26 de fevereiro de 2026

o meu carro vermelho berrante

Acho que a primeira grande crise existencial de um homem não acontece aos 40, quando compra um Porsche, mas aos 6, quando percebe que o seu bólide a pedais tem a aerodinâmica de um frigorífico e a tracção de um caracol com reumático caminhar

Mais ou menos aos 6 eu tive o meu primeiro meu carro, que era de um vermelho berrante, com um número "5" colado de lado que prometia velocidades estonteantes na minha cabeça de criança. Tinha um volante de baquelite que rangia como um navio pirata e umas rodas de borracha rígida, ou seria madeira forrada, aqui a memória me falhou e que em contacto com o alcatrão da rua, faziam mais barulho do que um concerto de tampas de panela na minha cozinha.

O problema é que o design ignorava uma lei fundamental da física: a relação peso-potência que eu aprendi muito mais tarde. O chassis era de madeira pesada, e o piloto que era eu pesava o mesmo que um saco de batatas pequeno. Eu sentia o vento na cara, mesmo se estivesse parado porque era o vento normal da minha rua. Eu dava aos pedais e ele rangendo seguia numa vertiginosa velocidade que até dava para sair em movimento. Mas foi o meu primeiro carro.

Não sei se me cansava mais de dar ao pedal ou fazer VRRRRUUUUMMMM. Mas eu me divertia no meu carro vermelho berrante.




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25 de fevereiro de 2026

O livro Pés de Barro de Nuno Duarte nas palavras de Anabela Quelhas - K'arranca às Quartas 107


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Tesourinhos Musicais 82 - Pedro Osório


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Esta Música tem uma História 49 - Chico e Milton - O que será?


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Crónicas de Carlos Osório 6 - K'arranca às Quartas 107


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Crónica de João Portelinha da Silva 12 - K'arranca às Quartas 107


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Crónica 95 - K'arranca às Quartas 107


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Programa K'arranca às Quartas 107



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 25 de Fevereiro 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Identidade

Hoje o livro foi Pés de Barro de Nuno Duarte, tendo utilizado as palavras de Anabela Quelhas

Esta Música tem uma história trouxe Chico Buarque e Milton Nascimento - O que Será?,  numa colaboração de José Leite; 

Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Pedro Osório, uma pedra angular na música portuguesa

PRIVATIZARAM, POEMA DE JOSÉ LUÍS MENDONÇA, dito por ele mesmo

e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de um poeta brasileiro 

Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos a Rádio e muito mais. Para pensar.

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar - Obviamente que hoje foi OBVIO



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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uma estória quase verídica

Entrei no gabinete de urgência como quem entra num palco. Fato que parece pijama azul escuro, impecável, máscara descaída para o pescoço numa preguiça de tirar, olhar treinado para distinguir uma apendicite de uma indisposição causada por excesso de bacalhau à Brás.

Parei aos pés da marquesa, fiquei a olhar para o doente como quem olha para uma obra de arte. Em silêncio e olhar profundo.

O doente, deitado, ficou a olhar para mim como quem espera uma sentença.

Durante uns segundos, ninguém disse nada. Era um duelo silencioso: bisturi contra pânico, autoridade contra bata que estava substituída por pijama, porque é mais higiénico, cómodo e prático.

- Então, doutor? - perguntou o doente, desconfiado. - É grave?

Inclinei ligeiramente a cabeça, como se estivesse a contemplar uma obra de arte contemporânea chamada Homem Deitado nº 3.

- Hummm. 

O “hummm” de um cirurgião devia vir com legenda. Pode significar “não é nada”, “vamos já abrir”, ou “onde é que eu deixei os óculos?”.

O doente engoliu em seco.

- Doutor… esse “hummm” é de quê?

- Ainda não lhe toquei, andei não vi uma única análise. Quer que seja adivinho?

Aproximei-me mais, olhar pensativo, mãos na barriga do doente e comecei a fazer perguntas. Desde sérias até as de futebol-

- Diga-me uma coisa - perguntei - Quando carrego aqui, dói?

E carreguei.

- AI! - gritou o doente.

Abanei com a cabeça, satisfeito e disse:

- Excelente.

- Excelente?! - indignou-se o paciente. - Eu estou a gritar!

- Precisamente. Se não gritasse é que eu ficava preocupado. A medicina aprecia reações. O silêncio é que é suspeito. O silêncio é coisa de estátuas. - disse na mais serena tranquilidade.

O doente ficou a olhar para mim, dividido entre o alívio e a vontade de pedir transferência.

Começou a andar de um lado para o outro, mãos atrás das costas e a fazer perguntas. Continuadamente sérias alternando com coisas banais. Até que parei, ao lado dele e olhando-o nos olhos disse

- A questão é filosófica.

- Eu preferia que fosse clínica, por isso vim ao hospital…

- Toda a boa cirurgia começa na filosofia - continuei, ignorando o olhar furioso do doente. - A pergunta não é “o que tem?”, mas “porque é que insiste em ter?”.

- Eu não insisto em nada! Eu tenho!

- Tudo aparece. A idade aparece. As rugas aparecem. As contas aparecem. O apêndice inflama-se e chamam-me.

Ao mesmo tempo sentei-me ao lado da marquesa onde estava o doente.

- Diga-me: numa escala de zero a dez, quanto dói?

- Oito.

- Oito honesto ou oito dramático?

- Oito! - já num tom mais irritado que indeciso

Suspirei e disse:

- Gosto de pacientes decididos. O problema dos sete é que são indecisos. Nem sofrem plenamente nem melhoram com convicção. - Filosofei

Fui ao computador decido e escrevi. Consegui perceber que o doente estava curioso com o que escrevia. Mas mantive o meu silêncio enquanto os dois indicadores batiam no teclado.

- O que está a escrever? - irritada voz que saiu daquela boca

- Paciente com forte vocação para queixar-se. - disse sem tirar os olhos do ecran

- Isso não é diagnóstico que se dê a um doente!

- Claro que é. A queixa é o princípio da ciência.

Levantei-me, compôs o pijama e olhei o doente de alto a baixo mais uma vez.

- Fique descansado. Vamos fazer exames.

- E se for preciso opera?

Sorri com aquela tranquilidade inquietante de quem tem um bisturi como extensão da personalidade.

- Meu caro, eu sou cirurgião. Se não operar hoje, opero amanhã. A diferença entre nós é que o senhor teme a cirurgia e eu temo um dia sem ela.

Dei dois passos em direção à porta, depois voltei atrás e, com ar conspiratório, disse:

- Mas não se preocupe. Só corto o estritamente necessário. Às vezes até menos.

Saiu do gabinete.

Acho que o doente ficou a olhar para o teto, profundamente pensativo. Nunca tinha pensado que o maior sintoma da sua doença fosse estar nas mãos de alguém tão entusiasmado com lâminas.

E suspirou:

- Se eu soubesse, tinha ficado só com o bacalhau e não tinha comido o prato de carne.



Sanzalando

24 de fevereiro de 2026

fui no comboio

Eu tenho o prazer de ter feito uma das mais espetaculares viagens de comboio do mundo. Pelo menos do meu mundo, tenha ele o tamanho que tiver. O Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM) não é apenas um transporte; é uma transição dramática entre o deserto e a montanha.

Na estação, antes do Sr. Alves dar a partida ao comboio eu sentia o cheiro do deserto e também o do gasóleo, porque já não me lembro do fumo do vapor daquela locomotiva preta enorme que nem gigante cabia na minha imaginação de agora. O sol ainda era uma promessa tímida no horizonte quando o comboio dá o primeiro solavanco. Pela janela, a paisagem é dominada por um vazio de gente mas ocupada por um arvoredo luxuriante que desequilibrava o deserto daquele lado da cidade. O Bero era o motor daquela revolução verde assim como depois o Rio Giraul. Quando dou por mim estava no Caraculo. A estepe, a savana o deserto, o semi-deserto, estava lá. Do outro lado do corredor eu via o Morro Maluco a nos acompanhar. Eu delirava e dizia que morro tinha pernas maiores que as minhas pois nos acompanhava, literalmente. O comboio ia em ritmo constante, aqui e ali uma apitadela, o barulho do diesel característico fazia força para puxar a meia dúzia de carruagens. Às vezes a gente cruzava num apeadeiro com três locomotivas que puxavam uns 40 vagões carregados de ferro. Eu digo uns porque me perdia sempre quando lhes queria contar.

Os passageiros partilham fatias de fruta e conversas sobre a família, enquanto o comboio corta a planície árida em direção ao interior. A gente sabe que depois de Vila Arriaga esse comboio vai sofrer.

O verdadeiro espetáculo começa quando o horizonte deixa de ser plano. À medida que nos aproximamos de Bibala, assim para vocês saberem que eu sei coisas, a locomotiva começa a "ganhar fôlego" para o que vem a seguir.

É aqui que o comboio enfrenta a Serra da Chela. A linha serpenteia como uma serpente de aço, subindo centenas de metros em poucos quilómetros. De um lado, a parede de pedra; do outro, um abismo que revela a imensidão lá embaixo. O ar torna-se subitamente mais fresco. O castanho do deserto dá lugar a tons de verde-escuro e arbustos mais densos.

O esforço do motor é audível, num batimento rítmico que parece fazer eco nas encostas rochosas. É um prodígio da engenharia que nos faz sentir minúsculos perante a geografia angolana. 

Finalmente, o terreno estabiliza. Estamos perto dos 1.700 metros de altitude. O comboio desliza agora pelo planalto da Huíla, onde o clima é temperado e a luz tem uma suavidade diferente.

Ao avistar o Lubango, a cidade estende-se num vale abraçado pelas montanhas. O Cristo Rei, no topo da serra, parece dar as boas-vindas aos viajantes que subiram do mar. A estação é um formigueiro de gente: vendedores de múcua, taxistas e famílias que se reencontram.

Eu corro para os braços do meu avô e vou de férias.





Sanzalando

23 de fevereiro de 2026

Eu e a minha falésia

Mesmo em frente do Palácio ficava a falésia. A vista só acabava onde o olhar não conseguia chegar. Mas em baixo ainda tinha a marginal. Nunca medi, mas vou inventar que a falésia eram cerca de 40 metros e para aqula minha altura de criança eu acho eram trezentos. Era bué alta a falésia à frente da casa do Governador.  

Um dia, em armado com a minha capa de super-homem invisível resolvi que ia descer ali mesmo até na marginal. Na verdade quando eu não tinha problemas eu arranjava. Bem que podia ir um pouco mais atrás tinha já um carreiro feito, mas não. Tinha de ser ali, porque era ali que me apetecia. Que piada ia ter descer no carreiro?

Era imponente aquela falésia. Pelo menos para mim e se calhar tinha gigantes adormecidos no meio caminho. Mais lá para frente havia umas grutas escavadas nela que disseram-me era a casa dos primeiros colonos. Mas ali não. Esses fantasmas ali não ia ter. 

Antes de iniciar a minha descida admirei o horizonte e fiquei com pena que os meus olhos não conseguissem, ir mais para lá do que eu via. Paciência, quando eu crescer eu vou. Agora comecei a olhar para onde tinha de pôr os pés. A falha de pé era o meu mostro mais temido. A areia descia depressa, mal eu colocava o pé lá ia um pedaço dela a trambolhar para baixo. Também havia uns pedragulhos que eu deslocava com a ponta do pé para não lhe pisar e escorregar eu. Uma ou outra vez eu parecia ia cair mas era só escorregadela de meio metro. 

No final eu estava exausto. Era raro isso acontecer. Mas acho era mais do medo do que do exercício. Cá embaixo olhei para cima e uau, era alto para caramba. Não vou subir aqui. Vou voltar pela marginal, isto é como dar a volta ao bilhar grande mas eu não sou capaz de subir isto. Além de força me ia faltar pulmão.

Me sentei à borda da marginal a ver as ondas se atirarem contra as pedras que seguravam a dita. Como foi que eles fabricaram esta marginal se eu já vi fotografias e aqui era praia e estaleiro? Não importa. Eu consegui descer, olhar e ver só meio palácio e meia igreja. E sozinho. Uê, estou a crescer, pensei.

Comecei a caminhar no passeio de lage que paralelizava com a marginal e com os meus botões fui inventando estórias, porque as falésias contam sempre uma estória e eu com medo não perguntei àquela qual a estória dela.

A minha estória da falésia é que lhe tinha descido num lugar muito perigoso. Criança sem juízo ia dizer a minha mãe se soubesse que eu tinha descido ali.



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22 de fevereiro de 2026

Conversas à mesa 4 - Ensino e Educação








Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 21 de fevereiro
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


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21 de fevereiro de 2026

fui na praia azul com a família

É sábado e não tem despertador tiquetateando para me levantar para a escola. Mas na verdade acordo cedo e mais bem disposto que nos outros dias. è dia de ir cedinho na praia. Não é por causa de arranjar lugar, é mesmo só para ficar naquele lugar. O resto eu não digo porque vocês não precisam saber. Não sei ainda nem o porque que demora tempo a fazer o planeamento para ir na praia. Basta levar toalha. Mas a família não pensa assim. Acho eles estão a pensar que é uma invasão que vão fazer. Chapéus de sol são para aí uns três, a geleira com sacos de gelos outras tantas e cada uma pesa mais que um elefante. Bóias coloridas nem sei contar, como se ainda alguém fosse precisar daquilo. Comida acho que dá para ficar lá uma semana. Eu só sei que no fim da tarde eu volto para casa. Pronto, eu sei que a praia Azul fica longe e tem que ir de carro, mas caramba, a gente não precisa fugir assim com tanta coisa.
O estacionamento é à balda, numa anarquia civilizada porque espaço não tem falta. No deserto tem vazio que até a gente perde a vista só de olhar.
Mas até lá chegar a viagem de carro foi uma festa. Toda a gente cantou no cortejo que parecia era procissão de família. Alegria depois de ter parado na Torre do Tombo para comprar os caranguejos que são de estalar e que vão fazer as del~icias das mais velhas porque os mais velhos vão apanhar mexilhões ou lá o que é. 
Monta acampamento quase dentro da água. Acho têm medo de desidratar na viagem até ao mergulho. Kotas.
Os que vieram da Mapunda se esfregam em protector solar e mais coca-cola para irem de cor diferente na volta ao planalto. Os de cá se borrifam literalmente para esse pormenor, estão castanhos de faz tempo que lá vão.
Estendem-se toalhas que acho que se passar um avião vai pensar aquilo é pista. Mas todos estão felizes e contentes. Eu chateado porque só queria ir com a minha toalha para as Miragens ver o Chapéu de Sol azul em frente ao ecran de cimento. Outras estórias. 
Acho que fizeram mal ao mar da Praia Azul. Sempre que aqui venho ele parece está zangado e com ondas a querer me jogar para fora dele. Os mapundeiros gostam. Dá-lhes pica lutar com a força das ondas que quase sempre lhes tira os calções ou apenas as forças das pernas.
Passado o interminável dia, em que felizmente bebi gasosa sem controlo de que isso faz mal, carbo-sidral e Alpina que foi um gosto. No final do dia os mapundeiros com todos os cuidados especiais voltaram vermelhos que nem camarão, o carro trazia mais areia que comida que foi toda comida. Cansaço valia o descanso das aulas e amanhã é domingo para reflectir na praia das Miragens com vista alegre e sorriso na cara.


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20 de fevereiro de 2026

Fui eu que fiz isto

Na minha cidade de imaginação é verão e verão comigo é brincar na praia. Brincar na praia é o único desporto radical onde um indivíduo de mais de 40 anos pode passar três horas de rabo para o ar, a cavar um buraco sem nexo, e ainda ser considerado uma pessoa normal pela sociedade em redor e mais longe também.

Há uma mística na areia que suspende o juízo crítico. Mal pomos o pé na areia quente, o suficiente para estrelar um ovo, obrigando-nos àquela dança caricata e tribal de quem pisa brasas até chegar à toalha, o nosso QI regride alegremente para os seis anos de idade ou menos.

Tudo começa com a construção do Castelo. Nunca é apenas um castelo que tem um fosso a toda a volta, torres autossustentáveis embora toscas, fossos com ligação direta ao Atlântico e uma muralha capaz de deter a qualquer invasão anfíbia. Na Realidade é um monte de areia húmida que parece um pudim que correu mal, decorado com três beatas de cigarro e uma casca de ameijoa ou quitéta partida.

A tragédia grega acontece quando a maré sobe. Há sempre um momento de pânico coletivo quando a primeira onda lambe a fundação. É aqui que vemos homens feitos, licenciados e com contas para pagar, a tentar deter o oceano atlântico com uma pá de plástico amarela que custou 2 euros na loja do Camonano.  O mar ganha sempre. O mar é o maior destruidor da engenharia civil.

Depois temos os clássicos das modalidades de praia, que deviam constar nos Jogos Olímpicos da Paciência: o futebol, um desporto desenhado para garantir que, a cada três jogadas, a bola acerta na nuca de uma senhora que está calmamente a ler o seu romance ou o jogador atropela uma criança que inconscientemente brinca à beira mar, e que tem como objetivo meter golos e pedir desculpa 47 vezes por hora. Ao que se segue o mergulho estilo croquete, aquele momento em que decidimos entrar no mar, mas a água está a uma temperatura que faz os pinguins pedirem um aquecedor. Ficamos ali, a molhar os tornozelos, a tentar convencer o cérebro de que "depois de entrar, está-se bem". Não está. É mentira. e terminamos com a apanha da concha em que  caminhamos quilómetros com o pescoço dobrado, como se estivéssemos à procura de uma nota de 50 escudos, apenas para trazer para casa um saco de pedras calcárias que, no dia seguinte, cheiram a peixe morto e acabam no lixo.

A brincadeira acaba sempre com o pior inimigo da humanidade, a areia acumulada. Brincar na praia implica aceitar que a areia é agora um novo membro da família. Ela vai estar no carro, vai estar nas orelhas, vai estar dentro da sanduíche de fiambre e, misteriosamente, vai aparecer nos lençóis da cama em dezembro.

No fundo, brincar na praia é um exercício de humildade. Ficamos queimados pelo sol em lugares onde nem sabíamos que tínhamos pele, bebemos mais água salgada do que seria medicamente recomendável e acabamos exaustos. Mas nada bate a satisfação de olhar para um buraco gigante na areia e pensar: "Fui eu que fiz isto."



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19 de fevereiro de 2026

hoje mergulhei na praia

Na minha terra está a começar o verão. Verão na minha imaginação e verão que eu só vos conta a verdade mesmo que não tenha existido. É, na minha terra eu sou assim.
Mas eu estava a dizer que é verão e se eu tentei mergulhar da ponte velha eu agora mergulho só mesmo da praia. Eu decidi que estava na altura de me tornar um homem destemido. Ou pelo menos alguém capaz de mergulhar no mar sem fazer aquele gritinho agudo que só os cães ouvem e os outros riem.

Fui hoje para a praia com ar determinado. O mar estava azul, calmo, com aquela aparência enganadora de sopa morna. Tirei a camisa, estiquei os braços, alonguei o corpo e como se fosse protagonizar um documentário da Tv que nunca vi e avancei.

Primeiro passo: água pelos tornozelos.
Segundo passo: água pelos joelhos.
Terceiro passo: lembrei que não é assim pelo que veio o arrependimento.

Aquele Atlântico, meus amigos, não é uma piscina e nem eu sou Mapundeiro para achar a água fria boa para mergulhar. É uma entidade com personalidade própria. Na minha terra o mar não está frio, está em modo teste de caráter. Quando a água me chegou à cintura, senti que todos os pecados da minha adolescência estavam a ser perdoados à força.

Mas eu tinha decidido mergulhar. Havia crianças de seis anos a fazer cambalhotas aquáticas ao meu lado. Um senhor mais velho nadava com elegância olímpica. Não podia voltar atrás na minha decisão. Voltei para a areia, respirei fundo, fiz aquela contagem mental de atleta profissional um, dois, três e corri para o mar e mergulhei.

Durante dois cagagésimos de secundo fui um pássaro voando elegantemente sobre a espuma do mar. No terceiro, engoli meio litro de oceano ao bater de chapa e no quarto, perdi completamente o sentido de dignidade. Emergi a tossir, com o cabelo colado à testa, enquanto uma onda mais pequena do que a minha autoestima me batia na cara gargalhando.

Tentei recuperar a compostura. Fiz um segundo mergulho, desta vez mais calculado e compassado. Resultado: areia em sítios que a anatomia não previa.

E é nesse momento que acontece sempre o fenómeno social da praia que é toda a gente parece que está a olhar. Não estão, claro, disfarço eu. Mas nós sentimos que sim. até parece estou a ouvir um qualquer apanhador de sol profissional a comentar:

- E ali vemos um exemplar, claramente urbano, a lutar contra 17 graus de temperatura da água.

Decidi sair com dignidade. O problema é que o mar não aceita despedidas formais. Quando virei costas, uma onda traiçoeira empurrou-me, tropecei, fiz meio mortal involuntário e saí da água numa posição que só pode ser descrita como foca desastrada.

Já na toalha, a tremer, declarei solenemente:
- Amanhã volto a mergulhar.

Vou fazer mais como se eu gostaria de saber mergulhar mas o mergulho no mar humilha-nos, congela-nos, desorienta-nos… mas deixa-nos com uma sensação heroica. Sobrevivemos ao Atlântico. Não ganho medalhas, mas ganho histórias.

E, no fundo, é para isso que servem os mergulhos: para provar que ainda somos capazes de enfrentar o frio… e rir depois disso

Sanzalando

18 de fevereiro de 2026

Programa K'arranca às Quartas 106



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 18 de Fevereiro 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Identidade

Hoje o Livro Casa75 de Branca Clara das Neves
Esta Música tem uma história trouxe Nely Andrade e Cantor da Noite numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje conjunto Os Bongos, uma banda de Angola, mais propriamente do Lobito
Poema  de Fernando Pessoa na Voz da Mário Viegas
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de um poeta brasileiro Orion Milhomeme as
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou as fotografias do antigamente e as de agora
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Casa 75 - Branca Clara das Neves


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Esta Música tem uma História 48 - Leny Andrade - Cantor da Noite - K'arranca às Quartas 106


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Tesourinhos Musicais 81 - Os Bongos


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Crónicas de Carlos Osório (5)


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A Crónica de João Portelinha da Silva (11) - K'arranca às Quartas 106


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Crónica 94 - K'arranca às Quartas 106


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eu e o mergulho imperfeito

Diz o ditado que "para baixo todos os santos ajudam", mas quem nunca tentou um mergulho ornamental sem saber a técnica sabe que, na verdade, a gravidade é um mestre muito rigoroso.

Tinha para aí os meus 14 ou quinze anos e tinha como plano simples: impressionar. O cenário era o a ponte velha de uns três metros de altura da minha praia. Muitos mergulhavam em grande estilo, muitos olhavam, incluindo eu. Foi então que pensei que seria capaz e com isso impressioná-la. Rodeado por espectadores que tinha certeza de que estavam a ver porque diziam que eu era capaz e coisas que só um gajo forte consegue resistir. E estavam a assistir e a incentivar, mas talvez não pelos motivos que eu imaginava.

No ângulo direito da ponte fiquei como que em sentido e sentindo a confiança de um mergulhador olímpico. Olhei para baixo, a água cristalina, vista de cima, pareceu-me subitamente sólida. Olhei para ela, que estava aí a uns 50 metros na areia, de mãos na cabeça e com os lábio a dizer qualquer coisa que os meus ouvidos não ouviram.

Memorizei cada passo da técnica que tinha visto os mais velhos fazerem. Braços esticados por cima da cabeça como se fizessem um v invertido, flecti ligeiramente os joelhos para me dar balanço para a altura, lá em cima teria que fazer um golpe de rins e cair na vertical perfeita. 

No momento em que os pés perderam o contato as tábuas velhas da idosa ponte, a física assumiu o controle. No ar, o cérebro entrou em paragem, em vez de manter o corpo recto no ascendente tentei recuar numa trajetória de desistência no meio do caminho. O resultado foi uma posição corporal que os especialistas poderiam chamar de desesperado.

O silêncio cerebral foi interrompido por um som seco, um estalo que ecoou como um tiro: O famigerado mergulho de barriga.

Enquanto afundava, não como uma flecha irrompendo até ao fundo, mas mais como uma folha de papel amassada, sentia o ardor na pele da barriga. A água não me recebeu, ela me esbofeteou de chapa inteira. Ao emergir, a barriga exibia um tom de vermelho camarão faria inveja a um qualquer tomate maduro. Nadei até à praia e a saída da água não teve nada de cinematográfico não apoteótico. Foi uma luta frenética para encontrar a um lugar seguro enquanto tentava manter a dignidade de não se ter passado nada.

Um senhor abeirou-se de mim e comentou:

- Nota 2 pelo esforço, mas nota 10 pela som. Parecia uma salva de palmas de uma pessoa só.

Ela, deixei de a ver e a partir daquele instante comecei a pensar que a água tem memória e por isso passei a tratá-la com muito respeitinho e sempre que saltei para o mar nunca mais foi de mais de meio-metro de altura e sempre feito um barril, não vá o diabo esticar-me. 

Mergulhar sem saber é um exercício de humildade instantânea. É aprender que a água tem memória e que ela revida se você não a tratar com respeito. Ricardo não aprendeu a dar um mortal naquele dia, mas aprendeu a técnica mais importante de todas: o mergulho de pé, mantendo o nariz devidamente tapado.



Sanzalando

17 de fevereiro de 2026

O Grande Dilema do Chinelo

Tudo começou quando me sentei na poltrona da sala. Estava focado em não ter pensamentos produtivos. O problema é que o cérebro humano é um vizinho fofoqueiro que não para de falar, mesmo quando eu lhe quero calado e só penso que estou a fazer nada e isso é paz de espírito. Estou a fazer nada. Mas se eu quiser plural disso é nadas ou nadões, riens ou como é que é? Mas olhando para os meus pés verifiquei que um chinelo estava maior que o outro, uns dois centímetros.

Isto foi o suficiente para desequilibrar o meu "nada". Tentei ignorar. Mas o chinelo parecia que estava a olhar para mim e a me chamar. Ainda por cima com um olhar de julgamento. Estiquei o pé para puxar o chinelo. Errei. Tentei de novo. O chinelo escorregou do pé e foi para debaixo da poltrona.

Agora, tinha um problema: para continuar a fazer o meu nada precisava do chinelo. Mas para pegar o chinelo, eu teria que fazer alguma coisa.

Fiquei ali, com um pé descalço e outro calçado, vivendo um hiato existencial. Pensei:

Se eu ficar perfeitamente parado, eu me torno parte da mobília. A poeira vai cair sobre mim e eu serei, finalmente, o mestre do vazio.

Nesse exato momento, uma mosca entrou na sala, daquelas que parecem helicóptero e param no ar.

A mosca não tinha o mesmo compromisso com o minimalismo. Ela pousou-me na testa. Eu não movi um só músculo. Eu era era um móvel imóvel. Eu era... um homem com a testa arrepiada e abanei-a.

A mosca voou, segui-a com os olhos até que ela pousou-me no nariz, entrando na narina.

O resultado? Eu soltei um espirro tão violento que ou a mosca fugiu para outra dimensão, ou o chinelo ficou esquecido ou eu me esparramei no chão.

Conclusão:

Dez minutos depois, estava eu na cozinha a pôr gelo no joelho e de cu para o ar à procura do segundo chinelo. Percebi então que fazer nada dá um trabalho danado. O universo simplesmente não aceita o vácuo; se não se preenche o seu tempo com algo, o destino preenche com moscas e incidentes ortopédicos.



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16 de fevereiro de 2026

eu e o tal de carnaval

Compreendendo perfeitamente o meu drama, enquanto metade do mundo está a decidir se tem coragem de sair à rua de super-homem com 10 graus negativos, tu estás apenas a tentar sobreviver à quarta-feira de cinzas sem um pingo de purpurina e confetis na alma.

Diz o povo que "a vida são dois dias e o Carnaval são três", mas para quem sofre de alergia crónica a serpentinas, o Carnaval são quatro meses: dois de ansiedade prévia, quatro dias de clausura e o resto do tempo a encontrar confetis dentro de sapatos que nem sequer usámos.

O problema de não gostar de nos mascararmos não é a falta de imaginação. É o excesso de realismo.

Toda a gente tem um amigo entusiasta que, em dezembro, já está a planear uma mascarada de grupo. A sugestão é sempre algo coletivo e humilhante, tipo "vamos todos de peças de Tetris". O Dilema Logístico que eu levanto: Como é que uma peça de Tetris vai à casa de banho? ou então o factor térmico: em Portugal, o Carnaval rege-se por uma lei física cruel: se a máscara é gira, vais morrer de hipotermia; se a máscara é quente (tipo um fato de peluche de urso), vais suar mais do que num ginásio sem ar condicionado; ou vem-me à cabeça a Identidade Perdida: não há nada mais triste do que estar numa conversa séria sobre a inflação enquanto se usa um chapéu de pirata de plástico que teima em cair sobre o olho esquerdo.

Na verdade começamos com uma simples máscara tipo zorro e, quando dou por mim, estou a ser arrastado para um comboio ao som de "Apita o Comboio", com uma peruca azul que cheira a petróleo e a dignidade algures esquecida num balcão de bar.

Enquanto a multidão se acotovela na avenida para ver passar o carro alegórico que satiriza um político de 2026  o não-mascarado cultiva prazeres mais refinados como ver os diretos da TV e jogar ao "Onde Está o Wally" com a vergonha alheia, comer filhós e sonhos sem medo de sujar um fato de cetim de 15 euros comprado na loja chinesa ou poder olhar-me ao espelho na manhã seguinte sem ter de esfregar a cara com diluente para tirar os restos de maquilhagem de palhaço triste.

No fundo, o Carnaval é uma época de liberdade. E não há maior liberdade do que o direito constitucional de não usar uma peruca que pica. Se me virem na rua nestes dias, não se enganem: não estou mascarado de pessoa norma". É mesmo a minha cara de quem está a contar os minutos para a Quaresma.



Sanzalando