1 de março de 2026

Pertinências 1 - Dr. Carlos Osório - Palestra sobre o ROBLOX

 No dia 28 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS. 

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.

A abrir esta série, assistimos à palestra do Dr. Carlos Osório, na Escola Judice Fialho, sobre o ROBLOX e os perigos que se escondem nos seus recantos. Infelizmente na palestra poucos eram os Encarregados de Educação presentes. Resolvi, com os devidos consentimentos, transformá-lo em programa de Rádio - nasceu o pertinências





Sanzalando

E hoje é Março

E hoje é Março. Este mês começa o mar. É, na minha terra é assim e não vou mudar só porque mudei de terra. Mar está dentro de mim. Março é mês que fui-me batizado. Mar e Março e vou fazer mais como. Dançar um semba? Me atrapalho e as articulações fazem parecer uma torre de Piza em queda livre ou só em terramoto de fraca intensidade. Vou comer caranguejos? Ia, mas não gosto destes daqui. Vou olhar fotografias? Não, não tem perfume nem mosquitos. Vou só ver o mar daqui que é igual ao mar de lá desde que eu não lhe toque.
Podia ir na escola 56 e recordar a ruína não acabada do campo de jogos do Ginásio. Mas ia ser de memória e isso já não importa a ninguém. Podia tentar subir a SOS de bicicleta, mas a idade já não me deixa ter essas ilusões. Podia ir nas salinas ver os patos mas dos bravos só ficaram as histórias.
Vou ficar só mesmo pelas palavras de Março e de mar sem pica-pica.

Sanzalando

28 de fevereiro de 2026

eu na escola primária

Quando eu cheguei à escola primária eu descobri três certezas absolutas

- O recreio era curto demais.

-  os alunos mais velhos eram ruins 

- a professora sabia tudo — inclusive quando alguém estava a mentir… mesmo antes de mentir.

A professora chamava-se Dona Maria. Tinha um radar invisível para os meus disparates. Bastava um lápis voar com ar suspeito e ela já levantava a cabeça devagarinho, naquele movimento que dizia até parecia estar a dizer eu vi… mesmo que eu sabia que ela não tinha visto.

Eu sentava-me na terceira fila, lugar estratégico: nem demasiado à frente para ser voluntário involuntário, nem demasiado atrás para ser automaticamente culpado de todas as coisas ruins que iam acontecendo na aula.

Um dia, a Dona Maria decidiu fazer a pergunta mais perigosa da minha infância:

- Quem quer vir ao quadro?

Silêncio. Um silêncio tão profundo que se ouvia o cérebro do Manel a pensar: Se eu não respirar, ela não me vê.

Mas a professora tinha superpoderes.

- João Carlos!

Quando um professor diz o nome completo, uma pessoa envelhece três anos de imediato. Levantei-me como quem vai cumprir pena leve.

Era uma conta de dividir. Na minha cabeça, os números começaram a dançar. Escrevi qualquer coisa com convicção artística. A matemática, percebi ali, é muito mais sobre fé do que sobre cálculo.

A turma olhava para mim como se eu estivesse a desarmar uma bomba.

- Tens a certeza? — perguntou a professora.

Essa pergunta é uma armadilha. Nunca temos a certeza quando nos fazem essa pergunta. Mas respondi:

- Tenho.

Ela sorriu. Aquele sorriso pedagógico que significa qualquer coisa como ele vai aprender agora.

Estava errado, claro. Mas saí do quadro com a dignidade possível e um aplauso silencioso do Manel, que tinha escapado naquele dia. Mais dias existirão, pensei.

No recreio, éramos todos génios. O campo de futebol era inclinado, as balizas eram duas pedras e as regras mudavam conforme o resultado ou conforme estávamos a jogar contra os mais velhos que até parecia já tinham barba. Se a bola saía do recreio estava democraticamente, que a gente nem sabia existia essa coisa, que tinha sido falta do vento que não travou a bola.

Havia também a Inês, que sabia sempre a matéria toda e ainda tinha letra bonita. Isso, na primária, era praticamente bruxaria.

E depois havia o momento sublime da sexta-feira: Podem arrumar tudo.
Essas duas palavras tinham mais poder do que qualquer hino nacional.

Hoje, quando passo por uma escola primária, ouço o barulho dos miúdos e penso que a vida devia ser sempre assim: metade nervos no quadro, metade gargalhadas no recreio.

E, no fundo, todos continuamos iguais - só mudámos o tamanho e o nome da mochila, que no meu tempo era pasta.



Sanzalando

27 de fevereiro de 2026

Pertinências


Amanhã faço nascer um novo programa de rádio. Esta é a minha história de como o
Pertinências salvou uma cidade do esquecimento, não com grandes manchetes, mas com o som de uma colher de chá a bater numa chávena de porcelana.

Aos 69 anos, pensando no "Pertinências", imaginava que conseguia ouvir a diferença entre uma mentira e uma hesitação apenas pela frequência dos graves. O programa não será um sucesso de massas — não tem passatempos, nem música. É feito num estúdio, com uma chávena de café, às vezes frio e um computador que já foi veloz.

A premissa é simples, mas sei que perigosa: "Trazer o que é dito no escuro para a luz da antena."

Tudo começou com uma comunicação que fui ouvir. Esperava-se uma multidão, mas nem à dezena se chegou. Então pensei:

"Eles dizem que é progresso, são jogos, hão de crescer e mudar, mas não sabem o que se esconde por trás daquelas horas perdidas no computador ou no telemóvel. Talvez seja demasiado tarde quando descobrirem."

Talvez uns decidam apenas ignorar, outros proibir e eu penso "e porquê?"

Eu fui ouvir uma denuncia sonora, uma preocupação sincera. Eu e poucos mais.

Tenho de levar isto para outros ouvidos, pensei.

Tratei o som. Para muitos talvez seja ruído, para outros silêncio e para muitos apenas ignorância. Para mim é preocupação.

Nasceu O Pertinências com o sinal horário das 21 num sábado, mas a cidade, lá fora, já não sei se ouvirá o mesmo silêncio de antes.




Sanzalando

26 de fevereiro de 2026

o meu carro vermelho berrante

Acho que a primeira grande crise existencial de um homem não acontece aos 40, quando compra um Porsche, mas aos 6, quando percebe que o seu bólide a pedais tem a aerodinâmica de um frigorífico e a tracção de um caracol com reumático caminhar

Mais ou menos aos 6 eu tive o meu primeiro meu carro, que era de um vermelho berrante, com um número "5" colado de lado que prometia velocidades estonteantes na minha cabeça de criança. Tinha um volante de baquelite que rangia como um navio pirata e umas rodas de borracha rígida, ou seria madeira forrada, aqui a memória me falhou e que em contacto com o alcatrão da rua, faziam mais barulho do que um concerto de tampas de panela na minha cozinha.

O problema é que o design ignorava uma lei fundamental da física: a relação peso-potência que eu aprendi muito mais tarde. O chassis era de madeira pesada, e o piloto que era eu pesava o mesmo que um saco de batatas pequeno. Eu sentia o vento na cara, mesmo se estivesse parado porque era o vento normal da minha rua. Eu dava aos pedais e ele rangendo seguia numa vertiginosa velocidade que até dava para sair em movimento. Mas foi o meu primeiro carro.

Não sei se me cansava mais de dar ao pedal ou fazer VRRRRUUUUMMMM. Mas eu me divertia no meu carro vermelho berrante.




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25 de fevereiro de 2026

O livro Pés de Barro de Nuno Duarte nas palavras de Anabela Quelhas - K'arranca às Quartas 107


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Tesourinhos Musicais 82 - Pedro Osório


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Esta Música tem uma História 49 - Chico e Milton - O que será?


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Crónicas de Carlos Osório 6 - K'arranca às Quartas 107


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Crónica de João Portelinha da Silva 12 - K'arranca às Quartas 107


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Crónica 95 - K'arranca às Quartas 107


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Programa K'arranca às Quartas 107



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 25 de Fevereiro 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Identidade

Hoje o livro foi Pés de Barro de Nuno Duarte, tendo utilizado as palavras de Anabela Quelhas

Esta Música tem uma história trouxe Chico Buarque e Milton Nascimento - O que Será?,  numa colaboração de José Leite; 

Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Pedro Osório, uma pedra angular na música portuguesa

PRIVATIZARAM, POEMA DE JOSÉ LUÍS MENDONÇA, dito por ele mesmo

e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de um poeta brasileiro 

Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos a Rádio e muito mais. Para pensar.

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar - Obviamente que hoje foi OBVIO



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

uma estória quase verídica

Entrei no gabinete de urgência como quem entra num palco. Fato que parece pijama azul escuro, impecável, máscara descaída para o pescoço numa preguiça de tirar, olhar treinado para distinguir uma apendicite de uma indisposição causada por excesso de bacalhau à Brás.

Parei aos pés da marquesa, fiquei a olhar para o doente como quem olha para uma obra de arte. Em silêncio e olhar profundo.

O doente, deitado, ficou a olhar para mim como quem espera uma sentença.

Durante uns segundos, ninguém disse nada. Era um duelo silencioso: bisturi contra pânico, autoridade contra bata que estava substituída por pijama, porque é mais higiénico, cómodo e prático.

- Então, doutor? - perguntou o doente, desconfiado. - É grave?

Inclinei ligeiramente a cabeça, como se estivesse a contemplar uma obra de arte contemporânea chamada Homem Deitado nº 3.

- Hummm. 

O “hummm” de um cirurgião devia vir com legenda. Pode significar “não é nada”, “vamos já abrir”, ou “onde é que eu deixei os óculos?”.

O doente engoliu em seco.

- Doutor… esse “hummm” é de quê?

- Ainda não lhe toquei, andei não vi uma única análise. Quer que seja adivinho?

Aproximei-me mais, olhar pensativo, mãos na barriga do doente e comecei a fazer perguntas. Desde sérias até as de futebol-

- Diga-me uma coisa - perguntei - Quando carrego aqui, dói?

E carreguei.

- AI! - gritou o doente.

Abanei com a cabeça, satisfeito e disse:

- Excelente.

- Excelente?! - indignou-se o paciente. - Eu estou a gritar!

- Precisamente. Se não gritasse é que eu ficava preocupado. A medicina aprecia reações. O silêncio é que é suspeito. O silêncio é coisa de estátuas. - disse na mais serena tranquilidade.

O doente ficou a olhar para mim, dividido entre o alívio e a vontade de pedir transferência.

Começou a andar de um lado para o outro, mãos atrás das costas e a fazer perguntas. Continuadamente sérias alternando com coisas banais. Até que parei, ao lado dele e olhando-o nos olhos disse

- A questão é filosófica.

- Eu preferia que fosse clínica, por isso vim ao hospital…

- Toda a boa cirurgia começa na filosofia - continuei, ignorando o olhar furioso do doente. - A pergunta não é “o que tem?”, mas “porque é que insiste em ter?”.

- Eu não insisto em nada! Eu tenho!

- Tudo aparece. A idade aparece. As rugas aparecem. As contas aparecem. O apêndice inflama-se e chamam-me.

Ao mesmo tempo sentei-me ao lado da marquesa onde estava o doente.

- Diga-me: numa escala de zero a dez, quanto dói?

- Oito.

- Oito honesto ou oito dramático?

- Oito! - já num tom mais irritado que indeciso

Suspirei e disse:

- Gosto de pacientes decididos. O problema dos sete é que são indecisos. Nem sofrem plenamente nem melhoram com convicção. - Filosofei

Fui ao computador decido e escrevi. Consegui perceber que o doente estava curioso com o que escrevia. Mas mantive o meu silêncio enquanto os dois indicadores batiam no teclado.

- O que está a escrever? - irritada voz que saiu daquela boca

- Paciente com forte vocação para queixar-se. - disse sem tirar os olhos do ecran

- Isso não é diagnóstico que se dê a um doente!

- Claro que é. A queixa é o princípio da ciência.

Levantei-me, compôs o pijama e olhei o doente de alto a baixo mais uma vez.

- Fique descansado. Vamos fazer exames.

- E se for preciso opera?

Sorri com aquela tranquilidade inquietante de quem tem um bisturi como extensão da personalidade.

- Meu caro, eu sou cirurgião. Se não operar hoje, opero amanhã. A diferença entre nós é que o senhor teme a cirurgia e eu temo um dia sem ela.

Dei dois passos em direção à porta, depois voltei atrás e, com ar conspiratório, disse:

- Mas não se preocupe. Só corto o estritamente necessário. Às vezes até menos.

Saiu do gabinete.

Acho que o doente ficou a olhar para o teto, profundamente pensativo. Nunca tinha pensado que o maior sintoma da sua doença fosse estar nas mãos de alguém tão entusiasmado com lâminas.

E suspirou:

- Se eu soubesse, tinha ficado só com o bacalhau e não tinha comido o prato de carne.



Sanzalando

24 de fevereiro de 2026

fui no comboio

Eu tenho o prazer de ter feito uma das mais espetaculares viagens de comboio do mundo. Pelo menos do meu mundo, tenha ele o tamanho que tiver. O Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM) não é apenas um transporte; é uma transição dramática entre o deserto e a montanha.

Na estação, antes do Sr. Alves dar a partida ao comboio eu sentia o cheiro do deserto e também o do gasóleo, porque já não me lembro do fumo do vapor daquela locomotiva preta enorme que nem gigante cabia na minha imaginação de agora. O sol ainda era uma promessa tímida no horizonte quando o comboio dá o primeiro solavanco. Pela janela, a paisagem é dominada por um vazio de gente mas ocupada por um arvoredo luxuriante que desequilibrava o deserto daquele lado da cidade. O Bero era o motor daquela revolução verde assim como depois o Rio Giraul. Quando dou por mim estava no Caraculo. A estepe, a savana o deserto, o semi-deserto, estava lá. Do outro lado do corredor eu via o Morro Maluco a nos acompanhar. Eu delirava e dizia que morro tinha pernas maiores que as minhas pois nos acompanhava, literalmente. O comboio ia em ritmo constante, aqui e ali uma apitadela, o barulho do diesel característico fazia força para puxar a meia dúzia de carruagens. Às vezes a gente cruzava num apeadeiro com três locomotivas que puxavam uns 40 vagões carregados de ferro. Eu digo uns porque me perdia sempre quando lhes queria contar.

Os passageiros partilham fatias de fruta e conversas sobre a família, enquanto o comboio corta a planície árida em direção ao interior. A gente sabe que depois de Vila Arriaga esse comboio vai sofrer.

O verdadeiro espetáculo começa quando o horizonte deixa de ser plano. À medida que nos aproximamos de Bibala, assim para vocês saberem que eu sei coisas, a locomotiva começa a "ganhar fôlego" para o que vem a seguir.

É aqui que o comboio enfrenta a Serra da Chela. A linha serpenteia como uma serpente de aço, subindo centenas de metros em poucos quilómetros. De um lado, a parede de pedra; do outro, um abismo que revela a imensidão lá embaixo. O ar torna-se subitamente mais fresco. O castanho do deserto dá lugar a tons de verde-escuro e arbustos mais densos.

O esforço do motor é audível, num batimento rítmico que parece fazer eco nas encostas rochosas. É um prodígio da engenharia que nos faz sentir minúsculos perante a geografia angolana. 

Finalmente, o terreno estabiliza. Estamos perto dos 1.700 metros de altitude. O comboio desliza agora pelo planalto da Huíla, onde o clima é temperado e a luz tem uma suavidade diferente.

Ao avistar o Lubango, a cidade estende-se num vale abraçado pelas montanhas. O Cristo Rei, no topo da serra, parece dar as boas-vindas aos viajantes que subiram do mar. A estação é um formigueiro de gente: vendedores de múcua, taxistas e famílias que se reencontram.

Eu corro para os braços do meu avô e vou de férias.





Sanzalando

23 de fevereiro de 2026

Eu e a minha falésia

Mesmo em frente do Palácio ficava a falésia. A vista só acabava onde o olhar não conseguia chegar. Mas em baixo ainda tinha a marginal. Nunca medi, mas vou inventar que a falésia eram cerca de 40 metros e para aqula minha altura de criança eu acho eram trezentos. Era bué alta a falésia à frente da casa do Governador.  

Um dia, em armado com a minha capa de super-homem invisível resolvi que ia descer ali mesmo até na marginal. Na verdade quando eu não tinha problemas eu arranjava. Bem que podia ir um pouco mais atrás tinha já um carreiro feito, mas não. Tinha de ser ali, porque era ali que me apetecia. Que piada ia ter descer no carreiro?

Era imponente aquela falésia. Pelo menos para mim e se calhar tinha gigantes adormecidos no meio caminho. Mais lá para frente havia umas grutas escavadas nela que disseram-me era a casa dos primeiros colonos. Mas ali não. Esses fantasmas ali não ia ter. 

Antes de iniciar a minha descida admirei o horizonte e fiquei com pena que os meus olhos não conseguissem, ir mais para lá do que eu via. Paciência, quando eu crescer eu vou. Agora comecei a olhar para onde tinha de pôr os pés. A falha de pé era o meu mostro mais temido. A areia descia depressa, mal eu colocava o pé lá ia um pedaço dela a trambolhar para baixo. Também havia uns pedragulhos que eu deslocava com a ponta do pé para não lhe pisar e escorregar eu. Uma ou outra vez eu parecia ia cair mas era só escorregadela de meio metro. 

No final eu estava exausto. Era raro isso acontecer. Mas acho era mais do medo do que do exercício. Cá embaixo olhei para cima e uau, era alto para caramba. Não vou subir aqui. Vou voltar pela marginal, isto é como dar a volta ao bilhar grande mas eu não sou capaz de subir isto. Além de força me ia faltar pulmão.

Me sentei à borda da marginal a ver as ondas se atirarem contra as pedras que seguravam a dita. Como foi que eles fabricaram esta marginal se eu já vi fotografias e aqui era praia e estaleiro? Não importa. Eu consegui descer, olhar e ver só meio palácio e meia igreja. E sozinho. Uê, estou a crescer, pensei.

Comecei a caminhar no passeio de lage que paralelizava com a marginal e com os meus botões fui inventando estórias, porque as falésias contam sempre uma estória e eu com medo não perguntei àquela qual a estória dela.

A minha estória da falésia é que lhe tinha descido num lugar muito perigoso. Criança sem juízo ia dizer a minha mãe se soubesse que eu tinha descido ali.



Sanzalando

22 de fevereiro de 2026

Conversas à mesa 4 - Ensino e Educação








Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 21 de fevereiro
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


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21 de fevereiro de 2026

fui na praia azul com a família

É sábado e não tem despertador tiquetateando para me levantar para a escola. Mas na verdade acordo cedo e mais bem disposto que nos outros dias. è dia de ir cedinho na praia. Não é por causa de arranjar lugar, é mesmo só para ficar naquele lugar. O resto eu não digo porque vocês não precisam saber. Não sei ainda nem o porque que demora tempo a fazer o planeamento para ir na praia. Basta levar toalha. Mas a família não pensa assim. Acho eles estão a pensar que é uma invasão que vão fazer. Chapéus de sol são para aí uns três, a geleira com sacos de gelos outras tantas e cada uma pesa mais que um elefante. Bóias coloridas nem sei contar, como se ainda alguém fosse precisar daquilo. Comida acho que dá para ficar lá uma semana. Eu só sei que no fim da tarde eu volto para casa. Pronto, eu sei que a praia Azul fica longe e tem que ir de carro, mas caramba, a gente não precisa fugir assim com tanta coisa.
O estacionamento é à balda, numa anarquia civilizada porque espaço não tem falta. No deserto tem vazio que até a gente perde a vista só de olhar.
Mas até lá chegar a viagem de carro foi uma festa. Toda a gente cantou no cortejo que parecia era procissão de família. Alegria depois de ter parado na Torre do Tombo para comprar os caranguejos que são de estalar e que vão fazer as del~icias das mais velhas porque os mais velhos vão apanhar mexilhões ou lá o que é. 
Monta acampamento quase dentro da água. Acho têm medo de desidratar na viagem até ao mergulho. Kotas.
Os que vieram da Mapunda se esfregam em protector solar e mais coca-cola para irem de cor diferente na volta ao planalto. Os de cá se borrifam literalmente para esse pormenor, estão castanhos de faz tempo que lá vão.
Estendem-se toalhas que acho que se passar um avião vai pensar aquilo é pista. Mas todos estão felizes e contentes. Eu chateado porque só queria ir com a minha toalha para as Miragens ver o Chapéu de Sol azul em frente ao ecran de cimento. Outras estórias. 
Acho que fizeram mal ao mar da Praia Azul. Sempre que aqui venho ele parece está zangado e com ondas a querer me jogar para fora dele. Os mapundeiros gostam. Dá-lhes pica lutar com a força das ondas que quase sempre lhes tira os calções ou apenas as forças das pernas.
Passado o interminável dia, em que felizmente bebi gasosa sem controlo de que isso faz mal, carbo-sidral e Alpina que foi um gosto. No final do dia os mapundeiros com todos os cuidados especiais voltaram vermelhos que nem camarão, o carro trazia mais areia que comida que foi toda comida. Cansaço valia o descanso das aulas e amanhã é domingo para reflectir na praia das Miragens com vista alegre e sorriso na cara.


Sanzalando

20 de fevereiro de 2026

Fui eu que fiz isto

Na minha cidade de imaginação é verão e verão comigo é brincar na praia. Brincar na praia é o único desporto radical onde um indivíduo de mais de 40 anos pode passar três horas de rabo para o ar, a cavar um buraco sem nexo, e ainda ser considerado uma pessoa normal pela sociedade em redor e mais longe também.

Há uma mística na areia que suspende o juízo crítico. Mal pomos o pé na areia quente, o suficiente para estrelar um ovo, obrigando-nos àquela dança caricata e tribal de quem pisa brasas até chegar à toalha, o nosso QI regride alegremente para os seis anos de idade ou menos.

Tudo começa com a construção do Castelo. Nunca é apenas um castelo que tem um fosso a toda a volta, torres autossustentáveis embora toscas, fossos com ligação direta ao Atlântico e uma muralha capaz de deter a qualquer invasão anfíbia. Na Realidade é um monte de areia húmida que parece um pudim que correu mal, decorado com três beatas de cigarro e uma casca de ameijoa ou quitéta partida.

A tragédia grega acontece quando a maré sobe. Há sempre um momento de pânico coletivo quando a primeira onda lambe a fundação. É aqui que vemos homens feitos, licenciados e com contas para pagar, a tentar deter o oceano atlântico com uma pá de plástico amarela que custou 2 euros na loja do Camonano.  O mar ganha sempre. O mar é o maior destruidor da engenharia civil.

Depois temos os clássicos das modalidades de praia, que deviam constar nos Jogos Olímpicos da Paciência: o futebol, um desporto desenhado para garantir que, a cada três jogadas, a bola acerta na nuca de uma senhora que está calmamente a ler o seu romance ou o jogador atropela uma criança que inconscientemente brinca à beira mar, e que tem como objetivo meter golos e pedir desculpa 47 vezes por hora. Ao que se segue o mergulho estilo croquete, aquele momento em que decidimos entrar no mar, mas a água está a uma temperatura que faz os pinguins pedirem um aquecedor. Ficamos ali, a molhar os tornozelos, a tentar convencer o cérebro de que "depois de entrar, está-se bem". Não está. É mentira. e terminamos com a apanha da concha em que  caminhamos quilómetros com o pescoço dobrado, como se estivéssemos à procura de uma nota de 50 escudos, apenas para trazer para casa um saco de pedras calcárias que, no dia seguinte, cheiram a peixe morto e acabam no lixo.

A brincadeira acaba sempre com o pior inimigo da humanidade, a areia acumulada. Brincar na praia implica aceitar que a areia é agora um novo membro da família. Ela vai estar no carro, vai estar nas orelhas, vai estar dentro da sanduíche de fiambre e, misteriosamente, vai aparecer nos lençóis da cama em dezembro.

No fundo, brincar na praia é um exercício de humildade. Ficamos queimados pelo sol em lugares onde nem sabíamos que tínhamos pele, bebemos mais água salgada do que seria medicamente recomendável e acabamos exaustos. Mas nada bate a satisfação de olhar para um buraco gigante na areia e pensar: "Fui eu que fiz isto."



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19 de fevereiro de 2026

hoje mergulhei na praia

Na minha terra está a começar o verão. Verão na minha imaginação e verão que eu só vos conta a verdade mesmo que não tenha existido. É, na minha terra eu sou assim.
Mas eu estava a dizer que é verão e se eu tentei mergulhar da ponte velha eu agora mergulho só mesmo da praia. Eu decidi que estava na altura de me tornar um homem destemido. Ou pelo menos alguém capaz de mergulhar no mar sem fazer aquele gritinho agudo que só os cães ouvem e os outros riem.

Fui hoje para a praia com ar determinado. O mar estava azul, calmo, com aquela aparência enganadora de sopa morna. Tirei a camisa, estiquei os braços, alonguei o corpo e como se fosse protagonizar um documentário da Tv que nunca vi e avancei.

Primeiro passo: água pelos tornozelos.
Segundo passo: água pelos joelhos.
Terceiro passo: lembrei que não é assim pelo que veio o arrependimento.

Aquele Atlântico, meus amigos, não é uma piscina e nem eu sou Mapundeiro para achar a água fria boa para mergulhar. É uma entidade com personalidade própria. Na minha terra o mar não está frio, está em modo teste de caráter. Quando a água me chegou à cintura, senti que todos os pecados da minha adolescência estavam a ser perdoados à força.

Mas eu tinha decidido mergulhar. Havia crianças de seis anos a fazer cambalhotas aquáticas ao meu lado. Um senhor mais velho nadava com elegância olímpica. Não podia voltar atrás na minha decisão. Voltei para a areia, respirei fundo, fiz aquela contagem mental de atleta profissional um, dois, três e corri para o mar e mergulhei.

Durante dois cagagésimos de secundo fui um pássaro voando elegantemente sobre a espuma do mar. No terceiro, engoli meio litro de oceano ao bater de chapa e no quarto, perdi completamente o sentido de dignidade. Emergi a tossir, com o cabelo colado à testa, enquanto uma onda mais pequena do que a minha autoestima me batia na cara gargalhando.

Tentei recuperar a compostura. Fiz um segundo mergulho, desta vez mais calculado e compassado. Resultado: areia em sítios que a anatomia não previa.

E é nesse momento que acontece sempre o fenómeno social da praia que é toda a gente parece que está a olhar. Não estão, claro, disfarço eu. Mas nós sentimos que sim. até parece estou a ouvir um qualquer apanhador de sol profissional a comentar:

- E ali vemos um exemplar, claramente urbano, a lutar contra 17 graus de temperatura da água.

Decidi sair com dignidade. O problema é que o mar não aceita despedidas formais. Quando virei costas, uma onda traiçoeira empurrou-me, tropecei, fiz meio mortal involuntário e saí da água numa posição que só pode ser descrita como foca desastrada.

Já na toalha, a tremer, declarei solenemente:
- Amanhã volto a mergulhar.

Vou fazer mais como se eu gostaria de saber mergulhar mas o mergulho no mar humilha-nos, congela-nos, desorienta-nos… mas deixa-nos com uma sensação heroica. Sobrevivemos ao Atlântico. Não ganho medalhas, mas ganho histórias.

E, no fundo, é para isso que servem os mergulhos: para provar que ainda somos capazes de enfrentar o frio… e rir depois disso

Sanzalando

18 de fevereiro de 2026

Programa K'arranca às Quartas 106



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 18 de Fevereiro 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Identidade

Hoje o Livro Casa75 de Branca Clara das Neves
Esta Música tem uma história trouxe Nely Andrade e Cantor da Noite numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje conjunto Os Bongos, uma banda de Angola, mais propriamente do Lobito
Poema  de Fernando Pessoa na Voz da Mário Viegas
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de um poeta brasileiro Orion Milhomeme as
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou as fotografias do antigamente e as de agora
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Casa 75 - Branca Clara das Neves


Sanzalando

Esta Música tem uma História 48 - Leny Andrade - Cantor da Noite - K'arranca às Quartas 106


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 81 - Os Bongos


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (5)


Sanzalando

A Crónica de João Portelinha da Silva (11) - K'arranca às Quartas 106


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