21 de novembro de 2019

chove lentamente

Chove lentamente como o meu pensamento. Se pudesse sentá-lo-ia numa esquina e deixava-o a descansar por uns tempos enquanto eu ia à minha vidinha. Se eu pudesse decidir alguma coisa,  começa logo no princípio, no meu início e deixava-me estar por aí. Assim num sem esperar nada, sorrir por tudo e nada, perder-me em olhares e deixar o vento levar-me. Fazia de conta era uma folha de papel na minha rua em dia de vento. Longe do mar para não me desfazer demolhado. O vento sempre fez parte de mim. Era deserto a minha essência. Não conheço deserto sem vento. Sou filho do vento, diria o poeta. Se eu pudesse apagava todas as feridas e maquilhava todas as cicatrizes. Não teria marcadas do passado.
Chove lentamente como eu penso e como não posso decidir nada deixo a vida correr mesmo que o vento esteja parado, resguardado da chuva, apaixonadamente abrigado na felicidade que tenho.


Sanzalando

19 de novembro de 2019

sem memória nem sebentas


Dou comigo a vagabundar pela cidade. Quando aqui é outono me dá uma vontade de ser criança...
Na papelaria Couto comprei uma BIC, na Livraria Mirabilis pedi ao sr. Kelen um caderno sem linhas e de capa vermelha para eu ir anotando os meus caminhos, não vá um dia mais tarde eu querer recordar. Faz conta são quadros pendurados ou apenasmente álbuns de viagem, num assim faz de conta são fotos de memória, nossas lembranças, para que tudo fique igualzinho quando a gente quer ver o passado de lá faz tempo. Faz conta eu não mexi em nada, só escrevia e descrevi a Papelaria Couto e a Livraria Mirabilis. Ai me lembrei de gente, filho de dono, filhos de donos, vizinhos, amigos, companheiros de adolescência. Depois comecei a lembrar mais velhos. E no meu caderninho sem linhas, escrito com caneta bic azul, lá está o nome, as namoradas e moradas. para quê? Só para mais tarde recordar como se faz quando se olha num álbum de fotografias ou nas fotografias penduradas na parede. O Moreira, o Couto, o Jorge, cambada de gente que está na minha cabeça. Juleco, Tito, José Pedro, Leopoldo, Travassos, outros nomes vieram à mesa da Oásis assim só num fantasma de memória. Bacharel, Reis, Zé da Fisga, Figueiras e a sebenta ainda não mudou de página.
Desligo. Vou vagabundear por esse quadriculado, passear na avenida e quem sabe, sorrir.
Ao vivo e a cores sem memória nem sebentas


Sanzalando

15 de novembro de 2019

#mangueira


atropelado

Hoje, assim num dia de faz cacimbo na minha cabeça, eu dei comigo de calções, suspensórios de cabedal a condizer com as bonitas sandálias nos meus pés. Ainda estava a aprender a sair de casa sem companhia de mais velho. Acho mesmo era a primeira vez que eu vinha da escola 55 para casa sem companhia. Nem amigo nenhum vinha comigo. Era eu e os meus medos a conversar com os meus botões ou só mesmo a sonhar que um dia eu ia voar sei lá mais o quê. Me lembro que ia atravessar a estrada do Hotel Turismo para o passeio do Pessoa e senti um baque e fui direito no chão. Mesmo no meio do alcatrão. Me assustei?! Sei que parece nasceu mola dentro de mim. Sai daquela posição imprópria que o carro do Rui Frota me deixou, nem olhei para mais ninguém que ali logo me olhavam parecia eu ter saído sei lá onde. Puxei das articulações acelerei o cérebro e antes que alguém dissesse o meu nome eu estava a passar a avenida do Beto Reis, os pés tenho a certeza não tocavam no chão. Voei para casa. Que correria é esse acho me disse a avó ao me ver entrar que nem capitão américa ou homem raio. Me fechei no quarto. Me olhei e ali estava eu de dois braços e duas pernas, roupa preta da areia do alcatrão. Nem um risco nem uma dor. Bateram na porta. Minha avó foi lá. Lhe contaram e eu gritei não fui eu. Me levam no hospital é melhor. Não fui eu, vou lá fazer mais o quê? Paciência de avó, preocupação dos mais velhos que vieram me cuidar. Não fui eu, avó. Me tocou a ver eu digo ai. Nada. Nem uma dor me doía. A alma sim. Mas ela não tocou nela. Podem ir embora que parece ele está bem, disse a minha avó enquanto fechava a porta e se sentava comigo. Não fui que fui atropelado. Foram mesmo só os meus pensamentos que passeiam comigo, avó. Eu estou bem. Não sai de casa nesse dia, nem para andar de patins ou carros de rolamentos que nessa altura ainda não tinha. Não joguei futebol. Fiquei só em casa não fosse dar uma dor qualquer. Amanhã vou na escola como um homem mas não levo nem os pensamentos nem distracções na cabeça.



Sanzalando

14 de novembro de 2019

viver em recordação

Hoje que fez calor fui na praia. Vazia de gente do planalto que ainda não tem tempo de atravessar as mulolas e vir aqui se banhar, se enrolar na areia e desgastar a marginal num passeio de vai e vem. Isso é mais em Março embora agora inicia o calor e eu já estou a treinar e mergulho nas aguas frias da minha terra. Eu preciso desse mar. Eu preciso refrescar a minha tola, tirar da memória as namoradas por quem me enamorei eternamente naquele instante. Se já tivessem inventado o computador eu, na matinée dançante do próximo domingo, fazia um format de mim e começava de novo, sempre, como agora, alegre e feliz. Eu ia pegar dama para dançar, ia deixar de ser o puto envergonhado e tímido e ia ser como agora, transparente e real. É, um mundo diferente de ver, o agora e o antes com o que sei agora.
Vou ouvir a Mini-nota, vou-lhes dançar ao ritmo mesmo que o meu corpo nunca tenha tido um grande ritmo de dança.
Vou só mesmo na matinée dançante conversar e treinar o mar e março.
E voltou a saudade de amanhã ao almoçar com gente de ontem, quem me viu fazer as birras de criança, quem me viu enamorar adolescentemente e quem, me viu começar a ser homem.
A minha cidade, aquela que está na minha cabeça, não é saudade, é recordação, e ser eu hoje tal e qual como sou. Gente boa, me reconheço ao olhar no espelho mesmo que ele esteja embaciado pela água quente do orgulho, inchado pela vontade de ser gente.
Não é Março, não choveu nem nevou na minha cabeça tonta.

Sanzalando

13 de novembro de 2019

me apeteceu passear

Me apeteceu passear na cidade. 
Fui no parque infantil e desencontrei-me sozinho. Andei no cavalo com tanta força que depressa me cansei e fui no escorrega grande dar o salto na marreca do escorrega. Me magoei na bunda que se esqueceu de ter músculo ou gordura para aguentar o salto. Fui ver a zebra e levei bicada da avestruz. Não, hoje não é meu dia de andar aqui. Não vou ver a macaca que ela ainda se solta só para me apertar os ossos e me assustar com seus gritos parece endoidou.
Vou na praia, sentar nas arcadas olhar o mar e ver se aparece alguém para conversar. 
Estão a pôr a jangada no mar. Ué. Amanhã que é sábado vai ter artistas que vão dar saltos de nota máxima e eu vou nadar até parece é mentira se conseguir chegar na jangada que parece está ali mas afinal está lá, onde o cansaço quase me mata.
Cidade de gente vazia na hora do calor. 
Acho vou estudar para quando for grande eu saber soletrar os nomes dos amigos, as ruas calcorreadas, os sustos apanhados e saber cada casa, cada rua, cada esconderijo da minha pequena cidade.  
Acho sonhei que hoje fui passear na minha cidade que cresceu que já não é a minha cidade pequena.

Sanzalando

12 de novembro de 2019

#comida


chega

Me deixo levar pelo frio e admiro o zulmarinho por baixo duma camada de roupa. Hoje ele se clareou e brilha parece leva com um sol que nem parece desta altura. Um ou outro barco lhe navega deixando uma ondulação que ondula em câmara lenta. Perdido no tempo vou deslizando os meus pensamentos por esta calma de maré tão cheia parece vai chegar ao meu pé. Lua cheia me dizem num sussurro que parece nem ouço, adivinho.
Chega de ansiedade, repito em tom de mantra, em termos de canção sem música. Este mundo não pode ser vivido em termos de comparação, de competição, de dúvidas e de depressão. Este mundo tem de dar a volta e se olhar nos olhos da alma e com este mar calmo deliciar-se num tom empático, de sorriso aberto e consciência tranquila numa viagem que começou no dia de nascer e termina o mais tardar possível.
Chega de inventar momentos tóxicos, frequências alternadas e comunicações interrompidas.
Chega de esquecer de mim e acreditar que a mudança não é uma empresa de transportes, é um mundo que precisa.


Sanzalando

6 de novembro de 2019

o preço de ser eu

Olhei de longe o zulmarinho. Não está tempo de me perder no tempo da contemplação marítima. O tempo tempo não está de feição e o tempo horário não corre ao ritmo duma visita demorada. Mas mesmo assim, perdido de mim, me deixo contemplar pela queda abrupta que imagino estar para lá da linha recta do horizonte. Até parece que o mundo acaba onde os meus olhos deixam de ver. Esta coisa de pensar absurdo, de me mudar o jeito de falar, de ver e até do olhar, fazem-me meditar na meditações que alguma vez eu fiz, ou não. A realidade de hoje não foi realidade de ontem nem será a de amanhã. Sonhei, vivi ou apenas eu sou um pesadelo de mim?
O facto de eu ter pensado e não ter dito não quer dizer que desapareceu. Elas ficam lá num qualquer canto do subconsciente, num armário velho e desarrumado e de quando em vez vem cá fora dizer ao sol eu estou aqui. Mas lá elas vão continuar a pesar, por vezes sufocar e outras vezes magoar. Por isso é melhor retirar o armário, jogar cá para fora essas palavras pensadas, esses sonhos sonhados, esses quereres queridos e libertar desse veneno fatal, o conformismo. 
Olhei de longe o zulmarinho e desconformei-me e mesmo parecendo um idiota arrisco a rabiscar palavras de sabor a mar, perfume de maresia e som de marulhar. É o preço que tenho de pagar para que eu seja assim: Eu!


Sanzalando

4 de novembro de 2019

#comida


almas que tenho


Quantas almas eu tenho? Que idade tem a minha alma mais velha? E a mais nova? Idade é uma ideia que me passa ao lado. Serei sempre criança. As minhas ideias progridem mesmo que o meu corpo não lhas acompanhem. Não sou de estar à beira do abismo e dar um passo em frente. Portanto não me vou aproximar matemáticamente do fim, somando dias aos vividos.
Perdi a pele sedosa e elástica do meu riso de criança, perdi a alegria das brincadeiras de rua, perdi amigos levados pelo além, perdi a realidade do passado.
Ganhei a face do conhecimento, os cabelos da responsabilidade e a velocidade. O tempo passou a ser veloz. Impiedosamente veloz.
Cinzentou-se o zulmarinho mas a capacidade de o apreciar cá está. Acredito, resumidamente, que as minhas asas não se perderam no tempo que passou. Continuo a ter a capacidade de sonhar e ser feliz.

31 de outubro de 2019

medronho fit

Olha só como faz tempo que o tempo não é mais como é que era.
Agora, pelo que vejo, está na moda fazer desporto. Eu que me sentava na falésia a ver o zulmarinho sou apelidado de retrogrado, preguiçoso, mole e os meus kilos a mais servem de risota. 
Então pois bem, juntei o útil ao agradável e me dediquei a um desporto novo, para mim, pois há quem se dedique a ele faz anos. O medronho fit. Esse mesmo que estão a pensar. Apanhar medronho num cerro. Sobe, desce, agacha, levanta, estica, encolhe, tropeça, escorrega e o medronheiro parece está a rir. Os maduros estão la no cimo parece é de propósito. 
Agora, quando ouvi o estrondo do cair da noite é que vi que rangia por todos os lados. Os elos todos do meu corpo doem parece foram torturados. Os cotovelos e tornozelos sinto-os e nem preciso vê-los.
Aqui sentado, neste agora mesmo, parece recordei os meus passados ou algum dos meus sonhos sonhados numa noite tropical qualquer. Eu fui à caça. Eu recordei parece foi hoje. Todos viam pegadas eu pisava caganitas. Eu confirmava que tinha passado por ali caça. Nunca vi o dono do que eu pisava. Com os medronhos quase parecia era igual. Os vermelhos, aqueles que me ensinaram era para apanhar estavam onde a minha destreza não permitia chegar.
Acho mesmo está na hora de voltar à minha meditação zulmarínica, que esta coisa do medronho fit dá-me cabo do canastro.


Sanzalando

30 de outubro de 2019

por dez bagas de medronho

Faz dias não me delicio a ouvir o zulmarinho a me marulhar num embalo de meditação. Tem dias que outros lugares se levantam e me perguntam se também não têm direito à minha presença. Hoje foi dia de ir à serra. Nos 600 metros a cima do mar, me disseram e eu acreditei, porque não me apeteceu estar ali de fita métrica verticalmente a medir tanta altura. Roupa de andar nas escarpas. Até que falei bem. Escarpas de pedra solta e inclinação de atirar os pulmões para fora da caixa. Outros há que têm o coração maior que a caixa, eu cá só deito os bofes pela boca daquelas inclinações escarpadas. Um medronho aqui, duas dúzias por ali e outro tanto, quantos não sei, por acolá.
- Gatunos, ladrões eu mato-vos.
Foi o que ouvi saído por trás duma moita um homemzarrão de dois metros e não sei quantos. Coelho que costuma sair da moita não fala assim. Vento não sopra assim. Homem mal educado grita assim. Timidamente, mas muito assustado, perguntei o que se passava ali. 
- Gatunos, ladrões ponham-se daqui para fora.
Foi a resposta que ouvi. E era mesmo para mim. Tentei explicar que tinha autorização do dono para estar ali, mas a surdez mental daquela espécie monstruosa de homem não conseguia ouvir a minha voz que curiosamente se manteve suave.
Lá consegui perceber, depois de uns tantos mais impropérios, que estava na 'estrema' do terreno que estava autorizado pelo dono e que, por causa de dez bagas de medronho, eu fui amaldiçoado que nem um teste de surdez mal feito.
Ai apeteceu ir buscar a fita métrica, que não levei, para mostrar que a extrema estupidez daquela espécie humana estava em decadência mental e que por dez bagas de medronho se perde a liberdade de falar.

Sanzalando

#mangueira


#medronho


#medronho


29 de outubro de 2019

o peso da idade

Hoje acordei com dores lombares e uma incapacidade de mexer os ombros e os braços. Corpo moído e ar cansado. Sentado à beira da cama me deixei a ver o que é que me tinha acontecido. Mexer eu não consigo. Quer dizer, dói. Mas o que é que me aconteceu? Busquei mil razões, divaguei mil teorias e me perdi nelas como quem se perde nas ruas duma grande cidade desconhecida e sem coisas de mapas e gps de alta gama.
Pequei num smatphone, abri cada uma das três redes sociais à vez, com sacrifício e dor. Afinal até os dedos e os olhos estão cansados. Fui lendo, fui vendo e novamente me perdi. Tantos números é coisa de novas tecnologias. 
Sem sair desta posição de defesa meditei, com uma vontade enorme de me deitar e perguntar porque acordei hoje?
Tudo o que eu sentia era do peso da idade
É impossível receber assim o peso da idade dum dia para o outro. Eu não me preparei para tanto. Deveria ter ido ao ginásio, feito caminhadas, levantar pesos e depois sorrir e pensar que com o que tenho para fazer, este peso é agradavelmente suportado por este corpo que já foi franzino, por este esqueleto que já foi erecto, por esta alma jovem que me habita e então para o ano eu estarei em forma para receber mais peso.



Sanzalando
recomeça o futuro sem esquecer o passado