Tudo começava à quinta-feira. Entrar numa tabacaria aos 14 anos, com o cabelo à beatle e as calças à boca-de-sino, exigia uma postura de homem de negócios. O objetivo? O boletim de papel químico bem preenchido de modo que o x não saía do quadrado.
Havia toda uma técnica para preencher aquilo. Se carregasses pouco com a esferográfica BIC, a cópia ficava invisível; se carregasses muito, furavas o papel e o Sr. Bauleth da papelaria olhava-me como se tivesse cometido um sacrilégio.
Olhando de agora para o longe do tempo eu vejo:
O adolescente médio dos anos 70 dividia-se em três escolas de pensamento:
- O Clubista Cego: Punha sempre "1" no seu clube, mesmo que jogassem contra a seleção do mundo.
- O Especialista de Bancada que discutia na esplanada da Oásis que até se ouvia no Café Avenida, lia tudo e até se calhar nas estrelas das noites de insónia, analisando se o avançado do Farense tinha recuperado da gripe.
- O Caótico, aquele cujo método do fechando os olhos e deixando a caneta cair sobre o papel e a sorte jogava-se duas vezes.
O grande dilema eram os teórico que diziam que as triplas e as suas variantes, que custavam uma pipa de massa mas que a gente ficava na teoria porque na prática não havia combu para tanta teoria.
- Pá, achas que o Barreirense empata nas Antas?
- Nem pensar, mete um 1 fixo e guarda a dupla para o dérbi!
E lá íamos nós, com o coração nas mãos, apostar o dinheiro do lanche. Se o Benfica ou o Sporting perdiam em casa, lá se ia o "13" e o jantar de domingo passava de festa a funeral.
Havia o rádio a pilhas que se gastava ao domingo. Cada mesa acho eu tinha um rádio naquela esplanada. Acho cada um tinha a esperança que cada rádio ia dar o resultado que mais convinha. Sentados, com o boletim na mão e a orelha colada ao altifalante. O som do golo era anunciado por um interminável grito até a gente parava de respirar. Quando o locutor dizia: "Golo em Alvalade!", o silêncio em casa era tão denso que se ouvia uma formiga a tossir. Se marcava a equipa escolhida eras um génio das probabilidades, se sofria o golo que estragava o teu X: O boletim era amarrotado e lançado com a força de um remate do Eusébio em direção ao lixo. Era um momento de explosão interior.
Na segunda-feira, a realidade batia à porta. Geralmente, tinha feito 7 ou 8 pontos. O sonho de comprar uma motorizada NSU ou uma V5 ou um par de calças Levi’s genuínas ficava adiado por mais uma semana.
Mas havia sempre aquele amigo que jurava:
- Pá, falhei o 13 por um golo do Beira-Mar aos 90 minutos!. Mentira, claro. Provavelmente tinha falhado metade da jornada, mas no Totobola dos anos 70, a esperança era a última a morrer.










