Por isso, quando a Isabel me apareceu à porta em pleno 23 de junho de 1979, a minha resposta inicial foi a de costume: um perentório "nem penses".
- O país está a mudar, pá! Estamos em 79, a Ribeira está viva como nunca! Vamos lá abaixo, tomamos um copo e esqueces a crise existencial por uma noite!"
Argumentei, refilei, protestei, amaldiçoei. Até argumentei que a humidade da noite fazia mal à garganta e que não via graça nenhuma a andar a vaguear por ruelas íngremes entre multidões sobredotadas de entusiasmo e parcas em sentido prático. Mas a Isabel arrastou-me. E lá fui eu, contrariado, de casaco leve e espírito murcho.
Anos 70 a terminar. O São João já não era só a festa tradicional dos velhos que eu ouvia na Cristal; tinha uma energia nova, libertadora, de um Portugal que ainda estava a aprender a celebrar nas ruas. Mas para mim o teste começou logo nas Fontainhas.
Não dei dez passos sem ouvir o som que viria a perseguir-me a noite toda: ploc, ploc, ploc. O martelo de plástico, essa invenção diabólica de borracha e apito descarregado sem piedade na minha cabeça incipiente e sem paciência. Ploc. Boas festas, vizinho! Ploc. Olha o alho-porro, gajo! Sim, os mais puristas ainda mantinham a haste de alho-porro a roçar nas narinas dos festejantes.
A princípio, praguejei entre dentes. Mas à terceira martelada na cabeça, acompanhada pela gargalhada genuína de uma rapariga de calças à boca-de-sino e ramo de manjerico na mão, o meu ceticismo começou a desarmar. Há qualquer coisa de profundamente democrático numa festa onde um doutor e um trolha se dão mutuamente com um martelo de brinquedo na cabeça e se riem do assunto. A descida em direção à Ribeira era um espetáculo de fumo e cor. Em cada esquina havia um grelhador improvisado em cima de tijolos, atirando um aroma a sardinha assada sobre pão e carvão incandescente. O vinho martelado, servido em copos de plásticos descartáveis que começavam a popularizar-se, descia como um néctar depois do segundo copo.
Pelas tantas da madrugada, em pleno coração da Ribeira, dou por mim a fazer o impensável:
A saltar uma fogueira de braços dados com desconhecidos com as dobras das calças perigosamente perto das chamas;
A olhar para o céu com a boca aberta, fascinado com as dezenas de balões de papel de seda a subirem vagarosamente sobre o rio Douro, arriscando incendiar a ponte D. Maria a qualquer momento;
A abraçar a Isabel, que eu tinha amaldiçoado três horas antes, enquanto cantávamos uma quadra popular fora de tom.
O Douro refletia as luzes da cidade, os barcos rabelos parados nas margens e o reflexo do fogo-de-artifício que fechava a noite numa apoteose de estrondos e fumo.
Regressei a casa já o sol já tinha nascido no dia 24, com os sapatos gastos, a camisa a cheirar a fumo e sardinha, e o apito de um martelo de plástico ainda a ecoar-me nos ouvidos como se fosse uma gravação.
Olhei-me ao espelho, despenteado e cansado como raramente estive e a ri-me sozinho. Eu, que não gostava do São João, tinha deixado a alma e a má disposição naquelas ruelas de pedra. Naquela noite de 1979, o Porto ensinou-me que há rituais a que não vale a pena resistir e o melhor é mesmo vestir o casaco e ir.
Nos anos seguintes não faltei.









