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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
19 de abril de 2026
Conversas à Mesa 6 - O Território e os Seus Patrimónios
18 de abril de 2026
eu e a chifuta
Eu quando era pré-adolescente tinha uma fisga que por acaso era uma chifuta. Assim mesmo. Fisga foi mesmo só quando apareceu na revista uma gravura humorística ou o meu amigo que até era parecido com esse desenho. Não era uma chifuta qualquer, na minha cabeça, era uma arma de precisão digna de filme de acção. Na realidade, era um pau em forma de Y, com umas tiras de borracha de câmara de ar, um pedaço de cabedal no meio das tiras.
Eu era préadolescente, o que por si só já é uma condição clínica delicada, muita confiança, pouca pontaria e fraca força. E foi assim que começou a minha carreira de atirador, com entusiasmo ilimitado e resultados… imaginativos e fracamanente reais.
O primeiro alvo, para treinar, foi uma lata vazia pousada no muro do quintalão.
- Isto vai ser fácil - disse-me enquanto aperfeiçoava a posição corporal.
Puxei as borrachas para trás, fechei um olho, fiz cara de quem sabe o que está a fazer… e disparei.
A pedra deve ter descrito uma trajetória elegante, para um lado completamente diferente do que eu olhava, porque na lata nem raspou. Desapareceu-me.
- Técnica! - gritei-me como que a ver se aparecia por artes mágicas algum jeito para a coisa.
Muitas pedras depois uma lá acertou na lata. Nos dias seguintes, treinei arduamente. Apontei a árvores e acertava no chão, apontei a pedras acertava noutras pedras que eu nem tinha reparado estavam ali, e uma vez tentei acertar numa lâmpada de candeeiro quando zangado atirei para o ar e imagino quase acertei na lua.
O problema é que tinha uma relação muito particular com a pontaria: quanto mais queria acertar, menos acertava e mais me afastava do alvo. Era como se o universo, em vez de alinhar, resolvesse fazer troça de mim. Eu acho que a rotação da terra acelerava quando eu atirava, só para o alvo ficar fora do alcance.
Um dia decidi impressionar a malta da escola.
- Aposto que consigo acertar naquela tampa ali - disse apontando para um alvo perfeitamente imóvel e a uma distância razoável. Por simpatia, acho, ninguém apostou mas os amigos afastaram-se, acho que não por respeito, mas por instinto de sobrevivência.
Estiquei as borrachas, concentrei-me profundamente, respirei fundo… e disparei.
A pedra deu em cheio na tampa, levou-a para longe e ficou tudo em silêncio. Eu de espanto e eles estupfactos.
Guardei a chifuta e ainda hoje me lembro que aquele foi o meu último tiro na vida.
16 de abril de 2026
a diferença geracional
A tarde estava com aquele calor que faz a gente perguntar porque o asfalto ainda não derreteu de vez, fica só assim mole que esconde a tapinha da garrafa de cerveja. Na Oásis, quatro adolescentes — dividindo uma única Coca-Cola para economizar a mesada tentavam parecer descolados.
Na mesa ao lado, o senado das mais velhos: o Sr. Trindade, o Sr. Zé Malcriado e o Sr. Figueiras das Ameijoas. Eles não falavam, eles proclamavam verdades universais entre um golo de café e uma qualquer aguardente velha.
"Ouve bem o que eu te digo, Trindade," dizia o Sr. Zé, batendo com a palma da mão na mesa de metal com a força de um martelo hidráulico. "No meu tempo, a gente não precisava de qualquer instrumento. Se um gajo se perdia no mato, perguntava ao vento ou seguia o rasto dos animais. Hoje em dia? Essa criançada morrem de fome à porta de casa! Nem em casa se sabem desenrascar"
Trocámos olhares. O Moreira, mais velho, tentou meter-se contestando: "Nós podemos seguir o vento" O Fisga, mais brincalhão, sussurrou: — "Perguntamos ao vento? O senhor Zé, desta vez deixou o Malcriado de lado e gargalhou.
O Sr. Trindade, que tinha as sobrancelhas fartas, abanou a cabeça com desdém: "E o amor, Zé? Estes jovens agora... é tudo no 'fotonovela'. No meu tempo, para dar um beijo na rapariga, era preciso primeiro lutar com o pai dela, convencer o padre e carregar três sacos de batatas de vinte quilos ladeira acima só para ela nos dar um sorriso de lado!"
"Três sacos de batatas? Isso não é romance, é exploração laboral, credo." disse eu armado aos cucos perante os mais velhos.
A conversa dos velhotes subiu de tom quando o assunto passou a ser a tecnologia.
"E aquela coisa de irem à lua" perguntou o Sr. Figueiras, esquecendo as ameijoas, genuinamente preocupado. "Dizem que as fotografias são inventadas. Ó Trindade, e será que na lua chove?"
O Sr. Zé, dois palavrões depois, respondeu: "eu ouvi tudinho na rádio e eles foram mesmo lá."
Nisto acabou-se a coca-cola, pedimos uma Alpine frequinha e ouvimos:
- "Ó miúdos! Já que tens aí esse ar de malandro... vê lá aí nesse jornal se o Benfica já contratou um defesa esquerdo de jeito, para ver se o Trindade se cala um bocadinho!"
Nós miúdos rimo-nos, os velhos riram-se, e por cinco minutos, a esplanada foi o único lugar no mundo onde coexistira em perfeita harmonia a diferença geracional.
15 de abril de 2026
Programa K'arranca às Quartas 114
por causa nenhuma
E quando às vezes me apetece falar a sério mas o meu humor próprio não me deixa. Dizem que nunca se deve lutar com um porco na lama: ambos ficam sujos, mas o porco diverte-se. O problema é que, às vezes, a vida não nos dá o benefício da escolha. Um dia acordamos, pomos a nossa melhor roupinha ou a nossa melhor postura de adulto funcional e, sem aviso, estamos com o joelho enterrado no estrume, a tentar imobilizar uma fera de muitos quilos que não partilha do nosso sentido de decoro e educação.
Lutar com um porco na pocilga é a metáfora perfeita para as discussões estéreis, para as burocracias kafkianas ou para aqueles dias em que tudo decide desmoronar-se ao mesmo tempo. É um exercício de futilidade coreografada. No meio do caos, o mais fascinante não é a sujidade em si, mas o esforço hercúleo que fazemos para brincar de ser sério enquanto o rabo nos escorrega no lodo.
Há uma dignidade cómica no ser humano que tenta manter a compostura em situações absurdas. É o senhor que, após escorregar numa casca de banana, se levanta e sacode o casaco com um olhar fulminante, como se a gravidade tivesse cometido uma gafe social.
Nas nossas "pocilgas" quotidianas — seja um escritório em chamas ou uma crise existencial de segunda-feira — insistimos em usar o tom de voz de um diplomata da ONU. Falamos sobre "metas" e "otimização de processos". Simulamos uma profundidade que, na verdade, é apenas o pânico de quem não sabe onde pôr as mãos. Agarramo-nos às regras porque, se as largarmos, sobramos apenas nós, enlameados, diante de um porco que apenas quer chafurdar.
O porco, claro, é honesto. Ele não finge ser um unicórnio. Ele é massa, grunhido e instinto. A nossa luta com ele torna-se ridícula não porque ele seja sujo, mas porque nós tentamos lutar num terreno onde só conta o peso e a manha.
Brincar de ser sério é o nosso mecanismo de defesa. É a tentativa de aplicar lógica ao que é puramente visceral. Queremos convencer o porco (ou o destino, ou o chefe intratável) através de um memorando bem estruturado. Queremos que a lama respeite o vinco das nossas calças.
No fim, se tivermos de lutar na pocilga, talvez o segredo não seja tentar sair de lá limpo, o que é impossível, mas sim ter a coragem de largar a "seriedade" de fachada. Se a sujidade é inevitável, que pelo menos o riso seja genuíno. Afinal, não há nada mais seriamente ridículo do que um homem de fato a tentar explicar a um porco os benefícios da pontualidade.
14 de abril de 2026
inércia
13 de abril de 2026
éramos três que às vezes eram cinco
Éramos três amigos, quase sempre inseparáveis. Quer dizer, eu era o mais separável deles, pois estava apaixonado e como tal tinha alturas que os meus olhos procuravam por ela e, se o meu corpo estava com eles, eu não estava. Era assim na minha cidade de areia. Eles tocavam viola e eu poetisava ou coisa a dar mais ou manos para isso.
Mas na minha cidade, embora não houvesse galinhas a passear na rua, mas se as houvesses elas iriam atravessar a estrada como quem tem segredo, porque nalguma janela tem sempre alguém parece é vigia, hoje era olhar amanhã era boca que nem rádio.
Mas nós os três, às vezes quatro ou cinco, fazíamos música, contávamos estórias, revelávamos segredos, escondíamos medos, mas éramos cumplices até de coisa nenhuma. No parque infantil, na marginal ou simplesmente no recreio do liceu éramos como se fossemos um. Uns tinham coisas antigas, estórias, novelas ou simples imaginação para contar, outros inventavam músicas, copiavam sons e cantavam. Nenhum tinha escondidos sótãos nem silêncios perdidos. A nossa riqueza era só sermos francos. Éramos três que por vezes eram cinco.
Um dia separámo-nos. Coisas da vida. Reencontrámo-nos num acaso no Porto dois. Revivemos num dia uma década. Desaparecemos num até hoje. Do outro eles se viram anos a fio e eu o vi, quando o reumático já nos tinha tirado o lado prático da vida. Ambos mantinham a veia satírico-poética activa. Eram bons naquilo que faziam. Eu perdi-me noutros lugares, num trabalho apaixonante, cativante e que me subtraiu muitos momentos da vida.
Hoje acordei a perguntar pelo Beto. Do Manel faz tempo eu sei. Hoje acordei triste. É Abril e foi o nosso melhor mês de vida. Hoje acordei-me deles. Não poetiso, mantenho-me apaixonado por muitas paixões e desejos. Mas não tenho nem o Beto aqui ao meu lado e o Manel faz tempo eu sei que me olha com o ar satírico e piada pronta desde lá do além céus e outras galáxias.
Acordei com: isto promete. Nostálgico, triste porém feliz, sonhador e com vontade de dizer
Morena morena
dos olhos galantes
Quem te deu morena
esses diamantes.
Imagino o Beto agarrar a viola e com dois sois e um lá fazer qualquer coisa e eu lhe gravar.
Mas está silêncio. Estou nervoso com tanto silêncio. Quem ousa calar este silêncio?
Já não tenho dias iguais porque já não somos três e nem cinco que por vezes erámos.
Quantos anos tenho? Eu sei os que já gastei e não faço ideia de quantos tenho para gastar e reviver, nem que seja em palavras os tempos que nós os três, que às vezes éramos cinco, vivemos.
Posso adormecer e reacordar sem esta nostalgia que me faz reviver?
Talvez me caia o tecto em cima, ou o vento me leve os pensamentos, ou apenas a raíz deles. Que carga de água me fez abrir hoje a caixa da memória?
12 de abril de 2026
Pertinências 6 - Cinco escritores algarvios falam de literatura
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdícel
é domingo e fui ao hospital
Dizem que o domingo é o dia do descanso, mas ali no hospital, tem outra densidade. É um tempo suspenso, onde o cheiro a desinfetante tenta, sem sucesso, apagar o cheiro da dor, o receio do pior que abafa o brilho da realidade.
Fui visitar-te com o peso institucional que a ocasião exige. Preparei a minha cara de solidariedade serena, escolhi as palavras mansas e leves para além daquele silêncio respeitoso que guardamos para os lugares onde a vida se despe de artifícios.
Entrei no quarto e lá estavas tu, entre lençóis. Olhámo-nos. Tu com aquela cara de quem não sabe onde pôr as mãos por causa do cateter.
A conversa começou com as perguntas mil vezes repetidas nas mil visitas que possam fazer. Falámos da medicação, do que disseram os médicos, do estás com boa cara (a mentira mais caridosa da língua portuguesa que esconde aquelas olheiras de quem sofre em silêncio). Até que o absurdo da situação reclamou o seu lugar.
Talvez tenha sido o barulho rítmico de uma máquina qualquer, ou a forma como tentaste alcançar o comando da televisão e acabaste a fazer uma coreografia involuntária de ballet contemporâneo. Ou talvez tenha sido aquela gelatina colorida em cima da mesa, que vibrava com uma autonomia assustadora num abanar interminável.
De repente, a barreira quebrou-se e tu sorriste. Começámos por um sorriso contido, depois um gargalhar que se calhar incomodou a vizinha do lado, e antes que pudéssemos recuperar a compostura, estávamos os dois a rir.
- Rimos da estética duvidosa das meias de compressão.
- Rimos das conversas surreais que se ouvem através das cortinas vizinhas.
- Rimos da ironia de estarmos ali, num cenário de fragilidade, a encontrar graça na falta dela.
Era um riso clandestino, daqueles que tentamos abafar com a mão na boca para não escandalizar os enfermeiros, o que só o torna mais potente. Cada tentativa de "falar a sério" resultava numa nova vaga de gargalhadas.
Saí do hospital com o sol de domingo já mais baixo, o vento forte a bater na cara e a assobiar. Percebi que a tua cura não viria apenas dos tubos e comprimidos. O riso num quarto de hospital é um acto de rebeldia. É a prova de que, enquanto houver uma anedota mal contada ou uma situação ridícula para partilhar, a doença é apenas uma hóspede passageira, e não a dona da casa.
O domingo afinal não foi de solenidade, mas de luz. Porque rir no hospital é, possivelmente, a forma mais bonita de dizer à vida que ainda estamos aqui, e que não perdemos o jeito para a alegria.
10 de abril de 2026
O Mistério da Camisola Aberta e outras coisas mais
Lá pelas tantas, entra um interno com cara de quem não dorme desde 2024. Começa com as perguntas de praxe, mantendo rigor científico e uma estranha forma de entrar na intimidade:
- Como estamos hoje?
- Algum desconforto?
- Já funcionou o intestino?
Ela, tentando manter a classe apesar de estar deitada numa posição que lembra um frango assado prestes a ser temperado, responde com a maior naturalidade do mundo numa voz que talvez seja necessário um bom amplificador para a tornar audível.
Para fechar com chave de ouro, eu, querendo marcar pontos numa caderneta não existente porém real, resolvi levar um lanche clandestino porque ela reclama sempre da comida, quanto mais num hospital. No meio de um contrabando de pastel de nata, entra a enfermeira com aquela cara de quem manda mais que o diretor do hospital.
Tento esconder o pastel debaixo do travesseiro dela. O resultado? O médico chegou para fazer a palpação abdominal e ouviu um "CRUNCH" tipico do folhado a ser espalmado.
- Esta crocância não é normal. Foram as costelas?
- Não, doutor... foi um folhado que acabou de explodir.
No hospital, a gente perde a privacidade, perde a vergonha, mas se perder o bom humor, a alta demora o dobro!
Como ela está a se sentir hoje? Já recuperou o "status" de dona da própria camisola ou ainda está sob a ditadura da roupa hospitalar?








