Quase se finda mais um ano em que perdi a alma no vento dos entardeceres da vida, em que ela cavalgou por becos sem saída e por medos labirinticos dos pesadelos sonhados nos sorrisos das noites claras em que dormi acordado pensando nela. Mais um ano em que andei à deriva no rosto pálido da incerteza e no brilho das ilusões. Mais um ano de mãos vazias em que o volátil se me rendeu na incapacidade de voar no físico espaço da roda e me transportou nas nostalgias de ontem.
Mais um ano que se gastou nos pés descalços de calcorrear avenidas, ruas e vielas da imaginação que nos prega partidas, das realidades que sonhamos não nos acontecem. Mais um ano em que o vento gelou o horizonte na distância impossivel de lhe tocar.
Mais um ano que as noites são passadas sob estrelas estrangeiras, mas depois ouço uma voz amiga me cantar:
Não penses no passado porque não o podes mudar,
Não penses no futuro porque não o podes prever
E não penses no presente porque não o comprei!!
Boas Festas e nos Sonhos Também
(a actualização deste blog tem sofrido de irregularidade por artroses da vida pessoal e irá sofrer mais uns por anquiloses do tempo)
Sanzalando

O sol nasceu cinzento como nasce cinzento todos os dias por aqui. Deixei o dia acordar num bem acordado e lá fui eu para mais um verde onde as ideias brotam - deve ser da humidade - como brotam os verdes campos daqui. A estória vai crescendo, desta vez no papel, as personagens, algumas parecidas com personagens reais, vão tomando corpo e vida própria me obrigando a travar-lhes os ímpetos. Letra redonda para mais tarde conseguir reler antes de fazer como que nem fiz nas outras - desaparece para todo o sempre a Sebenta de capa vermelha. Mas por enquanto ela vai ficando travestida de letras em azul marinho, letra legível, parágrafos definidos num mais que perfeito saber por mim apresentado.
Pior mesmo é o frio que regela os dedos, o corpo que empacotado em muitas folhas como se fosse um bolo, fica de movimentos agarrados aos mais elementares.
Agora, num misto de tristeza e alegria, é hora de arrumar a mochila porque está quase na hora de pôr o ar serio de outras tarefas, guardar a sebenta vermelha, rever o que pode ficar para trás e amanhã poderá fazer falta, imaginar mais um ou dois parágrafos da estória que afinal vai passar aqui mesmo porque foi assim que ela quis.
Amanhã será outro dia noutro lado que ainda não vai ser o lado de lá onde o sol aquece, onde a minha alma renasce junto ao espírito da placenta se vê se a viagem tem continuação para além da memória.
Sanzalando

Altas horas da tarde, noite dentro. As pernas tremem de cansaço, os pulmões parecem não caber na caixa. Já nem me lembrava que o ombro direito está emperrado. A polícia também não perguntou nada, arriou em quem estava e em quem por acaso estava no acaso daquele instante, que era o meu caso. Eles gritavam com tanta quanta força eram capazes, na língua que nem com esforço entendo quanto mais no meu esforço de sair dali. Foi sábado, eles se manifestaram e eu corri. Coisas que fazia noutros tempos com alegria, agora mesmo cansado mas ainda com capacidade de sorrir e de saber que afinal eu também estava lá a apelar pela Terra.
Foi um Sábado diferente
Sanzalando

O Sol nasceu parece brilho de diamante.
Hoje está um dia que eu vou gastar o cartão da máquina fotográfica. Se fosse no antes eu nem metade ia tirar só para não pagar a revelação. Agora tem esse de cartão, descarrega num PC perto de si e já tá andar para outra. Mas hoje essa luz vai me ajudar, eu sei. Pena mesmo é que eu tenha de andar parece é daquelas bonecas russas que tira uma e tá outra e assim sucessivamente. Mas frio eu nem gosto nem de pensar quanto mais de sentir. Tambem se eu escorregar numa pedra mais geladinha eu não vou nem me magoar de tão almofadado eu estou. Ai como eu gostava de estar no outro ponto onde mesmo que chove está uns 29. Mas não estou e não vou nem mais lembrar hoje essa tristeza que me acompanha. Vou ver os carcamanos daqui e quando estiverem distraídos lhes arranco uma fotografia, porque teimoso sou eu e mais nada.
Até breve, de algures no mato gelado do norte da Europa que me enganaram a dizer que aqui é que é bom e coisa a tal, uma ova.
Sanzalando

Enjaulado numa jaula de frio percorro a cidade e o campo. Chamar cidade a este lugar é o mesmo que a antiga estória da cidade e o mato, mas isso não é para aqui chamado a não ser para aquecer o ambiente.
Hoje metendo as pernas ao caminho fui ver verde, muito verde, aqui e ali interrompido por um casarão que só de pensar em limpar um dia eu fico logo a transpirar e por isso sigo caminho. Mas se me falam do lugar onde eu devia estar e que não é este onde estou a dizer cobras e lagartos então deviam conhecer este canto do mundo que é conhecido quer por Gram Bertanha, Inglaterra, Reino Unido, Velha Albion e sei lá mais o quê... vê-se logo que eles não se entendem. Mas a educação ficou na esquina ao sair de casa. Só pode... Se tem possa de água da muita chuva que aqui está sempre a cair, só para para refrescares os olhos num brilho solar por segundos, eles passam todas as rodas do carro só para te darem um monumental banho. E é de propósito que eu bem vejo. Se estás na passadeira e queres atravessar... melhor mesmo é esperar que não venha nenhum pois te passam a ferro sem cerimónia. E se estás a tirar fotografia... ISSO É PARA QUÊ perguntam eles na língua deles e com ar de quem te vai arrancar o coração mesmo através da roupa toda que trazes vestido. Como a gente não se entende, eu finjo lhes desconhecer a língua, lá vou eu para a praia mais umas tantas vezes e até apaguei uma foto que apenas tinha um sinal de trânsito que a casa atrás nem se percebia... Outro mundo, dizem-me sem me conseguir convencer.
Mas na verdade lá vou andando à procura da inspiração para uma ideia que me surgiu faz tempo e a preguiça tem impedido...
Verdade verdade é que eu prefiro o campo à cidade, seja aqui seja lá.
Sanzalando

Faz agora são meio dia mas parece ainda é madrugada. Acho hoje alguém se esqueceu de pôr despertador e o tal de astro rei hoje não veio trabalhar. Chove parece vai acabar agora a água do céu e amanhã o dia vai ser igual ao dia que eu estava a imaginar que eu merecia estar agora a usufruir. Assim como assim e como os músculos não aguentam mais fazer as caminhadas da guerrilha do conhecimento por entre ruas estreitas e húmidas, braços segurando capas, chapéus e gorros optei por ficar da janela a ver o mundo circular por ali em baixo faz conta eu sou o senhor central.
Olha aquele ali vai de manga curta pensa deve ser o Tarzan dos tempos de agora, ou então desregulou o central computador da tola dele mesmo e nem sente está frio de rachar que gente humana que nem eu não consegue nem aguentar só de pensar.
Meninas, aquecedores ao máximo que o vosso lord, your sweet lord, vos ordena. De facto ninguém me ouve e estou eu aqui de sobretudo vestido em quase impossibilitado de esticar os dedos para te falar as coisas que eu te queria dizer. Como é que eu logo à noite posso ir ver o Peter Pan no teatro se nem consigo respirar o ar frio que não me entra na casa?
Sanzalando

Olhei pela janela e estava sol. Afinal aqui deve ser o lá, pensei eu com os meus botões, quando reparei que eu estava de t-shirt e por isso eu estava mais que enganado. É certo que ainda não tinham batido as oito no relógio da Lageosa que é a mesma hora que aqui e deve estar frio como está frio aqui. Experimentei ir sentir o sol brilhante e logo me arrependi pois tudo congelou que se fosse necessário só de lupa eu me ia encontrar. Salsichei-me com mais roupa e gorro e luvas e ainda mais um outro casaco. Não sou esquimó nem pinguim mesmo que assim vestido o meu andar lhe pareça. Como é necessário manter a moleirinha arejada, esquecer as luzes amarelas e pretas da vida vivida, há que fazer caminhadas. Não posso ficar enlatado dentro do meu quarto a ver o tempos se solidificar no gelo conservador de memórias. Lá fui salsichado pelos caminhos desta terra que tem língua que nem sei como eles se entendem neles mesmo. Tank you disse eu num quase soletrado a quem me deixou atravessar a estrada como que tivesse adivinhado que eu ia olhar primeiro para o lado errado. Andei e andei horas por subidas que aqui são assim ladeirinhas de trazer por casa. Cansado eu precisa dum poiso para pousar a bunda e retirar os tantos kilos destes pobres pequenos pés.
Encontrei o Royal Bowls Club, Pareceu um sítio bom e num envergonhadamente passo lá fui entrando. Estava quente e tinha uns sofás que me convidaram a sentar. Olhei e não estava ninguém a quem pedir licença pelo que sentei mesmo sem estar com licença. um grande tapeie verde feito de alcatifa de pelo curto estava bem esticada por aquele chão. Duas dúzias que eu não contei mas calculei ali estavam a tirar bolas que parecem queijos contra um bola verdadeiramente redonda e mais pequena que atiravam primeiro. Das duas dúzias eu quase dizia que dúzia e meia joga aqueles queijos há mais de um século. Se estiver errado não é por muito. Só estou a imaginar se não inventassem uns ferros para os apanhar do chão alguns deles iam lá em baixo lhes buscar e depois tinha de vir a ambulância lhes levar para um esticar de corpo.
Retemperada a força e recuperada a energia dum nescafé quente lá voltei a pôr as pernas ao caminho.
Sanzalando

É, mesmo daqui que eu te falo as coisas que vão me apetecer te dizer. Este aqui é um aqui que é ao contrário do aqui que eu queria estar mas é neste momento o possível. Se eu tivesse aqui um mapa eu te dava as coordenadas e coisas similares para saberes onde é este aqui. Mas como o não tenho, eu te digo apenas que é aqui, do outro lado do tu estás, do teu calor eu aqui recebo o gelo do ar que dói só de lhe respirar, aqui olho primeiro na esquerda e depois na direita se quero atravessar a estrada. Só por me esquecer disso já ouvi trinta e uma buzinadelas e acho a minha mãe mudou de nome outras tantas. Acho até eles já me mandaram na praia pois acho que já ouvi na beach umas quantas vezes e eles não vêem que está frio de rachar até a rocha mais dura?
Mas hoje é daqui que eu te falo até os meus silêncios que as palavras podem sair congeladas da minha boca.
Eu te estou a ouvir perguntar nos teus pensamentos porque é que eu estou aqui.. Me enganei? Afinal só estou mesmo para estar no cinzento escuro do dia de inverno a pensar no dia claro do teu verão e sentir que me fazes falta, ou não.
Hoje ainda estou a aprender alguns sons que eles dizem é a língua deles, a ver como vou sair daqui sem levar com um carro em cima do meu corpo frágil e aprender a comer comida que eu nem sei mais é o quê. Só a fome me faz eu lhes comer.
Até já, my lord, me sweet lord.
Sanzalando

Sinto muito mas parti. Já me fui. Desculpa-me.
Entendes, não é verdade?
Até acho que já fui tarde, a vida não me tem sido boa e eu já cansado de lacrimejar, fujo em direcção ao sol, palmilho milhas de água salgada, e levo como bagagem a lembrança dos instantes que passei a olhar-te com olhos de amor. Gostava de poder me reinventar, recordar sempre o teu rosto de olhar distante, mas já não posso mais. Já não tenho mais instantes para te dar, já não consigo olhar-me como se eu fosse o único dos dois a possuir amor.
Sinto muito, mas parti. Já me fui.
Deixei-te a minha verdade que pode ser mentira, a minha ficção que pode ser verdadeira, o meu amor que pode ser um brilho duma estrela do céu.
Que sejas feliz depois deste instante!
Sanzalando

Por um instante senti que me abraçavas e logo comecei a sentir saudades dos teus abraços. Curiosamente comecei a sentir as saudades dos teus abraços e não de ti. Que estranha sensação a de sentir necessidade da tua protecção. Mas eu nunca tive um abraço teu… e já quero outro? Será que deixaste por aí abraços perdidos que eu um dia encontrarei e este meu sentido de prever futuros irreais me alerta já?
Na verdade eu acordo diariamente com a necessidade de olhar-te e como não te vejo preciso dum abraço de silêncio.
Sanzalando
