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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
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- Pertinências 2 - Diagnóstico Dual - GRATO
- Pertinências 3 - "A Mulher (e as mulheres) segundo Fernando Pessoa"
- Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair
- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
- Pertinências 6 - Escritores algarvios
- Pertinências 7 - Equipes de Rua - GRATO
- Pertinências 8 - Rastreio e Prevenção do cancro do colon e recto
- PERTINÊNCIAS 9 - Enredados nas Palavras - Dulce Maria Cardoso
- PERTINÊNCIAS 10 - H(á) Mercado - Brasa Doirada
- PERTINÊNCIAS 11
- PERTINÊNCIAS 12
- PERTINÊNCIAS 13 - Por Dentro do CHEGA
- Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião
- Pertinências 15
- Pertinências 16 - As Abelhas
- Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"
- Pertinências 18 - James McSill
23 de julho de 2026
O puto que chegou a kota
22 de julho de 2026
Programa 128 - K'arranca às Quartas
20 de julho de 2026
abraço pensado
Dizem os entendidos em física que nada viaja mais rápido do que a luz. Claramente, esses cientistas nunca experimentaram a velocidade a que a saudade aperta quando se está longe de quem se gosta. A saudade é aquele passageiro clandestino que se instala sem pedir licença, toma conta do peito e, se não tivermos cuidado, ainda nos faz suspirar para a janela como se estivéssemos num momento trágico dos anos 70 do século passado.
Mas a distância, essa grande desenhadora de mapas e fazedora de quilómetros, cometeu um erro grave ao subestimar a ferramenta mais poderosa do ser humano, a imaginação sem vergonha nenhuma.
Quando os quilómetros teimam em fazerem-se de fortes, a mente assume o papel de engenheira de pontes invisíveis. Afinal, a geografia é apenas uma convenção burocrática inventada por quem desenha mapas. No mundo real do pensamento, a física quântica é um jogo de crianças. Na impossibilidade de dobrar o espaço-tempo ou de inventar uma máquina de teletransporte que, convenhamos, estaria constantemente avariada ou presa na alfândega, a mente desenvolve os seus próprios truques de ilusionismo. De repente, aquela chávena de café de manhã não é tomada a solo. A mente encarrega-se de puxar a cadeira em frente e colocar lá o sorriso de quem está longe. O café continua a ser um expresso normal, mas o sabor passa a ser o de uma conversa cruzada a uns tantos fusos horários de distância. Fecha-se os olhos e, num piscar de pestanas, faz-se uma viagem e estamos lá. A gargalhada ouvida ontem ao telefone ecoa hoje na sala como se estivesse a ser emitida em som surround de alta definição. A verdadeira magia da criatividade é que ela recusa-se a aceitar o ditado longe da vista, longe do coração. Na verdade, quanto mais longe da vista, mais a mente se desdobra em acrobacias para manter tudo perto.
Criam-se piadas privadas que só o ecran do telemóvel entende, inventam-se rituais absurdos de presença à distância e descobre-se que a saudade, quando devidamente temperada com bom humor, perde aquele peso poeirento e transforma-se numa espécie de combustível. Um combustível estranho, é certo, mas capaz de fazer a mente voar por cima de qualquer oceano sem pagar taxa de bagagem de mão.
A distância pode mandar nos quilómetros, no relógio e no preço da viagem. Mas a mente? A mente ri-se do GPS, traça um atalho na imaginação e encarrega-se de encurtar o mundo até caber inteirinho dentro de um abraço pensado.
É, a minha mente, a minha imaginação, o meu sonho, tudo está numa conjugação de tempo e espaço, numa equação em que as incógnitas X ou Y não são meras ilusões, mas apenas sentimentos de simplicidade.
19 de julho de 2026
os pelos do antebraço
Há dias em que a nostalgia bate forte. Mas esqueçam que eu não vou falar da saudade da antiga namorada, do carro de juventude ou daquela viagem épica de mochila s costas. A minha nostalgia é muito mais capilar, mais localizada. Tenho saudades e assumo sem qualquer pudor de ver os pelos dos meus braços ficarem louros no verão.
Antigamente, o processo era um clássico do Mar e Março. Bastavam dois ou três dias de praia, uma pomada de sol na Praia das Miragens e o milagre acontecia: a pele ficava morena e os pelos dos braços ganhavam aquele tom dourado, digno de um anúncio a gelados nos anos 70. Olhava para os braços e sentia-me o próprio um astro de bem usar a praia. Havia ali um orgulho estival, uma medalha de ouro capilar que gritava ao mundo: Sim, eu estive ao sol e isto é pura sedução.
Corta-se o pensamento e regresso ao presente.
Hoje olhei para os meus braços sob a luz implacável do sol de julho. E o que é que vi? Oirinhos espetados nos meus antebraços? Reflexos de solstício do verão? Nada disso. Vi uma colónia de fios brancos, reluzentes, que parecem agulhas de gelo ou filamentos de lâmpadas LED de alta intensidade.
O meu corpo saltou a fase do louro-surfista e passou diretamente para a fase Pai Natal da Costa Algarvia.
O mais fascinante para não dizer assustador é a textura. O pelo branco não é um pelo normal que perdeu a cor. Não, ele ganha uma personalidade própria. Fica mais espetado, mais rebelde, com uma espessura que quase me permite sintonizar a rádio local se os apontar na direção certa. Se o braço fica moreno, então o contraste é uma obra de arte do surrealismo, pareço uma zebra invertida ou um dálmata ao contrário.
Tentei convencer-me de que isto me dá um ar interessante, uma aura de George Clooney dos trópicos, mas a verdade é que quando o vento sopra, os meus braços parecem o topo da Serra da Estrela em pleno janeiro.
Dizem que a velhice traz sabedoria. Olho para os meus braços e a única coisa que vejo é que os meus pelos decidiram reformar-se mais cedo e vestir-se de linho branco para ir jogar dominó num banco de jardim.
Tenho saudades daquele dourado, confesso. Mas, pensando bem, há que ver o lado prático: se a coisa continuar a este ritmo, no próximo inverno já nem preciso de casaco. Basta pentear os braços para o lado e fingir que estou de casaco de pele. Uma pele muito sábia, muito experiente... e irremediavelmente branca.
Pertinências 18 - James McSill e Júlia Domingues
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
18 de julho de 2026
posfácio do livro que não escrevi
Viver a saudade misturando humor e nostalgia é uma das formas mais bonitas e saudáveis de manter o passado vivo sem ficar preso a ele. A saudade pura pode ser pesada, mas quando lhe juntamos uma pitada de ironia e um sorriso de canto de boca, ela transforma-se numa espécie de melancolia feliz.
Aqui ficam algumas pistas de como navegar nessa arte que cultivo, transformando o tenho saudade num lembras-te daquela loucura ou daquele dia?
A memória tem a mania de romantizar as coisas, mas o humor vive nos detalhes imperfeitos. Recordar o passado com nostalgia e humor exige que olhemos para quem éramos sem filtros de grandiosidade.
Viver a saudade assim é aceitar que o olho pode ficar húmido, mas a boca curva-se para cima. Não há mal nenhum em sentir um aperto no peito por um tempo que já lá vai ou por pessoas que estão longe ou que já partiram. O segredo está em olhar para trás, não com o lamento de quem perdeu, mas com a cumplicidade de quem sabe que foi muito feliz naquelas imperfeições.
Como dizia o outro, a melhor forma de honrar os bons velhos tempos é garantir que eles renderam boas novas gargalhadas cada vez que são lembrados.
17 de julho de 2026
futebol de rua
Nos anos 60, o asfalto da rua era o maior campo de futebol do mundo, e não precisava de relva, de holofotes ou de VAR. Bastava que o sol desse tréguas e que alguém abrisse a janela para dar o grito de convocatória: "Ó Manel, traz a bola!", mesmo que não fosse o Manel o dono da bola
A bola, na verdade, era um elemento de luxo. Quase sempre era de plástico leve, que fazia uma curva impossível ao mínimo sopro de vento ou, no melhor dos cenários, de couro já gasto, cosida tantas vezes que parecia ter mais cicatrizes do que os joelhos da gente. Quando não havia nenhuma das duas, jogava-se com uma meia cheia de trapos e restos de jornal. O futebol não escolhia texturas nem classes.
As balizas? Duas pedras de cada lado, ou dois casacos empilhados ou os livros da escola. A largura do golo era medida a passos, e ai de quem tentasse fazer batota:
-Isso foi golo!
- Qual golo, o tanas - palavrão não havia porque a gente não era como o Zé Malcriado!
- Passou por cima da pedra - dizia o mais espigado.
O trânsito raramente interrompia a partida. Porque na minha cidade isso era coisa de hora de almoço e fim de tarde, no chamado passeio dos tristes. De meia em meia hora, lá aparecia um carocha ou uma carrinha de caixa aberta a avançar lentamente. O jogo parava com o grito clássico: "Olha o carro!". Os jogadores encostavam-se aos muros, sentavam-se no passeio, o veículo passava, e o jogo recomeçava exatamente no mesmo segundo, com a mesma intensidade de uma final da Taça dos Campeões.
O verdadeiro perigo não eram os carros; eram as janelas das vizinhas e os muros intransponíveis.
Havia também a D. Maria, com a sua permanente impecável, feita na cabeleireira Carlota, que odiava o barulho da bola a bater no portão:
- Se a bola cai aqui dentro, furo-a! — ameaçava.
E, claro, pela lei de Murphy do futebol de rua, era precisamente para o quintal da D. Maria que a bola ia parar depois de um remate em balão. Ficava tudo em silêncio. Olhavam uns para os outros, a medir quem tinha a coragem de ir tocar à campainha ou saltar o muro. O mais novo era quase sempre o sacrificado para a missão de espionagem. E lá estava o salta-muros pronto para a confusão. Tirando um ou outro grito de vez em quando nunca ela furou a bola e nunca com ela ficou.
O jogo só terminava verdadeiramente quando acontecia uma de duas coisas ou a bola rebentava do gasto, ou a noite caía e uma mãe gritava " Jantar!"
Davam de dez a zero uns aos outros, com os pés negros do pó da rua, os sapatos esfolados na biqueira, o pavor das mães e os joelhos corados com o inevitável mercurocromo vermelho. Mas iamos para casa felizes, com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, o campeonato recomeçava.
16 de julho de 2026
O campeão da mesa verde do Aero-Clube
Enquanto os colegas estudavam Matemática, eu calculava ângulos com uma precisão que faria inveja a qualquer professor. A diferença era que, no meu exame, se falhasse uma conta, a bola branca não tocava na terceira bola e toda a gente ria e alguns até que aplaudiam.
- Rapaz, com a quantidade de horas que passas aqui, já devias pagar renda em vez do que marca o contador. - diziam-me o encarregado daquele estabelecimento de batota e pouco aéreo, pelo menos ali.
Eu respondia que estava a investir na minha formação profissional.
E era verdade. Aprendi a perder sem fazer drama, a ganhar sem fazer alarde e, sobretudo, a fugir pela porta das traseiras quando passava algum professor ou familiar.
Um dia encontraram-me por mero acaso.
- Então, Carranca, porque não está na escola?
Olhei para a mesa, para o taco e depois para ele.
- Professor, estou numa aula prática de Física. Estamos a estudar o movimento, os choques e as leis da reflexão e refracção.
Ele sorriu, abanou a cabeça e respondeu:
- O problema é que, no fim do período, quem leva com a tabela és tu.
Tinha razão. Eu perdi o ano. Quer dizer, ele passou, eu é que não, portanto foi o ano que me perdeu.
Pouco tempo mais tarde percebi que as aulas faziam falta. Mas também descobri que o bilhar me tinha ensinado uma coisa importante: antes de cada jogada é preciso parar, pensar e escolher bem a bola. Ela, não a bola, foi a razão da tacada aos estudos ter primazia em relação à tacada de bilhar de fim de tarde, depois da voltinha dos tristes que eu em triste figura ficava na esquina a ver o carro passar.
Com muito mais estratégia eu até que apanhei o comboio e lá encontrei o tal de futuro, que não só foi promissor como me é grato olhar para todo o passado e ter orgulho de ter tido tal passado. O taco está na caixa, a mesa mantem o pano verde, algum pó e o passeio dos tristes agora dou eu com alegria estampada no rosto
15 de julho de 2026
Programa 127 - K'arranca às Quartas
14 de julho de 2026
quem me dera descriançar
13 de julho de 2026
O dia em que a tristeza se cansou de esperar
12 de julho de 2026
Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível








