A fita do gravador de cassetes estava a reproduzir o Rock da Stock que tinha gravado directamente do rádio, enquanto a névoa característica do Porto insistia em entrar pelas frestas da janela do lar onde morava com uma outra dúzia de deslocados.
Em 1980, o Porto não era uma cidade para fracos de coração, nem para estudantes de Medicina sem um sentido de humor à prova de aulas de Anatomia às oito da manhã.
Eu tinha vinte e poucos anos, o peito cheio de sonhos e a cabeça cheia de planos que raramente sobreviviam ao primeiro copo de vinho. A Medicina era o meu objetivo supremo, uma espécie de farol luminoso que me atraía com a promessa solene de salvar vidas, vestir um fato branco de bom corte e olhar para radiografias com um ar de quem decifra os segredos do universo. Eu ia ser um daqueles que sabe tudo só de olhar.
O problema é que, entre a teoria e a prática, metia-se a vida. E a vida no Porto, naquele ano de 1980, era incomparavelmente mais sedutora do que os livros infindáveis de Anatomia Humana, Patologia e outras ias que ainda não eram artificiais.
Lembro-me perfeitamente das semanas de campanha para a Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina. Enquanto alguns colegas encaravam a política académica com a gravidade de um conselho de ministros em plena crise governamental, eu descobri que ser jovem e ter piada era uma excelente ferramenta diplomática. Fazer uma piada bem metida no momento certo valia mais do que dez panfletos doutrinários impressos numa policopiadora (stencil?) de qualidade duvidosa. Na verdade, suspeito que metade dos votos que recebi na altura não foram pela minha visão para o associativismo, mas porque devo ter prometido tentar garantir uma distribuição mais equitativa de rissóis e croquetes no bar da faculdade.
A minha rotina dividia-se num equilíbrio precário: de manhã, tentava memorizar a fisionomia do plexo braquial; à tarde, debatia a cotação das francesinhas; à noite, discutia-se a revolução, a música, os amores impossíveis e as notas que teimavam em não subir. Os meus cadernos de apontamentos eram um monumento ao surrealismo, nas margens onde deviam estar esquemas do sistema nervoso central, havia caricaturas de professores, rascunhos de crónicas que nunca cheguei a enviar para o jornal e poemas dedicados a meninas que nem sabiam que eu existia.
Havia qualquer coisa de profundamente mágico naqueles dias cinzentos da Invicta. A humidade entranhava-se-me nos ossos, mas a juventude tratava de aquecer o resto. Olhava para os meus colegas mais dedicados, aqueles que pareciam ter nascido com um estetoscópio ao pescoço e sentia uma ponta e admiração misturada com um enorme alívio por não conseguir ser como eles. Eu queria ser médico, sim, mas não queria que a Medicina engolisse o rapaz engraçado que gostava de ver a vida a acontecer fora do anfiteatro e das enfermarias que cheiravam a tintura de iodo ou mercuruiocrómo.
Afinal de contas, a Medicina podia ser o sonho que me trouxera até àquelas alamedas frias do Hospital de São João, mas a vida com o seu barulho, a sua desordem, a sua ironia e as suas noites infinitas essa sim, era o meu verdadeiro lugar. E, olhando para trás, acho que foi exatamente essa vida que me ensinou tudo o que a faculdade não conseguia pôr nos livros.
E com tudo isto passaram-se 46 anos, mais coisa menos coisa, não fui o que pensei, mas cheguei lá bem perto e ainda tenho a vida que vivo e que é o meu verdadeiro lugar.





