O parque infantil da minha cidade, que em tempos pareceu um
recreio de todas as escolas, ganhou um eco tão grande que agora basta um espirro para assustar os
pombos, andorinhas e borboletas durante meia hora.
Mesmo assim, quando a minha cidade existia de papel passado e assinatura reconhecida, havia dias estranhos.
No verão, que nela era em Março que até tinha Mar e Março nos cartazes por toda a cidade, chegavam carros de matrícula ASB. E a gente sorria ao ver sair deles gente branquinha que acho nunca tinham visto sol até naquele dia que chegavam na minha cidade
As ruas enchiam-se de abraços, malas,
crianças aos gritos e avós a distribuir comida suficiente para alimentar um
batalhão. Era a festa de família que ali tão perto se viam de ano a ano, à torreira do sol e no salgado do mar.
Durante quinze dias a cidade voltava a
acreditar que podia ser uma cidade de Cê grande.
Os cafés faziam horas extraordinárias e as esplanadas passavam a ser pequenas.
A padaria esgotava o pão. A Quintanda deixava cedo de ter frescura verde e fruta de gosto.
Ao fim da tarde os bancos de jardim tinham fila de espera. A avenida virava mar de gente que punha as palavras em dia num interminável gosto de estar. Fazia-se balanço da vida e até o relógio da praça parecia mexer um dos ponteiros, só para não parecer completamente desinteressado.
Mas Abril aproximava-se com a delicadeza de um carteiro que traz más notícias e as malas voltavam às bagageiras, os abraços ficavam mais demorados e os beijos secavam as lágrimas das promessas feitas. Para o ano há mais verão na minha cidade, dizia-se quando ela existia de vida passada. O tempo estava escondido porque se dizia havia tempo de sobra.
Nesse tempo a cidade não perdia habitantes apesar de haver ausências.
Agora a ausência virou constância e a cidade não existe de certidão e papel carimbado, ela é mais uma cidade de memória, com memórias nas conversas levadas pelas brisas de reencontros furtuitos em bancos de jardim de certa idade madura.
Mas eu tenho saudade dos bancos de madeira do jardim onde os meus avós se sentavam nas tardes de domingo. Eu tenho saudade dos escorregas do parque onde todos os recreios eram brincadeira de escola. Eu tenho saudade dos tempos em que o meu corpo não conhecia a força da gravidade e o meu cérebro não ouvia o chamar da terra.
A minha cidade tem ruas mas não as ruas que eu corri de sandálias e calções. Hoje as ruas são passagens de memória, becos de recordações, flashes de sonhos. Hoje a minha cidade não tem cheiro, não sabe a maresia nem tem brisa carregada de areia amarela do deserto.
O tempo pode levar habitantes, mas nunca conseguirá levar o coração da minha terra.
Esse continua sempre à espera de quem
regresse… nem que seja só para matar saudades e dizer, como todos dizem, antes
de voltar à estrada:
- Um dia ainda venho para cá viver.
O tempo sorri.
Já ouviu essa frase milhares de vezes.
Mas, no fundo, até ele gostava que um dia
fosse verdade.










