Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 21 de fevereiro
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Na minha cidade de imaginação é verão e verão comigo é brincar na praia. Brincar na praia é o único desporto radical onde um indivíduo de mais de 40 anos pode passar três horas de rabo para o ar, a cavar um buraco sem nexo, e ainda ser considerado uma pessoa normal pela sociedade em redor e mais longe também.
Há uma mística na areia que suspende o juízo crítico. Mal pomos o pé na areia quente, o suficiente para estrelar um ovo, obrigando-nos àquela dança caricata e tribal de quem pisa brasas até chegar à toalha, o nosso QI regride alegremente para os seis anos de idade ou menos.
Tudo começa com a construção do Castelo. Nunca é apenas um castelo que tem um fosso a toda a volta, torres autossustentáveis embora toscas, fossos com ligação direta ao Atlântico e uma muralha capaz de deter a qualquer invasão anfíbia. Na Realidade é um monte de areia húmida que parece um pudim que correu mal, decorado com três beatas de cigarro e uma casca de ameijoa ou quitéta partida.
A tragédia grega acontece quando a maré sobe. Há sempre um momento de pânico coletivo quando a primeira onda lambe a fundação. É aqui que vemos homens feitos, licenciados e com contas para pagar, a tentar deter o oceano atlântico com uma pá de plástico amarela que custou 2 euros na loja do Camonano. O mar ganha sempre. O mar é o maior destruidor da engenharia civil.
Depois temos os clássicos das modalidades de praia, que deviam constar nos Jogos Olímpicos da Paciência: o futebol, um desporto desenhado para garantir que, a cada três jogadas, a bola acerta na nuca de uma senhora que está calmamente a ler o seu romance ou o jogador atropela uma criança que inconscientemente brinca à beira mar, e que tem como objetivo meter golos e pedir desculpa 47 vezes por hora. Ao que se segue o mergulho estilo croquete, aquele momento em que decidimos entrar no mar, mas a água está a uma temperatura que faz os pinguins pedirem um aquecedor. Ficamos ali, a molhar os tornozelos, a tentar convencer o cérebro de que "depois de entrar, está-se bem". Não está. É mentira. e terminamos com a apanha da concha em que caminhamos quilómetros com o pescoço dobrado, como se estivéssemos à procura de uma nota de 50 escudos, apenas para trazer para casa um saco de pedras calcárias que, no dia seguinte, cheiram a peixe morto e acabam no lixo.
A brincadeira acaba sempre com o pior inimigo da humanidade, a areia acumulada. Brincar na praia implica aceitar que a areia é agora um novo membro da família. Ela vai estar no carro, vai estar nas orelhas, vai estar dentro da sanduíche de fiambre e, misteriosamente, vai aparecer nos lençóis da cama em dezembro.
No fundo, brincar na praia é um exercício de humildade. Ficamos queimados pelo sol em lugares onde nem sabíamos que tínhamos pele, bebemos mais água salgada do que seria medicamente recomendável e acabamos exaustos. Mas nada bate a satisfação de olhar para um buraco gigante na areia e pensar: "Fui eu que fiz isto."
Fui hoje para a praia com ar determinado. O mar estava azul, calmo, com aquela aparência enganadora de sopa morna. Tirei a camisa, estiquei os braços, alonguei o corpo e como se fosse protagonizar um documentário da Tv que nunca vi e avancei.
Primeiro passo: água pelos tornozelos.
Segundo passo: água pelos joelhos.
Terceiro passo: lembrei que não é assim pelo que veio o arrependimento.
Aquele Atlântico, meus amigos, não é uma piscina e nem eu sou Mapundeiro para achar a água fria boa para mergulhar. É uma entidade com personalidade própria. Na minha terra o mar não está frio, está em modo teste de caráter. Quando a água me chegou à cintura, senti que todos os pecados da minha adolescência estavam a ser perdoados à força.
Mas eu tinha decidido mergulhar. Havia crianças de seis anos a fazer cambalhotas aquáticas ao meu lado. Um senhor mais velho nadava com elegância olímpica. Não podia voltar atrás na minha decisão. Voltei para a areia, respirei fundo, fiz aquela contagem mental de atleta profissional um, dois, três e corri para o mar e mergulhei.
Durante dois cagagésimos de secundo fui um pássaro voando elegantemente sobre a espuma do mar. No terceiro, engoli meio litro de oceano ao bater de chapa e no quarto, perdi completamente o sentido de dignidade. Emergi a tossir, com o cabelo colado à testa, enquanto uma onda mais pequena do que a minha autoestima me batia na cara gargalhando.
Tentei recuperar a compostura. Fiz um segundo mergulho, desta vez mais calculado e compassado. Resultado: areia em sítios que a anatomia não previa.
E é nesse momento que acontece sempre o fenómeno social da praia que é toda a gente parece que está a olhar. Não estão, claro, disfarço eu. Mas nós sentimos que sim. até parece estou a ouvir um qualquer apanhador de sol profissional a comentar:
- E ali vemos um exemplar, claramente urbano, a lutar contra 17 graus de temperatura da água.
Decidi sair com dignidade. O problema é que o mar não aceita despedidas formais. Quando virei costas, uma onda traiçoeira empurrou-me, tropecei, fiz meio mortal involuntário e saí da água numa posição que só pode ser descrita como foca desastrada.
Já na toalha, a tremer, declarei solenemente:
- Amanhã volto a mergulhar.
Vou fazer mais como se eu gostaria de saber mergulhar mas o mergulho no mar humilha-nos, congela-nos, desorienta-nos… mas deixa-nos com uma sensação heroica. Sobrevivemos ao Atlântico. Não ganho medalhas, mas ganho histórias.
Diz o ditado que "para baixo todos os santos ajudam", mas quem nunca tentou um mergulho ornamental sem saber a técnica sabe que, na verdade, a gravidade é um mestre muito rigoroso.
Tinha para aí os meus 14 ou quinze anos e tinha como plano simples: impressionar. O cenário era o a ponte velha de uns três metros de altura da minha praia. Muitos mergulhavam em grande estilo, muitos olhavam, incluindo eu. Foi então que pensei que seria capaz e com isso impressioná-la. Rodeado por espectadores que tinha certeza de que estavam a ver porque diziam que eu era capaz e coisas que só um gajo forte consegue resistir. E estavam a assistir e a incentivar, mas talvez não pelos motivos que eu imaginava.
No ângulo direito da ponte fiquei como que em sentido e sentindo a confiança de um mergulhador olímpico. Olhei para baixo, a água cristalina, vista de cima, pareceu-me subitamente sólida. Olhei para ela, que estava aí a uns 50 metros na areia, de mãos na cabeça e com os lábio a dizer qualquer coisa que os meus ouvidos não ouviram.
Memorizei cada passo da técnica que tinha visto os mais velhos fazerem. Braços esticados por cima da cabeça como se fizessem um v invertido, flecti ligeiramente os joelhos para me dar balanço para a altura, lá em cima teria que fazer um golpe de rins e cair na vertical perfeita.
No momento em que os pés perderam o contato as tábuas velhas da idosa ponte, a física assumiu o controle. No ar, o cérebro entrou em paragem, em vez de manter o corpo recto no ascendente tentei recuar numa trajetória de desistência no meio do caminho. O resultado foi uma posição corporal que os especialistas poderiam chamar de desesperado.
O silêncio cerebral foi interrompido por um som seco, um estalo que ecoou como um tiro: O famigerado mergulho de barriga.
Enquanto afundava, não como uma flecha irrompendo até ao fundo, mas mais como uma folha de papel amassada, sentia o ardor na pele da barriga. A água não me recebeu, ela me esbofeteou de chapa inteira. Ao emergir, a barriga exibia um tom de vermelho camarão faria inveja a um qualquer tomate maduro. Nadei até à praia e a saída da água não teve nada de cinematográfico não apoteótico. Foi uma luta frenética para encontrar a um lugar seguro enquanto tentava manter a dignidade de não se ter passado nada.
Um senhor abeirou-se de mim e comentou:
- Nota 2 pelo esforço, mas nota 10 pela som. Parecia uma salva de palmas de uma pessoa só.
Ela, deixei de a ver e a partir daquele instante comecei a pensar que a água tem memória e por isso passei a tratá-la com muito respeitinho e sempre que saltei para o mar nunca mais foi de mais de meio-metro de altura e sempre feito um barril, não vá o diabo esticar-me.
Mergulhar sem saber é um exercício de humildade instantânea. É aprender que a água tem memória e que ela revida se você não a tratar com respeito. Ricardo não aprendeu a dar um mortal naquele dia, mas aprendeu a técnica mais importante de todas: o mergulho de pé, mantendo o nariz devidamente tapado.
Isto foi o suficiente para desequilibrar o meu "nada". Tentei ignorar. Mas o chinelo parecia que estava a olhar para mim e a me chamar. Ainda por cima com um olhar de julgamento. Estiquei o pé para puxar o chinelo. Errei. Tentei de novo. O chinelo escorregou do pé e foi para debaixo da poltrona.
Agora, tinha um problema: para continuar a fazer o meu nada precisava do chinelo. Mas para pegar o chinelo, eu teria que fazer alguma coisa.
Fiquei ali, com um pé descalço e outro calçado, vivendo um hiato existencial. Pensei:
Se eu ficar perfeitamente parado, eu me torno parte da mobília. A poeira vai cair sobre mim e eu serei, finalmente, o mestre do vazio.
Nesse exato momento, uma mosca entrou na sala, daquelas que parecem helicóptero e param no ar.
A mosca não tinha o mesmo compromisso com o minimalismo. Ela pousou-me na testa. Eu não movi um só músculo. Eu era era um móvel imóvel. Eu era... um homem com a testa arrepiada e abanei-a.
A mosca voou, segui-a com os olhos até que ela pousou-me no nariz, entrando na narina.
O resultado? Eu soltei um espirro tão violento que ou a mosca fugiu para outra dimensão, ou o chinelo ficou esquecido ou eu me esparramei no chão.
Dez minutos depois, estava eu na cozinha a pôr gelo no joelho e de cu para o ar à procura do segundo chinelo. Percebi então que fazer nada dá um trabalho danado. O universo simplesmente não aceita o vácuo; se não se preenche o seu tempo com algo, o destino preenche com moscas e incidentes ortopédicos.
Diz o povo que "a vida são dois dias e o Carnaval são três", mas para quem sofre de alergia crónica a serpentinas, o Carnaval são quatro meses: dois de ansiedade prévia, quatro dias de clausura e o resto do tempo a encontrar confetis dentro de sapatos que nem sequer usámos.
O problema de não gostar de nos mascararmos não é a falta de imaginação. É o excesso de realismo.
Toda a gente tem um amigo entusiasta que, em dezembro, já está a planear uma mascarada de grupo. A sugestão é sempre algo coletivo e humilhante, tipo "vamos todos de peças de Tetris". O Dilema Logístico que eu levanto: Como é que uma peça de Tetris vai à casa de banho? ou então o factor térmico: em Portugal, o Carnaval rege-se por uma lei física cruel: se a máscara é gira, vais morrer de hipotermia; se a máscara é quente (tipo um fato de peluche de urso), vais suar mais do que num ginásio sem ar condicionado; ou vem-me à cabeça a Identidade Perdida: não há nada mais triste do que estar numa conversa séria sobre a inflação enquanto se usa um chapéu de pirata de plástico que teima em cair sobre o olho esquerdo.
Na verdade começamos com uma simples máscara tipo zorro e, quando dou por mim, estou a ser arrastado para um comboio ao som de "Apita o Comboio", com uma peruca azul que cheira a petróleo e a dignidade algures esquecida num balcão de bar.
Enquanto a multidão se acotovela na avenida para ver passar o carro alegórico que satiriza um político de 2026 o não-mascarado cultiva prazeres mais refinados como ver os diretos da TV e jogar ao "Onde Está o Wally" com a vergonha alheia, comer filhós e sonhos sem medo de sujar um fato de cetim de 15 euros comprado na loja chinesa ou poder olhar-me ao espelho na manhã seguinte sem ter de esfregar a cara com diluente para tirar os restos de maquilhagem de palhaço triste.
No fundo, o Carnaval é uma época de liberdade. E não há maior liberdade do que o direito constitucional de não usar uma peruca que pica. Se me virem na rua nestes dias, não se enganem: não estou mascarado de pessoa norma". É mesmo a minha cara de quem está a contar os minutos para a Quaresma.
O Dia dos Namorados é aquela data em que o amor acorda com recibo verde, número de contribuinte, factura e esperança na troca. No resto do ano ele é espontâneo, anda de pantufas, oferece um “gosto de ti” entre a sopa e o telejornal. Mas a 14 de fevereiro transformou-se num gestor de expectativas.
Dizem que a tradição vem de São Valentim. Um homem que, ao que consta, defendia o amor. O que ele não imaginava era que, séculos depois, o seu nome estaria associado a filas nas floristas, em restaurantes e mensagens começadas com “Amor, não era preciso nada de especial…”.
Nada de especial. Frase perigosa. “Nada de especial” pode significar um jantar romântico à luz de velas ou apenas que o outro acerte no tamanho do presente e na intensidade do sentimento. É uma ciência imprecisa.
Os restaurantes, neste dia, praticam uma espécie de atletismo emocional. Mesas coladas umas às outras, velas que derretem mais rápido do que a conta bancária e um violinista que aparece misteriosamente sempre na altura em que estamos a decidir se pedimos sobremesa ou se pagamos a prestação do carro.
E depois há os solteiros. Esses olham para o calendário como quem observa um fenómeno astronómico raro. Alguns organizam o “anti-Valentim”, outros dizem que é uma invenção comercial, o que não deixa de ser verdade, mas depois aceitam um chocolate “só porque estava em promoção”. O amor pode não ter preço, mas o chocolate tem desconto.
Os casais de longa data vivem o dia com pragmatismo. Trocam olhares cúmplices que dizem: “Vamos celebrar o nosso amor… mas sem exageros, que a mensalidade vai a meio” Já sobreviveram a discussões sobre comandos de televisão e temperaturas do ar condicionado; um ramo de flores já não os intimida.
E há sempre aquele casal que publica uma declaração épica nas redes sociais. Uma ode digna de Luís de Camões, com metáforas marítimas e promessas eternas. Nós lemos, emocionados… e depois lembramo-nos que ainda estamos à espera que nos respondam à mensagem das 15h32.
No fundo, o Dia dos Namorados é um lembrete, às vezes exagerado, às vezes ternurento, de que amar dá trabalho. Não o trabalho do embrulho perfeito, mas o de ouvir, ceder, rir das manias do outro e continuar a escolher a mesma pessoa, mesmo quando ela deixa a tampa da pasta de dentes aberta ou o tampo da sanita levantado.
Talvez o verdadeiro romantismo não esteja no jantar caro nem no presente ultimamente fotografado em rede social. Talvez esteja naquele gesto simples de dividir a última fatia de bolo… ou de fingir que não vimos a série sem o outro.
Porque o amor, quando é a sério, não precisa de data marcada. Mas já que existe um dia oficial, aproveitemos. Nem que seja para lembrar que o melhor presente continua a ser alguém que, no meio da confusão do mundo, ainda escolhe sentar-se ao nosso lado.
E isso, convenhamos, não vem embrulhado, mas é o que mais conta.
Há algo de profundamente terapêutico em ligar o aparelho e ser recebido por uma voz que não sabe quem eu sou nem onde estou, mas fala como se estivéssemos a partilhar uma imperial. Enquanto o mundo lá fora exige que eu tenha uma opinião sobre a inflação ou o corte de cabelo que está na moda igualizando todas as cabeças, a rádio apenas me pede para estar presente.
É o único sítio onde a solidão deixa de ser um peso para passar a ser uma audiência.
A relação é simples, mas tem as suas regras: A voz do locutor torna-se aquele amigo que nunca me pede dinheiro emprestado e tem sempre uma playlist melhor que a minha. As notícias são o lembrete de que o mundo continua a girar, geralmente de pernas para o ar, o que me faz sentir muito melhor por estar apenas sentado no sofá a comer cereais diretamente da caixa ou a tirar uns capins do canteiro de casa e há a estática, aquele chiar entre estações é o som do universo a dizer para ter calma e que estamos a tentar ligar-te à realidade, aguarda um momento.
Estar sozinho com a rádio é a forma mais pura de convívio social para introvertidos. É o luxo de estar com pessoas sem ter de usar calças com fecho éclair ou fingir que estou a ouvir quando, na verdade, estou apenas a pensar se o queijo no frigorífico ainda está dentro do prazo de validade ou se o frio e a chuva são eternos.
O mundo pode estar um caos, as redes sociais podem ser um campo de batalha de egos, mas ali, entre os 87.5 e os 108.0 MHz, a vida é mais simples. Sou eu, a voz de alguém que provavelmente está num estúdio escuro a beber café frio, e a música que preenche os espaços vazios da casa.
No fundo, a rádio ensinou-me que estar sozinho não é o mesmo que ser solitário. Ser solitário é um deserto; estar sozinho com a rádio é uma festa privada onde eu sou o convidado de honra e o segurança que decide quando é hora de toda a gente se calar.
No coração da cidade, onde as duas colinas parecem ter sido feitas para testar a gravidade, vivia eu. Não era rapaz de meias medidas, nem de meias luas e nem de meias solas quanto mais de meias palavras. E, como vim a descobrir, também não era um homem de travões. Pelo menos, não na bicicleta.
A bicicleta, alaranjada pálida de gasta pelo sol, era uma relíquia semi-enferrujada que parecia ter sobrevivido a todas as tempestades do deserto antes do meu nascimento. Não tinha mudanças, o selim era tão duro que fazia inveja a uma pedra, sem para-lamas e também, sem travões. Acho este um pormenor charmoso. Sem travões. Ela era uma relíquia que com o dinheiro que tinha mais não podia comprar. De vez em quando lá tinha eu um diálogo com um candeeiro de rua ou simplesmente com alcatrão.
Mas eu via isto como uma vantagem. "Quem precisa de travões?", costumava dizer, com um brilho maluco nos olhos. Também dizia que travões era para os fracos! Eu tenho os meus pés, os sapatos, e a minha fé no destino! E assim, todas as manhãs, subia a minha ladeira até ao liceu. Na volta os pés pairavam sobre o chão, pronto para a travagem de emergência que consistia em arrastar os sapatos até o fumo começar a sair ou eu me lembrar de pôr o pé no pneu de trás.
Um dia, enquanto descia a Rua das hortas, apercebi-me de que tinha esquecido o pão para o lanche.
- Ó céus! O pão!, exclamei enquanto decidi que era uma excelente ideia virar-se na hora para a padaria do João Padeiro que tinha acabado de passar. Uma manobra que só se pode descrever como "kamikaze ciclístico".
Enquanto virava a bicicleta, os pés bailaram no ar, procurando desesperadamente o chão sabendo que o céu estava mais perto, zigue-zagueava pelo que passei por uma senhora mais velha que me olhou, encolheu os ombros e eu ouvi
- Mais uma anormal... depois foi silêncio total.
Por pouco acertava na porta e por azar meu acertei na parede entre duas portas e não me lembro se comprei o pão ou fui a mais algum sítio. Acordei de cabelo molhado, estatelado no passeio e uma voz que vinha de longe a chamar por mim, Ou era algo assim parecido. Dizem que revirei os olhos, que parecia uma árvore a cair com tudo direitinho no passeio cimentado da loja do João Padeiro.