recomeça o futuro sem esquecer o passado

10 de agosto de 2026

Política, religião e futebol não vão na minha mesa

Tomar a decisão de banir Política, Religião e Futebol de qualquer conversa social não foi um acto de cobardia, foi antes um instinto primário de pura sobrevivência. Descobri, da pior maneira, que debater qualquer um destes três pilares fundamentais da Discórdia Humana, é o equivalente intelectual a tentar apagar um incêndio na cozinha atirando-lhe copos de medronho, ou outra qualquer bebida branca ou amarelada de elevado teor alcoólico. Nesses pilares não habita a razão, habita a paixão cega, esse estado de transe em que um adulto perfeitamente sensato transforma um simples guardanapo numa bandeira de guerra e o punho numa arma de arremesso.

Tudo culminou no fatídico almoço de domingo em que prometi a mim mesmo manter uma neutralidade digna de um diplomata suíço. Decidido a evitar qualquer faísca, mantive-me calado enquanto o meu vizinho de mesa explicava, com gestos inflamados e perdigotos de pão a voar, como resolveria a inflação mundial antes de pedir o café. Para fugir ao assunto, olhei para o prato e comentei com a voz mais pacífica que consegui reunir:

- Que tom de vermelho tão bonito tem este arroz de tomate.

O meu companheiro da frente, fervoroso adepto de um clube rival, bateu com o garfo na mesa e disparou de olhos arregalados:

- Vermelho?! Estás a insinuar que a culpa do penálti de ontem foi da arbitragem, só por causa da cor do molho?!

Entrei em pânico. Tentei imediatamente desviar para o campo transcendental, espiritual e pensei apaziguador, antes que a loiça começasse a voar que nem discos:

- Calma, meus amigos! Graças a Deus estamos todos aqui com saúde a comer em paz.

Erro crasso. A minha tia, praticante fervorosa de uma corrente esotérica holística, levantou-se num salto:

- Graças a Deus?! Estás a ignorar completamente a energia dos cristais que eu pus debaixo da tua cadeira e a influência do alinhamento de Saturno com a lua e a estrela polar?! - disse-me com o olhar a sai da cara dela como se fosse raios de uma trovoada mental.

Percebi então a terrível verdade: quando a paixão toma o comando, o dicionário deixa de funcionar e qualquer frase passa a ser uma acendalha. Se eu disser que o dia está bonito, um militante acusa-me de apoiar a agenda do governo, um devoto acha que estou a profanar a chuva e um adepto ferrenho garante que estou a ironizar o equipamento do clube dele.

Hoje em dia, aplico uma regra de ouro rigorosa. Em jantares, ajuntamentos ou viagens de táxi, limito as minhas conversas estritamente à rota dos pássaros migratórios, à humidade relativa do ar e ao tempo de cozedura do esparguete, à acção da ginguba no desenvolvimento da humanidade e ao silêncio contemplativo quando o ar das palavras aquecem o ambiente. E mesmo assim, confesso que mantenho o olho bem aberto: nunca se sei quando é que a cozedura do esparguete se pode tornar uma questão de honra ideológica.




Sanzalando

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