Eu quando era pré-adolescente tinha uma fisga que por acaso era uma chifuta. Assim mesmo. Fisga foi mesmo só quando apareceu na revista uma gravura humorística ou o meu amigo que até era parecido com esse desenho. Não era uma chifuta qualquer, na minha cabeça, era uma arma de precisão digna de filme de acção. Na realidade, era um pau em forma de Y, com umas tiras de borracha de câmara de ar, um pedaço de cabedal no meio das tiras.
Eu era préadolescente, o que por si só já é uma condição clínica delicada, muita confiança, pouca pontaria e fraca força. E foi assim que começou a minha carreira de atirador, com entusiasmo ilimitado e resultados… imaginativos e fracamanente reais.
O primeiro alvo, para treinar, foi uma lata vazia pousada no muro do quintalão.
- Isto vai ser fácil - disse-me enquanto aperfeiçoava a posição corporal.
Puxei as borrachas para trás, fechei um olho, fiz cara de quem sabe o que está a fazer… e disparei.
A pedra deve ter descrito uma trajetória elegante, para um lado completamente diferente do que eu olhava, porque na lata nem raspou. Desapareceu-me.
- Técnica! - gritei-me como que a ver se aparecia por artes mágicas algum jeito para a coisa.
Muitas pedras depois uma lá acertou na lata. Nos dias seguintes, treinei arduamente. Apontei a árvores e acertava no chão, apontei a pedras acertava noutras pedras que eu nem tinha reparado estavam ali, e uma vez tentei acertar numa lâmpada de candeeiro quando zangado atirei para o ar e imagino quase acertei na lua.
O problema é que tinha uma relação muito particular com a pontaria: quanto mais queria acertar, menos acertava e mais me afastava do alvo. Era como se o universo, em vez de alinhar, resolvesse fazer troça de mim. Eu acho que a rotação da terra acelerava quando eu atirava, só para o alvo ficar fora do alcance.
Um dia decidi impressionar a malta da escola.
- Aposto que consigo acertar naquela tampa ali - disse apontando para um alvo perfeitamente imóvel e a uma distância razoável. Por simpatia, acho, ninguém apostou mas os amigos afastaram-se, acho que não por respeito, mas por instinto de sobrevivência.
Estiquei as borrachas, concentrei-me profundamente, respirei fundo… e disparei.
A pedra deu em cheio na tampa, levou-a para longe e ficou tudo em silêncio. Eu de espanto e eles estupfactos.
Guardei a chifuta e ainda hoje me lembro que aquele foi o meu último tiro na vida.


