recomeça o futuro sem esquecer o passado

6 de outubro de 2026

Três velhas à conversa

Estava assim ver fotografias da cidade de agora que ainda tem tantas coisas da minha cidade, dessa cidade que vai encolhendo com o tempo. Já nem as subidas têm tanta inclinação como tinham naquela altura em que lhes percorrias com os meus chinelos feitos de pneu, com os meus calções com suspensórios e com a minha cara de garoto feito traquina.
Foi assim, num flash de memória, que me saltou à frente a casa da D. Brites, que na verdade era da Tia Clarinha, uma senhora tão pequenina e magra que mais parecia um hino à resistência física, e que alugava uns quartos para a casa não ser tão grande como era quando estava vazia. Aquilo era o clube das velhas como a minha avó. A professora Estrelinha morou lá uns tempos que eu sei que lhe levei qualquer coisa quando ela estava doente. Mas hoje a casa veio à minha memória por causa da D. Brites e da Tia Clarinha que acho era irmã do Zé Côco. Família eram. 
E como mandava o estatuto da avó daquela época, eram todas centenárias... bem, pelo menos para os meus olhos de miúdo, já tinham idade para ter conhecido os dinossauros. Elas eram mesmo velhas. Mas parentizando aqui eu ia dizer que se calhar naquela alturas eram mais novas do que sou agora. Mas aos meus olhos de então eram velhas, do tempo dos dinaussauros.
Não me perguntem se o castigo era semanal ou mensal, porque nos apontamentos feitos na memória não está lá, mas a verdade é que a minha avó lá batia na porta para visitar a D. Brites e a Tia Clarinha, beber um chá e falavam que nem pássaros a cantar à desgarrada. E eu? Zero hipóteses de escolha. Era arrastado como jovem acompanhante de luxo para fazer sala a duas senhoras que tinham corda na língua para dar e vender. Falavam, falavam e falavam.
A minha parte favorita do corte e costura delas? É que entre uma malha de tricô e um naperom, passavam a vida a fofocar sobre a vida daquela rapariga. Ouvir a minha avó chamar rapariga a alguém que já devia ter idade para reformar o juízo fazia-me cá uma engasgadela de riso! Depois ainda vinha a conversa da caridadezinha e das Senhoras Vicentinas, que acho que era esse o nome da liga oficial da bondade, mas isso agora não mexe no meu baú de memórias.
O que me ficou mesmo gravado na alma foi o clássico momento  da meteorologia com a D. Brites. A mulher passava o tempo a bufar e a reclamar do clima. O topo do mundo para ela era a Metrópole! 
- Lá na Metrópole é que é bom! Aquilo sim, é saudável! - dizia ela, com um tom de quem falava do paraíso terrestre. A minha avó, que não tinha viajado mais que 90 quilómetros ouvia-a derretida e imagino o que ela imaginava. A minha avó nunca tinha visto mais que dez árvores seguidas. Era deserto o horizonte vivido dela. A maior floresta que ela viu foram as casuarinas atrás do Clube Náutico. Nem na Quipola tina árvores assim.
A minha avó, que de geografia percebia tanto como eu de amor poético, ouvia aquilo maravilhada. No caminho de regresso a casa, virava-se para mim muito séria e soltava a sua pérola de sabedoria: 
- Ó  filho, um dia temos de ir a essa Metrópole... Aquilo é tão saudável que se calhar lá a malta nem morre!
E pronto, foi assim, entre chás mornos e imortalidades geográficas, que eu fui aprendendo as grandes verdades da vida. Os velhos sonham com a imortalidade e os jovens têm a certeza que são eternos.

Sanzalando

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