recomeça o futuro sem esquecer o passado

7 de junho de 2026

Pertinências 12 - Música e Filosofia

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.






Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Gustavo falou de Música e de conceitos, ideias e pensamentos



Imperdível









Sanzalando

6 de junho de 2026

saudade e adolescência

Me disseram que a adolescência é aquela idade em que somos um rascunho de gente, escrito a caneta bic de corpo transparente que falha a meio e com demasiados erros de ortografia emocional. Olhar para trás, para esse território cinzento entre as calças curtas e os primeiros pelos do bigode exige sempre um de dois superpoderes: ou uma amnésia profundamente selectiva, ou uma robusta e saudável dose de humor. Escolho a segunda, com a leveza de quem sabe que o tempo é o melhor amaciador de memórias.

Crescer é um despropósito biológico. Aos catorze anos, as nossas articulações parecem não ter recebido a notificação de que o resto do corpo mudou de tamanho. É a idade de ouro dos joelhos esfolados, do acne que decidia fazer uma convenção na ponta do nariz exatamente no dia da festa da escola, e daquela timidez incapacitante que nos fazia gaguejar ao pedir um simples pastel de nata na pastelaria da esquina. Éramos uma espécie de girafas recém-nascidas a tentar dançar uma valsa num chão inclinado

E, no entanto, que saudade há nessa maravilhosa e ridícula vulnerabilidade!

Hoje, com a distância da segurança que os anos nos dão, olho para as fotografias desse tempo com uma ternura e uma vontade incontrolável de rir. As modas, por exemplo. Que pacto coletivo de insanidade mental nos levava a usar aquelas roupas? Havia uma necessidade visceral de pertença que nos fazia adotar penteados que hoje seriam classificados como crimes contra a estética. Se o cabelo estivesse farto, o gel tratava de o transformar numa arma branca; se a atitude exigisse rebeldia, o olhar melancólico e os braços cruzados faziam o resto do trabalho.

Tínhamos certezas absolutas sobre coisas das quais não sabíamos absolutamente nada. Discutíamos filosofia barata nas esquinas até às duas da manhã, jurávamos amor eterno a cada três semanas e sofríamos por desgostos de amor que duravam tanto tempo quanto uma canção no rádio. O mundo era um palco gigante e nós éramos os protagonistas de um drama intenso, quando, na verdade, éramos apenas figurantes dum filme cómico barato.

A grande beleza de olhar para a adolescência com uma saudade feliz é perceber que toda aquela intensidade não passou de um ensaio geral. Os complexos que nos pareciam montanhas intransitáveis hoje são apenas pequenas dunas de areia que o vento da maturidade desfez. Aquela rapariga que não nos ligava nenhuma? Hoje já nem nos lembramos bem do apelido dela. A nota dramática no teste de Matemática? Acabou por não ditar o resto do nosso destino trágico.

Recordar esses anos com um sorriso largo é fazer as pazes com o miúdo que fomos. É abraçar a nossa própria tontice. Afinal, fomos felizes na nossa ignorância. Sobrevivemos às primeiras festas de garagem com luzes psicadélicas improvisadas, às fitas gravadas com a voz do locutor a meio só para nos lixar a gravação, aos verões intermináveis que pareciam durar uma eternidade e às promessas feitas ao luar que o amanhecer fazia esquecer.

Ter uma adolescência saudável na memória não significa que ela tenha sido perfeita; significa que aprendemos a rir dos nossos próprios naufrágios de copo de água. E há uma enorme dignidade em olhar para o espelho do passado, ver aquele jovem desajeitado e de sobrancelhas rebeldes, e dizer-lhe, baixinho e com orgulho: Obrigado pela coragem. Olha que, apesar de tudo, não nos correu nada mal.



Sanzalando

5 de junho de 2026

praia, passado, presente e futuro

Fui sentar nas arcadas da praia. Porque será que lhe chamam das Miragens se aqui tem água de verdade e não a água que se vê na estrada que é só ilusão? Mas eu vim sentar aqui a fazer horas de ir na praia propriamente dita. Tenho que ver qual o lugar da praia eu vou. Se ela chegar e escolher o sítio eu imito que estou a chegar agora e fico ali perto. Se vou já na areia corro o risco de ficar longe e não deitar o meu olhar sobre ela numa paixão invisível. É que já houve um tempo em que ir à praia exigia apenas duas coisas: fato de banho, que inevitavelmente regressava a casa com meio quilo de areia a mais, e uma energia digna de uma criança activa. Passava horas a fio, de rabo para o ar, a escavar canais de irrigação complexos que fariam inveja aos engenheiros romanos que um dia eu ia estudar no liceu, tudo para tentar desviar o Oceano Atlântico para dentro de um castelo de areia que uma onda um pouco maior, com a meiguice de um tractor, destruia em três segundos.

Brincar na praia era uma actividade de esforço bruto e imaginação pura. 

Depois foi a fase em que era preciso haver uma bola de futebol, embora jogar à bola na areia misture o pior de dois mundos: a gravidade da Lua e o atrito de uma lixa de carpinteiro. O jogo terminava sempre quando a bola, impulsionada por um chuto mais entusiasta e menos certeiro, aterrava em cima da barriga de um senhor que tentava dormir na toalha ao lado, ou ia mar dentro. O pedido de desculpas era um ritual sagrado, feito com os pés a queimar na areia quente e aquele sorriso de quem sabe que quase causou um incidente diplomático mas que daqui a minutos repetiria. 

Depois foi a fase com que comecei este meu diário, que pode ser mensário ou sem periodicidade. A paixão segundo a idade. Era linda. A idade, claro. Mas ela foi-se alterando e não tem nada a haver com as alterações climáticas. Coisas próprias da vida. Hoje em dia, a brincadeira na praia modernizou-se. O clássico balde e a pá de plástico amarelo dão agora lugar a uma parafernália tecnológica e desportiva digna de uns Jogos Olímpicos de Verão, ou uma dor cervical associada a um lacrimejar. 

Vejamos: olhamos para o lado e vemos as raquetes de praia a se tornarem no desporto nacional por excelência. Há sempre uma dupla que joga como se estivesse na final de um qualquer torneio, projetando a bola a velocidades supersónicas, enquanto o resto dos banhistas faz desvios acrobáticos para não perder um dente nem levar um estalo de uma tábua. Não tarda, ainda vemos alguém a tentar marcar um campo de pickleball na areia molhada e a tentar explicar as regras à beira-mar, ignorando o facto de que uma onda mais atrevida pode levar o equipamento todo até Marrocos: olhamos para outro e vemos alguém sentado, corcunda, a olhar um smartfone, numa concentração tal que nem uma onda gigante lhe ia acordar daquele estado quase hipnótico. 

Mas há algo que o progresso não muda: o lanche. Ninguém sabe explicar o fenómeno científico, mas a verdade é que a areia tem asas. Pode não haver ponta de vento, podemos estar resguardados sob três chapéus de sol e a usar pinças cirúrgicas, mas no momento exato em que se pede uma mítica bola de Berlim, com creme, obviament ou se abre uma simples sandes, a areia aparece.

E nós, com a resiliência típica de quem está de férias, mastigamos aquele crocante marítimo com um orgulho poético. Faz parte do paladar à beira mar sentado, dizemos nós para consolo. Ir à praia e não comer pelo menos três gramas de sílica por via oral é o equivalente a ir a Roma e não ver o Papa. 

No final do dia, vermelhos como lagostas apesar das três camadas de protetor fator 50, regressamos ao carro. Sacudimos os pés, batemos os chinelos, mas todos sabemos a verdade universal: a brincadeira na praia só termina verdadeiramente três meses depois, quando ainda encontramos grãos de areia escondidos no fundo da mala do carro. E aí, com um sorriso nostálgico, percebemos que a praia nunca sai verdadeiramente de nós.

E assim, numa sexta feira fui à praia, com diferentes idades e não sei se esqueci alguma ida mais especial que a de estar sentado nas arcadas a contemplar o meu futuro.



Sanzalando

4 de junho de 2026

ler ao vento

Há quem faça palavras cruzadas, há quem veja séries na tv, há quem passe horas a discutir política nas redes sociais como se estivesse a negociar a paz mundial ou a abrir novas guerras, há quem nas redes se sinta importante e impune e despache palavras como quem esvazia o rancor. Eu descobri uma atividade muito mais simples e muito mais útil: ler ao vento.

Note-se que não me refiro a ler sobre o vento. Refiro-me a pegar num livro, sentar-me num banco de jardim, numa esplanada ou à beira-mar, e deixar que a brisa participe activamente na leitura. Porque o vento não é um simples espectador. O vento é um leitor crítico, daqueles que não respeitam a ordem das páginas nem a velocidade que leio.

Abro o livro na página 23 e, como se houvesse um sopro de entusiasmado, passo imediatamente para a 57. A personagem ainda nem tinha saído de casa e já estava divorciada, reformada e com três netos. É uma leitura dinâmica, quase um curso acelerado de literatura.

O vento também tem a mania de funcionar como marcador de páginas. O problema é que escolhe sempre uma página diferente daquela que eu estava a ler. Quando volto ao livro, encontro-me no meio de uma descrição de uma sopa de nabiças ou de uma batalha medieval sem perceber como lá cheguei. É como viajar de comboio e acordar numa estação errada. Muito gosta ele de me dobrar páginas em vez de usar um marcador.

Mas ler ao vento tem vantagens. O tempo passa sem darmos por isso. Uma hora de leitura ao vento equivale a três horas de entretenimento convencional. Não apenas lemos um livro, como seguramos páginas rebeldes, protegemos chapéus, recuperamos marcadores desaparecidos e afastamos grãos de areia que insistem em tornar-se personagens secundárias da história.

Há ainda o lado poético da coisa. O vento parece querer ler connosco. Espreita as páginas, mexe nas folhas, sopra frases para o ar. É uma espécie de clube de leitura atmosférico, embora os seus comentários sejam sempre um pouco difíceis de interpretar. Ou será que sou eu que já estou tonto de tanto o contrariar?

No fim, quando fecho o livro, percebo que talvez não tenha compreendido todos os capítulos. Algumas partes ficaram misturadas, outras voaram literalmente para longe. Mas o objetivo foi cumprido: o tempo passou.

E talvez esse seja um dos grandes segredos da leitura. Não importa se estamos numa biblioteca silenciosa ou num banco de jardim em luta aberta contra uma ventania. Um livro tem essa capacidade extraordinária de fazer os minutos correrem mais depressa.

Embora, convenhamos, quando o vento leva o marcador de páginas para longe num voar rotativo, já não é apenas literatura, é um duatlo, que mete já a corrida nos entretantos.



Sanzalando

3 de junho de 2026

Tesourinhos Musicais 96 - Edmindo Falé - K'arranca às Quartas 121


Sanzalando

Livros - José Luis Peixoto - K'arranca às Quartas 121


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Esta Música tem uma História 62 -Simone - Iolanda- K'arranca às Quartas 121


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Crónicas de Carlos Osório 20 - K'arranca às Quartas 121


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Crónica de João Portelinha da Silva (26) - K'arranca às Quartas 121


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Crónica 108 - K'arranca às Quartas 121


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Programa K'arranca às Quartas 121



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 03 de junho de 2026, dia mundial da biciclete - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - para lá de uma extra.

Luis Peixoto foi o escolhido de hoje

Hoje houve Esta Música tem uma história Simone com IOLANDA numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais falei de Edumndo Falé
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe na pessoa de Alda Espírito Santo
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos o recreio da escola e o jogo 'abafa'
Tivemos o poema Operário da Construção de Vinivius de Morais na voz de Mário Viegas
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

O Dia em Que Decidi Jogar Padel

Há decisões que mudam uma vida: casar; mudar de emprego; comprar uma casa. E depois há a decisão que eu tomei numa bela manhã de confinamento: jogar padel.

A culpa foi dos amigos. É sempre dos amigos. Nunca ouvi ninguém dizer que foi assaltado pela sua imprudência ou que foi o bom senso que o meteu nisto. Não. Foram os amigos.

O que eles me disseram:

- Tens de experimentar!  

- É divertido!

- É fácil!

- Qualquer pessoa joga!

Desconfiei logo, ainda mais da última frase. Sempre que alguém diz que qualquer pessoa consegue fazer alguma coisa, normalmente está a referir-se a pessoas que nasceram com talento, equilíbrio e articulações ainda dentro da garantia. Há anos que a minha garantia se foi e não há a quem reclamar.

Mas lá fui sem bem saber ao que ia. Vi no Youtube uns três vídeos. Percebi o mecanismo da coisa. Paredes de vido, uma rede a meio e uma tábua na mão como brinco na praia. 

Cheguei ao campo equipado como quem vai disputar a final de Wimbledon. Ténis novos próprios para o padel segundo o empregado da loja, roupa desportiva impecável e uma raquete alugada na mão. Na verdade sentia-me um atleta. Durante aproximadamente três minutos que entrei no retângulo eu senti-me confortável e confiante.

O primeiro problema foi descobrir como se segurava a raquete. Uns diziam que era como quem pega num martelo e eu a pensar como é que seria uma coisa que nunca tinha pensado. Mas como raio eu pego um martelo. Como é que eu com o martelo ia bater no raio da bola se quase mal a vejo? O segundo foi perceber que a bola não colaborava minimamente com os meus planos. Eu pensava ia dirigi-la para ali e ela, por vontade própria ia para acolá.

No aquecimento, a bola passou por mim várias vezes. Não porque fosse rápida, mas porque eu era optimista, preguiçoso ou estava a faltar-me qualquer sentido posicional. Calculava a trajetória, preparava-me para o golpe perfeito e, no último instante, a bola escolhia outro destino que não o que eu tinha desenhado para a receber.

Parecia ter vontade própria a maldita amarelinha.

Quando finalmente consegui acertar-lhe duas vezes seguidas, foi um momento de glória. Infelizmente, a bola, à segunda, saiu do campo, atravessou a vedação e quase foi pedir nacionalidade ao concelho vizinho.

Os meus colegas foram pacientes.

- Muito bem! — gritavam. - Vais lá!

Eu conheço aquele muito bem. É o mesmo que se usa quando uma criança desenha um cavalo que parece um aspirador avariado ou um pai que só tem pernas e cabeça.

Depois descobri a particularidade mais intrigante do padel: as paredes.

Passei uma vida inteira a aprender que bater contra paredes era um erro. E várias vezes as bati com a cabeça. De repente, encontro um desporto onde a bola bate na parede e toda a gente acha normal.

A certa altura, fiquei tão concentrado a seguir a bola que dei por mim a rodar em círculos dentro do campo, como um cão a tentar apanhar a própria cauda e ainda por cima ria.

Houve um momento particularmente humilhante em que corri para a frente, recuei, avancei outra vez, olhei para cima, olhei para os lados e, no fim, a bola caiu calmamente ao meu lado, sem que eu lhe tocasse. Parecia que estava a observar um documentário sobre a minha incompetência.

Ao fim de noventa minutos eu estava exausto. Descobri músculos cuja existência em mim desconhecia. Alguns deles, suspeito, pertenciam a outras pessoas mas vieram doer em mim.

No dia seguinte, acordei com dores em locais do corpo que nem sequer aparecem nos livros de anatomia. Para me sentar precisava de um plano estratégico. Para me levantar, de muita fé.

Mas, estranhamente, gostei. Amor violentamente apresentado à primeira vista.

Talvez porque o padel seja uma metáfora da vida. Corremos atrás de coisas que nos escapam, batemos contra paredes, falhamos bolas fáceis e, de vez em quando, acertamos uma pancada tão boa que de imediato esquecemo-nos de todas as outras que falhámos.

Ou talvez porque, no fundo, gosto de fazer figuras ridículas desde que tenha testemunhas suficientes para se rirem comigo e de mim.

Seja como for, já logo combinei novo jogo para a semana seguinte, esperando ter recuperado muscular e mentalmente daquele primeiro dia.

Passei a ir mais bem preparado.

Passei a levar uma raquete que comprei, suave, com bom controle e boa saída apesar de faltar um jogador na extremidade da mesma, água... e um fisioterapeuta de prevenção.


Sanzalando

2 de junho de 2026

Um conto que não contei

Sentei na secretária. Não. Sentei-me frente ao computador, na cadeira que está à freente da secretária onde está o PC. No tempo em que escrevia com caneta já estava uma folha amarrotada e eu zangado. Mas eu quero escrever um conto. Um conto de amor. De amor adolescente. Não. Vou cair no meloso e nos suspiros que não são de açúcar. Vou trocar os suspiros exagerados pelas situações embaraçosas, pelos mal-entendidos e pela forma dramática como os adolescentes transformam pequenos acontecimentos em grandes epopeias.

Em vez de dizer:

- Quando a vi, o meu coração disparou e o mundo parou.

Vou dizer:

- Quando a vi, esqueci-me do próprio nome, tropecei no degrau da escola e descobri que a gravidade continua a funcionar mesmo quando estamos apaixonados.

O humor nasce da distância entre aquilo que se imagina e aquilo que realmente aconteceu. Na minha cabeça, sou um herói romântico; na realidade, estou a ensaiar frases inteligentes há três dias para acabar por dizer apenas: Então... está calor, não está?

Não vale a pena recordar que os adolescentes vivem tudo em modo exagerado:

  • Um sorriso vale um pedido de casamento.
  • Um olá é sinal de destino carregado de emoção.
  • Um até amanhã já serve para escolher os nomes dos filhos.

Podia brincar com os conselhos dos amigos, que costumam ser tão úteis como um guarda-chuva furado naqueles dias de tempestade:

O Zé garantiu que as raparigas adoravam rapazes misteriosos. Passei uma semana sem falar. Ela concluiu que eu era tímido, estranho ou tinha perdido a voz. Talvez as três coisas. Ou só que eu era parvo.

Outra técnica a usar podia ser autoironia. Podia olhar para trás e rir-se da minha própria ingenuidade:

Aos quinze anos eu tinha a certeza absoluta de três coisas: que ela era o amor da minha vida, que eu ia ser rico antes dos vinte e que o meu clube nunca perderia um jogo importante. Como se vê, a adolescência é uma fase fértil em imaginação.

O resultado seria uma história ternurenta sem ser açucarada, porque o leitor ia rir-se das situações e reconhecer emoções verdadeiras nelas.

Em resumo: menos luar e mais tropeções; menos poesia declamada e mais nervosismo; menos amor eterno e mais confusões, amigos intrometidos e planos que correm mal. O humor faz sorrir e, curiosamente, torna a paixão mais credível. Afinal, quase todos nos apaixonámos na adolescência; poucos escreveram poemas perfeitos, mas muitos disseram disparates memoráveis.

Desliguei o PC e não escrevi o tal conto por falta de assunto para contar.



Sanzalando

1 de junho de 2026

No Meu Tempo de Criança, o Dia da Criança era Todos os Dias e Nenhum

Haverá maior injustiça histórica do que termos nascido numa época em que o Dia da Criança ainda não tinha sido inventado pelo marketing moderno?

Hoje, no dia 1 de junho, as redes sociais inundam-se de fotografias de miúdos felizes, com a cara pintada de homem-aranha, a lamber gelados artesanais e a saltar em insufláveis do tamanho de prédios de três andares. Há tudo menos aulas, teatros de marionetas e pais tão amorosos a prometer que hoje o dia é todo teu, meu amor.

No meu tempo de criança era como? Se eu dissesse à minha mãe que queria celebrar o “Dia da Criança”, ela provavelmente olhava para mim, pousava o ferro de engomar e dizia, com aquela doçura que só as mães dos anos 60/70 conseguiam reunir:
- Dia da Criança? Olha que levas já duas dores de dentes que te passa logo a mania do protagonismo. Vai mas é deitar o lixo fora e fazer os trabalhos de casa

O Estatuto da Criança vintage. Olhando de hoje para aquele ontem
Naquela altura, a infância não era uma instituição protegida por tratados internacionais; era um estado de sobrevivência. Nós não tínhamos direitos; tínhamos obrigações e uma imunidade bacteriana digna de um super-herói que não há nas crianças de hoje.
Vejamos as diferenças estruturais entre o "Dia da Criança Moderno" e um dia qualquer da nossa infância:
Hoje/lá longe: Joelheiras, capacete, protector solar 50/ Veste o casaco
                        Sumo biológico e fruta descascada/ Pãp com manteiga e gasosa
                        Tablets xpto/ aro de bicicleta e um ferro
                    Cadeirinha para o carro de isto e aquilo/Cinco gajos soltos na traseira duma carrinha de caixa aberta

Se hoje os miúdos exigem parques de diversões com controlo de temperatura, o nosso parque de diversões era a rua. E o nosso insuflável era, textualmente, o entulho das obras do vizinho.
Passávamos a tarde a saltar de cima de tijolos, a cravar pregos ferrugentos nos kedes os míticos Sanjo ou All Star já sem sola ou simples imitação e a testar as leis da gravidade em bicicletas sem travões.

Quando caíamos e esfolávamos os joelhos até ao osso, a terapia de choque consistia em lavar a ferida com água da fonte ou saliva e ouvir o clássico diagnóstico materno: “Bem feito. Quem te manda andar a correr? Se estragaste as calças, ficas sem pele nas nalgas.” E levávamos com «mercúrio ó cromo». E funcionava! Ninguém coxeva mais do que meia hora. O medo da chinelada era um antibiótico natural poderosíssimo.

Não havia caixas de subscrição de brinquedos, nem festas temáticas com catering nem fotos de instagram. O mais próximo que tínhamos de um "brinde" era o balão que o senhor do banco nos dava quando o nosso pai ia pagar a prestação do carro, ou o pião de madeira que o carpinteiro do bairro nos oferecia se não fizéssemos muito barulho.

E sabem que mais? Éramos incrivelmente felizes.
Não precisávamos que a Unicef ou o calendário nos recordassem que éramos especiais. Nós sabíamos que éramos sobreviventes. Sabíamos negociar a posse de uma bola de futebol furada como diplomatas da ONU e sabíamos que o toque de recolher era quando os candeeiros da rua se acendiam. Não havia GPS, mas ninguém se perdia.

Por isso, meus caros amigos ainda crianças, hoje celebro o Dia da Criança à vossa saúde. Mas se me dão licença, vou ali comer um pão com manteiga e açúcar à janela, só para ver se a minha mãe me manda entrar para ir estudar.


Sanzalando


31 de maio de 2026

Pertinências 11 - 14º Final de Leitura em Voz Alta

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.











Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Há escritores que nos contam histórias. E há outros — mais raros — que nos devolvem memórias que nem sabíamos que eram nossas. Dulce Maria Cardoso pertence claramente a este segundo grupo.

Quando se fala de O Retorno, não se fala apenas de um livro. Fala-se de uma mala sempre por desfazer, de um país que cabe num sotaque e de uma infância que ficou suspensa entre continentes — como roupa num estendal apanhado por vento incerto.




Imperdível





Sanzalando

30 de maio de 2026

eu a pensar

Há pessoas que têm o cérebro organizado. Pensam numa coisa de cada vez, resolvem-na, arquivam-na numa gaveta mental e seguem para a próxima como se fosse uma cadeia de normais acontecimentos. Eu admiro-as da mesma forma que admiro os equilibristas do circo, à distância e com a certeza absoluta de que nunca conseguirei fazer o mesmo.

O meu cérebro não é uma biblioteca. É uma fábrica. Uma fábrica antiga, daquelas que existiam antes de eu nascer, enormes, com chaminés a deitar funo dia e noite, onde as ideias entram em produção sem autorização da gerência. E como a gerência sou eu, posso garantir que raramente sou consultado.

Acordo de manhã e, antes mesmo de abrir os olhos, já há uma reunião de emergência. O eu e o mim reunen-se.

- E se escrevesses uma história sobre um reformado que decide aprender a andar de skate?

- E se inventasses uma receita de bacalhau com manga?

- E se os pombos fossem agentes secretos?

Tudo isto antes do mata-bicho.

Enquanto preparo o café, a linha de montagem acelera. Uma ideia empurra a outra como carrinhos de supermercado.

Olho para uma nuvem e penso num poema que nunca escreverei.

Vejo um gato e imagino um romance policial, que nunca escrevi.

Vejo uma torrada queimada e surge uma reflexão filosófica sobre os limites da civilização e a inteligência artificial que não me ajudou neste instante.

O problema é que a fábrica produz muito mais do que consegue expedir. Tenho a cabeça cheia de apontamentos misteriosos, que nem eu sei desvendar.

“Homem que reflete com semáforos.” “Galinha deprimida não põe ovos.” “Teoria revolucionária sobre meias desaparecidas.”

Confesso que, meses depois, recordo estas notas e não faço a mínima ideia do que pretendiam significar. Devem ter sido produtos experimentais que nunca chegaram ao mercado. Às vezes suspeito que o meu cérebro trabalha por objetivos de produção. Se passo uma hora sem ter uma ideia nova, parece soar uma sirene interna.

- Atenção! Quebra de produtividade! É preciso inventar qualquer coisa!

E imediatamente surge um pensamento absurdo, apenas para manter os números da fábrica.

A vantagem é que raramente me aborreço. A desvantagem é que raramente descanso. Enquanto os outros contam carneiros para adormecer, eu assisto ao turno da noite da minha fábrica fumegante.

Os carneiros entram, é verdade, mas cinco minutos depois já se estão a organizar num sindicato, a criar uma banda de rock ou a planear uma candidatura à junta de freguesia.

Nestas alturas percebo que a minha imaginação não conhece horários laborais.

Funciona aos fins de semana, aos feriados e até durante as férias, quando eu as tinha.

Aliás, as férias eram a pior altura. O cérebro interpreta qualquer descanso como uma oportunidade para aumentar a produção em 300%.

Mas não me queixo. Já agora era o início de uma pausa. Ou seria o fim?

Uma fábrica destas dá trabalho, faz barulho e, por vezes, produz artigos completamente inúteis. Porém, de vez em quando, entre uma ideia disparatada e outra ainda mais disparatada, aparece uma que vale ouro.

Uma história.

Uma crónica.

Uma lembrança.

Um sorriso.

E então percebo que talvez não seja assim tão mau viver com esta fábrica permanentemente ligada, mesmo que o cansaço me derrube. Alguém tem de se lembrar de desligar a sirene de vez em quando. Ou, pelo menos, de convencer os pombos agentes secretos a fazerem menos horas extraordinárias.



Sanzalando

29 de maio de 2026

sociedade

Sentado no banco da avenida, olho os poucos carros que passam. É hora de trabalho, não é hora de passear. Eu, em vez de estar a jogar dominó, olhar a televisão com cara de parvo, prefiro este banco da avenida. Apanho ar e vagueio por entre pensamentos e outras ideias que possam nascer do vente mental.

Olha para mim: roupa simples, sandálias velhas mas cómodas para mimar estes pés cansados, olhar brilhante de quem está feliz, sorriso natural estampado na cara a vagabundear por mim dentro.

Mas posso garantir que ganhar um espaço na sociedade não foi uma corrida de cem metros; foi mais uma maratona em cima de brasas, enquanto tentava equilibrar uma bandeja de ideias, conceitos e vontades. Todos diziam que o segredo era trabalho e dedicação, mas esqueceram-se de mencionar que a sociedade é um clube exclusivo onde o porteiro é um algoritmo mal-humorado e a senha muda todas as terças-feiras.

Primeiro, vamos falar do trabalho. Antigamente, trabalhar era carregar sacos de cimento, era suportar insónias, ouvir recados, interpretar convicções. Hoje, ganhar espaço na sociedade exige um esforço hercúleo de... enviar e-mails. E não são e-mails comuns. São missivas digitais carregadas de termos como "sinergia", "fazer o follow-up" e "agregar valor", frases e "words" ou "powerpoints". Empregar fruir, narrativa e outros considerandos nos memorandos.

A dedicação começava no despertador. O cidadão que quer vencer acorda de madrugada. Não porque tenha algo útil para fazer a essa hora, mas porque o LinkedIn, o FaceBook, o Instagran e o X exigem que se poste uma foto de uma chávena de café com a legenda: "Enquanto eles dormem, eu já estou a sofrer."

Conta a estória que a formiga ganha o seu espaço pelo esforço contínuo. Mas a formiga é discreta. Se você quer um lugar ao sol ou pelo menos um lugar na sombra de um guarda-sol de marca, precisa de trabalho barulhento. Não basta ser bom; tem de parecer que está a ter um esgotamento de tanto sucesso. Andar depressa com uma pasta vazia debaixo do braço confere uma autoridade instantânea. Ganhar espaço implica conhecer pessoas. Isso significa ir a eventos onde se serve vinho quente e sorrir para alguém que você tem 90% de certeza que é o vice-presidente de algo, mas que na verdade é apenas o técnico do ar-condicionado. Não importa. Dedique-se a esse aperto de mão como se a sua vida dependesse disso.

Agora a dedicação total manifesta-se naquele momento em que se aceita fazer tarefas que ninguém quer. O espaço na sociedade é muitas vezes conquistado através da geografia da disponibilidade.

- Quem pode organizar o Excel das quotas do condomínio? 

- EU! — gritava com o entusiasmo de quem acabou de ganhar o Totobola.

Pronto. Acabou de conquistar três metros quadrados de influência social. Agora as pessoas conhecem o  nome e geralmente acompanham-no de aquele maluco que gosta de tabelas ou de se exibir. 



Sanzalando

28 de maio de 2026

eles e a saudade da juventude

Me sentei na escadaria do Tribunal a olhar só assim até onde a vista, já cansada, consegue chegar. O pensamento, esse ficou dentro de mim a magicar. Acho o meu cérebro é fábrica de pensamentos que têm de ser traduzidos em letras e levadas ao papel.
Há gente que vive com tanta saudade do passado que, se pudesse, ainda pagava o café em escudos, escrevia cartas com mata-borrão e ia ao barbeiro ouvir relatos da bola num rádio a pilhas do tamanho de um frigorífico pequeno. 
Eu, confesso, começo a ficar cansado dos saudosistas profissionais. Não daqueles que recordam o passado com ternura, que isso até que é bonito. Falo dos outros. Dos arqueólogos emocionais. Dos que acham que tudo antigamente era melhor. Tudo! Como se os anos sessenta fossem uma mistura permanente de poesia, tremoços e pôr do sol em câmara lenta.

Conheço gente que sempre começa as frases com:

- No meu tempo… - como se o facto dele estar agora vivo não é tempo dele. Querem ver que ele faleceu e não me disseram, nem a ele?

No tempo dele, pelos vistos, nunca havia trânsito, as laranjas tinham mais sumo e sabor, os políticos eram sérios, os jovens respeitavam os mais velhos e as galinhas punham ovos com dignidade moral.

Uma vez ouvi-lhe dizer:
- Antigamente não havia depressões.

Claro. Havia era pessoas tristes em silêncio, a fumar AC ou Hermínios e a olhar para a chuva com ar cansado a ver se deixava de chover e aparecia o cacimbo. Eram assim cancimbados.

Outro garante-me:
- A juventude de hoje não sabe divertir-se.

Diz isto enquanto passa três horas no Facebook a partilhar fotografias a preto e branco de linha de eléctricos que já nem existem, acompanhadas da legenda: Quando Lisboa tinha alma. Queres ver que Lisboa ficou Desalmada? Como se a alma da cidade tivesse fugido no último eléctrico da Carris, provavelmente sem bilhete.

Os retrógrados têm um talento extraordinário: conseguem transformar qualquer avanço moderno numa ameaça civilizacional. O multibanco acabou com a conversa. O telemóvel destruiu a família. A internet matou os cafés. O micro-ondas arruinou a humanidade. Qualquer dia culpam o comando da televisão pelo declínio do Império Romano.

E depois há os especialistas do sofrimento antigo:
- Nós é que sabíamos viver com dificuldades!

Pois sabiam. Também tomavam óleo de fígado de bacalhau sem anestesia e sobreviveram. Mas isso não significa que alguém queira repetir a experiência voluntariamente hoje.

O curioso é que os maiores defensores do passado adoram os confortos do presente. Dizem mal da tecnologia… mas ficam aflitos se o Wi-Fi falha durante quatro minutos. Criticam os jovens por passarem a vida ao telemóvel… enquanto procuram os óculos com a lanterna do próprio telemóvel e vasculham o telemóvel alheio à procura duma qualquer pista que leve à discussão. É que nos confortos do presente eles queriam viver o passado.

Há também uma certa romantização absurda da dureza antiga:
- Na nossa infância brincávamos na rua!

Sim. E muitos também apanhavam sovas monumentais e constipações épicas. A nostalgia é uma espécie de filtro do Instagram emocional: apaga as dores de costas e deixa apenas o cheiro do pão quente. 

Eu gosto de recordar o passado. Gosto mesmo. Mas sem transformar a memória num museu onde é proibido mexer nos móveis.

Porque, sinceramente, se o passado fosse assim tão perfeito, ninguém tinha tido tanto trabalho a inventar o futuro.

E depois há esta verdade simples: quase todos os saudosistas querem voltar ao passado… desde que levem antibióticos, comprimidos para a tensão, ar condicionado, GPS, Netflix e uma boa prótese dentária.

O que eles têm saudades, no fundo, não é do mundo antigo. É da juventude deles.




Sanzalando

27 de maio de 2026

Programa K'arranca às Quartas 120



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 27 de maio de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Hiperconectividade

A Hora das Estrelas de Clarisse Lispector

Hoje houve Esta Música tem uma história e DJOYA – “Súplica” numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais Os Morgans
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos o aniversário de Manuel Teixeira Gomes e não só
Tivemos o poema SABEDORIA, José Régio na voz de Joana Carvalho
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Esta Música tem uma História 61 -Djoya - Súplica - K'arranca às Quartas 120


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Tesourinhos Musicais 95 - Os Morgans - K'arranca às Quartas 120


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LIVRO - A Hora da Estrela - Clarice Lispector - K'arranca às Quartas 120


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Crónicas de Carlos Osório 19 - K'arranca às Quartas 120


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Crónica de João Portelinha da Silva (25) - K'arranca às Quartas 120


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Crónica 107 - K'arranca às Quartas 120


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