Há jovens adultos que chegam a uma cidade por escolha própria e outros chegam por força das circunstâncias. E eu caí em Santarém parece ter sido de páraquedas, sem mapa, sem bússola e, sobretudo, sem a menor ideia de onde fica a felicidade. Na verdade, passada procuração a amigo por estar na altura na Noruega e ter ficado a saber que, como havia tirado o curso no Porto, não podia concorrer para Lisboa, ele escolheu-me Santarém. Podia ter escolhido Cascais ou Vila Franca de Xira, mas pareceu-lhe bem Santarém. E Santarém ficou.
Vim de Angola para Lisboa e depois Porto e de seguida Santarém, nos anos em que ser jovem adulto ainda era uma doença sem tratamento conhecido. Caí naquela cidade ribatejana com dois objectivos muito claros: ser médico e regressar rapidamente à minha Angola. O primeiro era um sonho. O segundo era uma urgência sentimental.
Porque, convenhamos, ninguém abandona África, o calor, o mar, os amigos e a paisagem do Namibe e caí assim em Santarém sem uma razão muito forte. No meu caso, a razão tinha nome, rosto e uns olhos que me tinham convencido de que o mundo podia ser um lugar extraordinário. O problema era que o mundo, entretanto, tinha decidido colocar-me a centenas de quilómetros dela e ela tinha-me mandado dar uma volta ao inferno e lá ficar.
Santarém recebeu-me com a hospitalidade possível, embora eu suspeite que a cidade nunca tenha percebido muito bem o que fazer com aquele rapaz africano que andava por ali com saudades de casa, um coração em estado de calamidade pública e a ambição de vir a ser cirurgião.
Eu, por meu lado, também não percebia Santarém.
As ruas pareciam ter sido desenhadas por alguém que não queria facilitar a vida aos recém-chegados. O frio era uma agressão pessoal. E os dias de chuva davam-me a sensação de que Portugal estava a tentar lavar-me a memória de Angola, coisa que eu não estava disposto a permitir. Tinha saudades de tudo. Do mar de Moçâmedes, da luz africana, do calor que não precisava de autorização para entrar pela janela, dos amigos, dos cheiros, das conversas e até das coisas que, quando lá estava, me pareciam banais. Até tinha saudades do cacimbo que não me deixava ver o caminho para o Liceu.
Em Santarém, até o sol parecia ter horário de funcionário público. Mas havia uma coisa que me mantinha de pé, a medicina. Eu queria ser médico. Não era uma ambição pequena, sobretudo para um rapaz que ainda estava a tentar descobrir como se comprava um bilhete de autocarro sem parecer um turista perdido. Via-me de bata branca, instrumento cirúrgico na mão, salvando vidas e, de preferência, regressando a Angola antes que a saudade me obrigasse a uma intervenção de urgência.
O meu plano passara a ser simples: estudar, entrar na Faculdade de Medicina, formar-me e depois voltar, já que havia sonhos evaporados. Era um plano de uma ingenuidade comovente. Não sabia que a Medicina exigia anos de estudo, noites mal dormidas, exames, professores com um sentido de humor muito particular e uma anatomia humana que parecia ter sido desenhada por um arquitecto sem orçamento e com um complicómetro na hora de criar. Eu pensava que bastava querer muito.
A vida, como de costume, tinha outras ideias.
Entretanto, o amor continuava a ser o meu principal sistema de orientação, de navegação e sobrevivência. Se alguém me perguntasse onde ficava o norte, eu respondia que dependia de onde ela estivesse. A geografia, para mim, era uma ciência sentimental. Ela foi mudando de nome, de rosto, de humor, de querer e de saber. Mas Santarém era apenas uma estação de passagem. Angola era o destino.
Havia dias em que estudava com uma dedicação extraordinária. Não por causa das células, dos tecidos ou dos órgãos, mas porque imaginava que cada dia aprovado me aproximava do regresso. Era uma espécie de medicina com finalidade migratória.
Se me perguntassem por que queria ser médico, eu teria respondido com solenidade:
- Para salvar vidas.
Mas, no fundo, havia uma resposta mais honesta e mais completa:
- Para voltar para casa e recuperar a vida que deixei por amor.
O curioso é que, com o passar dos anos, fui ficando. Santarém deixou de ser uma cidade estranha, Portugal começou a fazer parte de mim e a Medicina, que inicialmente era uma ponte para Angola, transformou-se numa profissão, numa vocação e numa longa aventura.
O rapaz que queria fugir acabou por construir uma vida.
E o amor que o tinha feito atravessar o oceano ficou guardado naquele território misterioso onde vivem as grandes paixões da adolescência: algures entre a memória, a saudade e a certeza de que, aos dezassete anos, somos todos um pouco mais parvos do que julgamos.
Hoje, quando recordo aquele jovem adulto que parecia ter caído de paraquedas em Santarém, sorrio. Tinha saudades de Angola, queria ser médico e acreditava que o amor era uma espécie de GPS infalível. Não sabia que a vida raramente nos leva para onde queremos. Leva-nos, isso sim, para onde acabamos por ser necessários.
E ainda bem.
Porque, se tivesse regressado rapidamente a Angola, talvez nunca tivesse sido cirurgião. E, se não tivesse sido cirurgião, não teria tantas histórias para contar. Afinal, o paraquedas abriu. Só o coração é que demorou mais tempo a aterrar.
Sanzalando










