O Dia da Mãe chegou sem pedir licença um ano depois do outro Dia da Mãe e com uma pontinha de nostalgia que se instala entre o café da manhã e a primeira tentativa de não pensar muito no assunto.
Levantei-me decidido: hoje vai ser um dia alegre. Nada de dramatismos, nada de suspiros profundos a olhar pela janela. A minha mãe, se cá estivesse, diria logo:
- Ó rapaz, deixa-te disso, que a vida não é um velório permanente nem uma espera eterna!
E pronto, comecei o dia como ela gostava com barulho na cozinha. Não há melhor homenagem do que fazer um pequeno-almoço digno de confusão: torradas ligeiramente queimadas como ela fazia de propósito, café forte que acorda até o vizinho e uma tentativa falhada de arrumar tudo sem sujar mais.
Sentei-me à mesa e, quase sem dar conta, comecei a falar em voz alta:
- Então, mãe, hoje deram-te de folga aí no céu ou andas por aí a inspeccionar o que o teu filho faz?
Claro que não houve resposta… mas houve aquela sensação estranha e boa de que, de alguma forma, ela estava ali. Talvez a rir-se da torrada demasiado escura.
Depois veio a parte mais perigosa: mexer em fotografias antigas. Aquilo é uma armadilha. Começa-se com um vou só ver uma e, de repente, já estamos a rir de penteados impossíveis, roupas que hoje dariam direito a intervenção familiar e expressões que só as mães conseguem fazer uma mistura de autoridade e ternura com um toque de já te conheço há demasiado tempo.
E lá estava ela, em todas as fotos, com aquele olhar que dizia tudo:
- Podes fazer asneiras à vontade, mas eu estou aqui.
E esteve. Sempre.
Ao meio do dia, dei por mim a fazer outra coisa muito típica dela: falar com pessoas que não conheço. No café, meti conversa com o empregado como se fosse primo afastado. E pensei: pronto, isto é herança. Não vem no testamento, mas vem na vida.
A verdade é que o Dia da Mãe mudou. Já não há telefonema, nem abraço, nem aquele leva um casaco que está vento, dito mesmo quando estão 30 graus. Mas há outra coisa uma espécie de presença teimosa, bem-disposta, que aparece nas pequenas coisas.
No fundo, a minha mãe não desapareceu. Espalhou-se.
Está na maneira como faço café, mal, mas com convicção, na forma como implico com quem gosto, nas frases que me saem sem autorização e até naquele talento especial para rir nos momentos menos apropriados.
Ao final do dia, levantei o copo sozinho, mas não propriamente e disse:
- Feliz dia, mãe. Continuas a dar trabalho… mas também continuas a dar alegria.
E, juro, naquele instante, tive quase a certeza de ouvir:
- Claro que dou, filho. Quem é que pensavas que te ensinou a ser assim?



