No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Pertinências 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota
O Museu de Portimão organiza na Lota Sábados de Fado à noite. Assim, é pertinente, depois de ver uma sala cheíssima, levar até quem não teve lugar, não pode ir pelas mais variadas razões, o que ali se passou.
Neste 1º temos uma parte com a Abertura da Exposição O que é o Fado, que contou com a presença de fadistas, tendo uma chegado a cantar num barco - a moira - e outra a cantar na Janela da Antiga Lota, para além das palavras da Directora do Museu, Do Dr. Paulo Félix, curador da exposição e sua Exa. Sr. Presidente da Càmara. Depois temos então toda a primeira noite de Fado do Há Fado na Lota, com Rafael Pacheco e seus convidados
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências. Mesmo que as palavras sejam sons de guitarra e viola
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
- Vou às hortas. Chegou a hora de ver o que consumirmos, de ter contacto com a terra, de ver a comunhão da natureza com o que comemos. Não foi exactamente assim porque naquela altura eu não sabia falar caro e tão claro. O meu português era mais suave, mais oral. Mas agora eu aprendi e conto com as palavras de hoje, mas com o pensamento de então.
Ela olhou para mim por cima dos óculos. Não disse uma palavra, mas o olhar trazia uns tantos anos de sabedoria acumulada sobre as minhas fases. Já tinha sido a fase da pão e a fase do aquário. Agora era a horta.
Peguei na bicicleta e lá fui em direcção ao Bero, à horta do Sr. Carriço. Ele tinha acabado de sair, Levou coisas para o mercado, me disseram. O ar fresco do campo parecia prometer um dia bem passado. À minha frente, estendia-se um mar verde. Um mar verde profundamente misterioso, onde para mim tudo parecia rigorosamente a mesma coisa - ervas com folhas.
- Bom, vou começar pelo básico - declarei, agachando-me junto a um canteiro com ar entendido. Olha para o vigor destas folhas! Isto sim, é uma alface biológica de primeira categoria.- Foi o que eu pensei mas para afastar mau-olhado não disse nada.
- Isso é salsa, menino — disse o capataz parecendo que estava a ler o que eu tinha pensado
- Salsa graúda - disse eu rapidamente, para manter o meu prestígio.
Aproximei-me de um arbusto que me pareceu ter potencial gastronómico. Tinha umas coisas penduradas que me pareceram, sem margem para dúvidas, pequenos frutos em gestação.
- Vejam só! Belos frutos! Quem diria que a terra aqui é tão fértil?
O capataz riu, apoiou-se no pau que trazia sempre, olhou para mim, cuspiu para o lado e disse:
- Isso são tomates. E ainda estão verdes. Se comer isso agora, passa a noite a falar com o cagatório.
Agradeci a dica técnica com um aceno digno e mudei de sector. Decidi que o meu forte seriam os tubérculos. Os tubérculos não enganam: estão debaixo da terra, ninguém vê, logo a probabilidade de eu passar vergonha diminuía drasticamente.
Encontrei umas ramagens verdes a sair do chão.
- Cenouras! - disse triunfalmente. - Sinto o cheiro a cenoura daqui!
Agarrei nos ramos com a determinação de um agricultor ancestral e puxei com toda a força. Saí disparado para trás, caí de costas em cima de um calhau e fiquei a olhar para o troféu na minha mão: uma raiz miserável, do tamanho de um palito, acompanhada por um carolo minúsculo e atrofiado que parecia pedir-me desculpa por existir.
O capataz abanou a cabeça, coçou a testa e comentou para o ar:
- Arrancou erva... Isso nem para os coelhos serve.
- Estava a testar a resistência do solo — justifiquei-me, limpando a terra das calções e tentando recuperar a postura.
Voltei para casa. No caminho, passei pela quitanda da Laurinda, olhei bem para uma alface verdadeira, toquei nos tomates que eu pensava já nasciam vermelhos e prometi a mim mesmo que a minha próxima comunhão com a terra seria, exclusivamente, através de um bom prato de sopa servido à mesa pela minha mãe, sem certificado de origem.
Em 1972, fazer um programa de rádio de uma hora dedicado ao rock era uma coisa muito séria. E a gente fazia. Quando cheguei na rádio já lhe tinham começado faz tempo. Partiram para ir estudar fora e novos fomos entrando. Uns mais tempo, outros menos tempo, mas o programa diário se mantinha. Mas era sério mesmo que a gente ainda não parecesse ser. Tão séria que, antes de começar, era preciso ter a certeza de que ninguém em casa tinha decidido ir passear, que o vizinho não estava a partir uma parede e a mãe não tinha resolvido chamar para ir comprar pão.
Porque uma hora de rock, em 1972, não era simplesmente uma hora. Era uma missão. Cada um chegava à rádio com uma pilha de discos debaixo do braço, alguns cuidadosamente escolhidos e outros que tinham aparecido sabe-se lá de onde. Vinil preto, capas grandes, fotografias de músicos com cabelos compridos e expressões que pareciam dizer:
- Nós sabemos uma coisa que vocês ainda não sabem. Eu tenho este que mais ninguém por aqui tem!
Eu também queria parecer que sabia e que tinha. Não sabia e não tinha. Rock não era a minha escolha de compra. Balada sim. Mas aquela hora era de rock e por isso se chamava Formula Pop. Eu só tinha um microfone à frente, um prato de gira discos de cada lado e muita fé em fazer. E isso dava-me uma certa autoridade.
O programa começava com uma voz muito séria e que dizia qualquer coisa como -Boa tarde. Está no ar mais uma hora dedicada ao melhor do rock... Dizer "rock" ao microfone em 1972 fazia-nos sentir quase revolucionários. Depois vinha a música. E que música! Os discos rodavam no gira-discos da rádio e, durante alguns minutos, ninguém falava. O locutor ficava a olhar para o ponteiro, atento à agulha. Um risco no disco e lá vinha um crac, para além de ter de justificar ao dono o que é que tinha acontecido e era uma carga de trabalhos.
Outro risco e outro crac. Mas esse crac já tinha vindo de casa assim. Era de ter sido tanto tocado, tanto emprestado que acho se gastou, dizia para me animar. Mas ninguém reclamava. Era rock. E o rock, naquele tempo, tinha direito a tudo. Entre uma música e outra, era preciso falar. Essa era a parte perigosa. De vez em quando saía argolada porque o disco estava trocado na capa.
- E acabámos de ouvir esta magnífica banda... - Pausa. Olhar para a capa do disco. - ...que dispensa apresentações. Porque a gente tinha dado com a marosca. Mas fechado o microfone saía palavrão contra o autor que normalmente não era o dono do disco. Era uma frase maravilhosa - que dispensa apresentações - Servia para tudo, principalmente quando nós próprios não sabíamos muito bem quem eram. Depois anunciávamos a próxima:
- E agora, vamos ouvir mais um grande tema...
Mais uma vez, a solução universal. Uma hora inteira dava para dizer "grande tema" umas quinze vezes sem ninguém notar. O problema era o relógio. Uma hora de rádio parecia muito tempo antes do programa começar. Depois, já com vinte minutos de música, descobríamos que afinal uma hora passava depressa como um solo de guitarra. E ainda faltavam três discos. Começávamos então a cortar.
- Este tema fica para uma próxima emissão... Era mentira. Nunca mais nos lembrávamos na próxima emissão. Mas ficava bem, isso ficava. Dava aspecto de continuidade.
Acabado o programa lá fora continuava tudo igual. Os carros, as pessoas, as preocupações, os vizinhos e o mundo. Mas durante uma hora tínhamos conseguido uma coisa extraordinária, em 1972, dentro daquela pequena rádio, o mundo tinha cabido num gira-discos.
E o mais curioso é que, quando hoje penso nessa hora de rock, já não me lembro apenas das músicas. Lembro-me do cheiro dos discos, do ruído da agulha, das capas enormes, do medo de deixar o silêncio entrar no ar e daquela sensação maravilhosa de estar a fazer rádio quando fazer rádio ainda parecia uma aventura. Uma hora. Sessenta minutos. E uma quantidade de rock suficiente para convencer qualquer rapaz de 1972 de que o futuro, afinal, podia ter uma guitarra elétrica.
Ao Maló, Van Der Kellen, Carlos Matias e o disco cracou na hora de dizer mais nomes. Talvez o Luís Mendes se lembre.
Programa de Rádio com palavras, livros e música - 09 de Setembro de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro
Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento
Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é
EstaMúsica tem uma história com Ana Moura e Tens olhos de Deus, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, Jaime Nascimento e o Conjunto Helder Reis
Carlos Osório falou do terraplanismo e aconselhou ouvir Trigacheiro e os Quatro e Meia
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde
No livro falei Palavra de África de Lopito Feijó
Falei do Quadro Fado de João Sena que foi apresentado na abertura da Exposição O que é o Fado e apresentei a gravação do acto, na voz de João Valongo
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra
Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir
Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar
Em 1970, sentar-me numa esplanada era uma forma bastante eficiente de aprender coisas que ninguém tinha intenção de me ensinar. Na Oásis eu era recebido como o puto que queria ser grande. Me gostavam e eu gostava de estar ali. Eu era miúdo e os adultos tinham aquela qualidade extraordinária de falar como se soubessem tudo. E, pior ainda, falavam com uma segurança que tornava desnecessário verificar. Não é como agora que a gente tem de verificar tudo porque tudo pode ser mentira, mesmo a verdade que a gente pensa que está a ver. Mas deixemos este futuro e voltemos àquele presente.
Os mais velhos sentavam-se sempre no mesmo sítio. Tinham mesa marcada sem que houvesse marcação. Bastava aparecerem e a mesa já era deles. O café podia estar cheio, mas aquela mesa tinha donos. Talvez por direito adquirido. Talvez por cansaço dos empregados. Talvez apenas por respeito e todos sabiam que eles não iam faltar. Acho mesmo que o único motivo válido para faltar era morrer.
Eu sentava-me por perto e ouvia. Eu e uma catrefada de adolescentes sentávamos duas mesas mais para o lado direito deles. Falavam de futebol, de mulheres, de política, de pesca, de doenças e, sobretudo, do tempo. O tempo era um assunto muito importante.
- Antigamente é que fazia calor!
- Agora já não há calor como havia.
- E as chuvas? Essas então...
Tudo antigamente era melhor. Até o frio. Depois começavam as histórias. Um dizia que tinha conhecido um homem que tinha pescado um peixe tão grande que precisara de três homens para o tirar da água. Outro corrigia rindo e dizia que achava que tinham sido quatro. Eu ficava fascinado, de olhos arregalados a lhes ouvir. Não pelo peixe, que provavelmente nunca tinha sido pescado, mas pela facilidade com que aqueles homens mais velhos podiam aparecer numa história onde inicialmente só havia um silêncio. Era assim que funcionava a memória. Uma história começava pequena e, à medida que passava de pessoa para pessoa, engordava. O mais engraçado era que ninguém parecia preocupado com a verdade. A verdade era uma coisa pouco interessante. O importante era a história ser boa. E eu aprendi ali uma coisa que só muito mais tarde compreendi: os adultos também inventavam. A diferença é que chamavam àquilo memória.
Às vezes perguntavam-me:
- Estás a ouvir?
Eu dizia que sim, porque tinha aprendido que, quando um adulto conta uma história, o mais prudente é não interromper. Pode haver um peixe enorme pelo meio. E havia sempre. Hoje, quando penso nessas tardes de 1970, lembro-me menos do que diziam e mais da maneira como diziam. Tinham tempo. Tempo para contar uma história que podia durar meia hora e não chegar a lado nenhum. Tempo para discutir uma coisa que já tinha acontecido há vinte anos. Tempo para beber um café lentamente. Nós hoje temos relógios que sabem tudo. Eles tinham relógios que só sabiam uma coisa: que ainda era cedo. Talvez seja por isso que aquelas esplanadas ficaram na minha memória. Porque eu era miúdo, eles eram velhos e, durante algumas horas, ninguém tinha pressa de chegar ao futuro.
O futuro podia esperar. Até porque, naquela época, ainda não sabíamos que um dia íamos ter telemóveis, internet e tanta pressa para não dizer absolutamente nada.
Me sento, já não com a sebenta de capa encarnada mas frente ao computador. Haverá no mundo desgraça maior do que a página em branco duma tela a cintilar para mim? Aquele cursor a piscar, implacável, como uma lombriga vertical à espera que eu o faça avançar à frente de letras. Ele pisca mas não avança. Olho-o como que hipnótizado e ele nada, melhor, pisca. Durante séculos, um escritor sofria em silêncio, fumava cigarros baratos, bebia café frio ou vinho de fraca qualidade, amassava papéis e culpava a musa inspiradora pela esterilidade mental de uma terça-feira ventosa. Hoje, o sofrimento acabou, temos a Inteligência Artificial, essa grande colega que nunca dorme, nunca reclama e finge que acha os nossos pensamentos profundamente originais.
A verdade nua e crua é que a Inteligência Artificial veio democratizar a preguiça mental. Antigamente, para ser um preguiçoso de elite, exigia-se algum talento, era preciso inventar desculpas mirabolantes para não entregar o trabalho, adiar prazos com pretextos vagos ou simplesmente olhar para o teto durante três horas seguidas à espera de uma epifania que nunca vinha. Agora, não. Basta abrir uma janela do computador, escrever "escreve aí uma crónica sobre a minha inércia existencial com um tom espirituoso" e ir ver se o vento acalmou. Uns segundos depois, temos um texto impecável, polido, cheio de metáforas sobre o vazio cósmico e sem um único erro ortográfico. É obra. Nem uma letra trocada, nem uma vírgula num deserto plantada, só travessões e dois pontos, como quem semeia trigo num campo de letras. Ou será joio?
O problema é que este atalho está-nos a transformar em caracóis intelectuais. Se continuarmos a delegar o esforço de juntar sujeito, verbo e predicado a um servidor localizado num armazém gelado na Conchichina, que não sei bem onde fica, mas deve ser lá para os lados do fim-do-mundo, daqui a uns anos o nosso cérebro vai atrofiar ao ponto de só conseguirmos comunicar através de grunhidos e polegares levantados ou emojis préviamente desenhados. O ser humano evoluiu a caçar mamutes, bisontes, a inventar a roda, a criar uma linha de montagem mas o cume da nossa evolução vai ser a admirável capacidade de carregar na tecla Enter para que uma máquina faça o esforço por nós.
Ironias à parte, há algo profundamente poético nesta simbiose entre a nossa preguiça ancestral e a alta tecnologia. A máquina oferece o engenho e nós oferecemos a nobre arte de não fazer nada. Juntos formamos a equipa perfeita. E se me perguntam se fui eu que escreveu este texto ou se recorri a um algoritmo, respondo com a honestidade que me caracteriza, deixem-me ir ver o que a inteligência artificial tem a dizer sobre o assunto, porque pensar dá um trabalho terrível e como ainda não acabou o verão, não trabalho para aquecer.
Quando eu era adolescente havia uma ciência rigorosa, quase física e de alta precisão, na arte de atirar pedras às árvores. Eu nunca fui bom nessa disciplina. Para comer castanhas na frente da casa do Sr. Martins alguém tinha que atirar pedra por mim. Hoje em dia, os jovens descarregam apps e jogam jogos num telemóvel, mas quando eu era adolescente os jogos eram o chão, as padras e pedrinhas e o verdadeiro ecrán eram as copas das árvores que davam castanhas, que não são as castanhas que se compra no supermecardo.
O objetivo teórico era simples que era fazer cair o fruto, a castanha. O objetivo prático terminava, noventa por cento das vezes, com três pedras a passarem sobre a árvore, um ou outro vidro de janela partido e nenhuma fruta no chão.
Existiam vários perfis de atiradores na nossa malta. Um que estudava a trajetória, limpava a pedra na camisola, media o vento com o dedão molhado e falhava o alvo por quatro metros, acertando com precisão cirúrgica na telha da casa do vizinho mais rabugento da rua. Outro ignorava a pedra fina e delicada, escolhia autênticos calhaus. Cá para mim ele não queria apanhar fruta; queria derrubar a árvore. O lançamento terminava invariavelmente com um estiramento muscular no ombro e a pedra a cair verticalmente a dois centímetros do seu próprio pé. O Zé tinha uma pontaria assustadora. Acertava exatamente na castanha mais bonita, mas com tanta força que a transformava em compota instantânea ainda no ar. Chegava ao chão apenas um caroço envolvido numa nuvem de polpa amassada.
O verdadeiro drama era quando a pedra ficava presa entre os galhos. Ninguém aceitava perder uma boa pedra, afinal, tínhamos gasto três minutos a escolhê-la por ser perfeita para caber entre dedos. A solução era atirar uma segunda pedra para desembrulhar a outra. O resultado? Duas pedras presas e a fruta continuava lá em cima, a rir-se da nossa ignorância.
O auge do método científico era a chegada do dono da casa em frente, avisado pelo som cadenciado de pedradas contra o telhado ou janelas. A aceleração que atingíamos na fuga provava que, se a gravidade não nos ajudava a fazer cair as castanhas, a adrenalina garantia-nos pelo menos a velocidade necessária para ultrapassar qualquer distância.
Olhando para trás, a árvore comigo nunca perdeu um único combate. Mas nós voltávamos no dia seguinte, de bolsos pesados e pontaria renovada, convictos de que a física e o jeito, finalmente, estariam do meu lado, porque do Zé estavam sempre.
Ah, nos anos 70 era a era de calças à boca de sino, camisa mil-flores e cabelos compridos e uma bola de cabedal que pesava três quilos quando seca e quarenta e dois quando molhada. Se não era assim é porque já me esqueci como é que era. Mas se havia coisa que unia a vizinhança era o futebol de rua, mesmo na minha rua que uns jogavam a descer e outros a subir. Mas havia um problema que era quando a paixão pelo jogo excedia radicalmente a capacidade motora, o chamado jeitinho, o que era o meu caso.
Eu era aquilo a que as pessoas daquele tempo chamavam de desprovido de talento, mas que no bairro se resumia a um simples e cristalino:Ó pá, tu ficas à baliza ou vais para a ponta do pé de microfone! O ritual começava sempre no momento sagrado das escolhas. Dois capitães, habitualmente os rapazes com mais cabedal ou donos da bola, mediam pés para decidir quem escolhia primeiro.Pé, calcanhar, bico, sola... O primeiro a ser escolhido era o melhor dos jogadores, que fintava até a própria sombra e mesmo assim se saía bem. O último era invariavelmente eu. A escolha para me escolher para a equipa não era feita por tática, era porque sim.
As regras do futebol de rua nos anos 70 eram simples, elegantes e imprevisíveis: As Balizas eram duas pedras, duas mochilas ou duas chinelas porque havia quem ia jogar descalço no alcatrão. A altura da baliza era sempre uma discussão filosófica e conforme dava jeito. Qualquer golo por cima do guarda-redes, o verdadeiro chapéu, gerava dez minutos de debate com o clássico passou por cima dos dedos, não conta! O dono da bola era o imperador absoluto. Se ele se chateasse porque levou um túnel que é o mesmo que dizer uma cueca, o jogo acabava, a bola ia para debaixo do braço e nós ficávamos a olhar para o alcatrão a ponderar o sentido da vida. Quanto ao tão falado fora de jogo simplesmente não existia. Existia apenas o conceito de babuja, que consistia em ficar a um centímetro da pedra-baliza adversária a esperar por um milagre.
Como eu não tinha pés para a bola, a minha função principal era a de obstáculo móvel. Uma vez cortei um passe decisivo com o joelho esquerdo enquanto tentava atar o sapato. Fui aclamado como um estratega do desarme.
Jogar na rua nos anos 70 tinha também o factor fauna e flora. Havia o carro do senhor Santos estacionado perto do campo, uma raspadela de bola no espelho lateral equivalia a correr como se não houvesse amanhã, a vizinha que odiava crianças e guardava as bolas que caíam no quintal e o alcatrão gasto que nos deixava os joelhos em carne viva. O mercurocromo da avó fazia milagres.
No fundo, eu nunca soube se jogava à bola ou se a bola é gozava comigo. Mas quando a luz do candeeiro da rua se acendia o sinal universal de que estava na hora de ir jantar antes de levar um raspanete, ficava aquela sensação de dever cumprido. Tinha os pés doridos, as calças rasgadas no joelho, zero golos marcados e uma felicidade que nenhum troféu do mundo conseguiria pagar. Mas que raio havia de me acontecer. Gostava tanto de futebol mas a falta de jeito fez-me um dia ser médico e entrar em campo de braçadeira de médico. Entrei ou não entrei em jogos importantes?
As manhãs de domingo cheiravam a café fresco na cozinha da minha avó e a pão torrado no fogareiro com azeite. A mim, vestiam-me os calções de algodão, que podiam ser de chita ou outro tecido qualquer que eu não protestava desde que não picassem nas coxas, meias altas até ao joelho e um par de sapatos de fivela encerados até parecerem espelhos. Era domingo, que é que julgam.
O meu avô agarrava-me pela mão e marchávamos pelo passeio a caminho do Cine Moçâmedes. Marchávamos porque não podíamos chegar tarde e não havia distrações no caminho. Para mim, ele era uma espécie de capitão de mar e guerra, impecável e postura ereta, mas com um ponto fraco terrível, não gostava de ir à praia.
Naquele domingo em particular, a fita era do Cantinflas. O cinema estava composto por uma legião de miúdos irrequietos e avôs resignados. Os projetores arranjaram vida, o feixe de luz cortou o escuro e, exactamente aos três minutos de filme, ouvi o ruído, gargalhada geral. Não era uma gargalhada qualquer. Era uma sinfonia, num crescendo que parecia competir com a orquestra da banda sonora.
Às tantas, na tela, o Cantinflas saltou para cima de um comboio em movimento e disparou um tiro para o ar, o meu avô deu um pulo na cadeira, e eu e eles os miúdos todos. Inesperadamente estávamos aos gritos. A sala de cinema parou. Pelo menos uns vinte miúdos atiraram-se literalmente para debaixo das cadeiras, espalhando medo por todo o lado. Eu, de calções e meias altas, encolhi-me no assento, dividindo-me entre a vergonha absoluta e uma gargalhada histérica.
O meu avô gargalhou como eu nunca tinha lhe visto. Era domingo e era um filme para crianças
Quando voltámos para casa, a minha avó perguntou se o filme tinha sido bonito. O meu avô piscou-me o olho e disse:
- Uma palhaçada, Leovegilda. Mas o miúdo tem bons reflexos