A Minha Sanzala
Rádio Portimão
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Conversas à Mesa
9 de abril de 2026
Sentei-me na sala de espera
8 de abril de 2026
Programa K'arranca às Quartas 113
7 de abril de 2026
baile de pré finalistas
Éramos do 6º ano e preparávamos os fundos para a viagem do ano seguinte em que íamos ser finalistas do Liceu. Organizámos um baile no Clube Náutico que às vezes era o Casino dos mais velhos. A Nota ia abrilhantar o baile. Eles eram bons apesar de serem nossos colegas e um pouco mais velhos. Tinha uma parte que eram os Mini-Nota quem ia tocar. Faz conta eram os júniores dos mais velhos.
O baile começava às nove, mas às oito já havia adolescentes em modo estátua nervosa encostados às paredes, como se fossem decoração patrocinada pela timidez. Uns eram da organização a julgar pelas ordens gritadas, outros eram só os que não perdiam um baile.
A música estava ensaiada e acho eles sabiam a ordem de tocar. A primeira música foi tão antiga que até o silêncio entrou em sinal de respeito porque o baterista se perdeu no respeito histórico e estavam todos a olhar para ele que até pararam de tocar os instrumentos de cada um. Quem dançava, assim num ápice, passou a fazer dança tribal ao som daquele toque de bateria, deve ter pensado era música nova. Mas depois tudo encarreirou e o baile continuou.
Os rapazes estavam divididos em dois grupos: os que fingiam que não queriam dançar e os que fingiam que sabiam dançar. As raparigas, por sua vez, estavam organizadas numa espécie de conselho estratégico, avaliando cada passo como se estivessem a escolher um mister. Para mim estava a ser o meu baile fúnebre. Era da organização e aquilo não me estava a correr bem. Ela não me olhava e quando me falava era em sentido de ordem. Alguém me perguntou:
- Vais convidá-la para dançar?
- Estou a analisar a situação. - isto para não dizer que estava mais atrofiado na vergonha de andar por ali de fato e gravata do que por não saber dançar.
No centro da sala, um casalo decidiu dançar e dar show. Cinco segundos depois, já tinha fãs. Dez segundos depois, já tinha imitadores. Quinze segundos depois, não havia lugar na pista de dança.
Entretanto, junto à mesa das bebidas, que, misteriosamente, acabavam sempre mais depressa do que a lógica previa, formava-se o núcleo duro das conversas profundas:
- Achas que ela gosta de mim?
- Não sei, mas ela conhece bem a tua história...
Isto, para adolescentes, é praticamente um pedido de casamento.
O momento alto da noite chegou com a chamada “música lenta”. De repente, o baile transformou-se num documentário sobre pinguins: todos aos pares, mas com uma distância respeitosa de meio metro, como se houvesse um campo de força invisível entre eles.
Um rapaz, com coragem emprestada por dois copos de sangria, aproximou-se:
- Queres dançar?
Ela respondeu:
- Pode ser.
E ali começou uma coreografia digna de estudo científico: mãos que não sabiam onde ficar, pés que se atropelavam, e olhares que evitavam qualquer contacto direto, como se isso pudesse provocar um curto-circuito emocional.
No final da música, separaram-se com um “ok” tímido, mas interiormente ele já estava a planear nomes para os filhos.
Quando o baile acabou, ninguém queria ir embora. Não porque estivesse assim tão bom, mas porque sair significava admitir que, afinal, aquilo foi exatamente o que todos esperavam: um caos delicioso, cheio de nervosismo, sumos misteriosos e romances que duram… pelo menos até segunda-feira.
E no dia seguinte, na escola, ninguém falou muito do baile. Mas toda a gente sabia exatamente quem dançou com quem.
Porque há coisas que não precisam de ser ditas, especialmente quando já estão espalhadas em todas as turmas.
6 de abril de 2026
Chuva no deserto e outras coisas
Faz muitos anos que estava a conversar com o meu avô Serafim, na varanda a olhar para uma casa que havia para lá da dele, que por acaso é onde eu morava. A dele. A outra é outra estória que tem aniversário hoje e por isso foi aqui rasantemente abordada e não interessa nesta estória. E o meu avô me dizia:
- No deserto do Namibe, quando chove, ninguém acredita. Nem o próprio deserto. As nuvens aparecem tímidas, como quem entrou no sítio errado. Ficam ali a pairar, a cochichar entre si, mais ou menos a dialogar entre elas:
- “Tens a certeza que é aqui?”
- “Olha… diz aqui ‘Namibe’. Mas isto não era suposto ser seco?”
O meu avô Serafim tinha paciência que nem santo, para conversar coisas sérias comigo. E tinha aquela voz que só avô sabe ter quando quer contar uma história que não é estória, é sabedoria.
E o deserto, habituado a anos e anos de dieta de água rigorosa, olha para o céu desconfiado e diz:
- “Vocês não vêm estragar isto, pois não?”
Mas vieram.
Primeiro cai uma gota. Uma. Solitária. Tão rara que até tem direito a aplausos. Um lagarto pára, olha, e faz um comentário existencial:
- “Isto foi… emoção ou chuva?”
Depois caem duas, três… e de repente, como quem abre a torneira no máximo, aquilo transforma-se numa festa descontrolada. O deserto entra em pânico:
- “Calma! Eu pedi um bocadinho, não foi um dilúvio completo!”
Aqui a voz do meu avô parecia aquela voz dos documentários antes da matiné de domingo.
E então acontece o caos, dependendo do ponto de vista: enxurradas!
A água, que não sabe bem o caminho porque nunca lá tinha passado, começa a correr à toa:
- “É por aqui!” - grita um riacho
- “Não, é por ali!” - grita outro
- “Sigo o mais inclinado!” - diz um que é mais expedito
E eu notava a voz do meu avô Serafim a ficar empolgado que nem artista de teatro.
E lá vão eles se unindo de modo a formar rios improvisados, a arrastar areia, pedrinhas e a dignidade de quem dizia há cinco minutos:
- Aqui nunca chove.
Nós, os experientes, que já vimos muitas chuvas de deserto, olhamos e dizemos com um ar muito técnico:
- Pronto… lá está o deserto a exagerar outra vez, a mandar a sua areia ocupar a cidade.
Porque no Namibe não há meio-termo. Ou está tudo seco ao ponto de se ouvir a areia a suspirar… ou chove como se o céu tivesse acumulado séculos de dívida e resolvesse pagar tudo de uma vez, com juros e dramatismo.
No fundo, o deserto do Namibe é como aquela pessoa que nunca chora… mas quando chora, inunda a sala inteira, porque chora acumulado.
E depois, passado o espetáculo, volta tudo ao normal. O sol aparece, seca a confusão e o deserto recompõe-se, ajeita a areia e diz, com ar muito digno:
- “Isto? Foi só uma garoa.” - e amanhã até parece é um jardim de capim verde.
Depois, virou-se para mim e me perguntou:
-Gostaste da história ou estavas com atenção a outra varanda?
5 de abril de 2026
Páscoa de faz tempo
Na minha adolescência, a Páscoa não era bem uma celebração religiosa, era mais um campeonato de resistência… ao chocolate e às amêndoas. Acho que não as havia lá. Mas eu achar não quer dizer eu saber mas isso pouco importa agora. O que eu sei é que hoje é Páscoa e ela faz anos amanhã. Mas eu quero é falar da Páscoa porque a Páscoa lá em casa começava com solenidade: mesa posta, toalha branca que só via a luz do dia duas vezes por ano, e uma galinha que parecia ter dado a vida não por fé, mas por teimosia, já que o cabrito era caro e só de encomenda. A minha avó fazia questão de lembrar que aquilo era tradição. Eu, com 14 anos, achava que tradição era comer até não conseguir levantar da cadeira e nisso estávamos todos de acordo.
Mas o verdadeiro drama começava depois: os ovos de chocolate.
Na adolescência, há uma lei universal quanto maior o ovo, maior o estatuto social. E eu tinha um problema grave: recebia sempre ovos simpáticos, porque simpaticamente tinham o tamanho dos ovos de perdiz. Aqueles ovos que pareciam dizer-me gostamos de ti, mas não exageremos, porque não somos de avestruz.
A Páscoa ensinou-me muito cedo que a partilha é uma ideia bonita… desde que não seja com o nosso chocolate.
Depois vinha o momento crítico que era o almoço. E aqui tentava o meu plano secreto que era comer pouco para guardar espaço para o chocolate e para o leite creme que ficava na janela da despensa a arrefecer. Um erro clássico de principiante porque a minha mãe tinha outra estratégia que era dizer-me que só saia da mesa depois de repetir o galo ou galinha que naquela hora eu já só tinha olhos de chocolate.
Repetir. Palavra que destruiu sonhos e planos de açúcar durante anos.
Saía da mesa cheio, emocionalmente abalado, e com um ovo de chocolate a olhar para mim como quem diz: agora aguenta.
Mas adolescente não desiste. Uma ou duas horas depois, lá estava eu, em missão clandestina, a abrir o ovo com a delicadeza de um cirurgião… ou de um ladrão pouco experiente.
O problema é que chocolate faz barulho. Muito barulho. Aquele crack traiçoeiro ecoava pela casa como um anúncio público: alguém está a cometer excessos! - gritava-me a consciência
E, inevitavelmente, surgia a voz da minha mãe depois de ouvir os meus pensamentos:
— Já estás a comer chocolate outra vez?!
Outra vez? Era a primeira… naquela hora.
No fim do dia, a Páscoa deixava-me três coisas: dor de barriga; culpa leve (muito leve); a certeza de que, para o ano, ia gerir melhor aquilo
Claro que não geria.
Porque a adolescência é isso mesmo: um período em que acreditamos que somos estrategas brilhantes… enquanto estamos de boca cheia de chocolate, escondidos atrás de uma porta, a fazer silêncio como se isso nos tornasse invisíveis.
E, no fundo, a Páscoa era perfeita assim, uma mistura de família, exagero e açúcar suficiente para alimentar memórias… e ligeiras indisposições durante anos.
Mas amanhã ela faz anos e eu vou comer chocolate... adivinho a julgar pela memória.
Sanzalando
Pertinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais - A Inteligência Artificial e a nossa
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdícel
3 de abril de 2026
fui á praia em dia de vento
Ah, é clássico ir à praia com vento. Aquele momento em que sonho ser um atleta de surf e tudo se transforma rapidamente num documentário sobre sobrevivência no deserto.
Tudo começa com um optimismo perigoso. O céu azul, o sol brilha e eu ignorei o facto de que as palmeiras na avenida estavam a fazer um ângulo de 45 graus para além das suas folhas imitarem um mar bravo, apenas a julgar pelo som. É só uma brisa digo eu, num pensamento em voz alta.
O primeiro desafio foi fugir de um guarda-sol que passeava solto e aos rebolões no areal. Tentei segurá-lo mas ele tinha a força de um paraquedas e até parecia queria me levar com ele. Lá consegui fechá-lo e entregar à dona que se desfez em agradecimentos que até parecia eu era o salvador da pátria, numa guerra que ela travava com o dito desde faz algum tempo, como me disse. O guarda-sol virava do avesso instantânea e insistentemente, transformando-se numa antena parabólica gigante captando sinais de satélite de Marte ou sei lá de onde soprava o vento. Ouvi, sorri e segui.
Decidi que era hora de comer uma sandes. Grande erro. No momento em que abri o papel que a embrulhava, a física deu show. O vento soprou a alface para o mar e, em troca, depositou generosamente cerca de 200 gramas de areia de quartzo refinada dentro do meu pão.
- Não é areia - pensei, mastigando com o som de vidro partido - é textura, é o tempero da natureza a dar o seu ar crocante.
Tentar passar protetor solar pelo meu corpo mas foi a gota d'água que transbordou a minha paciência. O meu corpo parece virou adesivo e em cinco minutos, eu não era mais uma pessoa; eu era um panado humano. O cabelo virou uma escultura abstrata de nós impossíveis de desatar e as toalhas voaram como fantasmas em direção ao horizonte, forçando-me a fazer um sprint olímpico pela areia quente enquanto gritava num silencio raivoso.
Desisti quando vi outro guarda-sol navegando aos trambolhões direito a mim. Juntei as minhas coisas (e voltei para casa.
O vento não é um fenômeno meteorológico na praia. Ele é um teste de caráter. E eu fui reprovado.
2 de abril de 2026
Faz conta eu vou escrever sobre mim
Falar de João Carlos Carranca é meter-me num território delicado: não porque seja difícil, mas porque há sempre o risco de já ter dito melhor e com mais graça num antigamente na vida. Mas faz de conta sou outro que vou escrever sobre mim. Uma selfie de palavras.
João Carlos Carranca tem aquela qualidade de parecer uma pessoa perfeitamente normal até abrir a boca ou escarafunchar um texto. A partir daí, tudo pode acontecer: uma observação banal transforma-se numa crónica, uma conversa de café vira reflexão filosófica, e uma simples ida à padaria pode acabar como material literário digno ou pelo menos de uma boa gargalhada entre amigos. Às vezes não. Mas é normal.
Dizem que há pessoas que escrevem. João Carlos Carranca não escreve, ele coleciona episódios da vida e depois devolve ligeiramente inclinados para o lado do humor. E é nesse ligeiramente que está o truque, não exagera ao ponto de perder a verdade, mas também não é discreto ao ponto de a deixar passar despercebida.
Há quem tenha uma memória selectiva. João Carlos Carranca tem uma memória criativa. Lembra-se das coisas como elas foram, porém de forma melhorada. Não é mentira, é edição artística e é verdade mesmo que não tenha acontecido. Se um dia caiu de bicicleta, não foi uma queda, foi um momento de interação inesperada com o asfalto, provavelmente observado por três testemunhas e um cão com opinião própria.
E depois há aquela relação peculiar com o quotidiano. Onde a maioria vê rotina, ele vê argumento. Onde os outros veem aborrecimento, ele vê potencial para qualquer coisa. É como se tivesse um radar interno que apita sempre que a realidade começa a levar-se demasiado a sério.
Mas o mais curioso é isto: João Carlos Carranca escreve com humor, sim, mas nunca é só para rir. Há sempre ali qualquer coisa que fica a vagabundear, uma pequena verdade escondida no meio da graça. A pessoa ri… e depois pensa: “espera lá, isto afinal tem mais do que parecia”.
No fundo, João Carlos Carranca é aquele tipo de cronista que nos faz desconfiar do próprio dia-a-dia. Porque, depois de o ler, já não conseguimos olhar para uma situação banal sem pensar: “isto, bem visto, dava uma crónica”.
E isso é perigoso. Muito perigoso. Porque de repente qualquer um de nós pode estar a viver sem saber dentro de um texto dele.
Foi o melhor retrato que fiz este ano de mim. Abusado. Convencido. Quem me dera ser assim.
1 de abril de 2026
Programa K'arranca às Quartas 112
31 de março de 2026
O Diagnóstico Precoce
Crescer querendo ser médico é viver numa forma de sonho constante, temperado por uma boa dose de ironia. Afinal, a medicina é a arte de manter a calma enquanto o resto do mundo está, tecnicamente, em pânico e alguns até que acabam morrendo. E nada mantém melhor a calma do que um bom senso de humor.
Eu sempre achei que o bom humor é uma anestesia que a natureza nos deu de graça. Imagine a cena: o paciente entra no consultório, pálido, segurando um resultado de exame que ele num momento de pura audácia já "diagnosticou" no Google como sendo uma doença rara. Felizmente naquela altura ainda não havia essas invenções que levam ao desespero, à desinformação e à depressão, só para ficar tudo dependente do D.
Neste momento, o médico tem duas escolhas:
- Ser o bastião da seriedade e explicar que o Google não tem curriculum válido ou reconhecido ou usar o humor para dizer: "Olha, a boa notícia é que, para ter essa doença, você precisaria ter nascido em 1740 e comido uma raiz específica que só cresce na Lua. Como você parece bem para quem tem 300 anos, vamos olhar para o seu físico"
Mas a jornada para lá chegar não é feita só de gargalhadas. Existiu o liceu, aquela entidade mística que exige que você saiba a fórmula química da ardósia, o poder da OPAN para mais tarde, finalmente, poder perguntar a alguém: "Onde dói?". É uma tortura que só faz sentido se você conseguir rir do absurdo de estudar física quântica para tratar uma unha encravada. Sim... eu sei que naquela altura a física era quanticamente proporcional a saia da professora.
E depois, claro, vem a lendária letra de médico. Eu que a tinha tão redondinha que até dava gosto ler, perdi-a com o passar do tempo. Agora escrevo e para além da senhora da farmácia talvez eu em dia de sol consiga decifrar. A minha lista de compras atual parece um eletrocardiograma de alguém que acabou de correr uma maratona, com espaços em branco para respirar fundo.
No fundo, ser médico com humor é entender que o corpo humano é uma máquina fascinante, mas ocasionalmente ridícula. É saber que, entre um banco de 36 horas e um café que mais parece asfalto líquido, o que nos mantém de pé não é apenas o juramento de Hipócrates, mas a capacidade de rir de nós mesmos.
Se a vida é uma doença terminal, onde todos acabam por morrer, como dizem os poetas mais pessimistas, que pelo menos o médico seja aquele que, enquanto te examina, consegue te arrancar um sorriso. Porque a ciência cura o corpo, mas é a piada (no momento certo) que salva a alma do cansaço.
30 de março de 2026
EMSAMBLE Al-Nisa - Música no Museu
29 de março de 2026
Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair do Clube União Portimonense
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Desta Tertúlia nasceu este pertinências 4. Imperdícel
28 de março de 2026
Brincámos e éramos felizes - mas tenho memória e sou-o
Esta não é uma estória de dunas gigantescas, caravanas de camelos ou miragens com água fresca, infelizmente. Esta é uma estória sobre a fronteira do deserto, onde o Namibe encontra a civilização ou pelo menos o muro da Junta autónima das estradas. É assim mais ou menos onde a areia não é uma paisagem romântica mas um inimigo determinado a invadir cada orifício do meu corpo se a aragem vira vento.
Conheçam a minha trupe de intrépidos exploradores: o Manel, com a sua energia inesgotável e total desrespeito pela falta de humor; o Beto, líder autoproclamado e inventor de jogos, para além de ser o dono da viola; e Ferrão, o cauteloso, cuja principal é não ter cautela com coisa nenhuma; o Mamede, preocupado com as notas que não eram de dinheiro. Claro que não vou pôr aqui nenhum nome delas porque elas não iam connosco para as areias quentes do deserto.
Era um sábado escaldante. O céu estava de um azul tão intenso que parecia pintado, e o sol batia com a força de um martelo num prego enferrujado. O local escolhido para a aventura do dia não era uma duna imponente, mas sim uma modesta acumulação de areia que se formava nos limites da cidade que para uns era grande e para outros era pequenina.
"Muito bem,gente!", anunciou o Beto, de pé no topo do maior monte de areia (que devia ter uns impressionantes trinta centímetros de altura)
- O objetivo de hoje é conquistar o Forte Solitário e defender o nosso território contra os temíveis Invasores da Poeira!
O Manel soltou um grito de guerra, que se transformou rapidamente numa tosse ruidosa quando uma rajada de vento lhe mandou uma quantidade generosa de areia diretamente para a boca.
- Arg! Areia! É ... saiu palavrão, que a minha caneta não sabe escrever, enquanto cuspia e limpava a cara com a manga da camisola, o que só serviu para espalhar a areia ainda mais.
Ferrão, entretanto, estava empenhado num ritual meticuloso de bater os pés um no outro para desalojar cada grão que se atrevesse a aproximar dos seus ténis que deveriam ser novos.
- A sério, malta? Areia? Podíamos estar a jogar no parque infantil. Sem areia nos sapatos.
Beto ignorou as queixas.
- Mamede, tu e o teu exército ficam no Forte. Eu e o JC atacamos!.
O jogo começou. O Manel e o Ferrão defenderam o forte imaginário com unhas e dentes, ou melhor, com punhados e punhados de areia. A tática de ataque de Beto e meu envolvia saltos dramáticos sobre os pequenos montes de areia e gritos de guerra que pareciam mais guinchos de pânico cada vez que a areia nos entrava nos olhos.
A certa altura o Manel, no auge do seu entusiasmo defensivo, atirou um punhado de areia com tanta força que este voou muito além de nós e atingiu uma carocha inocente que passava calmamente por ali.
A batalha foi interrompida momentaneamente pela gargalhada geral (exceto do Beto, que estava a tentar limpar o corpo daquela bola de areia).
A tarde passou num turbilhão de areia e risos. Inventámos novos jogos: "Quem Consegue Ficar Mais Sujo de Areia em Dez Segundos?" houve quem ficasse irreconhecível, "Corrida de Obstáculos com Areia nos Sapatos" (perdeu o Ferrão que não quis sujar os quedes porque deviam ser novos) e "Construção do Maior Castelo de Areia Que o Vento Não Consiga Derrubar nos Próximos Dois Minutos" (o castelo sobreviveu por uns impressionantes dez segundos antes do Manel se atirar sobre ele).
Quando o sol começou a descer no horizonte, pintando o céu de tons de laranja e rosa, a trupe de exploradores estava exausta e coberta de areia. Mas não era apenas uma camada superficial. Era areia no cabelo, areia nas orelhas, areia nas meias, areia nos bolsos.
Ao regressarem a casa, o som das suas passadas era um mistério rítmico de grãos a raspar contra o tecido e a borracha. Ao entrarem na cozinha, a minha mãe olhou para nós e suspirou.
- Bem, parece que o deserto decidiu vir visitar-nos - disse ela, com um sorriso divertido - Preparem-se para um banho tão longo que vão esquecer que cor têm os vossos corpos.
No meu caso o ralo da banheira acho ficou entupido de areia. A banheira parecia uma praia em miniatura.
Brincar no início do deserto pode não ter sido uma aventura épica com tesouros escondidos e dunas gigantescas. Mas foi uma tarde cheia de humor, risos e uma quantidade tão impressionante de areia que nunca mais olhámos para uma simples caixa de areia da mesma maneira. Afinal, a areia não é apenas um material. É uma companheira de brincadeiras irritante, invasiva e, por vezes, muito divertida.
Hoje apetecia-me ir brincar na areia. Mas falta o Manel e o Ferrão ao que eu sei. Dos outros nunca mais soube nada. Crescemos, é só o que eu sei.
Ficou a memória








