Isto foi o suficiente para desequilibrar o meu "nada". Tentei ignorar. Mas o chinelo parecia que estava a olhar para mim e a me chamar. Ainda por cima com um olhar de julgamento. Estiquei o pé para puxar o chinelo. Errei. Tentei de novo. O chinelo escorregou do pé e foi para debaixo da poltrona.
Agora, tinha um problema: para continuar a fazer o meu nada precisava do chinelo. Mas para pegar o chinelo, eu teria que fazer alguma coisa.
Fiquei ali, com um pé descalço e outro calçado, vivendo um hiato existencial. Pensei:
Se eu ficar perfeitamente parado, eu me torno parte da mobília. A poeira vai cair sobre mim e eu serei, finalmente, o mestre do vazio.
Nesse exato momento, uma mosca entrou na sala, daquelas que parecem helicóptero e param no ar.
A mosca não tinha o mesmo compromisso com o minimalismo. Ela pousou-me na testa. Eu não movi um só músculo. Eu era era um móvel imóvel. Eu era... um homem com a testa arrepiada e abanei-a.
A mosca voou, segui-a com os olhos até que ela pousou-me no nariz, entrando na narina.
O resultado? Eu soltei um espirro tão violento que ou a mosca fugiu para outra dimensão, ou o chinelo ficou esquecido ou eu me esparramei no chão.
Dez minutos depois, estava eu na cozinha a pôr gelo no joelho e de cu para o ar à procura do segundo chinelo. Percebi então que fazer nada dá um trabalho danado. O universo simplesmente não aceita o vácuo; se não se preenche o seu tempo com algo, o destino preenche com moscas e incidentes ortopédicos.
