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A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

1 de abril de 2015

se tem vezes

Se tem vezes que não sei quem sou, sei sempre que sou o Homem mais importante para mim. Pelo menos o melhor da minha vida. Não sou comediante mesmo que às vezes me veja a sorrir, não sou rico nem dou presentes caros, não sou Homem de luxo porque o único tesouro que tenho é ser eu. Um eu que te ama, que me cuida te cuidando, um chefe de cozinha que não sabe qual a tua comida perfeita e que ainda assim te agrada, um piloto de avião que te eleva ao céu da vertigem, um explorador de recantos que tenta te encantar em cada gesto sintonizado na pureza da alma, um caminhante reflectido no teu sorriso enquanto caminhas a meu lado, um médico que não sabendo os teus sintomas te olha com olhos doce de cura.
Se tem vezes que não sei quem sou, sei sempre que sou o Homem mais importante para mim.

Sanzalando

30 de março de 2015

quem sabe

Amarro as letras num fio de guita bem apertado e, para segurança, as fecho numa gaveta duma paragem solitária. Não quero perder nem uma, porque me pode fazer falta num qualquer dia de passado, presente ou futuro. 

Quem sabe um dia, assim como que esquecido das rosas porque uma roseira me picou, eu resolva estragar os sonhos porque não se realizaram e desatar a escrevê-los com essas letras atadas num atilho.
Quem sabe um dia, perdidas todas as amizades eu escreva todos os nomes num livro de pardo papel e utilize essas letras guardadas na gaveta.
Quem sabe um dia, lembrando todas as lembranças, eu vá à garagem buscar esse molho de letras e desatilhadas eu as encarreire num palavreado simples para dizer quanto gosto de ti.


Sanzalando

23 de março de 2015

palavras sem vento

Procuro palavras para descrever sensações,  feitos e feitios. Procuro perder-me em alfabetos simples, letras vivas em sorrisos de trocadilhos e não sei onde me encontro. Atravesso parágrafos, tropeço em pontos e vírgulas e dou de caras com retratos pintados em letras soltas.
Afinal de contas gastei letras trocadas em silêncios preguiçosos só para perder um segundo e por esta via dizer um  gosto-te.




Sanzalando

21 de março de 2015

poema cansado

Tenho medo de me cansar. Canso-me do silêncio,  da mentira,  da irá, do ócio. Tenho medo de me cansar de que um dia te cales. Cansado te peço: não te cales.



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19 de março de 2015

eu e o Meu pai

Acordei e me disseram de consciência que era dia do meu pai. De imediato chorei. Eu o amava quando ainda não sabia o que era amor porque ele partiu para parte incerta era eu ainda um cadengue que não se recorda do som das gargalhadas diziam ele dava. Chorei num cansaço profundo, não por melancolia, apenasmente porque não me lembro do perfume natural do Meu pai. Chorei exausto porque envelheço na rotina de recomeços sem me recordar da palma da sua mão a me acariciar os cabelos que eu tinha antes dele partir para parte incerta. Chorei por uma infinidade de razões até conseguir abrir a arca do tesouro de ser pai e me recordar que ausentemente não deixei de o ser assim como não deixei de o ter, o Meu pai.


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17 de março de 2015

63 - Estórias no Sofá - Uma garrafa pela pensão de viuvez

É tão bom ganhar assim um presente inesperado, ouvir uma coisa que nunca nos pensou na cabeça ouvir, receber um abraço assim como sem motivo, trocar um sorriso a dar ao desconcertante. Viver assim uma coisa simples numa complexa vida que mesmo depois de morto deve continuar a dar prazer. 
Assim num repente alguém desmaiou ao pensar que eu louquei de loucura irreversível.
Explico. 
Eu, Cipriano Acácio de nome registado no registo, já não me lembro nem de onde, assim fez o tempo que passou, casado com mulher mais jovem, de boas parecenças e saúde de ferro novo, faleci de natural morte, com vidas gastas em boa vida vivida, gargalhadas e outros prazeres sentidos na alma, sem dívidas à vida e sem lágrimas de missão incompleta. Em resumo, morri de bem feito, deixando viúva de bom gosto e gosto da vida.
Alegre meia idade, três amigas se juntam na praia, discutem decotes de outras eras, gargalham estórias escondidas que nunca haviam ousado falar em voz alta e algumas escondidas nos pensamentos noturnos, bebem uma garrafa de vinho marcado em boas cepas e pedigree. 
Uma a uma contam tostões, discutem preços, sobra para mais uma. Esta é paga pela pensão de viuvez por mim, Cipriano Acácio, deixada a mulher mais nova de boas parecenças e saúde de ferro  para que elas possam rir e de mim continuar a dizer as coisas bonitas que vou ouvindo desde o miradouro que um dia ganhei no céu.


Sanzalando

15 de março de 2015

poliban e eu

De repente dou comigo frente a um poliban. Sim, desses mesmo mínimos em que quando entra um o outro tem de sair. Tem porta que fecha não vai cair a água no resto da casa. Assim a modos que mal comparado tem amores que são tipo poliban. Tão apertado que só cabe um nesse amor. Ele se interessa por tudo o que a ela diz respeito. Ou vice versa que o género não é para aqui importante. São os estudos, os amigos, a família, o trabalho, a respiração, o sorriso e a transpiração. Um recebe tudo e o outro nem retribui. Nem nas angustias. A situação vai andando, levada tanta vezes pela inércia, que um dia porque a paciência se cansou ou simplesmente acabou e tudo acabou, sem brilho, sem chama, sem o rufar dos tambores, apenas pelo cansaço dos amores e as lágrimas das dores. O outro então dá conta que até parece passe de mágica ou drible da vida ela mesmo. Vai ser duro. Insiste. Nada. Vazio onde antes estava cheio. Tudo muda de contornos. São mails, sms e outras tantas modernices. Uma vida desabou e a outra vida se constrói no contraponto. Gato escaldado de água fria tem medo.
De repente dou comigo frente ao poliban, desses mesmo muito pequeno onde afinal ainda há espaço para dois, mesmo que seja por amor.


Sanzalando

10 de março de 2015

perfeita vida

Caiu nevoeiro parecia queria cegar o horizonte. Mas eu podia ficar contigo ali, nos silêncios do pensamento, no cruzamento de ideias, no abraço forte dum sorriso face a face e nos desejos da noite sonhada como que embrulhados num manto de nevoeiro.
A dois metros céu azul, horizonte como que longe nuns passos infindáveis de alcançar.
Como seria perfeita a vida.


Sanzalando

6 de março de 2015

62 - Estórias no Sofá - Notícias de Jornal

Joaquim Sentado, apelido de parte de pai que já vinha dum avô, filho de mãe desconhecida, pelo menos dele, literalmente jazia dia a dia debaixo duma acácia lendo jornais velhos, com um olhar de quem nem sabia o que era uma letra. Fazia vento, chuva ou sol e lá estava o pré-cota na sombra, mesmo nocturna da acácia, agarrado ao jornal que não sabia a idade, que as notícias não passavam disso mesmo e as fotos não amareleciam, e Joaquim Sentado lá estava cultivando o olhar pelo jornal.
Tantas vezes ali passei que cheguei a pôr hipótese de ser uma estátua de gente importante sentada como existem nas cidades importantes que alguma vez albergaram gente ilustre. Mas Joaquim Sentado não era de bronze e de vez em quando se mexia. Som é que nunca tinha lhe ouvido.
Um dia, estava eu com vagar e ali fiquei uns instantes a estudar o ar posto de Joaquim Sentado sobre o então já velho jornal, de fotos já sem nitidez e enxovalhado de tantas vezes dobrado. Levantou a cara, olhou-me nos olhos e num sotaque que não sei como escrever me disse:
- Não fica aí. Vai passear. É horrivel te ver me olhar e eu sem aguentar a força desse teu ver que até parece eu vou explodir as letras que bebi deste velho jornal que um dia foi novo e tinha notícias que eu ainda não sei porque lhes olho e elas não falam.
Se mudo estava, mudo continuei porém pensei que as notícias eram novas porque não tinham sido lidas, embora escritas faz tempo.


Sanzalando

5 de março de 2015

do sol à sombra

Retiro-me do sol e me sento na sombra como que alinhavando ideias, calcetando sonhos ou simplesmente a olhar para lado algum enquanto imagino a arranjar-me desde que torto nasci.
Retiro choros que chorei por estar cansado e porque às vezes tudo me cansa. Retiro lágrimas soltas que deixei cair por melancolia. Seco os olhos dos choros envelhecidos nas saudades. Limpo a cara das que rolam por rotina.
Retiro-me do sol e me sento na sombra, feliz porque estou num constante começar-te.


Sanzalando

2 de março de 2015

simplicidade

Aproveito o sol que aquece neste inverno se sorrisos e felicidades como faz tempo eu não me lembrava e debito palavras soltas sem medo que elas sejam levadas pelo vento para lugares distantes ou fiquem por aí represas num qualquer galho da vida. Não me importa que diga uma ou miles de palavras, não importa o quanto eu demore a dizê-las. Porque se valer a pena, a espera é apenas um detalhe, um pormenor ou um grão de areia numa praia deserta.
Aproveito o sol e pouco me importa que dê certo ou não. A vida é assim, as coisas são assim e dum nada chega a felicidade e eu nem noto porque sou.
Aproveito as palavras para estender ao sol e dizer que quero tudo de novo. Simples.

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26 de fevereiro de 2015

Faz sol de vento frio

Faz sol de vento frio que sopra sei lá de onde. Tremo ao mesmo tempo que me incomoda olhar em frente, para o lado onde ele se vai deitar. Nunca se está satisfeito. Caramba para mim e mais eu que nem sei mais como ficar.
Olha só para mim. É necessário sonhar para saber que a estrada vai para mais além do desejo, mais para lá do querer e depois do desejar.
Olha só para mim e fica a saber que a solidão desmorou daqui, foi num céu de outros sois que não o sol que agora brilha. mesmo refrescado pelo vento frio que sopra sei lá de onde.
Olha só para mim e repara que as flores dançam ao sabor do vento e eu aqui direito, tremendo não vacilante, sorrindo porem não abusante, não desviei um risco do trajecto de ser feliz.
Faz sol de vento frio.

Sanzalando

24 de fevereiro de 2015

palavras: gosti

Palavras usadas e abusadas, intervaladas em silêncios, umas vezes sombrios e outras vezes solarengos, desalinham-me na cabeça num constante dizer que estou aqui, que não parti para outra dimensão, com nexo e sem ele, me destruí e me reconstruí numa nova composição de cores, riscos e arabescos, de abraços e sorrisos, de esquinas dobradas ao ranger de dentes, em equações matemáticas não práticas nem reumáticas. Palavras que usam letras abusadas, vogais mudas e outras caladas, sentido prático de dizer vivo-me feliz num acordar diário, numa sebenta rascunhada ou num dia de trabalho suado.
Palavras usadas, abusadas e pouco caladas para dizer: gosti!


Sanzalando

21 de fevereiro de 2015

perdido

Perdido no ar sério que me impus, caminhei em direção a lado nenhum como se fosse o dono e senhor do meu mundo.
Sorriste-me. Levianamente, diga-se. Provocadoramente, entendi.
Senti-me com a vida cheia, sem o vazio da minha porque deixei de sentir-me vazio por não te ter. Estavas aqui. Frente ao meu olhar. Sorrindo
Perdido no ar sério acabei por sorrir. Para nós, momento de ternura.


Sanzalando

19 de fevereiro de 2015

penso eu

Pego na balança e tento ver qual a quantidade de amor é que cabe num abraço. Te peço um abraço e tu dizes que o teu é maior que o meu. Empatamos acho eu.
Pego numa fita métrica e tento medir o amor que sinto e dou comigo a fazer contar de somar.
Agarro num medidor e tento quantificar os litros de amor que cabem num olhar e dou comigo a pensar que alguns pensam que pensam e outros não sabem nem o que é amor.
Dou comigo a pensar que eu preciso, perto ou longe, é de amar.


Sanzalando

17 de fevereiro de 2015

esqueci

Perdido em letras, silabas e frases, parágrafos e capítulos, textos e prosas, vagabundei esquecimentos e desvontades, sendo que a minha maior mágoa era não ter escrito um texto que merecesse ser guardado como referência. Nem que fosse um texto como mau, uma coisa qualquer num qualquer papel amassado atirado numa cacimba e afundado até aos confins do mundo.
Deixei passar datas, títulos e ocasiões, deixei de dançar no baile da imaginação, de rolar descida abaixo nos rolamentos da infância crescida, de rir só porque sim e soletrar pronuncias doutras brincadeiras, sendo que a minha maior mágoa foi não ter escrito nunca um texto na memória futura.
Brinquei em roupas de cores garridas, milflores e bocas de sino e não me lembrei de contar estorinhas de soletrar nas noites caladas das quentes noites tropicais nem escrever um texto a dizer-me que sim.
Esqueci-me de me lembrar de gastar umas palavras de vez em quando neste bairro que um dia eu cresci com ele.
Esqueci porque me lembrei de ti num constante lembrar, sem ter um texto para te ler em qualquer hora do dia.


Sanzalando

10 de fevereiro de 2015

alfabeto

Peguei no alfabeto e escolhi as letras que nunca usei. Veriquei que não era analfabeto e assim não me insultei. Parei, peguei em sílabas e contei. Versátil palavras escritas num qualquer vão ou verão,  desde que não chova. Tanta as são as palavras por soletrar que as deixo soltas.
Afinal de contas porque quero guardar eu palavras se te tenho para as ouvir?
Alfabeto.


Sanzalando

29 de janeiro de 2015

Soltamente 10

Mantendo a minha tradição, não vou entrar em detalhes, não vou descrever os ricocós da vida nem os bilros de pensamentos gastos ou por gastar em sonhos e devaneios. Digo apenas que houve alguns detalhes simplesmente horríveis, intercalados nos lindos, nas palavras escritas nas cartas de amor, na fuga dum olhar, na alma dum dia cansado, no ponto final da última carta que ainda não escrevi.
Mantendo a minha tradição, solto-me por entre tropeções vocabuláricos, rasteiras gramaticais e precipícios pontuais, para dizer que há quem não pense nunca, outras, duas vezes e outras que simplesmente não acontecem.
Mantendo-me na tradição caminho letras soltas por entre sonhos e devaneios infinitos, que termirarão quando assim acontecer, sem detalhes nem ricocós.
Mantendo-me na tradição olho-me e vejo-me a acreditar que juntos somos infinitos, mesmo que eu não veja os detalhes.


Sanzalando

27 de janeiro de 2015

Soltamente 09

Porque ando por aqui a saltitar palavras? Porque gosto do infinito e de sentir aquilo que gosto. Cada segundo que passo calado é uma eternidade que deixo morrer por aí, é procurar o que fiz alguma vez de errado, é sentir o fim do mundo na minhas costas, é ser o problema e não ter solução. Por isso saltito palavras silenciosas mesmo quando me apetece dormir, cantar ou apenas estar num vaguear por aí.
Mas não gosto de palavras tristes, assim como as palavras de ódio, não fazem sonhar. Não gosto de palavras carregadas de lágrimas nem as que escondem o lado sombrio da tarde.
Saltitando soltamente por aí um dia vou chegar a um qualquer por lá.


Sanzalando

20 de janeiro de 2015

soltamente 08

Eu vivo sorrindo mesmo que por vezes tenha de chorar. Eu vivo reflectindo nem que seja apenas um reflexo baço numa qualquer montra devoluta. Eu vi o tempo passar e por isso continuei por um caminho diferente. Eu vi que o amor começa lá, onde não se espera nada em troca. Eu atraquei num porto perto da cidade do caos e soltei amarras para derivar por aí.
Eu. Tantos eus num corpo temporalmente finito.
Eu que bebi um café com aroma de poesia, que soletrei versos que mais não eram que porcaria, hoje resolvi dizer-me coisas que não te tinha dito.
Eu sou assim e pronto afinal.
Eu sou capaz de imaginar flores num deserto, cantar o 'Tombe lá nege' onde não chove faz décadas e abraçar-te mesmo que não estejas aqui.
Solto palavras que me servem de aconchego e me agasalham nas tardes frias de solidão.
Eu sou assim.

Sanzalando


WebJCP | Abril 2007