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A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

15 de abril de 2015

64 - Estórias no Sofá - o Se de Leopoldo

Meu nome é Leopoldo e venho de família mais antiga que o antigamente tem memória. Joguei à bola quando ela era de trapos. Basculei bailes por portas secundárias quando eram estes os fins de semana de arromba. Dancei na rua e pulei muros quando era agarrado por terceiros, quartos e outros porteiros que invadiram os banquetes da minha vida.
Mas agora, eu Leopoldo, de letra grande, tirei as trancas das minhas portas, deslarguei prisioneiros de ambos lados da porta, entra e sai quem quer porque eu não sou dono do mundo e o mundo não é pertença minha. Vem quer quer e vai quem quer pela ordem que entender.Eu sou dono apenas da minha felicidade e vou viver dentro de mim sem outro remédio ou pensamento. Estou de paz comigo e com as plantas, com os perfumes que entram pelas minhas abertas janelas, canto com os ladrares dos cães e miares dos gatos vadios que saltam telhados da liberdade.
Eu, Leopoldo de nome inteiro, saio de casa e encontro as pessoas, as malditas pessoas que têm mentes cheias de nada e vertem ignorância que se transforma em lagos de angustia, declaro que pequei muitas vezes no antigamente recente a pensar no SE. Curioso por natureza tenho curiosidade de saber se era igual se eu tivesse tomado outro caminho que não o que tomei. Este Se que segue-me pela vida e que me entra nos olhos mas Se os tivesse fechado seria difícil sair por aí sem tropeçar.
Eu Leopoldo tenho saudade do tempo em que o Se não me seguia na vida fora.


Sanzalando

14 de abril de 2015

trocado por miúdos

Trocado por miúdos, as palavras são ecos da alma. Assim num faz de conta, as verdades são certezas em que as coisas nunca ficam vazias, em que o amor não é um temporal, em que as estrelas do céu iluminam mesmo que poucamente.
Trocado por miúdos, eu não deixei de ser eu mesmo que as palavras estejam caladas.
Mas se eu parar para pensar eu vou concluir que estou sempre a recomeçar. Mesmo quando estou parado a olhar-te.

Sanzalando

7 de abril de 2015

as minhas palavras

Passeio-me por ruas claras e revejo palavras, uma a uma. 
Bonitas as palavras que escrevo. Letra redonda, legível, soletradamente corretas. As frases que essas palavras formam é que..., como direi, não sei a cor nem decorei uma. São palavras em carreirinha escritas em letra redonda e bem legíveis. 
É, tenho uma lado estranho que às vezes encanta quem as lê. 
As minhas palavras não têm sentido quando estão soltas. Mas em carreirinha às vezes também são bonitas como as palavras que as compõem. É, contigo ao meu lado as carreirinhas de palavras até são bonitas. Às vezes gosto das minhas palavras escritas em carreirinhas.
As minhas palavras não têm horário. Chegam e partem quando lhes apetece. Mas são bonitas as minhas palavras.
As minhas palavras são como a paixão. Umas vezes sim, outras não.


Sanzalando

5 de abril de 2015

Sorrimos à beira mar

Beira mar. Perfume de maresia. Marulhar das ondas. Tantas vezes o silêncio é a melhor opção mas, quando nos atolamos nele, quando lhe ficamos prisioneiros nos sufocamos e se nos distraímos pode ser tarde de mais.
Beira mar. Perfume de maresia e descobrimos que o mundo é triste porém solene. Procuramos o mundo maravilhoso, caminhos juntos que se entrecruzam. Inexplicavelmente surgimos lado a lado, em silêncio, mãos dadas.
Sorrimos à beira mar

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3 de abril de 2015

à luz dum candeeiro

Sentado num candeeiro de esquina, deixo-me levar nos sonhos desde os tempos de criança, assim moleque de sandálias de pneu, despreocupado das coisas da vida até aos dias de facto e às vezes gravata, parece é sessão solene. Num recanto me lembro que o amor verdadeiro começa lá naquele ponto onde não se pede nada em troca, naquele degrau onde tudo fica claro como água da Senhora do Monte, onde os relógios deixaram de ser ditadores de compassos marcados numa língua áspera de espaço compartimentado em horas distintas e por vezes sem fuso nem horário.
Sentado numa esquina com candeeiro mais nada me resta a não ser adiantar o relógio para o tempo sem ti passar mais depressa

Sanzalando

1 de abril de 2015

se tem vezes

Se tem vezes que não sei quem sou, sei sempre que sou o Homem mais importante para mim. Pelo menos o melhor da minha vida. Não sou comediante mesmo que às vezes me veja a sorrir, não sou rico nem dou presentes caros, não sou Homem de luxo porque o único tesouro que tenho é ser eu. Um eu que te ama, que me cuida te cuidando, um chefe de cozinha que não sabe qual a tua comida perfeita e que ainda assim te agrada, um piloto de avião que te eleva ao céu da vertigem, um explorador de recantos que tenta te encantar em cada gesto sintonizado na pureza da alma, um caminhante reflectido no teu sorriso enquanto caminhas a meu lado, um médico que não sabendo os teus sintomas te olha com olhos doce de cura.
Se tem vezes que não sei quem sou, sei sempre que sou o Homem mais importante para mim.

Sanzalando

30 de março de 2015

quem sabe

Amarro as letras num fio de guita bem apertado e, para segurança, as fecho numa gaveta duma paragem solitária. Não quero perder nem uma, porque me pode fazer falta num qualquer dia de passado, presente ou futuro. 

Quem sabe um dia, assim como que esquecido das rosas porque uma roseira me picou, eu resolva estragar os sonhos porque não se realizaram e desatar a escrevê-los com essas letras atadas num atilho.
Quem sabe um dia, perdidas todas as amizades eu escreva todos os nomes num livro de pardo papel e utilize essas letras guardadas na gaveta.
Quem sabe um dia, lembrando todas as lembranças, eu vá à garagem buscar esse molho de letras e desatilhadas eu as encarreire num palavreado simples para dizer quanto gosto de ti.


Sanzalando

23 de março de 2015

palavras sem vento

Procuro palavras para descrever sensações,  feitos e feitios. Procuro perder-me em alfabetos simples, letras vivas em sorrisos de trocadilhos e não sei onde me encontro. Atravesso parágrafos, tropeço em pontos e vírgulas e dou de caras com retratos pintados em letras soltas.
Afinal de contas gastei letras trocadas em silêncios preguiçosos só para perder um segundo e por esta via dizer um  gosto-te.




Sanzalando

21 de março de 2015

poema cansado

Tenho medo de me cansar. Canso-me do silêncio,  da mentira,  da irá, do ócio. Tenho medo de me cansar de que um dia te cales. Cansado te peço: não te cales.



Sanzalando

19 de março de 2015

eu e o Meu pai

Acordei e me disseram de consciência que era dia do meu pai. De imediato chorei. Eu o amava quando ainda não sabia o que era amor porque ele partiu para parte incerta era eu ainda um cadengue que não se recorda do som das gargalhadas diziam ele dava. Chorei num cansaço profundo, não por melancolia, apenasmente porque não me lembro do perfume natural do Meu pai. Chorei exausto porque envelheço na rotina de recomeços sem me recordar da palma da sua mão a me acariciar os cabelos que eu tinha antes dele partir para parte incerta. Chorei por uma infinidade de razões até conseguir abrir a arca do tesouro de ser pai e me recordar que ausentemente não deixei de o ser assim como não deixei de o ter, o Meu pai.


Sanzalando

17 de março de 2015

63 - Estórias no Sofá - Uma garrafa pela pensão de viuvez

É tão bom ganhar assim um presente inesperado, ouvir uma coisa que nunca nos pensou na cabeça ouvir, receber um abraço assim como sem motivo, trocar um sorriso a dar ao desconcertante. Viver assim uma coisa simples numa complexa vida que mesmo depois de morto deve continuar a dar prazer. 
Assim num repente alguém desmaiou ao pensar que eu louquei de loucura irreversível.
Explico. 
Eu, Cipriano Acácio de nome registado no registo, já não me lembro nem de onde, assim fez o tempo que passou, casado com mulher mais jovem, de boas parecenças e saúde de ferro novo, faleci de natural morte, com vidas gastas em boa vida vivida, gargalhadas e outros prazeres sentidos na alma, sem dívidas à vida e sem lágrimas de missão incompleta. Em resumo, morri de bem feito, deixando viúva de bom gosto e gosto da vida.
Alegre meia idade, três amigas se juntam na praia, discutem decotes de outras eras, gargalham estórias escondidas que nunca haviam ousado falar em voz alta e algumas escondidas nos pensamentos noturnos, bebem uma garrafa de vinho marcado em boas cepas e pedigree. 
Uma a uma contam tostões, discutem preços, sobra para mais uma. Esta é paga pela pensão de viuvez por mim, Cipriano Acácio, deixada a mulher mais nova de boas parecenças e saúde de ferro  para que elas possam rir e de mim continuar a dizer as coisas bonitas que vou ouvindo desde o miradouro que um dia ganhei no céu.


Sanzalando

15 de março de 2015

poliban e eu

De repente dou comigo frente a um poliban. Sim, desses mesmo mínimos em que quando entra um o outro tem de sair. Tem porta que fecha não vai cair a água no resto da casa. Assim a modos que mal comparado tem amores que são tipo poliban. Tão apertado que só cabe um nesse amor. Ele se interessa por tudo o que a ela diz respeito. Ou vice versa que o género não é para aqui importante. São os estudos, os amigos, a família, o trabalho, a respiração, o sorriso e a transpiração. Um recebe tudo e o outro nem retribui. Nem nas angustias. A situação vai andando, levada tanta vezes pela inércia, que um dia porque a paciência se cansou ou simplesmente acabou e tudo acabou, sem brilho, sem chama, sem o rufar dos tambores, apenas pelo cansaço dos amores e as lágrimas das dores. O outro então dá conta que até parece passe de mágica ou drible da vida ela mesmo. Vai ser duro. Insiste. Nada. Vazio onde antes estava cheio. Tudo muda de contornos. São mails, sms e outras tantas modernices. Uma vida desabou e a outra vida se constrói no contraponto. Gato escaldado de água fria tem medo.
De repente dou comigo frente ao poliban, desses mesmo muito pequeno onde afinal ainda há espaço para dois, mesmo que seja por amor.


Sanzalando

10 de março de 2015

perfeita vida

Caiu nevoeiro parecia queria cegar o horizonte. Mas eu podia ficar contigo ali, nos silêncios do pensamento, no cruzamento de ideias, no abraço forte dum sorriso face a face e nos desejos da noite sonhada como que embrulhados num manto de nevoeiro.
A dois metros céu azul, horizonte como que longe nuns passos infindáveis de alcançar.
Como seria perfeita a vida.


Sanzalando

6 de março de 2015

62 - Estórias no Sofá - Notícias de Jornal

Joaquim Sentado, apelido de parte de pai que já vinha dum avô, filho de mãe desconhecida, pelo menos dele, literalmente jazia dia a dia debaixo duma acácia lendo jornais velhos, com um olhar de quem nem sabia o que era uma letra. Fazia vento, chuva ou sol e lá estava o pré-cota na sombra, mesmo nocturna da acácia, agarrado ao jornal que não sabia a idade, que as notícias não passavam disso mesmo e as fotos não amareleciam, e Joaquim Sentado lá estava cultivando o olhar pelo jornal.
Tantas vezes ali passei que cheguei a pôr hipótese de ser uma estátua de gente importante sentada como existem nas cidades importantes que alguma vez albergaram gente ilustre. Mas Joaquim Sentado não era de bronze e de vez em quando se mexia. Som é que nunca tinha lhe ouvido.
Um dia, estava eu com vagar e ali fiquei uns instantes a estudar o ar posto de Joaquim Sentado sobre o então já velho jornal, de fotos já sem nitidez e enxovalhado de tantas vezes dobrado. Levantou a cara, olhou-me nos olhos e num sotaque que não sei como escrever me disse:
- Não fica aí. Vai passear. É horrivel te ver me olhar e eu sem aguentar a força desse teu ver que até parece eu vou explodir as letras que bebi deste velho jornal que um dia foi novo e tinha notícias que eu ainda não sei porque lhes olho e elas não falam.
Se mudo estava, mudo continuei porém pensei que as notícias eram novas porque não tinham sido lidas, embora escritas faz tempo.


Sanzalando

5 de março de 2015

do sol à sombra

Retiro-me do sol e me sento na sombra como que alinhavando ideias, calcetando sonhos ou simplesmente a olhar para lado algum enquanto imagino a arranjar-me desde que torto nasci.
Retiro choros que chorei por estar cansado e porque às vezes tudo me cansa. Retiro lágrimas soltas que deixei cair por melancolia. Seco os olhos dos choros envelhecidos nas saudades. Limpo a cara das que rolam por rotina.
Retiro-me do sol e me sento na sombra, feliz porque estou num constante começar-te.


Sanzalando

2 de março de 2015

simplicidade

Aproveito o sol que aquece neste inverno se sorrisos e felicidades como faz tempo eu não me lembrava e debito palavras soltas sem medo que elas sejam levadas pelo vento para lugares distantes ou fiquem por aí represas num qualquer galho da vida. Não me importa que diga uma ou miles de palavras, não importa o quanto eu demore a dizê-las. Porque se valer a pena, a espera é apenas um detalhe, um pormenor ou um grão de areia numa praia deserta.
Aproveito o sol e pouco me importa que dê certo ou não. A vida é assim, as coisas são assim e dum nada chega a felicidade e eu nem noto porque sou.
Aproveito as palavras para estender ao sol e dizer que quero tudo de novo. Simples.

Sanzalando

26 de fevereiro de 2015

Faz sol de vento frio

Faz sol de vento frio que sopra sei lá de onde. Tremo ao mesmo tempo que me incomoda olhar em frente, para o lado onde ele se vai deitar. Nunca se está satisfeito. Caramba para mim e mais eu que nem sei mais como ficar.
Olha só para mim. É necessário sonhar para saber que a estrada vai para mais além do desejo, mais para lá do querer e depois do desejar.
Olha só para mim e fica a saber que a solidão desmorou daqui, foi num céu de outros sois que não o sol que agora brilha. mesmo refrescado pelo vento frio que sopra sei lá de onde.
Olha só para mim e repara que as flores dançam ao sabor do vento e eu aqui direito, tremendo não vacilante, sorrindo porem não abusante, não desviei um risco do trajecto de ser feliz.
Faz sol de vento frio.

Sanzalando

24 de fevereiro de 2015

palavras: gosti

Palavras usadas e abusadas, intervaladas em silêncios, umas vezes sombrios e outras vezes solarengos, desalinham-me na cabeça num constante dizer que estou aqui, que não parti para outra dimensão, com nexo e sem ele, me destruí e me reconstruí numa nova composição de cores, riscos e arabescos, de abraços e sorrisos, de esquinas dobradas ao ranger de dentes, em equações matemáticas não práticas nem reumáticas. Palavras que usam letras abusadas, vogais mudas e outras caladas, sentido prático de dizer vivo-me feliz num acordar diário, numa sebenta rascunhada ou num dia de trabalho suado.
Palavras usadas, abusadas e pouco caladas para dizer: gosti!


Sanzalando

21 de fevereiro de 2015

perdido

Perdido no ar sério que me impus, caminhei em direção a lado nenhum como se fosse o dono e senhor do meu mundo.
Sorriste-me. Levianamente, diga-se. Provocadoramente, entendi.
Senti-me com a vida cheia, sem o vazio da minha porque deixei de sentir-me vazio por não te ter. Estavas aqui. Frente ao meu olhar. Sorrindo
Perdido no ar sério acabei por sorrir. Para nós, momento de ternura.


Sanzalando

19 de fevereiro de 2015

penso eu

Pego na balança e tento ver qual a quantidade de amor é que cabe num abraço. Te peço um abraço e tu dizes que o teu é maior que o meu. Empatamos acho eu.
Pego numa fita métrica e tento medir o amor que sinto e dou comigo a fazer contar de somar.
Agarro num medidor e tento quantificar os litros de amor que cabem num olhar e dou comigo a pensar que alguns pensam que pensam e outros não sabem nem o que é amor.
Dou comigo a pensar que eu preciso, perto ou longe, é de amar.


Sanzalando


WebJCP | Abril 2007