Há uma ilusão perigosa que circula na nossa sociedade que é a ideia de que subir para cima de um selim de dois centímetros de largura é uma forma válida de relaxamento.
Dizem os entendidos e por entendidos refiro-me às pessoas que usam fato de treino de licra fluorescente, justíssimo ao corpo mostrando a famosa barriguinha criada pela idade, e mais nada para além disso, às oito da manhã de um domingo, que pedalar limpa a mente. O que ninguém avisa é que limpa a mente porque a substitui imediatamente por instintos primitivos de sobrevivência. Não há espaço para pensar nas contas da água ou nos prazos do trabalho quando 90% do cérebro está focado em manter o equilíbrio e os outros 10% em rogar pragas ao inventor das estradas de paralelepípedos irregulares, ou asfalto com várias formas de arrefecimento tipo buracos e buraquinhos. Para não contabilizar os 100% do subconsciente, que vai com a sua atenção virada para os automóveis e seus palavrões.
O ritual do descanso sobre rodas começa logo na escolha da vestimenta. Olhamo-nos ao espelho enfiados num equipamento justo e a pergunta surge inevitável: estarei pronto para o Tour de France ou apenas para ser confundido com um pirilampo gigante em crise da idade? Superada a fase estética, vem a afinação da máquina. Pinta-se a ideia idílica de deslizar suavemente pela brisa marinha, mas a realidade do primeiro quilómetro resume-se a uma batalha campal contra um vento frontal que parece ter sido destacado pessoalmente pelo Instituto do Mar e da Atmosfera para nos testar a paciência e transformar um plano em subida que ontem ao fim do dia não estava ali.
Depois há a relação com o relevo. No mapa, a subida parecia apenas uma ligeira inclinação poética. Na prática, transforma-se no Evereste. A partir do terceiro minuto de subida, o tal descanso evapora-se com o suor que se solta. O coração bate num ritmo que faria inveja a um baterista de heavy metal, os joelhos emitem estalidos em código morse e a respiração ganha o tom melodioso de um fole de acordeão estragado. É neste preciso momento que cruzamos com outro ciclista que desce a montanha, fresco como uma alface, e nos lança um alegre Bom dia! A nossa resposta, claro, é um aceno de cabeça, agonizante e um esboço de sorriso, que tenta transparecer dignidade, enquanto internamente ponderamos vender a bicicleta ao primeiro que passe a pé.
Mas o verdadeiro milagre acontece quando finalmente paramos. Encaminhamo-nos para a esplanada mais próxima, arrastando os pés como quem acabou de completar uma maratona nas dunas, e pedimos uma imperial. Sentamo-nos. Os músculos das pernas ainda tremem ligeiramente, a brisa finalmente sabe bem e o mundo parece rodar a um ritmo imensamente mais calmo.
É aí que se percebe a grande mentira do ciclismo recreativo, andar de bicicleta não descansa rigorosamente nada durante o percurso. O verdadeiro descanso é a paz absoluta, a glória incomparável e o alívio indescritível de, finalmente, conseguir desmontar da dita.










