Eles não davam aulas. Davam sentenças.
Sentavam-se sempre na mesma mesa, como se tivessem alugado aquele quadrado ao café. Um pedia um café curto, outro um copo de cerveja, um carioca de limão ou um café normal, outro dizia que já tinha bebido água suficiente para aquela semana.
Eu ficava ali, calado, convencido de que estava escondido no meio de uns cabeludos pouco mais velhos que eu. Na verdade, toda a gente sabia que eu era o miúdo que estava ali a ouvir conversas alheias.
Foi nessa esplanada que aprendi que, antigamente, os peixes eram maiores, as sardinhas eram mais gordas, o calor era mais quente, os invernos mais frios e os políticos... bem, sobre os políticos já nessa altura havia opiniões que nunca chegavam ao fim e se ouvia mal poque eram mais sopros que palavras.
Cada um contava uma história melhor do que a do anterior.
- Eu conheci um homem que pescou um tubarão à mão!
O vizinho respondia logo:
- Isso não é nada. O meu tio empurrou um camião sozinho porque ele não tinha motor de arranque.
Ninguém duvidava. Pelo contrário. O objetivo não era descobrir a verdade. Era descobrir quem tinha a imaginação mais bem treinada.
Havia um senhor que começava sempre da mesma maneira:
- Isto aconteceu mesmo...
Quando ele dizia "aconteceu mesmo", todos percebíamos que vinha aí a maior mentira da tarde.
E vinha.
Eu ria-me por dentro, mas fazia um ar muito sério. Era importante parecer um homem entendido. Afinal, estava matriculado na universidade da esplanada.
Ali aprendi que uma história nunca devia ser estragada com factos.
Se alguém perguntasse:
- Tens a certeza?
O contador respondia:
- Se não tenho, passo a ter!
E a conversa seguia feliz.
As horas passavam devagar. Não havia telemóveis para interromper ninguém, nem notificações, nem fotografias do almoço. A única rede social era a mesa do café, onde cada um publicava as suas aventuras e recebia imediatamente comentários, gargalhadas e algumas correções criativas.
Quando o Sol começava a descer, levantavam-se todos devagar, como quem encerrava mais um congresso internacional de especialistas em coisa nenhuma.
Eu regressava a casa convencido de que tinha aprendido muito.
Hoje percebo que aprendi mesmo.
Aprendi que uma boa conversa vale mais do que um relógio apressado, que o humor faz companhia à memória e que os mais velhos nunca contavam apenas histórias. Contavam a maneira como queriam ser lembrados.
E, pensando bem, talvez nenhum deles tivesse pescado um tubarão à mão.
Mas também nunca vi ninguém provar o contrário.










