Estamos em outubro e aqui o calendário tinha como garantido que as folhas das árvores deviam estar a cair numa suave melancolia dourada mas lá, na cidade quadriculada que desaparece em cada dia que passa, eu estariaa na fila na loja dos gelados Tico-Tico a ponderar seriamente se um gelado de castanha assada funcionaria como alento do outono de cá.
A resposta é não. Gelado a pingar no punho da camisola de malha que vesti por pura teimosia sazonal só traz desespero e recordações que não tenho na memória.
O outono encalorad" é a estação da crise de identidade vestuária. Acordamos de manhã, vemos 3 de outubro no telemóvel e o cérebro activa imediatamente o modo aconchegado: botas, camisola quentinha e um lenço ao pescoço. Saímos de casa a sentirmo-nos personagens de uma série nórdica de mistério. Meia hora depois, com o sol a bater impiedosamente no asfalto, parecemos apenas sobreviventes de uma sauna sem saída de emergência e lembramo-nos que do outro lado da tal linha recta que é curva existe uma terra que nos contraria, acorda quente, aquece uns graus mais, ao ponto do asfalto parecer o tal gelado a escorrer pelos dedos até ao punho.
Mas agora estou aqui e tenho a ideia que a transição para o outono costumava ser simples. Mudava-se a hora, tiravam-se as mantas do baú e bebiam-se bebidas quentes a olhar para a chuva pela janela. Agora, o ritual do outono consiste em carregar o casaco na mão como se fosse um recém-nascido, a suar do buço, enquanto nos recusamos a voltar aos calções por uma questão de dignidade pessoal. Não se pode usar fato de banho em outubro, há regras não escritas na sociedade, mas que a vontade aperta, aperta. Mentalmente dou um mergulho nas Miragens.
O mais trágico é o comércio tradicional. As montras das lojas já exibem golas altas, sobretudos de lã espessa e cachecóis do tamanho de mantas de solteiro. Quem passa na rua, de t-shirt e a abanar-se com um panfleto da farmácia, sente um misto de culpa e desidratação. Olhamos para os manequins vestidos para a neve e pensamos que nem eles mereciam este castigo.
Até a gastronomia sofre. A vontade de comer um cozido à portuguesa ou uma sopa de abóbora bem quente choca de frente com os 28 graus à sombra. Termina-se a comer uma salada fria de melão com presunto enquanto se acende uma vela com cheiro a canela e maçã assada na esperança de enganar os sentidos. O ar condicionado está ligado no máximo, a vela fumega no balcão e a ilusão do outono custa-nos metade do ordenado na fatura da eletricidade.
Resta-nos aceitar este outono tropicalizedo. Se o clima decidiu que as folhas caem mas o bronzeado fica, o melhor é abraçar o ridículo: óculos de sol numa mão, castanhas assadas na outra e a firme promessa de que, um dia destes, a camisola de malha vai finalmente fazer sentido.
Vamos à praia porque por enquanto podemos, nem que seja uma miragem.
Sem comentários:
Enviar um comentário