recomeça o futuro sem esquecer o passado

12 de junho de 2026

moral mente, me perco

Chamar-lhe a minha moral é, desde logo, uma manifestação de optimismo. Dá a entender que ela é um objeto sólido, bem esculpido, guardado numa redoma de vidro algures entre o bom senso e o civismo. Mas a verdade, que confesso aqui entre nós, sem a presença de um juiz ou de um fiscal de linha, é que a minha moral se parece muito mais com um elástico de escritório: extraordinariamente maleável, surpreendentemente resistente nas grandes crises, mas com uma perigosa tendência para ceder nas pequenas coisas do quotidiano.

Eu gosto de pensar que sou um homem de princípios inabaláveis. Perante os grandes dilemas da humanidade, a minha bússola aponta sempre para o Norte da virtude. Se me cruzar com uma carteira recheada no meio da rua, sinto o peso da integridade esmagar-me os ombros; devolvo-a intacta, com cartões e notas alinhadas por ordem decrescente de valor, e ainda recuso a recompensa com um aceno de mão vagamente heroico. A minha macro-moral é impecável. O problema é a micro-moral. É no retalho do dia a dia que a coisa ganha contornos de comédia.

A micro-moral é aquela que é posta à prova, por exemplo, na fila do supermercado quando a caixa ao lado abre de repente. O protocolo civilizacional dita que a prioridade pertence a quem já esperava há mais tempo na fila original. Mas a minha moral bate o olho no tapete rolante vazio e sofre uma mutação instantânea, transformando-se num tratado de sobrevivência. Num piscar de olhos, o meu corpo move-se com a agilidade de um felino, o carrinho de compras descreve uma curva perfeita e, quando dou por mim, já estou a descarregar os iogurtes com um ar falsamente distraído, evitando fixar o olhar no casal de mais idosos que ultrapassei por milímetros. Se a minha consciência me morde? Morde, mas o remorso passa logo quando percebo que vou chegar a casa cinco minutos antes dele.

A verdade é que a nossa relação com a ética é profundamente sazonal e geográfica. Veja-se o caso do trânsito. Sou um cidadão exemplar a pé, peço desculpa se esbarro em alguém e respeito as passadeiras com o zelo de um seminarista. Mas ponham-me ao volante de um carro e a minha moralidade passa a ser ditada pelo código de conduta de um pirata das Caraíbas. O condutor que não faz o pisca na rotunda deixa de ser um concidadão distraído para passar a ser um inimigo público que merece ir a julgamento. No entanto, se for eu a esquecer-me do pisca, a minha moral autojustifica-se de imediato: Foi uma distração legítima, toda a gente percebeu para onde eu ia.

Há também a fascinante moral da conveniência desportiva. Jogar padel ou qualquer outra atividade com amigos é um teste de fogo. Se a bola bate na linha e favorece o adversário, a minha visão torna-se instantaneamente telescópica e infalível: Claramente fora, meu caro, vi o pó a levantar a dois centímetros do risco. Se favorece o meu lado: Tocou na linha, de certeza absoluta, a geometria não mente. A justiça, descobri tardiamente, é uma questão de perspetiva e de quem está a segurar a raquete.

E o que dizer da moral ecológica e do civismo urbano? Separo o plástico, o vidro e o papel com uma disciplina quase militar. Mas se estou na rua, o vento me arranca um pequeno talão de multibanco dos dedos e o papelinho sai a voar pela calçada fora como uma folha de árvore no outono, a minha moral faz um cálculo rápido de custo-benefício. Olho para a esquerda, olho para a direita. Correr cem metros atrás de um pedaço de papel térmico com este calor, correndo o risco de parecer um louco a caçar borboletas invisíveis? Ou assumir que o talão agora pertence ao universo e que a equipa de limpeza urbana precisa de ter trabalho? Vence o universo, claro. Sigo o meu caminho com as mãos nos bolsos, assobiando uma melodia qualquer, normalmente original porque o ouvido para a música não me calhou em sorte, convencido de que, no grande esquema das coisas, acabei de contribuir para a economia local.

No fundo, a minha moral é uma criatura pragmática. Ela não quer o pedestal da santidade, porque o topo do pedestal é frio e não tem onde apoiar o café. Ela prefere caminhar por aqui, no rés do chão, cometendo pequenos pecados que não vêm no Código Penal, mas que dão sabor aos dias. Afinal de boa intenção está o inferno cheio, e eu prefiro ir garantindo o meu lugar no purgatório, onde a conversa é certamente mais animada e as regras, com um bocado de jeito, também se podem negociar.



Sanzalando

11 de junho de 2026

eu na rádio

Quando tinha para aí uns doze ou treze anos, decidi que o meu destino estava traçado: ia ser homem da rádio.

Não foi uma decisão muito pensada. Foi uma daquelas revelações súbitas que acontecem aos adolescentes. Há quem descubra que quer ser astronauta, futebolista ou cantor romântico. Eu descobri que queria falar para um microfone, já que andar na lua não era coisa rara para mim porém a bola com ar era coisa que me atrapalhava os movimentos e conseguia fazer-me cair assim dum nada.

O problema era um pequeno detalhe que era a opinião da minha família era contrária à ideia, já que eu não tinha grande jeito para estar calado nem grande vontade para esperar respostas.

Mas mesmo assim, avancei.

Lá fui na Rádio da cidade e deram-me o lugar de estagiário do som. Agudos e graves não eram o meu forte e ouvido para instrumentos era coisa que me faltava e muito. Mas todos os dias lá estava, porque todos os dias eu treinava. E brincava na cabine do estúdio fechado, nas horas mortas de fitas e bobinas.

- Boa tarde, ouvintes! Aqui fala o famoso locutor internacional... bem conhecido na minha rua.

Eu não desistia.

Ao director de produção eu inventava programas. Ele dizia que não. Semana seguinte outro e o não era garantido. 

Um dia aconteceu o milagre. Não apareceu ninguém para abrir a emissão. Eu tinha tudo ligado. Faltava a voz. Aquela voz que diz bom dia, que lia o movimento marítimo e dizia a programação do dia. Um director telefone a saber o que se passava e eu respondi ao telefone:

- O locutor não chegou!

Aos berros ouvi:

- Abre tu essa M"#DA!!!!!

Tinha luz verde e abri.

Na segunda vez que abri o microfone disse:

- A Câmara Municipal, recebe em carta aberta fechada e lacrada proposta para banca no mercado.

Ao notar o que eu tinha dito que é que fiz?

Ri alto e esqueci desligar o micro. 

Passaram-se mais dois meses até ter ordem de abrir o micro outra vez.

O curioso é que, muitos anos depois, continuo a achar que a rádio tem magia.

A diferença é que agora tenho um microfone verdadeiro, que abro nos dias marcados, nuns programas idealizados por mim.

Embora, às vezes ainda me apeteça entrevistar um urso de peluche, calçar uma pantufas e ouvir uma boa música sem ter que a escolher. 



Sanzalando

10 de junho de 2026

A Cozinheira do Ditador - Afonso Cruz (ANABELA QUELHAS) - K'arranca às Quartas 122


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (27) - Kárranca às Quartas 122


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório 21 - K'arranca às Quartas 122


Sanzalando

Esta Música tem uma História 63 -Eugénia Melo e Castro e Ney - Dança da Lua - K'arranca às Quartas 122


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 97 - Artur Garcia - K'arranca às Quartas 122


Sanzalando

Crónica 108 - K'arranca às Quartas 122


Sanzalando

Programa K'arranca às Quartas 122



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 03 de junho de 2026, dia mundial da biciclete - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - o feriado com mais nomes.

Afonso Cruz e a Cozinheira do Ditador com as palavras de Anabela Quelhas
Hoje houve Esta Música tem uma história Eugénia Melo e castro e Ney Matogrosso - Dança da Lua numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais falei de Artur Garcia
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos Camões e a imigração
Tivemos o poema Meninas de Cecília Meireles na voz do Mundo dos Poetas
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Como Não Morrer na Fonte Luminosa

Hoje decidi que o meu equilíbrio mental depende exclusivamente de eu conseguir jogar à macaca no parapeito da fonte luminosa. As gazelas de broze, mas não bronzeadas, que agora acho viraram zebras, olham-me de lado, com aquele ar de lá está o chalupa outra vez, mas eu sigo firme. Se cair? Ou saio daqui a parecer um pinto molhado ou fico rebolado na terra vermelha, camuflado de tijolo. Se alguém me estiver a espreitar da janela do tribunal, o veredicto é unânime: este gajo perdeu os parafusos todos. Não estarão longe da realidade mas a ficção supera a realidade

Mas a verdade é que existir consome-me, esgota-me e a factura da vida está demasiado cara para eu não fazer da vida uma coisa que valha a pena. De vez em quando, tenho de me auto-infantilizar para não entrar em curto-circuito. Outras vezes viro programa de rádio e outras ainda mandam-me para o raio que me parta e na verdade ainda não o encontrei.

Parece que o mundo se uniu para me irritar, se não foi assim que o Rui Veloso cantou, pouco diferente terá sido.

As pessoas esperam sempre que eu fale como um autor de bestsellers, um bibliógrafo, um eurodito, quando na verdade mal consigo formular um bom bom dia sem dar erros na gramática, ou dar um simples nó na língua que até parece tenho sopa de massa dentro da boca. Já nem sei se as histórias que conto sonhei, ou aconteceram mesmo ou se preciso de medicação porque entrei em delírio. Penso a 200 km/h e já não sei se alguém roubou a régua e o esquadro aos engenheiros ou sou só eu a fazer geometria na memória. Agora é tudo cheio de elipses. Clips! Claramente desenhadas para eclipsar a malta anonimamente das estórias que eu sei que aconteceram mesmo que não sejam reais.

Pular de laje em laje, ao pé coxinho, feito um miúdo hiperativo que bebeu café a mais na fonte luminosa não parece próprio para a minha proveta idade..

Mas não se enganem, isto exige uma logística militar. Saber a que hora exata o carro passa, com ela lá dentro, naquele passeio de fim de tarde ritualístico exige mais concentração do que um exame de neurocirurgia. E, honestamente, uma quantidade absurda de sorte para não ser atropelado no processo nem me perder nesta confusão mental de querer contar tudo tim por tim num parágrafo para não gastar tinta nem tempo.

A D. Elsa já veio à varanda fazer disse qualquer coisa, mas na verdade ignorei-a olimpicamente. Nem um adeus simpático lhe fiz. Ela estava quase de certeza a mandar vir comigo. Do Grémio? Ninguém saiu para ver se eu tinha finalmente enlouquecido por amor. Malta ingrata. Estou aqui a dar um espetáculo de contorcionismo gratuito na curva-contracurva do circuito das memórias e nem uma palmadinha nas costas nem um incentivo ao fervor..

Aqui estou eu, sozinho, a jogar à macaca em cima de lajes que são mais rugosas e abrasivas do que lixa, pronto para me lixar todo . Um deslize com a perna nua e faço uma depilação forçada até ao osso. Mas hey, ao menos as quedas escondem as minhas crises existenciais e as minhas filosofias baratas de trazer por casa.

Olhando para a avenida que nunca mais acaba, chego à conclusão científica de que viver dá um trabalho desgraçado. Amar desamado ainda mais. Descrever a minha própria vida parece-me um exercício de egoísmo digno de uma panela de pressão prestes a saltar a válvula sob o assobio estridente do vapor. Chegado ao capítulo 30 desta coleção de embaraços públicos, apetece-me só meter um ponto de exclamação, parágrafo, e gritar que viver é difícil como o raio!

Morrer? Ah, morrer seria super poético, muito cool, mas dramaticamente fácil demais. E eu não quero facilidades nesta comédia romântica falhada. Metade desta cidade geométrica é minha família; a outra metade podia ser, se eu tivesse a decência de me apaixonar por alguém daqui e assentar a cabeça.

Tudo seria mais simples se eu tivesse ido patinar para o ringue do parque infantil. Ao menos lá chateava o Sr. Sousa, que já me conhece as costelas todas de tantas vezes que mas teve de endireitar com as suas milagrosas ventosas.


Sanzalando

9 de junho de 2026

sentado no passeio

Há duas maneiras de enfrentar o calor de fim de tarde quando somos adolescentes: ou sucumbimos ao ar condicionado, um luxo sem alma que só sentimos quando vamos no banco levantar um cheque ou regressamos às origens da sabedoria popular e fazemos da beira do passeio a nossa bancada presencial e presidencial.

Sentar no passeio com aquela técnica ancestral de encolher os joelhos para não ser atropelado por um carrinho de bebé ou por um ciclista distraído é um acto de pura filosofia urbana que faz tempo já se perdeu. Não se está ali para ir a lado nenhum. Está-se ali para ver o mundo passar. E hoje, o objetivo é claro: ver se o carro especial aparece como é habitual.

Toda a gente sabe que cada bairro, cada vila ou cada rua tem o seu carro especial. Não estamos a falar de um Aston Martin ou de um Ferrari de colecção. Isso é para principiantes. O verdadeiro carro especial da vizinhança tem de ter... personalidade, estatuto e se fôr só paixão, também vale. 

Enquanto o carro não vem, a beira do passeio oferece um desfile de aquecimento. Sentado, ao nível dos canos de escape, a perspetiva muda completamente:

O "Fangio" das motoretas: Uma motorizada que até é mini e que faz tanto barulho que parece que vai quebrar a barreira do som, mas que na verdade avança a uns estonteantes 30 km/h. O condutor curva com o joelho quase a tocar no chão, motivado pelo olhar do que está sentado a ver um nada específico.

O Clássico: Um modesto citadino dos anos 50, cuja única peça original que resta é o condutor. Tem uma ponteira de escape do tamanho de uma panela de pressão e uma música a tocar que faz vibrar não só os vidros do carro, mas também as minhas costelas e as pedras da calçada onde estou sentado.

Jeep que parece fez guerra: Conduzido geralmente por alguém que parece tem medo de subir passeios, mas que comprou um veículo projetado para atravessar o deserto do Saara só para ir buscar pão.

O tempo passa. O cimento do passeio começa a transferir o calor do dia diretamente para as calças, um tratamento termal gratuito, por assim dizer. As pessoas passam e olham de lado. Quem não percebe o ritual acha que caí ou estou desesperado que naquele tempo acho não havia depressão ou que me esqueci das chaves ou que estou a fazer um protesto silencioso. Quem percebe, acena com a cabeça. É a irmandade dos contemplativos.

De repente, um silêncio no tráfego. O vento para. Os pombos voam assustados.

"Será agora?" pensei no meu silêncio

Ao fundo da rua, surge uma silhueta. Não faz barulho. Não deita fumo. É ele. O verdadeiro, o único, o carro especial do dia.

Não desaponta. É aquele clássico. Ele passa devagar, sabe que o passeio o observa. Olha de soslaio, certifica-se de que o seu público, eu e um gato vadio que por acaso estava a passar por cima de um muro, está atento, e dá um pequeno toque nos lábios como quem sorri camufladamente. Missão cumprida neste meu fim de tarde como todas as tardes anteriores.

Passou. Foram dez segundos de pura magia mecânica cardíaca.

Levanto-me com a dignidade possível de quem passou uma hora com o rabo no cimento, dou uma palmada nas calças para sacudir a poeira da rua e dou o dia por ganho. Amanhã à mesma hora, o passeio estará lá outra vez. E quem sabe se o carro especial não traz um sorriso mais descarado?





Sanzalando

8 de junho de 2026

um dia diferente na praia

Tem gente que vai na praia para nadar. Outras para apanhar sol e ficar assim que nem torresmo curado ou só mesmo cor de camarão cozinhado. Eu vou para desenvolver uma relação de respeito mútuo com as alforrecas, pica-pica, as garinas e quem sabe fazer mergulhos de figura artística que às vezes só sai da forma estatelado.

O meu plano é simples. Acordar cedo, vestir os calções mais optimistas que tenho, pegar na toalha e rumar à praia com aquele entusiasmo de quem acredita que a vida ainda lhe deve alguns mergulhos felizes.

O dia está sempre perfeito. Céu azul, mar azul, pessoas felizes e gaivotas a fazerem aquilo que fazem melhor: parecer que estão sempre a criticar alguém e de vez em quando deitam bombas que nem a aviação. Se estiver vento, mantem-se a perfeição do dia com a derivação que é jogar à bola.

Chego à areia e sinto logo aquela felicidade especial que só existe nos primeiros cinco minutos de praia, antes de descobrirmos que a areia está demasiado quente para caminharmos sem chinelos e o vento está demasiado forte e não há espaço livre para jogar a bola, porque está muita gente.

Olhei para o mar. Magnífico.

Foi então que alguém me gritou.

- Atenção: presença de alforrecas em barda.

O meu entusiasmo entrou imediatamente em modo de poupança de energia.

Uma alforreca é um ser extraordinário. Não tem cérebro, não tem coração, não tem ossos e, mesmo assim, consegue estragar as férias de uma praia inteira. Há políticos que invejam essa eficácia.

Fiquei ali, à beira-mar, a analisar a situação, a ponderar as minhas premissas, a contar os meus enganos e desenganos.

Os adolescentes mergulhavam heroicamente. Alguns senhores mais velhos nadavam como se estivessem a treinar para atravessar o Atlântico, num paralelo á costa

Eu observava tudo com a prudência de um entendor.

Molhei um pé.

Nada.

Molhei o outro.

Também nada.

Avancei mais dois passos.

Foi nesse instante que alguém saiu da água a dizer:

- Cuidado! Acabei de ver uma!

Pronto.

Terminou a minha carreira aquática daquele dia.

Recuar não foi cobardia. Foi uma retirada estratégica. Os grandes generais da História também recuavam. Eu recuei até à toalha. Olhei em volta e procurei o guarda-sol azul. Alforrecas e pica-pica no mar e na areia gente muita mas sem o tal guarda-sol azul.

Ali fiquei durante horas a vigiar o oceano como se fosse guarda-costas da areia com ar de desilusão.

De vez em quando aparecia alguém a dizer:

- Nem picam muito.

Essa frase nunca me tranquilizou.

É como dizer a alguém:

- O leão só morde um bocadinho.

Ou:

- O paraquedas costuma abrir.

Ou ainda:

- O dentista hoje parece bem-disposto.

Não inspira confiança.

Por isso passei a tarde inteira a fazer atividades alternativas fui para casa, arrumei livros e cadernos e preparei-me para um tempo de solidão.

Em casa alguém perguntou:

- Então, a água estava boa?

Respondi com toda a sinceridade:

- Não faço ideia. Hoje tive uma relação exclusivamente visual com o mar e uma desilusão com a areia..

E assim terminou mais um dia de praia.

Porque há uma idade em que percebemos uma grande verdade da vida: não temos de provar coragem a uma alforreca ou a um pica-pica, nem lamentar um amor desamado.


Sanzalando

7 de junho de 2026

Pertinências 12 - Música e Filosofia

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.






Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Gustavo falou de Música e de conceitos, ideias e pensamentos



Imperdível









Sanzalando

6 de junho de 2026

saudade e adolescência

Me disseram que a adolescência é aquela idade em que somos um rascunho de gente, escrito a caneta bic de corpo transparente que falha a meio e com demasiados erros de ortografia emocional. Olhar para trás, para esse território cinzento entre as calças curtas e os primeiros pelos do bigode exige sempre um de dois superpoderes: ou uma amnésia profundamente selectiva, ou uma robusta e saudável dose de humor. Escolho a segunda, com a leveza de quem sabe que o tempo é o melhor amaciador de memórias.

Crescer é um despropósito biológico. Aos catorze anos, as nossas articulações parecem não ter recebido a notificação de que o resto do corpo mudou de tamanho. É a idade de ouro dos joelhos esfolados, do acne que decidia fazer uma convenção na ponta do nariz exatamente no dia da festa da escola, e daquela timidez incapacitante que nos fazia gaguejar ao pedir um simples pastel de nata na pastelaria da esquina. Éramos uma espécie de girafas recém-nascidas a tentar dançar uma valsa num chão inclinado

E, no entanto, que saudade há nessa maravilhosa e ridícula vulnerabilidade!

Hoje, com a distância da segurança que os anos nos dão, olho para as fotografias desse tempo com uma ternura e uma vontade incontrolável de rir. As modas, por exemplo. Que pacto coletivo de insanidade mental nos levava a usar aquelas roupas? Havia uma necessidade visceral de pertença que nos fazia adotar penteados que hoje seriam classificados como crimes contra a estética. Se o cabelo estivesse farto, o gel tratava de o transformar numa arma branca; se a atitude exigisse rebeldia, o olhar melancólico e os braços cruzados faziam o resto do trabalho.

Tínhamos certezas absolutas sobre coisas das quais não sabíamos absolutamente nada. Discutíamos filosofia barata nas esquinas até às duas da manhã, jurávamos amor eterno a cada três semanas e sofríamos por desgostos de amor que duravam tanto tempo quanto uma canção no rádio. O mundo era um palco gigante e nós éramos os protagonistas de um drama intenso, quando, na verdade, éramos apenas figurantes dum filme cómico barato.

A grande beleza de olhar para a adolescência com uma saudade feliz é perceber que toda aquela intensidade não passou de um ensaio geral. Os complexos que nos pareciam montanhas intransitáveis hoje são apenas pequenas dunas de areia que o vento da maturidade desfez. Aquela rapariga que não nos ligava nenhuma? Hoje já nem nos lembramos bem do apelido dela. A nota dramática no teste de Matemática? Acabou por não ditar o resto do nosso destino trágico.

Recordar esses anos com um sorriso largo é fazer as pazes com o miúdo que fomos. É abraçar a nossa própria tontice. Afinal, fomos felizes na nossa ignorância. Sobrevivemos às primeiras festas de garagem com luzes psicadélicas improvisadas, às fitas gravadas com a voz do locutor a meio só para nos lixar a gravação, aos verões intermináveis que pareciam durar uma eternidade e às promessas feitas ao luar que o amanhecer fazia esquecer.

Ter uma adolescência saudável na memória não significa que ela tenha sido perfeita; significa que aprendemos a rir dos nossos próprios naufrágios de copo de água. E há uma enorme dignidade em olhar para o espelho do passado, ver aquele jovem desajeitado e de sobrancelhas rebeldes, e dizer-lhe, baixinho e com orgulho: Obrigado pela coragem. Olha que, apesar de tudo, não nos correu nada mal.



Sanzalando

5 de junho de 2026

praia, passado, presente e futuro

Fui sentar nas arcadas da praia. Porque será que lhe chamam das Miragens se aqui tem água de verdade e não a água que se vê na estrada que é só ilusão? Mas eu vim sentar aqui a fazer horas de ir na praia propriamente dita. Tenho que ver qual o lugar da praia eu vou. Se ela chegar e escolher o sítio eu imito que estou a chegar agora e fico ali perto. Se vou já na areia corro o risco de ficar longe e não deitar o meu olhar sobre ela numa paixão invisível. É que já houve um tempo em que ir à praia exigia apenas duas coisas: fato de banho, que inevitavelmente regressava a casa com meio quilo de areia a mais, e uma energia digna de uma criança activa. Passava horas a fio, de rabo para o ar, a escavar canais de irrigação complexos que fariam inveja aos engenheiros romanos que um dia eu ia estudar no liceu, tudo para tentar desviar o Oceano Atlântico para dentro de um castelo de areia que uma onda um pouco maior, com a meiguice de um tractor, destruia em três segundos.

Brincar na praia era uma actividade de esforço bruto e imaginação pura. 

Depois foi a fase em que era preciso haver uma bola de futebol, embora jogar à bola na areia misture o pior de dois mundos: a gravidade da Lua e o atrito de uma lixa de carpinteiro. O jogo terminava sempre quando a bola, impulsionada por um chuto mais entusiasta e menos certeiro, aterrava em cima da barriga de um senhor que tentava dormir na toalha ao lado, ou ia mar dentro. O pedido de desculpas era um ritual sagrado, feito com os pés a queimar na areia quente e aquele sorriso de quem sabe que quase causou um incidente diplomático mas que daqui a minutos repetiria. 

Depois foi a fase com que comecei este meu diário, que pode ser mensário ou sem periodicidade. A paixão segundo a idade. Era linda. A idade, claro. Mas ela foi-se alterando e não tem nada a haver com as alterações climáticas. Coisas próprias da vida. Hoje em dia, a brincadeira na praia modernizou-se. O clássico balde e a pá de plástico amarelo dão agora lugar a uma parafernália tecnológica e desportiva digna de uns Jogos Olímpicos de Verão, ou uma dor cervical associada a um lacrimejar. 

Vejamos: olhamos para o lado e vemos as raquetes de praia a se tornarem no desporto nacional por excelência. Há sempre uma dupla que joga como se estivesse na final de um qualquer torneio, projetando a bola a velocidades supersónicas, enquanto o resto dos banhistas faz desvios acrobáticos para não perder um dente nem levar um estalo de uma tábua. Não tarda, ainda vemos alguém a tentar marcar um campo de pickleball na areia molhada e a tentar explicar as regras à beira-mar, ignorando o facto de que uma onda mais atrevida pode levar o equipamento todo até Marrocos: olhamos para outro e vemos alguém sentado, corcunda, a olhar um smartfone, numa concentração tal que nem uma onda gigante lhe ia acordar daquele estado quase hipnótico. 

Mas há algo que o progresso não muda: o lanche. Ninguém sabe explicar o fenómeno científico, mas a verdade é que a areia tem asas. Pode não haver ponta de vento, podemos estar resguardados sob três chapéus de sol e a usar pinças cirúrgicas, mas no momento exato em que se pede uma mítica bola de Berlim, com creme, obviament ou se abre uma simples sandes, a areia aparece.

E nós, com a resiliência típica de quem está de férias, mastigamos aquele crocante marítimo com um orgulho poético. Faz parte do paladar à beira mar sentado, dizemos nós para consolo. Ir à praia e não comer pelo menos três gramas de sílica por via oral é o equivalente a ir a Roma e não ver o Papa. 

No final do dia, vermelhos como lagostas apesar das três camadas de protetor fator 50, regressamos ao carro. Sacudimos os pés, batemos os chinelos, mas todos sabemos a verdade universal: a brincadeira na praia só termina verdadeiramente três meses depois, quando ainda encontramos grãos de areia escondidos no fundo da mala do carro. E aí, com um sorriso nostálgico, percebemos que a praia nunca sai verdadeiramente de nós.

E assim, numa sexta feira fui à praia, com diferentes idades e não sei se esqueci alguma ida mais especial que a de estar sentado nas arcadas a contemplar o meu futuro.



Sanzalando

4 de junho de 2026

ler ao vento

Há quem faça palavras cruzadas, há quem veja séries na tv, há quem passe horas a discutir política nas redes sociais como se estivesse a negociar a paz mundial ou a abrir novas guerras, há quem nas redes se sinta importante e impune e despache palavras como quem esvazia o rancor. Eu descobri uma atividade muito mais simples e muito mais útil: ler ao vento.

Note-se que não me refiro a ler sobre o vento. Refiro-me a pegar num livro, sentar-me num banco de jardim, numa esplanada ou à beira-mar, e deixar que a brisa participe activamente na leitura. Porque o vento não é um simples espectador. O vento é um leitor crítico, daqueles que não respeitam a ordem das páginas nem a velocidade que leio.

Abro o livro na página 23 e, como se houvesse um sopro de entusiasmado, passo imediatamente para a 57. A personagem ainda nem tinha saído de casa e já estava divorciada, reformada e com três netos. É uma leitura dinâmica, quase um curso acelerado de literatura.

O vento também tem a mania de funcionar como marcador de páginas. O problema é que escolhe sempre uma página diferente daquela que eu estava a ler. Quando volto ao livro, encontro-me no meio de uma descrição de uma sopa de nabiças ou de uma batalha medieval sem perceber como lá cheguei. É como viajar de comboio e acordar numa estação errada. Muito gosta ele de me dobrar páginas em vez de usar um marcador.

Mas ler ao vento tem vantagens. O tempo passa sem darmos por isso. Uma hora de leitura ao vento equivale a três horas de entretenimento convencional. Não apenas lemos um livro, como seguramos páginas rebeldes, protegemos chapéus, recuperamos marcadores desaparecidos e afastamos grãos de areia que insistem em tornar-se personagens secundárias da história.

Há ainda o lado poético da coisa. O vento parece querer ler connosco. Espreita as páginas, mexe nas folhas, sopra frases para o ar. É uma espécie de clube de leitura atmosférico, embora os seus comentários sejam sempre um pouco difíceis de interpretar. Ou será que sou eu que já estou tonto de tanto o contrariar?

No fim, quando fecho o livro, percebo que talvez não tenha compreendido todos os capítulos. Algumas partes ficaram misturadas, outras voaram literalmente para longe. Mas o objetivo foi cumprido: o tempo passou.

E talvez esse seja um dos grandes segredos da leitura. Não importa se estamos numa biblioteca silenciosa ou num banco de jardim em luta aberta contra uma ventania. Um livro tem essa capacidade extraordinária de fazer os minutos correrem mais depressa.

Embora, convenhamos, quando o vento leva o marcador de páginas para longe num voar rotativo, já não é apenas literatura, é um duatlo, que mete já a corrida nos entretantos.



Sanzalando

3 de junho de 2026

Tesourinhos Musicais 96 - Edmindo Falé - K'arranca às Quartas 121


Sanzalando

Livros - José Luis Peixoto - K'arranca às Quartas 121


Sanzalando

Esta Música tem uma História 62 -Simone - Iolanda- K'arranca às Quartas 121


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório 20 - K'arranca às Quartas 121


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (26) - K'arranca às Quartas 121


Sanzalando

Crónica 108 - K'arranca às Quartas 121


Sanzalando

Programa K'arranca às Quartas 121



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 03 de junho de 2026, dia mundial da biciclete - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - para lá de uma extra.

Luis Peixoto foi o escolhido de hoje

Hoje houve Esta Música tem uma história Simone com IOLANDA numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais falei de Edumndo Falé
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe na pessoa de Alda Espírito Santo
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos o recreio da escola e o jogo 'abafa'
Tivemos o poema Operário da Construção de Vinivius de Morais na voz de Mário Viegas
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

O Dia em Que Decidi Jogar Padel

Há decisões que mudam uma vida: casar; mudar de emprego; comprar uma casa. E depois há a decisão que eu tomei numa bela manhã de confinamento: jogar padel.

A culpa foi dos amigos. É sempre dos amigos. Nunca ouvi ninguém dizer que foi assaltado pela sua imprudência ou que foi o bom senso que o meteu nisto. Não. Foram os amigos.

O que eles me disseram:

- Tens de experimentar!  

- É divertido!

- É fácil!

- Qualquer pessoa joga!

Desconfiei logo, ainda mais da última frase. Sempre que alguém diz que qualquer pessoa consegue fazer alguma coisa, normalmente está a referir-se a pessoas que nasceram com talento, equilíbrio e articulações ainda dentro da garantia. Há anos que a minha garantia se foi e não há a quem reclamar.

Mas lá fui sem bem saber ao que ia. Vi no Youtube uns três vídeos. Percebi o mecanismo da coisa. Paredes de vido, uma rede a meio e uma tábua na mão como brinco na praia. 

Cheguei ao campo equipado como quem vai disputar a final de Wimbledon. Ténis novos próprios para o padel segundo o empregado da loja, roupa desportiva impecável e uma raquete alugada na mão. Na verdade sentia-me um atleta. Durante aproximadamente três minutos que entrei no retângulo eu senti-me confortável e confiante.

O primeiro problema foi descobrir como se segurava a raquete. Uns diziam que era como quem pega num martelo e eu a pensar como é que seria uma coisa que nunca tinha pensado. Mas como raio eu pego um martelo. Como é que eu com o martelo ia bater no raio da bola se quase mal a vejo? O segundo foi perceber que a bola não colaborava minimamente com os meus planos. Eu pensava ia dirigi-la para ali e ela, por vontade própria ia para acolá.

No aquecimento, a bola passou por mim várias vezes. Não porque fosse rápida, mas porque eu era optimista, preguiçoso ou estava a faltar-me qualquer sentido posicional. Calculava a trajetória, preparava-me para o golpe perfeito e, no último instante, a bola escolhia outro destino que não o que eu tinha desenhado para a receber.

Parecia ter vontade própria a maldita amarelinha.

Quando finalmente consegui acertar-lhe duas vezes seguidas, foi um momento de glória. Infelizmente, a bola, à segunda, saiu do campo, atravessou a vedação e quase foi pedir nacionalidade ao concelho vizinho.

Os meus colegas foram pacientes.

- Muito bem! — gritavam. - Vais lá!

Eu conheço aquele muito bem. É o mesmo que se usa quando uma criança desenha um cavalo que parece um aspirador avariado ou um pai que só tem pernas e cabeça.

Depois descobri a particularidade mais intrigante do padel: as paredes.

Passei uma vida inteira a aprender que bater contra paredes era um erro. E várias vezes as bati com a cabeça. De repente, encontro um desporto onde a bola bate na parede e toda a gente acha normal.

A certa altura, fiquei tão concentrado a seguir a bola que dei por mim a rodar em círculos dentro do campo, como um cão a tentar apanhar a própria cauda e ainda por cima ria.

Houve um momento particularmente humilhante em que corri para a frente, recuei, avancei outra vez, olhei para cima, olhei para os lados e, no fim, a bola caiu calmamente ao meu lado, sem que eu lhe tocasse. Parecia que estava a observar um documentário sobre a minha incompetência.

Ao fim de noventa minutos eu estava exausto. Descobri músculos cuja existência em mim desconhecia. Alguns deles, suspeito, pertenciam a outras pessoas mas vieram doer em mim.

No dia seguinte, acordei com dores em locais do corpo que nem sequer aparecem nos livros de anatomia. Para me sentar precisava de um plano estratégico. Para me levantar, de muita fé.

Mas, estranhamente, gostei. Amor violentamente apresentado à primeira vista.

Talvez porque o padel seja uma metáfora da vida. Corremos atrás de coisas que nos escapam, batemos contra paredes, falhamos bolas fáceis e, de vez em quando, acertamos uma pancada tão boa que de imediato esquecemo-nos de todas as outras que falhámos.

Ou talvez porque, no fundo, gosto de fazer figuras ridículas desde que tenha testemunhas suficientes para se rirem comigo e de mim.

Seja como for, já logo combinei novo jogo para a semana seguinte, esperando ter recuperado muscular e mentalmente daquele primeiro dia.

Passei a ir mais bem preparado.

Passei a levar uma raquete que comprei, suave, com bom controle e boa saída apesar de faltar um jogador na extremidade da mesma, água... e um fisioterapeuta de prevenção.


Sanzalando

2 de junho de 2026

Um conto que não contei

Sentei na secretária. Não. Sentei-me frente ao computador, na cadeira que está à freente da secretária onde está o PC. No tempo em que escrevia com caneta já estava uma folha amarrotada e eu zangado. Mas eu quero escrever um conto. Um conto de amor. De amor adolescente. Não. Vou cair no meloso e nos suspiros que não são de açúcar. Vou trocar os suspiros exagerados pelas situações embaraçosas, pelos mal-entendidos e pela forma dramática como os adolescentes transformam pequenos acontecimentos em grandes epopeias.

Em vez de dizer:

- Quando a vi, o meu coração disparou e o mundo parou.

Vou dizer:

- Quando a vi, esqueci-me do próprio nome, tropecei no degrau da escola e descobri que a gravidade continua a funcionar mesmo quando estamos apaixonados.

O humor nasce da distância entre aquilo que se imagina e aquilo que realmente aconteceu. Na minha cabeça, sou um herói romântico; na realidade, estou a ensaiar frases inteligentes há três dias para acabar por dizer apenas: Então... está calor, não está?

Não vale a pena recordar que os adolescentes vivem tudo em modo exagerado:

  • Um sorriso vale um pedido de casamento.
  • Um olá é sinal de destino carregado de emoção.
  • Um até amanhã já serve para escolher os nomes dos filhos.

Podia brincar com os conselhos dos amigos, que costumam ser tão úteis como um guarda-chuva furado naqueles dias de tempestade:

O Zé garantiu que as raparigas adoravam rapazes misteriosos. Passei uma semana sem falar. Ela concluiu que eu era tímido, estranho ou tinha perdido a voz. Talvez as três coisas. Ou só que eu era parvo.

Outra técnica a usar podia ser autoironia. Podia olhar para trás e rir-se da minha própria ingenuidade:

Aos quinze anos eu tinha a certeza absoluta de três coisas: que ela era o amor da minha vida, que eu ia ser rico antes dos vinte e que o meu clube nunca perderia um jogo importante. Como se vê, a adolescência é uma fase fértil em imaginação.

O resultado seria uma história ternurenta sem ser açucarada, porque o leitor ia rir-se das situações e reconhecer emoções verdadeiras nelas.

Em resumo: menos luar e mais tropeções; menos poesia declamada e mais nervosismo; menos amor eterno e mais confusões, amigos intrometidos e planos que correm mal. O humor faz sorrir e, curiosamente, torna a paixão mais credível. Afinal, quase todos nos apaixonámos na adolescência; poucos escreveram poemas perfeitos, mas muitos disseram disparates memoráveis.

Desliguei o PC e não escrevi o tal conto por falta de assunto para contar.



Sanzalando