recomeça o futuro sem esquecer o passado

1 de maio de 2026

dia do trabalhador

Numa daquelas tardes em que o sol parece preguiçoso demais para se pôr e o relógio da parede insistia em bocejar a cada segundo, João Carlos Carranca encara uma folha de papel em branco. A folha desafia-o. Estava imaculada, estéril, irritantemente vazia. E Carranca, conhecido pelo seu feitio que fazia jus ao apelido sempre que a inspiração teimava em desertar, decidiu que aquele era o dia perfeito para escrever sobre coisa nenhuma.
- Bora - resmungou para os seus botões, ajeitando os óculos na ponta do nariz e brandindo os dedos sobre o teclado como se estivesse a bater um bife da testa, a ver se o amacia. 
Começou por descrever o silêncio. Mas o silêncio era demasiado barulhento; ouvia-se o zumbido de uma mosca tonta que tentava atravessar o vidro da janela fechada e o som metálico do frigorífico a fingir que trabalhava em dia feriado. Decidiu então focar-se no próprio nada.
O nada, pensou Carranca enquanto mordiscava uma banana, é uma coisa fascinante. É o espaço que fica entre o pensamento que acabámos de ter e aquele que nunca chegaremos a pensar. É o recheio de um pastel vazio, a cor de um camaleão num quarto escuro, ou a utilidade daquele pequeno bolso que as calças de ganga trazem e onde nunca cabe nada a não ser uma unha encravada.
Escreveu duas linhas sobre a poeira que dançava num raio de sol. Uma coreografia caótica de pequenos nadas suspensos no ar, sem destino, sem pressa e, acima de tudo, sem qualquer tipo de mensagem profunda para a humanidade.
Escrever sobre coisa nenhuma é uma arte incompreendida, rabiscou ele, com um sorriso de canto de boca que quase lhe desmanchava a cara séria. Exige um esforço hercúleo para não deixar escapar nenhuma ideia com pés e cabeça. Se uma ideia útil se atreve a aparecer, temos de a escorraçar imediatamente com o delete.
De repente, o computador falhou. Carranca agitou-se com energia, mas o pc recusava-se a cooperar. Olhou para o botão de power. Era o pináculo da sua obra: um ecran apagado, escuro e perfeitamente representativo de coisa nenhuma.
Rindo-se sozinho daquela ironia abstrata, João Carlos Carranca recostou-se na cadeira e deu o dia por terminado. Tinha finalmente conseguido produzir uma obra-prima sobre o vazio absoluto. E o melhor de tudo? Não havia ninguém que pudesse criticar o conteúdo, pela simples e maravilhosa razão de que ele não existia.
Era feriado. Curiosamente era o dia do trabalhador.


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30 de abril de 2026

eu, em autobiografia não autorizada

Nasci sem manual de instruções, como toda a gente, acho eu, mas com uma particularidade: desde cedo ficou claro que eu tinha um talento raro… para fazer asneiras.

Cresci numa casa onde a paciência dos adultos era posta à prova como se fosse um concurso dos jornais que chegavam á província. E eu concorria para ganhar e nunca soube se alguém ganhava. Havia miúdos que aprendiam a andar de bicicleta, eu, pessoa rara, aprendi a cair de bicicleta com estilo. Havia quem desmontasse relógios para perceber como funcionavam, eu desmontava e depois ficava com peças suficientes para montar… outro problema que nunca conseguia justificar.

Na escola, a minha relação com o saber era cordial, mas distante. Eu olhava para a matéria, a matéria olhava para mim, e nenhum de nós dava o primeiro passo. Já os disparates… esses vinham ter comigo sem convite nem qualquer tipo de preparação. Uma vez levei um grilo para uma aula, tipo estudo científico para estudo científico. O grilo saiu mais instruído do que eu e a professora nunca mais confiou na minha vocação académica.

Na adolescência, refinei o meu talento. Já não eram só asneiras pequenas, eram asneiras ambiciosas. Uma vez tentei impressionar num baile. Treinei passos de dança em casa, sozinho, com uma vassoura como parceira , foi a única que alinhou sem se queixar. Chegado ao baile entrei em pista cheio de confiança… e saí de lá com a dignidade em coma. Descobri que o problema não era a vassoura: era mesmo eu.

Mas há uma coisa curiosa nas asneiras que fiz: ensinaram-me. Às vezes devagar, às vezes com nódoas negras, mas ensinaram. Cada disparate vinha com uma lição escondida, normalmente bem escondida, que eu também não ajudava muito a encontrá-la e quando isso acontecia tentava assobiar para o lado.

Com o tempo, comecei a perceber que a vida não é um concurso de perfeição. É mais um campeonato de resistência ao ridículo. E nisso, modéstia à parte, eu já tinha anos de treino.

Fui tropeçando, levantando-me, voltando a tropeçar num estilo para não perder o hábito, até que um dia dei por mim… a acertar. Não sempre que isso poderia parecer suspeito, mas o suficiente para dizer que afinal, isto vai. E não é que foi?!

Hoje, quando olho para trás, vejo um percurso cheio de asneiras. Algumas memoráveis, outras que ainda me fazem corar quando me lembro sobretudo nas madrugadas de insónia, que é quando o cérebro decide fazer reposições como nos cinemas de antigamente. Mas também vejo uma coisa importante: sobrevivi a todas elas e com diploma a atestar.

E mais, aprendi a rir-me delas.

Porque, no fundo, vencer não foi deixar de fazer asneiras. Foi começar a usá-las como degraus, ainda que, de vez em quando, eu suba dois e desça três, só para manter a coerência.

E cá continuo: nasci, cresci, fiz asneiras… e, entre tropeções e gargalhadas, vou vencendo. Nem que seja por pontos, nem que seja com palavras soltas e estórias de inventar, mas no concurso do Província ou do Diário eu agora ia ganhar... tempo de recordar




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29 de abril de 2026

O ÚLTIMO AVÔ – Afonso Reis Cabral - K'arranca às Quartas 116


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Esta Música tem uma História - 57 - Futuros Amantes - Gal Costa - K'arranca às Quartas 116


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Tesourinhos Musicais 91 - Armando Gama - K'arranca às Quartas 116


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Crónica de João Portelinha da Silva 21 - K'arranca às Quartas 116


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Crónicas de Carlos Osório 15 - K'arranca às Quartas 116


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Crónica 104 - K'arranca às Quartas 116


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Programa 116 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 22 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é Liberdade e Trabalho uma forma de ver

Hoje falámos de O Último Avô de Afonso Reis Cabral nas palavras de Anabela Quelhas.

Hoje houve Esta Música tem uma história com Gal Costa num poema de Chico Buarque, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Armando Gama e a sua carreira.
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou do 25 de Abril e a África Lusófona
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos a toponímia e sua relevância e algum esquecimento


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na Força Mental


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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porque olho

Sentado no passeio olho em volta e o que vejo? Para além dos anos que vivi, vejo o presente que desperdiço porque me sentei no passeio a olhar. De via estar aqui a pensar mas estou apenas a olhar. Olho e só vejo os anos que passei a viver. Foram bons? Foram maus? Que importa se foram os meus anos que passei. E hoje? Olho para onde. Se eu pudesse ver o amanhã?! Não teria graça!

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28 de abril de 2026

fui à praia

O despertador tocou às 8h. O meu plano era perfeito: chegar cedo, garantir o melhor lugar, pegar um bronzeado digno de capa de revista do estilo Crónica Feminina e ela ia me olhar com outros olhos.

Cheguei à praia às 9h. O mar parecia uma piscina de gelo, o que dava a certeza que não tinha pica-pica, entrei, depois de 15 minutos a molhar apenas os dedos dos pés até congelar a alma e ter vontade de entrar. Quando na volta me sentei na toalha, senti-me vitorioso embora a minha pele parecia um arrepiado tipo pele de galinha lixada.

Dez minutos depois, uma família de onze pessoas, para não dizer mapundeiros, instalou-se ao meu lado. O pai, um mestre da construção civil em areia, começou a cavar um fosso que, por volta das 11h, já ameaçava a estrutura da minha cadeira, as arcadas e quem sabe o ecran de cinema. Às 12h, uma gaivota, com uma pontaria cirúrgica e um sentido de oportunidade duvidoso, decidiu que a minha toalha era o alvo perfeito para a sua contribuição matinal.

Às 13h, desisti. Voltei para casa, arreliado, com areia pelos cabelos e a certeza absoluta de que, amanhã, estarei lá outra vez.


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27 de abril de 2026

uma festa de anos que fui

Ah, os anos 60! Se hoje o drama é a senha do Wi-Fi, em 1968 o drama era o volume do gira-discos e a quantidade de laca ou brilhantina necessária para manter um penteado intacto diante de uma ventoínha,

Aqui vou contar uma versão de uma estória quase verdadeira, com mini-hondas, brilhantina e o terror de todos os pais daquela época: o conjunto rock que abrilhantavam os bailes e festas de garagem.

Tudo começou quando o Álvaro, que acabava de completar 16 anos e achava que era a reencarnação do James Dean ou, na pior da hipóteses, o Alan Delon, já para não falar do Morandi ou no Holliday. Ele resolveu que a festa iria ser na Discoteca e que ia ser um estouro.

A senhora sua mãe deve ter passado os três dias anteriores a fazer croquetes, rissóis, panados e um tal de ponche de frutas que agora baptizaram de sangria. 

O pai, estava na sala a testar o gira-discos e os muitos vinis afim de colmatar qualquer falha da banda convidada. Ele tinha uma regra clara:

- Se eu ouvir esse tal de Roberto Carlos gritar que 'está proibido fumar', eu desligo a luz e acaba-se a festa. É que ele não respirava, fumava.

Os convidados foram chegando, uns nas sua mini-hondas, outros na Mini Suzuki, outros a pé e poucos à boleia do carro dos pais. As meninas tentavam desesperadamente manter as saias rodadas, curtas e sem vincos. Não era moda a saia plissada e os pais não deixavam as saias se encurtarem mais.

Entrar na festa exigia um protocolo: os rapazes entravam com o pente de bolso na mão, dando aquele retoque final na franja e as moças chegavam com uma invisível névoa de perfume e um palmo dos joelhos à mostra.

Quando o conjunto rock começou a tocar Twist and Shout dos Beatles, a sala parecia tinha virado um campo de batalha. O objetivo era mexer os joelhos o mais rápido possível sem derrubar nada.

O ápice foi o lent". Quando a música diminuiu o ritmo, o pai do Álvaro levantou-se do sofá como se tivesse ouvido um alarme de incêndio. Ele circulava pelo salão com uma lanterna, sim, uma lanterna, garantindo que houvesse, no mínimo, o espaço de uma Bíblia Sagrada entre cada par que dançava.

No meio da festa, o conjunto tentou tocar os Rolling Stones. A senhora mãe dele logo apareceu ali a gritar que aquilo é música de quem não toma banho nem se penteia. A banda parou, amuou e abalou. Não era refrão, foi mesmo decisão. Aí estava o prevenido pai com os seus vinís e todos dançaram um banho de lua ao som do gira-discos. Tinha acabado de anoitecer, porque depois das nove é coisa só de cinema americano, a festa terminou.

Depois de quase todos terem saído, contrariados, uns de mão dada outros apenasmente a ter visão dupla por causa da tal ponche bebida em exagero.

Eu era quase da casa, assim com mais uns dois ou três ficámos para a limpeza combinada.

O cenário era de dar dó:

O chão estava tão grudento de ponche derramado que os sapatos faziam ploc a cada passo. Havia marcas de brilhantina em todas as almofadas de cetim. o Álvaro estava no canto, a tentar convencer futura namorada de que ele ia ganhar um Simca Chambord de presente, mentira deslavada.

O pai, soprando uma baforada afirmou:

- Para  Ano que vem, vais comemorar na igreja, que é mais seguro.


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26 de abril de 2026

sem palavras

Era domingo e perdi as letras. Não encontrei nem uma. Foi assim que passei um domingo sem conseguir escrever uma palavra. Faltavam-me as letras. Mas onde foi mesmo que as deixei? Numa qualquer rua escura, num beco, numa praia, num deserto, na praça onde a multidão gritava? Procurei em todos os lugares da minha cabeça. Nem uma letra e sem letras não há palavras. Não as uso hoje.


Sanzalando

Pertinências 7 - Equipes de Rua - III Colóquio do Grato

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.




Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.



O Padre Rui Fernandes moderou o painel intitulado os desafios das equipes de rua no âmbito das adições e saúde mental

Falarão Ricardo Rodrigues, Ana Margarida Teixeira, Fábio Simão e Luís Norte



Imperdícel





Sanzalando

25 de abril de 2026

Ser livre

Com o sol em Abril chega sempre a vontade de arejar a casa, abrir as janelas, sacodir os tapetes e deixar entrar luz sem ter de pedir licença. 

Num outro Abril a Revolução dos Cravos, fez isso mesmo, mas em versão nacional: abriu as janelas de Portugal e disse agora respira.

O problema. deliciosamente, é que a liberdade vem sem manual de instruções. Não traz um folheto do a explicar e não diz: Parabéns, adquiriste a tua liberdade. Monta com cuidado e usa com responsabilidade. Nada disso. A liberdade chega como a primavera: bonita, espalhafatosa e um bocadinho desorganizada.

Há quem, perante tanta liberdade, se comporte como criança em loja brinquedos: quer tudo ao mesmo tempo. Fala mais alto, opina sobre tudo, partilha até o que não sabe. E está tudo certo, é o entusiasmo de querer usar toda a liberdade ao mesmo tempo. 

Entra em cena a irmã menos popular da liberdade: a responsabilidade. Não é tão airosa, não tem cravos na lapela, nem músicas bonitas associadas. A responsabilidade é mais daquele género que diz: Sim, podes dizer o que quiseres… mas pensa primeiro. E aí começa o verdadeiro desafio.

Porque ser livre é fácil num dia de sol. 

Difícil é ser livre quando discordamos do vizinho, quando a opinião do outro nos irrita, quando apetece responder com um comentário que faria corar um falecido. A liberdade testa-se nesses momentos pequenos, não nos discursos solenes, pomposos e tantas vezes circunstanciais.

Abril, com a sua primavera, ensina-nos isso todos os anos. As flores não pedem autorização para nascer, mas também não crescem à martelada. Há um ritmo, um equilíbrio invisível. A liberdade é igual: cresce melhor quando é cuidada, tratada, construída, instruída, e levada à séria.

E assim andamos nós, entre cravos e espirros de pólen, a tentar equilibrar essa equação improvável: dizer tudo sem dizer demais, fazer tudo sem atropelar ninguém, ser livres… mas com juízo.

No fundo, Abril não nos pede perfeição. Pede-nos apenas que não confundamos liberdade com vale-tudo. Porque a verdadeira liberdade, essa que floresce todos os anos, não é gritar mais alto, é saber quando vale a pena falar… e quando vale ainda mais a pena ouvir.



Sanzalando

24 de abril de 2026

eu sou os ontens

Diz-se por aí que quem se renova, vive. Sinto uma certa nobreza em ser um fóssil bem conservado. Se sou hoje o que fui nos muitos ontens da vida, não é por falta de tentativa de atualização de software, é porque o hardware original, ainda que com alguns ruídos na dobradiça, tem um charme que as versões beta não conseguem replicar.

Olhar para o espelho é visitar uma exposição permanente. Estão lá as mesmas teimosias de 1968, o mesmo pânico de atender chamadas desconhecidas e aquela incapacidade crónica de decidir o que jantar. Mudei de morada, mudei de lugar e, segundo os dermatologistas, mudei todas as células da pele. Mas a alma? Essa continua a usar as mesmas pantufas mentais.

Dizem que a maturidade traz a serenidade. No meu caso, a maturidade apenas trouxe uma forma mais articulada de reclamar do preço do azeite, a incapacidade de ficar especado a olhar os vazios, a possibilidade de dizer o que vai no pensamento sem ter medo que lhe cortem as raízes. Antes esquecia-me das chaves de casa e era o ponto final. Hoje esqueço-me das chaves e agora faço uma reflexão filosófica sobre como o objeto é um símbolo da nossa prisão urbana enquanto procuro no bolso errado.

A essência permanece: continuo a rir nas horas impróprias e a achar que para a semana começo a correr mais. Esse ontem de boas intenções é o meu companheiro mais fiel, aquele que trago sempre comigo.

Ser hoje o que se foi ontem é um acto de rebeldia num mundo que nos obriga a ser "versão 2.0" todas as manhãs. Existe um conforto em saber que, se eu me encontrasse comigo mesmo aos dez anos de idade, ambos escolheríamos o mesmo sabor de gelado e a mesma estratégia para evitar arrumar o quarto. Mudar é necessário, mas manter o próprio absurdo é o que nos salva da monotonia de sermos perfeitos.

No fundo, a vida não é uma linha recta rumo à evolução, mas sim um looping da montanha-russa, o cenário muda, o vento sopra mais forte, mas o grito e o frio na barriga é exatamente o mesmo de sempre. E que sorte a minha, pois aquele "eu" de ontem era, apesar de tudo, um tipo bastante porreiro para se levar na mochila.


Sanzalando

23 de abril de 2026

O Beto e o Manel na viola e eu nas letras

O Beto e o Manel tocavam viola e com eles fazíamos serenatas à janela. Entusiasmo era mais que muito, a técnica não sei como é que era, mas com uma confiança absolutamente injustificada, saíamos à sexta-feira, qualquer coisa como 10 da noite e, escolhidas as janelas, lá estávamos com todo o nosso ar sério. Eu, por um, fazia as letras o que, na prática, significava que rimava “amor” com “flor” até ao limite do aceitável… e um bocadinho além e quando terminava o nosso reportório íamos para a balada, mesmo que fosse política. Amor não tem facção.

Juntos, éramos uma espécie de tripla artística de garagem, sem garagem e sem grande parte artística, mas com uma coisa essencial: tempo. Muito tempo. E uma capacidade extraordinária de o gastar em coisas perfeitamente inúteis que na época eram-no muito. Uteis, é claro.

Passávamos tardes inteiras sentados num banco do parque infantil. Eles afinavam (ou diziam que afinava), eu escrevia (ou fingia que escrevia), e entre um acorde duvidoso e uma rima sofrível, lá saía mais uma obra.

- Isto está profundo — dizia o Beto, depois de tocar três acordes seguidos sem tropeçar.

- Isto está confuso - acrescentava o Manel e eu dizia que era o melhor que conseguia, rimar coração com camaleão.

Mas ríamos. Ríamos muito. Porque, no fundo, aquilo não era sobre música, nem sobre poesia era sobre o intervalo entre uma coisa e outra. Era sobre inventar canções que nunca ninguém ia ouvir, sobre discutir se o refrão devia entrar antes ou depois de não sabermos bem o quê, sobre achar que estávamos a criar algo genial… e desistir ao fim de dez minutos para ir beber qualquer coisa à Cábula.

Houve uma fase em que tentámos ser sérios. Lembro-me bem. O Beto até fechava os olhos enquanto tocava, como se estivesse num concerto importante. Eu escrevi uma letra sem uma única rima óbvia.

O vento ondula searas

O mar banha a terra

Acontecem coisas raras

Num mundo em guerra...

Morena, morena

dos olhos galantes

quem te deu morena

esses dois diamantes

Resultado: ninguém percebeu nada, e se calhar nem nós. 

- Esta é a nossa melhor música - dizia ele, com ar mais sério que lhe vi.

- Concordo - respondia o Manel, que não sei se brincava ou falava sério.

E assim se passávamos o tempo até chegar à sexta-feira e irmos testar na serenata propriamente dita.. Não a correr, nem a voar, a escorregar, suavemente, entre acordes tocados e palavras meio inventadas nos suspiros da respiração. 

Se alguém nos perguntasse o que estávamos a fazer, diríamos música. Mas a verdade é que estávamos só a viver devagar, com banda sonora improvisada e recriada nos bancos do parque infantil.

Hoje penso nisso e percebo: não éramos bons músicos, nem grandes letristas. Mas éramos excelentes a perder tempo e, curiosamente, era aí que tudo fazia sentido.

O Beto tocava viola, o Manel tocava viola e eu fazia letras. E juntos, com muito humor e zero pressa, afinávamos o essencial: a arte de não levar a vida demasiado a sério.



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22 de abril de 2026

Programa K'arranca às Quartas 115



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 22 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é a calma ainda vai ser moda - A pressa

Hoje falámos de Agustina Bessa Luís a propósito de Estações da Vida.

Hoje houve Esta Música tem uma história com Amélia dos Olhos Doces de Carlos Mendes e Joaquim Pessoa, numa colaboração de José Leite; Os Tesourinhos Musicais hoje falei de José Afonso.
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de moçambicana na pessoa de Marcelino dos Santos e nas 
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos Sérgio Godinho e não só


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na liderança.
E ainda houve tempo para o lançamento mundial de nova música de Zé Manel Martins - Benguela para além de uma música de JAZZ do Dinis... com o mês de Abril e da Liberdade assim se escreveu este programa

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Tesourinhos Musicais 90 - José Afonso


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As Estações da Vida - Agustina Bessa-Luís


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Esta Música tem uma História 56 - Carlos Mendes e Amélia dos olhos Doces


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Crónica de João Portelinha da Silva 20 - K'arranca às Quartas 115


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Crónica 14 de Carlos Osório - K'arranca às Quartas 115


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Crónica 103 - K'arranca às Quartas 115


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Fui à praia mas não conto a ninguém

Ah, o verão de quando eu era adolescente. Aquela época era mágica, a gente acreditava piamente que ia parecer um anúncio de gasosa, mas acaba por aparecer como figurante de um documentário sobre desastres naturais.

Aqui vai o relato de um dia "inesquecível". 

O plano era simples e infalível: chegar à praia, exibir o tronco que nem Tarzan de trazer por casa, cultivado a fazer três flexões diárias, poucas mas compenetradas, passar bronzeador com a elegância de um artista de filme e, quem sabe, trocar olhares significativos com a menina do guarda sol azul. A Entrada na praia parecia Triunfal, andar na areia com aquele andar despojado, mas havia um problema: a areia estava a aproximadamente 180°C, mais coisa menos qualquer outra. Em vez de um galã, parecia uma pipoca saltitante, soltando pequenos guinchos de dor enquanto buscava desesperadamente uma sombra. Como não queria pedir ajuda, porque homem não precisa de ajuda, tentei alcançar logo o mar. O resultado foi uma performance de contorcionismo que atraiu olhares, mas não de admiração. Terminei o dia com uns pés de urso branco pelado. 

Mas saltemos o desinteressante poder de estar sentado a olhar o mar, sem ter pés para caminhar.

O mar estava clássico, segundo os veteranos. Para mim, parecia o cenário de O Dia Depois de Amanhã. Vi um grupo de meninas a olhar com olhar de quem tinha algum interesse. Era a hora. Mergulhei, com algum esforço, numa onda que parecia inofensiva. Três segundos depois, as leis da física decidiram se estar ausentes. Eu girei 360 graus na horizontal e na vertical simultaneamente, num número de circo que nem contorcionista profissional. Perdi o sentido de orientação e achei que o fundo do mar era o céu por uns breves momentos, o que deu tempo para engolir uma caneca de água salgada à temperatura tropical. Alguém correu em meu auxílio e me perguntou se eu estava bem e eu respondi com a maior das mentiras que estava óptimo, enquanto tinha vontade de drenar dois litros de água do meu pobre estômago. 

Nesses momento senti que para lá das leis da física a minha dignidade também tinha fugido para parte incerta. Só faltava a sílica da areia ser soprada para a minha boca e eu estar a apreciar uma crocância salgada.

Voltei para casa, escaldado, de corpo e alma, e com pés que nem chinelos de pneu eram suportados.

Foi nesse dia que pensei: daqui a uns anos, quando inventarem as redes sociais nunca lá contarei esta estória.


Sanzalando