recomeça o futuro sem esquecer o passado

12 de agosto de 2026

Afinal ainda havia uma - um eclipse

O sol do meio-dia em Angola costumava ser um patrão implacável, daqueles que não aceitam desculpas nem dão tréguas. Mas naquele 30 de junho de 1973, com os meus dezassete anos e a mania de que o mundo tinha sido feito à minha medida, havia qualquer coisa de estranho no ar.

Eu trazia a cabeça cheia das dúvidas próprias da idade, essa vertigem de ter dezassete anos, onde sepensa que se sabe tudo mas sem entender quase nada. Sabia-se pela rádio e pelos jornais que a lua ia pregar uma partida ao sol, uma travessura cósmica que a ciência chamava de eclipse e que cobriria o continente africano.

Lá fora, a luz começou a mudar. Não era a escuridão súbita de quem apaga um interruptor, nem a cor de fogo suave do fim da tarde a esquivar-se para o mar. Era uma luz feia, metálica, um cinzento tímido que parecia adoecer as sombras das árvores. O calor continuava lá, denso e abafado, mas a cor das coisas tinha evaporado.

A malta juntou-se com o equipamento improvisado que a imaginação da juventude conseguiu arranjar: chapas de radiografia velhas, encontradas no fundo das gavetas lá de casa, e vidros partidos escurecidos a fumo de vela, que nos deixavam os dedos pretos de negro de fumo. Olhar direto para o sol era proibido, diziam os adultos com ar grave, sob pena de ficarmos cegos antes de podermos ver o resto do mundo. E as aulas de geografia foram dadas a fazer contas de ângulos e reflexões opticas. 

Coloquei a chapa da micro à frente do olho e lá estava ele: o sol, enorme e altivo, mas a ser devorado dentada a dentada por uma sombra perfeitamente redonda e silenciosa. Era um eclipse parcial, diziam os entendidos, mas para mim, aos dezassete anos, parecia o fim ou o início de uma era. Tantas tinham sido as conversas, tantas eram as certezas tal como as in. Ouvi de tudo e acho que tive medo de naquele dia estar vivo para assistir ao fim do mundo. Mas a verdade é que se hoje estou a contar, o medo foi em vão, que não era de escada.

Durante uns minutos mágicos, o tempo parou. Os pássaros, baralhados com aquela meia-noite fora de horas, calaram-se nas copas das árvores, os cães uivaram. Ou terá sido apenas a minha memória que memorizou os medos? Ficámos ali, em silêncio, uma cambada de miúdos a olhar para o céu com vidros pretos nas mãos, com rx da família, a sentir um arrepio estranho na espinha. Não era só medo; era a pequenez vertiginosa de perceber que o universo continuava a girar, indiferente às nossas vidas, aos nossos namoros e aos nossos dezassete anos.

Depois, a lua seguiu o seu caminho e a luz forte regressou, ruidosa e quente, limpando o mistério. Limpámos a fuligem dos dedos às calças, devolvemos às mães as chapas de Rx e voltámos à vida normal. Mas eu guardei aquele sol dentado no bolso. Afinal, não é todos os dias que o céu nos dá um espetáculo desses só para nos lembrar do tamanho do mundo.


Sanzalando

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