Sentir saudade sem mágoa é uma forma de gratidão retroativa. É como visitar uma casa onde já moramos, as paredes podem estar descascadas agora ou até com novas pinturas, mas o que lembramos é do cheiro da comida da avó, dos risos, das estórias contadas nos serões do antigamente.
Antigamente, o tempo parecia ter outra densidade. As tardes de domingo duravam um século e o tédio era o berço da criatividade, não uma ansiedade a ser preenchida por notificações.
Lembramos do peso de um álbum de fotos, do esforço de girar o disco de um telefone ou da espera por uma carta que poderia chegar com boas ou más notícias.
Lembramos do peso de um álbum de fotos, do esforço de girar o disco de um telefone ou da espera por uma carta que poderia chegar com boas ou más notícias.
Há uma doçura em lembrar de quando não sabíamos de tudo. A ignorância sobre o resto do mundo tornava a nossa rua o universo inteiro.
A mágoa nasce do desejo impossível de voltar. Já a saudade serena nasce da aceitação de que aqueles tempos precisavam acabar para que estes pudessem existir. As memórias não são âncoras que nos prendem ao fundo, são velas que nos ajudam a navegar agora, lembrando-nos de que somos feitos de momentos bons.
É um privilégio ter um passado que valha a pena ser visitado mentalmente. Se a lembrança traz um sorriso antes de um suspiro, então a missão daquele tempo foi cumprida.
Eu brinquei, eu me magoei, eu magoei. De outro modo - eu vivi. Esse é o meu passado, vou fazer como mais com ele para além do revisitar?
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