Na minha cidade de imaginação é verão e verão comigo é brincar na praia. Brincar na praia é o único desporto radical onde um indivíduo de mais de 40 anos pode passar três horas de rabo para o ar, a cavar um buraco sem nexo, e ainda ser considerado uma pessoa normal pela sociedade em redor e mais longe também.
Há uma mística na areia que suspende o juízo crítico. Mal pomos o pé na areia quente, o suficiente para estrelar um ovo, obrigando-nos àquela dança caricata e tribal de quem pisa brasas até chegar à toalha, o nosso QI regride alegremente para os seis anos de idade ou menos.
Tudo começa com a construção do Castelo. Nunca é apenas um castelo que tem um fosso a toda a volta, torres autossustentáveis embora toscas, fossos com ligação direta ao Atlântico e uma muralha capaz de deter a qualquer invasão anfíbia. Na Realidade é um monte de areia húmida que parece um pudim que correu mal, decorado com três beatas de cigarro e uma casca de ameijoa ou quitéta partida.
A tragédia grega acontece quando a maré sobe. Há sempre um momento de pânico coletivo quando a primeira onda lambe a fundação. É aqui que vemos homens feitos, licenciados e com contas para pagar, a tentar deter o oceano atlântico com uma pá de plástico amarela que custou 2 euros na loja do Camonano. O mar ganha sempre. O mar é o maior destruidor da engenharia civil.
Depois temos os clássicos das modalidades de praia, que deviam constar nos Jogos Olímpicos da Paciência: o futebol, um desporto desenhado para garantir que, a cada três jogadas, a bola acerta na nuca de uma senhora que está calmamente a ler o seu romance ou o jogador atropela uma criança que inconscientemente brinca à beira mar, e que tem como objetivo meter golos e pedir desculpa 47 vezes por hora. Ao que se segue o mergulho estilo croquete, aquele momento em que decidimos entrar no mar, mas a água está a uma temperatura que faz os pinguins pedirem um aquecedor. Ficamos ali, a molhar os tornozelos, a tentar convencer o cérebro de que "depois de entrar, está-se bem". Não está. É mentira. e terminamos com a apanha da concha em que caminhamos quilómetros com o pescoço dobrado, como se estivéssemos à procura de uma nota de 50 escudos, apenas para trazer para casa um saco de pedras calcárias que, no dia seguinte, cheiram a peixe morto e acabam no lixo.
A brincadeira acaba sempre com o pior inimigo da humanidade, a areia acumulada. Brincar na praia implica aceitar que a areia é agora um novo membro da família. Ela vai estar no carro, vai estar nas orelhas, vai estar dentro da sanduíche de fiambre e, misteriosamente, vai aparecer nos lençóis da cama em dezembro.
No fundo, brincar na praia é um exercício de humildade. Ficamos queimados pelo sol em lugares onde nem sabíamos que tínhamos pele, bebemos mais água salgada do que seria medicamente recomendável e acabamos exaustos. Mas nada bate a satisfação de olhar para um buraco gigante na areia e pensar: "Fui eu que fiz isto."
