recomeça o futuro sem esquecer o passado

13 de maio de 2026

Livros - MAJORA (Anabela Quelhas) - K'arranca às Quartas 118


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Esta Música tem uma História 59 - O teu Baton - Herman José - K'arranca às Quartas 118


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Tesourinho Musical 93 - Cândida Branca Flôr - K'arranca às Quartas 118


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Crónica de João Portelinha da Silva (23) - K'arranca às Quartas 118


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Crónicas de Carlos Osório 17 - K'arranca às Quartas 118


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Crónica 105 - K'arranca às Quartas 118


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Programa 118 - K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 13 de maio de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Amor de Amizade

Hoje falámos do Capochinho Vermelho e dos livros de pano da MAJORA através das palavras de Anabela Quelhas

Hoje houve Esta Música tem uma história com a Cor do teu Baton, com Herman José, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Cândida Branca Flôr
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de Mia Couto
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos a toponimia da cidade e a existência AINDA de uma Rua 28 de Maio na cidade de Portimão  

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

vai ser como um dia eu pensei poderia ser.

Escrever por escrever é, muitas vezes, como tentar montar um móvel da pré-fabricado sem seguir o manual, termina-se com algo que não se parece em nada com uma estante, mas que tem uma personalidade admirável e, por obra do acaso, sobra um parafuso que decido guardar no coração, não vá um dia precisar dele.

Tantas vezes começou com uma caneta azul, da bic, que falhava e um guardanapo de papel folha simples aquele que se rasga só de se olhar com muita intensidade para ele e que às vezes está nas mesas numa caixinha com ranhura que faz lembrar o mealheiro dos tempos de criança, só com ranhura um pouco maior. Aqui para tirar e os outros era para pôr.

Quantas vezes não tinha a mínima ideia, mas em troca tinha uma grande vontade. Sentava-me à mesa, como ainda agora faço, só que já não de caneta na mão, e escrevia uma frase. A primeira que me viesse à cabeça. Um ovo estrelado parece o sol. Poético? Estado a fazer lembrar-me que tenho fome? Certeza ou dúvida? Como posso começar um romance com um ovo estrelado? Desenhei-o. Aos meus olhos era um ovo estrelado, aos olhos de quem poderia espreitar, se calhar era um borrão com um círculo no meio. O que tem um ovo a haver com um romance de amor, se calhar passado numa cidade tropical, se calhar em Paris, se calhar num simples lugar no meio de nenhures?

Olhava para a frase. Olhava para o desenho. e nada mais havia no papel. 

Continuei a escrever frases soltas. Algumas sem nexo, outras lembranças de passagens lidas já nem sei onde. 

E foi assim que tudo começou. É assim que tudo continua, com a diferença que já não há bic na minha mão, já não há guardanapo na caixinha nem desenhos a ocupar o tempo à espera da frase que pode dar início ao tal de romance. 

Ainda no tempo do guardanapo, tenho uma história de ter uma lista de frases escritas. Olhava para ela a ver se alguma me dava a tal ideia. Passa uma amiga, espreita e diz-me:

- Pedido de namoro? A resposta é não!

Não não é, disse-lhe com firmeza e se calhar até chateado. Agora estar a espreitar para um papel particular. Onde já se viu.  Logo ela continuou:

- Se é lista de convidados para uma festa não te esqueças de fulano que é meu namorado.

- Não. É a lista de compras! disse-lhe irritado e amachuquei o guardanapo de tal forma que ele se esfrangalhou em pedacitos.

Mas agora é diferente. No PC ou no telemóvel escrevo. às vezes palavras tão soltas que quase vão por wi-fi fora. E romance, nada! Não nasci para ser criador. Guardo palavras, algumas soltas e outras vadias, umas naufragas e outras circulam vagarosamente numa vagabundagem que até dá dó.

No final, escrever por escrever é esse acto de coragem. É permitir que as mãos corram mais rápido que o julgamento que alguém possa fazer ao espreitar para o guardanapo que agora pode ser tanta coisa, desde ecrán, tela, tablet, e-booker, ou mesmo uma folha de papel impressa. 

Mas nem rascunho de romance, nem um mini-conto. Ah, tenho milhentas palavras escritas de felicidade, de vontade, de está tudo bem, mesmo quando as palavras saem de forma desordenada. Tenho versos sem poesia. Tenho silabas sem palavras. Virgulas sem pontos. Tenho vontade. Mas um dia a tal frase sairá e tudo vai ser como um dia eu pensei poderia ser.



Sanzalando

12 de maio de 2026

eu na esplanada

Diz-se na minha terra que não há inverno, há cacimbo. É uma distinção semântica importante. O inverno é uma estação, o cacimbo é um estado de suspensão. É aquele momento do ano em que a cidade acorda dentro de um tubo de vapor de água frio e o ar decide que já não quer ser gás, quer ser líquido, mas sem o compromisso de se tornar chuva.

Ontem, cometi o erro romântico de querer tomar um café na esplanada. O boca de sapo podia estar a passar e eu queria acompanhá-lo com o meu olhar. Adolescente gosta de ver.

Sentei-me com a confiança de quem desafia a física. O empregado, com aquele olhar de quem já viu impérios caírem e clientes ficarem com reumatismo precoce, passou um pano pela mesa. Foi um gesto meramente simbólico. Dois segundos depois, a superfície da mesa brilhava novamente, acumulando uma película de água que nem lamela de laboratório que parecia decidida a reclamar o território.

Pedi um café. Quando a chávena chegou, vinha acompanhada de uma pequena nuvem privada e uma torre de fumo mais denso que o habitual.

Beber café no cacimbo é uma corrida contra a termodinâmica. Se bebes depressa, queimas a língua; se esperas um minuto, o café não só arrefece como ele dilui-se. O ar está tão saturado que a chávena começa a ganhar volume. É o único lugar do mundo onde o café rende por geração espontânea de humidade.

À minha volta, a fauna urbana tentava manter a dignidade. Havia o senhor de balalaica, que começou a crónica matinal como um lorde e, dez minutos depois, parecia que tinha atravessado o Atlântico a nado com a roupa no corpo. O linho e o cacimbo são inimigos mortais; o tecido absorve a neblina até que a pessoa pesa mais três quilos do que quando saiu de casa.

Depois há os óculos. Ah, os óculos no cacimbo! É o fim da visão periférica. Limpas a lente com o guardanapo que já é uma massa mole de celulose húmida, colocas os óculos e, na primeira expiração, o mundo desaparece num branco leitoso e meias denso que o próprio cacimbo. Desisti de ver. Passei a guiar-me pelo som das buzinas distantes e pelo tilintar das colheres nas chávenas vizinhas.

Mas há algo de profundamente desértico nesta teimosia. O sol pode estar escondido atrás daquela cortina cinzenta, o humidade pode estar a transformar o nosso pão numa esponja morna, mas a esplanada é sagrada. Ficamos ali, mergulhados na bruma, a fingir que não estamos a tiritar ligeiramente, comentando que hoje o tempo está mesmo fechado, mas ela vai passar não tarda..

No final, paguei e levantei-me. O meu lugar na cadeira ficou marcado como uma silhueta seca num deserto de humidade. Saí dali com o cabelo em modo empastado total e a alma lavada literalmente. No cacimbo, não se toma apenas um café; recebe-se um baptismo de orvalho, cortesia de uma cidade que, por uns meses, decide que quer ser Londres, mas com palmeiras e muito mais suor frio.

Fiquei em pé na esquina e o boca de sapo não passou.

Sanzalando

11 de maio de 2026

eu e o fim da rádio

Tinha 12 ou 13 quando fui no Rádio Clube oferecer o meu trabalho. Curiosamente aceitaram e lá durante uns dois meses eu fui aprendendo com os mais velhos numa aprendizagem de que é assim que se faz. Tirando a rádio só havia os jornais e revistas. Ah, também havia os documentários antes dos filmes no cinema., mas estes não eram em cima da hora, alguns até tinham teias de aranha no texto. Mas não é isto que me levou a sentar aqui e a pensar. O marulhar hoje está estranho porque o mar ora está revoltado, ora está calmo. Desconcentra-me.

Ouço dizer que o rádio está para morrer desde que a primeira televisão ligou um tubo catódico. Depois veio a internet, o streaming, os podcasts e até geladeiras que tocam música e têm ecran a dizer o que é que falta. Mas aqui vai uma verdade inconveniente que me ecoa no cérebro, se o rádio acabar, o tecido da realidade se desfaz em 45 minutos.

O rádio não é apenas um meio de comunicação, é o último fio de sanidade que nos liga à civilização. Já reparou? No dia em que o sinal de FM sumir, o caos será absoluto. Imagine.

Primeiro, o trânsito. Sem o rádio, o condutor fica entregue aos seus próprios pensamentos. Isso é perigoso. O rádio serve para nos dizer que o IC19 está parado ou que a Marginal virou um estacionamento a céu aberto nas horas de ponta.

Sem o locutor com voz de veludo dizer que há lentidão devido a excesso de veículos, o condutor percebe que está preso no inferno por livre e espontânea vontade. Sem a piadinha sem graça do apresentador matinal, o cidadão médio percebe que odeia o seu emprego. O rádio é o amortecedor psicológico da classe trabalhadora. 

E quem vai manter a indústria das pilhas? Ninguém compra pilhas para controles remotos que agora a gente carrega via USB. As pilhas existem para o rádio de pilhas. Aquele radiozinho prateado ou preto que o pedreiro coloca no topo do andaime e que, por algum milagre da engenharia acústica, toca uma moda que se ouve a três quarteirões.

Se o rádio acabar, as obras param. Não se assenta um tijolo neste país sem a trilha sonora de uma rádio. Sem rádio, o PIB da construção civil cai a zero.

Em todo filme de fim de mundo, o que é que o herói faz? Ele não tenta abrir o TikTok para ver se há sobreviventes. Ele gira o botão dum rádio velho que está ali na cena esquecido. 

Se o rádio acabar, o apocalipse perde a etiqueta. Se um meteorito estiver a caminho da terra e não houver um radialista de serviço para dizer "É isso aí, gente boa, o mundo vai acabar, mas fiquem agora com esse clássico do Queen", e a gente nem vai saber como se comportar no pânico. O rádio dá o tom do desastre. Sem ele, a gente morre no vácuo, sem uma publicidadezinha ao super mercado pague menos.

Por fim, o futebol. Assistir ao jogo na TV é bestial, mas ouvir no rádio é uma experiência mística, é um quadro sonoro do renascimento. No rádio, um tipo para a bandeirola de canto vira um tiro que passou a rasar a pintura da trave esquerda!. O rádio melhora a vida. Ele transforma o jogo medíocre entre dois clubes da Série caseira numa final de Taça do Mundo.

Sem o rádio, a realidade vai ser crua e seca. Vamos ver as coisas como elas realmente são: chatas, silenciosas e sem um locutor para nos convencer de que agora o bicho vai tocar.

Portanto, protejam as antenas. Enquanto houver uma rádio a tocar um hit dos anos 80 com interferência de um walkie-talkie da polícia, do frigorífico ou da máquina de lavar, a humanidade terá uma chance. Se o rádio se calar, podem desligar o sol. O último que sair, por favor, deixe o rádio sintonizado na saudade.

Mas antes disso e 50 e tal anos depois, ponho pilhas novas, subo a antena, sento-me no muro da imaginação e vou ouvir Baby Love que um locutor nostálgico pôs a tocar.

Sanzalando

10 de maio de 2026

uma dia sonhei, nas arcadas

Me deixei sentado na mesma arcada de onde todas as tardes revejo um passado que guardo com alegria. A banda sonora é o marulhar, por vezes frio, por vezes com sabor a sal, por vezes silêncio de um fim de tarde ameno. 

Neste sentado, me deixo vagabundar pela imaginação, tropeçando palavras, plantando frases, debitando vidas, estórias, encantos, desencontros, sorrisos, memórias. 

Diz-se que o primeiro amor é como uma cicatriz, fica lá para sempre, mas que com o tempo deixa de doer. A metáfora real é quase literal, com a ironia adicional do que hoje me ocorreu, quando me lembrei que durante anos fechei feridas e deixei cicatrizes nos outros.

A paixão aos 16 anos, foi um clássico de biologia e hormonas. Jurámos amor eterno entre resumos de fotossíntese e partilhas de trabalhos de casa. Assim se passaram três anos platónicos. Carregados de paixão que se via a olhos vistos, sem ser necessário testes laboratoriais, exames psicológicos ou trocas de vocábulos que materializassem tal paixão em ambos sentidos. Quando as notas do exame de admissão saíram ambos entrámos em Medicina e o mundo parecia um guião de cinema simples, cor-de-rosa e fácil de mais. Mas o destino, que tem um sentido de humor muito particular, decidiu que o dia da matrícula seria também o dia do óbito da relação.

Um mal-entendido num corredor da vida, um visto não respondido num qualquer recanto e pronto, cortaram relações com a precisão de um bisturi bem afiado.

Seguiram-se anos de silêncio absoluto. Seis anos de curso, mais uns quantos de especialidade, e cada um seguiu a sua trajetória como se o outro tivesse sido apenas uma alucinação da adolescência. Eu tornei-me um cirurgião capaz de martelar um esterno ou de delicadamente coser uma veia cava rota num acidente. Ela, ao que sei, virou uma cirurgiã minuciosa, daquelas que olha para um corpo e vê milímetros de perfeição à espera de acontecer.

O mais fascinante? Nunca trabalharam no mesmo raio de dez quilómetros e nunca se cruzaram em reuniões ou congressos. É uma espécie de física quântica hospitalar: dois corpos que ocupam o mesmo espaço profissional, mas nunca o mesmo tempo. 

Vivemos décadas na mesma cidade e sendo ambos cirurgiões foi como jogar um jogo de  euromilhões de desencontros. 

Se hoje se encontrassem num bloco operatório por erro de agendamento, o diálogo seria digno de um episódio escrito por um autor de comédia absurda. Ou seria a escuridão do silêncio?

É uma coincidência estatística notável. Dois miúdos que se apaixonaram, prometendo pela troca de olhar, pela doçura nas palavras, cuidar um do outro, acabaram de facto a cuidar da humanidade apenas em salas de operações separadas e com um bloqueio permanente nas ruas da vida.

No fundo, talvez tenha sido melhor assim. Algumas paixões de adolescência não foram feitas para durar, mas para servir de treino. Eles aprenderam a abrir corações aos 16 para poderem abrir abdómenes aos trinta. E se algum dia o destino os colocar frente a frente numa urgência de sábado à noite, esperemos que o paciente não tenha pressa, porque a primeira coisa que eles vão precisar é de uma consulta de psicologia para decidir quem é que liga o aspirador primeiro.

Ups... deixei-me dormir na arcada e sonhei. Foi um sonho lindo que não tenho oportunidade de partilhar com a minha mãe que sempre me disse para não sonhar alto, para nunca me esquecer de que os meus pés devem estar assentes na terra. Na verdade, sempre que voei, foi de avião.



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Pertinências 9 - Enredados nas Palavras - Dulce Maria Cardoso

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.













Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Há escritores que nos contam histórias. E há outros — mais raros — que nos devolvem memórias que nem sabíamos que eram nossas. Dulce Maria Cardoso pertence claramente a este segundo grupo.

Quando se fala de O Retorno, não se fala apenas de um livro. Fala-se de uma mala sempre por desfazer, de um país que cabe num sotaque e de uma infância que ficou suspensa entre continentes — como roupa num estendal apanhado por vento incerto.




Imperdível





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9 de maio de 2026

Bom Dia Mercado 14 - Rádio Portimão





Programa de Rádio feito no Mercado de Portimão, ao vivo e a cores

Ouça-nos tal e qual lá estivemos
Ouça Valéria Guba
Ouça as entrevistas que foram conversas no bulicio de uma manhã de mercado







Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

eu, adolescente fui

Hoje, sentado num muro da imaginação, deixei-me levar por ventos e tempestades cerebrais. Fui, assim como que deixa ver onde isto vai parar, vagabundando nas palavras que o pensamento quer ter como muleta. 

Levado pelo meu humor que não morde mas às vezes dá beliscão, eu me disse que a adolescência em Angola não foi uma fase da vida, foi assim uma espécie de estágio intensivo em sobrevivência emocional com especialização em improviso.

Naquele tempo, crescer não vinha nem com instruções, nem má criações, nem outras construções mentais. Vinha com calor, com poeira, com amigos que apareciam sem avisar e com mães que sabiam sempre mais do que nós, mesmo quando fingíamos que não. A adolescência foi como aquelas estradas de terra batida ou mesmo como as picadas: cheia de buracos, mas com uma paisagem tão bonita que a gente perdoava o sacolejar do corpo, da alma e dos enjoos.

Havia uma filosofia muito própria, ainda que ninguém lhe chamasse isso. Era uma mistura de logo se vê com um há de dar, regado com gargalhadas que nasciam mesmo quando não havia grande motivo para rir. Porque rir, lá está, era uma forma de resistência e também uma maneira elegante de dizer à vida que podia tentar, mas não levava nada.

Os amores? Ah, os amores, eram mais rápidos a nascer do que a durar. Bastava um olhar mais demorado, uma música a tocar ao longe, e já estávamos convencidos de que aquilo era eterno até à semana seguinte, quando surgia outro eterno ainda mais convincente. Filosoficamente falando, aprendíamos cedo que o para sempre tinha prazo curto, mas intensidade garantida. E quando era ao contrário era dorido de morrer, que durava até ao renascimento.

E os sonhos? Eram grandes. Enormes. Às vezes maiores do que o mundo que nos rodeava. Queríamos tudo: ser alguém, ir longe, ficar perto, mudar o mundo ou pelo menos impressionar a rapariga que morava na mesma rua. Havia uma certa ingenuidade, claro, mas também uma coragem bonita, daquela que ainda não aprendeu a ter medo.

Se penso bem, talvez a adolescência angolana me tenha ensinado uma das maiores verdades filosóficas  sem livros, sem professores, sem citações complicadas que se resume em que a vida não precisa de ser perfeita para ser boa. Precisa é de gente, de histórias, de calor humano e de uma boa dose de humor para atravessar os dias mais tortos, mais cacimbados, mais tristes.

No fundo, éramos filósofos sem saber. Pensávamos pouco e sentíamos muito o que, convenhamos, é uma forma bastante honesta de existir, de viver.

E se hoje sorrio ao lembrar-me disto tudo, sentado no muro da imaginação, não é só pela nostalgia. É porque percebo que, no meio daquela confusão toda, já lá estava o essencial: a capacidade de rir, de gostar, de cair e levantar e de achar com uma convicção quase científica, que o amanhã ia ser melhor mesmo quando não tínhamos a mínima prova disso.

Talvez tenha sido a melhor definição de adolescência, ter sido um acto de fé com banda sonora, poeira nos sapatos e muitos amores perdidos ou inacabados.



Sanzalando

8 de maio de 2026

primavera invernal

Dada a minha memória tropicalizada há coisas que descompreendo. Sento-me na praia e gelo. Vou fazer uma caminhada como se fosse na Kipola e volto a espirrar que nem um fanhoso a desconseguir falar de tanto tchim seguido.

Dizem que a primavera chegou. Dizem que foi no 21 de Março. Foi o professor Resende em Geografia que me disse nesse tropical tempo de faz tempo. Mas na verdade, depois de ter feito horas de avião em direcção ao polo norte, ainda ando de cachecol emocional e meias térmicas espirituais. O calendário garante que já devíamos estar a espirrar por causa das alergias, mas o que me faz espirrar é mesmo o vento gelado que entra pela janela ou pelas frestas da malha do casaco.

A primavera, no meu imaginário, é aquela estação simpática, cheia de flores, passarinhos e pessoas felizes a correr em câmara lenta num anúncio de tv. Mas este ano decidiu fazer-se de difícil. Em vez de flores, temos… arrepios. Em vez de passarinhos, temos dentes a bater num ritmo que nem rock. E em vez de correr na rua, o máximo que faço é correr para dentro de casa.

É um inverno disfarçado. Um infiltrado meteorológico. Um frio que olhou para o calendário e disse: Primavera? Não me parece. Ainda tenho uns assuntos pendentes. E ficou. Instalou-se. Trouxe as nuvens, a chuva miudinha e aquele vento traiçoeiro que parece dizer: Não te esqueças de quem manda aqui.

Que saudades tenho do vento leste que a minha avó almadiçoava.

O problema é que nós, ingénuos, já tínhamos guardado os casacos mais pesados. Fizemos aquele ritual anual de mudança de armário, cheio de esperança e alguma arrogância, como quem diz: Até para o ano, frio. Pois. Resultado: estamos agora a usar t-shirts por baixo de camisolas, por baixo de casacos, por baixo de um certo arrependimento.

E depois há a confusão emocional. Uma pessoa acorda, olha para o sol e pensa: Hoje é dia de primavera! Sai de casa com um sorriso e uma leveza no vestir… e cinco minutos depois está a questionar todas as decisões da sua vida. Porque o sol está lá, sim senhor mas é um sol decorativo, daqueles que não aquece, só enfeita.

As plantas também estão baralhadas. Algumas já começaram a florir, corajosas, otimistas, quase ingénuas. Outras estão a olhar para o céu como quem diz: Eu não me meto nisso. Já vi este filme. E fazem bem. Porque nesta primavera com tendências de inverno, até as flores precisam de resiliência emocional.

Só me faltava mesmo andar de guarda-chuva, óculos de sol, casaco e cachecol a contrariar os chinelos que me apetece calçar.

Acho que com essa coisa das alterações climáticas acabaram com as estações e agora temos apeadeiros meteorológicos. 

Mas primavera que é primavera, mesmo atrasada, tem de aparecer. Nem que seja só para nos lembrar que, afinal, o inverno também se cansa. E quando isso acontecer, vamos todos fingir que sempre acreditámos. Afinal, ninguém gosta de admitir que foi apanhado desprevenido… outra vez.



Sanzalando

7 de maio de 2026

o nada

Me sentei num banco das arcadas coloridas que me deixam ver o zulmarinho. Hoje ele está sereno, não acastanhou por causa da água do Bero. Só o seu marulhar me acalmou e me deixou ali a congeminar pensamentos como se estivesse num deserto de mim, areia, areia e nenhum pensamento. Olhava o zulmarinho e caminhava com os olhos sem ver, sem pensar, baía fora. Foi aí que cansado pensei:
- Pensar no nada é, possivelmente, a actividade mais exaustiva que o ser humano já inventou. É um desporto de alta performance mental onde o objetivo é, literalmente, não chegar a lugar nenhum.
Tudo começa com a nobre intenção de limpar a mente e quem sabe acalmar o corpo. Sento-me, fecho os olhos e decreto: Agora, o vazio, o nada! Nos primeiros três segundos, sinto-me um monge tibetano. No quarto segundo, a minha mente que tem o sentido de humor de um vilão de banda desenhada pergunta: 
- Será que os pinguins têm joelhos?.
Pronto. O nada acabou de ser invadido por uma questão anatómica de aves polares. Daí salto para o parque infantil, depois revejo a foca que é leão marinho e olho novamente para o zulmarinho.
Tentar não pensar em nada é como tentar não olhar para uma borbulha gigante no nariz de alguém: quanto mais te esforças, mais o foco se torna absoluto. De repente, o vazio é preenchido por uma lista mental de músicas que odeio, mas que o subconsciente guardou para momentos de tédio, ou por aquele comentário parvo que fiz em 1972 e que agora decidiu voltar para te assombrar. A arcada deixou de ser colorida e passou a irritantemente desconfortável. Quero o nada! Grito-me. Quero o nada que é nada e não a variante do nada que acontece quando alguém nos pergunta: Em que é que estás a pensar?
E o pior é que, naquele instante de pânico, de ira, o cérebro apaga tudo e tu passas a pensar, de facto, no conceito abstrato de nada. É o chamado vácuo mental.
O zulmarinho agitou-se, a jangada dançou, a areia mexeu-se e eu levantei-me e fui para casa sem ter conseguido fazer nada, ou o nada.

Sanzalando

6 de maio de 2026

Crónicas de Carlos Osório 16 - K'arranca às Quartas 117


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Esta Música tem uma História 58 - Caminhos Cruzados - Gal Costa - K'arranca às Quartas 117


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Crónica de João Portelinha da Silva (22) - K'arranca às Quartas 117


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Tesourinho Musical 92 - Zurita de Oliveira - K'arranca às Quartas 117


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Autor - Aires Almeida Santos - K'arrancaàs Quartas 117


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Crónica 105 - K'arranca às Quartas 117


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Programa 117 - K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 22 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - As novas Praças públicas e a liberdade de expressão

Hoje falámos de Aires Almeida Santos e Meu Amor da Rua Onze

Hoje houve Esta Música tem uma história com Gal Costa Caminhos Cruzados de Tom Jobim, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Zurita de Oliveira
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou da poesia moçambicana 
e
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-no a  𝒊𝙣𝒗𝙖𝒔𝙖̃𝒐 𝒑𝙤𝒓 𝒂𝙡𝒈𝙖𝒔 𝑹𝙪𝒈𝙪𝒍𝙤𝒑𝙩𝒆𝙧𝒚𝙭 𝙤𝒌𝙖𝒎𝙪𝒓𝙖𝒆
nas praias do sul

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na Força Mental


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

5 de maio de 2026

e porque me fui lembrar do 10 de Junho

Dizem que Homem tem um desejo velhinho de voar. Leonardo da Vinci desenhou máquinas, Gago Coutinho e Sacadura foram até à terra do outro Cabral e eu... bom, eu decidi que o meu destino estava traçado num trampolim de borracha, rodeado de crianças de cinco anos que pareciam ter ossos feitos de mola e coragem de de ferro.

Olhando de fora, parece fácil. É física pura. O problema é que a minha massa é considerável e a aceleração que a gravidade exerce sobre mim tem um sentido de humor muito refinado.

Subi os degraus com a confiança de um ginasta olímpico. No topo, a vista era magnífica. Eu sentia-me o Super-Homem. Olhei para baixo, vi a lona presa por molas que me faziam lembrar as camas velhas do hospital e pensei: "Vou fazer um mortal. Nunca tente fazer um mortal se a última vez que viu os seus próprios pés sem a ajuda de um espelho foi no século passado.

O primeiro pulo foi tímido. Um "inho" discreto. Só para ver como é que eu estava. O segundo já me deu uma confiança perigosa porque deve ter havido uma rabanada de vento que a verticalidade era obliqua. No terceiro, decidi que era hora de mostrar ao mundo e à miudagem que me olhava com desconfiança do que é que sou feito.

Desejei as nuvens. Empurrei a lona com toda a força das minhas convições. Subi. Subi tanto que por num segundo achei que ia precisar de um passaporte ou de um fato espacial. O ar estava rarefeito. O silêncio era absoluto. Eu era a própria aerodinâmica.

A descida, porém, não seguiu o roteiro de previsto. A gravidade, essa senhora ranzinza, decidiu cobrar o aluguer do espaço aéreo. A meio do caminho, percebi que o meu centro de gravidade tinha decidido mudar-se para Madagascar sem me avisar. Tentei corrigir a trajetória com um movimento de braços que parecia um moinho de vento em pânico. Não funcionou.

O resultado foi uma sequência de eventos que a física ainda está a tentar explicar: Não caí de pés. Caí com o rabo, mas de uma forma que os meus joelhos decidiram cumprimentar o meu queixo com convicção. A lona, fiel ao seu propósito, devolveu-me aos ares. Mas não para cima. Devolveu-me na diagonal. Acabei estatelado na borda almofadada.

Fiquei ali, imóvel, a contemplar o tecto e a questionar todas as minhas escolhas de vida desde a escola primária. Um miúdo de quatro anos, a mastigar uma pastilha elástica, aproximou-se e perguntou:

-  Tio, isso fazia parte do truque?

Levantei o polegar, mesmo sem sentir metade do braço, e respondi com a voz trémula de quem acabou de ver a luz:

- Claro... É só para profissionais.

Acordei, não estava no Estádio do benfica e não era o 10 de Junho


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4 de maio de 2026

O Velho Luandino e a Arte de "Muximar" as Palavras

Olha só, noventa e um! Isso já não é idade, é uma instituição. Se o tempo fosse um rio, o Luandino Vieira já tinha feito o Kwanza recuar só para ver como é que a água se comporta quando está com pressa.

Fazer 91 anos em plena forma de espírito é um despropósito para os simples mortais. O homem caminha pelos dias como quem caminha pelas ruas de Luanda antiga: sem pressa de chegar, porque o importante não é o destino, é a conversa que se apanha pelo caminho.

Dizem que o português é uma língua rígida, cheia de regras e sapatos apertados. Pois o Luandino olhou para o dicionário e disse: “Moço, tira lá essa gravata que aqui o calor é muito!”. Ele não escreve frases, ele faz pirão com as letras. Mistura o Kimbundo com Camões, tempera com um bocado de jindungo, e quando dás por ti, estás a ler uma palavra que nunca existiu, mas que tu entendes perfeitamente porque ela te bateu direto no peito.

"Ele não inventa palavras, ele só lhes tira o pó e ensina-as a dançar."

Celebrar o Luandino é celebrar aquela Luanda que ele desenhou na nossa cabeça. Aquela dos musseques onde a vida é um emaranhado de histórias, onde o "Luuanda" é uma personagem viva que acorda com remela nos olhos e vai dormir com um sorriso de quem sabe das coisas.

Ele ensinou-nos que se pode estar preso e ele esteve, que o Tarrafal não era propriamente um resort de cinco estrelas e, ainda assim, ser o homem mais livre do mundo. Como? Criando mundos. O homem escrevia tanto e tão bem que as paredes da cela devem ter pedido por favor para ele parar, só para não ficarem com demasiada alma.

Diz que aos 91 anos a pessoa deve sossegar. Mas o Luandino não sossega. Ele continua aí, com aquele ar de quem sabe um segredo que nós ainda não descobrimos. Se calhar o segredo é esse: manter a a alma viva. Não deixar a língua secar, não deixar a memória virar estátua.

Luandino, meu kota de referência, hoje não há "Vidas Novas", hoje é a tua vida que a gente celebra. Bebe-se uma Cuca mesmo que seja imaginária, para não subir à cabeça e agradece-se por teres ensinado Portugal e Angola a falarem um com o outro sem precisarem de tradutor, apenas de sentimento.

Que a vida continue a ser esse teu "Luuanda" infinito, cheio de sol e de palavras bem "muzunguiadas".



Sanzalando