recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de março de 2026

O Diagnóstico Precoce

Dizem que o destino se manifesta cedo. Enquanto outras crianças usavam o conjunto de peças de montar para construir castelos, eu o usava o mecanno para inventar que até parecia eu ia ser mecânico. Eu tinha-o recebido num Natal e ele me fazia companhia nas horas mortas, antes que elas falecessem de verdade Eu não era nem super-herói nem modelo de virtude, fazia do meu faz-de-conta um sonho, ser médico. 

Crescer querendo ser médico é viver numa forma de sonho constante, temperado por uma boa dose de ironia. Afinal, a medicina é a arte de manter a calma enquanto o resto do mundo está, tecnicamente, em pânico e alguns até que acabam morrendo. E nada mantém melhor a calma do que um bom senso de humor. 

Eu sempre achei que o bom humor é uma anestesia que a natureza nos deu de graça. Imagine a cena: o paciente entra no consultório, pálido, segurando um resultado de exame que ele num momento de pura audácia já "diagnosticou" no Google como sendo uma doença rara. Felizmente naquela altura ainda não havia essas invenções que levam ao desespero, à desinformação e à depressão, só para ficar tudo dependente do D.

Neste momento, o médico tem duas escolhas:

- Ser o bastião da seriedade e explicar que o Google não tem curriculum válido ou reconhecido ou usar o humor para dizer: "Olha, a boa notícia é que, para ter essa doença, você precisaria ter nascido em 1740 e comido uma raiz específica que só cresce na Lua. Como você parece bem para quem tem 300 anos, vamos olhar para o seu físico"

Mas a jornada para lá chegar não é feita só de gargalhadas. Existiu o liceu, aquela entidade mística que exige que você saiba a fórmula química da ardósia, o poder da OPAN para mais tarde, finalmente, poder perguntar a alguém: "Onde dói?". É uma tortura que só faz sentido se você conseguir rir do absurdo de estudar física quântica para tratar uma unha encravada. Sim... eu sei que naquela altura a física era quanticamente proporcional a saia da professora.

E depois, claro, vem a lendária letra de médico. Eu que a tinha tão redondinha que até dava gosto ler, perdi-a com o passar do tempo. Agora escrevo e para além da senhora da farmácia talvez eu em dia de sol consiga decifrar. A minha lista de compras atual parece um eletrocardiograma de alguém que acabou de correr uma maratona, com espaços em branco para respirar fundo. 

No fundo, ser médico com humor é entender que o corpo humano é uma máquina fascinante, mas ocasionalmente ridícula. É saber que, entre um banco de 36 horas e um café que mais parece asfalto líquido, o que nos mantém de pé não é apenas o juramento de Hipócrates, mas a capacidade de rir de nós mesmos.

Se a vida é uma doença terminal, onde todos acabam por morrer, como dizem os poetas mais pessimistas, que pelo menos o médico seja aquele que, enquanto te examina, consegue te arrancar um sorriso. Porque a ciência cura o corpo, mas é a piada (no momento certo) que salva a alma do cansaço.


Sanzalando

30 de março de 2026

EMSAMBLE Al-Nisa - Música no Museu








Ontem a Rádio Portimão esteve em directo, das 17 às 18 horas no auditório do Museu de Portimão para dar a ouvir Ensemble Al-Nisa no Ciclo "Música nos Museus"

O ciclo de música de câmara "Música nos Museus", projeto apoiado pela Direção Geral das Artes, município de Portimão e pelo Museu do Traje de São Brás de Alportel, coloca Ensemble Al-Nisa, um duo de oboé e piano, a atuar, no dia 29 de março, às 17h00, no Museu de Portimão.
Esta iniciativa pretende proporcionar uma experiência educativa e enriquecedora ao público, sendo ainda uma oportunidade para aproximar os ouvintes deste género musical, desmistificar o repertório e criar um ambiente mais acessível.
A participação do público será estimulada, não apenas como ouvinte, mas também entendendo o contexto, as peças e o processo interpretativo dos músicos. Um duo de oboé e piano que surge da vontade de homenagear todas as grandes mulheres no mundo da música e que muitas vezes foram silenciadas.

A não perder!


Sanzalando

29 de março de 2026

Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair do Clube União Portimonense

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS. 

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.





Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.



Desta Tertúlia nasceu este pertinências 4. Imperdícel





Sanzalando

28 de março de 2026

Brincámos e éramos felizes - mas tenho memória e sou-o

Esta não é uma estória de dunas gigantescas, caravanas de camelos ou miragens com água fresca, infelizmente. Esta é uma estória sobre a fronteira do deserto, onde o Namibe encontra a civilização ou pelo menos o muro da Junta autónima das estradas. É assim mais ou menos onde a areia não é uma paisagem romântica mas um inimigo determinado a invadir cada orifício do meu corpo se a aragem vira vento.

Conheçam a minha trupe de intrépidos exploradores: o Manel, com a sua energia inesgotável e total desrespeito pela falta de humor; o Beto, líder autoproclamado e inventor de jogos, para além de ser o dono da viola; e Ferrão, o cauteloso, cuja principal é não ter cautela com coisa nenhuma; o Mamede, preocupado com as notas que não eram de dinheiro. Claro que não vou pôr aqui nenhum nome delas porque elas não iam connosco para as areias quentes do deserto.

Era um sábado escaldante. O céu estava de um azul tão intenso que parecia pintado, e o sol batia com a força de um martelo num prego enferrujado. O local escolhido para a aventura do dia não era uma duna imponente, mas sim uma modesta acumulação de areia que se formava nos limites da cidade que para uns era grande e para outros era pequenina. 

"Muito bem,gente!", anunciou o Beto, de pé no topo do maior monte de areia (que devia ter uns impressionantes trinta centímetros de altura)

- O objetivo de hoje é conquistar o Forte Solitário e defender o nosso território contra os temíveis Invasores da Poeira!

O Manel soltou um grito de guerra, que se transformou rapidamente numa tosse ruidosa quando uma rajada de vento lhe mandou uma quantidade generosa de areia diretamente para a boca. 

- Arg! Areia! É ... saiu palavrão, que a minha caneta não sabe escrever, enquanto cuspia e limpava a cara com a manga da camisola, o que só serviu para espalhar a areia ainda mais.

Ferrão, entretanto, estava empenhado num ritual meticuloso de bater os pés um no outro para desalojar cada grão que se atrevesse a aproximar dos seus ténis que deveriam ser novos.

- A sério, malta? Areia? Podíamos estar a jogar no parque infantil. Sem areia nos sapatos.

Beto ignorou as queixas. 

- Mamede, tu e o teu exército ficam no Forte. Eu e o JC atacamos!.

O jogo começou. O Manel e o Ferrão defenderam o forte imaginário com unhas e dentes, ou melhor, com punhados e punhados de areia. A tática de ataque de Beto e meu envolvia saltos dramáticos sobre os pequenos montes de areia e gritos de guerra que pareciam mais guinchos de pânico cada vez que a areia nos entrava nos olhos.

A certa altura o Manel, no auge do seu entusiasmo defensivo, atirou um punhado de areia com tanta força que este voou muito além de nós e atingiu uma carocha inocente que passava calmamente por ali. 

A batalha foi interrompida momentaneamente pela gargalhada geral (exceto do Beto, que estava a tentar limpar o corpo daquela bola de areia).

A tarde passou num turbilhão de areia e risos. Inventámos novos jogos: "Quem Consegue Ficar Mais Sujo de Areia em Dez Segundos?" houve quem ficasse irreconhecível, "Corrida de Obstáculos com Areia nos Sapatos" (perdeu o Ferrão que não quis sujar os quedes porque deviam ser novos) e "Construção do Maior Castelo de Areia Que o Vento Não Consiga Derrubar nos Próximos Dois Minutos" (o castelo sobreviveu por uns impressionantes dez segundos antes do Manel se atirar sobre ele).

Quando o sol começou a descer no horizonte, pintando o céu de tons de laranja e rosa, a trupe de exploradores estava exausta e coberta de areia. Mas não era apenas uma camada superficial. Era areia no cabelo, areia nas orelhas, areia nas meias, areia nos bolsos.

Ao regressarem a casa, o som das suas passadas era um mistério rítmico de grãos a raspar contra o tecido e a borracha. Ao entrarem na cozinha, a minha mãe olhou para nós e suspirou.

- Bem, parece que o deserto decidiu vir visitar-nos - disse ela, com um sorriso divertido - Preparem-se para um banho tão longo que vão esquecer que cor têm os vossos corpos.

No meu caso o ralo da banheira acho ficou entupido de areia. A banheira parecia uma praia em miniatura. 

Brincar no início do deserto pode não ter sido uma aventura épica com tesouros escondidos e dunas gigantescas. Mas foi uma tarde cheia de humor, risos e uma quantidade tão impressionante de areia que nunca mais olhámos para uma simples caixa de areia da mesma maneira. Afinal, a areia não é apenas um material. É uma companheira de brincadeiras irritante, invasiva e, por vezes, muito divertida.

Hoje apetecia-me ir brincar na areia. Mas falta o Manel e o Ferrão ao que eu sei. Dos outros nunca mais soube nada. Crescemos, é só o que eu sei.

Ficou a memória



Sanzalando

27 de março de 2026

Voltaste à cidade 50 anos depois

Cinquenta anos. Cinco décadas de distância que o Filipe atravessou num SUV reluzente, armado com um GPS que insistia que ele estava no meio de um rio, quando na verdade estava apenas num caminho em mau estado que antes era o que ele pensava ser a Estrada Principal que ia dar ao centro da cidade. Mania que menino da cidade se lembra de tudo quando era criança.

Mal estacionou na praça, Filipe sentiu o peso dos anos. Ou melhor, sentiu o peso dos olhos. No banco de madeira da avernida, de baixo das velhas buganvílias , os mesmos dois velhinhos de 1975 pareciam não se ter mexido. Eram como estátuas de calcário com boina. Devia ser o velho Faria e a Maria Cachucha.

 Alguém do passeio interrompeu os pensamentos que corriam na cabeça do Filipe que ele imaginou assim:
- Olha, é o filho do Ti Manel! Que homem bem parecido que ele está agora. Veio do puto ver a gente?!"
Mas na realidade foi mais 
- Quem é aquele gajo de calças apertadas que não sabe estacionar? Deve ser da geração da utopia. 

Filipe, agora habituado a brunches com tostas de abacate e sementes de chia, foi arrastado pela primo Alberto para o almoço.
- Estás tão magrinho, Filipe! Parece que passaste a fome da guerra! Come lá este cozido, que a gordura do porco é que faz o brilho nos olhos.

O prato à frente dele tinha calorias suficientes para alimentar uma pequena nação durante o inverno rigoroso. O azeite da horta não era um condimento, era um ecossistema. À terceira garfada, as suas artérias começaram a enviar notificações de espaço insuficiente. Filipe habituara-se a outras comidas. 

A parte mais perigosa de voltar à terra 50 anos depois é a árvore genealógica. Na cidade, ninguém tem apelido, só "alcunhas" ou referências de parentesco complexas.

- Olá, boa tarde! Lembra-se de mim? Sou o Filipe, filho de tal e tal e morava ali...."

- Qual Filipe? O do fuso? O que caiu ao poço em 64? Ou o que casou com a filha do homem que vendia tremoços na feira da Senhora da Kipola?

- Não... sou o filho do... e continuou a tentar definir um passado que o tempo faz tempo varreu das ruas asfaltadas.

 - Ah! O das hortas?! Estás tão mudado... perdeste o cabelo todo, não foi? - Não me lembro! 

Filipe tentou pagar um café com um cartão xpto. O senhor Alfredo, atrás do balcão, olhou para ele como se ele tivesse uma arma biológica como se fosse uma arma biológica. Aqui é com dinheiro vivo e de preferência dólares. Senão, ficas a dever que eu te vou cobrar e com juros desde o tempo que foste embora daqui.

O Balanço Final

Filipe percebeu que, por muito que o mundo mude, a aldeia é uma cápsula do tempo. Ele pode ter aprendido três línguas e visitado vinte países, mas ali, ele será sempre "o miúdo que tinha medo dos gansos e que agora usa sapatos que parecem barcos".

Ele voltou para a cidade com três quilos a mais e a certeza absoluta de que, em 2056, o Alfredo ainda o vai estar à espera para cobrar o café.



Sanzalando

26 de março de 2026

eu joguei no totobola

Ah, os anos 70. Uma época em que o "digital" era o relógio de pulso do tio rico e a inteligência artificial era apenas o Professor Pardal na banda desenhada do Pato Donald. Para um adolescente, o Totobola não era apenas um jogo de apostas; era o o sonho semanal que prometia livrar-nos da tirania da mesada de 20 escudos.

Tudo começava à quinta-feira. Entrar numa tabacaria aos 14 anos, com o cabelo à beatle e as calças à boca-de-sino, exigia uma postura de homem de negócios. O objetivo? O boletim de papel químico bem preenchido de modo que o x não saía do quadrado.

Havia toda uma técnica para preencher aquilo. Se carregasses pouco com a esferográfica BIC, a cópia ficava invisível; se carregasses muito, furavas o papel e o Sr. Bauleth da papelaria olhava-me como se tivesse cometido um sacrilégio.

Olhando de agora para o longe do tempo eu vejo:

O adolescente médio dos anos 70 dividia-se em três escolas de pensamento:

- O Clubista Cego: Punha sempre "1" no seu clube, mesmo que jogassem contra a seleção do mundo.

O Especialista de Bancada que discutia na esplanada da Oásis que até se ouvia no Café Avenida, lia tudo e até se calhar nas estrelas das noites de insónia, analisando se o avançado do Farense tinha recuperado da gripe.

- O Caótico, aquele cujo método do fechando os olhos e deixando a caneta cair sobre o papel e a sorte jogava-se duas vezes.

O grande dilema eram os teórico que diziam que as triplas e as suas variantes, que custavam uma pipa de massa mas que a gente ficava na teoria porque na prática não havia combu para tanta teoria.

-  Pá, achas que o Barreirense empata nas Antas?

- Nem pensar, mete um 1 fixo e guarda a dupla para o dérbi!

E lá íamos nós, com o coração nas mãos, apostar o dinheiro do lanche. Se o Benfica ou o Sporting perdiam em casa, lá se ia o "13" e o jantar de domingo passava de festa a funeral.

Havia o rádio a pilhas que se gastava ao domingo. Cada mesa acho eu tinha um rádio naquela esplanada. Acho cada um tinha a esperança que cada rádio ia dar o resultado que mais convinha. Sentados, com o boletim na mão e a orelha colada ao altifalante. O som do golo era anunciado por um interminável grito até a gente parava de respirar. Quando o locutor dizia: "Golo em Alvalade!", o silêncio em casa era tão denso que se ouvia uma formiga a tossir. Se marcava a equipa escolhida eras um génio das probabilidades, se sofria o golo que estragava o teu X: O boletim era amarrotado e lançado com a força de um remate do Eusébio em direção ao lixo. Era um momento de explosão interior. 

Na segunda-feira, a realidade batia à porta. Geralmente, tinha feito 7 ou 8 pontos. O sonho de comprar uma motorizada NSU ou uma V5 ou um par de calças Levi’s genuínas ficava adiado por mais uma semana.

Mas havia sempre aquele amigo que jurava:

Pá, falhei o 13 por um golo do Beira-Mar aos 90 minutos!. Mentira, claro. Provavelmente tinha falhado metade da jornada, mas no Totobola dos anos 70, a esperança era a última a morrer.


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25 de março de 2026

Programa K'arranca às Quartas 111



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 25 de Março 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  Começou a Primavera

Hoje falámos de Filomena Araújo Embaló, escritora Moçambicana

Hoje não houve Esta Música tem uma história, numa colaboração de José Leite; porque estivemos a entrevistar Jorge Carrilho que comemora 50 anos de Música. Baterista de renome que acompanhou múltiplos artistas nacionais e estrangeiros.

Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Maria Guinot

   

e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de Pauline Chizane 

Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos o Café e IA

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Crónica 99 - K'arranca às Quartas 111


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Tesourinhos Musicais 86 - Maria Guinot - K'arranca às Quartas 111


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Filomena Araújo Embaló - Autora - K'arranca às Quartas 111


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Crónica de João Portelinha da Silva 16 - K'arranca às Quartas 111


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Crónicas de Carlos Osório 10 - K'arranca às Quartas 111


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24 de março de 2026

eu fui às salinas

Me lembrei agora que ainda não tinham inventado nem a máquina fotográfica digital, nem aquele aparelhinho que faz tudo inclusive telefonar quando eu fui à salinas lá para os lados da foz do Rio Bero, que agora é até nome de vinho. Na altura a gente só se lembrava dele nestes marços em que não podia mergulhar porque o mar tinha sido invadido pelas águas dele com troncos, caniços e mais lama. Mas nessa altura me levaram às salinas e eu não tirei nem uma fotografia, porque não tinha máquina que era de rolo e isso custava muito dinheiro. Sei que era um domingo de manhã, fazia sol e eu estava já a imaginar uma cena qualquer de filme. Eu nunca tinha visto salinas e tinha imaginado uma cena romântica, pois até a vizinha tinha ido. Quer dizer, ela é que me levou. Mas as salinas não são românticas, são assim uma coisa misturada de escorregador e química.

Quando sai do carro eu fiquei assim feito palerma a olhar as montanhas de sal. Branco que os meus olhos não estavam habituados. Era branco mais branco que absoluto. Retângulos de água que reflectiam tanto a luz que os meus olhos já viam borrões roxos. Faltavam óculos de sol, penso eu agora, com muitos anos de atraso.

Entrei num dos lagos e logo fiz patinagem artística ainda antes de saber que isso existia. Escorreguei que fui de costados à água. Mas ri e todos riram. Até os patos que por ali andavam acho eu também riram e voaram gargalhando.

Ao lado eu vi um lago e gritei: "Olha que lindo, a água é rosa!" Se esqueceram de me dizer que a densidade daquilo é como o de xarope para a posse ou coisa que valha. Entrei e me arrepiei. Sensação esquisita. Mas sai a água evaporou e a minha pele ficou que até parecia papel de jornal seco depois de molhado. Eu pensei ia esfarelar-me. Se fosse agora eu ia dizer que estava pronto para ir para a brasa e ser comido no barbecue. Ardeu um ferida que eu já nem lembrava tinha. Enfim, pensei em Moisés e imaginei que tinha sido a minha purificação espiritual. 
Um dia diferente, que não foi romântico como eu tinha imaginado desde a véspera, em que o meu cabelo parecia ter sido pintado com gesso, os meus calções tinham ganho um tom branco e a alma estava esfoliada.

Mas eu fui às salinas...



Sanzalando

23 de março de 2026

andar de bicicleta

Na cidade que adotei como minha, andar de bicicleta não é um desporto… deveria ser um direito constitucional. Aqui não há subidas, não há descidas, há sequer aquela ondulação tímida que nos faz levantar do selim com dignidade e pensar que estamos a subir à Foia. É tudo plano, mesmo que às vezes inclinado. Há zonas que é tão plana que, se deixarmos cair uma moeda, ela não rola, fica a pensar na vida.

Foi com esta confiança topográfica que decidi, um belo dia, faz por esta altura uns 20 anos, tornar-me ciclista urbano. Comprei uma bicicleta que, segundo o vendedor, era “perfeita para cidade”. Eu desconfiei. Parecia-me uma categoria demasiado específica. Mas levei-a.

No primeiro passeio, senti-me invencível. Pedalava com uma elegância que faria inveja ao pelotão inteiro da Volta a Portugal, se a Volta a Portugal tivesse uma etapa chamada “Volta ao Quarteirão Sem Inclinação” e não tivesse mais que 5 km. Sem esforço, sem suor, sem drama. Até me dei ao luxo de tirar uma mão do guiador. Depois a outra. Depois quase tirei os pés, mas achei que não era altura de me candidatar ao prémio de pelo menos um dente partido.

Tudo corria lindamente até descobrir o verdadeiro inimigo do ciclista numa cidade plana: o vento e alguns pouco condutores de veículos com chapa a toda a volta e, possivelmente, com azia gástrica e diarreia mental..

Mas comecemos pelo vento… esse traidor invisível. Porque numa cidade com subidas, sabemos com o que contamos. Mas numa cidade plana, o vento decide ser montanha mais inclinada que o nosso cérebro fica tipo baralhado com um nó no pensamento e uma montanha de mau feitio.

Num instante, passei de herói do asfalto a figurante num documentário sobre resistência humana. Pedalava, pedalava… e parecia que ficava no mesmo sítio. Um senhor a passear o cão quase me ultrapassava e até  acho que o cão olhou para mim com uns olhos de pena. Tenho quase a certeza!

Tentei manter a dignidade. Inclinei o corpo para a frente, fiz cara de quem está a participar numa prova olímpica, mas na verdade estava a lutar contra uma brisa que, noutras circunstâncias, serviria apenas para refrescar uma sopa.

E depois há os semáforos. Numa cidade plana, os semáforos são o equivalente a montanhas-russas cerebrais. Verde e lá vou eu, leve como uma pena. Vermelho e lá fico, parado, a fingir que não estou a recuperar o fôlego que, teoricamente, não devia cansar.

Mas o auge foi quando descobri que, mesmo numa cidade plana, há “subidas”. Não no chão, claro. Na nossa cabeça. Aquela rua onde o vento bate sempre de frente. Aquela avenida interminável onde parece que alguém ligou a ventoinha só para nos testar a paciência.

Depois aqueles condutores apressados, com pressa de chegar a lugar nenhum. Têm complexo de bola de bowling, imagino eu. Rua estreia, um ciclista à frente e mão na buzina como que a dizer sai da frente. Abrando se isso fosse possível, encosto-me o mais possível à parede e apesar da buzinadela e do meu gesto de boa vontade sou insultado até à terceira ou quarta geração. Mais à frente vejo-o parado e a ser multado por uso indevido do claxon, perturbação da ordem pública e falta de respeito à autoridade. O ego sorriu-me e o pedal até parece ficou menos pesado de pisar.

Cheguei a casa com a sensação de ter atravessado os Alpes, as Montanhas Rochosas ou os Morros Azuis… mas no Google Maps continuava a aparecer escrito “Percurso fácil”.

Desde então, continuo a andar de bicicleta. Porque, no fundo, numa cidade plana, todos somos campeões… até o vento decidir que hoje é dia de etapa de montanha e o perigo obrigar-me a estar atento nos 360 graus que me circundam. Ah... e relembrar que gosto da minha família que às vezes eles lembram-se de me recordar.



Sanzalando

22 de março de 2026

Conversas à Mesa 5 - Florestas e Biodiversidade















Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 21 de março
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


Sanzalando

Bom dia Mercado 13 - Rádio Portimão





Programa de Rádio feito no Mercado de Portimão, ao vivo e a cores hoje dedicado ao Dia da 21 de março, dia da Floresta e da Poesia. Viva a Primavera

Ouça-nos tal e qual lá estivemos







Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

21 de março de 2026

se hoje começou a Primavera...

E aqui me dizem é Primavera. Na minha terra tinha cacimbo e calor. Duas estações sem apeadeiros. Assim, tal e qual, as palavras soltas que vagabundam na minha tola, quentes ou frias de quem não vê nada por causa do cacimbo, mas palavras vagabundas que afagam. Aqui, neste lado de cá tem tempos cacimbados. Mas me disseram que hoje ela chegou. E com ela me lembrei que fui pai faz uma trintena de anos, neste dia de Primavera. E por isso me recordei de que ando por aqui a contar estórias que às vezes na minha cabeça são mais bonitas que nas palavras que uso. Eu acho que os mais novos que possam ouvir as minhas palavras vão pensar eu sou do paleolítico. Na minha juventude além de estórias, tinha um certo folclore que a gente ao começar a falar dele ganha assim um fôlego e as palavras ficam como se fossem filtradas.
- E na rádio a gente punha a bobina marcada no ponto exacto...
- o que é a bobina? - remata logo alguém. 
A gente olha... pensa... como vou explicar o que é um gravador, uma bobina se pelo meio já passou a cassete, o disco de vinil, o cd, a pen e agora tem o streamings... perdeu a piada da velocidade contadora da estória. É, até aparece aquela dor nos joelhos a dizer que o velhote só conta estórias de ficção...
E se a gente vai falar do telefone que tinha de pedir na telefonista para ligar à casa de fulano... eles vão pensar que a gente usa a inteligência artificial para inventar estórias de dizer verdades recentes nos cérebros vagabundos.
- ...e vocês tinham sinal no telefone? 
E vou falar de cabine telefónica? Nem pensar, vão dizer que é apartamento de uma assoalhada com marquise a toda a volta.
É melhor só começar a Primavera a meditar. Sem radicalismos nem mapa que parecia uma manta de papel rabiscada em linhas finas e que quase sempre a gente errava ao lhe dobrar novamente. Só meditar, de braços cruzados a olhar para o cacimbo que deve estar a fazer onde não tem primavera e não deve ter calor ainda.


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19 de março de 2026

corridas de fim de semana

Na casa do Bitacaia os carros eram verdadeiros heróis. Não tinha fim-de-semana sem carros a correr. Houve até as 24 horas da esquina do liceu. O que vale é que à frente havia o Cábula onde podia comer sorvete ou beber coca-cola. Eram corridas a sério.

Não é a sua típica corrida de Formula 1, onde tudo é perfeitamente calibrado e os pilotos são milionários. Não, esta corrida acontece no chão garagem, onde a pista é pintada no chão, e os carros são, bem, de metal, com beata de cigarro e adesivo para andarem direitos. O que contava era o peso e a mão de quem atirava. Tinha de ter mestria. Mão treinada para não ter que fazer a curva em duas ou três vezes. Era a era da precisão manual.

Conheces os Dinky Toys? E o Corgi Toys? 

Num canto da pista e um pouco enferrujado, o lendário Mini Cooper de 1968, que, sejamos honestos, parece mais um brinquedo de morder do que um carro de corrida por tanta pintura que já levou. Ele foi rebatizado de "Mini Bala", o que é irônico, já que a sua velocidade máxima é um pouco mais rápida do que uma lesma com pressa, a contar com a minha imprecisão manual.

No outro canto da pistal com um adesivo de um dragão o robusto Saab de 1971. Ele é tão lento que até a direito ele desvia para a esquerda.

Eram assim os fins de semana. Quem ganhou? A adolescência de certeza




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18 de março de 2026

Manuel dos Santos Lima - As Sementes da Liberdade - Livro - K'arranca às Quartas 110


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Esta música tem uma história 52 - Nara Leão - Descansa Coração - K'arranca às Quartas 110


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Crónica 15 de João Portelinha da Silva - K'arranca às Quartas 110


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Tesourinhos Musicais 85 - Os Tara e Montenegro - K'arranca às Quartas 110


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Crónica 09 de Carlos Osório - K'arranca às Quartas 110


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Crónica 98 K'arranca às Quartas 110


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Programa K'arranca às Quartas 110



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 18 de Março 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  As Ruas de Portimão

Hoje falámos de Manuel dos Santos Lima, escritor angolano, professor de Direito e guerrilheiro do Exercito Popular de Libertação de Angola

Esta Música tem uma história trouxe Nara Leão e Descansa Coração  numa colaboração de José Leite; 

Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Carlos Ramos o fadista 

POEMA - Ana Paula Tavares - O Cercado   


e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de outro poeta brasileiro 

Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos o Cinema nas palavras de João Antunes

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando