A Minha Sanzala
Rádio Portimão
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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
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- Pertinências 3 - "A Mulher (e as mulheres) segundo Fernando Pessoa"
- Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair
- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
- Pertinências 6 - Escritores algarvios
- Pertinências 7 - Equipes de Rua - GRATO
- Pertinências 8 - Rastreio e Prevenção do cancro do colon e recto
- PERTINÊNCIAS 9 - Enredados nas Palavras - Dulce Maria Cardoso
- PERTINÊNCIAS 10 - H(á) Mercado - Brasa Doirada
23 de maio de 2026
Bom Dia Mercado 15 - Rádio Portimão
22 de maio de 2026
esplanada, eu, o sol e o vento
O sol e o vento decidiram, hoje, partilhar a mesma cadeira de esplanada. É um daqueles dias em que a meteorologia parece sofrer de uma bipolaridade deliciosa: o sol queima-nos a nuca com a promessa de um verão eterno, enquanto o vento nos sussurra ao ouvido, com um hálito fresco de maresia, que a primavera ainda é quem manda.
À minha frente, o mar ignora este braço de ferro. Está naquela pose de espelho azul, onde as ondas mal se atrevem a desmanchar o penteado da costa. O vento passa, encrespa a superfície como quem faz cócegas à água, e o sol, logo a seguir, trata de polir cada crista com um brilho de espuma salpicada.
Fico eu, no meio deste diálogo mudo, a fechar os olhos para sentir o calor e a abri-los logo depois porque o vento me desarruma as ideias. É um equilíbrio precário, mas perfeito. Olhar o mar é isto: perceber que o mundo continua a girar, ora aquecido pela luz, ora empurrado pela brisa, enquanto eu apenas tento não deixar que o que resta do cabelo levante voo.
21 de maio de 2026
O Caos em Frequência Modulada
O problema da rádio com muitos convidados não é o que se diz, mas o tráfego aéreo das palavras. Os engarrafamentos de sons que querem sair todos ao mesmo tempo. Temos seis pessoas, mas apenas três microfones que funcionam e um que emite um zumbido estranho sempre que alguém diz a letra "S". Já mexi nos botões todos, agudos e graves, o "S" dá um CH que chateia. Mas deixemos a técnica.
Primeiro, temos o Estatístico, que trouxe três pastas de arquivo e insiste em ler tabelas de Excel em voz alta. Se olharem para a coluna B..., diz ele com entusiasmo, esquecendo-se que a única coisa que os ouvintes conseguem olhar é para o ponteiro do relógio de parede ou para a sintonia do velhinho rádio que sobreviveu a várias mudanças de casa.
Depois, há a Poetisa, que responde a qualquer pergunta sobre batatas citando o existencialismo francês. A batata não é um tubérculo, é um grito de angústia da terra, afirma ela numa voz melancólica, enquanto eu, como técnico de som, aproveito para ir buscar um café, sabendo que ela não vai parar de falar nos próximos dez minutos.
A meio da mesa, temos o Cético, cujo único contributo é suspirar ruidosamente junto ao microfone e dizer: Isto no meu tempo é que era. Ninguém sabe ao certo que tempo era esse, mas devia ser uma época fantástica onde a gravidade não existia e o pão era de graça.
O verdadeiro desafio surge quando o eu moderador, o único pobre santo com auriculares, tenta lançar uma pergunta. É como atirar um bife para dentro de um tanque de jacarés.
Três pessoas começam a falar ao mesmo tempo.
O som torna-se uma massa uniforme de ruído onde se distinguem apenas as palavras "algoritmo", "adubo" e "metafísica".
Lá em casa, o ouvinte pensa que o rádio avariou ou que os vizinhos estão a ter uma discussão acesa sobre a herança da tia-avó.
No meio do caos, há sempre o convidado Ninja. Está calado há quarenta minutos. Eu, por caridade, pergunto: "E o Dr. o que pensa disto?". O Dr. acorda do transe, aproxima-se demasiado do microfone e solta um Pois... tão profundo que faz vibrar os vidros dos copos. E volta ao silêncio.
A qualidade de vida de um radialista mede-se pelos minutos de publicidade que acabam por aparecer. É o momento em que tira os auscultadores e se descobre que a Poetisa está a tentar roubar os apontamentos do Estatístico e que o Cético adormeceu de olhos abertos.
A magia acontece. Continuamos a nossa fascinante conversa sobre a alma das batatas... É mentira, claro. Estamos apenas a tentar sobreviver à próxima meia hora sem que ninguém derrube o copo de água sobre a mesa de mistura.
No fim, as seis pessoas despedem-se com uma cortesia extrema, jurando que foi o debate do século. O ouvinte, do outro lado, desliga o rádio a pensar que, se calhar, as batatas têm mesmo uma alma complexa.
A rádio tem destas coisas: é o único sítio onde o silêncio nada vale.
20 de maio de 2026
Esta Música tem uma História 60 -Luandei - Nanutu - K'arranca às Quartas 119
Sanzalando
Programa 119 - K'arranca às Quartas
chegar aqui é fantástico
Chegar aqui já é uma vitória digna de um troféu, mesmo que o troféu seja apenas um desconto de sénior no cinema, nos transportes públicos ou a capacidade de prever a chuva através de um joelho, cotovelo ou anca. Para ir mais longe e com o espírito intacto o segredo não está em esconder as rugas, mas em transformá-las em linhas de leitura de uma boa comédia.
Aqui estão algumas estratégias para esticar a longevidade com um sorriso no rosto:
Ir mais longe exige leveza. Se me lembro onde deixei as chaves ou o nome daquela pessoa que o cumprimentei na rua, não é velhice, é o meu disco rígido a apagar ficheiros inúteis para dar lugar a coisas mais importantes, como a letra de uma música dos anos 70 ou a receita perfeita de uma moamba ou de um arroz de ligueirão. Já que agora sei ligar o fogão sem ter medo que ele exploda. Quando me esqueço de algo, digo apenas que estou a fazer uma curadoria mental de alto nível.
Se o corpo pede movimento, dou-lhe algo que não pareça uma sessão de tortura medieval. Actividades como o pickleball ou a petanca são geniais porque permitem socializar enquanto se finge que se está a queimar calorias. O objetivo não é ser o próximo campeão olímpico, mas sim garantir que consigo baixar-me para apanhar a bola sem emitir um efeito sonoro de dobradiça velha, tipo crocância de um folhado a estalar.
Dizem que devemos comer verdes. Um copo de um bom tinto do Alentejo ou do Douro vem da uva, que é tecnicamente um fruto, que se for tinto já foi verde. Uma boa crónica à mesa, rodeado de amigos e de uma conversa que se prolonga até ao café, alimenta mais a longevidade do que qualquer suplemento de farmácia. O humor é o melhor digestivo.
O que nos envelhece não é a passagem dos anos, mas sim a frase no meu tempo é que era bom. O segredo para ir mais longe é olhar para o presente com um olhar crítico, mas divertido. Seja a criar um programa de rádio, a escrever sobre o património ou a descobrir novos autores, mantenha o cérebro ocupado a tentar perceber como funciona a última aplicação de telemóvel nem que seja para decidir que não a vai usar. Este também é o meu tempo.
A gravidade é uma força implacável que me verga o corpo pelas costas, mas o riso é uma força de levitação que me eleva o queixo. Se o médico me dissesse que tenho de caminhar mais, caminharia até à pastelaria mais próxima. Se os amigos dizem que estou vintage, aceito o elogio, as coisas vintage são as mais valiosas e as que têm melhores histórias para contar.
No fundo, ir mais longe é uma questão de ritmo. Como numa boa rádio, não importa apenas o tempo de antena, mas sim a qualidade da emissão. Se mantivermos a sintonização no canal que dá programa para pensar e boa música, a viagem torna-se muito mais curta, mesmo que dure cem anos.
Como tem sido a minha experiência em equilibrar a nostalgia de outros tempos com as novidades que o presente me traz no dia a dia de agora?
Vou pensar nisso. Mas agora vou escolher a música.
19 de maio de 2026
sucesso
Há pessoas que acordam de manhã com objetivos. Eu acordo com uma vaga intenção do tipo vamos ver no que isto dá e, pelos vistos, isso é meio caminho andado para o sucesso. Não porque eu seja particularmente brilhante, mas porque a vida, coitada, às vezes também se engana na morada.
Sempre desconfiei de quem tem planos a cinco anos. Eu mal tenho planos para até à hora do jantar. E, no entanto, lá vou acumulando pequenas vitórias involuntárias, um elogio que era para o colega do lado, um projeto que aceitei porque não percebi bem do que se tratava, uma ideia que tive por engano enquanto procurava outra completamente diferente. Se isto não é sucesso, é pelo menos uma boa imitação.
Descobri, com o tempo, que há um talento raro que é o de não atrapalhar demasiado o próprio caminho. É uma espécie de arte marcial passiva em vez de atacar, a pessoa não estraga o momento. E eu, modestamente, sou cinturão negro em não estragar o momento. Há dias em que a minha maior conquista é não responder a um email complicado. E, curiosamente, nesses dias, tudo se resolve sozinho. É quase como se o universo me dissesse deixa estar, não mexas, que assim está bem, e eu deixo.
Uma vez perguntaram-me qual era o segredo do meu sucesso. Fiquei comovido. Primeiro, porque não sabia que tinha um. Depois, porque senti que estava prestes a desiludir alguém com uma resposta honesta. Ainda pensei inventar qualquer coisa sofisticada do estilo uso de disciplina, atenção ao foco, dizer resiliência, que agora está na moda mas a verdade escapou-me e eu disse que tinha sido por distração.
A pessoa ficou a olhar para mim com aquele ar de quem esperava uma resposta científica e recebeu uma conversa de café. Mas é isso mesmo. O meu percurso é uma sucessão de já agoras que deram certo. Já agora aceito. Já agora experimento. Já agora fico. E quando dou por mim, estou no sítio certo, à hora certa, sem saber muito bem como cheguei ali o que, convenhamos, é uma excelente forma de viajar.
Claro que há riscos. Este método exige uma certa confiança no acaso, o que nem sempre é confortável. Às vezes o acaso falha, ou então acerta mas ao lado. E lá vamos nós, com ar sério, a explicar que faz parte do processo, quando, na verdade, o processo era não haver processo nenhum.
Mas há também uma leveza nisto tudo. Enquanto outros carregam o peso das metas, eu levo apenas a mochila das circunstâncias. E, sendo honesto, pesa muito menos. Talvez o sucesso sem querer seja uma espécie de sucesso em pantufas. Não faz barulho, não exige pose, e aparece muitas vezes quando já estávamos a pensar em desistir ou em ir fazer um café.
No fundo, acredito que o sucesso, como certos gatos, gosta de pessoas que fingem não estar interessadas. Aproxima-se devagar, instala-se no colo e, quando damos por isso, já faz parte da casa. E nós, que nunca o chamámos, ficamos ali, um pouco surpreendidos, a fazer festas, como quem diz: Pronto… já que aqui estás, fica. E o gato fica.
ser quase História
Aos 69 anos e alguns meses, a gente começa a olhar para o espelho e para o Bilhete de Identidade com uma mistura de respeito e dúvida. Chegar a esta fronteira não é para amadores; é uma maratona onde os quedes, ténis ou sapatilhas, foram trocados por sapatos ortopédicos de sola macia, e a meta parece sempre um pouco mais distante porque, aos 70, a gente para a meio do caminho para perguntar: O que é que eu vinha fazer a este quarto mesmo?
Dizem que a vida começa aos 40. Mentira. Aos 40 a vida dá-nos um estálo para acordarmos. Aos 70, ela dá-nos um abraço apertado com muito carinho, como convém, por ter cuidado com as costelas.
A minha trajetória até aqui foi feita de mais quases do que certezas, e é aí que reside o humor da coisa. Quase fui um atleta de alta competição, não fosse a minha crónica incapacidade de ver uma esplanada e não me sentar, de ver um banco frente ao zulmarinho e me perder a meditar. Quase fui um monge budista, mas a dieta do silêncio colidia frontalmente com a minha necessidade vital de comentar e gastar palavras desde o acordar.
As travessuras, essas, mudaram de figurino. Na juventude, envolveram saltar muros ou chegar a casa com o sol a bater na testa, tentando não acordar a D. Madalena. Hoje, a minha maior travessura é comer um doce escondido da patroa ou fingir que não ouvi o telemóvel para não ter de explicar a alguém como se grava um PDF ou se passa uma certidão de óbito digital. Há uma liberdade deliciosa em chegar a esta idade e usar o ah, esqueci-me como uma arma de arremesso legítima. É o nosso cartão de saída livre da prisão do velhinho jogo do Monopólio.
A memória é outra fonte de comédia. Tornei-me um perito em arqueologia doméstica. Procuro os óculos que estão na testa e as chaves que estão na minha mão. Às vezes, entro numa sala com tamanha determinação que pareço um general a planear uma qualquer invasão, apenas para ficar parado a olhar para o candeeiro, com a mente tão branca quanto as paredes da sala, na busca de uma vaga lembrança do que ali me levou.
Mas o melhor de quase chegar aos 70 é a perda absoluta do medo de fazer figuras tristes. Se quero usar meias com sandálias, uso. Se quero rir sozinho de uma piada que ouvi em 1984, rio. Se decido que vou começar a aprender uma coisa perfeitamente inútil agora, como tocar harmónica ou colecionar rótulos de vinho, quem é que me vai impedir?
Chegar aqui é como conduzir um carro clássico com a chapa a precisar de polimento, o motor faz uns barulhos estranhos ao arrancar a frio e a suspensão já viu melhores dias, mas o prazer de percorrer a estrada, com o braço de fora e o vento na cara, é muito maior do que quando o carro era novo e eu não sabia para onde ia.
Venham os 70. Estou pronto para eles. Só espero que, no dia da festa, alguém se lembre de onde pus o saca-rolhas, onde guardei os óculos ou estacionei o andarilho.
Na verdade, ser incrédulo é ciência, porque antes eu imaginava que ter 70 era figura de ficção, era matéria da cadeira de História.
17 de maio de 2026
PERTINÊNCIAS 10 - H(Á) NOITE NO MERCADO - Brasa Doirada
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar, porém hoje foi lugar ao convívio e à música
A campanha nacional “Gosto do meu Mercado” é um evento
integrado numa outra acção de âmbito internacional denominada “Love Your Local
Market”, que visa criar redes que envolvam as comunidades em torno dos seus
mercados de proximidade.
O objetivo é conduzir os consumidores a um envolvimento com
os seus mercados locais, onde os comerciantes são proativos e dinamizam ações,
promoções e eventos específicos.
Assim, o Pertinências, por achar que é pertinente
associar-se a este evento e por querer divulgar os Brasa Dourada, uma banda com
residência aqui, marca presença com um directo.
Há campanhas que passam por nós como um folheto esquecido no
fundo do saco de compras ou na caixa do correio. E depois há aquelas que
cheiram a coentros, a peixe fresco e a conversa boa — como a campanha “Gosto
do Meu Mercado” no Mercado Municipal de Portimão.
Imperdível
16 de maio de 2026
fui a um bar em fim de tarde
Eu considerava-me o Shakespeare do Facebook. Não usava frases batidas. Não, estudava o ambiente. Ser adolescente sério dava trabalho.
Certo fim de tarde, num bar sofisticado, eu avistei-a. Ela lia um livro de capa dura e bebia um vinho tinto. Tinha classe, tinha charme. Ajustei pulóver mesmo estando perto dos 25 graus, aproximei-me com o meu melhor sorriso de intelectual misterioso e disparei:
- Sabes... é um crime ler algo tão profundo num sítio com luz tão fraca. Estás a arriscar a tua visão, e o mundo não merece perder o brilho desses olhos por causa de um par de óculos precoces.
Ela baixou o livro devagar, olhou para mim de cima a baixo, tirando as medidas e respondeu-me:
- Na verdade, eu sou oftalmologista. E isto que estou a ler é o menu das sobremesas, que está dentro desta capa de couro porque o bar é fino.
Bem, sem perder o ritmo, tentei recuperar:
- Ah! Uma médica! Perfeito. Porque eu acabo de sentir uma arritmia cardíaca só de te ouvir falar. É grave?
Levou o copo à boca e deu um gole no vinho, fechou o "livro" e disse:
- Como médica, o meu diagnóstico é que tens um caso severo de excesso de confiança sem base científica. Mas como cliente deste bar, o meu diagnóstico é que o teu pulóver está a entrar dentro do meu copo de vinho.
Concluindo, não consegui o número dela, mas ganhei nódoa cor-de-vinho e a lição de que, às vezes, o melhor é apenas perguntar se a mousse de chocolate é boa.
14 de maio de 2026
eu na avenida
Reescrever a minha estória, os tempos dos meus 12 anos com os olhos de agora é a minha forma de fazer uma homenagem aos meus avós, aos meus amigos, conhecidos e às crianças de hoje que não imaginam que eu também já fui noutro tempo criança.
Era Domingo e para os meus avós sentarem-se na avenida ao fim da tarde era, confesso hoje, a forma mais económica de fazerem terapia e, convenhamos, a única onde podiam julgar, discretamente, a vida alheia sem pagar.
Escolhiam o banco como quem escolhe o lugar num espetáculo, desde que estivesse vazio e na área préviamente definida. Porque é disso que se tratava: um desfile contínuo de personagens que não sabem que estão a ser observadas por gente atenta a tudo, incluindo pormenores.
No tempo em que se ia à avenida as pessoas iam mais leves, as roupas encurtavam, os sorrisos esticavam e até os tempos pareciam menos urgentes nos relógios de bolso.
Passavam também os corredores profissionais, esses atletas urbanos que correm com um ar sofrido, como se estivesse a fugir de uma dívida antiga ou a fugir de uma outra vida paralela. Faziam a avenida uma dúzia de vezes, mas sem nunca perderem o sorriso ou a educação. Os meus avós contavam as voltas e diziam-me, não tenhas pressa porque o tempo tem o seu tempo. Depois vinha o passeante filosófico, mãos atrás das costas, a resolver os problemas do mundo ao ritmo de um passo por minuto, provavelmente já ia na terceira solução para o universo antes de chegar ao quiosque e voltar para trás.
Havia também os grupos de amigos, que falam todos ao mesmo tempo com a convicção de que alguém está a ouvir. Riem alto, gesticulam mais ainda, e deixam no ar aquela invejável sensação de que a vida, naquele momento, está exatamente onde devia estar.
E, claro, os cães. Não me lembro se havia alguém que fosse passear o cão. Não estou a ver um cão a puxar o dono com autoridade e a parar para refletir profundamente sobre um poste, na forma líquida de esvaziar. Uma profundidade que nós, humanos, raramente atingimos na praça pública.
Eu, sentado ao lado dos meus avós, fazia parte do cenário. Com ar cansado, porque observar dá trabalho e com aquela cara de quem queria estar a fazer coisas mais importantes, quando na verdade estava apenas a tentar perceber se aquele senhor passou três vezes ou se existem três senhores iguais com o mesmo casaco.
A luz começava a dourar tudo. A avenida ganhava um tom de postal ilustrado, desses que já ninguém envia mas todos reconhecem e sorriem quando recebem.
Na avenida havia um momento breve, quase tímido, em que tudo parecia em equilíbrio, o barulho certo, a temperatura certa, a quantidade exacta de gente e de sossego.
É nessa altura que pensava: isto é felicidade em versão simples. Sem filtros, sem pressa, sem necessidade de grande explicação.
Depois aparecia sempre alguém da família que dizia estás tão crescido, como se eu tivesse crescido de ontem para hoje.
E pronto. A avenida por hoje acabou, levanto-me e vou dar uma volta, levando na memória os meus avós, os meus amigos que tinham e faziam as mesmas caras que eu.
Era a tarde na avenida, que por acaso era a do Bonfim.
13 de maio de 2026
Programa 118 - K'arranca às Quartas
vai ser como um dia eu pensei poderia ser.
Escrever por escrever é, muitas vezes, como tentar montar um móvel da pré-fabricado sem seguir o manual, termina-se com algo que não se parece em nada com uma estante, mas que tem uma personalidade admirável e, por obra do acaso, sobra um parafuso que decido guardar no coração, não vá um dia precisar dele.
Tantas vezes começou com uma caneta azul, da bic, que falhava e um guardanapo de papel folha simples aquele que se rasga só de se olhar com muita intensidade para ele e que às vezes está nas mesas numa caixinha com ranhura que faz lembrar o mealheiro dos tempos de criança, só com ranhura um pouco maior. Aqui para tirar e os outros era para pôr.
Quantas vezes não tinha a mínima ideia, mas em troca tinha uma grande vontade. Sentava-me à mesa, como ainda agora faço, só que já não de caneta na mão, e escrevia uma frase. A primeira que me viesse à cabeça. Um ovo estrelado parece o sol. Poético? Estado a fazer lembrar-me que tenho fome? Certeza ou dúvida? Como posso começar um romance com um ovo estrelado? Desenhei-o. Aos meus olhos era um ovo estrelado, aos olhos de quem poderia espreitar, se calhar era um borrão com um círculo no meio. O que tem um ovo a haver com um romance de amor, se calhar passado numa cidade tropical, se calhar em Paris, se calhar num simples lugar no meio de nenhures?
Olhava para a frase. Olhava para o desenho. e nada mais havia no papel.
Continuei a escrever frases soltas. Algumas sem nexo, outras lembranças de passagens lidas já nem sei onde.
E foi assim que tudo começou. É assim que tudo continua, com a diferença que já não há bic na minha mão, já não há guardanapo na caixinha nem desenhos a ocupar o tempo à espera da frase que pode dar início ao tal de romance.
Ainda no tempo do guardanapo, tenho uma história de ter uma lista de frases escritas. Olhava para ela a ver se alguma me dava a tal ideia. Passa uma amiga, espreita e diz-me:
- Pedido de namoro? A resposta é não!
Não não é, disse-lhe com firmeza e se calhar até chateado. Agora estar a espreitar para um papel particular. Onde já se viu. Logo ela continuou:
- Se é lista de convidados para uma festa não te esqueças de fulano que é meu namorado.
- Não. É a lista de compras! disse-lhe irritado e amachuquei o guardanapo de tal forma que ele se esfrangalhou em pedacitos.
Mas agora é diferente. No PC ou no telemóvel escrevo. às vezes palavras tão soltas que quase vão por wi-fi fora. E romance, nada! Não nasci para ser criador. Guardo palavras, algumas soltas e outras vadias, umas naufragas e outras circulam vagarosamente numa vagabundagem que até dá dó.
No final, escrever por escrever é esse acto de coragem. É permitir que as mãos corram mais rápido que o julgamento que alguém possa fazer ao espreitar para o guardanapo que agora pode ser tanta coisa, desde ecrán, tela, tablet, e-booker, ou mesmo uma folha de papel impressa.
Mas nem rascunho de romance, nem um mini-conto. Ah, tenho milhentas palavras escritas de felicidade, de vontade, de está tudo bem, mesmo quando as palavras saem de forma desordenada. Tenho versos sem poesia. Tenho silabas sem palavras. Virgulas sem pontos. Tenho vontade. Mas um dia a tal frase sairá e tudo vai ser como um dia eu pensei poderia ser.
12 de maio de 2026
eu na esplanada
Ontem, cometi o erro romântico de querer tomar um café na esplanada. O boca de sapo podia estar a passar e eu queria acompanhá-lo com o meu olhar. Adolescente gosta de ver.
Sentei-me com a confiança de quem desafia a física. O empregado, com aquele olhar de quem já viu impérios caírem e clientes ficarem com reumatismo precoce, passou um pano pela mesa. Foi um gesto meramente simbólico. Dois segundos depois, a superfície da mesa brilhava novamente, acumulando uma película de água que nem lamela de laboratório que parecia decidida a reclamar o território.
Pedi um café. Quando a chávena chegou, vinha acompanhada de uma pequena nuvem privada e uma torre de fumo mais denso que o habitual.
Beber café no cacimbo é uma corrida contra a termodinâmica. Se bebes depressa, queimas a língua; se esperas um minuto, o café não só arrefece como ele dilui-se. O ar está tão saturado que a chávena começa a ganhar volume. É o único lugar do mundo onde o café rende por geração espontânea de humidade.
À minha volta, a fauna urbana tentava manter a dignidade. Havia o senhor de balalaica, que começou a crónica matinal como um lorde e, dez minutos depois, parecia que tinha atravessado o Atlântico a nado com a roupa no corpo. O linho e o cacimbo são inimigos mortais; o tecido absorve a neblina até que a pessoa pesa mais três quilos do que quando saiu de casa.
Depois há os óculos. Ah, os óculos no cacimbo! É o fim da visão periférica. Limpas a lente com o guardanapo que já é uma massa mole de celulose húmida, colocas os óculos e, na primeira expiração, o mundo desaparece num branco leitoso e meias denso que o próprio cacimbo. Desisti de ver. Passei a guiar-me pelo som das buzinas distantes e pelo tilintar das colheres nas chávenas vizinhas.
Mas há algo de profundamente desértico nesta teimosia. O sol pode estar escondido atrás daquela cortina cinzenta, o humidade pode estar a transformar o nosso pão numa esponja morna, mas a esplanada é sagrada. Ficamos ali, mergulhados na bruma, a fingir que não estamos a tiritar ligeiramente, comentando que hoje o tempo está mesmo fechado, mas ela vai passar não tarda..
No final, paguei e levantei-me. O meu lugar na cadeira ficou marcado como uma silhueta seca num deserto de humidade. Saí dali com o cabelo em modo empastado total e a alma lavada literalmente. No cacimbo, não se toma apenas um café; recebe-se um baptismo de orvalho, cortesia de uma cidade que, por uns meses, decide que quer ser Londres, mas com palmeiras e muito mais suor frio.








