Eu, que até então encarava a escola como uma espécie de castigo inventado pelos adultos para impedir os miúdos de serem felizes, comecei a levantar-me de manhã com uma disposição que até começou a preocupar a família.
- Este rapaz está doente? — perguntava a minha mãe, desconfiada.
Não lhe respondia mas não estava. Estava única e simplesmente apaixonado.
E o amor, como se sabe e até está nos livros, provoca alterações profundas no comportamento humano, algumas das quais ainda não foram devidamente estudadas pela Medicina Moderna, mas que os poetas antigos bem o explicam. Como se pode reparar até em Português eu fiquei interessado.
A minha paixão tinha nome, rosto, cabelo e um lugar habitual na sala de aula. Eu sabia onde se sentava, com quem falava, quando sorria e até a maneira como segurava a caneta. Sabia tudo sobre ela, menos uma coisa absolutamente essencial, se ela sabia que eu existia.
Para mim, aquilo era secundário como veria a saber uns anos bem mais tarde, mas isso agora não vem para aqui para o liceu. O importante era ir ao liceu e eu deixei de faltar. Havia quem frequentasse as aulas para aprender. Havia quem fosse para passar de ano. Havia ainda os que apareciam porque os pais ameaçavam confiscar-lhes a bicicleta, os passeios e, em casos mais graves, a própria liberdade que por aqueles anos tínhamos. Eu tinha uma motivação muito mais nobre: contemplar a minha musa em ambiente pedagógico.
Acordava cedo, lavava-me com um rigor quase militar, penteava o cabelo com uma dedicação que nunca mais voltaria a dedicar à minha aparência e escolhia a roupa como se fosse participar numa reunião diplomática entre o meu coração e o destino. O espelho era o meu primeiro professor.
- Estás apresentável - dizia eu ao meu reflexo. O reflexo, que me conhecia melhor, não respondia.
Chegava ao liceu com uma pontualidade que teria feito corar de vergonha os próprios relógios. Se antes, o toque da campainha era para mim um sinal de tortura iminente, agora, é música celestial. Se tocasse duas vezes, eu considerava que o estabelecimento estava a oferecer um bónus romântico. O problema era que, para a ver, tinha de assistir às aulas. E foi assim que começou a minha desgraça académica. Na aula de Português, comecei a prestar atenção aos textos. Não por interesse especial na literatura, mas porque, se a professora fizesse uma pergunta e eu respondesse correctamente, talvez a minha amada pensasse:
- Ele até tem alguma coisa naquela cabeça!
Na História, passei a saber datas. Descobri reis, batalhas, tratados e revoluções. Em 1974, com o país inteiro a mudar de rumo, eu tinha também uma revolução em curso, queria deixar de ser o rapaz que ela nunca notava para me transformar num intelectual digno de uma olhadela. Na Matemática, aconteceu o impensável. Comecei a resolver problemas!
Eu, que até então olhava para uma equação como quem olha para uma tratado numérico sem sentido ou finalidade, comecei a encontrar soluções. Se o professor escrevia um problema no quadro, eu debruçava-me sobre o caderno com uma determinação que só não era maior do que aquela com que procurava o rosto dela entre os colegas. Havia, naturalmente, uma estratégia. Eu sentava-me num lugar de onde conseguia ver a professora, o quadro e, sobretudo, ela. Era uma posição cuidadosamente calculada, uma espécie de triângulo amoroso em que os vértices eram a sabedoria, a paixão e a possibilidade de copiar os apontamentos.
Quando ela levantava a mão para responder, eu ficava atento. Se acertava, sentia orgulho, como se tivesse sido eu a descobrir a cura para uma doença rara. Se errava, experimentava uma solidariedade tão profunda que me apetecia pedir ao professor que anulasse a pergunta.
Uma vez, a professora perguntou:
- Quem sabe explicar a diferença entre sujeito e predicado?
Eu sabia.
Levantei a mão com uma rapidez que surpreendeu a turma inteira. A professora, que me conhecia de outros anos, olhou para mim espantada.
- Muito bem! Então diz lá.
Respondi correctamente.
Ela elogiou-me. Coisa raríssima até àquele dia e eu em vez de olhar para a professora, procurei imediatamente a reacção da minha musa. Ela estava a escrever no caderno. Nem sequer levantou a cabeça. Foi uma derrota terrível. Mas não desisti. Um homem apaixonado não abandona uma batalha por causa de um pequeno pormenor, como a indiferença da pessoa pela qual está disposto a aprender gramática.
A partir daí, comecei a estudar em casa.
No início, os livros serviam-me de pretexto para imaginar conversas com ela. Depois, comecei a perceber a matéria. E, quando dei por mim, já sabia as respostas antes de o professor acabar de formular as perguntas. Os meus colegas começaram a desconfiar.
- Tu andas a tomar alguma coisa?
- Não.
- Tens explicador?
- Não.
- Então o que se passa contigo?
Eu não podia confessar a verdade. Havia segredos que um adolescente em 1974 guardava com mais cuidado do que os documentos classificados.
Limitei-me a responder:
- Estou a interessar-me pelos estudos. Acabei de ver que isto afinal é interessante.
A gargalhada foi geral. O pior veio quando começaram os testes. Eu estudava com afinco, resolvia exercícios, decorava datas e lia os textos recomendados. Na véspera das provas, em vez de pensar em passeios, cinemas ou conversas imaginárias, ficava até tarde debruçado sobre os livros. O bilhar fazia tempo tinha saudades de mim e eu já nem me lembrava dele. Mas não tinha começado exactamente como vocação académica, era uma forma de sedução intelectual que não tinha qualquer garantia de chegar a bom porto.
Quando saíram as primeiras notas, tive uma surpresa: eram boas! Boas não. Muito boas! A minha mãe soube os resultados com a expressão de quem acaba de descobrir petróleo no quintal. A minha mãe emocionou-se. E desde então os professores passaram a chamar-me pelo nome. E os colegas, que até então me consideravam um rapaz perfeitamente normal, começaram a tratar-me como se eu tivesse sido substituído por um primo inteligente vindo do estrangeiro. Eu estava feliz. Naturalmente, havia uma pequena contrariedade: a rapariga continuava sem me dedicar a atenção especial. Para ela, eu era apenas um colega que, de repente, sabia responder às perguntas do professor e tirava boas notas.
Para mim, ela era a razão de todo aquele milagre. Chegou o fim do ano, e os resultados confirmaram o que parecia impossível: eu era um bom aluno! A família festejou. Os professores sorriram. Os colegas aceitaram, com alguma dificuldade, que a inteligência também podia aparecer em pessoas que anteriormente tinham demonstrado uma relação pouco amistosa com os livros. E eu? Eu continuei apaixonado.
Nunca lhe disse que, por causa dela, tinha aprendido mais História, mais Português e mais Matemática do que em todos os anos anteriores. Nunca lhe confessei que a minha súbita dedicação escolar era uma operação sentimental cuidadosamente disfarçada de sucesso académico. Talvez tenha sido melhor assim. Porque, se lhe tivesse contado, ela poderia ter-se sentido responsável pelas minhas notas e não era justo atribuir-lhe tamanha responsabilidade. Já bastava a responsabilidade que eu próprio lhe atribuía pela minha felicidade, pelo meu penteado e pela quantidade de vezes que olhava para o relógio durante os intervalos.
Hoje, quando olho para trás e recordo aquele adolescente de 1974, reconheço que a vida tem um sentido de humor admirável. Eu, no liceu, por causa de uma rapariga, acabei por descobrir que era capaz de estudar. Fui à procura de um amor e encontrei uma vocação que nem sabia que tinha. Queria conquistar o coração de uma colega e, pelo caminho, conquistei o respeito dos professores, a satisfação lá de casa e umas notas que ainda hoje me dão vontade de mostrar os boletins escolares.
Só não a conquistei. Mas também não se pode exigir tudo à adolescência. Ela já tem de lidar com as hormonas, as espinhas, os cabelos rebeldes, as paixões escondidas por trás daquela cara de quem não se importa com coisas mundanas e aquela convicção absurda de que um sorriso dado no corredor pode equivaler a uma promessa de casamento.
A verdade é que, em 1974, eu ainda não sabia que a vida raramente nos dá aquilo que pedimos. Às vezes, dá-nos outra coisa, muito mais útil, embora menos romântica. Eu queria que ela olhasse para mim. Acabei por aprender a olhar para os livros.
E, sem dar por isso, passei de ano. Quanto a ela, nunca soube que fui o grande amor da sua vida. Mas tenho a certeza de uma coisa, foi a única paixão que me ajudou a melhorar as notas sem nunca me ter dado uma única explicação.





