Há pessoas que acordam de manhã com objetivos. Eu acordo com uma vaga intenção do tipo vamos ver no que isto dá e, pelos vistos, isso é meio caminho andado para o sucesso. Não porque eu seja particularmente brilhante, mas porque a vida, coitada, às vezes também se engana na morada.
Sempre desconfiei de quem tem planos a cinco anos. Eu mal tenho planos para até à hora do jantar. E, no entanto, lá vou acumulando pequenas vitórias involuntárias, um elogio que era para o colega do lado, um projeto que aceitei porque não percebi bem do que se tratava, uma ideia que tive por engano enquanto procurava outra completamente diferente. Se isto não é sucesso, é pelo menos uma boa imitação.
Descobri, com o tempo, que há um talento raro que é o de não atrapalhar demasiado o próprio caminho. É uma espécie de arte marcial passiva em vez de atacar, a pessoa não estraga o momento. E eu, modestamente, sou cinturão negro em não estragar o momento. Há dias em que a minha maior conquista é não responder a um email complicado. E, curiosamente, nesses dias, tudo se resolve sozinho. É quase como se o universo me dissesse deixa estar, não mexas, que assim está bem, e eu deixo.
Uma vez perguntaram-me qual era o segredo do meu sucesso. Fiquei comovido. Primeiro, porque não sabia que tinha um. Depois, porque senti que estava prestes a desiludir alguém com uma resposta honesta. Ainda pensei inventar qualquer coisa sofisticada do estilo uso de disciplina, atenção ao foco, dizer resiliência, que agora está na moda mas a verdade escapou-me e eu disse que tinha sido por distração.
A pessoa ficou a olhar para mim com aquele ar de quem esperava uma resposta científica e recebeu uma conversa de café. Mas é isso mesmo. O meu percurso é uma sucessão de já agoras que deram certo. Já agora aceito. Já agora experimento. Já agora fico. E quando dou por mim, estou no sítio certo, à hora certa, sem saber muito bem como cheguei ali o que, convenhamos, é uma excelente forma de viajar.
Claro que há riscos. Este método exige uma certa confiança no acaso, o que nem sempre é confortável. Às vezes o acaso falha, ou então acerta mas ao lado. E lá vamos nós, com ar sério, a explicar que faz parte do processo, quando, na verdade, o processo era não haver processo nenhum.
Mas há também uma leveza nisto tudo. Enquanto outros carregam o peso das metas, eu levo apenas a mochila das circunstâncias. E, sendo honesto, pesa muito menos. Talvez o sucesso sem querer seja uma espécie de sucesso em pantufas. Não faz barulho, não exige pose, e aparece muitas vezes quando já estávamos a pensar em desistir ou em ir fazer um café.
No fundo, acredito que o sucesso, como certos gatos, gosta de pessoas que fingem não estar interessadas. Aproxima-se devagar, instala-se no colo e, quando damos por isso, já faz parte da casa. E nós, que nunca o chamámos, ficamos ali, um pouco surpreendidos, a fazer festas, como quem diz: Pronto… já que aqui estás, fica. E o gato fica.















