8 de fevereiro de 2026

O Superpoder Mais Barato do Mundo

Dizem que votar é um direito. Eu cá acho que é mais é um superpoder. Não dá para voar, não dá para ficar invisível, mas dá para mandar bitaites com selo oficial. E isso, em Portugal, é coisa séria.

O voto é aquela rara ocasião em que o cidadão comum, que normalmente só manda no comando da televisão passa a mandar, teoricamente e nem que seja por um pequeno instante, no destino da nação. Nem que seja por dois minutos, dentro de uma cabine que parece um provador de loja dos anos 80, com uma caneta presa por um fio, tal como nós estamos à vida, como se alguém fosse fugir com ela para fundar um novo partido: o Partido da Caneta Roubada.

Há quem diga: 

- Eh pá, o meu voto não conta para nada.

Pois não, mas também não conta muito não ir ao ginásio uma vez por mês, e depois queixamo-nos da barriga grande, da flacidez muscular ou da falta de vontade de fazer coisinhas. A democracia também faz barriga se ninguém a exercita. Fica mole, cansada e começa a prometer coisas que nunca cumpre.

Votar tem outro grande benefício: dá-nos o direito moral de reclamar. Quem vota pode dizer com autoridade: 

- Eu avisei. 

Quem não vota só pode dizer: 

- Eu estava ocupado a ver uma série ou está um frio do caraças.

E convenhamos: não há nada mais satisfatório do que reclamar com fundamento. É quase terapêutico. Sai mais barato do que a ida a um psicólogo e não engorda, ao contrário dos pastéis de nata.

Além disso, votar é um ótimo exercício de humildade. Entramos cheios de certezas, saímos cheios de dúvidas e, no meio, percebemos que afinal não sabemos assim tanto sobre programas eleitorais, mas sabemos muito sobre desconfiança geral. Ainda assim, escolhemos. Porque a alternativa é deixar que alguém  escolha por nós e isso é como deixar outro decidir o jantar: acabamos sempre com algo que não gostamos e ainda pagamos a conta.

No fundo, votar é como plantar uma árvore. Não dá sombra logo, mas se ninguém plantar, daqui a uns anos estamos todos ao sol, a queixar-nos do calor e a dizer:

- Isto antigamente não era assim.

Pois não. Antigamente alguém foi lá, votou, plantou e fez o trabalho chato.

Por isso, vá votar. Nem que seja só para poder dizer depois, com ar importante: 

- Eu fiz a minha parte.

Em tempos de super-heróis, é bom lembrar que o verdadeiro herói nacional não usa capa. Usa cartão de eleitor, paciência e uma caneta presa por um cordel.



Sanzalando

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