Reescrever a minha estória, os tempos dos meus 12 anos com os olhos de agora é a minha forma de fazer uma homenagem aos meus avós, aos meus amigos, conhecidos e às crianças de hoje que não imaginam que eu também já fui noutro tempo criança.
Era Domingo e para os meus avós sentarem-se na avenida ao fim da tarde era, confesso hoje, a forma mais económica de fazerem terapia e, convenhamos, a única onde podiam julgar, discretamente, a vida alheia sem pagar.
Escolhiam o banco como quem escolhe o lugar num espetáculo, desde que estivesse vazio e na área préviamente definida. Porque é disso que se tratava: um desfile contínuo de personagens que não sabem que estão a ser observadas por gente atenta a tudo, incluindo pormenores.
No tempo em que se ia à avenida as pessoas iam mais leves, as roupas encurtavam, os sorrisos esticavam e até os tempos pareciam menos urgentes nos relógios de bolso.
Passavam também os corredores profissionais, esses atletas urbanos que correm com um ar sofrido, como se estivesse a fugir de uma dívida antiga ou a fugir de uma outra vida paralela. Faziam a avenida uma dúzia de vezes, mas sem nunca perderem o sorriso ou a educação. Os meus avós contavam as voltas e diziam-me, não tenhas pressa porque o tempo tem o seu tempo. Depois vinha o passeante filosófico, mãos atrás das costas, a resolver os problemas do mundo ao ritmo de um passo por minuto, provavelmente já ia na terceira solução para o universo antes de chegar ao quiosque e voltar para trás.
Havia também os grupos de amigos, que falam todos ao mesmo tempo com a convicção de que alguém está a ouvir. Riem alto, gesticulam mais ainda, e deixam no ar aquela invejável sensação de que a vida, naquele momento, está exatamente onde devia estar.
E, claro, os cães. Não me lembro se havia alguém que fosse passear o cão. Não estou a ver um cão a puxar o dono com autoridade e a parar para refletir profundamente sobre um poste, na forma líquida de esvaziar. Uma profundidade que nós, humanos, raramente atingimos na praça pública.
Eu, sentado ao lado dos meus avós, fazia parte do cenário. Com ar cansado, porque observar dá trabalho e com aquela cara de quem queria estar a fazer coisas mais importantes, quando na verdade estava apenas a tentar perceber se aquele senhor passou três vezes ou se existem três senhores iguais com o mesmo casaco.
A luz começava a dourar tudo. A avenida ganhava um tom de postal ilustrado, desses que já ninguém envia mas todos reconhecem e sorriem quando recebem.
Na avenida havia um momento breve, quase tímido, em que tudo parecia em equilíbrio, o barulho certo, a temperatura certa, a quantidade exacta de gente e de sossego.
É nessa altura que pensava: isto é felicidade em versão simples. Sem filtros, sem pressa, sem necessidade de grande explicação.
Depois aparecia sempre alguém da família que dizia estás tão crescido, como se eu tivesse crescido de ontem para hoje.
E pronto. A avenida por hoje acabou, levanto-me e vou dar uma volta, levando na memória os meus avós, os meus amigos que tinham e faziam as mesmas caras que eu.
Era a tarde na avenida, que por acaso era a do Bonfim.








