23 de fevereiro de 2026

Eu e a minha falésia

Mesmo em frente do Palácio ficava a falésia. A vista só acabava onde o olhar não conseguia chegar. Mas em baixo ainda tinha a marginal. Nunca medi, mas vou inventar que a falésia eram cerca de 40 metros e para aqula minha altura de criança eu acho eram trezentos. Era bué alta a falésia à frente da casa do Governador.  

Um dia, em armado com a minha capa de super-homem invisível resolvi que ia descer ali mesmo até na marginal. Na verdade quando eu não tinha problemas eu arranjava. Bem que podia ir um pouco mais atrás tinha já um carreiro feito, mas não. Tinha de ser ali, porque era ali que me apetecia. Que piada ia ter descer no carreiro?

Era imponente aquela falésia. Pelo menos para mim e se calhar tinha gigantes adormecidos no meio caminho. Mais lá para frente havia umas grutas escavadas nela que disseram-me era a casa dos primeiros colonos. Mas ali não. Esses fantasmas ali não ia ter. 

Antes de iniciar a minha descida admirei o horizonte e fiquei com pena que os meus olhos não conseguissem, ir mais para lá do que eu via. Paciência, quando eu crescer eu vou. Agora comecei a olhar para onde tinha de pôr os pés. A falha de pé era o meu mostro mais temido. A areia descia depressa, mal eu colocava o pé lá ia um pedaço dela a trambolhar para baixo. Também havia uns pedragulhos que eu deslocava com a ponta do pé para não lhe pisar e escorregar eu. Uma ou outra vez eu parecia ia cair mas era só escorregadela de meio metro. 

No final eu estava exausto. Era raro isso acontecer. Mas acho era mais do medo do que do exercício. Cá embaixo olhei para cima e uau, era alto para caramba. Não vou subir aqui. Vou voltar pela marginal, isto é como dar a volta ao bilhar grande mas eu não sou capaz de subir isto. Além de força me ia faltar pulmão.

Me sentei à borda da marginal a ver as ondas se atirarem contra as pedras que seguravam a dita. Como foi que eles fabricaram esta marginal se eu já vi fotografias e aqui era praia e estaleiro? Não importa. Eu consegui descer, olhar e ver só meio palácio e meia igreja. E sozinho. Uê, estou a crescer, pensei.

Comecei a caminhar no passeio de lage que paralelizava com a marginal e com os meus botões fui inventando estórias, porque as falésias contam sempre uma estória e eu com medo não perguntei àquela qual a estória dela.

A minha estória da falésia é que lhe tinha descido num lugar muito perigoso. Criança sem juízo ia dizer a minha mãe se soubesse que eu tinha descido ali.



Sanzalando

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