O deserto não era o Saara, mas sempre me disseram que era o mais antigo do mundo e isso era o suficiente para fazer um homem esquecer o próprio nome se ficasse tempo demais sob o sol dele. O curioso é que, do topo da duna mais alta, ainda era possível ver as luzes da cidade cintilando no horizonte, como um céu estrelado na terra
Eu, sentado no capôt de um jipe que do senhor Miranda que por acaso era também Leovegildo, esperava a hora de voltar
No deserto, quando eu ia ver-lhe um pedaço, ainda não tinham inventado o GPS e nem eu tinha deixado migalhas ou pedrinhas para saber o caminho de volta. Se não fossem as luzinhas da cidade eu ia dizer que estava perdido. Eles não. Eles sabiam que era para aquele lado. Eu no deserto era um perdido de dia e um desachado mal o sol se punha. Esqueci de nascer com sentido de orientação geográfica. O sr. Miranda já sabia a me perguntava sempre para que lado nós voltamos. Sempre errava. O Rui sabia. Era mesmo só defeito de fabrico, pensava eu.
Seguindo a constelação que se via em terra eu estava seguro. Eu sabia que o sr. Miranda jamais se ia perder.
De repente, o silêncio foi quebrado por um som seco. Não era um motor. Era o bater de asas de um drone de entrega, pintado de preto fosco para sumir na noite que caía.
O deserto guarda segredos, mas apenas para aqueles que sabem que a cidade é apenas uma miragem que dura um pouco mais que as outras.
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