A Minha Sanzala
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- Pertinências 29 - 3º noite de Há fado na Lota
- Pertinências 30 - 4ª noite de há fado na lota
14 de outubro de 2026
Programa 136 - K'arranca às Quartas
Fugi da guerra por amor — e ainda hoje não sei se fiz bem!
Em 1975, Angola estava a ferro e fogo. Havia tiros, havia medo, havia incerteza e havia adultos a falar do futuro com aquela gravidade de quem sabe tudo, embora ninguém soubesse muito bem o que ia acontecer no dia seguinte. Eu, adolescente, vivia tudo isso com a despreocupação própria da idade. Ou quase. Porque, enquanto os mais velhos discutiam política, independência, partidos e destinos, eu tinha um problema infinitamente mais grave: estava apaixonado.
E quando um adolescente está apaixonado, a história pode esperar um bocadinho. Não muito, claro, mas o suficiente para ele acabar de ouvir uma canção romântica. Eu estava apaixonado por ela.
Tinha uns olhos que me faziam esquecer as tabuadas, as fórmulas químicas e a geografia mundial. Tinha um sorriso que me desorganizava o raciocínio e uma voz que, se me pedisse para saltar de um avião sem paraquedas, me faria perguntar apenas a que horas devia fazê-lo.
Ela era o meu grande amor. Digo grande porque, naquela idade, ainda não tinha tido oportunidade de comparar. Mas também porque, para mim, ela era enorme. Ocupava-me a cabeça toda, deixando pouco espaço para matérias de menor importância, como os estudos, o futuro profissional e a possibilidade de um dia vir a ter dinheiro para pagar um jantar.
Depois começaram as partidas. Famílias inteiras preparavam-se para abandonar Angola. Umas por receio, outras por necessidade, outras porque já não viam condições para continuar. As malas multiplicavam-se, os amigos desapareciam e as despedidas começavam a fazer parte da paisagem.
Foi então que soube que ela também ia embora.
Portugal.
A palavra caiu-me em cima como uma bomba embora eu, felizmente, não tivesse experiência suficiente para distinguir uma bomba duma panela de pressão a explodir ou o rebentar de um pneu.
- Ela vai mesmo? - perguntei ao Manel, que sabia tudo primeiro que eu.
- Vai, pá. A família já tem tudo preparado.
- Tudo?
- Tudo. As malas, os documentos, as passagens…
Fez uma pausa e rematou:
- E tu, se fosses esperto, também começavas a pensar na tua vida.
O Manel tinha um defeito terrível: era sensato. E a sensatez, na adolescência, é uma doença que ninguém deseja contrair. Eu não queria pensar na minha vida. Queria pensar na vida com ela. Havia uma diferença considerável entre as duas coisas, mas ainda não tinha idade para compreender a subtileza. Na verdade, eu não tinha medo dos tiros. Ou melhor, tinha algum, porque não era parvo. A ideia de uma bala perdida não me despertava qualquer entusiasmo. Mas, se me perguntassem o que mais me assustava naquele ano de 1975, eu responderia sem hesitar: a possibilidade dela partir sem que eu lhe tivesse dito nada.
Os tiros podiam acertar no corpo. A partida dela acertava-me num lugar muito mais complicado, que os médicos da época ainda não tinham identificado nos livros de anatomia. Foi aí que tomei uma decisão histórica: eu também ia fugir de Angola. Não por medo da guerra. Não por receio do futuro. Não por falta de coragem para enfrentar as dificuldades de um país em transformação. Ia fugir por amor.
Era uma decisão romântica, corajosa e financeiramente irresponsável. Sobretudo porque eu não sabia nada, não tinha conhecimentos, não tinha dinheiro e, tanto quanto me recordo, ainda dependia da autorização da mãe para comprar um par de sapatos. Mas os grandes heróis nunca se deixam intimidar por pormenores.
Naquela noite, anunciei a decisão em casa.
- Vou para Portugal.
A minha mãe parou o que estava a fazer e olhou-me com olhos fulminantes.
- Vais para Portugal fazer o quê?
Era uma pergunta razoável. Uma mãe tem o direito de saber o que pretende fazer o filho, sobretudo quando o filho pretende atravessar o oceano sem saber bem o que vai encontrar do outro lado.
- Vou estudar.
- O quê?
Hesitei.
- Ainda não decidi. De manhã queria ser advogado, agora apetece-me ser médico!
A minha mãe, que tinha um talento especial para descobrir mentiras antes de elas estarem completamente formadas, olhou para mim.
- Isso tem nome de rapariga.
Fiquei calado.
-Como se chama?
- Ela! - disse-lhe o nome baixinho pois não me apetecia que mais gente soubesse
- Ah! Então não vais estudar. Vais fazer turismo sentimental em Portugal?
Foi a primeira vez que ouvi a expressão, mas reconheci imediatamente a sua exactidão. A família não ficou propriamente entusiasmada com o projecto. Havia preocupações reais, dificuldades, despesas e uma guerra que não se resolvia com poemas de amor. Mas eu insistia. A minha argumentação era imbatível: se ela vai para Portugal, eu tinha de ir também.
A minha mãe tentou explicar-me que um país não é um comboio que se apanha só porque uma rapariga vai sentada numa das carruagens. Eu disse que compreendia, mas não compreendia nada. Na minha cabeça, Portugal era uma espécie de extensão geográfica do namoro. Imaginava-me a passear com ela por ruas bonitas, a tomar café, a ver montras e a construir uma vida a dois. Não me passava pela cabeça que, em Portugal, também havia rendas para pagar, empregos difíceis, dias de chuva e senhorios que não aceitavam promessas de amor como caução. O meu conhecimento do mundo era limitado, mas o meu optimismo não tinha fronteiras.
Um dia ela partiu como eu já contei aí para trás. Eu fiquei. As ruas estavam desertas, As casas estavam fechadas. Aqui e ali ouvia-se o martelar de caixotes. Uns dias eram calmos, Outros tinha trovoada de barulhos de armas que nem se chovesses eles se iam calar. Tinha salvo-conduto. Ou vários conforme os dias e os locais. Tudo fechou. O silêncio humano assustava mais que o barulho infernal dos boatos e das armas.
Desisti. Não resisti. A hora chegou e quando chegou o momento da partida, senti uma mistura de tristeza e entusiasmo. Deixava para trás a terra onde crescera, os poucos amigos que ficavam, as ruas, as praias e uma parte importante de mim. Angola era a minha casa, e partir não era uma aventura ligeira. Era uma mudança profunda, num tempo em que tantas vidas estavam a ser empurradas para destinos incertos.
Mas eu era jovem e tinha-a à minha espera. Pelo menos era isso que a minha imaginação me garantia e eu nunca tinha duvidado dela. A imaginação é uma coisa maravilhosa. Não paga bilhetes de avião, não trata de documentos e não faz as malas, mas consegue convencer um rapaz de que tudo vai correr bem. Parti.
E foi assim que, enquanto uns fugiam da guerra, eu fugi atrás de um amor.
Há uma diferença entre as duas coisas, embora o resultado pudesse ser o mesmo: deixar para trás uma vida inteira e começar outra sem saber muito bem como.
Quando cheguei a Portugal, descobri rapidamente que o amor não vinha incluído no preço da passagem. Ela tinha os seus problemas, a sua família, as suas preocupações e uma vida que não podia ficar eternamente à espera de um rapaz que atravessasse o mar com mais entusiasmo do que juízo. Ela tinha outros sonhos. Encontrámo-nos, conversámos, sorrimos. E eu descobri que a distância tem uma particularidade desagradável, permite-nos inventar uma pessoa perfeita, mas não garante que a realidade tenha recebido o recado.
Não vou dizer que ela me desiludiu. Seria injusto. Ela nunca me prometera aquilo que eu, sozinho, tinha decidido que me prometera.
O problema era meu. Eu tinha confundido um sorriso com um contrato, uma despedida com uma declaração de amor e uma viagem com o princípio de um casamento. Em suma, tinha feito tudo aquilo que um adolescente apaixonado deve fazer para complicar a vida.
Anos mais tarde, recordando aqueles dias, percebi que não tinha fugido apenas por causa dela. Fugi também porque era jovem, porque o mundo estava a mudar, porque tinha medo do que poderia acontecer e porque, no meio de tanta incerteza, precisava de acreditar que havia alguma coisa à minha espera.
Mas, na altura, se alguém me perguntasse por que razão deixara Angola, eu respondia com toda a convicção:
- Vim por amor!
E fazia uma pausa, para dar solenidade à declaração.
Hoje, confesso, tenho vontade de rir daquele rapaz. Não porque tenha sido ridículo, mas porque foi profundamente adolescente. Tinha coragem para atravessar um oceano por uma rapariga, mas provavelmente não tinha coragem para lhe perguntar, com todas as letras, se ela gostava dele.
Fui aprendendo com a vida. Ela ensina-nos que o amor não se força, que as partidas nem sempre são voluntárias, que os países podem mudar de destino e que as pessoas levam consigo saudades que não cabem nas malas. Ensina-nos também que, às vezes, a juventude nos empurra para decisões que só compreendemos décadas depois. E há uma coisa que nunca esqueci, em 1975, enquanto Angola vivia uma das páginas mais dramáticas da sua história, eu acreditava sinceramente que o meu maior problema era conseguir que ela se apaixonasse por mim.
A guerra era uma tragédia colectiva. O meu desgosto era uma tragédia particular. E, como qualquer adolescente que se preze, eu estava convencido de que a minha era muito pior. No fim, talvez tenha sido esse o meu maior acto de coragem, abandonar a minha terra sem saber o que me esperava, por acreditar que o amor podia dar sentido a uma partida. Não sei se valeu a pena. Sei que sobrevivi, cresci e aprendi a rir de mim próprio. E, se algum dia voltar a encontrar-la, talvez lhe diga finalmente aquilo que não consegui dizer em 1975:
- Sabes, fui para Portugal por tua causa!
Ela provavelmente responderá:
- Não me digas! Não sabia e acho que não quero saber ainda!
E eu, com a sabedoria que cinquenta anos de vida me deram, encolherei os ombros e responderei:
- Pois. Foi por isso que demorei tanto tempo a perceber que a guerra não era o único perigo em Angola. O outro era eu, quando me apaixonava. Porque há quem fuja das balas, há quem fuja das dificuldades e há quem fuja de um país inteiro atrás de um par de olhos bonitos. Eu pertencia à terceira categoria. E, olhando para trás, tenho de reconhecer que, para um rapaz sem dinheiro, sem experiência e sem a mínima noção das consequências, foi uma operação de fuga extraordinariamente bem-sucedida — excepto na parte daquele amor.
13 de outubro de 2026
Uma estória de amor, saudade e outras calamidades da adolescência
Em 1975, eu tinha aquela idade perigosa em que um gajo julga que já sabe tudo sobre a vida, embora ainda não saiba fazer a barba sem deixar a cara como se fosse um mapa de guerra. Era adolescente, tinha o cabelo comprido, umas calças à moda e uma paixão tão grande que, se fosse possível exportá-la, Angola teria resolvido parte dos seus problemas económicos dos anos seguintes.
Chamava-se ela... e assim num repente esqueci.
O que eu me lembro é que ela tinha uns olhos que me desarrumavam o pensamento, um sorriso capaz de me fazer esquecer o meu próprio nome e uma maneira de dizer olá que eu interpretava como uma promessa de casamento, três filhos e uma vivenda com quintal num qualquer paraíso celestial. Ela dizia olá a toda a gente porque para além de tudo também tinha simpatia. Foi a minha primeira grande desilusão amorosa. E eu ainda nem tinha começado a namorar! Naquele tempo, Angola vivia dias conturbados. Falava-se de política, de independência, de partidos, de tropas, de partidas e de chegadas. Os adultos reuniam-se à volta das mesas, discutiam o futuro da pátria e baixavam a voz quando os miúdos se aproximavam. Nós, os adolescentes, discutíamos coisas igualmente importantes: quem tinha uma mota, quem conseguia entrar no cinema sem pagar e quem tinha beijado quem atrás do muro da escola, quem no liceu era o mais sortudo. Tínhamos assunto constantemente. Na verdade eu, por exemplo, estava muito mais preocupado com o destino dela do que com o destino da nação. Não por falta de patriotismo, mas porque a nação, até então, nunca me tinha dado a mão nem me tinha permitido segurar-lhe a cintura numa dança lenta. Ela, porém, começou a aparecer menos.
Primeiro, deixou de vir à rua onde nos encontrávamos. Depois, faltou a um aniversário. Finalmente, soube que a família ia partir. Partir de Angola. A palavra caiu-me em cima como um piano de cauda que tenha caído do prédio mais alto da cidade. Felizmente a cidade não tinha muitos prédios.
-Partir para onde? - perguntei ao meu amigo Manel, que tinha o talento extraordinário de saber tudo sobre toda a gente, incluindo coisas que ainda não tinham chegado ao conhecimento da gente
- Para Portugal, pá! Estão a ir todos!
Todos, não me importam. Ela sim. Não pode!
Eu não queria saber dos outros. Podiam partir presidentes, ministros, generais, jogadores de futebol e até o senhor que vendia gelados na praia. Mas ela não. Ela tinha de ficar. A história podia fazer o que entendesse, desde que respeitasse os meus sentimentos. Naquela noite, tomei uma decisão: ia declarar-lhe o meu amor. Era uma decisão corajosa, sobretudo porque nunca lhe tinha declarado coisa nenhuma. Tinha passado meses a treinar frases no silêncio e solidão do meu quarto, mas, sempre que a via, o meu vocabulário reduzia-se a três expressões: Olá, Tudo bem? e Também acho.
A minha mãe percebeu que eu andava estranho. Pouco saía de casa. As anedotas não surgiam, a piada rápida não saía. Humm.
- Que tens, rapaz?
- Nada.
- Estás doente?
- Não.
- Então por que é que estás a olhar para o prato como se tivesses perdido alguém importante?
Não respondi. Como explicar à minha mãe que o filho dela estava a viver uma tragédia sentimental sem sequer ter conseguido dar o primeiro beijo? A minha mãe, que tinha atravessado dificuldades bem maiores do que as minhas, provavelmente recomendaria um chá de limão e mandava-me estudar matemática ou química. Mas eu não precisava de matemática nem química. Precisava era dela.
No dia da partida, fui ao aeroporto. Acho até que fui no carro com ela, com a mãe dela e o pai bem como a irmã. O silêncio era total. Nem o carro ousava fazer barulho.
Levei comigo uma camisa que a minha mãe tinha acabado de passar a ferro, umas gotas de perfume e uma coragem de empréstimo, que ameaçava dissolver-se a qualquer momento.
Ela, rodeada de malas, caixas e daquela confusão triste de quem tenta meter uma vida inteira dentro de bagagens que nunca parecem chegar. Aproximei-me dela na placa do aeroporto. Ela sorriu-me como nunca tinha sorrido. Aquele sorriso que me fazia derreter e que bloqueava por completo o meu pensamento! Ainda hoje desconfio de que foi o sorriso mais caro da minha vida. Custou-me anos de recordações.
- Vais mesmo embora? -perguntei, com a inteligência de quem pergunta a um passageiro se o avião vai voar.
- Vou.
- E voltas?
Ela encolheu os ombros e sorrindo-me disse
- Não sei.
Não sei! Duas palavras. Duas palavras capazes de destruir um adolescente com mais eficácia do que qualquer discurso político.
Quis dizer-lhe o quanto lhe gostava. Quis contar-lhe que pensava nela quando ouvia música, quando ia à praia, quando passava diante da escola. Quis explicar-lhe que, desde que a conhecera, tinha desenvolvido uma estranha incapacidade de prestar atenção a qualquer outra rapariga. Mas, quando abri a boca, saiu-me:
- Está calor hoje, não está?
Ela riu-se.
E eu, que estava preparado para uma declaração digna de um poeta, acabei a falar do estado do tempo. Talvez tenha sido melhor assim. O meu coração não estava preparado para tamanha exposição pública. Chamaram os passageiros. Ela abraçou-me. Entregou-me um pedaço de papel.
Um abraço breve, daqueles que duram poucos segundos para quem os dá e uma eternidade para quem fica. Eu senti o perfume dela, o calor dos seus braços e uma vontade desesperada de lhe pedir que não fosse. Mas havia uma família à espera, um avião a chamar e um país inteiro a atravessar um dos períodos mais difíceis da sua história. Não havia ali lugar para os meus caprichos de adolescente.
-Escreve-me — pediu ela.
- Claro, se me deres a morada para onde o fazer!
- Está nesse papel.
Respondi com uma segurança que não tinha. Eu escreveria, sim. Escreveria cartas enormes, poemas, declarações, talvez até um romance. Naquele instante, senti que a literatura portuguesa estava prestes a ganhar um grande autor. A verdade é que passei três dias sem conseguir escrever mais do que Querida. Olhava para a casa dela com a esperança que as janelas se abrissem e ela aparece numa delas. O resto era sofrimento, e o sofrimento, como se sabe, não respeita a gramática.
A vida continuava. Havia jantar, havia adultos preocupados com notícias e havia sempre alguém a perguntar por que razão eu estava tão calado. Eu, que até então falava pelos cotovelos, descobri a melancolia. Foi uma descoberta importante. A melancolia dava-me um ar interessante, embora em casa suspeitassem que eu estava com febre. Durante semanas, ouvi as mesmas músicas. Cada canção romântica parecia ter sido composta exclusivamente para mim. Se o cantor falava de saudade, era ela. Se falava de distância, era ela. Se falava de um amor impossível, era ela outra vez. A certa altura, cheguei a desconfiar de que os músicos tinham acesso à minha correspondência.
Entretanto, Angola tornava-se independente. O mundo mudava, as pessoas partiam, outras ficavam, e cada família tentava descobrir como recomeçar a vida no meio da incerteza.
Eu também tive de recomeçar. Continuei a crescer, fui aprendendo que o amor nem sempre chega a acontecer para deixar marcas profundas. Que há pessoas que passam pela nossa vida durante pouco tempo e ficam instaladas na memória como se tivessem escritura da casa e ali morassem permanentemente. E que a adolescência tem esta particularidade maravilhosa, transforma uma despedida num fim do mundo e um sorriso numa promessa eterna.
Ela nunca soube que, durante muito tempo, fui capaz de reconhecer a sua ausência em cada canto da cidade. Também nunca soube que eu tinha planeado casar com ela, embora não tivesse dinheiro, profissão, casa nem sequer autorização para chegar depois das dez da noite. Era um projeto ambicioso. Faltava apenas convencer a noiva.
Hoje, quando olho para trás, tenho vontade de rir daquele rapaz. Tão cheio de certezas, tão pobre de experiência, tão convencido de que o amor se resolve com coragem e uma frase bem construída.
Se pudesse voltar a 1975, talvez lhe dissesse para não ter medo. Para dizer a ela o que sentia. Para não desperdiçar o momento a falar do tempo. Mas também lhe diria outra coisa: que não tivesse vergonha de sofrer. Porque aquele coração partido, por mais ridículo que lhe parecesse na altura, fazia parte de uma história muito maior. Uma história de juventude, de partidas, de um país em mudança e de pessoas que tiveram de deixar para trás lugares, casas, amigos e amores. E talvez lhe dissesse ainda que a vida tem um sentido de humor extraordinário. Passamos anos a imaginar a mulher da nossa vida, fazemos planos para o casamento, escolhemos mentalmente os nomes dos filhos e, no fim, ela vai-se embora num avião sem que tenhamos conseguido sequer beijá-la. É uma maneira cruel de aprender a humildade.
Mas há uma coisa que o tempo não conseguiu levar, a memória daquele abraço no aeroporto, o acenar dela e o rapaz que ficou para trás, convencido de que nunca mais seria feliz.
Foi feliz, sim. Voltou a apaixonar-se, voltou a fazer disparates e, como todos os adolescentes que sobrevivem à primeira paixão, descobriu que o coração tem uma capacidade de recuperação superior à de muitos hospitais. Só nunca voltou a ouvir a expressão está calor hoje sem se lembrar dela.
E, se um dia ela ler estas linhas, gostaria que soubesse uma coisa: em 1975, quando partiu de Angola, levou consigo malas, roupas, fotografias e talvez os sonhos dele, mas deixou lá um rapaz que passou muitos anos a acreditar que tinha perdido o grande amor da sua vida. O rapaz cresceu. O país mudou. A História seguiu o seu caminho. E ela, sem saber, tornou-se a protagonista de uma estória que eu nunca tive coragem de lhe contar. Porque há amores que não chegam a começar, mas passam uma vida inteira a acontecer dentro de nós. E há adolescentes que, mesmo cinquenta anos depois, ainda gostariam de ter dito, naquele aeroporto:
- Amo-te.
Embora, conhecendo-me como me conheço, seja bem possível que acabasse por perguntar:
- Achas que ainda vamos a tempo de comer um gelado?
12 de outubro de 2026
A ciência não exacta de olhar para longe
Ser adolescente em 1970 era viver com os pés presos à gravidade da província ou da praia da infância e a cabeça a flutuar algures entre a Lua onde os americanos tinham acabado de alunar há pouco tempo, para grande desconfiança das vizinhas e um solo de guitarra de dez minutos dos Led Zeppelin ou um albúm dos Deep Purple made in Japan.
O ritual do horizonte começava quase sempre ao final da tarde. O eu jovem sentava-se num sítio estratégico, entre o tribunal e a paróquia, não fosse o diabo tecê-las. Cruzava os braços, semicerravam-se os olhos para dar aquele ar de filósofo incompreendido de que a malta tanto gostava, e começava a navegação.
O horizonte, visto de longe, parecia uma linha traçada a régua, mas que quem passou por aulas sabe que ela é curva, mas na verdade, é o melhor ecrã de cinema do mundo.
Primeiro, vinham os pensamentos profundos. O que é que o tempo é? Será que no outro lado do mar as pessoas também comem pão com chouriço às quatro da tarde? Depois, a mente derivava inevitavelmente para a mecânica das coisas terrestres: Se eu usar calças à boca de sino a minha mãe vai-me contrariar? E, claro, o mistério insondável de todos os mistérios, porque razão a Maria da Dita olhou para mim no Liceu durante mais de três segundos inteiros? Terá sido amor profundo ou tinha eu uma nódoa de pastel de nata na camisa?
A grande vantagem de navegar pelos pensamentos em 1970 é que ninguém nos podia interromper com uma mensagem de texto. As únicas interrupções possíveis eram puramente acústicas e profundamente humanas.
— Ó puto! O que sonhas aí?! - ou a voz da mãe a dizer que são horas de jantar.
Era assim. A grande odisseia metafísica pelo cosmos terminava abruptamente por causa de uma cachucho frito e de um arroz de tomate.
Mas enquanto durava... ah, enquanto durava, o horizonte pertencia-me. Não precisáva de passaporte, nem de licença de pátrio poder. Bastava o cheiro a maresia, a brisa a despenteador as longos cabelos que insistiam em não crescer ao ritmo desejado, e a certeza absoluta de que o futuro era um território gigante, luminoso e imprevisível, à nossa espera logo ali depois daquela curva na água.
Pertinências 30 - Há Fado na Lota com Ana Marques e João Leote
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível
10 de outubro de 2026
Me calo em três temas. Religião, política e futebol.
Há um dogma antigo, trespassado em tom de aviso solene por tias, primos e empregados de mesa com anos de casa, que diz com todas as letras: Sobre política, religião e futebol não se discute.
Pois bem. Eu levei a lição tão a sério que fiz dela o meu refúgio e o meu mantra. Em qualquer jantar de grupo, ajuntamento familiar ou conversa de café ao fim da tarde, sou aquela figura exemplar que acena com a cabeça, sorri com benevolência universal e passa travessa do cozido com a destreza de quem manuseia porcelana fina. Olham para mim e pensam: Ali está um homem de paz, uma alma sem dogmas, uma mente leve que flutua acima das paixões terrenas.
Coitados. Se soubessem o vulcão de certezas absolutas que fervilha debaixo deste ar de monge franciscano, feito santo de pau carunchoso.
A verdade é que eu não sou isento; sou apenas um estratega do silêncio. Tenho sobre a política, a fé e a bola ideias tão redondas, bem formadas e afiadas que, se as pusesse em pratos limpos, a mesa de jantar transformava-se na Terceira Guerra Mundial antes do café.
No futebol, por exemplo, vejo pessoas a esganarem-se por causa de um fora de jogo de dois centímetros, a esbracejarem contra o ecrã do televisor e a insultarem os antepassados, os presentes e futuros do árbitro. Eu fico calado, a mastigar lentamente o meu croquete, rissol ou croassant. Mas, por dentro, o meu treinador interno já fez uma análise cirúrgica do jogo, identificou que a defesa está a jogar com o bloco demasiado alto, concluiu que o meio-campo não dobra os alas e já despediu o treinador três vezes antes do intervalo. Apenas não digo nada. Para quê estragar o croquete, o rissol ou o croassat?
Na política, a ginástica é ainda mais acrobática. Quando a conversa envereda pelos caminhos da governação, das ideologias e dos orçamentos, o ar da sala fica imediatamente denso. É ver quem grita mais alto para provar que o mundo está a cair aos bocadinhos. Eu limito-me a beber um gole de água, a olhar para o tecto com ar reflexivo e a soltar uma frase neutra e devastadora do género: Pois... é a conjuntura. Ninguém sabe o que significa, mas todos concordam. Ninguém desconfia que, na minha cabeça, tenho um plano de reestruturação socioeconómica tão perfeito e detalhado que resolveria o défice, a habitação e a carga fiscal antes do próximo trimestre. Simplesmente guardo-o para mim. O país ainda não está preparado para a minha clarividência.
E na religião? Ah, o terreno sagrado. Quando a discussão entra pelo mistério da fé, pelo cosmos e pelo destino das almas, eu recuso-me a entrar no debate de terço na mão ou de bandeira ateia ao vento. Contemplo o horizonte, dou um ar de profundidade filosófica e sussurro: O importante é sermos boas pessoas. Ganho a simpatia dos crentes, a aprovação dos agnósticos e a trégua de todos. Mal sabem eles que a minha teologia pessoal é um tratado de tal forma rigoroso e lógico que faria São Tomás de Aquino pedir uns dias para pensar.
O segredo não é a falta de convicção. É a poupança de energia.
Tenho a opinião tão bem formada, mas tão bem formada, que gastá-la numa discussão ruidosa entre a sobremesa e o digestivo seria um sacrilégio. Prefiro a posição confortável do observador silencioso. Enquanto o resto da mesa se debate entre cartões vermelhos, reformas fiscais e a existência do além, eu peço mais uma mousse de chocolate. Se há coisa sobre a qual a minha opinião é verdadeiramente inabalável, é que a tarte de maçã não é a minha preferida. E sobre isso, garanto-lhe, não há discussão possível.
9 de outubro de 2026
Antes de inventarem a lusofonia, já eu ouvia música
Hoje, é tudo mais fácil. Uma pessoa ouve música de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, do Brasil ou de Portugal e diz, com ar entendido: Tenho um gosto muito particular pela lusofonia.
Naquele tempo, se eu dissesse uma coisa dessas, arriscava-me a que me perguntassem se estava doente com paludismo e delirava, se tinha apanhado demasiado sol ou se precisavam de falar com o reitor para me mandar para uma consulta qualquer.
Nos anos 70, as coisas eram mais simples. Gostava-se de uma canção, gostava-se de um cantor, comprava-se um disco quando havia dinheiro e ouvia-se rádio até a família começar a ameaçar desligar o aparelho.
Eu gostava de música. E gostava particularmente daquela música que era de Angola, do Brasil, de Portugal e de outros lugares onde se falava português, embora ninguém tivesse ainda organizado a coisa numa grande família cultural, com congressos, seminários, discursos inaugurais e fotografias de grupo.
A música já se entendia muito bem sem precisar de reuniões diplomáticas.
Havia os Duo Ouro Negro, que levavam Angola para os palcos do mundo com uma naturalidade desconcertante. Havia vozes brasileiras que nos chegavam carregadas de ritmo, romantismo e uma capacidade extraordinária para nos fazer sofrer por amores que nunca tínhamos vivido. E havia a música portuguesa, que tanto nos punha a cantar como nos deixava a olhar para o horizonte com ar de quem tinha acabado de perder uma herança.
Eu ouvia tudo.
Ou quase tudo, porque havia sempre alguém disposto a explicar-me que determinado cantor não prestava, que aquela música era comercial, que a outra era demasiado sentimental e que a terceira não tinha qualidade artística nem estrutura poética.
Essas pessoas existiram, e ainda existem. Mudaram apenas de roupa e passaram a escrever comentários na Internet.
Naquele tempo, eram especialistas de café. Tinham opiniões definitivas sobre música, política, futebol e mulheres, embora, na maior parte dos casos, as mulheres não lhes reconhecessem qualquer competência na matéria ou a gente sabia que aquilo era só teoria.
Eu, que era jovem e ainda acreditava na possibilidade de mudar o mundo, escutava-os com respeito. Depois ia para casa ouvir os discos de que gostava.
A minha paixão musical tinha também um lado geográfico. Angola não era apenas o lugar onde vivíamos. Era um universo sonoro que entrava pelas janelas, atravessava as ruas e se instalava na memória.
Em Moçâmedes, a música fazia parte da vida. Havia o rádio, os discos, a discoteca e as festas, as conversas e aquela permanente competição entre vizinhos para descobrir quem tinha o melhor equipamento de som. O que, na prática, significava quem conseguia fazer ouvir a sua música a uma distância maior. Reconheço que na minha rua não era assim. Mas que se ouvia música e muitas vezes ao vivo é verdade.
A acústica era excelente.
Bastava alguém comprar um disco novo para a cidade inteira ficar informada. Não existiam redes sociais, mas existia o senhor da casa ao lado, que tinha o volume no máximo e uma janela estrategicamente aberta.
E depois havia os discos. Ah, os discos!
Um disco de vinil era uma coisa séria. Não se comprava com a ligeireza com que hoje se escolhe uma música no telemóvel. Era preciso poupar, procurar, comparar, negociar com a consciência e, por vezes, convencer os pais de que aquela aquisição constituía um investimento cultural de primeira necessidade.
O problema era explicar-lhes por que razão um rapaz precisava de mais um disco quando já tinha vários. Porque este é diferente, respondia eu, sem poder dizer que aquele era comprado escondido porque não se podia vender.
Era o argumento universal da juventude. Servia para discos, calças à boca de sino, camisas extravagantes e namoradas que os pais consideravam não termos idade para isso.
Quanto às namoradas, a minha argumentação era menos convincente. Mas isso é outra história, embora também pudesse ser acompanhada por música brasileira.
O mais curioso é que, sem o saber, eu andava a fazer aquilo que muitos anos depois receberia um nome pomposo: consumir cultura lusófona.
Na década de 70, porém, ninguém dizia «consumir cultura lusófona». Dizia-se que se gostava de música angolana, brasileira ou portuguesa. E, quando uma canção nos tocava, não precisávamos de saber a nacionalidade exacta do compositor, a classificação do género musical ou o enquadramento histórico da obra. Gostávamos. Ponto final. A língua portuguesa era o fio que nos ligava, mas a música fazia muito mais do que isso. Transportava ritmos, sotaques, maneiras de sentir, histórias de amor, saudades, alegrias e tristezas que atravessavam o Atlântico sem necessidade de visto.
Só mais tarde alguém se lembrou de chamar lusofonia a esta família de culturas e de línguas. A palavra é útil, tem dignidade e até fica bem em cartazes institucionais. Permite organizar festivais, promover encontros e escrever discursos com muitas referências à diversidade cultural.
Mas desconfio de que, se os músicos dos anos 70 tivessem esperado pela invenção da palavra para começar a fazer música, ainda hoje estaríamos à espera do primeiro concerto.
Felizmente, ninguém lhes pediu autorização.
Raul Indipwo e Milo MacMahon não precisaram de um gabinete de cooperação linguística para fazer os Duo Ouro Negro. Os músicos brasileiros não precisaram de uma comissão para atravessar o oceano. E os cantores portugueses não tiveram de preencher um formulário para chegar aos nossos ouvidos. A música circulava porque havia quem a tocasse e quem quisesse ouvi-la. E nós ouvíamos.
Podia ter-me tornado uma autoridade na matéria. Quem sabe, até ser consultor musical de algum organismo internacional. Passaria os dias a explicar a importância da circulação das expressões artísticas no espaço da língua portuguesa, enquanto alguém me servia um café e me perguntava se eu conhecia aquela canção brasileira que tinha ouvido na rádio. Eu responderia com ar grave:
- Conheço, naturalmente. Ouvi-a em 1973, antes da institucionalização do conceito. - E cobraria honorários. Mas não. Naquele tempo, eu era apenas um jovem apaixonado por música. Não tinha grandes teorias, não dominava o vocabulário académico e não fazia ideia de que um dia alguém inventaria uma palavra para juntar tantas coisas de que eu já gostava.
Tinha apenas discos, rádio, curiosidade e uma língua que me permitia reconhecer, em vozes diferentes, qualquer coisa de familiar. Talvez seja essa a verdadeira história da lusofonia: antes de ser uma palavra, já era uma emoção. E, se me perguntarem hoje o que é a lusofonia, posso dar uma resposta muito mais simples do que a de qualquer conferência internacional. É aquela canção angolana que me faz lembrar a terra. É aquela música brasileira que me faz acreditar que o amor ainda é possível, apesar das evidências em contrário. É aquela voz portuguesa que nos deixa melancólicos mesmo quando está sol. É o prazer de descobrir que, do outro lado do oceano, alguém canta numa língua que também é nossa, mas com uma maneira diferente de lhe dar vida. E é, sobretudo, a liberdade de gostar de tudo isso sem pedir licença a ninguém. Nos anos 70, eu já sabia. Só me faltava a palavra. E, francamente, entre ter a palavra certa e ter um bom disco para ouvir, sempre preferi o disco. Até porque a palavra não dá música. E um discurso sobre lusofonia, por muito bem escrito que seja, não substitui os Duo Ouro Negro a tocar na sala, com o vizinho a bater à porta e a minha mãe a gritar da cozinha:
- Ó rapaz, baixa isso!
Aí está uma expressão de verdadeira universalidade cultural. Em Angola, em Portugal ou no Brasil, há coisas que nunca precisam de tradução.
7 de outubro de 2026
Programa 135 - K'arranca às Quartas
Passeei na memória
O carocha azul do pai do Juleco estava parado ali na esquina, como se tivesse chegado de viagem e estivesse à espera que alguém lhe dissesse para onde devia continuar, acho que vai até na Oásis. Juleco, esse, estava mesmo na esquina a conversar com o Major, assunto sério, certamente. Em Moçâmedes, até para não fazer nada é preciso ter companhia. Foi então que o Sr. Castro apareceu à janela da casa da esquina:
— Faxavor, pouco barulho! disse assim como que estava zangado que nem a sexta podia dormir.
E desligaram. Essas crianças eram mesmo traquinas. E, pior ainda, eram barulhentamente traquinas. Mas não era barulho de malcriação, não. Era barulho de admiração, porque estavam a comentar as histórias de caça do Beto Reis. E quando o Beto começava a contar histórias de caça, até quem nunca tinha visto um leão acreditava que já tinha estado a fugir de um. Eu, cá por mim, nunca fui à caça. A minha caça era outra. Os animais mais selvagens que conheci eram os que o Sr. Sousa tinha lá no parque infantil. E ainda por cima o A. Sousa, que não tem nada a haver com o outro acabado de escrever, o senhor Reitor A. Sousa, de vez em quando olhava para nós com aquela autoridade toda e dizia:
- Vocês são uns selvagens!- nós achávamos aquilo injusto. Selvagens? Nós? Éramos apenas crianças com excesso de energia e falta de juízo. O que é completamente diferente.
“Pica a burra!”, diria eu, se fosse o Dr. Coutinho. Mas não sendo, fico-me pela recordação, que é mais barato e não dá trabalho ao tribunal.
E ali, naquela estrada que tinha árvores pelo meio, a coisa até parecia uma grande avenida. Só que era uma avenida em miniatura. Moçâmedes tinha dessas coisas: fazia-nos acreditar que vivíamos numa grande cidade, embora a cidade coubesse praticamente toda dentro de uma conversa quadriculada de ruas conhecidas. E, diga-se em abono da verdade, naquela cidade só morava e passava gente boa. Incluindo eu, é claro. Convém esclarecer isto, porque uma memória bem contada também precisa de justiça.
O Juleco ainda não se tinha mudado para o bairro da gente fina. Morava ali. Ainda. Naquele tempo ninguém tinha muita pressa de subir na vida. Subia-se, quando muito, para uma árvore, para um muro ou para o banco traseiro de um carro que estivesse mal estacionado.
Mais abaixo era o Xonera. Esse, sim, tinha outra conversa. Só pensava em carros de grande velocidade.
Nunca percebi muito bem por que razão todos queriam imitar o Novais. Talvez porque o Novais tivesse carro, ou porque tivesse fama de andar depressa, ou simplesmente porque, naquela idade, qualquer pessoa que fizesse barulho com um motor já era considerada uma espécie de Fangio de Moçâmedes.
A verdade é que a cidade era pequena. Muito pequena. Se alguém acelerasse a sério, saía da Torre do Tombo, passava pela Facada e, quando desse por ela, já estava a ser multado, no meio. Era uma cidade onde o polícia conhecia o carro, o carro conhecia o dono e o dono conhecia o polícia. E todos se tratavam pelo nome.
Já sei! A malta queria era acelerar na recta curva do aeroporto. Pois claro. A recta curva! Só em Moçâmedes é que uma estrada podia ser simultaneamente recta e curva e ninguém achava estranho. Mas pronto. Já me perdi outra vez nesta vagabundagem em que me meto nas estradas de tinta.
Comecei com um carocha azul, passei pelo Juleco, pelo Major, pelo Sr. Castro, pelo Beto Reis, pelos animais selvagens do Sr. Sousa, pelo Reitor, pelo Dr. Coutinho, pelo Xonera, pelo Novais e acabei numa recta curva.
É assim a memória. A gente começa por uma esquina e acaba não sabe onde. Mas, pensando bem, talvez seja precisamente aí que ela mora. Naquela esquina. Naquele carocha azul. Naquele barulho que alguém mandava desligar. E sobretudo naquele tempo em que éramos tão selvagens que ainda não sabíamos que um dia íamos ter saudades de o ser.
6 de outubro de 2026
Três velhas à conversa
5 de outubro de 2026
chuva triste ou nada disso
Foi numa terça-feira cinzenta, daquelas que tanto podia ser quinta como sexta, daquelas em que o céu veste o fato de treino mais velho e gasto que tem no armário, que a cidade inteira se preparou para o melodrama.
O boletim meteorológico não deixava margem para dúvidas. O senhor no rádio disse-o com graves na voz. A voz dele, solene e melodramática, anunciava uma depressão isolada de alto rendimento emocional. Prometia chuva. Mas não uma chuva qualquer, daquelas que regam as alfaces e lavam os carros de graça. Não. Seria uma chuva quase triste, como eram sempre as chuvas na minha terra. Uma chuva de alagar a esquina dos Fonsecas.
Às três da tarde, o cenário estava montado. As nuvens arrastavam-se baixas, com um ar vagamente trágico, como quem vai a um velório de alguém que nem conhecia muito bem, mas sentiu que devia marcar presença. O vento uivava uma melodia desafinada por entre as árvores da avenida.
Na ruas, a população se vestiu a rigor, desapareceram. Eu com ar contemplativo olhava para o horizonte, ensaiando mentalmente frases profundas sobre a vida. Hoje eu não ia ver o boca-de-sapo passear.
Às quatro e um quarto, o ponto chave parecia iminente. O céu escureceu mais dois tons de cinzento que quase parecia ia ser de noite antes da hora. Uma senhora mais velha abriu o guarda-chuva no meio do passeio, previdente e até parece que corria à frente da chuva que ainda não lhe caía.
E depois... nada.
Absolutamente nada. Um trovão e nenhuma gota caiu. Nem uma pinga para amostra. Nem aquele molha-tolos.
A chuva, que tinha tudo para ser um poema triste, desandou sem cair.
Às cinco e meia, o drama do tempo ruiu por completo. A tristeza que devia ter caído sob a forma de água transformou-se numa coisa muito mais prosaica: uma dor nas costas e uma vaga ideia que afinal podia haver passeio.
O sol nem sequer se deu ao trabalho de aparecer em grande estilo. Limitou-se a rasgar um buraco amarelo e tímido entre duas nuvens envergonhadas, como quem diz: apareçam para beber um copo!
E assim terminou a tarde em que a cidade esteve quase, quase a ser poeticamente infeliz. Fui para a rua ver as caras melancólicas de quem previra o dilúvio prometido na rádio.
Eu fui ver o boca de sapo passar, sentado nas escadas do tribunal com o sorriso mais feliz daquele mundo.
4 de outubro de 2026
Pertinências 29 - Há Fado na Lota com Teresa e Pedro Viola
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível












