Diz o povo que "a vida são dois dias e o Carnaval são três", mas para quem sofre de alergia crónica a serpentinas, o Carnaval são quatro meses: dois de ansiedade prévia, quatro dias de clausura e o resto do tempo a encontrar confetis dentro de sapatos que nem sequer usámos.
O problema de não gostar de nos mascararmos não é a falta de imaginação. É o excesso de realismo.
Toda a gente tem um amigo entusiasta que, em dezembro, já está a planear uma mascarada de grupo. A sugestão é sempre algo coletivo e humilhante, tipo "vamos todos de peças de Tetris". O Dilema Logístico que eu levanto: Como é que uma peça de Tetris vai à casa de banho? ou então o factor térmico: em Portugal, o Carnaval rege-se por uma lei física cruel: se a máscara é gira, vais morrer de hipotermia; se a máscara é quente (tipo um fato de peluche de urso), vais suar mais do que num ginásio sem ar condicionado; ou vem-me à cabeça a Identidade Perdida: não há nada mais triste do que estar numa conversa séria sobre a inflação enquanto se usa um chapéu de pirata de plástico que teima em cair sobre o olho esquerdo.
Na verdade começamos com uma simples máscara tipo zorro e, quando dou por mim, estou a ser arrastado para um comboio ao som de "Apita o Comboio", com uma peruca azul que cheira a petróleo e a dignidade algures esquecida num balcão de bar.
Enquanto a multidão se acotovela na avenida para ver passar o carro alegórico que satiriza um político de 2026 o não-mascarado cultiva prazeres mais refinados como ver os diretos da TV e jogar ao "Onde Está o Wally" com a vergonha alheia, comer filhós e sonhos sem medo de sujar um fato de cetim de 15 euros comprado na loja chinesa ou poder olhar-me ao espelho na manhã seguinte sem ter de esfregar a cara com diluente para tirar os restos de maquilhagem de palhaço triste.
No fundo, o Carnaval é uma época de liberdade. E não há maior liberdade do que o direito constitucional de não usar uma peruca que pica. Se me virem na rua nestes dias, não se enganem: não estou mascarado de pessoa norma". É mesmo a minha cara de quem está a contar os minutos para a Quaresma.
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