recomeça o futuro sem esquecer o passado

7 de outubro de 2026

Passeei na memória

E depois eu fico a repetir que até parece disco riscado. Mas vou fazer mais como se a memória é a minha e só tenho esta e não há para a troca? Mas refaço-me à estrada da tinha azul da bic ou da caneta de tinta permanente da Parker que nunca tive. Exercícios de arrefecimento e vou buscar esta.

O carocha azul do pai do Juleco estava parado ali na esquina, como se tivesse chegado de viagem e estivesse à espera que alguém lhe dissesse para onde devia continuar, acho que vai até na Oásis. Juleco, esse, estava mesmo na esquina a conversar com o Major, assunto sério, certamente. Em Moçâmedes, até para não fazer nada é preciso ter companhia. Foi então que o Sr. Castro apareceu à janela da casa da esquina:

— Faxavor, pouco barulho! disse assim como que estava zangado que nem a sexta podia dormir. 

E desligaram. Essas crianças eram mesmo traquinas. E, pior ainda, eram barulhentamente traquinas. Mas não era barulho de malcriação, não. Era barulho de admiração, porque estavam a comentar as histórias de caça do Beto Reis. E quando o Beto começava a contar histórias de caça, até quem nunca tinha visto um leão acreditava que já tinha estado a fugir de um. Eu, cá por mim, nunca fui à caça. A minha caça era outra. Os animais mais selvagens que conheci eram os que o Sr. Sousa tinha lá no parque infantil. E ainda por cima o A. Sousa, que não tem nada a haver com o outro acabado de escrever, o senhor Reitor A. Sousa, de vez em quando olhava para nós com aquela autoridade toda e dizia:

- Vocês são uns selvagens!- nós achávamos aquilo injusto. Selvagens? Nós? Éramos apenas crianças com excesso de energia e falta de juízo. O que é completamente diferente.

“Pica a burra!”, diria eu, se fosse o Dr. Coutinho. Mas não sendo, fico-me pela recordação, que é mais barato e não dá trabalho ao tribunal.

E ali, naquela estrada que tinha árvores pelo meio, a coisa até parecia uma grande avenida. Só que era uma avenida em miniatura. Moçâmedes tinha dessas coisas: fazia-nos acreditar que vivíamos numa grande cidade, embora a cidade coubesse praticamente toda dentro de uma conversa quadriculada de ruas conhecidas. E, diga-se em abono da verdade, naquela cidade só morava e passava gente boa. Incluindo eu, é claro. Convém esclarecer isto, porque uma memória bem contada também precisa de justiça.

O Juleco ainda não se tinha mudado para o bairro da gente fina. Morava ali. Ainda. Naquele tempo ninguém tinha muita pressa de subir na vida. Subia-se, quando muito, para uma árvore, para um muro ou para o banco traseiro de um carro que estivesse mal estacionado.

Mais abaixo era o Xonera. Esse, sim, tinha outra conversa. Só pensava em carros de grande velocidade.

Nunca percebi muito bem por que razão todos queriam imitar o Novais. Talvez porque o Novais tivesse carro, ou porque tivesse fama de andar depressa, ou simplesmente porque, naquela idade, qualquer pessoa que fizesse barulho com um motor já era considerada uma espécie de Fangio de Moçâmedes.

A verdade é que a cidade era pequena. Muito pequena. Se alguém acelerasse a sério, saía da Torre do Tombo, passava pela Facada e, quando desse por ela, já estava a ser multado, no meio. Era uma cidade onde o polícia conhecia o carro, o carro conhecia o dono e o dono conhecia o polícia. E todos se tratavam pelo nome.

Já sei! A malta queria era acelerar na recta curva do aeroporto. Pois claro. A recta curva! Só em Moçâmedes é que uma estrada podia ser simultaneamente recta e curva e ninguém achava estranho. Mas pronto. Já me perdi outra vez nesta vagabundagem em que me meto nas estradas de tinta.

Comecei com um carocha azul, passei pelo Juleco, pelo Major, pelo Sr. Castro, pelo Beto Reis, pelos animais selvagens do Sr. Sousa, pelo Reitor, pelo Dr. Coutinho, pelo Xonera, pelo Novais e acabei numa recta curva.

É assim a memória. A gente começa por uma esquina e acaba não sabe onde. Mas, pensando bem, talvez seja precisamente aí que ela mora. Naquela esquina. Naquele carocha azul. Naquele barulho que alguém mandava desligar. E sobretudo naquele tempo em que éramos tão selvagens que ainda não sabíamos que um dia íamos ter saudades de o ser.


Sanzalando

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