O meu plano era infalível, ou pelo menos era o que eu achava que sim antes de ver o estado em que estava o tempo.
Lá estava eu, às dez da noite, no passeio embaixo da janela dela. O plano pedia um luar romântico, uma brisa suave e acordes chorosos no viola. Em vez disso, a noite parecia ter nascido num breu absoluto.
Como eu não sabia cantar nem violar as cordas de uma guitarra, me socorri de dois amigos que o faziam na perfeição.
O Beto limpou a garganta, ajeitou os dedos nas cordas e começou a dedilhar, acompanhado pelo Manel. Eu era corpo presente no silêncio ausente.
- Oh, minha amada, que brilha mais que o sol... - cantou, na sua voz baladeira..
A janela se abriu num ápice. Uma silhueta apareceu. Sorri no escuro com a esperança de ser visto. Foi quando um holofote daqueles dos filmes de guerra para ver os aviões nos céus, era a cortesia simpática do pai dela.
- Que diabo se passa aqui? - naquele breu a voz até que parecia vinha dum trovão desgovernado.
Completamente cego pela luz, tentei soletrar uma ou outra palavra mas nada me chegava à boca. Era silêncio presente com vontade de corpo ausente.
- Sr.Ju! Boa noite... Sou o Beto e viemos fazer uma serenata à sua filha. Desculpe não termos trazido o luar - como ouviram foi o Beto quem salvou a situação. Eu estava estatuado na vertical parada do tempo.
- O luar eu não sei, Fadista da lixeira, mas a chuva está a chegar se vocês não se calam! - gritou o dono da luz que não a desligou um segundo, para eu despetrificar..
Como se fosse um efeito sonoro encomendado pelo destino, o primeiro pingo de chuva do tamanho de cinco tostões caiu bem na ponta do meu nariz. Em três segundos, o céu desabou. Não era uma chuva romântica de filme; era um entornado que parecia ter vindo de balde, se não viesse mesmo do céu
A janela do quarto ao lado abriu-se e, finalmente, ela apareceu, tentando segurar o riso enquanto protegia o cabelo.
-Entrem. Vocês são doidos. Abriguem-se aqui dentro.
Eu, já estava empedrado tinha virado agora encharcado até a alma, com o cabelo colado à testa e a dignidade escorrida rua abaixo gritei:
- Não há força na natureza que me desarme - na verdade eu estava aterrado só de pensar ver o Sr. Ju a olhar-me de perto.
- Deixa-te de dramas e entra. A serenata foi um desastre, mas a minha esposa acabou de pôr a mesa com biscoitos e coca-cola.
Nem nos olhámos para pensar. Corremos para a varanda, sacudindo a roupa para enxarcar o menos possível qualquer entrada. O luar podia ter faltado, mas a ceia foi um regalo de gosto e sabor.











