recomeça o futuro sem esquecer o passado

25 de abril de 2026

Ser livre

Com o sol em Abril chega sempre a vontade de arejar a casa, abrir as janelas, sacodir os tapetes e deixar entrar luz sem ter de pedir licença. 

Num outro Abril a Revolução dos Cravos, fez isso mesmo, mas em versão nacional: abriu as janelas de Portugal e disse agora respira.

O problema. deliciosamente, é que a liberdade vem sem manual de instruções. Não traz um folheto do a explicar e não diz: Parabéns, adquiriste a tua liberdade. Monta com cuidado e usa com responsabilidade. Nada disso. A liberdade chega como a primavera: bonita, espalhafatosa e um bocadinho desorganizada.

Há quem, perante tanta liberdade, se comporte como criança em loja brinquedos: quer tudo ao mesmo tempo. Fala mais alto, opina sobre tudo, partilha até o que não sabe. E está tudo certo, é o entusiasmo de querer usar toda a liberdade ao mesmo tempo. 

Entra em cena a irmã menos popular da liberdade: a responsabilidade. Não é tão airosa, não tem cravos na lapela, nem músicas bonitas associadas. A responsabilidade é mais daquele género que diz: Sim, podes dizer o que quiseres… mas pensa primeiro. E aí começa o verdadeiro desafio.

Porque ser livre é fácil num dia de sol. 

Difícil é ser livre quando discordamos do vizinho, quando a opinião do outro nos irrita, quando apetece responder com um comentário que faria corar um falecido. A liberdade testa-se nesses momentos pequenos, não nos discursos solenes, pomposos e tantas vezes circunstanciais.

Abril, com a sua primavera, ensina-nos isso todos os anos. As flores não pedem autorização para nascer, mas também não crescem à martelada. Há um ritmo, um equilíbrio invisível. A liberdade é igual: cresce melhor quando é cuidada, tratada, construída, instruída, e levada à séria.

E assim andamos nós, entre cravos e espirros de pólen, a tentar equilibrar essa equação improvável: dizer tudo sem dizer demais, fazer tudo sem atropelar ninguém, ser livres… mas com juízo.

No fundo, Abril não nos pede perfeição. Pede-nos apenas que não confundamos liberdade com vale-tudo. Porque a verdadeira liberdade, essa que floresce todos os anos, não é gritar mais alto, é saber quando vale a pena falar… e quando vale ainda mais a pena ouvir.



Sanzalando

24 de abril de 2026

eu sou os ontens

Diz-se por aí que quem se renova, vive. Sinto uma certa nobreza em ser um fóssil bem conservado. Se sou hoje o que fui nos muitos ontens da vida, não é por falta de tentativa de atualização de software, é porque o hardware original, ainda que com alguns ruídos na dobradiça, tem um charme que as versões beta não conseguem replicar.

Olhar para o espelho é visitar uma exposição permanente. Estão lá as mesmas teimosias de 1968, o mesmo pânico de atender chamadas desconhecidas e aquela incapacidade crónica de decidir o que jantar. Mudei de morada, mudei de lugar e, segundo os dermatologistas, mudei todas as células da pele. Mas a alma? Essa continua a usar as mesmas pantufas mentais.

Dizem que a maturidade traz a serenidade. No meu caso, a maturidade apenas trouxe uma forma mais articulada de reclamar do preço do azeite, a incapacidade de ficar especado a olhar os vazios, a possibilidade de dizer o que vai no pensamento sem ter medo que lhe cortem as raízes. Antes esquecia-me das chaves de casa e era o ponto final. Hoje esqueço-me das chaves e agora faço uma reflexão filosófica sobre como o objeto é um símbolo da nossa prisão urbana enquanto procuro no bolso errado.

A essência permanece: continuo a rir nas horas impróprias e a achar que para a semana começo a correr mais. Esse ontem de boas intenções é o meu companheiro mais fiel, aquele que trago sempre comigo.

Ser hoje o que se foi ontem é um acto de rebeldia num mundo que nos obriga a ser "versão 2.0" todas as manhãs. Existe um conforto em saber que, se eu me encontrasse comigo mesmo aos dez anos de idade, ambos escolheríamos o mesmo sabor de gelado e a mesma estratégia para evitar arrumar o quarto. Mudar é necessário, mas manter o próprio absurdo é o que nos salva da monotonia de sermos perfeitos.

No fundo, a vida não é uma linha recta rumo à evolução, mas sim um looping da montanha-russa, o cenário muda, o vento sopra mais forte, mas o grito e o frio na barriga é exatamente o mesmo de sempre. E que sorte a minha, pois aquele "eu" de ontem era, apesar de tudo, um tipo bastante porreiro para se levar na mochila.


Sanzalando

23 de abril de 2026

O Beto e o Manel na viola e eu nas letras

O Beto e o Manel tocavam viola e com eles fazíamos serenatas à janela. Entusiasmo era mais que muito, a técnica não sei como é que era, mas com uma confiança absolutamente injustificada, saíamos à sexta-feira, qualquer coisa como 10 da noite e, escolhidas as janelas, lá estávamos com todo o nosso ar sério. Eu, por um, fazia as letras o que, na prática, significava que rimava “amor” com “flor” até ao limite do aceitável… e um bocadinho além e quando terminava o nosso reportório íamos para a balada, mesmo que fosse política. Amor não tem facção.

Juntos, éramos uma espécie de tripla artística de garagem, sem garagem e sem grande parte artística, mas com uma coisa essencial: tempo. Muito tempo. E uma capacidade extraordinária de o gastar em coisas perfeitamente inúteis que na época eram-no muito. Uteis, é claro.

Passávamos tardes inteiras sentados num banco do parque infantil. Eles afinavam (ou diziam que afinava), eu escrevia (ou fingia que escrevia), e entre um acorde duvidoso e uma rima sofrível, lá saía mais uma obra.

- Isto está profundo — dizia o Beto, depois de tocar três acordes seguidos sem tropeçar.

- Isto está confuso - acrescentava o Manel e eu dizia que era o melhor que conseguia, rimar coração com camaleão.

Mas ríamos. Ríamos muito. Porque, no fundo, aquilo não era sobre música, nem sobre poesia era sobre o intervalo entre uma coisa e outra. Era sobre inventar canções que nunca ninguém ia ouvir, sobre discutir se o refrão devia entrar antes ou depois de não sabermos bem o quê, sobre achar que estávamos a criar algo genial… e desistir ao fim de dez minutos para ir beber qualquer coisa à Cábula.

Houve uma fase em que tentámos ser sérios. Lembro-me bem. O Beto até fechava os olhos enquanto tocava, como se estivesse num concerto importante. Eu escrevi uma letra sem uma única rima óbvia.

O vento ondula searas

O mar banha a terra

Acontecem coisas raras

Num mundo em guerra...

Morena, morena

dos olhos galantes

quem te deu morena

esses dois diamantes

Resultado: ninguém percebeu nada, e se calhar nem nós. 

- Esta é a nossa melhor música - dizia ele, com ar mais sério que lhe vi.

- Concordo - respondia o Manel, que não sei se brincava ou falava sério.

E assim se passávamos o tempo até chegar à sexta-feira e irmos testar na serenata propriamente dita.. Não a correr, nem a voar, a escorregar, suavemente, entre acordes tocados e palavras meio inventadas nos suspiros da respiração. 

Se alguém nos perguntasse o que estávamos a fazer, diríamos música. Mas a verdade é que estávamos só a viver devagar, com banda sonora improvisada e recriada nos bancos do parque infantil.

Hoje penso nisso e percebo: não éramos bons músicos, nem grandes letristas. Mas éramos excelentes a perder tempo e, curiosamente, era aí que tudo fazia sentido.

O Beto tocava viola, o Manel tocava viola e eu fazia letras. E juntos, com muito humor e zero pressa, afinávamos o essencial: a arte de não levar a vida demasiado a sério.



Sanzalando

22 de abril de 2026

Programa K'arranca às Quartas 115



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 22 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é a calma ainda vai ser moda - A pressa

Hoje falámos de Agustina Bessa Luís a propósito de Estações da Vida.

Hoje houve Esta Música tem uma história com Amélia dos Olhos Doces de Carlos Mendes e Joaquim Pessoa, numa colaboração de José Leite; Os Tesourinhos Musicais hoje falei de José Afonso.
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de moçambicana na pessoa de Marcelino dos Santos e nas 
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos Sérgio Godinho e não só


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na liderança.
E ainda houve tempo para o lançamento mundial de nova música de Zé Manel Martins - Benguela para além de uma música de JAZZ do Dinis... com o mês de Abril e da Liberdade assim se escreveu este programa

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Tesourinhos Musicais 90 - José Afonso


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As Estações da Vida - Agustina Bessa-Luís


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Esta Música tem uma História 56 - Carlos Mendes e Amélia dos olhos Doces


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Crónica de João Portelinha da Silva 20 - K'arranca às Quartas 115


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Crónica 14 de Carlos Osório - K'arranca às Quartas 115


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Crónica 103 - K'arranca às Quartas 115


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Fui à praia mas não conto a ninguém

Ah, o verão de quando eu era adolescente. Aquela época era mágica, a gente acreditava piamente que ia parecer um anúncio de gasosa, mas acaba por aparecer como figurante de um documentário sobre desastres naturais.

Aqui vai o relato de um dia "inesquecível". 

O plano era simples e infalível: chegar à praia, exibir o tronco que nem Tarzan de trazer por casa, cultivado a fazer três flexões diárias, poucas mas compenetradas, passar bronzeador com a elegância de um artista de filme e, quem sabe, trocar olhares significativos com a menina do guarda sol azul. A Entrada na praia parecia Triunfal, andar na areia com aquele andar despojado, mas havia um problema: a areia estava a aproximadamente 180°C, mais coisa menos qualquer outra. Em vez de um galã, parecia uma pipoca saltitante, soltando pequenos guinchos de dor enquanto buscava desesperadamente uma sombra. Como não queria pedir ajuda, porque homem não precisa de ajuda, tentei alcançar logo o mar. O resultado foi uma performance de contorcionismo que atraiu olhares, mas não de admiração. Terminei o dia com uns pés de urso branco pelado. 

Mas saltemos o desinteressante poder de estar sentado a olhar o mar, sem ter pés para caminhar.

O mar estava clássico, segundo os veteranos. Para mim, parecia o cenário de O Dia Depois de Amanhã. Vi um grupo de meninas a olhar com olhar de quem tinha algum interesse. Era a hora. Mergulhei, com algum esforço, numa onda que parecia inofensiva. Três segundos depois, as leis da física decidiram se estar ausentes. Eu girei 360 graus na horizontal e na vertical simultaneamente, num número de circo que nem contorcionista profissional. Perdi o sentido de orientação e achei que o fundo do mar era o céu por uns breves momentos, o que deu tempo para engolir uma caneca de água salgada à temperatura tropical. Alguém correu em meu auxílio e me perguntou se eu estava bem e eu respondi com a maior das mentiras que estava óptimo, enquanto tinha vontade de drenar dois litros de água do meu pobre estômago. 

Nesses momento senti que para lá das leis da física a minha dignidade também tinha fugido para parte incerta. Só faltava a sílica da areia ser soprada para a minha boca e eu estar a apreciar uma crocância salgada.

Voltei para casa, escaldado, de corpo e alma, e com pés que nem chinelos de pneu eram suportados.

Foi nesse dia que pensei: daqui a uns anos, quando inventarem as redes sociais nunca lá contarei esta estória.


Sanzalando

21 de abril de 2026

eu e os meus livros

Ah, o clássico momento do intelectual de fachada ou o desafio de manter a compostura quando o livro é realmente engraçado! Ler na adolescência tinha todo um protocolo, especialmente quando a intenção era parecer descolado ou fugir da tristeza das aulas.

Tínha aquele que lia o livro, por dentro do livro escolar. Por fora era Trigonometria ou um qualquer outro tratado chato, por dentro era um livro de quadrinhos, uma revista ou um romance proibido que até podia ser a Corin Telado. O risco de ser apanhado era o que dava o tempero àquele risco. Ou então, sabes aquele banco estratégico onde o sol batia e eu abria um livro só para ver se a pessoa de quem gostava passava e me achava profundo? O humor estava em perceber que li a mesma página dez vezes porque estava ocupado demais a controlar o corredor. Ou então ler algo de humor em público e tentar segurar o riso para não parecer maluco, mas acabar a soltar aquele som de porquinho pelo nariz~, tentando segurar o riso. O que mudou de lá para cá?

"Antigamente, a gente lia para fugir do mundo. Hoje, a gente lê e o telemóvel vibra avisando que o mundo quer fugir connosco."

Naquele tempo, se o livro fosse bom, ele circulava pela sala inteira. Ele voltava com dedicatórias nas margens, migalhas nas páginas e, às vezes, com um número de telefone anotado na última página.

Me conta aí uma coisa: nesse meu reino, qual era o tipo de livro que dava status? Era o clássico denso que ninguém entendia, o de terror que dava medo de ir às escuras à casa de banho, ou as revistas de fofoca ou livros de cowboys que eram tratadas como Bíblia?



Sanzalando

20 de abril de 2026

um almoço que não irei

Há qualquer coisa de profundamente suspeito nos almoços da minha cidade a que não posso ir. Não digo isto com mágoa, digo com experiência. Porque um almoço ao qual comparecemos é apenas um almoço. Mas um almoço ao qual faltamos… esse transforma-se imediatamente numa epopeia gastronómica, social e até espiritual.

Vamos por partes e antes que me parta todo.

Tudo começa com o convite: “Aparece, vai ser bom.” A palavra “bom” é o primeiro indício de que estamos perante um evento que, na nossa ausência, evoluirá para banquete digno daquele encontro que sempre foi impossível. Nós, ingénuos, acreditamos e fazemos filmes, como pintamos cenários e acreditamos na nossa capacidade imaginativa. Até que surge aquele compromisso inadiável, o dentista, a reunião, ou pior: a necessidade de ficar em casa a fazer absolutamente nada, o que, como todos sabemos, é uma tarefa exigente. Mas na verdade são dois programas de rádio que sem mim simplesmente deixam de existir. Mania de ser imprescindível.

E assim vamos falhar o almoço.

No dia a seguir, começam os relatos. Nunca são objetivos. Ninguém diz: “Olha, comemos e conversámos.” Não. Dizem coisas como:  “Nem imaginas o que perdeste…”

E pronto. A partir daí, a nossa imaginação entra novamente em modo cinematográfico.

O arroz de pato, que provavelmente estava competente e honesto, passa a ser descrito como “o melhor arroz de pato desde que há memória e patos”. A sobremesa — um pudim — ganha contornos de revelação divina. “Aquilo derretia-se na boca!” Claro que derretia. Pudim tem essa tendência, mas dito assim parece que desafiava as leis da física.

E depois há o ambiente. Ah, o ambiente! “Foi uma animação pegada!”

Ninguém fala do tal possível impossível encontro. Contam coisas e fogem. Malandros a ver se perguntamos algo e depois ficam a rir de nós. Mas eu vou desperguntar sempre. Eles vão ter que me contar de vontade própria.

O mais intrigante é a solidariedade que se instala entre os que estiveram presente. Criam-se alianças, cumplicidades, histórias internas e silêncios profundos. Quando finalmente voltamos ao convívio, já há referências que não entendemos:
 “Lembras-te do episódio do garfo?”
E nós, de fora, a acenar com a cabeça como quem percebe, mas por dentro a pensar: “Que garfo? O que é que um garfo pode fazer?”

Há também aquela pessoa que tenta ser simpática: “Para a próxima tens mesmo de vir.”

O que, na prática, significa: “Perdeste algo irrepetível e agora vais viver com isso.”

Mas a verdade é que há uma certa beleza nisto tudo. Os almoços a que não vamos ganham uma dimensão mítica que nenhum almoço real conseguiria atingir. Tornam-se melhores precisamente porque não estivemos lá para confirmar que o arroz podia estar um bocadinho seco e que alguém monopolizou a conversa durante quarenta minutos.

Talvez seja esse o segredo: a felicidade dos outros cresce um pouco mais quando não a testemunhamos diretamente. E a nossa curiosidade também.

Por isso, da próxima vez que não puder ir a um almoço da minha cidade, já sei o que fazer: nada. Ficar em casa, tranquilo, a imaginar que lá fora estão a viver o melhor almoço da história enquanto eu, com um simples prato aquecido no micro-ondas, tenho o privilégio raro de não ter de ouvir a história do tal garfo pela quinta vez.

Mas afinal de contas ela foi ou não. Mais tarde saberei!



Sanzalando

19 de abril de 2026

18 de abril de 2026

eu e a chifuta

Eu quando era pré-adolescente tinha uma fisga que por acaso era uma chifuta. Assim mesmo. Fisga foi mesmo só quando apareceu na revista uma gravura humorística ou o meu amigo que até era parecido com esse desenho. Não era uma chifuta qualquer, na minha cabeça, era uma arma de precisão digna de filme de acção. Na realidade, era um pau em forma de Y, com umas tiras de borracha de câmara de ar, um pedaço de cabedal no meio das tiras.

Eu era préadolescente, o que por si só já é uma condição clínica delicada, muita confiança, pouca pontaria e fraca força. E foi assim que começou a minha carreira de atirador, com entusiasmo ilimitado e resultados… imaginativos e fracamanente reais.

O primeiro alvo, para treinar, foi uma lata vazia pousada no muro do quintalão.

- Isto vai ser fácil - disse-me enquanto aperfeiçoava a posição corporal.

Puxei as borrachas para trás, fechei um olho, fiz cara de quem sabe o que está a fazer… e disparei.

A pedra deve ter descrito uma trajetória elegante, para um lado completamente diferente do que eu olhava, porque na lata nem raspou. Desapareceu-me.

- Técnica! - gritei-me como que a ver se aparecia por artes mágicas algum jeito para a coisa.

Muitas pedras depois uma lá acertou na lata. Nos dias seguintes, treinei arduamente. Apontei a árvores e acertava no chão, apontei a pedras acertava noutras pedras que eu nem tinha reparado estavam ali, e uma vez tentei acertar numa lâmpada de candeeiro quando zangado atirei para o ar e imagino quase acertei na lua. 

O problema é que tinha uma relação muito particular com a pontaria: quanto mais queria acertar, menos acertava e mais me afastava do alvo. Era como se o universo, em vez de alinhar, resolvesse fazer troça de mim. Eu acho que a rotação da terra acelerava quando eu atirava, só para o alvo ficar fora do alcance.

Um dia decidi impressionar a malta da escola.

- Aposto que consigo acertar naquela tampa ali - disse apontando para um alvo perfeitamente imóvel e a uma distância razoável. Por simpatia, acho, ninguém apostou mas os  amigos afastaram-se, acho que não por respeito, mas por instinto de sobrevivência.

Estiquei as borrachas, concentrei-me profundamente, respirei fundo… e disparei.

A pedra deu em cheio na tampa, levou-a para longe e ficou tudo em silêncio. Eu de espanto e eles estupfactos.

Guardei a chifuta e ainda hoje me lembro que aquele foi o meu último tiro na vida.



Sanzalando

16 de abril de 2026

a diferença geracional

A tarde estava com aquele calor que faz a gente perguntar porque o asfalto ainda não derreteu de vez, fica só assim mole que esconde a tapinha da garrafa de cerveja. Na Oásis, quatro adolescentes — dividindo uma única Coca-Cola para economizar a mesada tentavam parecer descolados.

Na mesa ao lado, o senado das mais velhos: o Sr. Trindade, o Sr. Zé Malcriado e o Sr. Figueiras das Ameijoas. Eles não falavam, eles proclamavam verdades universais entre um golo de café e uma qualquer aguardente velha.

"Ouve bem o que eu te digo, Trindade," dizia o Sr. Zé, batendo com a palma da mão na mesa de metal com a força de um martelo hidráulico. "No meu tempo, a gente não precisava de qualquer instrumento. Se um gajo se perdia no mato, perguntava ao vento ou seguia o rasto dos animais. Hoje em dia? Essa criançada morrem de fome à porta de casa! Nem em casa se sabem desenrascar"

Trocámos olhares. O Moreira, mais velho, tentou meter-se contestando: "Nós podemos seguir o vento" O Fisga, mais brincalhão, sussurrou: — "Perguntamos ao vento? O senhor Zé, desta vez deixou o Malcriado de lado e gargalhou. 

O Sr. Trindade, que tinha as sobrancelhas fartas, abanou a cabeça com desdém: "E o amor, Zé? Estes jovens agora... é tudo no 'fotonovela'. No meu tempo, para dar um beijo na rapariga, era preciso primeiro lutar com o pai dela, convencer o padre e carregar três sacos de batatas de vinte quilos ladeira acima só para ela nos dar um sorriso de lado!"

"Três sacos de batatas? Isso não é romance, é exploração laboral, credo." disse eu armado aos cucos perante os mais velhos.

A conversa dos velhotes subiu de tom quando o assunto passou a ser a tecnologia.

"E aquela coisa de irem à lua" perguntou o Sr. Figueiras, esquecendo as ameijoas, genuinamente preocupado. "Dizem que as fotografias são inventadas. Ó Trindade, e será que na lua chove?"

O Sr. Zé, dois palavrões depois, respondeu: "eu ouvi tudinho na rádio e eles foram mesmo lá." 

Nisto acabou-se a coca-cola, pedimos uma Alpine frequinha e ouvimos:

- "Ó miúdos! Já que tens aí esse ar de malandro... vê lá aí nesse jornal se o Benfica já contratou um defesa esquerdo de jeito, para ver se o Trindade se cala um bocadinho!"

Nós miúdos rimo-nos, os velhos riram-se, e por cinco minutos, a esplanada foi o único lugar no mundo onde coexistira em perfeita harmonia a diferença geracional.




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15 de abril de 2026

Programa K'arranca às Quartas 114



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 15 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  Estrangeirismos

Hoje falámos de Auto-Autores, aqueles que se editam a eles mesmo. 

Hoje houve Esta Música tem uma história Elis Regina e Alô Alô Marciano de Rita Lee e Roberto de Carvalho, numa colaboração de José Leite; Os Tesourinhos Musicais hoje falei de António Macedo, o cantautor que foi-se esquecendo porém recordamos o Canta Canta Amigo Canta.
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de moçambicana e nas 
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos a confusão das mentes nos dias de hoje esquecendo a evolução doas tempos


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na liderança.
E ainda houve tempo para o lançamento mundial de duas novas músicas de Zé Manel Martins

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Livro - Auto autores - K'arranca às Quartas 114


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Tesourinhos Musicais 89 - António Macedo - K'arranca às Quartas 114


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Esta Música tem uma História 55 - Alô Alô Marciano - Elis Regina - K'arranca às Quartas 114


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Crónica de João Portelinha da Silva (19) - K'arranca às Quartas 114


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Crónicas de Carlos Osório 13 - K'arranca às Quartas 114


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Crónica 102 - K'arranca às Quartas 114


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por causa nenhuma

E quando às vezes me apetece falar a sério mas o meu humor próprio não me deixa. Dizem que nunca se deve lutar com um porco na lama: ambos ficam sujos, mas o porco diverte-se. O problema é que, às vezes, a vida não nos dá o benefício da escolha. Um dia acordamos, pomos a nossa melhor roupinha ou a nossa melhor postura de adulto funcional e, sem aviso, estamos com o joelho enterrado no estrume, a tentar imobilizar uma fera de muitos quilos que não partilha do nosso sentido de decoro e educação.

Lutar com um porco na pocilga é a metáfora perfeita para as discussões estéreis, para as burocracias kafkianas ou para aqueles dias em que tudo decide desmoronar-se ao mesmo tempo. É um exercício de futilidade coreografada. No meio do caos, o mais fascinante não é a sujidade em si, mas o esforço hercúleo que fazemos para brincar de ser sério enquanto o rabo nos escorrega no lodo.

Há uma dignidade cómica no ser humano que tenta manter a compostura em situações absurdas. É o senhor que, após escorregar numa casca de banana, se levanta e sacode o casaco com um olhar fulminante, como se a gravidade tivesse cometido uma gafe social.

Nas nossas "pocilgas" quotidianas — seja um escritório em chamas ou uma crise existencial de segunda-feira — insistimos em usar o tom de voz de um diplomata da ONU. Falamos sobre "metas" e "otimização de processos". Simulamos uma profundidade que, na verdade, é apenas o pânico de quem não sabe onde pôr as mãos. Agarramo-nos às regras porque, se as largarmos, sobramos apenas nós, enlameados, diante de um porco que apenas quer chafurdar.

O porco, claro, é honesto. Ele não finge ser um unicórnio. Ele é massa, grunhido e instinto. A nossa luta com ele torna-se ridícula não porque ele seja sujo, mas porque nós tentamos lutar num terreno onde só conta o peso e a manha.

Brincar de ser sério é o nosso mecanismo de defesa. É a tentativa de aplicar lógica ao que é puramente visceral. Queremos convencer o porco (ou o destino, ou o chefe intratável) através de um memorando bem estruturado. Queremos que a lama respeite o vinco das nossas calças.

No fim, se tivermos de lutar na pocilga, talvez o segredo não seja tentar sair de lá limpo, o que é impossível, mas sim ter a coragem de largar a "seriedade" de fachada. Se a sujidade é inevitável, que pelo menos o riso seja genuíno. Afinal, não há nada mais seriamente ridículo do que um homem de fato a tentar explicar a um porco os benefícios da pontualidade.




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