguém acima dos passeios a Cascais. Para mim, o Norte era uma terra mítica onde, dizia-se, chovia nove meses por ano e as pessoas comiam francesinhas ao pequeno-almoço.

Quando desci na Campanhã, o Porto acolheu-me com uma névoa cinzenta e húmida que parecia ter saído diretamente de um romance do século XIX. Juro que tinha pensado que estava em Londres ou na China. Não conhecia nem uma nem outra e não estava preparado para aquele cinzento arquitectónico e atmosférico. 

- Ó moço, queres um táxi? - perguntou-me um senhor com um boné e um cigarro pendurado no canto da boca. Olhei para as moedas no meu bolso, engoli em seco e respondi com a maior dignidade que consegui arranjar:

- Não, obrigado, prefiro vou a pé que é já ali. - na verdade, não tinha dinheiro nem para o bilhete do elétrico nem tinha noção para onde ia.

Tirei um bilhete escrito pela minha mãe e perguntei a uma senhora simpática que me disse que era uma morada da Areosa. Fernão Magalhães sempre para cima. Esclarecido. Mas onde raio é a Fernão Magalhães? E ainda não tinham inventado as rodas nas malas pelo que o ter trazido pouca coisa foi uma grande ajuda. E lá fui eu a pé, perguntando aqui e ali e fui-me aproximando da tal Areosa. A minha mãe tinha falado com uma conhecida que tinha uma conhecida que alugava um quarto. Posso dizer que nesta caminhada eu ouvi mais vernáculo que nos meus vinte anos de vida antes de chegar a Campanhã. Qualquer indicação que me davam tinha três ou quatro na sua constituição. Não na Rua, que essa eu cruzei.

Lá encontrei a casa da D. Odete, a senhoria que pelos vistos fazia o favor ou frete de me alugar o quarto e logo me informou com firmeza: 

- Aqui não há cá balbúrdias de rapazes de Lisboa! Banho quente é só às quartas-feiras e a porta da rua fecho-a às 8 da noite. -  o quarto tinha uma cama de ferro que rangia como um portão enferrujado e uma janela.

Nos primeiros dias, a minha vida académica era resumida a duas coisas: tentar perceber o sotaque na faculdade, nos primeiros três dias pensei genuinamente que «carago» era um termo técnico de Filosofia e calcular quantas refeições conseguia fazer com o orçamento semanal. Andei uma semana a beber café de saco porque não sabia dizer «cimbalino». Visitar Lisboa? Impossível. O bilhete de comboio custava uma fortuna astronómica.  A minha única ligação ao sul eram as cartas apaixonadas que escrevia a uma outra ela, que fora minha vizinha e me aturava, ria e conseguia querer ver-me sem eu a procurar. 

A vida académica de 1977 no Porto era viva, intensa e cheia de discussões políticas acesas nos cafés da Praça dos Leões, no Piolho ou perto do Marquês. Enquanto todos debatiam o futuro do país, a minha maior revolução diária era conseguir que o meu único par de sapatos sobrevivesse ao empedrado molhado da Rua das Flores sem ficar completamente encharcado.

Ao fim de um mês fiquei de rastos e pronto para abandonar um sonho. O banho quente de quarta-feira era quase cronometrado e o banho frio era demasiado gelado para cada dia. De boca em boca os que me rodeavam ficaram a saber que o meu destino não ia passar mais pelo Porto. Sentei-me berma da Ribeira, a olhar para o Douro, sentindo-me a pessoa mais miserável e solitária de Portugal inteiro. O segundo sonho ia ter que ser também adiado. Um fora-o por seis anos e este seria por quanto?

Foi nesse preciso momento que o PêPê, um colega de curso, anos mais velho, que eu mal conhecia, me deu uma palmada nas costas: 

- Ó puto de Lisboa, que cara de frete é essa? Traz lá esse corpo à vida que ficas a dormir no nosso lar. Nem fui à casa da D. Odete. Fui directamente para o lar. Havia camas vazias. Eu já havia concorrido mas não havia maneira daquilo andar para a frente. Alojaram-me:

- Ficas com esta cama e esta é a tua secretária. Amanhã vamos aos Serviços Sociais saber como estão as coisas. - o lar eram quase todos angolanos desamparados e solitários. Quer dizer, os mais velhos tinham namorada que passavam muito tempo lá. Assim sem saber ler nem escrever tinha-me saído a lotaria. Ia adiar a desistência por uns tempos.

E assim, entre uma fatia de chouriço caseiro que um ou outro trazia da ida a casa ao fim de semana, um copo de vinho que manchava os dentes e gargalhadas ruidosas que ecoavam pelas ruelas que iam dar à Praça da República, percebi que podia não ter um tacho, podia ter o coração partido e nem um escudo para voltar a Santa Apolónia, mas o Porto já me tinha adotado. E, carago, a vida até nem estava nada má.

Ah, ela estuda em Lisboa e por acaso éramos do mesmo curso. Também ia-me custar estar seis anos à espera e olhar para ela todos os dias. Exilado no Porto, com uma outra ela, minha vizinha a me aquecer a alma com cartas quentes e cheias de força eu não ia pensar em mais nada senão em estudar. Pelo menos era o que eu pensava. 

Pelo menos um dos sonhos que tinha sonhado ia ser realidade já que o maior estava adiado por seis anos.  


Sanzalando

1 de novembro de 2026

Monte Estoril, 1976

Monte Estoril, 1976. Sublinhado e escrito em letras legíveis para nunca mais esquecer. Ou seria para hoje me lembrar? Não sei, pois o tempo passa e o neurónio dessa memória deve estar gasto ou foi-se no vendaval da vida.

Em 1976, eu tinha aquela idade em que um rapaz acredita que está preparado para enfrentar todos os desafios da vida, desde que nenhum deles implique falar directamente com a rapariga de quem gosta. 20 anos. Lindos anos e bem vividos, já com estória para um dia contar. Mas esse dia não é hoje, porque hoje eu quero recordar o adolescente vindo de Angola, com algumas experiências de vida, uma certa confiança no andar e uma enorme incompetência na arte de namorar. Treino muito, mas prática nenhuma.

Naquele dia, início de outono ou final de verão, porque até o tempo meteorológico também tinha dúvidas, tínhamos ido passear pelo Monte Estoril. O cenário era perfeito: o mar ali perto, as árvores, o ar romântico da paisagem e uma juventude cheia de sonhos. Pelo menos da minha parte. Ela, aparentemente, tinha ido apenas passear. Eu tinha preparado o momento com o cuidado de um cirurgião antes de uma operação delicada. Ensaiara mentalmente o discurso, escolhera as palavras, treinara o olhar e até estudara a melhor maneira de colocar as mãos nos bolsos sem parecer que estava à procura de alguma coisa. O objectivo era simples: pedir-lhe namoro. Simples, digo agora. Na altura, parecia uma intervenção cirúrgica de alto risco com possibilidade de morte social. Tínhamos almoçado no restaurante de um amigo da família dela, que também era meu, mas por mero acaso ou vizinhança. Acabado o almoço caminhámos um bom bocado. Falámos de coisas banais, do tempo, dos estudos que íamos fazer, dos amigos e de outras matérias absolutamente inúteis para quem tinha um pedido de namoro atravessado na garganta. Até que chegou o momento. Parei. Ela parou. Olhei para o mar, respirei fundo e pensei: 

«É agora, pá! Ou é hoje ou vais passar o resto da vida a passear sem destino.»

E avancei:

- Olha, queria perguntar-te uma coisa...

Ela olhou para mim.

- Diz.

O coração começou a bater como um batuque numa festa na Torre do Tombo. Tentei manter a dignidade.

- Gosto muito de ti e gostava que namorássemos. - todos os rodriguinhos ensaiados não saíram da boca, ficaram só entalados na confusão mental, num engarrafamento de palavras entre o cérebro, o coração e a boca.

Silêncio. Um silêncio daqueles que, numa sala de operações, nos obrigariam a pedir imediatamente um desfibrilhador, acordar o anestesista ou sair aos gritos para calar o silêncio.

Ela olhou para mim, sorriu com uma tranquilidade quase ofensiva e respondeu:

- Sabes uma coisa? Daqui a seis anos a gente volta a falar nisso.

Fiquei parado. Seis anos?!

Eu tinha-lhe pedido namoro, não tinha apresentado uma candidatura a qualquer lugar que precisasse de apreciação superior!

Seis anos era uma eternidade. Em 1976, seis anos significavam passar de adolescente a adulto, deixar as calças à boca de sino a talvez passasse a usar gravata, deixar de ouvir música em cassetes a ter uma colecção de discos sinfónicos. E, sobretudo, significavam esperar por uma decisão amorosa mais tempo do que o país demorara a ter uma constituição nova.

Tentei negociar:

- Seis anos? Não achas que é um bocadinho exagerado? Seis minutos já considero uma indecisão ou mesmo um não...

Ela voltou a sorrir.

- Não. Daqui a seis anos falamos sobre isso.

E continuámos o passeio. Eu, por fora mantinha uma postura serena, oor dentro, estava a fazer contas. 1976 mais seis, 1982. Teria 1982 para preparar uma nova abordagem. Talvez com mais experiência, mais maturidade e, quem sabe, uma camisa menos amarrotada. Talvez uma lábia mais bem ensaiada. Talvez mais experiência nessa coisa de namorar, pois estava a imaginar-me estar sentado à espera desses seis anos... Irrequieto e ansioso é uma mistura explosiva de coração aberto. Na despedida, ainda procurei uma última oportunidade:

- Então fica combinado? - disse como que conformado e mostrando a solidez do meu amor.

- Fica.

Deixei-a no restaurante onde estavam os pais e lá fui eu, Monte Estoril abaixo, com a dignidade de quem tinha acabado de receber uma sentença judicial com prazo de recurso de seis anos apanhar o comboio para Lisboa..

Durante algum tempo, fiquei a pensar naquela resposta. Seria um não delicado? Um talvez com prazo de validade? Ou estaria ela simplesmente a testar a minha capacidade de resistência? Nunca descobri.

Mas aprendi uma coisa importante naquele passeio: há mulheres que não dizem não. Preferem criar uma comissão de avaliação, estabelecer um período experimental e marcar uma reunião para o quinquénio seguinte. E eu, que julgava ter jeito para a vida, descobri que o amor também tinha burocracia.

Hoje, olhando para trás, acho muita graça àquele episódio. Em 1976, no Monte Estoril, aprendi que nem todos os pedidos têm resposta imediata. Há pedidos que ficam em carteira e há amores que começam com uma promessa muito peculiar: 

«Daqui a seis anos a gente volta a falar nisso.» Já estamos com 45 anos de atraso! E desta vez, por favor, que não me peça para esperar até 2031. É que aos 70 anos já não tenho tempo para mais cinco anos de estágio!



Sanzalando

31 de outubro de 2026

que nem marinheiro de água doce

Na minha adolescência, algures nos anos 70, em que o cabelo comprido era sinal de rebeldia, as calças à boca de sino eram quase obrigatórias e os rapazes julgavam que tinham nascido para conquistar o mundo, descobri que tinha uma vocação muito especial: ser marinheiro.

Não propriamente marinheiro de profissão, daqueles que andam no mar em barcos de carga ou de passageiros que passeiam pelo mundo. Nunca tive grande tendência para barcos maiores que uma canoa que o Luís tinha e me emprestava, não sei se enjoo facilmente e, para ser sincero, a minha relação com o mar era muito melhor quando estava em terra firme a olhar para a linha curva que o separa do céu. Mas tinha descoberto que havia uma coisa para a qual me sentia particularmente preparado, namoriscar.

E, nessa matéria, eu navegava em todos os mares.

Bastava avistar uma rapariga interessante para começar imediatamente a preparar a canção do bandido. Endireitava a gola da camisa, penteava o cabelo com os dedos, ajeitava a postura e assumia aquele ar de homem experiente, como se tivesse acabado de regressar de uma longa viagem pelos oceanos. Na verdade, a minha experiência resumia-se a umas quantas conversas no liceu e a alguns olhares trocados na rua. Mas isso não me impedia de me comportar como um velho lobo do mar como eu lia nos livros de aventuras que comprava na Drogaria do Sr. Rosa.

Quando passava por uma rapariga, lançava o meu melhor olhar. Se ela olhava de volta, considerava aquilo um sinal de terra à vista. Se sorria, era praticamente um pedido de casamento. E se não olhava, concluía que o mar estava demasiado agitado e que seria melhor tentar noutra ocasião. Havia, naturalmente, uma rapariga que me interessava mais do que todas as outras. Essa era o meu porto de abrigo, embora ela nem soubesse que eu existia. Eu passava por ela com a naturalidade estudada de quem não quer dar nas vistas, mas fazia questão de passar tantas vezes que, se ela tivesse alguma curiosidade geográfica, já saberia de cor o meu itinerário. Certa tarde, ganhei coragem e resolvi abordá-la. Aproximei-me com aquele andar de marinheiro que imagina ter conquistado todos os portos do mundo. Disse-lhe:

- Olá! Estás bem?

Uma frase simples, é certo, mas que me pareceu de uma audácia extraordinária.

Ela respondeu:

 - Estou. E tu?

Naquele instante, senti que tinha encontrado o caminho marítimo para a felicidade.

- Também. Ando por aqui…- era uma resposta brilhante. Um verdadeiro tratado de sedução. Andava por ali! Nem Colombo teria sido mais claro na apresentação das suas intenções. Ela sorriu e foi-se embora. Fiquei a vê-la afastar-se, convencido de que tinha corrido bastante bem. Afinal, não me tinha mandado embora, não tinha chamado o pai nem a mãe e ainda por cima sorrira. Na minha cabeça, já estávamos praticamente namorados. O problema era que, nos dias seguintes, ela continuava a tratar-me com a mesma simpatia com que se trata um conhecido que aparece ocasionalmente na rua. Eu, pelo contrário, interpretava cada gesto como uma mensagem codificada. Um bom-dia era uma brisa favorável. Um sorriso, maré cheia. Uma conversa de dois minutos era uma viagem de longo curso. E quando me dizia adeus, eu ficava com a sensação de que a minha embarcação tinha acabado de perder o rumo. Os meus amigos achavam-me um caso perdido. Diziam que eu tinha mais pose de marinheiro do que experiência de navegação. Eles tinham razão. Eu era um adolescente que não sabia muito bem o que fazer com as mãos quando estava perto de uma rapariga, que ensaiava conversas diante do espelho e que, quando finalmente tinha oportunidade de falar com a mulher dos seus sonhos, acabava invariavelmente a dizer disparates. Mas havia uma coisa que ninguém me podia tirar, a persistência.

Pela indiferença daquele porto seguro continuei a navegar, por ruas, jardins, passeios, bailes e festas. Sempre de olho no horizonte, à procura de um sorriso que me autorizasse a lançar âncora.

Nunca fui um grande conquistador. Também nunca descobri a fórmula para fazer uma rapariga apaixonar-se por mim. Mas aprendi que a adolescência é uma espécie de mar alto: há tempestades, naufrágios, algumas ilhas desertas e, de vez em quando, um porto onde nos apetece ficar para sempre.

Hoje, olhando para trás, dou comigo a pensar que aquele adolescente tinha uma coragem admirável. Não sabia onde estava, não sabia muito bem para onde ia, não tinha carta de navegação e, pior ainda, não conhecia minimamente os sinais de trânsito do amor. Mas fazia-se ao mar. E se me perguntarem quantas raparigas conquistei naquela época, a resposta é simples, não tantas como gostaria ou tenha tentado. Mas várias vezes naufraguei com dignidade! Afinal, eu era marinheiro. E um marinheiro nunca desiste do mar.

Só não percebi, durante muitos anos, que algumas raparigas não estavam à espera de um barco. Estavam simplesmente à espera que eu aprendesse a conversar sem parecer que estava a pedir autorização para atracar.



Sanzalando

30 de outubro de 2026

quando cheguei aqui

Quando cheguei a Portugal, vindo de Angola, trazia comigo uma meia dúzia de sonhos, uma quantidade razoável de ingenuidade e uma certeza absoluta, estava apaixonado.

O problema é que eu conhecia muita geografia teórica de Portugal e quase nada da geografia dos meus sentimentos.

Em Angola, na minha cidade, que uns teimam em chamar de mato, sabia orientar-me. Conhecia as ruas, os bairros, os atalhos, os caminhos para a praia e até aqueles sítios onde era melhor não passar quando o sol começava a esconder-se. Mas em Portugal era outra conversa. Não conhecia as ruas, não conhecia os transportes, não conhecia os costumes e, pior ainda, não conhecia ninguém que me pudesse explicar onde raio ficava o amor. Porque o amor, naquela idade, tinha uma morada. Eu é que não a sabia.

Saía de casa com a determinação de um explorador à procura de uma civilização perdida. Só que, em vez de bússola, levava um papelinho com dois ou três nomes de ruas e uma vaga indicação de que era por aqueles lados. Conversas de antigamente que contava dos amigos que tinha quando calhava vir cá de férias. Eu até sabia os nomes deles. Uma vaga ideia da zona, mas naquele tempo em que ela contava eu não fazia ideia que um dia tinha que ir às páginas amarelas da memória buscar uma morada. Aquilo que eu sabia era pouco, mas para um adolescente apaixonado era praticamente um mapa militar.

Comecei a andar pelas ruas. Olhava para as montras, para os cafés, para as paragens dos autocarros e para todas as raparigas que se cruzavam comigo. Algumas olhavam-me de volta. Eu interpretava aquilo como um sinal do destino. Devo estar perto e elas sabem. Outras nem sequer reparavam na minha existência, mas eu atribuía a culpa à iluminação pública ou às sombras das árvores que naquela zona eram grandes. Havia ainda o problema dos nomes das ruas. Em Angola, eu sabia onde estava. Em Portugal, uma rua podia chamar-se de Benfica, outra de Uruguai, outra de Avenidas Novas. Parecia que tinham distribuído nomes pelo território sem qualquer preocupação em facilitar a vida aos recém-chegados.

Perguntava a um transeunte:

- Desculpe, sabe onde fica esta rua? - e mostrava um papelinho onde tinha rabiscado o que eu me lembrava da tal de páginas amareladas da memória.

O homem leu, olhou-me de alto abaixo, explicava-me com uma naturalidade impressionante:

- Vai sempre em frente, vira à esquerda, depois à direita, sobe a calçada e encontra uma praça. É logo ali.

Eu agradecia, mas ficava com vontade de lhe perguntar se não havia uma maneira mais simples de chegar lá. E lá ia eu. Subia, descia, atravessava praças, passava por igrejas, lojas e cafés. Começava a conhecer Lisboa à força de andar perdido. Se alguém me perguntasse onde ficava determinada rua, eu já podia responder com segurança:

- Não sei, mas já passei lá umas quatro vezes hoje, por isso deve se por aqui.

O meu sentido de orientação era tão desenvolvido que conseguia perder-me até em ruas onde já me tinha perdido no dia anterior. Mas havia uma coisa que me mantinha motivado, a possibilidade de a encontrar. Às vezes imaginava que ela ia aparecer de repente, saída de uma esquina, com aquele sorriso que me fazia esquecer que estava em Portugal, em Angola ou em qualquer outro lugar do planeta. E eu, naturalmente, teria uma entrada triunfal. Na realidade, ensaiava mentalmente o encontro.

- Olá! Que surpresa! - diria eu. Não, demasiado banal.

- Então, aqui?! - como se eu não andasse dias à procura dela

Ridículo. Afinal, ela estava na cidade dela, ela tinha nascido por aqui e eu é que andava feito turista, detetive ou em Romeu à procura da sua Julieta.

- Há quanto tempo! - ainda pior, porque talvez ela já nem soubesse quem eu era.

Depois destes ensaios todos lá voltava eu para casa, a pé, perguntando sempre a alguém, mostrando a minha morada escrita em letra desenhada para não me perder nesse regresso. 

Eu já conhecia aquela zona de Lisboa melhor que a minha cidade. Mas ou a memória me tinha atraiçoado ou então ela me tinha enganado contando estórias de férias inventadas. Eu nunca podia acreditar que ela faria uma coisa dessas. Eu podia fazer-lhe, mas ela nunca. Punha o meu pescoço na guilhotina por ela.

Eu continuava a andar todos os dias com mapas desenhados à noite, vasculhando as minhas memórias, as conversas que tinha com o pai ou a mãe dela. Eu andava à procura sem destino desenhado. Era rumo traçado no mapa da memória que colava no que tinha à frente dos olhos.

A minha vida amorosa era, portanto, uma espécie de serviço de transporte pedestre, muitas voltas, várias paragens e nenhuma garantia de chegar ao destino.

Hoje, olhando para trás, percebo que naquele tempo não estava apenas a aprender as ruas de Portugal. Estava a aprender a viver num país que me era estranho, a descobrir pessoas, hábitos, palavras e maneiras de estar que me eram totalmente diferentes. Ou eu é que era diferente e tratado de modo diferente. Aqui não tinha machimbombo, aqui tinha metro que era andar assim debaixo da terra de comboio. Aqui tinha ladeira e não havia subidas, alcatrão era às vezes e outras era assim pedra ao lado de pedra com carril de comboio de uma só carruagem a andar e lhe chamavam eléctrico e a gente bem que sabia porque ele tinha antena que ligava num fio lá em cima e tocava campainha que parecia era sino da escola. Aquela semana foi instrutiva. Descobri o Jardim Zoológico mas me disseram que tinha de pagar para entrar. Na minha terra não era preciso e nem tinha muro à volta. Essa semana foi marcante porque até fiz anos nela.  E, sobretudo, descobri que a saudade de Angola podia viajar comigo, dentro da mala, mas que o coração tinha uma capacidade extraordinária de arranjar espaço para novas aventuras. Nunca cheguei a perceber se encontrei Portugal à procura dela ou se encontrei o meu lugar em Portugal por causa dela. Sei apenas que caminhei muito.

Gastei sola de sapato, pouco dinheiro em transportes e uma quantidade de energia que hoje só consigo reproduzir com ajuda médica. E tudo por amor! Há quem atravesse oceanos para descobrir novas terras. Eu atravessei um oceano para descobrir Portugal e depois percorri metade da cidade à procura de uma rapariga.

O mais engraçado é que, naquela altura, se alguém me perguntasse onde ficava o meu destino, eu responderia sem hesitar:

- Não sei muito bem. Mas dizem-me que ela costuma andar por ali.

Afinal, vim de Angola sem conhecer Portugal, mas já trazia uma coisa perfeitamente definida: sabia muito bem onde queria chegar. Só não sabia como lá chegar. E, convenhamos, para um adolescente apaixonado, isso já era uma enorme vantagem. Hoje tenho setenta anos e continuo convencido de que o primeiro GPS que inventaram foi o coração. O problema é que, naquela idade, não tinha atualização de mapas, não avisava das curvas perigosas e, sobretudo, não recalculava a rota quando a rapariga não morava naquele sítio.

Mas que me fez conhecer Lisboa... lá isso fez!



Sanzalando

29 de outubro de 2026

Esta Música tem uma História 77 - Benito di Paula - Charlie Brown - K'arranca às Quartas 138


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Crónica de João Portelinha da Silva (43) - K'arranca às Quartas 138


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (35) - K'arranca 138


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Crónica 125 - K'arranca às Quartas 125


Sanzalando

Os meus 70 anos… em publicidade enganosa!

Há idades que se fazem em silêncio, com um bolinho, umas velas e meia dúzia de familiares a perguntar se ainda temos espaço para mais uma fatia. E depois há os 70 anos. Setenta! Uma idade respeitável, que já não se comemora propriamente - inaugura-se, de preferência com cobertura radiofónica e testemunhas abonatórias. Foi isso que eu tentei fazer. Inaugurar uma parte nova de mim. Mas...

Eu, que sempre tive uma relação cordial com os aniversários, embora não veja grande mérito pessoal em sobreviver ao calendário, julgava que o meu septuagésimo passaria sem grandes sobressaltos. Afinal, já tinha feito tanta coisa na vida que chegar aos 70 parecia apenas que ia fazer mais uma operação de rotina. Sem anestesista, sem bisturi e, sobretudo, sem necessidade de chamar a família inteira, coisa simples só para manter a mão.

Mas não contava com a Cristina Vidigal.

A Cristina, pelos vistos, achou que eu merecia uma celebração a outra altura da circunstância. E resolveu preparar-me uma surpresa no meu programa de rádio. 10 anos depois da 1ª super grande. Só que, conhecendo-me talvez melhor do que eu próprio, percebeu que, se me dissesse ao que vinha, eu ainda arranjaria maneira de fugir, alegando traumas, enredos e outros nãos, uma reunião urgente ou uma súbita necessidade de mudar os microfones.

Vai daí, montou uma operação de inteligência emocional com requintes de produção radiofónica.

Camuflou a surpresa como publicidade, com a Isabel Costa e o José Nunes!

Ora eu, homem do bisturi e da rádio, fui apanhado por um truque publicitário. Logo eu, que já ouvi de tudo, desde anúncios a detergentes que lavam mais branco até promessas políticas que lavam praticamente a história toda! Um flash e eu apagava. Outro e idem. Desculpe lá que a publicidade tem que passar, disse a directora, a boss. E lá entrou o anúncio.

Lá estava eu, convencido de que vinha aí mais um intervalo comercial, desses em que uma voz nos recomenda um produto de que não precisamos, mas que, depois de tanta insistência, quase sentimos obrigação de comprar. E, de repente, em vez de um detergente, apareceu a vida.

Começaram a chegar vozes. Amigos. Família. Gente querida que, sem eu saber, tinha sido recrutada para aquela conspiração sentimental. Cada um trazia os seus parabéns, uma palavra amiga, uma recordação, uma manifestação de carinho.

E eu, que julgava estar a trabalhar, dei comigo a ser o protagonista de uma emissão que não tinha preparado, não tinha ensaiado e, pior ainda, para a qual não tinha sequer estudado o alinhamento.

Na rádio, quando alguma coisa corre mal, temos sempre um recurso: baixamos o som, mudamos de faixa, metemos uma música e fingimos que estava tudo previsto. Mas como é que se baixa o som à emoção? Como é que se muda de faixa quando a faixa é feita de pessoas que gostam de nós? E como é que um homem, aos 70 anos, mantém a compostura quando descobre que há amigos e familiares dispostos a entrar no seu programa só para lhe dizer que gostam dele? Não há mesa de mistura que resolva isto. Nem botão de mute que valha!

A Cristina Vidigal conseguiu uma coisa extraordinária: transformou um intervalo publicitário num intervalo de vida. E, convenhamos, é difícil encontrar publicidade com melhor conteúdo. Não havia desconto de 20%, oferta de portes grátis ou a famosa promoção de leve três e pague dois. Havia carinho. E esse, infelizmente para os departamentos comerciais, ainda não se vende ao quilo.

Fiquei surpreendido, comovido e, devo confessar, um bocadinho desconfiado. Afinal, aos 70 anos, já sabemos que as surpresas tanto podem ser boas como trazer uma conta para pagar. Mas esta não trazia factura. Trazia afecto. E foi aí que percebi que fazer 70 anos tem algumas vantagens. A primeira é que já podemos esquecer certas coisas sem que ninguém nos leve muito a mal. A segunda é que podemos repetir histórias, porque há sempre alguém que não se lembra delas, ou que finge não se lembrar para nos poupar. E a terceira, talvez a mais importante, é descobrir que, ao longo da vida, fomos deixando pessoas pelo caminho que continuam connosco. Algumas estão perto. Outras estão longe. Algumas aparecem todos os dias. Outras surgem inesperadamente, através de uma mensagem, de uma chamada ou de uma voz que entra na rádio disfarçada de publicidade. E há quem, como a Cristina, tenha a delicadeza e a imaginação de juntar tudo isso numa surpresa que nos apanha desprevenidos.

Por isso, Cristina, muito obrigado.

Conseguiste enganar um homem que passou uma vida a trabalhar no arame e sem rede, com sangue e também com som, a desconfiar de ruídos estranhos e a tentar perceber o que se passa do outro lado do microfone, dos cabos não blindados, das equalizações, do outro lado da quase sem vida. Aos 70 anos, descobri que o verdadeiro ruído de fundo da vida é feito das vozes de quem gosta de nós. E isso, minha amiga, é uma produção de luxo!

Quanto aos meus 70 anos, continuo a achar que são um exagero. Setenta é muita coisa para uma pessoa só. Se me tivessem avisado quando fiz 20, teria pedido para dividir em prestações, com juros baixos e possibilidade de reforma antecipada. Mas já que cá cheguei, cá estou. Com histórias para contar, microfones para ligar, algumas teimosias ainda em funcionamento e a firme convicção de que a idade é apenas um número, embora no meu caso, seja um número que começa a ocupar bastante espaço no bolo.

E termino com uma recomendação aos meus leitores e ouvintes: desconfiem sempre da publicidade. Nunca se sabe se, por trás de um anúncio aparentemente inocente, está um amigo, uma família inteira e uma Cristina Vidigal prontinha a fazer-nos chorar em directo. Aos 70 anos, descobri que a melhor publicidade é aquela que não vende nada: lembra-nos apenas que somos ricos em pessoas. E, se me permitem, essa é a única campanha em que quero continuar inscrito. Mesmo que já não tenha idade para receber amostras grátis. Mesmo que já não tenha idade para receber amostras grátis.

4732 mensagens no Facebook
35 no Instagram
22 no SMS ( sabiam que ainda há?) e os telefonemas incontáveis
Bué no Whatsapp que não deu nem para contar porque me perdi a meio.
70 anos de riqueza.
Obrigado @seguidores
José Nunes Ana Ana Quelhas, Juan Rachadell, Victor Hugo, Sandra Padeiro, Ricardo Gomes, Juvenal Mourinho, Elson Martins - Personal TrainerIsa Silva, Diogo Filipe Marques, Inês Miguel, Luis Gonçalves, Nuno Vieira, Ricardo Carranca, Joel Gonçalves, Isabel Costa José Batista, Cláudia Minhalma, Mana Isabel Guimarães Marques e se faltarem nomes aqui, eles estão no meu coração.


Sanzalando

28 de outubro de 2026

2ª hora do K'arranca às Quartas - De que tens medo?





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 28 de Outubro tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Hoje foi um programa totalmente diferente porque diferente também foi o dia

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.

 Na segunda hora foi falar de Medo, porque dia 30 há um evento aqui em Portimão, "II Encontro Artes, Comunidade e Emoções" com o mote 'De que tens medo?'

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no que fazer para cair na felicidade ou suportar esta vida que é só uma


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Programa 138 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 28 de Outubro tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Hoje foi um programa totalmente diferente porque diferente também foi o dia

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.

Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este hoje teve convidados e festa. Ouçam e digam-me que tal foi.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é en que falei  do aniverário e era do meu.
 Esta Música tem uma história com Benito di Paula e Charlie Brown, com a colaboração de José Leite
Não hoje houve Os Tesourinhos Musicais
Carlos Osório hoje falou dos 100 anos dos Bombeiros 
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas continuou a falar da poesia Guiné-Bissau
 Na segunda hora foi falar de Medo, porque dia 30 há um evento aqui em Portimão, "II Encontro Artes, Comunidade e Emoções" com o mote 'De que tens medo?'

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no que fazer para cair na felicidade ou suportar esta vida que é só uma


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

27 de outubro de 2026

Em memória de um amigo, aprendiz de sonoplasta e pianista dos Mini-Nota

Tem pessoas que tocam na nossa vida e deixam marcas que o tempo não consegue apaga como o Ermelindo Sena, que, mesmo sendo tímido por natureza, deixa uma presença que continua a fazer-se ouvir depois de se calar.

Conheci o Ermelindo na década de 70, quando foi meu aprendiz de sonoplasta no Rádio Clube de Moçâmedes. Eram tempos de rádio, de experiências, de descobertas e de sonhos. A rádio tinha os seus mistérios, os seus botões, os seus microfones e aquela magia de transformar sons em emoções. E o Ermelindo foi aprendendo a dominar esse mundo, com a paciência de quem não precisava de levantar a voz para mostrar que estava presente. Aliás, tinha vezes que ele falava e ninguém lhe ouvia. A timidez ficava-lhe com o som e deixava passar o sorriso. Era tímido, sim. Daquela timidez genuína, que não se aprende nem se representa. Uma timidez que, por vezes, o fazia falar pouco, mas que não o impedia de sentir muito. 

E depois havia o piano. O Ermelindo era pianista dos Mini-Nota. Quer dizer organista porque ele tocava era órgão que tem o som de piano mas não é piano. Acho tem um circuito lá dentro, tipo gente minúscula que toca tudo. E talvez seja essa uma das mais bonitas contradições da sua personalidade, o homem que a timidez convidava ao silêncio encontrava na música uma maneira de dizer aquilo que as palavras, tantas vezes, não conseguiam exprimir.

Ao piano, os dedos falavam por ele. As notas ganhavam voz, as melodias abriam caminhos e aquele puto discreto mostrava-nos que a sensibilidade nem sempre se anuncia. Às vezes, sentava-se diante de um teclado e deixava que a música faça o resto que lhe faltava.

Hoje, a notícia da sua morte traz-nos uma tristeza difícil de traduzir. Depois de uma doença prolongada, o Ermelindo partiu. E, perante a partida de alguém que conhecemos desde tão longe, percebemos como a vida tem esta maneira cruel de nos devolver ao passado, revemos rostos, recordamos conversas, escutamos sons que julgávamos esquecidos e encontramos, dentro de nós, pessoas que nunca deixaram verdadeiramente de estar presentes.

Volto, por isso, à década de 70. Volto à rádio, ao aprendiz que procurava aprender, ao companheiro de jornada, ao pianista dos Mini-Nota. Volto a um tempo em que talvez não soubéssemos que aquelas horas, aparentemente tão comuns, haveriam de se transformar em memórias tão preciosas.

Na altura, tínhamos o futuro pela frente e não imaginávamos quantas despedidas íamos ter pela frente. Vivíamos sem pensar demasiado no fim das coisas, porque a juventude tem essa generosidade: faz-nos acreditar que haverá sempre mais um programa, mais uma música, mais um encontro. Mas a vida não nos concede todas as repetições que desejamos.

Hoje, Ermelindo, não posso ensinar-te mais nada sobre sonoplastia. Também já não podemos conversar sobre a música, sobre os sons ou sobre os silêncios. O teu percurso chegou ao fim, e custa aceitar que alguém com quem partilhámos uma parte da vida passe a existir apenas na lembrança.

Mas há uma coisa que a morte não consegue fazer que é apagar aquilo que vivemos.

Continuas presente nas memórias de quem te conheceu, na história dos Mini-Nota, nos sons de uma época e, muito particularmente, na minha própria história. Foste meu aprendiz, mas a passagem dos anos ensinou-me que estas relações nunca têm apenas um sentido. Quem ensina também aprende. E quem acompanha alguém no início de um caminho acaba por receber, muitas vezes sem dar por isso, lições que guarda para sempre.

A tua timidez nunca foi ausência. Foi apenas outra maneira de estar no mundo. E talvez seja por isso que a tua partida nos deixa agora um silêncio tão grande.

Descansa em paz, Ermelindo Sena.

Que a música te acompanhe nesta última viagem. Que encontres a serenidade que mereces. E que, onde quer que estejas, haja sempre um piano à tua espera e alguém disposto a escutar. Hoje, a rádio perde uma pessoa discreta, a música perde um pianista e eu perco alguém que fez parte da minha história. Fica a saudade. Fica a amizade. Fica a memória de um tempo que já não volta, mas que continuará vivo enquanto houver quem o recorde. E, quando o silêncio parecer demasiado grande, talvez possamos fechar os olhos e imaginar que o Ermelindo voltou a sentar-se ao piano.

E que, por instantes, a música nos devolve aquilo que a vida nos levou.

Até sempre, Ermelindo.


Sanzalando