Há qualquer coisa de profundamente suspeito nos almoços da minha cidade a que não posso ir. Não digo isto com mágoa, digo com experiência. Porque um almoço ao qual comparecemos é apenas um almoço. Mas um almoço ao qual faltamos… esse transforma-se imediatamente numa epopeia gastronómica, social e até espiritual.
Vamos por partes e antes que me parta todo.
Tudo começa com o convite: “Aparece, vai ser bom.” A palavra “bom” é o primeiro indício de que estamos perante um evento que, na nossa ausência, evoluirá para banquete digno daquele encontro que sempre foi impossível. Nós, ingénuos, acreditamos e fazemos filmes, como pintamos cenários e acreditamos na nossa capacidade imaginativa. Até que surge aquele compromisso inadiável, o dentista, a reunião, ou pior: a necessidade de ficar em casa a fazer absolutamente nada, o que, como todos sabemos, é uma tarefa exigente. Mas na verdade são dois programas de rádio que sem mim simplesmente deixam de existir. Mania de ser imprescindível.
E assim vamos falhar o almoço.
E pronto. A partir daí, a nossa imaginação entra novamente em modo cinematográfico.
O arroz de pato, que provavelmente estava competente e honesto, passa a ser descrito como “o melhor arroz de pato desde que há memória e patos”. A sobremesa — um pudim — ganha contornos de revelação divina. “Aquilo derretia-se na boca!” Claro que derretia. Pudim tem essa tendência, mas dito assim parece que desafiava as leis da física.
E depois há o ambiente. Ah, o ambiente! “Foi uma animação pegada!”
Ninguém fala do tal possível impossível encontro. Contam coisas e fogem. Malandros a ver se perguntamos algo e depois ficam a rir de nós. Mas eu vou desperguntar sempre. Eles vão ter que me contar de vontade própria.
O mais intrigante é a solidariedade que se instala entre os que estiveram presente. Criam-se alianças, cumplicidades, histórias internas e silêncios profundos. Quando finalmente voltamos ao convívio, já há referências que não entendemos:
“Lembras-te do episódio do garfo?”
E nós, de fora, a acenar com a cabeça como quem percebe, mas por dentro a pensar: “Que garfo? O que é que um garfo pode fazer?”
Há também aquela pessoa que tenta ser simpática: “Para a próxima tens mesmo de vir.”
O que, na prática, significa: “Perdeste algo irrepetível e agora vais viver com isso.”
Mas a verdade é que há uma certa beleza nisto tudo. Os almoços a que não vamos ganham uma dimensão mítica que nenhum almoço real conseguiria atingir. Tornam-se melhores precisamente porque não estivemos lá para confirmar que o arroz podia estar um bocadinho seco e que alguém monopolizou a conversa durante quarenta minutos.
Talvez seja esse o segredo: a felicidade dos outros cresce um pouco mais quando não a testemunhamos diretamente. E a nossa curiosidade também.
Por isso, da próxima vez que não puder ir a um almoço da minha cidade, já sei o que fazer: nada. Ficar em casa, tranquilo, a imaginar que lá fora estão a viver o melhor almoço da história enquanto eu, com um simples prato aquecido no micro-ondas, tenho o privilégio raro de não ter de ouvir a história do tal garfo pela quinta vez.
Mas afinal de contas ela foi ou não. Mais tarde saberei!









