Houve um tempo em que ser cirurgião era uma aventura que começava muito antes de se vestir o pijama verde e terminava, por vezes, quando o sol já ia alto e o corpo reclamava uma reforma antecipada. E quando falo em pijama não estou a falar nele própriamente dito, mas na farda com que gostávamos de fazer urgência e que mais tarde passou a ser azul escuro por opção. E ao falar de reforma não estou a falar deste momento em que na reforma estou. Era só aquele desejo de querer ir para a borga e o dever estava primeiro.
Não havia TAC nem havia ecografia à distância de um clique. Não havia aquelas máquinas modernas que hoje nos mostram o interior do corpo com a precisão de um fiscal das Finanças ou do Gerente de conta bancária. Naquele tempo, o cirurgião tinha de olhar para o doente, ouvir a história, palpar sem apalpar, percutir e, sobretudo, pensar. Pensar muito. Porque, se a medicina moderna tem tecnologia, nós tínhamos uma coisa chamada experiência e outra, bastante útil, chamada intuição.
O diagnóstico era uma espécie de investigação policial. O doente apresentava-se com dores, o médico interrogava-o, examinava-o e tentava descobrir o que se escondia dentro daquela criatura. Era quase como jogar à batalha naval, mas com consequências bastante menos divertidas.
Nos traumatismos cranianos, então, a coisa ganhava contornos de epopeia. Quando a situação era grave, o destino era Lisboa. E lá se organizava a transferência num helicóptero militar, porque não havia TAC que nos dissesse o que se passava e, às vezes, o melhor exame complementar era mesmo mandar o doente para onde existiam melhores condições. O helicóptero militar tinha qualquer coisa de cinematográfico. Ele aterrava em pleno centro da cidade o que me fazia pensar se não estaria em Saigão, sem tiros e sem gente a correr para todos os lados. Mas a verdade é que o doente seguia, a equipa respirava fundo e eu, o cirurgião, ficava com aquela sensação de quem acabava de entregar uma encomenda frágil, sem garantia de transporte e com prazo de validade desconhecido.
Mas se os traumatismos cranianos eram uma preocupação séria, havia outra entidade clínica que merecia um capítulo próprio nos nossos manuais, a Horta 2.
A Horta 2 tinha uma particularidade extraordinária. Não respeitava horários, feriados, escalas de serviço ou o sono dos médicos. Era especialmente activa às sextas-feiras e sábados de madrugada.
Aparentemente, durante a semana, os clientes daquela zona eram pessoas pacíficas, cumpridoras e dotadas de uma notável capacidade de contenção. Mas chegava a sexta-feira à noite e alguma coisa acontecia. Talvez uma alteração hormonal coletiva, talvez um fenómeno atmosférico, talvez a influência de certos líquidos consumidos em excesso. O resultado era invariavelmente o mesmo: politraumatismos, feridas, contusões, cabeças abertas e uma coleção de histórias que, se fossem escritas, fariam concorrência aos melhores romances policiais. O serviço de urgência transformava-se num palco. Entravam doentes com feridas que exigiam sutura, outros com traumatismos que obrigavam a uma avaliação cuidadosa e alguns que, apesar de tudo, garantiam estar perfeitamente bem.
- Doutor, não foi nada!
Era a frase mais frequente, geralmente pronunciada por alguém que tinha acabado de protagonizar um conflito de dimensões consideráveis e apresentava uma testa que parecia ter sido aberta por um abre-latas.
E nós lá estávamos. Sem TAC, sem ecografia, sem a facilidade dos exames que hoje se fazem quase por rotina. Tínhamos radiografias, análises, o exame clínico e uma boa dose de responsabilidade. Cada decisão era ponderada. Cada doente exigia atenção. E cada madrugada era uma oportunidade para descobrir que a anatomia humana é muito mais resistente e por vezes muito mais surpreendente do que os livros nos ensinavam.
Havia noites em que o café era a única substância que nos mantinha operacionalmente vivos. O pijama cirúrgico começava a perder a dignidade, os olhos ficavam pequenos e a paciência, essa ferramenta indispensável, começava a dar sinais de desgaste. Ainda assim, quando um doente melhorava, quando uma cirurgia corria bem, quando conseguíamos resolver um problema que à chegada parecia assustador, havia uma satisfação difícil de explicar.
Era um tempo em que o cirurgião não podia delegar tudo nas máquinas. Tinha de confiar nas mãos, no raciocínio e na capacidade de decidir. E, se me permitem a imodéstia, também numa certa teimosia profissional. Hoje, reformado, olho para trás com alguma nostalgia. Não tenho saudades das noites intermináveis, das urgências imprevisíveis nem da Horta 2 em plena atividade. Muito menos dos traumatismos cranianos que nos obrigavam a organizar transferências para Lisboa. Tenho saudades, isso sim, da camaradagem, da adrenalina, da sensação de que cada dia ou cada madrugada podia fazer a diferença. A medicina evoluiu. Ainda bem. Hoje temos máquinas que nos mostram aquilo que antes tínhamos de adivinhar, e isso representa um enorme progresso para os doentes e para os médicos. Mas às vezes penso que, se aquelas máquinas tivessem existido no meu tempo, talvez eu tivesse sido um cirurgião menos desconfiado, menos intuitivo e, seguramente, menos dependente do café.
Quanto à Horta 2, puseram tolerância zero na 125 e ela simplesmente fechou.
Mas desconfio que, se ainda houver cirurgiões de serviço às sextas e sábados de madrugada, haverá sempre alguém a dizer:
- Doutor, não foi nada!
E o cirurgião, com a serenidade de quem já viu alguma coisa, responderá:
- Pois não. Mas vamos fazer uma TAC à sua modéstia.
Porque, afinal, há coisas que nem a medicina moderna consegue curar: a inconsciência, o excesso de confiança e a tradição de uma boa madrugada traumática.
E eu, que já fui cirurgião, hoje dou pareceres. Parece-me que por hoje fico bem por aqui.

