O ser humano é uma criatura fascinante. Ele é capaz de enviar sondas para fora do sistema solar, decifrar o genoma e inventar a torradeira que torra o pão com a cara do Mickey. No entanto, colocando esse mesmo ser humano numa secretária com três capítulos de matéria para um exame, e ele descobre em si uma sabedoria milenar que nem o Dalai Lama imaginava possuir.
A tragédia do estudante desdobra-se, invariavelmente, em três actos muito bem definidos:
Tudo começa com a fase bélica. Declara-se a guerra ao conhecimento. O estudante senta-se, abre o livro de Termodinâmica ou um de Anatomia com a garra de um gladiador a entrar na arena.
- É hoje. Hoje leio 80 páginas, faço resumos a três cores, crio menemónicas e ainda tenho tempo para uma corrida no final da tarde.
O ar está pesado com a tensão da batalha. Abre-se o caderno. A caneta azul está sem tinta. A primeira derrota táctica. Vai-se buscar a caneta preta. Mas a caneta preta não combina com a cor do sublinhador amarelo. Uma catástrofe logística. O exército recua.
É aqui que o fenómeno verdadeiramente mágico acontece. Repentinamente, a urgência da guerra dá lugar a uma paz profunda, quase mística. A casa, que esteva uma ruína durante três meses, passa a ser o templo do Feng Shui.
Subitamente, o estudante percebe que:
A gaveta das meias precisa de ser organizada por gradação de cor e percentagem de algodão
A junta do azulejo do wc não está verdadeiramente limpa desde 2018 (e isso afeta a concentração).
É de extrema importância científica descobrir, neste exato momento, qual é a esperança média de vida de um pirilampo na Islândia.
A mente atinge um estado de iluminação tão elevado que até o som de uma mosca a bater no vidro parece uma meditação guiada. O telemóvel, que antes era só um aparelho, transforma-se no portal definitivo para os vídeos de um artesão indiano a construir um palácio subterrâneo usando apenas um pau e lama.
E depois vem a famosa "vontade de ir estudar". Ela existe, atenção. Não se pode dizer que o estudante não quer estudar. O problema é a forma como essa vontade se manifesta no espaço-tempo.
A vontade surge sempre em momentos estratégicos:
- Cinco minutos antes de ir dormir: "Amanhã acordo às 6h00 e leio isto tudo num instante." (Alerta de spoiler: não acorda).
- Enquanto se come uma pizza: "Quando terminar a fatia, arranco." A pizza acaba e entra o coma alimentar.
- Às horas redondas: Se são 14:03, já não dá para começar. Tem de se esperar, por uma questão de respeito pela ordem do universo, pelas 15:00. Se às 15:02 se olha para o relógio... bom, agora só às 16:00.
Às 23:00, a guerra regressa. Não a guerra da disciplina, mas o pânico puro e duro, alimentado por um café morno e pela desesperada esperança de que a matéria entre na cabeça por osmose, basta para isso dormir com a cabeça em cima do livro.
Amanhã há mais. Afinal de contas, a casa nunca esteve tão limpa, o conhecimento sobre pirilampos está no topo e a esperança é a última a morre










