recomeça o futuro sem esquecer o passado

19 de março de 2026

corridas de fim de semana

Na casa do Bitacaia os carros eram verdadeiros heróis. Não tinha fim-de-semana sem carros a correr. Houve até as 24 horas da esquina do liceu. O que vale é que à frente havia o Cábula onde podia comer sorvete ou beber coca-cola. Eram corridas a sério.

Não é a sua típica corrida de Formula 1, onde tudo é perfeitamente calibrado e os pilotos são milionários. Não, esta corrida acontece no chão garagem, onde a pista é pintada no chão, e os carros são, bem, de metal, com beata de cigarro e adesivo para andarem direitos. O que contava era o peso e a mão de quem atirava. Tinha de ter mestria. Mão treinada para não ter que fazer a curva em duas ou três vezes. Era a era da precisão manual.

Conheces os Dinky Toys? E o Corgi Toys? 

Num canto da pista e um pouco enferrujado, o lendário Mini Cooper de 1968, que, sejamos honestos, parece mais um brinquedo de morder do que um carro de corrida por tanta pintura que já levou. Ele foi rebatizado de "Mini Bala", o que é irônico, já que a sua velocidade máxima é um pouco mais rápida do que uma lesma com pressa, a contar com a minha imprecisão manual.

No outro canto da pistal com um adesivo de um dragão o robusto Saab de 1971. Ele é tão lento que até a direito ele desvia para a esquerda.

Eram assim os fins de semana. Quem ganhou? A adolescência de certeza




Sanzalando

18 de março de 2026

Manuel dos Santos Lima - As Sementes da Liberdade - Livro - K'arranca às Quartas 110


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Esta música tem uma história 52 - Nara Leão - Descansa Coração - K'arranca às Quartas 110


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Crónica 15 de João Portelinha da Silva - K'arranca às Quartas 110


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Tesourinhos Musicais 85 - Os Tara e Montenegro - K'arranca às Quartas 110


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Crónica 09 de Carlos Osório - K'arranca às Quartas 110


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Crónica 98 K'arranca às Quartas 110


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Programa K'arranca às Quartas 110



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 18 de Março 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  As Ruas de Portimão

Hoje falámos de Manuel dos Santos Lima, escritor angolano, professor de Direito e guerrilheiro do Exercito Popular de Libertação de Angola

Esta Música tem uma história trouxe Nara Leão e Descansa Coração  numa colaboração de José Leite; 

Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Carlos Ramos o fadista 

POEMA - Ana Paula Tavares - O Cercado   


e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de outro poeta brasileiro 

Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos o Cinema nas palavras de João Antunes

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Eu e as rádios

O Algoritmo Ganhou Vida e Tem Mau Gosto. Na minha adolescência a rádio tinha uma certa magia. Não havia câmaras a filmar e a gente criava um corpo para a voz que estava a ouvir. Tinha altura de desilusão e outras de espanto. Era mágica a rádio de então. Depois deu-me uma pancada na cabeça, um nó no coração, uma revolta na alma e uma indefinição sobre o futuro e resolvi ir estudar e deixar as válvulas para trás. Esqueci o Sou sa Santos, a Arlete Pereira, o Carlos Veríssimo e o Edgar Teixeira para não me esquecer de falar dos Putos Jorge Van, Carlos Matias, Amaral, Tobé e... tantos que as letras da minha caneta não tinham saída do aparo ou ia faltar a tinta. 

O estúdio do RCM parecia o interior de uma oficina comparada com os novos estúdios. Agora tudo aquilo parece uma nave espacial, luzes led em tons que nem sei dizer as cores, têm câmaras 4K para o «streaming» em direto e microfones tão sensíveis que conseguiam captar o som de um estagiário a ter uma crise de ansiedade no corredor.

É que para além da tecnologia propriamente dita, ainda lhe inventaram nomes que até parece estamos num país distante. Hoje já ninguém faz um directo. Hoje faz-se uma live. 

Mas continuemos que o tempo corre e o silêncio fica mal nas ondas hertzianas ou no éter, como a gente dizia.

O locutor hoje ajusta o boné para o ângulo perfeito da câmara 2, e ainda diz para o técnico "Puto, o engagement está a cair 0,2%. Precisamos de algo disruptivo". O produtor, que usa uns fones tão grandes que pareciam dois pratos de sopa nas orelhas que não deixa ouvir uma trovoada que se aproxima.

"O algoritmo da rádio está a sugerir um remix de EDM com sons de baleias em 8D", responde o produtor, sem tirar os olhos dos sete monitores à sua frente. "Diz que é a tendência para a Geração Z nas próximas 12 horas."

De repente, o ecrã tátil gigante da consola principal — o "Cérebro" — começou a piscar em cor-de-rosa choque.

"... o que é que o Cérebro está a fazer?", perguntou alguém com ar apavorado que se  aproxima com cautela.

"Não sei! Ele entrou em modo 'Auto-Curadoria Viral'!", gritou outro teclando furiosamente.

No monitor de transmissão, o título da música que estava prestes a passar mudou de "Top Hit 2026" para: "AS MELHORES CANTIGAS DE FOCLORE DO SÉCULO XIX.

"Não! Isso vai matar o nosso branding!", gritou o locutor que pôs a pala do boné para trás. 

- Corta o sinal! Passa para o intervalo! - disse alguém que deve ser dono pelo vestir.

"Não consigo! O sistema bloqueou-me! Ele diz que 'os dados demográficos indicam que o público sente nostalgia por tempos que nunca viveu'!", diz um mais velho em pânico, porém sorrindo.

Nesse momento, as colunas de alta fidelidade do estúdio explodiram com uma batida de rap pesadíssima, acompanhada por uma voz autotunada ao extremo cantando: "Atirei o pau ao ga-ga-ga-gato-to-to... mas o gato não morre-re-re-reu!"

Tiago olhou para a câmara de streaming. O chat estava a explodir.

  • @User404: "Isto é arte!"

  • @TrendSetter: "Finalmente algo autêntico."

  • @VovóDigital: "A minha infância, mas com graves!"

- Olhem os números!", gritou o mais velho como se a sentir em casa. - Estamos a subir! 50 mil pessoas a ver o direto! O algoritmo é um génio!

O locutor sentindo o instinto de sobrevivência de um influenciador, não hesitou. Retirou o boné ligou o microfone e gritou: "É ISSO AÍ, FAMÍLIA! FOCLORE EM DIRETO! QUEM QUER O REMIX DA 'BARATA DIZ QUE TEM' COM BEAT DE TECHNO BERLINENSE? DEIXEM O VOSSO LIKE!"

O estúdio tornou-se um caos de luzes. Os técnicos já não tentavam recuperar o controlo, estavam em cima da mesa a fazer uma dança que provavelmente se tornaria viral no TikTok em dez minutos. O Cérebro, a inteligência artificial da rádio, parecia estar a divertir-se, mudando as luzes do estúdio para acompanhar o ritmo da "Machadinha".

A meio da manhã, o diretor da rádio, o tal home bem vestido e que ainda usava relógio analógico e não entendia o conceito de "meme", olhou para o locutor a fazer o "moonwalk" enquanto o "Coelhinho" tocava a 150 BPM.

- O que é isto?! gritou o Diretor.

O técnico apontou para o monitor de faturação de publicidade. O gráfico subia de forma quase vertical.

O Diretor olhou para os números. Olhou para o locutor. Olhou para o gráfico novamente.

- Moços" - disse o Diretor, com uma voz calma e gélida.

- Sim, senhor Diretor? - respondeu um coro

- Conseguem arranjar um remix do 'Guitarra toca baixinho' com influências de Pop para o Natal? 

E foi assim que a RCM de outrora virou moda e na minha imaginação se tornou a rádio número 1 do país, provando que, no mundo moderno, o bom gosto é opcional, mas o algoritmo é sagrado. 


Sanzalando

17 de março de 2026

às vezes sutura-se

Esta é uma história de coragem, astúcia e, acima de tudo, do poder da imaginação no mundo da medicina com crianças.

Eu era conhecido nos corredores do hospital não apenas pela minha habilidade cirúrgica, mas também pelo meu feitio tipo segurança de boate. Eu cirurgião, um paradoxo ambulante que combinava mãos delicadas com um visual facial e comportamental de não se metam comigo. Eu achava ser exigente, eles, todos os outros, pensavam em mau feitio. Opiniões.

Do outro lado, tínhamos Leonardo, um menino de sete anos, com olhos expressivos e uma imaginação que o transportava para outros mundos. Naquele dia, ele estava no hospital com uma ferida na perna esquerda, resultado de uma batalha heroica contra os dragões mutantes que vim a descobrir que eram mais conhecidos como a roseira do quintal.

Leonardo estava sentado na marquesa, a sua perna balançava nervosamente como se estivesse a convulsivar e o resto do corpo não.. A ferida estava coberta por trapo improvisado pela mãe, que tentava acalmá-lo, mas Leonardo estava cético pois só ouvia o barulho da ferida. 

Entrei na sala e ele olhou-me como que a tirar medidas.

- Olá, campeão. - atirei para acalmar o ambiente. - Quem foi que te fez essa ferida?

- Não quero ser cosido. Foi um dragão do meu quintal. - e a perna não parava quieta.

- Esse dragão tinha alguma doença dançarina?

Leonardo arregalou os olhos. "

- Como sabes? - respondeu-me. Logo repreendido pela mãe

- Eu tenho minhas fontes, deixa-me dar uma olhadela no teu troféu de guerra.

Aproximei o foco de luz, examinei a ferida com o olhar e a precisão de um especialista em desarmamento de bombas. 

- Ah, sim. Uma clássica ferida de espinho de dragão. Muito perigosa, se não for tratada corretamente.

Peguei na Iodopovidona e disse:

- Isto não é uma coisa qualquer é o líquido Elixir do Dragão que impede que essa ferida espinhosa infecte. Era bem pior que se essa ferida fosse feita por uma escama de dinossauro. Não tenho cá desinfectante para eles.  

Leonardo observava-me fascínado.

- Olha, vou ter que dar aqui dois pontos, para curar mais depressa.

O barulho da ferida foi abafado pelo grito. 

- Calma, pá! Depois eu faço um penso que te vai fazer saltar sobre o Dragão do teu quintal com segurança.

Aos gritos, porém a perna deixou de convulsivar, duas picadelas de anestesia que fizeram com que as cordas vocais quase batessem no tecto. Com a rapidez dada pela experiência dei três pontos.

- Deste três e disseste dois. Mentiroso. - disse-me após um súbito silêncio.

- Doeu-te? - perguntei

- Não. Mas disseste dois!

- Ups, desculpa, é que me pareceu ver ali um dente de dragão...

- Parvo, foi na roseira...não há dragões.


Sanzalando

16 de março de 2026

um dia que era para ser e nunca foi

Recuando até aos meus 15 anos, eu tinha uma vizinha que era o centro do meu universo. O meu plano de conquista era infalível, ou pelo menos era o que eu achava depois de assistir a três comédias românticas seguidas que tinha visto no Impala Cine. Eu ficava com a orelha sintonizada na rua. Assim que ouvia o barulho a voz dela, eu gritava:

-  Mãe, deixa que eu levo o lixo!

Eu saía desembestado, tropeçando nos meus próprios pés, só para  coincidentemente  encontrá-la no passeio antes dela entrar no carro do pai para a voltinha de fim de tarde. 

Nada no meu rosto dizia "sou o homem da tua vida". Era eu todo que o gritava no silêncio dos meus olhos brilhantes.

Na rua das nossas casas, que era um subida de sentido único a gente jogava os jogos de rua, desde o garrafão, à macaca, à queimada e outras vezes ficávamos só sentados no muro em conversa de encher tempo. 

Quando ela vinha, o que por azar dos meus sentimentos, era uma raridade, eu querendo impressionar, tentava dar frases de gente madura, usava frases feitas e desfazia em piropos subtis. Eu usava as palavras em modo acrobático. Ela sorria. Eu me inspirava e no silêncio dos meus suspiros adolescentes eu ia cada vez mais fundo na imaginação. Poemas que decorava, poemas que inventava, conversas que eu sentia me iam levar ao seu coração. Era um teste à minha resistência melodramática, à sua paciência de ar aristocrático. 

Quem me mandara a mim ler na crónica feminina que elas gostavam de gente culta? Vá lá que eu não sabia que existia a física quântica... olha-me a ler-lhe as formulas e lhe dizer que adoro a dualidade da partícula. Tão romântico que felizmente a minha ignorância não sublinhou.

O auge foi o dia em que decidi que ia me declarar. Preparei um discurso, decorei versos e estava tão tão que se alguém se aproximasse de mim com um fósforo eu ia explodir.

Bati na porta da casa dela, como fizera centenas de vezes antes. Mas era sempre para estudar. Naquele dia não era. Quem abriu a porta foi o pai dela. Lhe olhei na cara, como se nunca o tivesse visto, as minhas pernas bambolearam que nem caniço no dia de vento, e disperei:

- A minha mãe pede açúcar porque quer fazer um bolo e não tem. 

Voltei para casa com uma chávena de açúcar

Voltei para casa com uma xícara de açúcar e a certeza de que o meu destino era ser o "vizinhas-friendzone" oficial do condomínio.


No final das contas, a gente não namorou ninguém, mas as risadas (principalmente as delas às minhas custas) valeram cada mico. Afinal, se você não passou vergonha na frente da vizinha bonitinha na adolescência, você realmente viveu?



Sanzalando

15 de março de 2026

uma consulta surreal

Eu, o cirurgião, entrei no gabinete com aquele ar grave que os cirurgiões treinam durante anos, metade concentração, metade teatro. É, um cirurgião de verdade deve ter ar de quem sofre de hemorroidas, barriga grande de prosperidade e ser calvo de tanto pensar. 

Sentada à frente da minha secretária estava a D Amélia, perfeitamente composta, com uma mala enorme no colo e uma expressão de quem vinha preparada para tudo… menos para sair dali saudável.

O folhei o processo que o progresso ainda não tinha chegado e era em papel.

- Então diga-me, D. Amélia, o que a traz cá?

- Doutor, eu acho que tenho qualquer coisa grave.

- O que sente?

- Não sei bem… mas sinto que sinto.

Esta frase escrevi no processo: ela sente que sente. Sublinhei.

- Sente que sente. Muito bem e isso não é bom? -perguntei a tentar ganhar terreno

A D. Amélia animou-se, sorriu e soltou a língua..

 - Às vezes dói-me aqui. - apontou para o ombro esquerdo - Outras vezes aqui. - apontou para o joelho. - E ontem até me doeu aqui. - enquanto apontava para a orelha.

Intrigado pensei rápido e atirei:

- E agora, neste instante dói-lhe alguma coisa?

A senhora Amélia experimentou fazer um movimento que prontamente interrompi:

- Não se mexa!

Silencio no gabinete.

Levantei-me, caminhei vagarosamente até à janela, como fazem os médicos nas séries de televisão quando estão prestes a revelar um diagnóstico importante.

Voltou-se e disse:

- Já sei o que tem. - disparei

- É grave? perguntou. 

- Acho que não. Mas não vou receitar nada, vem cá daqui a 15 dias para eu rever tudo outra vez.

- Mas Dr. conte-me o que está a pensar...

- D. Amélia, a senhora tem saúde e como sabe isso é coisa passageira. Por isso é melhor vir cá novamente daqui a 15 dias para eu ver se se mantem.





Sanzalando

Pertinências 3 - Fernando Pessoa e as Mulheres - Um programa de RÁDIO

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS. 

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.



Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.

Fui assistir no dia 8 de março, Dia Mundial da Mulher a uma tertúlia no Museu de Portimão com o título "A Mulher (e as mulheres) segundo Fernando Pessoa" organizado pelos Amigos do Museu e com a convidada a Professora Manuela Parreira da Silva.

Dessa Tertúlia nasceu este pertinências 3. Imperdícel





Sanzalando

14 de março de 2026

uma festa na praia

Era março tal e qual hoje o é. Era dia de festa na praia. Não uma festa qualquer, daquelas improvisadas, onde cada um traz qualquer coisa e no fim ninguém sabe bem quem trouxe o quê, mas todos juram que tudo estava bom. Era mesmo festa da cidade e até que havia construções na areia e tinha artistas de classe. Eu tinha a classe de olhar embasbacado e aplaudir porque jeito faltava.

O sol brilhava com aquele entusiasmo típico de quem não tem de carregar chapéus-de-sol e um rádio a pilhas que só apanhava o RCM sem interferências complicadas. 

A areia já estava ocupada por uma pequena multidão: famílias inteiras têm que vir todos à praia em dia de festa, crianças aos gritos, tios especialistas em banhos de sol e um senhor que insistia em tocar uma gaita a anunciar os gelados do Lã.

Nestes dias tem gente que trás uma bandeja de rissóis.

- Trouxe quarenta! - gritam com orgulho e eu ali ao lado em dia de festa à espera de ver quem ganhou o concurso de areia esculpida, a salivar com fome mesmo depois de tomar o matabicho..

Cinco minutos depois estava estabelecida a confusão e dos quarenta ele gritava que restavam apenas três. Espero que ele não tenha comido nenhum. Armar-se assim ao pé de gente que não trouxe nada...

- Isto aqui evapora, seus galfarros que parece não comem há dias - disse ele, desconfiado, olhando para o grupo como quem investiga um crime gastronómico.

Entretanto, junto ao mar, um outro grupo tentava montar um chapéu-de-sol e uma barraca de praia daquelas que levam dois paus verticais, uma lona presa noutros dois que ficarão horizontais. E o peso que aquilo tem?... Aquilo parecia uma operação de engenharia naval. Três pessoas seguravam, duas davam ordens e uma criança comentava:

- O meu pai no faz isto mais rápido.

Ao lado da confusão montada, a dona Teodora tinha decidido entrar na água. Não foi bem entrar: foi um processo gradual de negociação com o Atlântico.

Primeiro o pé.

- Ai que está fria!

Depois o outro.

- Isto não pode ser saudável!

Depois os tornozelos.

- Isto deve vir diretamente da Antártida!

Até parecia ela estava a mantrizar uma ladainha como as que às vezes ouvia a minha avó a fazer. 

Ao fim de quinze minutos a água estava ainda pela cintura, discutindo com o mar como se o mar pudesse ajustar a temperatura.

Entretanto, alguém ligou o rádio e começou a música. De repente, a areia transformou-se em pista de dança improvisada e aquilo virou uma mistura improvável de arraial popular com festival de verão.

O Manel, que tinha jurado que não dançava desde 1970, acabou a fazer passos entusiasmados que lembravam vagamente ginástica sueca que o Cândido da Silva tinha ensinado nas aulas de ginástica. Apesar de que o Manel não era dado a esses ofícios. Ele era mais viola e tiradas de humor. Mas em dia de festa na praia tudo vale até o desajeitado modo de dançar.

Uma bola de praia começou a voar de um lado para o outro, até que aterrou diretamente na barraca da pessoa mais antipática da cidade.

- A praia não vos chega?! - protestou.

Mas ninguém nem desculpa pediu. Continua a festa que é Março.

Ao final da tarde, quando o sol começava a descer, toda a gente estava meio cansada, meio feliz, com areia em lugares que a ciência ainda não explicou.

- Isto hoje foi um sucesso. - disse alguém que deve ser da organização a julgar pelo tom

- Porquê? — perguntou alguém no meio da multidão.

Ele encolheu os ombros e disparou.

- Porque ninguém discutiu… e só desapareceram trinta e sete rissóis.

E numa festa de praia, convenhamos, isso já é praticamente um milagre. 



Sanzalando

13 de março de 2026

O Ritual do silencio da saída da missa

O protagonista dessa estória é um eu que nem sei se sou eu ou outro que vi. O que eu sei é que era uma pessoa de fé inabalável, um joelho que previa a chuva e um estômago que funcionava como um relógio suíço. Quando o joelho doía era porque ela estava na Igreja e quando o estômago gorgulhava era hora de comer na casa da vizinha. Para ele que já não sei se era eu, a Missa de Domingo era dividida em três actos: a Contrição, a Comunhão e a sagrada saída da missa

Diferente dos devotos de primeira fila, ele, que posso ser eu, era um mestre da logística. Escolhia sempre o último banco, colado no corredor lateral. E quando alguém perguntava porquê, era por causa da circulação de ar, respondia. Na verdade, era o equivalente a deixar o carro ligado e apontado para a rua em um assalto a banco cinematográfico visto nos filmes do Eurico. 

A missa não terminava na bênção final. Ela terminava no exato milissegundo em que o Padre dizia: "Podem ir em paz...". Nem esperava o "...e que o Senhor vos acompanhe", já estava com os pés no outro lado da estrada a olhar a porta.

O maior inimigo de era a música final, uma cantoria que parecia não tinha fim. Ou quando o padre resolvia dar recados finais que eram bem maiores que a homilia. Elas nunca mais saiam da missa das nove...


Sanzalando

12 de março de 2026

eu e os livros proibidos

Quando eu era assim com barba mas sem ela, que chamavam que eu era adolescente, descobri uma coisa espantosa, os melhores livros eram sempre os proibidos.

Não era preciso ler a capa. Bastava alguém me dizer com ar grave ou voz quase silenciosa:
— Esse livro não é para a tua idade.

Pronto. Naquele momento, o livro transformava-se imediatamente numa mistura de tesouro arqueológico com bomba atómica literária. Eu tinha de o ler. Era uma questão científica. Nem que tivesse que ir na Quipola a pé. Eu tinha a certeza que eu ia lhe ler.

Na minha garagem havia uma pequena biblioteca, guardada com zelo quase religioso, porque a minha mãe não queria que ninguém abrisse aquele caixote que eram os livros do meu pai. Eu achava a minha mãe pensava aquilo era perigoso só de pensar abrir. Ela conhecia-os bem e nunca tinha aberto nenhum deles.

Só me dizia

- Estes… nem pensar. - mas na verdade, mesmo estando de baixo do caixote das loiças do seu enxoval, eu conseguia tirar um de cada vez. 

Ora, o problema é que “nem pensar” para um adolescente é praticamente um convite ao crime.

Um dia reparei num livro tirado ao acaso porque por acaso media-se a mão e não conseguia meter os olhos, ele chegou na minha mão inocente de juventude. Título sério, capa discreta, aquele ar de coisa perigosa. Tirei e arranjei um sítio seguro para o guardar quando não estava a ler. 

Mas o raio da mãe descobre coisas e logo ao terceiro dia me disse com aqueles olhos de quem vais levar e nem sabes porquê:

— Este? Tu não tens idade para isto e eu já te avisei. Vou pegar fogo aquilo tudo e assim já não cais na tentação....

Fiquei logo convencido de que era uma obra-prima absoluta. Talvez tivesse revelações sobre a vida, o amor, a política e provavelmente três ou quatro pecados mortais e umas tantas piruetas imorais.

Passei uma semana a arquitetar um plano digno de filme policial depois de ter jurado a pés juntos que o tinha voltado a pôr no caixote e prometido que nunca mais o ia abrir.

Tudo correu bem até ao momento em que, com o livro escondido debaixo da camisola, ia a sair de casa para um encontro de amigos.

- Que tens aí?

- Nada, mãe! - e esperei que a rainha santa fizesse um novo milagre

Mas quando um adolescente diz nada, os adultos percebem logo que se trata de um problema ou qualquer coisas indevida.

Ela mandou-me abrir a camisola. Lá estava o livro, envergonhado, como um cúmplice apanhado em flagrante sem se ter transformado em rosas, nem sequer em flor de capim..

A minha mãe suspirou quase em surdina:

- Sabes qual é o problema?

Eu pensei que ia ouvir uma grande lição filosófica sobre juventude e responsabilidade, sobre a palavra e a promessa. Essas coisas de mãe..

Mas ela disse apenas:

- Tu queres sempre ler os livros mais chatos primeiro.

Fiquei desorientado, estupefacto e ao mesmo tempo mais curioso.

- Chat… chato? - disse gaguejando ao mesmo tempo surpreendido

- Claro. Esse é um tratado de economia do século XIX, uma estória de como nasceu esta cidade e os seus arredores.

Voltei para casa com o livro, decidido a provar que ela estava enganada.

Li três páginas.

Na quarta adormeci profundamente, provavelmente o único adolescente da história a ser vencido por estatísticas sobre batatas, casas e lugares que eu sabia eram passado.

Nesse dia aprendi duas lições importantes:

Primeira: os adultos às vezes têm razão, o que é profundamente irritante.
Segunda: nem todos os livros proibidos são perigosos.

Alguns são apenas… terrivelmente aborrecidos.



Sanzalando

11 de março de 2026

Tesourinhos Musicais - Carlos Ramos - K'arranca às Quartas 109


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Lobo Antunes nas palavras de Anabela Quelhas - K'arranca 109


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Esta Música tem uma História - Gal Costa - K'arranca às Quartas 109


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Crónica de Carlos Osório - K'arranca às Quartas 109


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Crõnica de João Portelinha da Silva - K'arranca às Quartas 109


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Crónica 97 - K'arranca às Quartas 109


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K'arranca às Quartas - programa 109



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 11 de Março 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Suor e esforço ou lá o que foi

Hoje falámos de António Lobo Antunes com as palavras de Anabela Quelhas

Esta Música tem uma história trouxe Gal Costa e Livre do Amor,  numa colaboração de José Leite; 

Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Carlos Ramos o fadista 

Amar Por Inteiro   Poema de Plácido de Oliveira com narração de Mundo Dos Poemas

e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de outro poeta brasileiro 

Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos o dia 11 de março

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

O Dia em que o Agualusa me raptou dos afazeres

Tudo começou de forma inocente. Tinha lido as grandes referência dos escritores da minha terra e havia um fulaninho da minha idade que me diziam que até que escrevia coisas giras. Peguei o livro  O Vendedor de Passados, tirei um café, já tinha deixado a era dos cimbalinos, e pensei: 
- Vou ler só vinte minutinhos antes de lavar a louça. - maneira de dizer que era pôr a louça na máquina e ela que fizesse o trabalho

Erro fatal. Cheguei à fase do "Espera, isso aconteceu?"

Lá pela página dez, comecei a franzir a testa. Agualusa tem esse hábito de descrever coisas impossíveis com a naturalidade de quem dita uma lista de compras.

  • Uma lagartixa que fala e tem crises existenciais? Check.

  • Uma mulher que vive trancada num apartamento por trinta anos enquanto o mundo acaba lá fora? Check.

  • Alguém que ganha a vida inventando árvores genealógicas para novos ricos? Absolutamente check.

Olhei para o lado, para conferir se a minha própria parede não estava prestes a dar flores ou confessar um segredo de família.

Depois de uma hora de leitura, percebi que meus pensamentos mudaram de ritmo. De repente, não estava apenas a ler português; estava a ouvir a música de Angola. Acho a música entrou no corpo vinda na forma de fantasma.

Fui até na cozinha e, em vez de pensar  que preciso lavar os pratos, minha mente sussurrou: 

- A porcelana, exausta de silêncios e gorduras, aguardava o baptismo da espuma como quem espera uma chuva de milagres em Luanda." 

A louça continuou suja. O café só não gelou porque não estava frio para isso. O sol se pôs e eu nem dei por isso, porque estava ocupado demais a tentar entender se o narrador era um homem, um fantasma ou uma metáfora bem escrita.

Ao fechar o livro, suspirei profundamente. O mundo parecia um pouco mais colorido, um pouco mais absurdo e definitivamente mais poético. Descobri  que, com o Agualusa, a verdade é apenas uma das muitas versões possíveis da mentira e a mentira dele é muito mais divertida. 

"A ficção é a única forma de dizer a verdade sem ferir ninguém." — Provavelmente algo que um personagem do Agualusa diria enquanto toma um gin.



Sanzalando

10 de março de 2026

Eu li Pepetela e aprendi

Adolescente queria saber tudo. Quem falou de quê, porquê e da terra. Comecei com Luandino e depois agarrei outro e de repente, o quarto desaparece. Já não estou sentado numa cadeira bem cómoda mas sim estou no meio da floresta do Mayombe. O Wi-Fi desapareceu literalmente, porque nem sequer ainda foi inventado, e em vez de notificações do Instagram, ouço o som de ramos das árvores a dançar sob a música do vento.

À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:

- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!" 

Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:

- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3  que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.

- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?

Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.

Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:

Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.

Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.

Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.

Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.

Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.



Sanzalando