A Minha Sanzala
Rádio Portimão
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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
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- Pertinências 26 - A Música na Feira do Lovro em Portimão 2926
- Pertinèncias 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)
23 de setembro de 2026
Programa 133 - K'arranca às Quartas
Eu, menino, queria ser grande
Eu olhava para eles e pensava:
- Quando eu for grande, vou ser assim.
Não sabia ainda que alguns adultos passavam a vida a procurar as chaves que tinham acabado de pousar em cima da mesa. Nem que o dinheiro desaparecia misteriosamente. Nem que o relógio servia para perceber que já estava atrasado.
Mas havia outra coisa que eu queria experimentar: o amor. E aí começou cedo. Muito cedo. Tive a primeira paixão platónica por uma menina que provavelmente nem sabia da minha existência. Eu sabia tudo sobre ela. Sabia como ela prendia o cabelo, que carteira levava para a escola e até a hora aproximada a que aparecia à janela. Ela, em contrapartida, sabia apenas que havia um rapaz que passava muitas vezes naquela rua. Era uma relação profunda, pelo menos da minha parte.
Depois vieram outras paixões. Houve uma por uma colega de escola que me sorriu duas vezes. Duas vezes! Na minha cabeça, aquilo já era praticamente um noivado. Passei três noites a imaginar o futuro. Na primeira, cassávamos. Na segunda, tínhamos filhos. Na terceira, discutiamos porque eu tinha deixado as meias no chão, a sala desarrumada. Tudo isto sem ela ter sequer sido informada do romance.
Foi então que descobri uma das primeiras grandes leis da vida - o amor pode ser platónico, mas a concorrência é muito concreta. E assim fui crescendo, entre paixões impossíveis, bilhetes nunca entregues, olhares interpretados como declarações de amor e algumas tentativas que acabaram desconseguidas. Uma delas foi particularmente educativa. Criei coragem, aproximei-me da rapariga de quem gostava e, depois de vários minutos a ensaiar mentalmente uma frase brilhante, conseguiu dizer:
- Queres ir comigo ao cinema?
Ela olhou para mim. Sorriu. E respondeu:
- Com quem?
Foi nesse momento que percebi que, afinal, ainda precisava de crescer bastante. O tempo passou. Cresci. Tirei a carta, estudei, fui trabalhar, tomei decisões, paguei contas e percebi que os adultos não tinham assim tanta certeza sobre aquilo que estavam a fazer. Olhei para trás e percebei uma coisa curiosa - tinha conseguido ser grande. Era aquilo que tinha desejado desde a infância. Era adulto, tinha responsabilidades, tinha histórias, tinha algumas cicatrizes, tinha amores que deram certo, outros que deram errado e alguns que nem chegaram a dar. Mas tinha conhecido pessoas que ficaram e outras que desapareceram como certas paixões de adolescência: sem deixar morada para correspondência e então percebi a grande ironia, quando era pequeno, imaginava que ser grande era deixar de ter dúvidas agora sabia que ser grande era aprender a viver com elas. Imaginava que os adultos sabiam sempre o caminho mas descobri que muitos andavam com o mapa ao contrário, imaginava que o amor seria simples e descobriu que algumas paixões precisavam apenas de coragem, outras de sorte e algumas, francamente, precisavam de um milagre. E, sobretudo, imaginava que quando fosse grande deixaria de ser aquele menino. Enganei-me. O menino continua cá. Continuo a apaixonar-me por coisas impossíveis, embora agora tenha mais experiência para reconhecer o perigo. Continuo a sonhar, a olhar para o mundo com alguma curiosidade e, de vez em quando, ainda penso:
- Se eu tivesse vinte anos...
Hoje, quando recordo aquele menino dos anos 70, não sei se lhe diria para ter mais pressa ou mais calma. Talvez lhe dissesse simplesmente:
- Aproveita, porque vais crescer, vais ser grande, vais apaixonar-te, vais desapaixonar-te, vais acertar, vais fazer asneiras, vais conhecer pessoas extraordinárias e outras que devias ter conhecido apenas por fotografia. E vais descobrir que a vida adulta não é o lugar onde os sonhos acabam. É o lugar onde finalmente percebemos que alguns sonhos eram mesmo para cumprir.
22 de setembro de 2026
e às vezes assim se fazia rádio
Dizem que a história é escrita pelos vencedores, mas, na Angola dos anos 1970, a história da música também foi gravada por corajosos miúdos e sonoplastas cúmplices que mereciam, no mínimo, um monumento ao microfone.
Para o cidadão comum, o rádio da época era um aparelho sagrado. Ligava-se e ouvia-se o que a censura ou a ordem vigente mandavam. Tudo muito formal, muito certinho, muito "boa noite, caros ouvintes". Mas o que ninguém contava era que, assim que o sol se punha e o chefe da estação ia para casa dormir o sono dos justos, o estúdio de rádio mudava de dono. À meia-noite, a emissora virava um quartel-general da clandestinidade musical.
Imaginem a cena da porta da rádio a ranger devagarinho e, de repente, entram às escondidas três ou quatro músicos carregando uma viola com o braço meio empenado, uma dikanza feito à pressa e um batuque improvisado. O técnico de som, com cara de quem não está a ver nada mas a controlar todos os botões, dava o sinal:
- Malta, o chefe só volta às sete da manhã. Temos cinco horas para gravar a revolução!
Gravava-se nas condições mais surreais do mundo. Não havia cá isolamento acústico de última geração; o isolamento era o silêncio da noite. Se um cão ranhoso resolvesse latir lá fora a meio do refrão, o latido virava ritmo. Se alguém tossisse, repetia-se. A fita estava ali a metro. Microfones eram dois.
Então, a resistência fazia-se em metáforas culinárias e amorosas. Cantava-se sobre uma vizinha refilona que "não deixava a panela ferver", mas toda a gente na cidade sabia perfeitamente que a "panela" era o país e a "vizinha" era a cusca que bufava no bufo. Era o único país do mundo onde uma canção sobre um prato de moamba podia fazer o poder tremer nas bases.
Assim que a fita magnética terminava de rodar, o milagre acontecia. A bobina clandestina era guardada a sete chaves e no dia certo, que era o domingo de manhã, a gente passava uma ou outra.
E no dia seguinte, quando a rádio começava a emitir, a magia da cumplicidade estava feita e o recado na mesa do director estava a reclamação.
- Mas não temos cá essa música. Quem é o autor? - através do silêncio o segredo era mantido e o pobre do sonoplasta assobiava para o lado para não se denunciar. - Os gajos da censura são doidos e fazem cada confusão.
Domingo seguinte lá estava mais uma das músicas gravadas nas tantas da noite. Desta vez foi Zeca Afonso na versão do Beto. Mas os vampiros não disseram nada.
A rádio e os oficiais pensavam que controlavam o ar, mas os músicos amadores dos anos 70 provaram que a noite sempre foi do ritmo. E se a censura tinha as armas, a madrugada tinha as melhores guitarras.
21 de setembro de 2026
hoje fui ao hóquei
O sol das 6 da tarde em Moçâmedes já não queimava, mas o chão do ringue do Atlético já fumegava como uma frigideira de ferro antevendo um jogo de ferro em brasa depois das 9 da soite. Na bancada, a assistência ia-se acomodando entre um copo de cerveja bem gelado, tremoços e um burburinho carregado de certezas táticas que envergonhariam qualquer treinador lá da metrópole.
Mas o verdadeiro espetáculo não era a táctica. Era a convivência entre a gravidade do desporto e a total falta de condições para a praticar com solenidade perante aquele público que merecia uma casa maior.
Nos anos 70, o hóquei em patins em Moçâmedes era uma mistura fina de arte, velocidade e perigo iminente. A começar pelas patins. As rodas, gastas por mil quilómetros de cimento abrasivo, dividiam-se entre as que ainda giravam e as que protestavam a cada curva com um guincho que parecia o de um animal assustado. O material vinha de longe, durava anos a mais e recebia reparações caseiras com fita cola, massa concistente, arame de fardo e uma dose generosa de fé.
O jogo começava, e o piso de cimento tinha regras próprias. Havia o tal buraco do lado esquerdo da baliza do lado do mar, um pequeno desnível no piso que todos os jogadores locais conheciam de cor. A equipa da casa jogava sempre com esse conhecimento estratégico, bastava empurrar a bola na direção do buraco para que ele ganhasse uma trajetória doida, saltando por cima do stick do defesa visitante, enganado tolos e acessórios. Quando o árbitro apitava e os visitantes protestavam, a resposta do público era em coro:
- É o vento do mar, pá! Aprende a ler as correntes!
Depois, havia os equipamentos. As caneleiras eram rijas como tábuas de pinho e as luvas de cabedal tinham um cheiro tão intenso a suor e mofo antigo que funcionavam quase como arma de arremesso. Defender um remate de meia-distância com o peito exigia mais coragem do que ir à pesca, até porque o equipamento de proteção do guarda-redes parecia montado com sobras de almofadas e mantas velhas.
O ponto alto da tarde, contudo, dava-se quando, uma figura local que se auto-proclamara cronometrista oficial, perdia a cabeça com uma decisão do árbitro. Sem relógio eletrónico — apenas um cronómetro de bolso que já tinha pertencido ao seu avô, ele gesticulava tanto com os braços nas jogadas polémicas que o tempo regulamentar passava a ser uma questão puramente subjetiva.
- Quanto tempo falta?! - gritava o treinador de fora.
- Falta o tempo que for preciso para a gente empatar isto! - respondia ele com toda a serenidade institucional.
E no fim, ganhasse quem ganhasse, o protocolo era sagrado. Desatavam-se as correias de cabedal, descalçavam-se as botas pesadas, ficavam os pés a respirar a brisa da noite e a discussão continuava, agora com o mesmo ardor, mas com uma cerveja na mão e o som das muitas vozes ao fundo. Porque em Moçâmedes, o hóquei podia não ter os requintes dos rinques europeus, mas tinha algo muito melhor: o charme inconfundível do improviso, da poeira e da boa gargalhada no final do jogo e os encontros no bar do Sporting.
20 de setembro de 2026
19 de setembro de 2026
PERTINÊNCIAS 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível
Fui às Hortas
Eu tinha um plano e disse-o à minha mãe:
- Vou às hortas. Chegou a hora de ver o que consumirmos, de ter contacto com a terra, de ver a comunhão da natureza com o que comemos. Não foi exactamente assim porque naquela altura eu não sabia falar caro e tão claro. O meu português era mais suave, mais oral. Mas agora eu aprendi e conto com as palavras de hoje, mas com o pensamento de então.
Ela olhou para mim por cima dos óculos. Não disse uma palavra, mas o olhar trazia uns tantos anos de sabedoria acumulada sobre as minhas fases. Já tinha sido a fase da pão e a fase do aquário. Agora era a horta.
Peguei na bicicleta e lá fui em direcção ao Bero, à horta do Sr. Carriço. Ele tinha acabado de sair, Levou coisas para o mercado, me disseram. O ar fresco do campo parecia prometer um dia bem passado. À minha frente, estendia-se um mar verde. Um mar verde profundamente misterioso, onde para mim tudo parecia rigorosamente a mesma coisa - ervas com folhas.
- Bom, vou começar pelo básico - declarei, agachando-me junto a um canteiro com ar entendido. Olha para o vigor destas folhas! Isto sim, é uma alface biológica de primeira categoria.- Foi o que eu pensei mas para afastar mau-olhado não disse nada.
- Isso é salsa, menino — disse o capataz parecendo que estava a ler o que eu tinha pensado
- Salsa graúda - disse eu rapidamente, para manter o meu prestígio.
Aproximei-me de um arbusto que me pareceu ter potencial gastronómico. Tinha umas coisas penduradas que me pareceram, sem margem para dúvidas, pequenos frutos em gestação.
- Vejam só! Belos frutos! Quem diria que a terra aqui é tão fértil?
O capataz riu, apoiou-se no pau que trazia sempre, olhou para mim, cuspiu para o lado e disse:
- Isso são tomates. E ainda estão verdes. Se comer isso agora, passa a noite a falar com o cagatório.
Agradeci a dica técnica com um aceno digno e mudei de sector. Decidi que o meu forte seriam os tubérculos. Os tubérculos não enganam: estão debaixo da terra, ninguém vê, logo a probabilidade de eu passar vergonha diminuía drasticamente.
Encontrei umas ramagens verdes a sair do chão.
- Cenouras! - disse triunfalmente. - Sinto o cheiro a cenoura daqui!
Agarrei nos ramos com a determinação de um agricultor ancestral e puxei com toda a força. Saí disparado para trás, caí de costas em cima de um calhau e fiquei a olhar para o troféu na minha mão: uma raiz miserável, do tamanho de um palito, acompanhada por um carolo minúsculo e atrofiado que parecia pedir-me desculpa por existir.
O capataz abanou a cabeça, coçou a testa e comentou para o ar:
- Arrancou erva... Isso nem para os coelhos serve.
- Estava a testar a resistência do solo — justifiquei-me, limpando a terra das calções e tentando recuperar a postura.
Voltei para casa. No caminho, passei pela quitanda da Laurinda, olhei bem para uma alface verdadeira, toquei nos tomates que eu pensava já nasciam vermelhos e prometi a mim mesmo que a minha próxima comunhão com a terra seria, exclusivamente, através de um bom prato de sopa servido à mesa pela minha mãe, sem certificado de origem.
18 de setembro de 2026
Uma hora de rock em 1972 - Formula POP
Porque uma hora de rock, em 1972, não era simplesmente uma hora. Era uma missão. Cada um chegava à rádio com uma pilha de discos debaixo do braço, alguns cuidadosamente escolhidos e outros que tinham aparecido sabe-se lá de onde. Vinil preto, capas grandes, fotografias de músicos com cabelos compridos e expressões que pareciam dizer:
- Nós sabemos uma coisa que vocês ainda não sabem. Eu tenho este que mais ninguém por aqui tem!
Eu também queria parecer que sabia e que tinha. Não sabia e não tinha. Rock não era a minha escolha de compra. Balada sim. Mas aquela hora era de rock e por isso se chamava Formula Pop. Eu só tinha um microfone à frente, um prato de gira discos de cada lado e muita fé em fazer. E isso dava-me uma certa autoridade.
O programa começava com uma voz muito séria e que dizia qualquer coisa como -Boa tarde. Está no ar mais uma hora dedicada ao melhor do rock... Dizer "rock" ao microfone em 1972 fazia-nos sentir quase revolucionários. Depois vinha a música. E que música! Os discos rodavam no gira-discos da rádio e, durante alguns minutos, ninguém falava. O locutor ficava a olhar para o ponteiro, atento à agulha. Um risco no disco e lá vinha um crac, para além de ter de justificar ao dono o que é que tinha acontecido e era uma carga de trabalhos.
Outro risco e outro crac. Mas esse crac já tinha vindo de casa assim. Era de ter sido tanto tocado, tanto emprestado que acho se gastou, dizia para me animar. Mas ninguém reclamava. Era rock. E o rock, naquele tempo, tinha direito a tudo. Entre uma música e outra, era preciso falar. Essa era a parte perigosa. De vez em quando saía argolada porque o disco estava trocado na capa.
- E acabámos de ouvir esta magnífica banda... - Pausa. Olhar para a capa do disco. - ...que dispensa apresentações. Porque a gente tinha dado com a marosca. Mas fechado o microfone saía palavrão contra o autor que normalmente não era o dono do disco. Era uma frase maravilhosa - que dispensa apresentações - Servia para tudo, principalmente quando nós próprios não sabíamos muito bem quem eram. Depois anunciávamos a próxima:
- E agora, vamos ouvir mais um grande tema...
Mais uma vez, a solução universal. Uma hora inteira dava para dizer "grande tema" umas quinze vezes sem ninguém notar. O problema era o relógio. Uma hora de rádio parecia muito tempo antes do programa começar. Depois, já com vinte minutos de música, descobríamos que afinal uma hora passava depressa como um solo de guitarra. E ainda faltavam três discos. Começávamos então a cortar.
- Este tema fica para uma próxima emissão... Era mentira. Nunca mais nos lembrávamos na próxima emissão. Mas ficava bem, isso ficava. Dava aspecto de continuidade.
Acabado o programa lá fora continuava tudo igual. Os carros, as pessoas, as preocupações, os vizinhos e o mundo. Mas durante uma hora tínhamos conseguido uma coisa extraordinária, em 1972, dentro daquela pequena rádio, o mundo tinha cabido num gira-discos.
E o mais curioso é que, quando hoje penso nessa hora de rock, já não me lembro apenas das músicas. Lembro-me do cheiro dos discos, do ruído da agulha, das capas enormes, do medo de deixar o silêncio entrar no ar e daquela sensação maravilhosa de estar a fazer rádio quando fazer rádio ainda parecia uma aventura. Uma hora. Sessenta minutos. E uma quantidade de rock suficiente para convencer qualquer rapaz de 1972 de que o futuro, afinal, podia ter uma guitarra elétrica.
Ao Maló, Van Der Kellen, Carlos Matias e o disco cracou na hora de dizer mais nomes. Talvez o Luís Mendes se lembre.
16 de setembro de 2026
Programa 132 - K'arranca às Quartas
A esplanada dos mais velhos
Os mais velhos sentavam-se sempre no mesmo sítio. Tinham mesa marcada sem que houvesse marcação. Bastava aparecerem e a mesa já era deles. O café podia estar cheio, mas aquela mesa tinha donos. Talvez por direito adquirido. Talvez por cansaço dos empregados. Talvez apenas por respeito e todos sabiam que eles não iam faltar. Acho mesmo que o único motivo válido para faltar era morrer.
Eu sentava-me por perto e ouvia. Eu e uma catrefada de adolescentes sentávamos duas mesas mais para o lado direito deles. Falavam de futebol, de mulheres, de política, de pesca, de doenças e, sobretudo, do tempo. O tempo era um assunto muito importante.
- Antigamente é que fazia calor!
- Agora já não há calor como havia.
- E as chuvas? Essas então...
Tudo antigamente era melhor. Até o frio. Depois começavam as histórias. Um dizia que tinha conhecido um homem que tinha pescado um peixe tão grande que precisara de três homens para o tirar da água. Outro corrigia rindo e dizia que achava que tinham sido quatro. Eu ficava fascinado, de olhos arregalados a lhes ouvir. Não pelo peixe, que provavelmente nunca tinha sido pescado, mas pela facilidade com que aqueles homens mais velhos podiam aparecer numa história onde inicialmente só havia um silêncio. Era assim que funcionava a memória. Uma história começava pequena e, à medida que passava de pessoa para pessoa, engordava. O mais engraçado era que ninguém parecia preocupado com a verdade. A verdade era uma coisa pouco interessante. O importante era a história ser boa. E eu aprendi ali uma coisa que só muito mais tarde compreendi: os adultos também inventavam. A diferença é que chamavam àquilo memória.
Às vezes perguntavam-me:
- Estás a ouvir?
Eu dizia que sim, porque tinha aprendido que, quando um adulto conta uma história, o mais prudente é não interromper. Pode haver um peixe enorme pelo meio. E havia sempre. Hoje, quando penso nessas tardes de 1970, lembro-me menos do que diziam e mais da maneira como diziam. Tinham tempo. Tempo para contar uma história que podia durar meia hora e não chegar a lado nenhum. Tempo para discutir uma coisa que já tinha acontecido há vinte anos. Tempo para beber um café lentamente. Nós hoje temos relógios que sabem tudo. Eles tinham relógios que só sabiam uma coisa: que ainda era cedo. Talvez seja por isso que aquelas esplanadas ficaram na minha memória. Porque eu era miúdo, eles eram velhos e, durante algumas horas, ninguém tinha pressa de chegar ao futuro.
O futuro podia esperar. Até porque, naquela época, ainda não sabíamos que um dia íamos ter telemóveis, internet e tanta pressa para não dizer absolutamente nada.
15 de setembro de 2026
eu e a inteligência artificial
Me sento, já não com a sebenta de capa encarnada mas frente ao computador. Haverá no mundo desgraça maior do que a página em branco duma tela a cintilar para mim? Aquele cursor a piscar, implacável, como uma lombriga vertical à espera que eu o faça avançar à frente de letras. Ele pisca mas não avança. Olho-o como que hipnótizado e ele nada, melhor, pisca. Durante séculos, um escritor sofria em silêncio, fumava cigarros baratos, bebia café frio ou vinho de fraca qualidade, amassava papéis e culpava a musa inspiradora pela esterilidade mental de uma terça-feira ventosa. Hoje, o sofrimento acabou, temos a Inteligência Artificial, essa grande colega que nunca dorme, nunca reclama e finge que acha os nossos pensamentos profundamente originais.
A verdade nua e crua é que a Inteligência Artificial veio democratizar a preguiça mental. Antigamente, para ser um preguiçoso de elite, exigia-se algum talento, era preciso inventar desculpas mirabolantes para não entregar o trabalho, adiar prazos com pretextos vagos ou simplesmente olhar para o teto durante três horas seguidas à espera de uma epifania que nunca vinha. Agora, não. Basta abrir uma janela do computador, escrever "escreve aí uma crónica sobre a minha inércia existencial com um tom espirituoso" e ir ver se o vento acalmou. Uns segundos depois, temos um texto impecável, polido, cheio de metáforas sobre o vazio cósmico e sem um único erro ortográfico. É obra. Nem uma letra trocada, nem uma vírgula num deserto plantada, só travessões e dois pontos, como quem semeia trigo num campo de letras. Ou será joio?
O problema é que este atalho está-nos a transformar em caracóis intelectuais. Se continuarmos a delegar o esforço de juntar sujeito, verbo e predicado a um servidor localizado num armazém gelado na Conchichina, que não sei bem onde fica, mas deve ser lá para os lados do fim-do-mundo, daqui a uns anos o nosso cérebro vai atrofiar ao ponto de só conseguirmos comunicar através de grunhidos e polegares levantados ou emojis préviamente desenhados. O ser humano evoluiu a caçar mamutes, bisontes, a inventar a roda, a criar uma linha de montagem mas o cume da nossa evolução vai ser a admirável capacidade de carregar na tecla Enter para que uma máquina faça o esforço por nós.
Ironias à parte, há algo profundamente poético nesta simbiose entre a nossa preguiça ancestral e a alta tecnologia. A máquina oferece o engenho e nós oferecemos a nobre arte de não fazer nada. Juntos formamos a equipa perfeita. E se me perguntam se fui eu que escreveu este texto ou se recorri a um algoritmo, respondo com a honestidade que me caracteriza, deixem-me ir ver o que a inteligência artificial tem a dizer sobre o assunto, porque pensar dá um trabalho terrível e como ainda não acabou o verão, não trabalho para aquecer.
14 de setembro de 2026
pedradas nos castanheiros
Quando eu era adolescente havia uma ciência rigorosa, quase física e de alta precisão, na arte de atirar pedras às árvores. Eu nunca fui bom nessa disciplina. Para comer castanhas na frente da casa do Sr. Martins alguém tinha que atirar pedra por mim. Hoje em dia, os jovens descarregam apps e jogam jogos num telemóvel, mas quando eu era adolescente os jogos eram o chão, as padras e pedrinhas e o verdadeiro ecrán eram as copas das árvores que davam castanhas, que não são as castanhas que se compra no supermecardo.
O objetivo teórico era simples que era fazer cair o fruto, a castanha. O objetivo prático terminava, noventa por cento das vezes, com três pedras a passarem sobre a árvore, um ou outro vidro de janela partido e nenhuma fruta no chão.
Existiam vários perfis de atiradores na nossa malta. Um que estudava a trajetória, limpava a pedra na camisola, media o vento com o dedão molhado e falhava o alvo por quatro metros, acertando com precisão cirúrgica na telha da casa do vizinho mais rabugento da rua. Outro ignorava a pedra fina e delicada, escolhia autênticos calhaus. Cá para mim ele não queria apanhar fruta; queria derrubar a árvore. O lançamento terminava invariavelmente com um estiramento muscular no ombro e a pedra a cair verticalmente a dois centímetros do seu próprio pé. O Zé tinha uma pontaria assustadora. Acertava exatamente na castanha mais bonita, mas com tanta força que a transformava em compota instantânea ainda no ar. Chegava ao chão apenas um caroço envolvido numa nuvem de polpa amassada.
O verdadeiro drama era quando a pedra ficava presa entre os galhos. Ninguém aceitava perder uma boa pedra, afinal, tínhamos gasto três minutos a escolhê-la por ser perfeita para caber entre dedos. A solução era atirar uma segunda pedra para desembrulhar a outra. O resultado? Duas pedras presas e a fruta continuava lá em cima, a rir-se da nossa ignorância.
O auge do método científico era a chegada do dono da casa em frente, avisado pelo som cadenciado de pedradas contra o telhado ou janelas. A aceleração que atingíamos na fuga provava que, se a gravidade não nos ajudava a fazer cair as castanhas, a adrenalina garantia-nos pelo menos a velocidade necessária para ultrapassar qualquer distância.
Olhando para trás, a árvore comigo nunca perdeu um único combate. Mas nós voltávamos no dia seguinte, de bolsos pesados e pontaria renovada, convictos de que a física e o jeito, finalmente, estariam do meu lado, porque do Zé estavam sempre.




