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6 de agosto de 2026

eu queria ir à caça

Quem me conhece sabe que eu não nasci numa família de filósofos, vegetarianos e praticantes de yoga. Acho que eles nem sabiam bem o que é que era isso e se sabiam nunca me disseram. Na minha casa a única coisa que se caçava eram maus-olhados e pensamentos maus antes do terço ou da missa das nove de cada domingo. Mas eu tinha um segredo terrível para a moral da família, eu queria, do fundo do coração, ser um caçador. Daqueles que têm jeep e vão mato dentro à procura de leões e outros ferozes animais. Eu só conhecia os animais do parque infantil e os que dávamos nas aulas. Esses era só teoria ou como agora se diz, era conhecimento virtual.

Não é que eu quisesse fazer mal aos animais. Na verdade, nem conseguia olhar para uma aranha sem lhe pedir desculpa por existir. O problema era a catrefada de coisas e de acessórios. Eu olhava para as revistas de caça no barbeiro Olímpio, ou via a preparação do Tó Kutibeca e ficava hipnotizado pela camuflagem, os chapéus, os coletes cheios de bolsos estratégicos e, acima de tudo, a ideia de andar pelo mato a sussurrar estão a ouvir isto? com um ar misterioso.

Na minha família, porém, a caça não era modo de estar nem de pensar. A única caçada permitida aos domingos era a caça da missa ou dos passeios da avenida.

Determinado a viver a minha grande aventura aos dez anos, decidi organizar a primeira expedição caçadora no jardim da casa. Equipei-me a rigor, um colete do avô, se calhar três tamanhos acima, calções verdes e um chapéu que devia ser de alguém que se tenha esquecido lá em casa. Um binóculo feito de dois rolos de papel higiénico colados com fita-cola e uma espingarda invisível mas extremamente dramática. Três maçãs e uma Dussol como comida.

Cumpri todas as regras de um grande caçador, testei o vento atirando uma folha ao ar que me caiu na cara, fiz sinais de código com as mãos para um companheiro imaginário e parei a meio do caminho quando ouvi um ruído.

No cimo do muro, a minha presa: o gato gordo e preguiçoso do vizinho.

Esgueirei-me com a precisão de um leopardo, como tinha lido quando fui cortar o cabelo à escovinha. Ajustei os binóculos de papelão à cara, apontei os dedos em forma de pistola e fez o som mais feroz que conseguiu inspirar Bang.

O gato nem piscou. Limitou-se a lamber uma pata, dar um bocejo gigantesco e olhar para mim com um desprezo profundo, como quem diz: 

- A tua mãe sabe que estás a sujar as calças de domingo?

Foi nesse preciso momento que a minha mãe apareceu à porta de casa com um prato de bolachas acabadas de fazer.

- Filho querido! Chega de rastejar na areia do quintal que isso dá esfoladela aos joelhos. Vem lanchar!

Suspirei, guardei os binóculos no bolso do colete gigante e resignei-me. A caça à caça grossa teria de esperar até eu ser adulto e pagar bem caro para ver os cinco. 



Sanzalando

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