4 de dezembro de 2021

licitudes

Tem dias em que mesmo o frio não me impede de desnudar-me, intelectualmente. O frio, matéria inorgânica e subjectiva, que evolve corpos e mentes duma forma equacionável e por vezes anarquicamente, obrigando a pensamentos erróneos e quantas vezes a frases arrependíveis, surge de nadas em todas as estações do ano, a todos os quantos se consideram ser pensantes. É esse frio, questionável, que nos faz ouvir apenas o que queremos, a dizer tantas vezes o que não queremos e a fazer o que não devemos. 
Não é lícito que eu morra de amor, mas morro.
Não é lícito que eu acorde preocupado com situações futuras, mas acordo.
Não é lícito que me pese na consciência erros não propositados ou inconscientemente cometidos, mas pesam.
Não é licito que eu sofra de saudade quando me sinto bem com o meu passado, mas sofro.
Não é licito que o mundo não siga a minha linha de pensamento, mas não segue.
Não pretendo que o mundo me entenda no que sinto mas aceito que era lindo que eu mesmo entendesse esse sentimento.


Sanzalando

#comida


3 de dezembro de 2021

#momentos


#mangueira


Neste caminhar

Neste caminhar para o inverno já deambulei por tantos caminhos que já nem sei o carreiro a seguir. Neste meu caos tem vezes nasce uma luz a me dizer onde ir. Hoje não me apetece ir por lado algum. Hoje fico mesmo só aqui a olhar as palavras que uma vez eu pensei e não sei onde arrumei. Quantas palavras eu terei perdido na adolescência e que agora me fazem falta? Quantos silêncios eu perdi e que agora eu devia usar? Eu sei o quanto me dói querer falar as coisas e não saírem as palavras só porque a cabeça se ligou no coração. Eu sei quantos silêncios eu não devia ter usado porque hoje eles me mostram as palavras que os substituía. 
Neste caminhar para o inverno eu descubro que o princípio do outono é resguarda-me das dores, é treinar-me para os passos pouco práticos duma senilidade espectável que o inverno trás com o seu frio gelado. 
Neste caminhar para o inverno vou-me resguardando das tempestades reais e ficcionadas.


Sanzalando

1 de dezembro de 2021

#comida #momentos


eu, o brilho e o gosto

Tremendo de frio me sento no lancil do passeio como que a meditar à beira da estrada, nem que seja a da vida. Vagabundo que se preze tem momentos assim.
Se me pedissem para fazer uma lista das coisas que gosto, eu vinha em primeiro lugar. Não por narcisismo, por isto ou por aquilo mas simplesmente porque gosto do meu brilho interior, o meu cintilar de estrelas que brilham no meu universo interior. Até dos meu pensamentos pedidos, gosto. Eu não tenho essa coisa da luta entre coração e mente. Eu é um. Único. Simplesmente simples. Eu que transporto para todo o lado o amor, incluindo o próprio, não me deixo levar por céus nublados, por tempestades secas ou dilúvios mentais. 
Simplesmente eu.

Sanzalando

#momentos


#lugaresincriveis #


30 de novembro de 2021

#comida


João Afonso - O Principezinho (CD LIVROS, 2021)


Gosto de ouvir João Afonso e por isso hoje em vez de partilhar letras e palavras soltas vou por aqui ouvindo o Principezinho


O Principezinho é uma das 14 canções inéditas de "Livros" (2021), um CD que nos conduz pelo "som das leituras" de João Afonso. O novo trabalho está disponível numa edição livro/CD de 70 páginas, ilustrado por António Afonso

Sanzalando

29 de novembro de 2021

Crescer

Aqui neste norte do meu sul lá em baixo, custa crescer. Complicação em complicação lá vai uma pessoa crescendo, amadurecendo e envelhecendo. Crescido uma pessoa vai fazer mais o quê? Se se é criança a gente até que pensa que amanhã vai ser diferente, a gente pede ajuda ao tio, ao primo, a um mais velho. Crescido vai ser mais como? Amanhã está-se cá? Crescer é enfrentar os medos, é percorrer o labirinto de cada dia, ter as certezas das incertezas de futuro, é desesperar de lágrimas passadas e tentar encontrar uma saída sem obstáculos, é olhar para o lado e ver que não tem mais velho para lutar as nossas batalhas.
Crescer continua a ser uma incógnita, mesmo depois deu eu meditar sobre isso. Não tem manual de instrução.


Sanzalando

#lugaresincriveis


26 de novembro de 2021

#lugaresincriveis


#flores


saudável

Enrolado em mantas lá vou eu caminhando neste frio norte que faz aqui. Lá no Sul faz sol e de vez em quando troveja. Aqui faz frio de tremer que até parece é a terra que treme. Eu não sei porque explico porque ando nesta vadiagem mental já que as pessoas só entendem mesmo o que querem, só ouvem o que lhes apetece.
Na verdade estou como Voltaire: resolvi ser feliz porque é melhor para a saúde. Caminhar assim é-me saudável.


Sanzalando

25 de novembro de 2021

sou resiliente, inteligente e humano

Hoje estou aborrecido e desta vez é com quem não conheço na pessoa, apenasmente no lugar. Desiludiu-me porque falhou rotundamente num desesperado atirar-se para a frente dum comboio desusado e já com muitas falhas no cumprimento do seu dever de levar a uma estação passageiros e mercadorias, aqui neste caso traduza-se por doentes e doenças. Mas trocar competências com resiliência foi um pouco de mais na aritmética duma escola básica. Ser resiliente não é mais que ter pensamento maleável, positivo e ser extremamente inteligente para entender que o meio precisa de modificações, adaptações e ser vivido com intensidade e amor, no sentido lato muito bem cantado por Camões.
O SNS chegou até ao presente porque os médicos têm sido, para além de competentes, resilientes e sempre se souberam adaptar ao meio. Do tempo da Dra. Leonor Beleza ao da Dra. Marta Temido muitas águas e nódoas foram tingidas, atingidas e apagadas. De Doentes a Clientes os médicos foram-se adaptando, foram exercitando o seu poder de resiliência diariamente e os resultados foram mostrados nas várias vagas desta pandemia. Aprenderam a não se desesperar, aprenderam a ser mais livres porque mais simples é viver em liberdade, mais simples é cuidar com qualidade. 
Assim sendo só, me apetece solicitar um ministro resiliente e competente. Ambas qualidades são imprescindíveis neste século tecnológico porém ainda humano.



Sanzalando

24 de novembro de 2021

deixei de fumar

Por estes caminhos e outros tantos por aí já ouvi palavras amargas de quem já mas deu doces. Simplesmente sorrio e porque compreendo. Nem sempre tenho a palavra pronta para sair, nem sempre me apetece azul, nem sempre quero ver o que vejo. Não me vou irritar ou zangar. Compreendo e espero altura para desequivocar, corrigir ou simplesmente calar.
Um dia, estávamos na altura do cacimbo, para lá do campo do Sporting da terra, vagabundando o tempo todo que tínhamos, visita amigos ou simplesmente caminhávamos sem destino e sem fazeres a fazer, e um amigo, daqueles amigos do tempo de criança que chegam à adolescência sem nunca ter tido uma falha na amizade, me diz de tom azedo que eu não devia estar a fumar. 
Me irritei. Eu adolescente, consciente de todas as verdades, crescido que nem eu ia ouvir uma coisa daquelas e ficar calado? Por acaso fiquei e posso dizer que até irritado também. 
Hoje, passado quase meio século eu lhe dou a razão. Tardou mas a verdade é que eu nuca devia ter feito aquilo. 
Tudo porque está a fazer 13 anos que deixei de fumar, o Beira-Mar ganhou 1-0 ao Portimonense no Estádio de Aveiro e o sr. segurança me disse:
- Não pode fumar aqui!!!
Zangado lhe olhei nos olhos e respondi:
- Se não posso fumar aqui também não fumarei em mais lado nenhum.
Um pequeno resumo da minha vida desportiva activa.


Sanzalando

23 de novembro de 2021

congelando passados

Olhando pela janela pressinto o frio que deve fazer lá fora. Lá, no meu lado sul, deve fazer sol e chuva do estilo trovoada livre, que até faz transpirar nos intervalos. Aqui, serenamente na minha janela, atiro pensamentos a ver se os vejo congelar lá fora. Há imagens que eu não queria perder e uma das formas que me ensinaram para conservar era a congelação. Estou a tentar fazer isso com os meus pensamentos e memórias. Congeladas no tempo. As pessoas têm a mesma cara mesmo que tenham passado 50 anos desde a última vez que as vi. Têm o mesmo peso. Facilmente as reconheço. Estão ali congeladas a minha vista. Mesmo que eu fosse dormir por uma semana eu ia ao acordar lhes encontrar intactas e continuava a viver a memória da mesma maneira. 
Olhando pela janela verifico que mesmo que não haja memória para tanta vida passada eu sinto que tenho muito para recordar. O tempo frio, nostálgico, me faz entender que o peso do mundo não é para ser carregado apenas por mim, mas por todo o meu passado, por todos os que fizeram parte dele, por todos os que contribuíram para que eu tenha hoje um passado, bem definido e bem desenhado. 


Sanzalando

#pensando


22 de novembro de 2021

recorda andando

Assim  caminhando pelos caminhos da juventude, quadriculado citadino percorrido de forma geometricamente anárquica, me deixa tanta coisa vir a um de cima, ao pensamento imediato e à lógica tranquila. Eu sei que eu falar é de graça, mesmo que às vezes me custe muito caro a interpretação de quem me ouve. Mas eu prefiro assim que estar fechado no meu quarto com o barulho dos meus pensamentos silenciosos. 
Neste quadriculado, onde perdi muitas lágrimas de amor, onde ganhei muitos abraços e outros tantos carinhos, onde ouvi sinceros elogios e mais sérios insultos, me perco nas caminhadas de memória, na eterna juventude que passou efémera por mim. Aqui conheci gente que aos pouco desencarnam-se deste mundo e me olham desde lá dum cima como que a me observar num cuidadoso aconselhar de ser e estar. Se não fosse por estar e por outras eu me dizia que chorar faz bem, embora me faça estar ranhosamente fungando.

Sanzalando

#lugaresincriveis


21 de novembro de 2021

cidadezinha a minha

Se eu sonhasse um dia ia ser assim, eu sei que esse sonho era pesadelo. Eu aqui longe, desapegado das raízes, despregado do passado, perdido dentro de mim à procura de reconstruir-me. São décadas de reconstrução, anos de luta interna, sensações complexas em que uma vida se emaranha entre desejos, realidades e conquistas. Afinal de contas eu preciso do meu passado, eu, no fundo da minha alma, por mais que renuncie fico marcado pela ansiedade do era, do fui e do que vivi. 
Hoje o Bero deu vinho quando na minha memória ele só dava água castanha no mar proibindo idas a banhos.
Hoje as ruas são mares de gente em cores garridas de diálogos coloridos, quando na minha memória era gente silenciosa que mal pisava o chão na caminhada.
Hoje eu faço luto pelos dias que não vivi, que passei naquele cantinho sem ser visto ou notado.

Sanzalando

#lugaresincriveis


#zulmarinho


#zulmarinho #lugaresincriveis


recomeça o futuro sem esquecer o passado