12 de fevereiro de 2026

a minha vida desportiva

Tudo começou quando decidi que em 1968 seria o ano de ei ser jogador de futebol ou de hóquei. Eu não queria apenas praticar um desporto; eu queria todos e nesses todos só havia esses dois na minha terra. O problema é que as leis da física eram meras sugestões que eu costumava ignorar, geralmente com resultados catastróficos.
Comprei uns patins de rodas de borracha porque os outros corriam com rodas de metal e aquilo irritava a derrapar, o stick era herdado dos tios e pesava uma tonelada ou pouco menos e uma grande vontade que foi de borla Fui no campo do Benfica onde havia para a minha idade o CID que era treinado pelo Sr. Vergílio que me lembro era campeão ou coisa parecida na tugália. Mandou dar umas voltas e eu dei. Patinava era perfeito. O stick é que não fazia falta na mão, pelo que naquele dia estava a atrapalhar. E foi assim uns dias.  A bola? Já estava pronto para mandar às ortigas, que na altura nem sabia o que era, a minha experiência no hóquei. Mas já dominado o silêncio de patinar fui entrando nos treinos com uma bola que era preta e pesada demais para a minha força inexistente. Mas treino atrás de treino fui vendo que o que faltava em jeito, sobrava em suor. Todos os meus remates eram em câmara lenta. 
Mas aos sábados não faltava ao treino de futebol, também no campo do Benfica. Corre, salta, sobre bancadas, faz isto e aquilo. Bola? Nada. Já estava a prever que ia passar ao lado de uma grande carreira desportiva, porque o que eu queria era mesmo um jogo com bola. Até nos treinos eu era suplente. 
Futebol e hóquei foram duramente testados durante um ano. Resultado era suplente do suplente. 
O Sr. Vergílio achou que eu devia experimentar ser guarda-redes. Tentei mas não gostava se passar o tempo todo ali abaixado e a olhar por trás da máscara que até parecia prisioneiro. Mas se treinador manda...
Um ano durou a fase de teste e a minha carreira desportiva. Mas não me saia da cabeça essa coisa. Mudei de táctica. Escolhi uma carreira que me permitiu entrar em campo, nos grandes estádios da tugália, mesmo não sabendo dar um chuto nem dar uma sticada com força numa bola de alcatrão.

Sanzalando

11 de fevereiro de 2026

Programa 105 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 11 de Fevereiro 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - O Silêncio das Palavras Ditas

Hoje o Livro foi A Desumanização de Valter Hugo Mãe, nas palavras de Anabela Quelhas
Esta Música tem uma história trouxe Ivan Lins e Rio de Maio, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje conjunto Os Sindicato, uma banda que foi de Jorge Palma e de Rao Kyao para lá de outros muitos
Poema Amém de Cecília Meireles na voz de o Mundo dos poetas
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de um poeta brasileiro e as
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou as fotografias do antigamente e as de agora
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Tesorinhos Musicais 80 - Os Sindicato - K'arranca às Quartas 105


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Livro A Desumanização . por Anabela Quelas - K'arranca às Quartas 105


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Esta Música tem uma História 47 - K'arranca às Quartas 105


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As Crónicas de Carlos Osório (4) - K'arranca às Quartas 105


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Crónica de João Portelinha da Silva (11) - K'arranca às Quartas 105


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Crónica 93 - K'arranca às Quartas 105


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Eu, a bicicleta e os travões que não tinha

O Paulo Jorge vendeu-me uma bicicleta, o resto é uma estória que vou contar

No coração da cidade, onde as duas colinas parecem ter sido feitas para testar a gravidade, vivia eu. Não era rapaz de meias medidas, nem de meias luas e nem de meias solas quanto mais de meias palavras. E, como vim a descobrir, também não era um homem de travões. Pelo menos, não na bicicleta.

A bicicleta, alaranjada pálida de gasta pelo sol, era uma relíquia semi-enferrujada que parecia ter sobrevivido a todas as tempestades do deserto antes do meu nascimento. Não tinha mudanças, o selim era tão duro que fazia inveja a uma pedra, sem para-lamas e também, sem travões. Acho este um pormenor charmoso. Sem travões. Ela era uma relíquia que com o dinheiro que tinha mais não podia comprar. De vez em quando lá tinha eu um diálogo com um candeeiro de rua ou simplesmente com alcatrão. 

Mas eu via isto como uma vantagem. "Quem precisa de travões?", costumava dizer, com um brilho maluco nos olhos. Também dizia que travões era para os fracos! Eu tenho os meus pés, os sapatos, e a minha fé no destino! E assim, todas as manhãs, subia a minha ladeira até ao liceu. Na volta os pés pairavam sobre o chão, pronto para a travagem de emergência que consistia em arrastar os sapatos até o fumo começar a sair ou eu me lembrar de pôr o pé no pneu de trás.

Um dia, enquanto descia a Rua das hortas, apercebi-me de que tinha esquecido o pão para o lanche. 

- Ó céus! O pão!, exclamei enquanto decidi que era uma excelente ideia virar-se na hora para a padaria do João Padeiro que tinha acabado de passar. Uma manobra que só se pode descrever como "kamikaze ciclístico".

Enquanto virava a bicicleta, os pés bailaram no ar, procurando desesperadamente o chão sabendo que o céu estava mais perto, zigue-zagueava pelo que passei por uma senhora mais velha que me olhou, encolheu os ombros e eu ouvi

- Mais uma anormal... depois foi silêncio total. 

Por pouco acertava na porta e por azar meu acertei na parede entre duas portas e não me lembro se comprei o pão ou fui a mais algum sítio. Acordei de cabelo molhado, estatelado no passeio e uma voz que vinha de longe a chamar por mim, Ou era algo assim parecido. Dizem que revirei os olhos, que parecia uma árvore a cair com tudo direitinho no passeio cimentado da loja do João Padeiro. 


Sanzalando

10 de fevereiro de 2026

eu, o deserto e a cidade

O deserto não era o Saara, mas sempre me disseram que era o mais antigo do mundo e isso era o suficiente para fazer um homem esquecer o próprio nome se ficasse tempo demais sob o sol dele. O curioso é que, do topo da duna mais alta, ainda era possível ver as luzes da cidade cintilando no horizonte, como um céu estrelado na terra

Eu, sentado no capôt de um jipe que do senhor Miranda que por acaso era também Leovegildo, esperava a hora de voltar

No deserto, quando eu ia ver-lhe um pedaço, ainda não tinham inventado o GPS e nem eu tinha deixado migalhas ou pedrinhas para saber o caminho de volta. Se não fossem as luzinhas da cidade eu ia dizer que estava perdido. Eles não. Eles sabiam que era para aquele lado.  Eu no deserto era um perdido de dia e um desachado mal o sol se punha. Esqueci de nascer com sentido de orientação geográfica. O sr. Miranda já sabia a me perguntava sempre para que lado nós voltamos. Sempre errava. O Rui sabia. Era mesmo só defeito de fabrico, pensava eu.

Seguindo a constelação que se via em terra eu estava seguro. Eu sabia que o sr. Miranda jamais se ia perder. 

De repente, o silêncio foi quebrado por um som seco. Não era um motor. Era o bater de asas de um drone de entrega, pintado de preto fosco para sumir na noite que caía.

O deserto guarda segredos, mas apenas para aqueles que sabem que a cidade é apenas uma miragem que dura um pouco mais que as outras.


Sanzalando

9 de fevereiro de 2026

sentir saudade sem mágoa

Sentir saudade sem mágoa é uma forma de gratidão retroativa. É como visitar uma casa onde já moramos, as paredes podem estar descascadas agora ou até com novas pinturas, mas o que lembramos é do cheiro da comida da avó, dos risos, das estórias contadas nos serões do antigamente.
Antigamente, o tempo parecia ter outra densidade. As tardes de domingo duravam um século e o tédio era o berço da criatividade, não uma ansiedade a ser preenchida por notificações.
Lembramos do peso de um álbum de fotos, do esforço de girar o disco de um telefone ou da espera por uma carta que poderia chegar com boas ou más notícias. 
Há uma doçura em lembrar de quando não sabíamos de tudo. A ignorância sobre o resto do mundo tornava a nossa rua o universo inteiro.
A mágoa nasce do desejo impossível de voltar. Já a saudade serena nasce da aceitação de que aqueles tempos precisavam acabar para que estes pudessem existir. As memórias não são âncoras que nos prendem ao fundo, são velas que nos ajudam a navegar agora, lembrando-nos de que somos feitos de momentos bons.
É um privilégio ter um passado que valha a pena ser visitado mentalmente. Se a lembrança traz um sorriso antes de um suspiro, então a missão daquele tempo foi cumprida.
Eu brinquei, eu me magoei, eu magoei. De outro modo - eu vivi. Esse é o meu passado, vou fazer como mais com ele para além do revisitar?

Sanzalando

8 de fevereiro de 2026

O Superpoder Mais Barato do Mundo

Dizem que votar é um direito. Eu cá acho que é mais é um superpoder. Não dá para voar, não dá para ficar invisível, mas dá para mandar bitaites com selo oficial. E isso, em Portugal, é coisa séria.

O voto é aquela rara ocasião em que o cidadão comum, que normalmente só manda no comando da televisão passa a mandar, teoricamente e nem que seja por um pequeno instante, no destino da nação. Nem que seja por dois minutos, dentro de uma cabine que parece um provador de loja dos anos 80, com uma caneta presa por um fio, tal como nós estamos à vida, como se alguém fosse fugir com ela para fundar um novo partido: o Partido da Caneta Roubada.

Há quem diga: 

- Eh pá, o meu voto não conta para nada.

Pois não, mas também não conta muito não ir ao ginásio uma vez por mês, e depois queixamo-nos da barriga grande, da flacidez muscular ou da falta de vontade de fazer coisinhas. A democracia também faz barriga se ninguém a exercita. Fica mole, cansada e começa a prometer coisas que nunca cumpre.

Votar tem outro grande benefício: dá-nos o direito moral de reclamar. Quem vota pode dizer com autoridade: 

- Eu avisei. 

Quem não vota só pode dizer: 

- Eu estava ocupado a ver uma série ou está um frio do caraças.

E convenhamos: não há nada mais satisfatório do que reclamar com fundamento. É quase terapêutico. Sai mais barato do que a ida a um psicólogo e não engorda, ao contrário dos pastéis de nata.

Além disso, votar é um ótimo exercício de humildade. Entramos cheios de certezas, saímos cheios de dúvidas e, no meio, percebemos que afinal não sabemos assim tanto sobre programas eleitorais, mas sabemos muito sobre desconfiança geral. Ainda assim, escolhemos. Porque a alternativa é deixar que alguém  escolha por nós e isso é como deixar outro decidir o jantar: acabamos sempre com algo que não gostamos e ainda pagamos a conta.

No fundo, votar é como plantar uma árvore. Não dá sombra logo, mas se ninguém plantar, daqui a uns anos estamos todos ao sol, a queixar-nos do calor e a dizer:

- Isto antigamente não era assim.

Pois não. Antigamente alguém foi lá, votou, plantou e fez o trabalho chato.

Por isso, vá votar. Nem que seja só para poder dizer depois, com ar importante: 

- Eu fiz a minha parte.

Em tempos de super-heróis, é bom lembrar que o verdadeiro herói nacional não usa capa. Usa cartão de eleitor, paciência e uma caneta presa por um cordel.



Sanzalando

6 de fevereiro de 2026

O Solidário de Ocasião ou o Drama da Sopa de Letrinhas

Diz o ditado popular que "fazer o bem sem olhar a quem" é a virtude máxima. É uma frase linda, digna de moldura com flores secas, mas a verdade é que o ser humano moderno — esse bicho ansioso e cheio de boas intenções mal coordenadas , raramente consegue ser solidário sem, pelo menos, dar uma espreitadela para ver se o telemóvel está focado e tudo fica registado para memória futura.

A solidariedade, hoje em dia, começa muitas vezes com um dilema logístico. Queremos ajudar, mas o universo parece conspirar contra a nossa santidade repentina.

Tudo começa naquele momento com chuva, introspecção e em que decidimos ser pessoas melhores ou melhor pessoa no nosso intimo. Abrimos o armário e decretamos: Vou dar isto tudo aos pobrezinhos! É um momento catártico. O problema é que, no nosso delírio altruísta, achamos que a carência alheia é diretamente proporcional à nossa falta de noção.

Separamos para doação:

- Uma t-shirt de um festival de 2004 com um furo estratégico na axila ou amarelecida das lavagens.

- Umas sapatilhas a dar para o desgaste de uso e desbotado de gasto.

- Um comando de televisão que já não existe no mercado, ou aqule caixa de transformadores que já nem nos lembramos para que serviam.

Olhamos para aquele monte de tralha e sentimos um calorzinho no peito. Sou o Gandhi da Porcalhota ou simplesmente o Zé da Ria, pensamos, enquanto ignoramos que estamos apenas a transferir o nosso lixo doméstico para uma instituição que já tem t-shirts de festivais suficientes para estofar um estádio.

Depois, temos o clássico do supermercado. À entrada, recebemos o saco plástico, que transportamos como a "capa de herói" do cidadão comum. É ali que a psicologia humana se torna fascinante.

Há quem entre em pânico de performance. Olham para as prateleiras e pensam: "Se eu levar massa, sou básico. Se levar grão, sou conservador. Será que os necessitados gostam de leite de aveia com sabor a baunilha?". Acabam por comprar três quilos de quinoa biológica e um frasco de corações de alcachofra, porque "toda a gente merece um mimo gourmet".

Do outro lado, temos o solidário estratégico, que passa o tempo todo a espreitar o carrinho do vizinho. Se o senhor ao lado leva dez pacotes de arroz, ele sente-se na obrigação moral de levar doze. É a única competição desportiva onde o prémio é uma palmadinha nas costas dada por um escuteiro de 12 anos.

Não podemos esquecer a solidariedade das redes sociais. É aquela partilha de um vídeo emocionante acompanhada pela legenda: "O mundo precisa de mais disto. Partilhem!".

É a forma mais eficiente de ser bondoso: não custa dinheiro, não suja as mãos e ainda nos dá aquele brilho de "pessoa consciente" nos algoritmos. Se o mundo fosse salvo por partilhas de Facebook, já estaríamos todos a viver num jardim do paraíso com Wi-Fi gratuito e unicórnios a distribuir sumos naturais e outras mordomias.

A verdade é que a solidariedade real é muito menos charmosa. É aquele vizinho que ajuda a senhora do terceiro andar a carregar as compras sem ninguém estar a filmar. É a pessoa que faz um donativo mensal por débito direto e se esquece que o faz. É, no fundo, perceber que o outro não é um depósito para a nossa consciência pesada, mas alguém que, às vezes, só precisa que não o ignoremos no elevador.

Ser solidário é um desporto radical de humildade. E se, pelo caminho, conseguirmos não dar aquele pijama de flanela com buracos, já estamos no caminho certo para a canonização.


Sanzalando

5 de fevereiro de 2026

A guerra contra os Donos da Razão

Há pessoas que não têm opinião. Têm sentença. Não dizem “acho que…”. Dizem “é assim.” Ponto final. Se discordarmos, é porque ainda não percebemos. Se insistirmos, é porque somos teimosos. Se tivermos razão, foi sorte.

Estas pessoas são conhecidas como Donos da Razão. Andam por aí como se tivessem um certificado invisível pendurado ao pescoço: “Atenção: estou sempre certo desde 1999.”

Tentar discutir com um Dono da Razão é como jogar xadrez com um pombo. O pombo derruba as peças, faz cocó no tabuleiro e no fim sai a andar como se tivesse ganho.

Nós até começamos com boas intenções:
- Olha, acho que isso não é bem assim…
E o Dono da Razão responde:
- É sim. Eu sei.

Pronto. Acabou. Nem vale a pena ligar o cérebro. Aquilo já vem com resposta automática. É tipo assistente virtual, mas com menos atualizações e mais convicção.

O problema é que eles existem em todo o lado: no trabalho, na família, no grupo do WhatsApp e até na fila do pão. Há sempre alguém que explica ao padeiro como se faz pão. Ao padeiro! Um homem que faz pão desde antes de nós sabermos dizer “carcaça”, já ele chamava papo-seco de olhos fechados.

A nossa luta diária é tentar manter a sanidade. Usamos frases de sobrevivência como:
— Pois, tens razão… (mesmo quando não têm)
— Ah, interessante… (não é)
— Não sabia! (sabíamos, mas desistimos)

Com o tempo, aprendemos uma grande lição: não se vence um Dono da Razão. No máximo, empata-se. E o empate consiste em sorrir, mudar de assunto e pensar: “Pronto, hoje já alimentei o ego de alguém.”

Porque, no fundo, lutar contra quem tem sempre a mania que está certo é como discutir com o GPS quando já estamos perdidos. Ele recalcula, nós suspiramos, e a vida continua.

E talvez a verdadeira vitória seja esta: não ganhar a discussão… mas chegar ao fim do dia com paciência suficiente para não nos tornarmos também Donos da Razão.



Sanzalando

4 de fevereiro de 2026

Programa K'arranca às Quartas 104



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 04 de Fevereiro 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Qualidade de vida
Hoje falei de livros que para lá de papel também cheiram a pólvora, como Mayombe de Pepetela ou Combater Duas Vezes de margarida Paredes
Esta Música tem uma história trouxe Jorge Palma e A gente vai continuar, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje Conjunto Os Kriptons, uma banda de Angola Colonial
Poema Palavras de manuel Alegre na voz de Mário Viegas
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de um poeta brasileiro Osmar Casagrande
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou as fotografias do antigamente e as de agora
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Tesourinhos Musicais 79 - Os Kriptons - K'arranca às Quartas 104


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Livro - Cheiro a Papel e Pólvora - K'arranca às Quartas 104


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Esta Musica tem uma História 46 - Jorge Palma - A Gente vai Continuar - K'arranca às Quartas 105


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Crónica de João Porleinha da Silva (10) - K'arranca às Quartas 104


Sanzalando

Crónica de Carlos Osório (3) - K'arranca às Quartas 104


Sanzalando

Crónica 92 - K'arranca às Quartas 104


Sanzalando

O General, o Peru e a Frequência de Rádio

Num lugar, entre o Bié e o Huambo, em 1982, o Cabo Pé-de-Vento tinha uma missão bem mais importante que qualquer estratégia militar: ele precisava escoltar o General Mutamba e, mais importante, o próprio almoço do General.

O almoço era um peru gordo e mal-encarado que todos chamavam de Marechal. O problema? O Marechal não queria ser canja e devido à sua violência e intransigência passou de alimento a animal de estimação.

No meio de uma picada o jipe do Pé-de-Vento deu um estoirado barulho e parou. Do outro lado da mata, surgiu um grupo dos rebeldes inimigos. O silêncio foi total. Armas apontadas, suor escorre mesmo se não está calor... até que o peru, nervoso e, se calhar a estranhar tanto sossego e falta de pulos, soltou um GLU-GLU-GLU tão alto que parecia uma rajada de metralhadora.

O rádio de um dos soldados inimigos chiou:

-Aqui Posto Delta, qual é a situação? Câmbio.

Pé-de-Vento, que era mais esperto que a fome, gritou antes que alguém atirasse: 

Não atira, manos! Estamos a testar uma nova arma biológica soviética! É o emissor de ondas subsônicas disfarçado de ave!

O sargento do outro lado, um homem chamado Zeca Curioso, baixou a arma, confuso: 

- Arma biológica? Esse bicho aí que faz barulho de pneu furado?

- Exatamente! — mentiu Pé-de-Vento, ganhando confiança. - Se ele cantar três vezes seguidas, a frequência do rádio de vocês entra em curto-circuito e explode a bateria na vossa cara. É tecnologia de ponta, diretamente de Moscovo! - suando em bica até parecia ter mergulhado no rio.

Nesse momento, o peru, que parecia ter entendido o plano, deu mais dois GLU-GLU furiosos e tentou bicar a bota do Zeca Curioso.

Os soldados inimigos deram um salto para trás. Zeca, suando frio, gritou: 

- Pah! Levem esse bicho daqui! Não queremos problemas com a tecnologia! Mas... vocês têm tabaco?

Pé-de-Vento sorriu. No final, a guerra daquela tarde foi resolvida na base da troca:

  • Pelo lado do Pé-de-Vento: Dois maços de cigarro e a promessa de não ligar a "arma biológica".

  • Pelo lado do Zeca: Ajudar a empurrar o jipe para pegar.

Dizem que o General Mutamba nunca entendeu porque o seu peru de estimação voltou para Luanda com uma fita vermelha no pescoço e status de herói nacional. E o Cabo Pé-de-Vento? Bom, ele sempre dizia que em Angola, quem tem um peru e uma boa conversa, não precisa de blindado.



Sanzalando

3 de fevereiro de 2026

eu, a memória e os nonkakus

Houve um tempo em que o mundo cabia num par de calções gastos ou já rotos e nuns pés calçados com sandálias de pneu, que na minha terra jurei chamar nonkakus. Não eram sandálias: eram armaduras. Feitas de borracha rija de pneu gasto, cheiravam a estrada e a oficina, e tinham fivelas que rangiam como se protestassem contra cada passo. Mas aguentavam tudo: espinhos, pedras, poças de água barrenta e até a queimadura do chão quente ao meio-dia.

Os calções eram curtos por necessidade e por liberdade. Curto era sinónimo de correr mais depressa. As pernas, sempre riscadas de arranhões, eram como mapas de batalhas: aqui uma queda de bicicleta, ali uma pedrada mal calculada, mais acima o arranhão dum espinho de uma silva vingativa. Cada marca tinha uma história, e todas davam direito a exagero.

Saía de casa depois do pequeno-almoço e só regressava quando o sol começava a corar o céu, com a promessa sagrada: “Já vou, mãe!”, que queria dizer “daqui a uma hora… talvez”. As sandálias de pneu batiam no chão, chap-chap como um tambor de guerra anunciando mais uma aventura: ir ao rio, jogar à bola com uma meia enrolada, subir à figueira do senhor  Martins (sempre às escondidas) ou espreitar o quintal onde diziam que havia uma cobra, que afinal era sempre um lagarto muito ofendido.

No verão, os pés ganhavam uma cor própria, uma espécie de preto-oficina, mistura de pó, suor e sol. E mesmo assim, ninguém se queixava. Porque aqueles pés sabiam o caminho para todo o lado: para a mercearia onde havia rebuçados e podia comprar fiado, para o campo de futebol improvisado, para o sítio secreto onde se guardavam berlindes e segredos. Todo o lado era o meu lado, desde que não saísse da cidade do alcatrão. Eu era menino do mato, mas só na cidade do alcatrão. Para lá dele eu era um perdido medricas de me perder e não encontrar o caminho de volta.

Hoje, quando calço sapatos sérios, desses que prometem postura e respeitabilidade, às vezes sinto a falta do barulho seco das sandálias de pneu e da leveza dos calções. Não era só roupa: era uma maneira de estar no mundo. Com os joelhos ao vento e o coração sem relógio.

E, no fundo, ainda ando por aí assim — só que agora as sandálias são invisíveis, e os calções ficaram guardados numa gaveta chamada memória, que cheira vagamente a borracha quente e a tardes sem pressa.



Sanzalando

2 de fevereiro de 2026

sonho sem realidade

Eu tinha para aí quinze anos e um coração com mais botões do que a camisa da farda de gala de um tropa. Cada botão era um segredo e quase todos tinham o nome dela. Bastava ela passar na frente da minha casa ou vê-la no corredor do Liceu para o ar ficar mais fino, mais assim como se alguém tivesse aberto uma janela invisível para o mar, mesmo ali, longe da praia, eu sentia cheiro a sal.

Ensaiava frases ao espelho:
“Gosto de ti.” “Queres ir dar uma volta?” “Sabes que és bonita?”

Mas na hora, a língua ficava de férias e só sobrava um “olá” torto, meio engasgado, que ela respondia com simpatia, aquela simpatia que não promete nada, mas também não magoa. E isso era o pior: não doía o suficiente para desistir, nem alegrava o bastante para sonhar.

À noite, deitado, eu inventava filmes na cabeça. Nuns, ela sorria só para mim. Noutros, ela dizia “somos só amigos”, com uma voz tão suave que parecia um pedido de desculpas. Bolas, acordava sempre antes do final. O raio da realidade tem menos imaginação que um sonho.

Ser adolescente apaixonado e não correspondido é isso. É ter um coração a fazer barulho dentro do peito, como um conjunto rock a ensaiar numa garagem, enquanto o mundo lá fora passa, distraído, sem bilhete nem interesse para o concerto.


Sanzalando

1 de fevereiro de 2026

deve ter sido grito de bruxa

Eu tinha um cronômetro no coração que ainda era de corda e que tinha sido do meu pai. Para mim tudo com a filha do senhor Júlio era ontem, mesmo que o cronómetro me dissesse que era agora. Tantas vezes tinha planeado a ida ao cinema, decorado aquele poema romântico escrito a olhar para a varanda dela, as calças à boca de sino engomadas pela avó. Ela era o meu porto seguro, ela era a amiga para a vida em conjunto, deste aquele ontem até um futuro imprevisível. Mas nunca o plano era executado, nunca o poema foi dito, nunca as calças foram por ela elogiadas, apesar de vários filmes vistos.

Certa tarde, no lancil do passeio onde brincavamos ao fim de todas as tardes, decidi que o silêncio estava barulhento demais. 

- Não faz sentido a gente não ser a gente de verdade, nos gostamos mas nunca nos falamos de nós - disse aquilo como poia ter dito que os camiões voavam, suava, tremia e sentia um medo de me ouvir que não tem como explicar como é que aquelas palavras saíram.

Ela fechou os olhos. Na sua voz calma, serena que eu ouvi como estivesse a levar com uma bola de canhão no peito me disse:

- És é a melhor parte do meu dia. Mas eu não quero namorar. Nem contigo nem com ninguém. Seremos amigos sempre se não me falares mais sobre isto. 

O mundo acabou naquele instante depois de uma pancada enorme no orgulho, na estima e na coragem. Naquele instante aprendi que o sentimento sentido por cada um não tem a mesma intensidade nas pessoas à volta.

Balbuciei qualquer coisa que nem eu sei o quê enquanto tentava pensar.

Tinha duas escolhas: ficar implorando e transformar aquela amizade num campo de batalha ou aceitar que o não dela era sobre o momento dela, e não sobre o meu valor.

Escolhi respirar. Arquivei todos os planos mentais e decidi que, se não podia ser o namorado, ainda queria ser quem a fazia rir. Só que, sem esperar nada em troca. 

Um dia, muitos anos depois, lhe falei novamente do assunto arquivado num lancil de passeio. Estava na Universidade, barba por fazer, cabelo despenteado, ar martelado num revolucionário modo de querer ver o mundo.

Me olhou, já não serena, já sem a calma de tantos anos atrás.

- Desaparece! gritou

E até hoje eu ainda não apareci. Deve ter sido grito de bruxa.

Sanzalando