Há dias em que suspeito que a língua portuguesa está a ser vítima de um daqueles esquemas de burla em que ninguém sabe muito bem como começou, mas, quando dá por isso, já perdeu a carteira, o relógio, a dignidade e o conhecimento. Antes de qualquer juízo de valor, pare para pensar. A cultura que me foi transmitida é solida e a transmitiram-me pela língua pelo que não é assim fácilmente roubada. Mas a dos meus filhos, netos e filhos deles será?
Vai-se aos poucos. Sem violência. Ninguém nos aponta uma arma à cabeça e diz: A partir de hoje, deixe de dizer reunião e passe a dizer meeting. Não. Seria demasiado evidente. O processo é muito mais elegante: começa-se por um coffee break, passa-se por um deadline, marca-se um briefing, faz-se um follow-up, entra-se num workshop e, quando finalmente se chega a casa, já ninguém sabe se foi trabalhar ou participar num congresso internacional sobre a própria existência.
O mais curioso é que nós aceitamos tudo isto com uma serenidade admirável. Nem um único comentário contra. Simples e fácil.
Antigamente, quando alguém queria dizer que tinha uma ideia, dizia: Tenho uma ideia. Hoje tem um insight. Se quer dar uma opinião, faz um feedback. Se quer começar um projecto, faz um kick-off. Se correu bem, foi um success. Se correu mal, foi um challenge. E se não fazemos a menor ideia do que estamos a fazer, dizemos que estamos a explorar novas oportunidades.
A língua portuguesa, entretanto, está ali ao canto, sentada numa cadeira, a olhar para nós com aquele ar de avó que já percebeu tudo, mas não quer estragar o almoço.
E não se trata de declarar guerra ao inglês. O inglês é uma língua magnífica. Tem palavras úteis, música própria e uma capacidade extraordinária para transformar três sílabas numa coisa que parece uma estratégia empresarial de 40 milhões de euros. O problema não é usarmos inglês quando precisamos dele. O problema é usá-lo quando temos português e, muitas vezes, português melhor.
Porque uma palavra não é apenas uma palavra.
Dentro de cada palavra há uma pequena memória. Há maneiras de pensar, de sentir, de contar o mundo. Há séculos inteiros escondidos numa expressão. Quando dizemos saudade, não estamos simplesmente a transmitir uma informação: estamos a convocar uma parte da nossa história. Quando dizemos desenrascanço, levamos connosco uma certa maneira portuguesa de sobreviver ao absurdo. Quando dizemos amanhã, desassossego, miúdo, serão, alvoroço, quinquilharia ou lamúria, estamos a usar pequenas cápsulas de memória colectiva.
Uma língua é também o eco daqueles que já cá não estão.
É a voz dos avós que não aprenderam online, mas sabiam explicar a vida inteira com meia dúzia de palavras. É a voz dos livros, das cartas, dos pregões, das cantigas, das histórias contadas à mesa. É Camões, Eça, Pessoa, Sophia, Garrett e é também o homem que, há cem anos, gritava da janela: Ó Maria, põe a sopa na mesa!
Tudo isso vive dentro da língua.
E nós, com a maior das naturalidades, vamos entregando bocadinhos.
Já quase ninguém marca uma reunião: marca uma call. Já não fazemos uma pausa: fazemos um break. Já não damos os parabéns: damos props. Já não dizemos que algo está na moda: está trending. E há pessoas que, se lhes perguntarmos simplesmente Como estás?, parecem estar à espera que a pergunta venha acompanhada de um formulário em inglês.
O mais engraçado é que muitas destas palavras nem sequer nos tornam mais modernos. Apenas nos tornam mais complicados.
Porque dizer praz» é uma palavra pequena, directa, eficiente. Dizer deadline faz parecer que estamos numa sala envidraçada, perante sete pessoas chamadas Kevin Klan, a decidir o futuro da humanidade.
Vamos conversar sobre isto é perfeitamente compreensível.
Vamos fazer um brainstorming já implica, no mínimo, post-its coloridos.
Talvez o nosso problema não seja a invasão do inglês. Talvez seja a nossa vontade de parecer outra coisa.
E, enquanto tentamos parecer modernos, esquecemo-nos de que há uma forma muito mais sofisticada de modernidade: saber quem somos.
Não precisamos de fechar a língua portuguesa numa redoma, como uma peça de museu. As línguas sempre mudaram, sempre roubaram palavras umas às outras, sempre inventaram, adaptaram e transformaram. Uma língua viva não é uma língua pura. É uma língua que respira. Lemos Luandino, Mia Couto, Amado, Ondjaki, Peixoto, Lídia, Teolinda, Afonso ou Couceiro e vemos que ela está viva, crescida e acrescida.
Mas respirar não é engolir tudo.
Podemos aprender outras línguas sem desaprender a nossa. Podemos dizer software quando não há uma boa alternativa, mas também podemos continuar a dizer programa. Podemos usar marketing, se for mesmo necessário, sem esquecer que divulgação e comunicação continuam a existir. Podemos fazer downloads sem fazer downloads à nossa identidade.
Porque o verdadeiro perigo não está em uma ou outra palavra inglesa.
Está em começarmos a achar que português é pouco.
Pouco moderno. Pouco elegante. Pouco profissional. Pouco sofisticado.
E isso, convenhamos, seria a maior das nossas derrotas.
A língua que atravessou oceanos, que deu palavras a outros povos, que foi falada em quatro continentes e que conseguiu sobreviver a reis, impérios, terramotos e ministros não precisa de nós para sobreviver.
Mas nós precisamos dela para nos lembrarmos quem somos.
Por isso, da próxima vez que alguém disser que tem um meeting, talvez possamos perguntar, com toda a inocência:
É uma reunião?
E quando nos responderem que sim, podemos sorrir.
Não por purismo.
Por resistência.
Porque às vezes defender uma língua começa simplesmente por continuar a usá-la. E, se possível, com todas as palavras bonitas que ela ainda tem antes que alguém as transforme num upgrade.















