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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
14 de abril de 2026
inércia
13 de abril de 2026
éramos três que às vezes eram cinco
Éramos três amigos, quase sempre inseparáveis. Quer dizer, eu era o mais separável deles, pois estava apaixonado e como tal tinha alturas que os meus olhos procuravam por ela e, se o meu corpo estava com eles, eu não estava. Era assim na minha cidade de areia. Eles tocavam viola e eu poetisava ou coisa a dar mais ou manos para isso.
Mas na minha cidade, embora não houvesse galinhas a passear na rua, mas se as houvesses elas iriam atravessar a estrada como quem tem segredo, porque nalguma janela tem sempre alguém parece é vigia, hoje era olhar amanhã era boca que nem rádio.
Mas nós os três, às vezes quatro ou cinco, fazíamos música, contávamos estórias, revelávamos segredos, escondíamos medos, mas éramos cumplices até de coisa nenhuma. No parque infantil, na marginal ou simplesmente no recreio do liceu éramos como se fossemos um. Uns tinham coisas antigas, estórias, novelas ou simples imaginação para contar, outros inventavam músicas, copiavam sons e cantavam. Nenhum tinha escondidos sótãos nem silêncios perdidos. A nossa riqueza era só sermos francos. Éramos três que por vezes eram cinco.
Um dia separámo-nos. Coisas da vida. Reencontrámo-nos num acaso no Porto dois. Revivemos num dia uma década. Desaparecemos num até hoje. Do outro eles se viram anos a fio e eu o vi, quando o reumático já nos tinha tirado o lado prático da vida. Ambos mantinham a veia satírico-poética activa. Eram bons naquilo que faziam. Eu perdi-me noutros lugares, num trabalho apaixonante, cativante e que me subtraiu muitos momentos da vida.
Hoje acordei a perguntar pelo Beto. Do Manel faz tempo eu sei. Hoje acordei triste. É Abril e foi o nosso melhor mês de vida. Hoje acordei-me deles. Não poetiso, mantenho-me apaixonado por muitas paixões e desejos. Mas não tenho nem o Beto aqui ao meu lado e o Manel faz tempo eu sei que me olha com o ar satírico e piada pronta desde lá do além céus e outras galáxias.
Acordei com: isto promete. Nostálgico, triste porém feliz, sonhador e com vontade de dizer
Morena morena
dos olhos galantes
Quem te deu morena
esses diamantes.
Imagino o Beto agarrar a viola e com dois sois e um lá fazer qualquer coisa e eu lhe gravar.
Mas está silêncio. Estou nervoso com tanto silêncio. Quem ousa calar este silêncio?
Já não tenho dias iguais porque já não somos três e nem cinco que por vezes erámos.
Quantos anos tenho? Eu sei os que já gastei e não faço ideia de quantos tenho para gastar e reviver, nem que seja em palavras os tempos que nós os três, que às vezes éramos cinco, vivemos.
Posso adormecer e reacordar sem esta nostalgia que me faz reviver?
Talvez me caia o tecto em cima, ou o vento me leve os pensamentos, ou apenas a raíz deles. Que carga de água me fez abrir hoje a caixa da memória?
12 de abril de 2026
Pertinências 6 - Cinco escritores algarvios falam de literatura
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdícel
é domingo e fui ao hospital
Dizem que o domingo é o dia do descanso, mas ali no hospital, tem outra densidade. É um tempo suspenso, onde o cheiro a desinfetante tenta, sem sucesso, apagar o cheiro da dor, o receio do pior que abafa o brilho da realidade.
Fui visitar-te com o peso institucional que a ocasião exige. Preparei a minha cara de solidariedade serena, escolhi as palavras mansas e leves para além daquele silêncio respeitoso que guardamos para os lugares onde a vida se despe de artifícios.
Entrei no quarto e lá estavas tu, entre lençóis. Olhámo-nos. Tu com aquela cara de quem não sabe onde pôr as mãos por causa do cateter.
A conversa começou com as perguntas mil vezes repetidas nas mil visitas que possam fazer. Falámos da medicação, do que disseram os médicos, do estás com boa cara (a mentira mais caridosa da língua portuguesa que esconde aquelas olheiras de quem sofre em silêncio). Até que o absurdo da situação reclamou o seu lugar.
Talvez tenha sido o barulho rítmico de uma máquina qualquer, ou a forma como tentaste alcançar o comando da televisão e acabaste a fazer uma coreografia involuntária de ballet contemporâneo. Ou talvez tenha sido aquela gelatina colorida em cima da mesa, que vibrava com uma autonomia assustadora num abanar interminável.
De repente, a barreira quebrou-se e tu sorriste. Começámos por um sorriso contido, depois um gargalhar que se calhar incomodou a vizinha do lado, e antes que pudéssemos recuperar a compostura, estávamos os dois a rir.
- Rimos da estética duvidosa das meias de compressão.
- Rimos das conversas surreais que se ouvem através das cortinas vizinhas.
- Rimos da ironia de estarmos ali, num cenário de fragilidade, a encontrar graça na falta dela.
Era um riso clandestino, daqueles que tentamos abafar com a mão na boca para não escandalizar os enfermeiros, o que só o torna mais potente. Cada tentativa de "falar a sério" resultava numa nova vaga de gargalhadas.
Saí do hospital com o sol de domingo já mais baixo, o vento forte a bater na cara e a assobiar. Percebi que a tua cura não viria apenas dos tubos e comprimidos. O riso num quarto de hospital é um acto de rebeldia. É a prova de que, enquanto houver uma anedota mal contada ou uma situação ridícula para partilhar, a doença é apenas uma hóspede passageira, e não a dona da casa.
O domingo afinal não foi de solenidade, mas de luz. Porque rir no hospital é, possivelmente, a forma mais bonita de dizer à vida que ainda estamos aqui, e que não perdemos o jeito para a alegria.
10 de abril de 2026
O Mistério da Camisola Aberta e outras coisas mais
Lá pelas tantas, entra um interno com cara de quem não dorme desde 2024. Começa com as perguntas de praxe, mantendo rigor científico e uma estranha forma de entrar na intimidade:
- Como estamos hoje?
- Algum desconforto?
- Já funcionou o intestino?
Ela, tentando manter a classe apesar de estar deitada numa posição que lembra um frango assado prestes a ser temperado, responde com a maior naturalidade do mundo numa voz que talvez seja necessário um bom amplificador para a tornar audível.
Para fechar com chave de ouro, eu, querendo marcar pontos numa caderneta não existente porém real, resolvi levar um lanche clandestino porque ela reclama sempre da comida, quanto mais num hospital. No meio de um contrabando de pastel de nata, entra a enfermeira com aquela cara de quem manda mais que o diretor do hospital.
Tento esconder o pastel debaixo do travesseiro dela. O resultado? O médico chegou para fazer a palpação abdominal e ouviu um "CRUNCH" tipico do folhado a ser espalmado.
- Esta crocância não é normal. Foram as costelas?
- Não, doutor... foi um folhado que acabou de explodir.
No hospital, a gente perde a privacidade, perde a vergonha, mas se perder o bom humor, a alta demora o dobro!
Como ela está a se sentir hoje? Já recuperou o "status" de dona da própria camisola ou ainda está sob a ditadura da roupa hospitalar?
9 de abril de 2026
Sentei-me na sala de espera
8 de abril de 2026
Programa K'arranca às Quartas 113
7 de abril de 2026
baile de pré finalistas
Éramos do 6º ano e preparávamos os fundos para a viagem do ano seguinte em que íamos ser finalistas do Liceu. Organizámos um baile no Clube Náutico que às vezes era o Casino dos mais velhos. A Nota ia abrilhantar o baile. Eles eram bons apesar de serem nossos colegas e um pouco mais velhos. Tinha uma parte que eram os Mini-Nota quem ia tocar. Faz conta eram os júniores dos mais velhos.
O baile começava às nove, mas às oito já havia adolescentes em modo estátua nervosa encostados às paredes, como se fossem decoração patrocinada pela timidez. Uns eram da organização a julgar pelas ordens gritadas, outros eram só os que não perdiam um baile.
A música estava ensaiada e acho eles sabiam a ordem de tocar. A primeira música foi tão antiga que até o silêncio entrou em sinal de respeito porque o baterista se perdeu no respeito histórico e estavam todos a olhar para ele que até pararam de tocar os instrumentos de cada um. Quem dançava, assim num ápice, passou a fazer dança tribal ao som daquele toque de bateria, deve ter pensado era música nova. Mas depois tudo encarreirou e o baile continuou.
Os rapazes estavam divididos em dois grupos: os que fingiam que não queriam dançar e os que fingiam que sabiam dançar. As raparigas, por sua vez, estavam organizadas numa espécie de conselho estratégico, avaliando cada passo como se estivessem a escolher um mister. Para mim estava a ser o meu baile fúnebre. Era da organização e aquilo não me estava a correr bem. Ela não me olhava e quando me falava era em sentido de ordem. Alguém me perguntou:
- Vais convidá-la para dançar?
- Estou a analisar a situação. - isto para não dizer que estava mais atrofiado na vergonha de andar por ali de fato e gravata do que por não saber dançar.
No centro da sala, um casalo decidiu dançar e dar show. Cinco segundos depois, já tinha fãs. Dez segundos depois, já tinha imitadores. Quinze segundos depois, não havia lugar na pista de dança.
Entretanto, junto à mesa das bebidas, que, misteriosamente, acabavam sempre mais depressa do que a lógica previa, formava-se o núcleo duro das conversas profundas:
- Achas que ela gosta de mim?
- Não sei, mas ela conhece bem a tua história...
Isto, para adolescentes, é praticamente um pedido de casamento.
O momento alto da noite chegou com a chamada “música lenta”. De repente, o baile transformou-se num documentário sobre pinguins: todos aos pares, mas com uma distância respeitosa de meio metro, como se houvesse um campo de força invisível entre eles.
Um rapaz, com coragem emprestada por dois copos de sangria, aproximou-se:
- Queres dançar?
Ela respondeu:
- Pode ser.
E ali começou uma coreografia digna de estudo científico: mãos que não sabiam onde ficar, pés que se atropelavam, e olhares que evitavam qualquer contacto direto, como se isso pudesse provocar um curto-circuito emocional.
No final da música, separaram-se com um “ok” tímido, mas interiormente ele já estava a planear nomes para os filhos.
Quando o baile acabou, ninguém queria ir embora. Não porque estivesse assim tão bom, mas porque sair significava admitir que, afinal, aquilo foi exatamente o que todos esperavam: um caos delicioso, cheio de nervosismo, sumos misteriosos e romances que duram… pelo menos até segunda-feira.
E no dia seguinte, na escola, ninguém falou muito do baile. Mas toda a gente sabia exatamente quem dançou com quem.
Porque há coisas que não precisam de ser ditas, especialmente quando já estão espalhadas em todas as turmas.
6 de abril de 2026
Chuva no deserto e outras coisas
Faz muitos anos que estava a conversar com o meu avô Serafim, na varanda a olhar para uma casa que havia para lá da dele, que por acaso é onde eu morava. A dele. A outra é outra estória que tem aniversário hoje e por isso foi aqui rasantemente abordada e não interessa nesta estória. E o meu avô me dizia:
- No deserto do Namibe, quando chove, ninguém acredita. Nem o próprio deserto. As nuvens aparecem tímidas, como quem entrou no sítio errado. Ficam ali a pairar, a cochichar entre si, mais ou menos a dialogar entre elas:
- “Tens a certeza que é aqui?”
- “Olha… diz aqui ‘Namibe’. Mas isto não era suposto ser seco?”
O meu avô Serafim tinha paciência que nem santo, para conversar coisas sérias comigo. E tinha aquela voz que só avô sabe ter quando quer contar uma história que não é estória, é sabedoria.
E o deserto, habituado a anos e anos de dieta de água rigorosa, olha para o céu desconfiado e diz:
- “Vocês não vêm estragar isto, pois não?”
Mas vieram.
Primeiro cai uma gota. Uma. Solitária. Tão rara que até tem direito a aplausos. Um lagarto pára, olha, e faz um comentário existencial:
- “Isto foi… emoção ou chuva?”
Depois caem duas, três… e de repente, como quem abre a torneira no máximo, aquilo transforma-se numa festa descontrolada. O deserto entra em pânico:
- “Calma! Eu pedi um bocadinho, não foi um dilúvio completo!”
Aqui a voz do meu avô parecia aquela voz dos documentários antes da matiné de domingo.
E então acontece o caos, dependendo do ponto de vista: enxurradas!
A água, que não sabe bem o caminho porque nunca lá tinha passado, começa a correr à toa:
- “É por aqui!” - grita um riacho
- “Não, é por ali!” - grita outro
- “Sigo o mais inclinado!” - diz um que é mais expedito
E eu notava a voz do meu avô Serafim a ficar empolgado que nem artista de teatro.
E lá vão eles se unindo de modo a formar rios improvisados, a arrastar areia, pedrinhas e a dignidade de quem dizia há cinco minutos:
- Aqui nunca chove.
Nós, os experientes, que já vimos muitas chuvas de deserto, olhamos e dizemos com um ar muito técnico:
- Pronto… lá está o deserto a exagerar outra vez, a mandar a sua areia ocupar a cidade.
Porque no Namibe não há meio-termo. Ou está tudo seco ao ponto de se ouvir a areia a suspirar… ou chove como se o céu tivesse acumulado séculos de dívida e resolvesse pagar tudo de uma vez, com juros e dramatismo.
No fundo, o deserto do Namibe é como aquela pessoa que nunca chora… mas quando chora, inunda a sala inteira, porque chora acumulado.
E depois, passado o espetáculo, volta tudo ao normal. O sol aparece, seca a confusão e o deserto recompõe-se, ajeita a areia e diz, com ar muito digno:
- “Isto? Foi só uma garoa.” - e amanhã até parece é um jardim de capim verde.
Depois, virou-se para mim e me perguntou:
-Gostaste da história ou estavas com atenção a outra varanda?
5 de abril de 2026
Páscoa de faz tempo
Na minha adolescência, a Páscoa não era bem uma celebração religiosa, era mais um campeonato de resistência… ao chocolate e às amêndoas. Acho que não as havia lá. Mas eu achar não quer dizer eu saber mas isso pouco importa agora. O que eu sei é que hoje é Páscoa e ela faz anos amanhã. Mas eu quero é falar da Páscoa porque a Páscoa lá em casa começava com solenidade: mesa posta, toalha branca que só via a luz do dia duas vezes por ano, e uma galinha que parecia ter dado a vida não por fé, mas por teimosia, já que o cabrito era caro e só de encomenda. A minha avó fazia questão de lembrar que aquilo era tradição. Eu, com 14 anos, achava que tradição era comer até não conseguir levantar da cadeira e nisso estávamos todos de acordo.
Mas o verdadeiro drama começava depois: os ovos de chocolate.
Na adolescência, há uma lei universal quanto maior o ovo, maior o estatuto social. E eu tinha um problema grave: recebia sempre ovos simpáticos, porque simpaticamente tinham o tamanho dos ovos de perdiz. Aqueles ovos que pareciam dizer-me gostamos de ti, mas não exageremos, porque não somos de avestruz.
A Páscoa ensinou-me muito cedo que a partilha é uma ideia bonita… desde que não seja com o nosso chocolate.
Depois vinha o momento crítico que era o almoço. E aqui tentava o meu plano secreto que era comer pouco para guardar espaço para o chocolate e para o leite creme que ficava na janela da despensa a arrefecer. Um erro clássico de principiante porque a minha mãe tinha outra estratégia que era dizer-me que só saia da mesa depois de repetir o galo ou galinha que naquela hora eu já só tinha olhos de chocolate.
Repetir. Palavra que destruiu sonhos e planos de açúcar durante anos.
Saía da mesa cheio, emocionalmente abalado, e com um ovo de chocolate a olhar para mim como quem diz: agora aguenta.
Mas adolescente não desiste. Uma ou duas horas depois, lá estava eu, em missão clandestina, a abrir o ovo com a delicadeza de um cirurgião… ou de um ladrão pouco experiente.
O problema é que chocolate faz barulho. Muito barulho. Aquele crack traiçoeiro ecoava pela casa como um anúncio público: alguém está a cometer excessos! - gritava-me a consciência
E, inevitavelmente, surgia a voz da minha mãe depois de ouvir os meus pensamentos:
— Já estás a comer chocolate outra vez?!
Outra vez? Era a primeira… naquela hora.
No fim do dia, a Páscoa deixava-me três coisas: dor de barriga; culpa leve (muito leve); a certeza de que, para o ano, ia gerir melhor aquilo
Claro que não geria.
Porque a adolescência é isso mesmo: um período em que acreditamos que somos estrategas brilhantes… enquanto estamos de boca cheia de chocolate, escondidos atrás de uma porta, a fazer silêncio como se isso nos tornasse invisíveis.
E, no fundo, a Páscoa era perfeita assim, uma mistura de família, exagero e açúcar suficiente para alimentar memórias… e ligeiras indisposições durante anos.
Mas amanhã ela faz anos e eu vou comer chocolate... adivinho a julgar pela memória.
Sanzalando
Pertinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais - A Inteligência Artificial e a nossa
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdícel
3 de abril de 2026
fui á praia em dia de vento
Ah, é clássico ir à praia com vento. Aquele momento em que sonho ser um atleta de surf e tudo se transforma rapidamente num documentário sobre sobrevivência no deserto.
Tudo começa com um optimismo perigoso. O céu azul, o sol brilha e eu ignorei o facto de que as palmeiras na avenida estavam a fazer um ângulo de 45 graus para além das suas folhas imitarem um mar bravo, apenas a julgar pelo som. É só uma brisa digo eu, num pensamento em voz alta.
O primeiro desafio foi fugir de um guarda-sol que passeava solto e aos rebolões no areal. Tentei segurá-lo mas ele tinha a força de um paraquedas e até parecia queria me levar com ele. Lá consegui fechá-lo e entregar à dona que se desfez em agradecimentos que até parecia eu era o salvador da pátria, numa guerra que ela travava com o dito desde faz algum tempo, como me disse. O guarda-sol virava do avesso instantânea e insistentemente, transformando-se numa antena parabólica gigante captando sinais de satélite de Marte ou sei lá de onde soprava o vento. Ouvi, sorri e segui.
Decidi que era hora de comer uma sandes. Grande erro. No momento em que abri o papel que a embrulhava, a física deu show. O vento soprou a alface para o mar e, em troca, depositou generosamente cerca de 200 gramas de areia de quartzo refinada dentro do meu pão.
- Não é areia - pensei, mastigando com o som de vidro partido - é textura, é o tempero da natureza a dar o seu ar crocante.
Tentar passar protetor solar pelo meu corpo mas foi a gota d'água que transbordou a minha paciência. O meu corpo parece virou adesivo e em cinco minutos, eu não era mais uma pessoa; eu era um panado humano. O cabelo virou uma escultura abstrata de nós impossíveis de desatar e as toalhas voaram como fantasmas em direção ao horizonte, forçando-me a fazer um sprint olímpico pela areia quente enquanto gritava num silencio raivoso.
Desisti quando vi outro guarda-sol navegando aos trambolhões direito a mim. Juntei as minhas coisas (e voltei para casa.
O vento não é um fenômeno meteorológico na praia. Ele é um teste de caráter. E eu fui reprovado.
2 de abril de 2026
Faz conta eu vou escrever sobre mim
Falar de João Carlos Carranca é meter-me num território delicado: não porque seja difícil, mas porque há sempre o risco de já ter dito melhor e com mais graça num antigamente na vida. Mas faz de conta sou outro que vou escrever sobre mim. Uma selfie de palavras.
João Carlos Carranca tem aquela qualidade de parecer uma pessoa perfeitamente normal até abrir a boca ou escarafunchar um texto. A partir daí, tudo pode acontecer: uma observação banal transforma-se numa crónica, uma conversa de café vira reflexão filosófica, e uma simples ida à padaria pode acabar como material literário digno ou pelo menos de uma boa gargalhada entre amigos. Às vezes não. Mas é normal.
Dizem que há pessoas que escrevem. João Carlos Carranca não escreve, ele coleciona episódios da vida e depois devolve ligeiramente inclinados para o lado do humor. E é nesse ligeiramente que está o truque, não exagera ao ponto de perder a verdade, mas também não é discreto ao ponto de a deixar passar despercebida.
Há quem tenha uma memória selectiva. João Carlos Carranca tem uma memória criativa. Lembra-se das coisas como elas foram, porém de forma melhorada. Não é mentira, é edição artística e é verdade mesmo que não tenha acontecido. Se um dia caiu de bicicleta, não foi uma queda, foi um momento de interação inesperada com o asfalto, provavelmente observado por três testemunhas e um cão com opinião própria.
E depois há aquela relação peculiar com o quotidiano. Onde a maioria vê rotina, ele vê argumento. Onde os outros veem aborrecimento, ele vê potencial para qualquer coisa. É como se tivesse um radar interno que apita sempre que a realidade começa a levar-se demasiado a sério.
Mas o mais curioso é isto: João Carlos Carranca escreve com humor, sim, mas nunca é só para rir. Há sempre ali qualquer coisa que fica a vagabundear, uma pequena verdade escondida no meio da graça. A pessoa ri… e depois pensa: “espera lá, isto afinal tem mais do que parecia”.
No fundo, João Carlos Carranca é aquele tipo de cronista que nos faz desconfiar do próprio dia-a-dia. Porque, depois de o ler, já não conseguimos olhar para uma situação banal sem pensar: “isto, bem visto, dava uma crónica”.
E isso é perigoso. Muito perigoso. Porque de repente qualquer um de nós pode estar a viver sem saber dentro de um texto dele.
Foi o melhor retrato que fiz este ano de mim. Abusado. Convencido. Quem me dera ser assim.



