Quando eu era adolescente havia uma ciência rigorosa, quase física e de alta precisão, na arte de atirar pedras às árvores. Eu nunca fui bom nessa disciplina. Para comer castanhas na frente da casa do Sr. Martins alguém tinha que atirar pedra por mim. Hoje em dia, os jovens descarregam apps e jogam jogos num telemóvel, mas quando eu era adolescente os jogos eram o chão, as padras e pedrinhas e o verdadeiro ecrán eram as copas das árvores que davam castanhas, que não são as castanhas que se compra no supermecardo.
O objetivo teórico era simples que era fazer cair o fruto, a castanha. O objetivo prático terminava, noventa por cento das vezes, com três pedras a passarem sobre a árvore, um ou outro vidro de janela partido e nenhuma fruta no chão.
Existiam vários perfis de atiradores na nossa malta. Um que estudava a trajetória, limpava a pedra na camisola, media o vento com o dedão molhado e falhava o alvo por quatro metros, acertando com precisão cirúrgica na telha da casa do vizinho mais rabugento da rua. Outro ignorava a pedra fina e delicada, escolhia autênticos calhaus. Cá para mim ele não queria apanhar fruta; queria derrubar a árvore. O lançamento terminava invariavelmente com um estiramento muscular no ombro e a pedra a cair verticalmente a dois centímetros do seu próprio pé. O Zé tinha uma pontaria assustadora. Acertava exatamente na castanha mais bonita, mas com tanta força que a transformava em compota instantânea ainda no ar. Chegava ao chão apenas um caroço envolvido numa nuvem de polpa amassada.
O verdadeiro drama era quando a pedra ficava presa entre os galhos. Ninguém aceitava perder uma boa pedra, afinal, tínhamos gasto três minutos a escolhê-la por ser perfeita para caber entre dedos. A solução era atirar uma segunda pedra para desembrulhar a outra. O resultado? Duas pedras presas e a fruta continuava lá em cima, a rir-se da nossa ignorância.
O auge do método científico era a chegada do dono da casa em frente, avisado pelo som cadenciado de pedradas contra o telhado ou janelas. A aceleração que atingíamos na fuga provava que, se a gravidade não nos ajudava a fazer cair as castanhas, a adrenalina garantia-nos pelo menos a velocidade necessária para ultrapassar qualquer distância.
Olhando para trás, a árvore comigo nunca perdeu um único combate. Mas nós voltávamos no dia seguinte, de bolsos pesados e pontaria renovada, convictos de que a física e o jeito, finalmente, estariam do meu lado, porque do Zé estavam sempre.










