Foi nos gloriosos anos 90, quando os hospitais ainda tinham corredores onde o eco das passadas pareciam anunciar más notícias, as radiografias viam-se penduradas em retângulos iluminados, pomposamente chamadas de negatoscópio, e o café da cafeteira era considerado um tratamento complementar que nos era oferecido pelas auxiliares..
Eu era um jovem cirurgião.
Jovem significa, em medicina, alguém que sabe tudo... durante cerca de três semanas. Depois percebe que afinal sabe pouco, mas ao fim de alguns anos descobre que então sabe ainda menos. É uma especialidade excelente para combater a vaidade.
Naquela manhã apareceu um senhor de quase oitenta anos. Entrou no gabinete da urgência com uma calma irritante. Quem estava nervoso era eu.
- Então, doutor... sou eu o seu primeiro da manhã?
- Sim - babulciei.
Ele sorriu.
- Ainda bem. Assim, se correr mal, o senhor melhora para o segundo.
Sorri por educação. Interiormente procurei o manual "Como responder a um doente com espírito brincalhão?". Não existia, pelo menos para mim. Comecei a fazer perguntas.
- Tem alergias?
- Tenho.
- A quê?
- A hospitais.
Anotei com a minha letra ainda redonda e perfeitamente legível apenas -sem alergias conhecidas.
Continuei.
- Alguma doença importante?
- Casamento. Há cinquenta e dois anos.
Olhei para ele com o ar mais sério que conseguia ter na altura.
Ele olhou para mim a sorrir.
A enfermeira que havia entrado uns segundos antes fingiu que estava muito ocupada a organizar papéis para não se rir.
Reli a ficha. Virei a página e continuei a ler. O meu colega tinha escrito "apendicite".
Como é que uma apendicite ainda dá para ter esta disposição toda? Deite-se ali, disse-lhe apontando para a marquesa.
- Outra vez? - perguntou ele - Já o seu colega me fez andar aqui aos saltos...
É. Ele tinha, tudo indicava, uma apendicite. As análises mostravam leucocitose. As minhas mãos diziam que era mesmo.
Com o ar mais sério e carrancudo expliquei a cirurgia com todo o rigor científico.
Desenhei.
Mostrei exames.
Falei de riscos, benefícios, complicações e recuperação.
Quando terminei, ele fez silêncio.
Pensei que estava impressionado com a minha competência.
Afinal perguntou:
— Doutor... e isso tudo custa muito ou cobra pelas palavras que recitou?
Foi nesse momento que compreendi que aquele homem estava ali para me testar.
Pedi á enfermeira para prepará-lo para o bloco. Queria transmitir confiança.
Ela levou-o. Falei com o Chefe que sorria e me dizia se é avança!
Fui ver o doente outra vez.
Encontrei-o a ler o jornal, deitado numa maca e tapadinho com lençol branco imaculado.
- Está pronto? -perguntei
- Prontíssimo. O senhor é que parece que não.
Disfarcei.
- É normal.
- Não é normal, doutor. O senhor é que me vai operar. Eu só tenho de me deitar e deixar-me dormir.
Nunca uma frase tão simples me fez sentir tão pequeno.
Fomos para o bloco. Quando entrou no bloco operatório, ele cumprimentou toda a gente como quem chegava a uma festa.
- Bom dia! Não se preocupem. Trouxe bom humor para todos.
Enquanto o anestesista preparava tudo, perguntou-me:
- Doutor... já tomou pequeno-almoço?
- Já respondi mecânicamente.
- Ainda bem. Nunca confiei em quem trabalha de estômago vazio.
Quando a anestesia começou a fazer efeito, ainda teve forças para dizer:
- Se correr tudo bem, pago-lhe um café.
Fechou os olhos.
A operação correu exatamente como devia, excepto a quantidade de pús que tinha naquela barriga e que me surprendeu, bem como à restante equipe.
Tamanha surpresa. Uma peritonite e uma disposição de enganar o mais sabichão que me achava. O pós-operatório imediato decorreu sem sobressaltos.
À tarde quando o fui ver ao quarto, estava ele bem acordado e sorriu-me e disse:
- Afinal tem jeito.
Confesso que aquelas três palavras valeram mais do que muitos elogios recebidos depois.
Dias mais tarde recebeu alta.
À saída apertou-me a mão.
- Doutor...
- Diga.
- O senhor estudou muitos anos para aprender a operar.
- É verdade.
- Pois eu estudei oitenta para aprender a não ter medo.
Ficámos os dois em silêncio.
Percebi então que, naquele hospital, no mesmo dia e na mesma hora tinham sido feitas duas intervenções.
Eu tinha operado a barriga dele. Ele tinha operado o excesso de confiança do jovem cirurgião.
Sem anestesia.
Sem bisturi.
E, curiosamente, sem deixar cicatriz.
Desde esse dia aprendi que alguns doentes chegam ao hospital para serem tratados. Outros chegam para nos ensinar. E esses são perigosíssimos. Saem pelo próprio pé, e levam um pedaço da nossa arrogância na mala.










