10 de fevereiro de 2026

eu, o deserto e a cidade

O deserto não era o Saara, mas sempre me disseram que era o mais antigo do mundo e isso era o suficiente para fazer um homem esquecer o próprio nome se ficasse tempo demais sob o sol dele. O curioso é que, do topo da duna mais alta, ainda era possível ver as luzes da cidade cintilando no horizonte, como um céu estrelado na terra

Eu, sentado no capôt de um jipe que do senhor Miranda que por acaso era também Leovegildo, esperava a hora de voltar

No deserto, quando eu ia ver-lhe um pedaço, ainda não tinham inventado o GPS e nem eu tinha deixado migalhas ou pedrinhas para saber o caminho de volta. Se não fossem as luzinhas da cidade eu ia dizer que estava perdido. Eles não. Eles sabiam que era para aquele lado.  Eu no deserto era um perdido de dia e um desachado mal o sol se punha. Esqueci de nascer com sentido de orientação geográfica. O sr. Miranda já sabia a me perguntava sempre para que lado nós voltamos. Sempre errava. O Rui sabia. Era mesmo só defeito de fabrico, pensava eu.

Seguindo a constelação que se via em terra eu estava seguro. Eu sabia que o sr. Miranda jamais se ia perder. 

De repente, o silêncio foi quebrado por um som seco. Não era um motor. Era o bater de asas de um drone de entrega, pintado de preto fosco para sumir na noite que caía.

O deserto guarda segredos, mas apenas para aqueles que sabem que a cidade é apenas uma miragem que dura um pouco mais que as outras.


Sanzalando

9 de fevereiro de 2026

sentir saudade sem mágoa

Sentir saudade sem mágoa é uma forma de gratidão retroativa. É como visitar uma casa onde já moramos, as paredes podem estar descascadas agora ou até com novas pinturas, mas o que lembramos é do cheiro da comida da avó, dos risos, das estórias contadas nos serões do antigamente.
Antigamente, o tempo parecia ter outra densidade. As tardes de domingo duravam um século e o tédio era o berço da criatividade, não uma ansiedade a ser preenchida por notificações.
Lembramos do peso de um álbum de fotos, do esforço de girar o disco de um telefone ou da espera por uma carta que poderia chegar com boas ou más notícias. 
Há uma doçura em lembrar de quando não sabíamos de tudo. A ignorância sobre o resto do mundo tornava a nossa rua o universo inteiro.
A mágoa nasce do desejo impossível de voltar. Já a saudade serena nasce da aceitação de que aqueles tempos precisavam acabar para que estes pudessem existir. As memórias não são âncoras que nos prendem ao fundo, são velas que nos ajudam a navegar agora, lembrando-nos de que somos feitos de momentos bons.
É um privilégio ter um passado que valha a pena ser visitado mentalmente. Se a lembrança traz um sorriso antes de um suspiro, então a missão daquele tempo foi cumprida.
Eu brinquei, eu me magoei, eu magoei. De outro modo - eu vivi. Esse é o meu passado, vou fazer como mais com ele para além do revisitar?

Sanzalando

8 de fevereiro de 2026

O Superpoder Mais Barato do Mundo

Dizem que votar é um direito. Eu cá acho que é mais é um superpoder. Não dá para voar, não dá para ficar invisível, mas dá para mandar bitaites com selo oficial. E isso, em Portugal, é coisa séria.

O voto é aquela rara ocasião em que o cidadão comum, que normalmente só manda no comando da televisão passa a mandar, teoricamente e nem que seja por um pequeno instante, no destino da nação. Nem que seja por dois minutos, dentro de uma cabine que parece um provador de loja dos anos 80, com uma caneta presa por um fio, tal como nós estamos à vida, como se alguém fosse fugir com ela para fundar um novo partido: o Partido da Caneta Roubada.

Há quem diga: 

- Eh pá, o meu voto não conta para nada.

Pois não, mas também não conta muito não ir ao ginásio uma vez por mês, e depois queixamo-nos da barriga grande, da flacidez muscular ou da falta de vontade de fazer coisinhas. A democracia também faz barriga se ninguém a exercita. Fica mole, cansada e começa a prometer coisas que nunca cumpre.

Votar tem outro grande benefício: dá-nos o direito moral de reclamar. Quem vota pode dizer com autoridade: 

- Eu avisei. 

Quem não vota só pode dizer: 

- Eu estava ocupado a ver uma série ou está um frio do caraças.

E convenhamos: não há nada mais satisfatório do que reclamar com fundamento. É quase terapêutico. Sai mais barato do que a ida a um psicólogo e não engorda, ao contrário dos pastéis de nata.

Além disso, votar é um ótimo exercício de humildade. Entramos cheios de certezas, saímos cheios de dúvidas e, no meio, percebemos que afinal não sabemos assim tanto sobre programas eleitorais, mas sabemos muito sobre desconfiança geral. Ainda assim, escolhemos. Porque a alternativa é deixar que alguém  escolha por nós e isso é como deixar outro decidir o jantar: acabamos sempre com algo que não gostamos e ainda pagamos a conta.

No fundo, votar é como plantar uma árvore. Não dá sombra logo, mas se ninguém plantar, daqui a uns anos estamos todos ao sol, a queixar-nos do calor e a dizer:

- Isto antigamente não era assim.

Pois não. Antigamente alguém foi lá, votou, plantou e fez o trabalho chato.

Por isso, vá votar. Nem que seja só para poder dizer depois, com ar importante: 

- Eu fiz a minha parte.

Em tempos de super-heróis, é bom lembrar que o verdadeiro herói nacional não usa capa. Usa cartão de eleitor, paciência e uma caneta presa por um cordel.



Sanzalando

6 de fevereiro de 2026

O Solidário de Ocasião ou o Drama da Sopa de Letrinhas

Diz o ditado popular que "fazer o bem sem olhar a quem" é a virtude máxima. É uma frase linda, digna de moldura com flores secas, mas a verdade é que o ser humano moderno — esse bicho ansioso e cheio de boas intenções mal coordenadas , raramente consegue ser solidário sem, pelo menos, dar uma espreitadela para ver se o telemóvel está focado e tudo fica registado para memória futura.

A solidariedade, hoje em dia, começa muitas vezes com um dilema logístico. Queremos ajudar, mas o universo parece conspirar contra a nossa santidade repentina.

Tudo começa naquele momento com chuva, introspecção e em que decidimos ser pessoas melhores ou melhor pessoa no nosso intimo. Abrimos o armário e decretamos: Vou dar isto tudo aos pobrezinhos! É um momento catártico. O problema é que, no nosso delírio altruísta, achamos que a carência alheia é diretamente proporcional à nossa falta de noção.

Separamos para doação:

- Uma t-shirt de um festival de 2004 com um furo estratégico na axila ou amarelecida das lavagens.

- Umas sapatilhas a dar para o desgaste de uso e desbotado de gasto.

- Um comando de televisão que já não existe no mercado, ou aqule caixa de transformadores que já nem nos lembramos para que serviam.

Olhamos para aquele monte de tralha e sentimos um calorzinho no peito. Sou o Gandhi da Porcalhota ou simplesmente o Zé da Ria, pensamos, enquanto ignoramos que estamos apenas a transferir o nosso lixo doméstico para uma instituição que já tem t-shirts de festivais suficientes para estofar um estádio.

Depois, temos o clássico do supermercado. À entrada, recebemos o saco plástico, que transportamos como a "capa de herói" do cidadão comum. É ali que a psicologia humana se torna fascinante.

Há quem entre em pânico de performance. Olham para as prateleiras e pensam: "Se eu levar massa, sou básico. Se levar grão, sou conservador. Será que os necessitados gostam de leite de aveia com sabor a baunilha?". Acabam por comprar três quilos de quinoa biológica e um frasco de corações de alcachofra, porque "toda a gente merece um mimo gourmet".

Do outro lado, temos o solidário estratégico, que passa o tempo todo a espreitar o carrinho do vizinho. Se o senhor ao lado leva dez pacotes de arroz, ele sente-se na obrigação moral de levar doze. É a única competição desportiva onde o prémio é uma palmadinha nas costas dada por um escuteiro de 12 anos.

Não podemos esquecer a solidariedade das redes sociais. É aquela partilha de um vídeo emocionante acompanhada pela legenda: "O mundo precisa de mais disto. Partilhem!".

É a forma mais eficiente de ser bondoso: não custa dinheiro, não suja as mãos e ainda nos dá aquele brilho de "pessoa consciente" nos algoritmos. Se o mundo fosse salvo por partilhas de Facebook, já estaríamos todos a viver num jardim do paraíso com Wi-Fi gratuito e unicórnios a distribuir sumos naturais e outras mordomias.

A verdade é que a solidariedade real é muito menos charmosa. É aquele vizinho que ajuda a senhora do terceiro andar a carregar as compras sem ninguém estar a filmar. É a pessoa que faz um donativo mensal por débito direto e se esquece que o faz. É, no fundo, perceber que o outro não é um depósito para a nossa consciência pesada, mas alguém que, às vezes, só precisa que não o ignoremos no elevador.

Ser solidário é um desporto radical de humildade. E se, pelo caminho, conseguirmos não dar aquele pijama de flanela com buracos, já estamos no caminho certo para a canonização.


Sanzalando

5 de fevereiro de 2026

A guerra contra os Donos da Razão

Há pessoas que não têm opinião. Têm sentença. Não dizem “acho que…”. Dizem “é assim.” Ponto final. Se discordarmos, é porque ainda não percebemos. Se insistirmos, é porque somos teimosos. Se tivermos razão, foi sorte.

Estas pessoas são conhecidas como Donos da Razão. Andam por aí como se tivessem um certificado invisível pendurado ao pescoço: “Atenção: estou sempre certo desde 1999.”

Tentar discutir com um Dono da Razão é como jogar xadrez com um pombo. O pombo derruba as peças, faz cocó no tabuleiro e no fim sai a andar como se tivesse ganho.

Nós até começamos com boas intenções:
- Olha, acho que isso não é bem assim…
E o Dono da Razão responde:
- É sim. Eu sei.

Pronto. Acabou. Nem vale a pena ligar o cérebro. Aquilo já vem com resposta automática. É tipo assistente virtual, mas com menos atualizações e mais convicção.

O problema é que eles existem em todo o lado: no trabalho, na família, no grupo do WhatsApp e até na fila do pão. Há sempre alguém que explica ao padeiro como se faz pão. Ao padeiro! Um homem que faz pão desde antes de nós sabermos dizer “carcaça”, já ele chamava papo-seco de olhos fechados.

A nossa luta diária é tentar manter a sanidade. Usamos frases de sobrevivência como:
— Pois, tens razão… (mesmo quando não têm)
— Ah, interessante… (não é)
— Não sabia! (sabíamos, mas desistimos)

Com o tempo, aprendemos uma grande lição: não se vence um Dono da Razão. No máximo, empata-se. E o empate consiste em sorrir, mudar de assunto e pensar: “Pronto, hoje já alimentei o ego de alguém.”

Porque, no fundo, lutar contra quem tem sempre a mania que está certo é como discutir com o GPS quando já estamos perdidos. Ele recalcula, nós suspiramos, e a vida continua.

E talvez a verdadeira vitória seja esta: não ganhar a discussão… mas chegar ao fim do dia com paciência suficiente para não nos tornarmos também Donos da Razão.



Sanzalando

4 de fevereiro de 2026

Programa K'arranca às Quartas 104



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 04 de Fevereiro 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Qualidade de vida
Hoje falei de livros que para lá de papel também cheiram a pólvora, como Mayombe de Pepetela ou Combater Duas Vezes de margarida Paredes
Esta Música tem uma história trouxe Jorge Palma e A gente vai continuar, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje Conjunto Os Kriptons, uma banda de Angola Colonial
Poema Palavras de manuel Alegre na voz de Mário Viegas
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de um poeta brasileiro Osmar Casagrande
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou as fotografias do antigamente e as de agora
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Tesourinhos Musicais 79 - Os Kriptons - K'arranca às Quartas 104


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Livro - Cheiro a Papel e Pólvora - K'arranca às Quartas 104


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Esta Musica tem uma História 46 - Jorge Palma - A Gente vai Continuar - K'arranca às Quartas 105


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Crónica de João Porleinha da Silva (10) - K'arranca às Quartas 104


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Crónica de Carlos Osório (3) - K'arranca às Quartas 104


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Crónica 92 - K'arranca às Quartas 104


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O General, o Peru e a Frequência de Rádio

Num lugar, entre o Bié e o Huambo, em 1982, o Cabo Pé-de-Vento tinha uma missão bem mais importante que qualquer estratégia militar: ele precisava escoltar o General Mutamba e, mais importante, o próprio almoço do General.

O almoço era um peru gordo e mal-encarado que todos chamavam de Marechal. O problema? O Marechal não queria ser canja e devido à sua violência e intransigência passou de alimento a animal de estimação.

No meio de uma picada o jipe do Pé-de-Vento deu um estoirado barulho e parou. Do outro lado da mata, surgiu um grupo dos rebeldes inimigos. O silêncio foi total. Armas apontadas, suor escorre mesmo se não está calor... até que o peru, nervoso e, se calhar a estranhar tanto sossego e falta de pulos, soltou um GLU-GLU-GLU tão alto que parecia uma rajada de metralhadora.

O rádio de um dos soldados inimigos chiou:

-Aqui Posto Delta, qual é a situação? Câmbio.

Pé-de-Vento, que era mais esperto que a fome, gritou antes que alguém atirasse: 

Não atira, manos! Estamos a testar uma nova arma biológica soviética! É o emissor de ondas subsônicas disfarçado de ave!

O sargento do outro lado, um homem chamado Zeca Curioso, baixou a arma, confuso: 

- Arma biológica? Esse bicho aí que faz barulho de pneu furado?

- Exatamente! — mentiu Pé-de-Vento, ganhando confiança. - Se ele cantar três vezes seguidas, a frequência do rádio de vocês entra em curto-circuito e explode a bateria na vossa cara. É tecnologia de ponta, diretamente de Moscovo! - suando em bica até parecia ter mergulhado no rio.

Nesse momento, o peru, que parecia ter entendido o plano, deu mais dois GLU-GLU furiosos e tentou bicar a bota do Zeca Curioso.

Os soldados inimigos deram um salto para trás. Zeca, suando frio, gritou: 

- Pah! Levem esse bicho daqui! Não queremos problemas com a tecnologia! Mas... vocês têm tabaco?

Pé-de-Vento sorriu. No final, a guerra daquela tarde foi resolvida na base da troca:

  • Pelo lado do Pé-de-Vento: Dois maços de cigarro e a promessa de não ligar a "arma biológica".

  • Pelo lado do Zeca: Ajudar a empurrar o jipe para pegar.

Dizem que o General Mutamba nunca entendeu porque o seu peru de estimação voltou para Luanda com uma fita vermelha no pescoço e status de herói nacional. E o Cabo Pé-de-Vento? Bom, ele sempre dizia que em Angola, quem tem um peru e uma boa conversa, não precisa de blindado.



Sanzalando

3 de fevereiro de 2026

eu, a memória e os nonkakus

Houve um tempo em que o mundo cabia num par de calções gastos ou já rotos e nuns pés calçados com sandálias de pneu, que na minha terra jurei chamar nonkakus. Não eram sandálias: eram armaduras. Feitas de borracha rija de pneu gasto, cheiravam a estrada e a oficina, e tinham fivelas que rangiam como se protestassem contra cada passo. Mas aguentavam tudo: espinhos, pedras, poças de água barrenta e até a queimadura do chão quente ao meio-dia.

Os calções eram curtos por necessidade e por liberdade. Curto era sinónimo de correr mais depressa. As pernas, sempre riscadas de arranhões, eram como mapas de batalhas: aqui uma queda de bicicleta, ali uma pedrada mal calculada, mais acima o arranhão dum espinho de uma silva vingativa. Cada marca tinha uma história, e todas davam direito a exagero.

Saía de casa depois do pequeno-almoço e só regressava quando o sol começava a corar o céu, com a promessa sagrada: “Já vou, mãe!”, que queria dizer “daqui a uma hora… talvez”. As sandálias de pneu batiam no chão, chap-chap como um tambor de guerra anunciando mais uma aventura: ir ao rio, jogar à bola com uma meia enrolada, subir à figueira do senhor  Martins (sempre às escondidas) ou espreitar o quintal onde diziam que havia uma cobra, que afinal era sempre um lagarto muito ofendido.

No verão, os pés ganhavam uma cor própria, uma espécie de preto-oficina, mistura de pó, suor e sol. E mesmo assim, ninguém se queixava. Porque aqueles pés sabiam o caminho para todo o lado: para a mercearia onde havia rebuçados e podia comprar fiado, para o campo de futebol improvisado, para o sítio secreto onde se guardavam berlindes e segredos. Todo o lado era o meu lado, desde que não saísse da cidade do alcatrão. Eu era menino do mato, mas só na cidade do alcatrão. Para lá dele eu era um perdido medricas de me perder e não encontrar o caminho de volta.

Hoje, quando calço sapatos sérios, desses que prometem postura e respeitabilidade, às vezes sinto a falta do barulho seco das sandálias de pneu e da leveza dos calções. Não era só roupa: era uma maneira de estar no mundo. Com os joelhos ao vento e o coração sem relógio.

E, no fundo, ainda ando por aí assim — só que agora as sandálias são invisíveis, e os calções ficaram guardados numa gaveta chamada memória, que cheira vagamente a borracha quente e a tardes sem pressa.



Sanzalando

2 de fevereiro de 2026

sonho sem realidade

Eu tinha para aí quinze anos e um coração com mais botões do que a camisa da farda de gala de um tropa. Cada botão era um segredo e quase todos tinham o nome dela. Bastava ela passar na frente da minha casa ou vê-la no corredor do Liceu para o ar ficar mais fino, mais assim como se alguém tivesse aberto uma janela invisível para o mar, mesmo ali, longe da praia, eu sentia cheiro a sal.

Ensaiava frases ao espelho:
“Gosto de ti.” “Queres ir dar uma volta?” “Sabes que és bonita?”

Mas na hora, a língua ficava de férias e só sobrava um “olá” torto, meio engasgado, que ela respondia com simpatia, aquela simpatia que não promete nada, mas também não magoa. E isso era o pior: não doía o suficiente para desistir, nem alegrava o bastante para sonhar.

À noite, deitado, eu inventava filmes na cabeça. Nuns, ela sorria só para mim. Noutros, ela dizia “somos só amigos”, com uma voz tão suave que parecia um pedido de desculpas. Bolas, acordava sempre antes do final. O raio da realidade tem menos imaginação que um sonho.

Ser adolescente apaixonado e não correspondido é isso. É ter um coração a fazer barulho dentro do peito, como um conjunto rock a ensaiar numa garagem, enquanto o mundo lá fora passa, distraído, sem bilhete nem interesse para o concerto.


Sanzalando

1 de fevereiro de 2026

deve ter sido grito de bruxa

Eu tinha um cronômetro no coração que ainda era de corda e que tinha sido do meu pai. Para mim tudo com a filha do senhor Júlio era ontem, mesmo que o cronómetro me dissesse que era agora. Tantas vezes tinha planeado a ida ao cinema, decorado aquele poema romântico escrito a olhar para a varanda dela, as calças à boca de sino engomadas pela avó. Ela era o meu porto seguro, ela era a amiga para a vida em conjunto, deste aquele ontem até um futuro imprevisível. Mas nunca o plano era executado, nunca o poema foi dito, nunca as calças foram por ela elogiadas, apesar de vários filmes vistos.

Certa tarde, no lancil do passeio onde brincavamos ao fim de todas as tardes, decidi que o silêncio estava barulhento demais. 

- Não faz sentido a gente não ser a gente de verdade, nos gostamos mas nunca nos falamos de nós - disse aquilo como poia ter dito que os camiões voavam, suava, tremia e sentia um medo de me ouvir que não tem como explicar como é que aquelas palavras saíram.

Ela fechou os olhos. Na sua voz calma, serena que eu ouvi como estivesse a levar com uma bola de canhão no peito me disse:

- És é a melhor parte do meu dia. Mas eu não quero namorar. Nem contigo nem com ninguém. Seremos amigos sempre se não me falares mais sobre isto. 

O mundo acabou naquele instante depois de uma pancada enorme no orgulho, na estima e na coragem. Naquele instante aprendi que o sentimento sentido por cada um não tem a mesma intensidade nas pessoas à volta.

Balbuciei qualquer coisa que nem eu sei o quê enquanto tentava pensar.

Tinha duas escolhas: ficar implorando e transformar aquela amizade num campo de batalha ou aceitar que o não dela era sobre o momento dela, e não sobre o meu valor.

Escolhi respirar. Arquivei todos os planos mentais e decidi que, se não podia ser o namorado, ainda queria ser quem a fazia rir. Só que, sem esperar nada em troca. 

Um dia, muitos anos depois, lhe falei novamente do assunto arquivado num lancil de passeio. Estava na Universidade, barba por fazer, cabelo despenteado, ar martelado num revolucionário modo de querer ver o mundo.

Me olhou, já não serena, já sem a calma de tantos anos atrás.

- Desaparece! gritou

E até hoje eu ainda não apareci. Deve ter sido grito de bruxa.

Sanzalando

31 de janeiro de 2026

O plano Infalível (ou nem por isso)

Na minha cidade tinha uma paróquia, e nessa paróquia entre jovens e padre abriu-se uma discoteca, assim um lugar para ouvir música, conversar sério, viver seriamente a adolescência. Tinha banquinhos, mesinhas mas não tinha bebidas alcoólicas nem nada parecido. Era mesmo conviver na paróquia. Eu, além de pôr discos também tinha outros horizontes, mais de 20% dos que eram mostráveis, assim numas contas por baixo. Eu já lá tinha visto, vou só chamar de Clara, porque é claro que nunca iria dizer aqui o nome dela. Ela também era minha colega no liceu. Outro contexto, outras visões, a mesma pessoa. Tentei ali abordá-la com uma observação profunda sobre literatura moderna. Ela simplesmente ignorou. Recuei dois passos, voltei-me para ela e disparei que Kafka não era apreciado naqueles ambientes. Olhou-me, assim como quem estava prestes a estrangular o meu fino e bem desenhado pescoço. 

- Nem aqui me deixas em paz?!

- Este silêncio que se fez mete medo. Nem os Lusíadas metem tanto.

Ela tossiu, olhou-me de alto a baixo, a cara tão séria quase me fez recuar em fuga corrida, pelo que tropecei num banquinho, esparramei-me no chão que até parecia marcador de livro de tão direitinho eu estava.

Os 20% que eu tinha de expectativa se diluíram num orgulho ferido, numa nódoa negra na perna e um hematoma na região occipital.

Aquele dia foi o meu declínio literário, nem Kafka nem Camões me valeram.


Sanzalando

30 de janeiro de 2026

uma casa para embalar

Era uma vez, numa casa virada para o mar, um relógio antigo que fazia “tic-tac” como se estivesse a embalar as ondas. Cada tic era uma concha, cada tac era um passarinho a pousar no telhado da casa.

Nessa casa vivia a eu e a Dona Aurora, que todas as noites abria a janela para deixar entrar o cheiro a sal e a promessa de sonhos bons. Sentava-se numa cadeira de baloiço, velha e com chiar de cansaço e começava a contar histórias ao candeeiro, porque acreditava que a luz também precisava de ouvir para dormir.

- Dorme, luzinha, que amanhã há sol para ti - e apagava-a.

O candeeiro até me parecia se apagava devagar, como que a bocejar preguiçosamente. Lá fora, o vento passava devagarinho, pé ante pé, para não acordar ninguém e não sacudir as cortinas não me fosse assustar com fantasmas ou desavindos corpos invisíveis.

E assim, entre o tic-tac do relógio, o baloiço da cadeira e a ladainha com que rezava D. Aurora, a casa inteira adormecia como um barco bem ancorado: a flutuar suavemente, segura, embalada por histórias que não acabam - só continuam nos sonhos de quem sonha.


Sanzalando

29 de janeiro de 2026

às vezes o mundo faz intervalo para eu ver e guardar

Na minha cidade não sei se chovia 48 horas por ano. Não tenho memória meteorológica. Mas não devo estar longe disso. Mas naquela tarde o céu não avisou. Simplesmente mudou de um azul celeste para um cinzento feito chumbo em questão de um cagagésimo de tempo, como se alguém tivesse corrido uma cortina pesada sobre a cidade. Na esplanada, o calor que antes fazia a roupa colar na pele deu lugar a um sopro de vento súbito, carregando o cheiro metálico da água vindo de longe e desabar ali, feito parecia um castigo divino ou só um cano grande que furou.

Quando a primeira gota bateu na mesa metálica, o mundo acelerou para todos, menos para mim. Esvaziou-se a esplanada e do outro lado da rua a rotina tropical desmoronava em comédia de corrida como na dança das cadeiras, mas aqui era à procura de um abrigo. Todos punham a mão na cabeça faz conta ela protegia da chuva bater na carola, outros seguravam a carteira parecia eram feitas de papel e precisam ser protegidas. Eu continuei sentado a ver porque às vezes é preciso parar para ver. O trânsito, sempre impaciente, paralisou sob o peso da água que agora caía como se tivessem a virar baldes. Eu pacientemente via, sentado na esplanada, o toldo pouco protegia, mas eu saboreava por estar a ver um teatro temporal.

A chuva tropical tem uma particularidade: ela é barulhenta, mas traz silêncio. Ali, com os pés cruzados e o olhar perdido nas poças e rios que se formavam no asfalto, o tempo deixou de ser medido por horas e passou a ser medido por intensidade.

Já não tinha a chávena de café à minha frente, tinha um pequeno vasilhame com água a transbordar. O asfalto ao receber as primeiras gotas deitou fumo e pareia que o calor da tarde subia rumo ao céu. Eu não tinha prazos nem nada para fazer. Só tinha o tempo perdidamente visual. Ria por dentro e mostrava espanto por fora. Todos os beirais de porta tinha um habitante, molhado para não dizer encharcado. 

Tão rápido quanto começou, a força diminuiu e desapareceu. O céu começou a abrir buracos de luz azul enquanto as poucas nuvens iam fugindo em direcção a leste e o brilho do sol refletido no asfalto molhado quase cegava. O mundo voltava a girar, mas eu parei a memória até hoje, quando vi que aqui chovia e que não era igual à chuva da minha cidade


Sanzalando

o Meu deserto tinha uma carocha

O meu deserto é grande e eu só lhe conheço um pedacinho tão pequeno que faz de conta é uma mão de areia. Até onde lhe conheço as dunas pareciam ondas congeladas e o sol pintava-as assim dum amarelo torrado e o céu, ao fim da tarde, era pintado com tons de laranja que até parecia fogo. Nesse deserto vivia uma carocha. Ele não era uma carocha comum, tinha coração que parecia de homem aventureiro e olhos curiosos que ansiavam por ver o mundo além da sua duna.

Um dia, enquanto a carocha explorava perto de um pedacito de capim seco, ouviu um som estranho, parecia alguém estava num choramingar suave. Rastejando com cuidado, ela descobriu um pequeno animal, eu aqui diria que era tipo de raposa do deserto com orelhas enormes, preso sob uma pedra, mas eu não conheço os outros animais. Mas a verdade é que o bicho estava assustado e com a patinha presa.

A carocha apesar de assustada, sentiu uma pontada de pena. Ela usou toda a sua força para empurrar a pedra, e com um esforço o bicho ia ficar livre.

- Oh, muito obrigado! - disse o animal que se tinha perdido com certeza. 

A carocha respondeu-lhe

- Conheço bem este deserto. Posso ajudar-te a encontrar o caminho.

A carocha corria com toda a velocidade que podia, o animal que eu diria era raposa do deserto, andava devagar. 

- Sabes, bicho, o meu mundo termina aqui. Não conheço mais.

- Muito obrigado! Deste-me uma grande ajuda. Vou usar o meu faro e encontrarei companhia. Não corras no regresso porque pode faltar-te a força.

A carocha, de peito cheio, regressou para a sua duna e pensou que o mundo era grande de mais para ela conhecer num só dia.


Sanzalando

28 de janeiro de 2026