Navega à vontade que a Sanzala é segura, mesmo que te pareça lenta!
A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

20 de novembro de 2018

#mangueira


sol e chuva num momento

Sol. Chuva. Sol. Chuva.
Intermitência no tempo.
Altos e baixos na minha voltagem corporal.
Fico em silêncio e em silêncio grito. Grito de revolta, grito de alegria, grito apenas. Em silêncio.

Deixo-me pensar que sou apenas um pensamento meu, enquanto chove e sou eu enquanto faz sol. O vento, feito de brisa, trás-me a maresia, o sorriso, o brilho nos olhos pelas lágrima inadvertida. 
Assim, o outono, faz-me lembrar a distância que me separa da essência da minha consciência. Lá longe, ao que me lembro, é verão. Animo-me e desanimo-me ao olhar para a chuva que se intercala com o sol, cada vez menos tempo deste.
A loucura me entende mesmo que eu não entenda a loucura.


Sanzalando

18 de novembro de 2018

É outono, outro modo de estar

Chove tormentas sopradas por ventos aluisados. Os alísios sopram de nordeste para sudoeste aqui para os lados do hemisfério norte, os aluisados sopram dum Luis para uma lado qualquer sendo que o Luis é o Zé Silva, ou seja ele quem for. Assim, com este tempo tormentado até parece que me venho despedir, agradecendo todas as letras que saem da minha cabeça deixando lugar para palavras novas que um dia usarei no ultimo escrito que escreverei. 
Os beijos, as carícias, a promessa do amor eterno, o limpar de lágrimas, os silêncios, tudo é o caminho da hibernação mental, é o recordar dum momento vivido, o entender duma dúvida, é um sonho convertido realidade.
Vim-me despedir e entrar no outono real, no cair da folha, no amarelecer da imaginação, no cruzar de abraços trocados perto da lareira
Olho nos olhos e não me os vejo vazios. É outono, outro modo de estar e de ser feliz.


Sanzalando

15 de novembro de 2018

lendo outono

Brilha o sol num cinzento outonal. É dia assim, outono cerrado. Me deixo embalar pelo marulhar do zulmarinho como se estivesse pronto para dormir. Mas ainda é cedo e não me apetece vagabundear madrugada fora até ser hora de levantar. Agarro um livro e ponho-me a pensar em vez de ler. Posso arrancar cada folha deste livro que não me apaga a memória. A vida que vivi está aqui, sempre presente e pronta para recordar. Sim, sei que não posso revivê-la. Mas quem foi que falou que recordar é mau? Aprendi com os meus erros. Se os repeti foi porque não aprendi direito à primeira. Não me torturo. A felecidade não é eterna. tal como a vida. Ser feliz não é fácil. Viver não é fácil. Sei que sofrer parece mais acessível, mais fácil porém é muito tóxico. Por isso vivo. Por isso tenho dias de sol brilhante e outros cinza. 
Não vou escrever dor porque isso não é saudável, assim, leio um livro que não rasguei e levo-me em memórias que não esqueci.


Sanzalando

13 de novembro de 2018

sofrer de outono aqui e verão lá

É outono. Lá é verão e chove. Daqui a pouco por lá vai passar a tifa para matar os mosquitos e eu sei correr atrás a respirar o fumo parece é brincadeira de muitos anos. Nunca ninguém disse faz mal aos pulmões e se calhar intoxica o cérebro e eu não sei como vou ficar no meu futuro. É, eu tenho futuro que já vivi no meu passado de boas recordações. Hoje eu vivo o futuro dos meus sonhos de criança porque os pesadelos eu esqueci ou não tive.
Eu não sou mais aquele que quer estar onde não está, que quer ter o que não pode, que não quer pensar o que pensa, que na incoerência se perde como se fosse um labirinto da estória de outros livros lidos.
Neste tempo só me vejo a remar contra corrente não sei se para encontrar ou me afastar de gente. Rapidamente dou comigo feito multidão, sigo-me na certeza de ter encontrado um caminho mesmo que siga para lado nenhum. Corro. Olho para trás e não paro, o mundo pode estar a dormir que eu acordo-o, mesmo que na minha insignificância esteja a sofrer de outono aqui e verão lá.


Sanzalando

cuido do mundo

Por aqui chuvisca e por lá faz sol de arrasar. Por aqui se fala e por lá se grita. Por aqui se chora  e por lá se canta. Estado de espírito outono verão.
Eu por aqui vou observando. Umas vezes calado, outras resmungando. O universo como está não foi feito para corações e almas puras. A minha alma limpa e depurada nos mais qualificados filtros da inteligência deambula pela minoria dos que sorriem, dança por entre benefícios colectivos, resvala por entre materialidades corrompidas e paira por brilhos de luz e altruísmos caritativos.
Afinal de contas é apenas outono e ainda faz sol, mesmo que seja de brincar e com as palavras soltas construo estradas por onde caminho livre de preconceitos e prisões ancestrais. Pelo menos na minha imaginação cuido do meu mundo

Sanzalando

11 de novembro de 2018

Tem dias assim. Outros não

Cai chuva que nem se vê. Faz frio que se sente. Outonomamente me dizem que lá do outro lado da linha recta que é curva finalmente começou o verão. Olho para lá e vejo que o mar encontrou o céu e mais não consigo ver. Sito o calor. Sinto o perfume e mais que tudo, sinto a saudade.
E assim neste tempo, com os pés no zulmarinho me sussurro um texto que ninguém escreveu, onde a saudade nem sei se entra, mas sei que sai do coração.
Tem dias que os dias pesam mais que outros dias, alguns o sol nem tem força para nascer. Tem dias que parecem não acabam por mais coisas que faço. Tem dias que parecem vazios, que não existe universo. Tem dias em que só apetece sentir o universo dentro de mim. Tem dias que a alma mesmo sendo bela se esquece de maquilhar. Tem dias assim. Outros não.



Sanzalando

8 de novembro de 2018

areia

Brilha sol enquanto chove e eu tremelico de frio. Outono, me disseram em sussurro. Ouvi e calei. Não consigo ser diferente. Podia responder porque sim, porque não ou talvez, mas ouvi e calei porque é outono mesmo.
E como é outono é vulgar ver-me por ai a vagabundear, sem rumo ou objectivo, sem prefácio nem posfácio, com letras soltas e parágrafos assimétricos na vã tentativa de criar problemas entre os meus fantasmas, seres irreais que deabulam no meu delírio mental.
Faz tempo, num tempo assim, que não controlo as marés nem me sento na areia de dor de perto ou de longe. A areia, minha despida alma, mostrando pegadas onde não é alisada pelo maré, onde as gaivotas repousam ao lado dos meus pedidos de perdão, é parte fundamental da minha existência, porque areia, fina ou grossa, enpenca qualquer engrenagem, relixam qualquer relação. 
Areia minha que me desculpe quando te sacudo dos pés.


Sanzalando

5 de novembro de 2018

brilho de outono

Brilha sol e cai chuva. Um misto verão e outono na mesma hora e se calhar no mesmo minuto. Parece o tempo anda perdido na insuficiência dum coração. É outono e sufoca de frio num desentendimento interpessoal. É verão e brilha a alma num contentamento altamente contagioso. Sanduichou o tempo. Misturou sentimentos. Mas tal como eu, o tempo não desiste e a vida, agasalhada ou despida, segue indesistida, umas vezes rasteirando, outras segurando, umas vezes fácil, outras difíceis, umas vezes alegre, outras tristees, umas vezes gargalhando, outras chorando.
É outono e quando eu achar que tem obstáculo impossível de passar, eu não corro. Tento só lhe vencer


Sanzalando

4 de novembro de 2018

vou passar a madrugada

Parece é verão. Um verão outonal, leve brisa refrescando o ar que vem do zulmarinho, pequeno assobio cantando nostalgias e eu de telemóvel na mão telemográfo o que os meus olhos vêem e a memória já é capaz de perder, registando o momento como se usasse uma velha nova máquina fotográfica.
Há quem diga que adora a madrugada e eu, com o passar dos tempos, passei a notar que a madrugada já não me mostra nada de novo senão um cacimbo peculiar, uma trovoada de pensamentos de futuro, umas insónias abafadas pelo silêncio, um intervalo entre o fim dum e o começar de novo dia. 
As madrugadas são para os que sofrem de amores, os loucos e poetas, boémios e líricos e que manhã cedo já não sentem nada.. São para os que carregam o peso da emoção, os tremores do universo, os que interiorizam as estrelas e têm a solidão por eterna companheira.São para os que amam as ruas vazias, o cintilar das estrelas, as luzes frouxas das ruas. As madrugadas são para os esquecidos que não se lembram que existe noite e dia.
Vou passar a madrugada até ser dia.

Sanzalando

2 de novembro de 2018

Tia Clarinha e D. Brites

Foi assim num repentemente que eu vi a casa onde morava a D. Brites, que era da Tia Clarinha, senhora pequena e magrinha. Eram amigas da minha avó e como todas as avós eram velhinhas. Pelo menos para mim. Já não sei era uma vez por mês ou por semana a minha avó lá ia visitar a D. Brites e a tia Clarinha. Eu, sem hipotese de escolha tinha de ir fazer companhia ás duas senhoras que falavam e falavam. Lebro-me que para além de tricot e da vida de uma ou de outra rapariga da idade delas, o que me fazia rir, de chamar rapariga na avó, falavam também da caridadezinha. As senhoras Vicentinas, acho eu era este o nome. Mas isso não vem aqui para esta lembrança. O que vem mesmo é que eu lembro da D. Brites sempre reclamar com o clima. Lá na Metrópole é que é bom, Saudável dizia ela. E a minha avó que não conhecia dizia no regresso a casa, um dia temos que ir a essa Metrópole, que é saudável e se calhar lá não se morre. E eu lá fui aprendendo aquelas coisas


testo publicado neste blog em 2004 e que por acaso resolvi republicar

Sanzalando

29 de outubro de 2018

congeladamente

Ai, mamã. Está frio que meus miolos se vão partir congeladamente. As ideias parece foram com o vento frio, que me disseram vem da Islândia. Nunca lá fui, porque é que mandam o frio deles para a gente? Mas assim até o zulmarinho se acinzenta de arrepio e a areia voa baixinho que lixa as pernas de quem de calções se passeia, faz conta é atleta.
Mas mesmo assim lá vou eu insistindo no meu caminhar por aí, degrau a passada ou vice versa que a arbitrariedade não é para aqui julgada. Rindo, sorrindo, sempre desejando o sol mas não regrido na clausura por isso. 
Positivo pensamento para a frente porque a tristeza é para outro dia que não quero ver chegar nunca.
Agradeço sorrindo até nas pessoas que passaram na minha vida e lhe quiseram dar uma volta com os meus sentimentos e depois lhes abandonaram por aí, num acaso dentro de mim. É, foi assim que eu sou quem sou. Eles me ajudaram.
É, a vida parece um problema difícil de resolver mas é só naquele instante, depois se aprende parece é lição dada por professor experiente.
Outonomamente se vai em frente,olhos protegidos do vento e corpo aquecido para não resfriar.


Sanzalando

21 de outubro de 2018

amizade outonal

Resplandeceu o sol que parece voltou com brilho de verão. O engraçado dele é que ele trás o sorriso nas caras carrancudas de outono e o brilho nos olhos mortiços da cinzenta manhã que parece não consegue romper o cacimbo da aurora.
Com o sol me trouxe tambem a vontade de ver o zulmarinho e meditar enquanto lhe caminho paralelo, assim num vagabundear de ideias aparentemente soltas mas se pegadas na ponta se vai até à outra ponta da meada, com muitas interrogações entremeadas.
A amizade vai para além da lealdade, do estar ao lado, do respeitar, do proteger ou guardar. Mete ai escutar, entressanduicha aí complementar ou abraça a ideia de ser a peça que falta num dado momento impreciso quando é preciso.
Assim vou eu aproveitando o sol de outono quase verão.
Junta nisso tudo aquela palavra que abriu a ferida, que consome a comodidade de estar de acordo, que deu assim um choque no peito que até parece uma chapada sem mão. Assim, tudo bem misturadinho e está a amizade. A verdadeira, aquelas que ficam independentemente do que quer que aconteça ao tempo de sol ou ao de relógio.


Sanzalando

19 de outubro de 2018

abraço de outono

Não sei sei já repararam mas os abraços são laços que unem as pessoas, são gestos que apertam corações e são doces carícias na alma que às vezes fazem brilhar os olhos. No outono, nos dias mais cinzentos do outono, os abraços podem aquecer como lareiras os corpos frios de sentimento.
Mas eu adoro abraços e não vou na bola com o outono. Aproveito os abraços e com eles vejo as estrelas que podem aparecer no céu desnublado do ar frio da noite.
Dou abraços e aveludo a minha voz porque não me apetece mais usar palavras duras de inferno. Dou abraços para apagar a ansiedade causada por qualquer dúvida ou por qualquer desnorte de tristeza.
Outonomamente te abraço


Sanzalando

17 de outubro de 2018

deslumbro-me de sol

Olha só o brilho deste sol de outono. Nem ponta de cacimbo. Vou me olhar no zulmarinho e me encontrar nos meus pensamentos, vou-me abrir por dentro e vasculhar-me num todo para descobrir tempos de ócio e saudade.
Vou procurar nesse brilho de sol onde se encontra a poeira do meu passado e com ela fazer um montinho dele e com ele saborear meu futuro num acto de ver cinema dentro de mim.
Deslumbrei-me de sol



Sanzalando

15 de outubro de 2018

cumprir outono

Chuvisca um cacimbo que nem dá para ver onde vou. Não porque é cerrado, mas só porque não dá jeito andar de olhos abertos e os óculos estão a deformar o caminho. Me deram um verão para delirar e agora me resta um outono para vagabundar-me em caminhos imagináveis ou de memórias feitos. Eu sei que a minha mãe dizia que eu quando fosse crescido ia compreender muita coisa que me levava a fazer birra naquela altura. Parece ainda não cresci uma vez que ainda não entendo muita coisa que passa nesse verão da vida.
Não vou nem sou de prometer o que quer que seja. Pavor de não cumprir ou se é para fazer que seja, estas as razões.
Eu vou cumprir o outono levando o meu sorriso, a minha energia e a minha memória e quem sabe algum crescimento. Quanto a promessas prometo que vou rir, mesmo que seja riso idiota, vou partir em aventuras mesmo que seja uma aventura sair de casa em dia de frio ou chuva. Prometo ser um porto seguro se ninguém precisar dele. Vou comer bolos e chocolate, vou andar de canal em canal num zapping pela vida. 
Vou cumprir o outono com frases desfeitas e palavras erradas, idas ao parque infantil, à saída da missa ou duma qualquer matiné, mesmo que seja numa folha de papel rabiscada numa letra que quase ninguém já sabe ler ou fazer.
Vou na minha bicicleta ao Forte de Santa Rita, à Torre do Tombo ou Aguada, Sanzala dos Brancos ou ao Benfica. Vou só porque sim e porque a bicicleta não tem travões e a minha memória já não tem espaço livre de passado a desvendar.
Chegou o outono e eu paludismei-me de ideias delirantes e quem sabe escrevantes. 
Eu vou só cumprir o Outono.



Sanzalando

12 de outubro de 2018

vagueando neurónios

Pardacento tempo que chegas quando eu te queria de sol alto e brilhante.Aqui, onde o zulmarinho me embala em pensamentos melancólicos, em ares bucólicos e divagações vazias de palavras porem carregadas de sentir, digo que a verdadeira medida do amor é o amor desmedido.
Sim, eu sei, que a tristeza do tempo outonal me leva a esta atonia mental, a este sabor a mentol ou somente ao estar aqui a ver a linha recta que é curva se aproximar na minha cada vez pior visão.
Aqui sentado tenho coisas que não perco mas que simplesmente de livro delas numa meditar sobre as ondas revoltas que rebolam na areia.
Bem, acho que a melhor maneira de eu viver o meu futuro é lhe criar, de raiz sólida e ramos ao vento que as folhas caiem arritmadamente.


Sanzalando

10 de outubro de 2018

vidas amando

Olha só o pardacento sol a esbater de rés-vés no zulmarinho lhe empalidecento num quase cinzamarinho. Não me alegro porém não me entristece. Fico só assim num modo desajeitado de estar e neste modo eu poderia falar spbre cada detalhe do meu passado memorizado e já sem distinguir a realidade da imaginária fase da adolescência. Poderia estar para aqui a beijar os rostos que me chegam na imagem ainda nítida do passado. 
Afinal de contas eu poderia passar várias vidas só amando tudo o que fiz, que queria fazer ou que imaginei ter feito.



Sanzalando

7 de outubro de 2018

Fácil outono

Palidez do ar não esconde o quente zulmarinho que marulha aos meus pés numas ondinhas de timidez. Transpiro ferozes ais dum paludismo de memória. Paludismei-me. Quem me disse que eu conseguia parecer fácil o que é difícil na realidade? Encharcado me atiro de cabeça ao zulmarinho. Delirio, penso. Convulsiva-me a alma, imagino. Cheguei ao estado de loucura, afirmo-me.
Afinal de contas é apenas um dia quente e ventoso de outubro e cacimbo-me de ideias reais que nunca aconteceram.
O zulmarinho está quente outonomamente.

Sanzalando

6 de outubro de 2018

mercado em outubro

Mesmo assim ainda faz calor.

O mercado está cheio, de gente, verduras e outras coisas como palavras soltas nas muitas conversas desafinadas. Está fresco dentro do mercado, as pessoas passam frescas, sorridentes aparentemente felizes. Sim, não são as pessoas taciturnas que correm com pressa para lado nenhum no dia a dia contrariado de viver. Aqui, no meio dos verdes e outras coloridas cores de frescuras frutas e leguminosas, onde existe o amor existêncial, substituto do amor carnal que afoga a alma no sobe e desce de descompreendidas fases da vida. Aqui, talvez contagio de perfumes do peixe fresco, do marisco que ainda mexe, da mistura de sabores com palavras soltas de kilo. ramo ou porção, com o sentir de vida em respiração suave, as pessoas riem e brincam marotas num alegre estar de dia de mercado cheio. 
Aqui não há sexo, há cestos, sacos e alegria num estado de amor em harmonia.
É outono no mercado.

Sanzalando

4 de outubro de 2018

Outonomamente nostálgico

Lusco fusco de outono em brilho de verão.

Elas passam, as folhas castanhas das muitas árvores da minha infância, varridas pela brisa que já não sopra do zulmarinho mas passa por ele a caminho de um sul.
Sento-me a olhar para lá, num longe que não sai da memória. Levo-me por caminhos andados e se calhar por outros que nunca andei mas conheço-os bem por tanto ter ouvida contar. Regresso à idade parva. Ao tempo em que namoriscar era mais importante do que me conhecer as raízes. Arrependo-me apenas por um instante porque logo descubro que cresci e foi assim. Ao contrário como eu teria sido e sou hoje?
Outonomamente nostálgico.

Sanzalando

2 de outubro de 2018

sol de outono

Não perdi a alegria de verão porem me deixo levar pela nostalgia do outono. São as folhas acastanhadas que se desprendem e voam livres no vento, são as andorinhas que partem em excursões que até parecem estavam combinadas para nas madrugadas partirem sem congestionar o céu amarelecido pelo sol sem força, são as pessoas que trazem o rosto carregado de sombra, mesmo que a sombra não seja visível.
Enfim, deixo de olhar tão fixamente para o zulmarinho, para o que me fala ou para a delicadeza que tinha no brilho forte do sol. É assim, nestes momentos que descubro que tenho muito mais a agradecer do que para pedir.

Sanzalando

29 de setembro de 2018

saudanado o outono

E num ápice nublou. Mas quase no mesmo instante fez-se luz novamente. É assim o dia a dia de cada um nesta transição para o outono. Mas o sol brilha e os reflexos no zulmarinho continuam a ser música para o meu coração, continua a ser o indicativo para a minha chamada telepática, para a minha constante primavera em flôr, para a presença permanente do amor em mim.
Sem hora, sem ponto e vírgula, sem data marcada, os meus olhos percorrem Setembro como se desenhassem a cor de café um rosto que eu ia jurar era o teu. Ao mesmo tempo ia dedilhar, como se escrevesse à maquina, num tampo da mesa de café uma melodia que eu ia dizer era a tua.
E para nós navego os meus olhos pelo zulmarinho fora, fosse eu um barco à vela.

Sanzalando

25 de setembro de 2018

outonomamente

Olha só que o calendário diz que outonou mas a realidade diz que o verão veio para ficar que nem o anúncio do antigamente. Assim continuo outonalmente a passear junto do zulmarinho que parece aqueceu de gostoso não lhe largar mais. Acho ainda vou treinar lhe nadar sem fim. Eu estou aqui, sem nada para lhe dar e ele dá-me o gosto de lhe gostar, num quase morrer de amores, sem frieza no coração para me afogar. Se eu estivesse fraco eu nadava só até ali, mas assim como estou, carregado de energia eu nado ao sabor da minha imaginação usando a maresia como inspiração e o marulhar como expiração.


Sanzalando

20 de setembro de 2018

verão que é verdade

Acho ainda é verão, ou verão que ele veio e não quer ir mais embora. Mas imaginemos que o ciclo está correcto. Ainda é verão mesmo que o sol não tenha aquele brilho que tinha no meio do verão. Vai acontecer mesmo é eu tomar conta das memórias deste verão como tomei dos anteriores mesmo quase desde antes de mim, se isso possível fosse. Mas na verdade cada verão é um verão diferente. Como eu me vou lembrar se este ou aquele foi antes do outro. É memória. Est´lá no armazém, empacotado, etiquetado memorizado. Tem qualquer coisa que faz a diferença. Uma lágrima, um sorriso, uma cara ou um simples momento. Todo o verão tem o seu momento. Olha o zulmarinho que parece um conjunto de lágrimas mas que sabe bem lhe mergulhar e arrefecer aquele fogo que às vezes a gente trás dentro parece arde até na alma. Eu vou cuidar da memória deste verão. Verão que é verdade.

Sanzalando

18 de setembro de 2018

em pleno verão de mim

Olha só essa hora que já nem parece ainda é verão. Parece hora a deixar cair minutos que nem outono. Imagina agora eu me esquecer de quem sou, me tornar assim dependente do sorriso ou carícia alheia e me deslembrar de ser feliz. Com um tempo assim até parece que podia ser possível. Mas ainda é verão, o zulmarinho ainda é zulmarinho, cordão umbilical da minha placenta, prolongamento almareado de mim e o lugar onde nasci.
Mas neste amarelo tempo, brilhante porem não encadeante, caminho por entre mapas, procuro as montras da memória ou imaginação, lugares comuns, palavras simples penduradas num cabide, tudo o que me possa levar até à semente da minha existência, em pleno verão de mim.
O zulmarinho me sossega nesta alvorada da minha estória, neste caminhar por carreiros serpenteando surpresas, represas e outras muitas impurezas, até que um dia eu vou chegar a ver o verão das cores quentes como tenho na memória.


Sanzalando

15 de setembro de 2018

hão de ver ainda

Ainda dá para andar à beira mar. Não está aquele brilho mas brilha e não tem aquele mar de gente tapando o zulmarinho. Circulo em círculos rectos paralelizando-me com o horizonte num para cá e para lá, fazendo números de cabeça, filosofando matemáticamente quadrados mentais. Me deixo levar embalado no marulhar, me embalo num tricotar de pensamentos soltos, embalo-me em frases feitas que desfaço ao sabor da maré. 
A amizade vai mais para lá do que lealdade, ficar ao lado, respeitar, amar no sentido lato sem lata ou outro embrulho espartelhante. Protege, guarda, acaricia, completa, assim mais ou menos a areia e o mar nesta praia que navego-me diariamente num embalar de quebra cabeças em que a peça não cabe senão ali.
Ela pode tocar na ferida, fala verdade e pode dar choque. Ela está e pronto final.
É o que dá ser verão num hão de ver ainda


Sanzalando

13 de setembro de 2018

sol, doce sol

Sol. Meu doce sol. Caminho nesta praia ao som do zulmarinho como que a preencher o vazio das coisas mundanas e com a esperança que a emoção e o desejo não desapareçam na eternidade do esquecimento. Fui criança, adolescente e adulto me tornei. Embriaguei-me em festas e a desproposito, namorei e desnamorei como se o mundo acabasse nalgum instante. Percorri ruas de cidades quadriculadas e outras desarmadas procurando prazer no passeio, no ar que respirava e tudo o que fazia me ajudava no alimento da minha existência. A casa da D. Maria, s dos Fonsecas, dos Santanas, Adérito, Pinheiro e tantos outros que nem sei mais se as linhas da minha memória ainda se lembram fazem parte de todo o meu passado vazio que encho de recordações. Os olhos ainda vêem as mesmas casas, as mesmas pessoas os mesmos passeios de fim de tarde dum domingo de verão. Aqui na praia, ao sabor do zulmarinho ainda recordo os exageros do Artur Gomes, o barulho das carambolas no Aero-Clube ou as tesouradas nos cabelos do Sr. Olímpio. Nunca fiquei preso num pensamento porque ele não vai resolver o meu problema, não me vai devolver os amigos que partiram para parte incerta com a certeza que marcaram-me, não me vai trazer de volta as brincadeiras de criança, o carro a pedal que era mais pesado que eu porque ainda não havia os materiais que hoje existem. 
Sol, meu doce sol. Lembras-me os professores da primária, o Amaral, a Saavedra e a D. Maria; os do Liceu, uns que passaram a correr e outros me aturaram tantos os anos que lá andei. Nomes também sei, ocupam o vazio do meu passado em forma de memória.
É assim sol. O zulmarinho que me ature e me permita viver tudo outra vez que eu vou-lhe dar uma dose de ouro de recompensa. 


Sanzalando

11 de setembro de 2018

paludismou-se o sol

O sol empalideceu parece paludismou-se mas o zulmarinho ali está marulhando contra a areia faz de conta quer invadir o meu lugar seco. Se eu fosse pica-pica eu aproveitava boleia, ia nas correntes e partia em busca dum lugar ao sul. Pouco importava-me das tempestades, das voltas, da baixa-mar ou preia-mar. Ia só no simplemente deixar-me levar sabendo que muita coisa podia mudar. O mundo muda, não com a minha opinião mas com o meu fazer. E eu fazia-me ao mar sabendo que as pequenas coisas, encadeadas iam-se transformar numa coisa gigante tal que nem eu, mesmo que o meu valor seja pouco mais do que perto do zero neste mundo de não sei quantos quarteirões.
Enfim, o sol paludismou-se num outono caminho que percorreremos com imaginação ou sorrisos alargados em horizontes locais.


Sanzalando

8 de setembro de 2018

De tempo em tempo

Deixo o sol romper a minha timidez. A minha sombra é tenue como tenue é o sol que me rasga, mas é suficiente para me mostrar que estou de pé, num perfil carragado de curvas, umas do tempo e outras da forma. Em pé, numa verticalidade que não esconde uma estória de passado, um presente possivelmente com futuro. Em pé no sentido directo, lato ou escondido, vertical. Enquanto tiver sombra direi que sou rico porque vivo ao sol, forte ou tenue.
Sanzalando


WebJCP | Abril 2007