Sentei na secretária. Não. Sentei-me frente ao computador, na cadeira que está à freente da secretária onde está o PC. No tempo em que escrevia com caneta já estava uma folha amarrotada e eu zangado. Mas eu quero escrever um conto. Um conto de amor. De amor adolescente. Não. Vou cair no meloso e nos suspiros que não são de açúcar. Vou trocar os suspiros exagerados pelas situações embaraçosas, pelos mal-entendidos e pela forma dramática como os adolescentes transformam pequenos acontecimentos em grandes epopeias.
Em vez de dizer:
- Quando a vi, o meu coração disparou e o mundo parou.
Vou dizer:
- Quando a vi, esqueci-me do próprio nome, tropecei no degrau da escola e descobri que a gravidade continua a funcionar mesmo quando estamos apaixonados.
O humor nasce da distância entre aquilo que se imagina e aquilo que realmente aconteceu. Na minha cabeça, sou um herói romântico; na realidade, estou a ensaiar frases inteligentes há três dias para acabar por dizer apenas: Então... está calor, não está?
Não vale a pena recordar que os adolescentes vivem tudo em modo exagerado:
- Um sorriso vale um pedido de casamento.
- Um olá é sinal de destino carregado de emoção.
- Um até amanhã já serve para escolher os nomes dos filhos.
Podia brincar com os conselhos dos amigos, que costumam ser tão úteis como um guarda-chuva furado naqueles dias de tempestade:
O Zé garantiu que as raparigas adoravam rapazes misteriosos. Passei uma semana sem falar. Ela concluiu que eu era tímido, estranho ou tinha perdido a voz. Talvez as três coisas. Ou só que eu era parvo.
Outra técnica a usar podia ser autoironia. Podia olhar para trás e rir-se da minha própria ingenuidade:
Aos quinze anos eu tinha a certeza absoluta de três coisas: que ela era o amor da minha vida, que eu ia ser rico antes dos vinte e que o meu clube nunca perderia um jogo importante. Como se vê, a adolescência é uma fase fértil em imaginação.
O resultado seria uma história ternurenta sem ser açucarada, porque o leitor ia rir-se das situações e reconhecer emoções verdadeiras nelas.
Em resumo: menos luar e mais tropeções; menos poesia declamada e mais nervosismo; menos amor eterno e mais confusões, amigos intrometidos e planos que correm mal. O humor faz sorrir e, curiosamente, torna a paixão mais credível. Afinal, quase todos nos apaixonámos na adolescência; poucos escreveram poemas perfeitos, mas muitos disseram disparates memoráveis.
Desliguei o PC e não escrevi o tal conto por falta de assunto para contar.














