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A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

21 de Maio de 2013

queria mas não quero

Queria passear junto do zulmarinho, assim como que a me esquecer das coisas inesquecíveis, a recortar pedaços de modo a não conseguir rever o inteiro, a maltratar pesadelos que nunca sonhei acordado. Queria mas mas não posso. A tempestade intestinal voltou a atacar e qualquer fuga tem um rumo certo e bem delimitado. Imperdoavelmente.
Queria saborear o sol que hoje parece nasceu bem amarelo de quente, mas não posso sair da sombra porque as curvas e contracurvas seriam perigosas em caso de velocidade instantaneamente alta.
Queria, mas afinal sou eu que não quero!

Sanzalando

20 de Maio de 2013

entre pingos

Entre pingos que teimosamente me querem molhar neste passeio entre pensamentos e sonhos, julgo que serei a cópia perfeita de um idiota. Eu me esquivaria deles, eu me refugiaria deles, mas não verdade não tenho queda para isso e cada vez mais me entranho por eles.
Por entre estes pingos soltos, está mais que provado que jamais conseguirei amar alguém, se não o eu que transporto no meu egoísmo de sonhar e pensar em voz alta. Típico de amor próprio. O que me vale é que tenho a mala carregada de memórias e de outras estórias que não me causam dano.
Por entre estes pingos espaçados consigo ver que os meus olhos ainda conseguem sorrir, como sorri um idiota numa ilha de solidão


Sanzalando

19 de Maio de 2013

eu e o alter ego

Hoje deixei o meu alter ego em casa e fui eu mesmo passear perto do zulmarinho. É que tem gente pensa eu sou o santo, eu sou o nostálgico, choramingas e coisas mais assim de levar e lavar com lágrimas. é o outro que escreve as letras que os outros querem ler e não conseguem dizer. 
Eu mesmo sou assim que nem eu, defeitos quanto baste, o outro parece ser perfeito que até enerva-me cabelo curto, de rabo de cavalo imaginário é o outro, magro de saudável enquanto o outro é magro de mágoa sofrida na alma.
Eu vou na noite, na madrugada, na manhã e na noite. O outro vai no choro da guitarra corrida num dedilhar de fado triste. O outro tem um orgulho que lhe aguenta, enquanto eu o tenho apenas o quanto baste. Eu dou o braço a torcer o outro torce as palavras para levar às lágrimas descontidas. O outro é um ser simples enquanto eu sou um ser complicado de manhã à noite e ao entardecer.
A mim o vazio me incomoda, ao outro o vazio é essência. Eu mereço e procuro a felicidade, o outro canta a tristeza e a dor. Para mim o melhor é dizer piadas porque eu sempre fui uma comédia enquanto o outro e lágrima mesmo que não chorada.
O outro delira que lhe façam a corte enquanto eu, na minha timidez, me escondo nos passeios que me obrigo a fazer de vez em quando, para descansar o alter ego.

Sanzalando

18 de Maio de 2013

sol frio do lado do vento

Sol frio do lado que bate o vento. Óculos escuros para esconder os olhos mortos de cansaço das noites não dormidas pelos sonhos que se transformaram em pesadelo. Sol que fora brilhante está pálido como a minha macilenta cara, como que a me dizer que brilha de modo a me entristecer. Quando a gente está no buraco mais parece nos empurram para baixo para se verem livre da gente. Mas a gente cansa-se, mas não foi desta, dirá depois.
Olhar-me-ei num qualquer retrovisor dum qualquer carro por aí estacionado, para não ser parcial, e voltarei a ver o meu sorriso que brilhou e brilhará mais que este sol que faz frio do lado que sopra o vento.
Olharei, sem óculos escuros, em frente e direi que um qualquer tapete mágico tirado de repente debaixo dos meus pés não é suficiente para me derrubar e não preciso ser mais teimoso para me igualar a idiota num futuro próximo ou longínquo. 
Mas ó sol, podias dar uma ajudinha aqui no meu eu e brilhar mais amarelo para contrastar com esse azul do zulmarinho que parece hoje não acordou.


Sanzalando

17 de Maio de 2013

chuva conta gotas

Tem chuva parece é conta gotas que existe só para me irritar. Hoje queria deambular a minha saudade de sorriso por entre a areia do zulmarinho, e tem essa chuva de conta gotas a me travar. Eu tenho assim como que sentimentos de estimação para poder te ler os pensamentos como eles são, mas para isso preciso do marulhar desse mar, do perfume maresiado, do vento leve que me despenteia e põe os cabelos sobre os olhos. Essa chuva de conta gotas hoje me tirou esse dom.
Tem chuva de conta gotas que impede o cérebro de pensar com o coração. Hoje tem esse dia e por isso eu hoje vou ser apenasmente, e só, um humano que errou numa qualquer madrugada da vida ao não regar as plantas porque ainda não era primavera.


Sanzalando

15 de Maio de 2013

azul tempo

Sopra vento que levanta areia até parece picos a bater nas perna desnudadas desta criança de calções que vagueia neste areal de zulmarinho como se o tempo não tivesse nem idade. Eu sei que quando for grande eu vou ser uma pessoa incrível, companheiro, amigo tudo o que possas imaginar, para o lado bonito da vida. Não vou ser um idiota desses que faz bater o coração e foge parece tem fogo. Vou fazer planos, muitos planos e cumprir um a um como se fossem um conjunto indivisível. E vou-te pedir sempre a opinião, é claro.
Sopra vento no tempo e, já crescido, sem direito de andar de calções parece mal, não tenho direito de nem reclamar por todos os estragos que já fiz e ainda faltarão os que farei. 
Perdi, destruí, choraminguei, implorei, implodi, sofri, fiz sofrer, pisei, arranquei os corações que entrei e sequei as lágrimas que fiz chorar.
Sopra o vento e o zulmarinho continua azul e a vida continua a seguir-me ao lado.


Sanzalando

14 de Maio de 2013

infinitamente caminho

Deixo que o vento me molde os sonhos enquanto olho o zulmarinho de tantos azuis e penso em palavras que, sozinhas, já não me convencem. 
Caminho sem saber para onde vou, se quero ir a algum lado ou não, desamparado de ideias e desacertado de opções. Caminho espelhado em mim, como que vivesse secamente para mim. Aos poucos sinto que vou mudando, às vezes de rumo outras vezes de ideias. Mas não deixo de caminhar, ao vento, junto ao mar, com ideias ou sem elas.
A maresia me diz que nada é constante e nem eu serei bastante para alguém, se não for suficiente para mim. Assim caminho direito ao vento e a olhar o mar.
Moldados os sonhos e já protegido do vento, me deixo embalar no som nostálgico das ondas e me lembro que o infinito é um caminho dos mais lindos que há.

Sanzalando

13 de Maio de 2013

Desportingamente

Kota, conta aí no teu filho quando tu choravas porque o teu clube, de vermelho vestido, perdia ou empatava com o rival verde e branco e eu não percebia nada. Mãe dizia tu até nem saías de casa no dia a seguir. Os teus amigos acho esperavam ansiosamente esse dia só mesmo para te instigar até saíres dos carretos que eras nos outros dias.
Kota, conta mesmo como era ser desportista de não sei quantos costados e ainda ter vontade de no fim de semana a seguir encheres o peito e estavas de galo outra vez no poleiro.
Kota, eu sei tu sabias os nomes todos desde a fundação até aos teus dias.
Agora, Kota, o teu filho desconsegue entender o fervor violento, as lágrimas, os cifrões que falam mais alto que todos os chutos, bassulas e raviangas desses estádios vazios.
Kota, conta mesmo neste teu filho que não veste vermelho nem verde e branco, como ele mesmo não entende esta coisa do desportivamente domingado jogado todos os dias da semana.
Obrigado , Kota.


Sanzalando

11 de Maio de 2013

vento em dia de sol

Sopra vento em dia de sol que até parece assobia no meu ouvido. Hoje que eu queria silêncio, muito mar, muito azul, muito brilho para olhar, até o ar me engana, passa com barulho.
Hoje que eu queria ouvir os meus pensamentos, o baralhar das minhas palavras e ver os meus sonhos, catalogar as minhas ideias e enterrar os meus fantasmas, está vento que assobia.
Escrevi o meu nome num pedaço de jornal e o vento me tirou da mesa e não sei para onde fui naquele pedaço de papel. Alguém o vai apanhar e vai perguntar o que é isto e não vou poder responder porque eu estou em silêncio num pedaço de papel. Será que o vento vai assobiar mais naquela folha de papel agarrada por duas mãos meigas? Ou vai rasgar o meu nome em pedaços? Além de não ter silêncio ainda tenho dúvidas? Só porque faz vento num dia de sol.


Sanzalando

10 de Maio de 2013

quando for velhinho

Água fria do mar me enruga os pés, me doem os dedos mas não me afecta a memória. O sol brilha quente, me aquece os poucos cabelos mas não me afecta a memória. A areia fina me atrapalha o andar mas não me afecta a memória. Por isso vagueio pensamentos enquanto molho os pé, passeio ao sol da praia.
Me lembro que tinha para aí uns 5 anos, pouco menos talvez, me perguntaram o que queria ser quando crescesse. Acho eu disse queria ser bombeiro. Tinha essa na memória e por isso acho foi o que eu disse. Podia ter dito astronauta  mas nessa altura ainda não havia dessas coisas, ou polícia ou sei lá mais o quê, mas acho mesmo disse bombeiro.
Mais tarde voltaram a perguntar, tinha para aí 10 anos e eu acho disse queria ser médico da tropa. Podia ter respondido cóbói, como lia nos livros aos quadradinhos ou da série seis balas. Sei lá. Mas eu queria ser médico, mas da tropa.
Mas agora que passei a fase do crescimento querem respostas sérias. Eu sei lá! Acho mesmo é hora de cometer erros. Esquecer paixões, gargalhar horas a fio, pegar qualquer comboio, mesmo que não vá para lado nenhum. Sei lá. Especializar-me em filosofia, mesmo que não dê para ganhar a vida dá para mudar de ideias, mudar de conceitos e voltar a cometer erros, todos os que puder, na mesma.
Quando for velhinho não me vão perguntar o que eu queria ser. Saberão!


Sanzalando

9 de Maio de 2013

afinal de contas, estamos vivos

O solzinho parece voltou para me deixar andar num ir para lá e para cá a matutar nas coisas da vida, a construir meus sonhos em andaimes de ideias, em meias paredes de sonhos e realidades, de águas furtadas às lágrimas contidas e não choradas, aos sorrisos abertos em árvores de jardim, a vagabundear pelas praias das ideias.
Às vezes dou comigo e olho à volta e vejo nada. Literalmente nada nem ninguém. Eu conclui hoje que se isso acontece é porque alguém ouviu meus pedidos. Não estou sozinho, apenas os males se afastaram.
Afinal de contas tem gente que vai embora da nossa vida de todas as formas. Uns do nosso coração, outros da amizade, outros da admiração e outros apenasmente porque sim. E, definitivamente, os que morrem. 
Mas também há os que são imortais dentro da gente, não vão embora por dá cá aquela palha. Aí a gente sente amor baptizado de saudade. Outros, talvez porque mais pequeninos, não chegam a deixar saudade, apenas lembranças de memória.
Afinal de contas tudo isto acontece, só porque estamos vivos!

Sanzalando

8 de Maio de 2013

Tentei pintar-te

Ziguezagueio por entre palavras, imagens, tons cinzas e poucas cores. Uma paleta de ideias, ideal para colorir sonhos, um pincel de cedro para dar ar rústico, agressivo ou sei lá porquê que dessas coisas descomplico-me. Faz conta eu hoje vou pintar o teu retrato como se te olhasse pelo canto do olho de modo a não me veres te olhar e assim eu não imaginar que um dia poderias sentir o mesmo que nem eu. Ou na pior das hipóteses, o retrato ficar tão perfeito que eu acharia que ambos tínhamos sido feitos uma para o outro. 
Vá lá, não te mexas tanto que assim do canto do olho não consigo fixar-me tão bem no teu sorriso mesmo quando não sorris.
Vá, lá, não me deixes te olhar de frente que tenho medo venha também paixão de ti.
Anda, sossega um pouco mais para eu ver o brilho dos olhos pelo canto dos meus.
Não consigo. Mesmo de viés aceleras o meu coração e eu, que nunca soube nem fazer um desenho abstracto, parece fiquei daltónico a olhar para a paleta.


Sanzalando

7 de Maio de 2013

Perdido no areal

Perdido no areal, vou ao sabor do vento, amargamente despenteado, docemente esquecido, entrelaço-me em ideias que sei um dia não cumprirei, como tantas vezes deixei por cumprir porque me faltou a paciência e a coragem, tendo ganho o medo e o rancor.
Perdido no areal deixo-me levantar voo por imagens que imagino são dum ontem que ainda não chegou.
Perdido no areal, ao sabor do vento, deixo-me morrer de amores imperfeitos e objectos inuteis.
Perdido no areal enlouqueci. 

Sanzalando

6 de Maio de 2013

Coisas

Sanzalando

5 de Maio de 2013

Eu, Dia da Mãe e Dia do Pai

Enquanto me vagabundo nessa praia que tem areia cola nos pés, arranha os dedos, coisa de gente sem nada para fazer, me lembrei que era dia da mãe. Me lembrei porque ouvi uma senhora gritar no filho 'me deixa hoje em paz que é o dia da Mãe'. 
Não, não comprei nada para o dia Mãe. O mesmo fiz no dia do Pai. Não é esquecimento, é mesmo só porque eu ofereço de memória. Não é justo comprar para ambos e ficar eu com as prendas. Mas essa parte eu sei não vos é importante. Mesmo vivos sabiam eu esquecia e dava só um alô no telemóvel e para ti, meu pai, nem me lembro mais como é que era, pois não tinha idade e nem sei se Bell já tinha inventado.
Mas deixemos as coisas menos importantes e passemos ao que importa. Lhes ofereço de memória, gargalhadas de recordações, olhares cúmplices trocados noutros tempos, recordações de abraços apertados com carinho.
Já sei que vão dizer-me que eu contínuo igual até nos pormenores. É verdade! Até nos momentos mais negros da vida eu vos gargalho com vontade, que até me lembro de tu dizeres, mãe, 'tu e o teu pai nunca sei quando estão a brincar ou não'.
Mas afinal de contas eu estou só aqui para agradecer vocês dois um dia se terem encontrado e criado esta obra de arte abstracta, de terem sido meus grandes amigos e quando eu consigo qualquer coisa de bem feito é logo em vocês que eu penso. Isto é só um aparte!





Sanzalando

António Gedeão para o Dia da Mãe


MÃEZINHA
António Gedeão
«A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exata,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.»



Sanzalando

4 de Maio de 2013

fotografia solta

Sanzalando

3 de Maio de 2013

Umas tantas frases perdidas

Olho a plano chão do zulmarinho e embalado nas pequenas ondas me refresco em ideias e pensamentos, momentos que vivi e nos que sonhei e vejo que o tempo tem hiatos que eu queria desfragmentar e desconsigo porque não teria linha continua a me segurar. 
Dou comigo a navegar na memória e relembro que mesmo sabendo que a vida um dia acaba, a gente não está assim preparado para perder. Daí que me catapultei, aproveitando a inércia do repouso, para dizer-me que por maior que seja a decepção, por maior que seja a dor, a minha dor é sempre maior que a do vizinho,  eu não posso parar. Imagina só que a vida é um piano de cauda, não faço ideia porque uns têm outros não, e olha nas teclas uma são brancas e outras são pretas, umas são música e outras também. O tempo me ensinou e eu parece aprendi


Sanzalando

2 de Maio de 2013

56 - Estórias no Sofá - José Chibante futuro amante

José Chibante pensou que tudo ia ser diferente. Nova paixão, novo brilho nos olhos, sorriso ensaiado e palavras soletradas em bem perceber. Agora vamos começar do princípio e rever a vida de José Chibante.
Ele sempre se tinha sentido um gajo sozinho nesse mundo. José Chibante o solitário, dizia ele nos seus pensamentos. O ermita diziamos nós desconfiados dele. Ele, dizia, sempre se encontrava sozinho quando precisava de ajuda nos seus monólogos de ocasião. 
Burrié, seu cão de estimação, adorava dar banho nele, fazer festas, dar comida, brincar de rebolar no chão e mesmo assim, ingrato Burrié, um dia foi embora e nunca mais voltou. José Chibante era gostado, dizia ele, só pela D. Maria, senhora sua mãe e minha tia. Toda a gente gostava de D. Maria assim como D. Maria gostava de toda a gente, desde que tivesse dinheiro para lhe dar. Chibante lhe defendia de unhas e dentes quando ouvia estórias que ele jurava não podiam nunca ser verdadeiras. José Chibante, primeiro muito educadamente e depois com violência lhe defendia mesmo sabendo que ia ficar com mais dores que dormir sobre pau. D. Maria chorava e lhe pedia desculpa e dizia nunca mais vai haver outra vez que só durava até outra vez. D. Maria um dia também partiu e não deixou nem um bilhete a lhe dizer que lhe gostava muito. José Chibante chorou a noite inteira, todas as noites de seguida até que as lágrimas secaram. 
José Chibante passou a sonhar acordado com a namorada de infância que diz ter tido mas que ela não sabia e a gente nem conhecia ou tinha ouvido falar. Seu primeiro e único amor. Não lhe deu beijo nem abraço, mas lhe mandou muitas cartas escritas que nunca entregou. Imaginava o seu beijo e o calor do abraço e traduzia em palavras esses sabores.
Um dia eu li, de esguelha, uma carta dele que ele esqueceu de esconder quando lhe visitei. Consegui ler que 'o teu sorriso é tão lindo quanto o sabor do teu beijo'. Letra desenhada de quem escreve com amor puro. Desisti de ler mais, pois ainda eu chorava ou instigava ele. Não era correcto e não fazia sentido. Eu ficava nervoso nesses indelicadezas e ia sair asneira. Não aguentei a pressão e lhe perguntei para quem era aquela carta. Me respondeu secamente: ninguém!
Depois, José Chibante, cresceu. Não lhe conheci companheira, amiga ou amigos. Era independente, me dizia ele sempre em tom de antipatia quando eu lhe instigava a solidão. Ele me dizia que não queria viver que nem cão e gato como via nos vizinhos que sempre estavam na guerra.
Um dia, depois de muitos dias sem lhe ver, já meu cabelo estava cinzento do tempo, lhe vi com donzela de corpo perfeito. Eu amarrado num andar reumático e ele sorrindo para mim como nunca lhe tinha visto os dentes. 
José Chibante que estava à minha frente não podia ser o José Chibante que eu conhecia faz tempo de muito tempo eu nascera.
Donzela lhe punha a cabeça no ombro e ele parecia derretia de fazer inveja. Primo doidou, me perguntei eu. Ele ria enquanto eu, por dentro chorava, as vezes todas lhe instiguei de brincadeira de criança que não sabe mais que fazer para parecer é o mais importante. 
Me explicou com todas as letras: te lembras a carta que tu leste uma vez? lhe disse que sim. Pois eu estava a guardar para ela que eu sabia ela ia aparecer tal e qual eu sonhei desde criança. O beijo sabe que nem o sorriso e alegria tudo misturado. 
José Chibante acompanhado e eu ali solitariamente independente.
A gente fica com as sementes que guardou.



Sanzalando

1 de Maio de 2013

1º de Maio

Sanzalando


WebJCP | Abril 2007