recomeça o futuro sem esquecer o passado

1 de julho de 2026

Programa 125 - K'arranca ás Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 01 de Julho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este era dedicado à Feira do Livro que decorre na Cidade de Portimão. Programa especial também porque foi especialmente feito para si
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - o meu equilíbio perfeito

Palavras sobre Anabela Quelhas, a autora escolhida da por mim
Hoje houve Esta Música tem uma história com Carlos Paião e Versos de Amor
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, 99º edição Betinho e o seu Conjunto
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos Tsunami e a mitologia nos dias de hoje
Florbela Espanca e Eu no poema na voz de O Mundo dos Poetas

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

30 de junho de 2026

Pertinências 15 - via Youtube


Sanzalando

Pertinências 15 - Concerto dos Terrakota

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas
















Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

26 de junho de 2026

eu e Babel

Só porque alguém me mandou uma mensagem a contar o episódio do Babel. Olha lá um coreano que fala alemão em Portugal ia dar mais o quê? E então sorri e derrapei nas letras.

Diz o mito que Deus baralhou as línguas em Babel para castigar a vaidade humana, e espalhou a confusão. Claramente, quem escreveu essa história lá nunca tentou pedir um café numa esplanada na Praia da Rocha ou em Alvor. Babel não foi um castigo, foi o ensaio geral para a cidade moderna.

Hoje, entrar num elevador ou caminhar pela rua é mergulhar numa polifonia absurda. À esquerda, discute-se o mercado num inglês nórdico; à direita, gesticula-se em espanhol; ao fundo, negoceia-se em mandarim e por cima voa um avião americano feito com chips da China e coisas da Coreia.

O verdadeiro milagre, contudo, opera-se numa cafetaria qualquer. Isto é, já não as há.  Mas nos similares que têm nome pomposo onde antes se pedia um galão e uma torrada, hoje exige-se um flat white com leite de aveia e um avocado toast em pão de sourdough. O cliente, baralhado perante os hieróglifos do menu, tenta pagar com uma nota de dez euros. O funcionário, um jovem estrangeiro em ano sabático, olha para o dinheiro como se fosse um artefacto do Neolítico. MbWay please! Não partilham mais nenhuma palavra, mas a transação faz-se com um aceno de cabeça universal.

Na rua, a sinfonia ganha rodas. Condutores de Uber guiam-se por vozes robóticas, turistas em trotinetes gritam "Sorry!" enquanto galgam passeios, e ciclistas tentam explicar por gestos que a ciclovia não é uma passadeira.

Se o plano original de Babel era separar-nos pela incompreensão, falhou redondamente. A cidade moderna criou a sua própria língua franca: o desenrascanço. É o idioma de quem se entende por mímica, sorrisos e Google Maps ou Waze.

A nossa torre contemporânea continua de pé, tem Wi-Fi e não cai. No fundo, descobrimos o que os babilónios esqueceram: para conviver, não precisamos de falar a mesma língua. Só precisamos de partilhar o mesmo espanto por estarmos todos no mesmo caos.


Sanzalando

25 de junho de 2026

eu e o futebol de rua

Na minha rua havia uma regra sagrada, escrita em lugar nenhum, mas respeitada por toda a gente: quem fosse o dono da bola jogava sempre.

Era uma espécie de Constituição da República do Futebol de Rua, ainda a gente nem sabia havia Constituição

Não interessava se o rapaz corria como um armário ou avestruz, não interessava se confundia um passe com um remate ou se tinha medo de cabecear porque despenteava. O dono da bola era titular absoluto.

E esse dono, às vezes era eu.

O problema é que Deus distribuiu talento futebolístico pelos meus amigos todos e, quando chegou à minha vez, já devia estar na pausa para café ou tinha ido à casa de banho. Tinha bola mas faltava-me o tal de jeito. Era assim um tipo mais de uma verdadeira queda vertical no gráfico da eficácia chutativa.

Os outros faziam fintas. Eu fazia acidentes em que o acidentado quase sempre era eu.

Eles dominavam a bola com o peito. Eu dominava-a com a testa, com as costas ou canela e sempre sem querer.

Quando me gritavam:
— Passa!

Eu passava, quase sempre ao adversário.

Era uma visão democrática do futebol, quando esta palavra era altamente proibida. Eu acreditava que todos tinham direito a tocar na bola, incluindo a equipa contrária.

Mas ninguém se atrevia a dizer:
— Não jogas.

Porque a resposta era imediata:
— Então a bola também não joga.

Seguia-se um silêncio dramático.

A bola debaixo do braço tinha um poder que nem o melhor árbitro do munndo possuía.

Começavam logo as negociações.

— Está bem jogas à defesa.

Cinco minutos depois alguém da minha equipa dizia:

— Se calhar ficas melhor a guarda-redes.

Outros cinco minutos depois:

— Sabes que mais? Fica ali no meio-campo mas sem mexer muito, para ver se não atrapalhas o Zé.

No fundo, tinham acabado de inventara a posição de obstáculo humano. Eu não marcava ninguém, mas ocupava espaço. Havia dias em que nem tocava na bola. Ainda assim, era considerado um jogador importante, porque, sem mim, não havia jogo.

A minha carreira futebolística viveu sempre desse paradoxo extraordinário: era o pior jogador em campo e, simultaneamente, o mais indispensável.

Nunca marquei um grande golo e só por acaso também não me lembro de nenhum pequeno.

Marquei, isso sim, muitos postes de iluminação já que ficávamos muitas vezes lado a lado e só não à conversa porque ele era o candeeiro e eu não sou parvo.

Uma vez rematei com tanta força que a bola foi parar ao quintal da Dona Teodora. A bola voltou três dias depois. Eu ainda hoje desconfio que ela lhe deu um castigo por mau comportamento ou estava com pensa da minha fraca evolução desportiva.

Quando os meus amigos gritavam:
— Chuta para a baliza!

E eu obedecia... desde que a baliza estivesse aproximadamente na direção para onde a bola saía, naquele acaso.

As balizas também eram um espetáculo. Dois tijolos, duas pedra, duas mochilas, às vezes dois chinelos. O problema começava quando alguém chutava para fora e aparecia um génio a perguntar:
— Mas foi dentro ou foi ao lado do chinelo?

Discutia-se meia hora.

Se existisse VAR naquela rua, ainda hoje estávamos a analisar o lance.

O mais curioso é que ninguém queria saber de contratos milionários, chuteiras de última geração ou relvados perfeitos.

A bola já tinha perdido a cor original, levava remendos, parecia ter sobrevivido a três guerras e dois carnavais. Mas era a melhor bola do mundo, porque era a minha e era a única maneira de eu jogar.

Hoje, vejo crianças com equipamentos iguais aos dos grandes clubes, bolas oficiais, aplicações que contam os quilómetros percorridos e relógios que medem o ritmo cardíaco.

Nós medíamos outra coisa: quantas vezes a mãe chamava da janela até decidirmos ir jantar.

E esse era o verdadeiro apito final.

Nunca tive jeito para jogar à bola.

Mas tive o privilégio de ser dono da bola.

E, olhando para trás, percebo que, na infância, ter a bola era muito mais importante do que saber jogar.

Porque o talento fazia ganhar partidas. Mas a bola fazia nascer amizades que ainda hoje continuam a vigorar, como aquelas tardes intermináveis em que o campeonato só acabava quando desaparecia a luz do dia ou quando alguém levava a bola para casa debaixo do braço, lembrando a todos quem era, afinal, o verdadeiro presidente da federação da rua.



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Esta Música tem uma História 64 -Chico & Milton - O que será? - K'arranca às Quartas 124


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Rui Couceiro - A MAIS BELA MALDIÇÃO (Anabela Quelhas) - livro - K'arranca às Quartas 124


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Crónica de João Portelinha da Silva (29) - K'arranca às Quartas 124


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Crónicas de Carlos Osório (23) - K'arranca às Quartas 124


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Crónica 111


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Angola Toma a Palavra - Feira do Livro de Portimão





Ontem a Feira do Livro Portimão 2026 recebeu "Angola Toma a Palavra", um encontro especial que reuniu os autores Tomás Lima Coelho, Sedrick Carvalho, Kalunga, João Rodrigues, Graça Sousa, Valério Guerra e João Carlos Carranca para uma conversa plural sobre literatura, sociedade, humanidade, cultura e os laços que unem diferentes experiências e perspetivas.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

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24 de junho de 2026

Programa 124 - K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 24 de junho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este era dedicado à Feira do Livro que decorre na Cidade de Portimão. Programa especial também porque foi especialmente feito para si
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - livros no Verão ou coisa do género

Trouxe Rui Couceiro nas palavras de Anabela Quelhas
Hoje houve Esta Música tem uma história Milton e Chico - O que será?
Hoje não houve Os Tesourinhos Musicais porque a primeira hora foi preenchida com o concerto de abertura da Feira do Livro por Eduardo Ramos
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos a bola ou nem por isso

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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23 de junho de 2026

Serenata à chuva

O meu plano era infalível, ou pelo menos era o que eu achava que sim antes de ver o estado em que estava o tempo.

Lá estava eu, às dez da noite, no passeio embaixo da janela dela. O plano pedia um luar romântico, uma brisa suave e acordes chorosos no viola. Em vez disso, a noite parecia ter nascido num breu absoluto.

Como eu não sabia cantar nem violar as cordas de uma guitarra, me socorri de dois amigos que o faziam na perfeição.

O Beto limpou a garganta, ajeitou os dedos nas cordas e começou a dedilhar, acompanhado pelo Manel. Eu era corpo presente no silêncio ausente.

- Oh, minha amada, que brilha mais que o sol... - cantou, na sua voz baladeira..

A janela se abriu num ápice. Uma silhueta apareceu. Sorri no escuro com a esperança de ser visto. Foi quando um holofote daqueles dos filmes de guerra para ver os aviões nos céus, era a cortesia simpática do pai dela.

- Que diabo se passa aqui? - naquele breu a voz até que parecia vinha dum trovão desgovernado.

Completamente cego pela luz, tentei soletrar uma ou outra palavra mas nada me chegava à boca. Era silêncio presente com vontade de corpo ausente.

- Sr.Ju! Boa noite... Sou o Beto e viemos fazer uma serenata à sua filha. Desculpe não termos trazido o luar - como ouviram foi o Beto quem salvou a situação. Eu estava estatuado na vertical parada do tempo.

- O luar eu não sei, Fadista da lixeira, mas a chuva está a chegar se vocês não se calam! - gritou o dono da luz que não a desligou um segundo, para eu despetrificar..

Como se fosse um efeito sonoro encomendado pelo destino, o primeiro pingo de chuva do tamanho de cinco tostões caiu bem na ponta do meu nariz. Em três segundos, o céu desabou. Não era uma chuva romântica de filme; era um entornado que parecia ter vindo de balde, se não viesse mesmo do céu

A janela do quarto ao lado abriu-se e, finalmente, ela apareceu, tentando segurar o riso enquanto protegia o cabelo.

-Entrem. Vocês são doidos. Abriguem-se aqui dentro.

Eu, já estava empedrado tinha virado agora encharcado até a alma, com o cabelo colado à testa e a dignidade escorrida rua abaixo gritei:

-  Não há força na natureza que me desarme - na verdade eu estava aterrado só de pensar ver o Sr. Ju a olhar-me de perto.

- Deixa-te de dramas e entra. A serenata foi um desastre, mas a minha esposa acabou de pôr a mesa com biscoitos e coca-cola.

Nem nos olhámos para pensar. Corremos para a varanda, sacudindo a roupa para enxarcar o menos possível qualquer entrada. O luar podia ter faltado, mas a ceia foi um regalo de gosto e sabor.



Sanzalando

22 de junho de 2026

Se tempo é dinheiro...

Diz o ditrado português que tempo é dinheiro. Eu desconfio de que é que diz isso. Normalmente são os mesmos que chegam atrasadas e depois vão dizer que o trânsito estava impossível. Se o tempo fosse dinheiro, havia muito boa gente a declarar falência, porque tem gente que sofre de falta de tempo que até irrita.

Eu prefiro outra teoria: quem compra um livro compra tempo.

Não parece. À primeira vista, compra papel, tinta, uma capa bonita e, nos dias que correm, uma carteira mais leve. Mas basta abrir a primeira página para perceber que ali dentro há muito mais do que letras alinhadas, frases feitas e anos condensados. Tem o tempo que o escritor levou a imaginara estória, a apagar capítulos inteiros, a reescrever frases que nunca ficam exatamente como ele as queria. Há madrugadas, cafés frios e momentos em que olhou para o tecto à procura da palavra certa, da construção correcta ou imaginada.  Quando compramos um livro, estamos a adquirir esse tempo todo por empréstimo.

Há livros que nos fazem viajar até Roma Antiga, ou ao futuro, ou ao fundo do mar ou à infância de alguém que nunca conhecemos. Tudo sem anúncios irritantes ou um X num dos cantos para apagar o reencaminhamento para não sei onde.

O máximo que pode acontecer é adormecermos ao fim da terceira página. Mas isso não é culpa do livro, às vezes é culpa do sofá.



Sanzalando

21 de junho de 2026

Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas







Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

20 de junho de 2026

eu, a voz, o erro ou gaffe com dois efes que tem mais pinta

Diz-se que a voz humana é um instrumento divinal. Se assim for, há dias em que o meu instrumento precisa urgentemente de ir à oficina ou, no mínimo, de ser afinado com uma marreta. Fazer locução é um exercício de alta cavalgada: exige postura, respiração cuidada, uma dicção impecável e, acima de tudo, a ilusão absoluta de que temos o controlo da situação mesmo quando as linhas do texto se cruzam na nossa cabeça como os rabiscos de uma criança em folha de papel. O problema é quando o cérebro decide fazer uma pausa para café a meio da frase e deixa a boca a funcionar em piloto automático. O resultado nunca é bonito.

Tudo começa com a falsa sensação de segurança. Olhamos para o texto, as palavras parecem fáceis, amigáveis, quase familiares. Respiramos fundo, colocamos aquele tom aveludado de quem jantou com o locutor da BBC e arrancamos:

“Muito boa tarde. Sejam bem-vindos a mais uma edição do nosso programa, onde hoje vamos analisar a lusofonia na palavra e na música sem que haja um consenso" e aqui "constitucional ou apenas institucional sobre o que é a língua portuguesa”

E é aqui que o destino se ri de nós. A palavra seguinte é "constitucional". Uma palavra simples, certo? Errado. Na boca de um locutor confiante, "constitucional" transforma-se, por artes mágicas, em "consti-tu-xio-nal" e paro, corrijo ou sigo

O erro em locução tem várias fases, todas elas dolorosas, que acontecem no espaço de um microssegundo. O Tropeço em que  a língua bate no céu da boca de forma errada. É o equivalente fonético a ir a andar na rua e tropeçar num paralelo levantado da calçada. O Pânico dos Olhos em que os olhos arregalam-se. Percebemos que o que saiu pela boca não pertence a nenhum dicionário da língua portuguesa. Acabámos de inventar um dialeto novo. A Tentativa de Salvação em que em vez de pararmos, tentamos corrigir enquanto continuamos a falar, criando um efeito de areia movediça. Quanto mais tentamos sair dali, mais nos enterramos. O "consenso constitucional" passa a ser o "tecido constituxu... constitulal... o tecido das leis!". Pronto, improvisou-se, ninguém notou, pensamos nós.

O pior são as consoantes dobradas. Quem foi o sádico que decidiu colocar "rres" e "lles" seguidos em textos que têm de ser lidos sem respirar? Há dias em que a frase "o rato roeu a rolha" parece um tratado de física quântica. A meio do caminho, o "rato" já é um "gato", a "rolha" desapareceu e nós estamos a arquejar como se tivéssemos corrido uma maratona. 

Há outras formas de errar. Se a gravação for em diferido, temos o maravilhoso botão de delete na nossa consola e após praguejar um bocadinho contra os antepassados do autor do texto, bebe-se um golo de água e repete-se a faixa pela décima vez, fingindo que somos profissionaisíssimos.

Mas se for em direto... Ah, o direto! O direto tem o requinte de crueldade de congelar o tempo. Quando falhamos uma palavra em direto, fazem-se dois segundos de silêncio que parecem durar duas semanas. Conseguimos ouvir o suor a escorrer pela testa. Conseguimos ouvir os ouvintes em casa a largar a colher de sopa e a perguntar: "O senhor da rádio está a ter um AVC?" O truque clássico do locutor apanhado em falso é a "tosse de recurso". Enganaste-te numa palavra? Dá um pigarro autoritário, como se um grão de poeira cósmica tivesse entrado na tua garganta sagrada, e repete a frase com o dobro da imponência. Se fores suficientemente confiante, as pessoas acham que a culpa é do dicionário, não tua.

A verdade é que há uma beleza escondida na gaffe. O ouvinte não quer uma máquina de inteligência artificial a debitar sílabas perfeitas sem alma. O ouvinte quer saber que do outro lado do microfone está alguém que, tal como ele, também se embrulha a tentar dizer "paralelepípedo" à segunda feira de manhã ou na noite de sexta.

Por isso, celebremos os nós na língua. São eles que dão sabor à emissão. E agora, se me dão licença, vou ali treinar a leitura de um texto sobre a desestatização dos estabelecimentos agropecuários, prisionais e os dos caleidoscópios espaciais. Desejem-me sorte, ou chamem já o terapeuta da fala.


Sanzalando

18 de junho de 2026

Ribeirinha Beach 2026 - uma conversa à beira rio com Tó Feu




Programa de Rádio à beira rio. Num fim de tarde de calor, uma conversa amena com Tó Feu no lugar onde passou a infância e que agora está para os portimonenses usufruírem. Num convite da P.O.I.S. estivemos à beira rio a recordar e a fazer futurologia. E quando estávamos quase a despedirmo-nos vimos que ia dar um concerto de 1 hora a fadista Catrina que haviamos conhecido num Bom Dia Mercado e aproveitámos para uma mini conversa. Foi bom ter estado ali, naquele instante com gente boa




Mesmo assim vale a pena ouvir

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Sanzalando

17 de junho de 2026

LIVRO - Jornal sem Data - Fernando Namora - K'arranca às Quartas 123


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Esta Música tem uma História 63 -Bonga - Mona Ki Ñngi Xica - K'arranca às Quartas 123


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 98 - António Mourão - K'arranca às Quartas 123


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Crónica de João Portelinha da Silva (28) - K'arranca às Quartas 123


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Crónicas de Carlos Osório (22) - K'arranca às Quartas 123


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Crónica 110 - K'arranca às Quartas 123


Sanzalando

Programa K'arranca às Quartas 123



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 17 de junho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - festivais de verão

Falei de Fernando Namora e o seu último livro - Jornal sem Data
Hoje houve Esta Música tem uma história Bongae o seu Mona Ki Ngi Xica
Os Tesourinhos Musicais falei de António Mourão, o do Tempo Volta pra Trás
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos os livros e suas feiras ou não
Tivemos o poema Elefante de João Melo na minha própria voz
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

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Operação Toalha na Alameda ou como criei a "Praia da Alameda"

Sempre achei que o maior defeito do urbanismo moderno é a falta de uma ondulação marítima a escassos metros do café central. 
Sempre morei pertinho da praia, mas penso muito nos que moram a uns sofridos 80 quilómetros do oceano mais próximo. No pico do verão, quando o termómetro da farmácia marca uns tórridos 38°C e o asfalto ameaça derreter as solas dos sapatos, julgo que o cérebro entra em modo de sobrevivência. E foi precisamente num desses dias de canícula que pensei: se a montanha não vai a Maomé, a praia vem ao centro da cidade. E então fiz o teste na minha cidade. Se aqui der certo, dará em qualquer lugar, pensei.

Munido de uma cadeira de praia queimada pelo sol desde 2014, uma toalha com o brasão do Alguidares de Baixo e uma geleira azul vazia, que era para não carregar peso, rumei à Alameda. O meu objetivo? aproveitar o repuxo que faz tempo não funciona.

Cheguei por volta das duas da tarde, a hora em que os lagartos procuram a sombra e os humanos sensatos estão fechados em casa com o ar condicionado no máximo. O cenário era perfeito. Estendi a minha toalha mesmo na berma da calçada portuguesa, a um metro e meio do repuxo de água que mais um dia não saiu para funcionar. Acho ele ausentou-se de vez. 

Instalei-me. Calções de banho floridos, óculos de sol espelhados e o corpo generosamente untado com protetor solar factor 50, cujo aroma a coco começou imediatamente a travar uma batalha química contra o cheiro a fritos dos restaurantes das redondezas. A calçada portuguesa, quando exposta ao sol do meio-dia, retém o calor de uma forma que faz a areia de uma praia verdadeira parecer um cubo de gelo. Deitar-me de costas foi um erro tático que quase me custou a pele das omoplatas.

Uma praia precisa de banhistas, mas na Praia da Alameda, a fauna era ligeiramente diferente. O Pombo-Gaivota não tardou até que um bando de pombos urbanos se aproximasse. Olhei para eles com nostalgia. Fechando bem os olhos, o "ru-ru" daquelas aves cinzentas quase parecia o grasnar de gaivotas esfomeadas atrás de uma bola de Berlim. O senhor Artur, velho conhecido e empregada de um restaurante ali perto, olhava-me com a expressão de quem questionava se devia ligar para o 112 ou para a minha família. Um casal de nórdicos, vermelhos como lagostas, parou a olhar para mim. Olharam para o mapa, olharam para a minha cadeira de praia, e por um segundo vi o brilho da esperança nos seus olhos. Estariam finalmente no Algarve?

Às três da tarde, a brisa marítima provocada pela passagem dos carros trouxe o tão desejado fresco. Cada vez que um carro passava, o deslocamento de ar recriava perfeitamente a sensação de uma nortada na Praia do Guincho, incluindo o bónus de me atirar com poeira e bilhetes de raspadinha usados à cara.

E o banho? Bem, o chafariz tinha uma placa bem visível: "Água Não Potável" mas na verdade também não havia qualquer outro tipo de água. Mas ninguém disse nada sobre ser "Não Praticável". Quando o calor se tornou insuportável, levantei-me com a dignidade de um nadador-salvador e pensei ir até casa tomar um banho.

Enquanto arrumava a toalha e a cadeira ainda deu para ouvir uma senhora idosa que passou, benzeu-se e murmurou: "Valha-me Deus, a droga faz mesmo mal aos jovens". Sorri e acenei-lhe como se estivesse num iate em Vilamoura.

 O "mar" tinha secado. Eu estava desidratado. Arrecadei a minha toalha, agora preta do fumo dos escapes, fechei a cadeira de praia e caminhei de volta a casa, de chinelos a estalar no alcatrão quente.

Posso não ter trazido conchas nos bolsos, nem o bronzeado perfeito, mas trouxe a certeza absoluta de que a felicidade é um estado de espírito. E que, com a dose certa de lata e calor, qualquer rotunda com água se transforma na Côte d'Azur.

E foi então que soube que havia uma praia, de nome inglês à beira rio, onde não precisaria de ter levado cadeira, toalha nem geleira e talvez ninguém me tivesse um lunático da Alameda. Fui lá. Sim, alguém tinha pensado bem melhor que eu. E quase todas as cidades têm um rio, um ribeiro ou uma fonte que funciona e a ideia teria funcionado bem melhor.



Sanzalando