Cheguei ao exame munido de tudo o que a ciência tinha produzido até então: sebentas, apontamentos, esquemas, cafés e uma confiança cuidadosamente disfarçada de panico. Tinha estudado. Ou, pelo menos, tínhamos estado fisicamente próximos dos livros durante várias horas, dias, melhor, noites.
Entrava o professor e, de repente, a sala parecia uma sala de operações antes de uma intervenção delicada. Silêncio absoluto. Até o virar de páginas adquiria significado bíblico.
O problema era que, com o Prof. Sobrinho Simões, pai, uma pergunta aparentemente inocente podia abrir uma cratera no conhecimento. Nessa cratera ficava o vácuo, esse fenómeno em que o vazio fica cheio de nada. Assim podia ficar o meu cérebro.
- Então, explique-me "isto". O "isto” podia ser uma coisa que tinha estudado durante três noites consecutivas. Mas, no momento em que a pergunta foi feita, o cérebro decidia democraticamente que nunca tinha ouvido falar do assunto.
Comecei a responder com prudência, inventei palavras, revoltei conceitos vazios, mas não me calei:
- Bem… isto relaciona-se com…
Era o início da estratégia conhecida como medicina de aproximação: dizer tudo aquilo que nos lembrávamos na esperança de que, algures no meio da frase, aparecesse por acidente a resposta certa.
O professor ouvia. Sem pressa. O que era ainda pior.
Interpretava cada movimento das sobrancelhas como um boletim clínico. Sobrancelha esquerda ligeiramente levantada: diagnóstico reservado. Um pequeno silêncio: situação muito grave. Um olhar para o relógio: eu já não tenho salvação.
Havia ainda a terrível sensação de que o professor sabia exatamente onde estava a minha ignorância. Não era uma ignorância vaga. Era uma ignorância localizada, com morada, código postal e ficha clínica.
E, no entanto, houve uma coisa extraordinária naquele exame: obrigava-me a pensar. Não bastou decorar. Era preciso perceber, compreender e falar. O professor fazia mexer o raciocínio, como quem me dizia, sem precisar de o dizer, que Medicina não era uma colecção de respostas certas era saber fazer as perguntas certas.
Claro que, naquele momento, não apreciei tanto esta filosofia que vejo agora. Queria apenas, naquele instante, sobreviver.
Quando finalmente saí da sala, encontrei-me com outros no corredor com a expressão de quem tinha regressado de uma expedição ao Everest.
- Então?
A pergunta era sempre a mesma.
- Acho que correu bem.
Mentira piedosa.
Cinco minutos depois:
- Aquela pergunta sobre…?
Silêncio.
- Pois. Essa.
E começava a autópsia colectiva do exame, com reconstrução minuciosa de cada pergunta, cada resposta e cada possível erro cometido desde o nascimento.
Hoje, muitos anos depois, é fácil sorrir ao recordar aquele exame. Na altura, não tinha graça nenhuma.
Mas talvez seja precisamente essa a graça: entre o medo, a adrenalina e a sensação de que o nosso conhecimento cabia inteiro numa colher de café, estávamos a começar a aprender uma coisa essencial, que na Medicina ninguém sabe tudo, que é preciso pensar, duvidar e continuar a estudar.
E que, perante o Prof. Sobrinho Simões, pai, era também aconselhável nunca, mas nunca mesmo, confundir confiança com preparação.
A nota quando saiu dizia assim: 12 + . Para saber o que o mais queria dizer eu tinha de ir à oral. Pois fiquemos pelo 12 que o Evarest é muito alto para subir duas vezes seguidas.
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