Há algo de profundamente terapêutico em ligar o aparelho e ser recebido por uma voz que não sabe quem eu sou nem onde estou, mas fala como se estivéssemos a partilhar uma imperial. Enquanto o mundo lá fora exige que eu tenha uma opinião sobre a inflação ou o corte de cabelo que está na moda igualizando todas as cabeças, a rádio apenas me pede para estar presente.
É o único sítio onde a solidão deixa de ser um peso para passar a ser uma audiência.
A relação é simples, mas tem as suas regras: A voz do locutor torna-se aquele amigo que nunca me pede dinheiro emprestado e tem sempre uma playlist melhor que a minha. As notícias são o lembrete de que o mundo continua a girar, geralmente de pernas para o ar, o que me faz sentir muito melhor por estar apenas sentado no sofá a comer cereais diretamente da caixa ou a tirar uns capins do canteiro de casa e há a estática, aquele chiar entre estações é o som do universo a dizer para ter calma e que estamos a tentar ligar-te à realidade, aguarda um momento.
Estar sozinho com a rádio é a forma mais pura de convívio social para introvertidos. É o luxo de estar com pessoas sem ter de usar calças com fecho éclair ou fingir que estou a ouvir quando, na verdade, estou apenas a pensar se o queijo no frigorífico ainda está dentro do prazo de validade ou se o frio e a chuva são eternos.
O mundo pode estar um caos, as redes sociais podem ser um campo de batalha de egos, mas ali, entre os 87.5 e os 108.0 MHz, a vida é mais simples. Sou eu, a voz de alguém que provavelmente está num estúdio escuro a beber café frio, e a música que preenche os espaços vazios da casa.
No fundo, a rádio ensinou-me que estar sozinho não é o mesmo que ser solitário. Ser solitário é um deserto; estar sozinho com a rádio é uma festa privada onde eu sou o convidado de honra e o segurança que decide quando é hora de toda a gente se calar.
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