19 de fevereiro de 2026

hoje mergulhei na praia

Na minha terra está a começar o verão. Verão na minha imaginação e verão que eu só vos conta a verdade mesmo que não tenha existido. É, na minha terra eu sou assim.
Mas eu estava a dizer que é verão e se eu tentei mergulhar da ponte velha eu agora mergulho só mesmo da praia. Eu decidi que estava na altura de me tornar um homem destemido. Ou pelo menos alguém capaz de mergulhar no mar sem fazer aquele gritinho agudo que só os cães ouvem e os outros riem.

Fui hoje para a praia com ar determinado. O mar estava azul, calmo, com aquela aparência enganadora de sopa morna. Tirei a camisa, estiquei os braços, alonguei o corpo e como se fosse protagonizar um documentário da Tv que nunca vi e avancei.

Primeiro passo: água pelos tornozelos.
Segundo passo: água pelos joelhos.
Terceiro passo: lembrei que não é assim pelo que veio o arrependimento.

Aquele Atlântico, meus amigos, não é uma piscina e nem eu sou Mapundeiro para achar a água fria boa para mergulhar. É uma entidade com personalidade própria. Na minha terra o mar não está frio, está em modo teste de caráter. Quando a água me chegou à cintura, senti que todos os pecados da minha adolescência estavam a ser perdoados à força.

Mas eu tinha decidido mergulhar. Havia crianças de seis anos a fazer cambalhotas aquáticas ao meu lado. Um senhor mais velho nadava com elegância olímpica. Não podia voltar atrás na minha decisão. Voltei para a areia, respirei fundo, fiz aquela contagem mental de atleta profissional um, dois, três e corri para o mar e mergulhei.

Durante dois cagagésimos de secundo fui um pássaro voando elegantemente sobre a espuma do mar. No terceiro, engoli meio litro de oceano ao bater de chapa e no quarto, perdi completamente o sentido de dignidade. Emergi a tossir, com o cabelo colado à testa, enquanto uma onda mais pequena do que a minha autoestima me batia na cara gargalhando.

Tentei recuperar a compostura. Fiz um segundo mergulho, desta vez mais calculado e compassado. Resultado: areia em sítios que a anatomia não previa.

E é nesse momento que acontece sempre o fenómeno social da praia que é toda a gente parece que está a olhar. Não estão, claro, disfarço eu. Mas nós sentimos que sim. até parece estou a ouvir um qualquer apanhador de sol profissional a comentar:

- E ali vemos um exemplar, claramente urbano, a lutar contra 17 graus de temperatura da água.

Decidi sair com dignidade. O problema é que o mar não aceita despedidas formais. Quando virei costas, uma onda traiçoeira empurrou-me, tropecei, fiz meio mortal involuntário e saí da água numa posição que só pode ser descrita como foca desastrada.

Já na toalha, a tremer, declarei solenemente:
- Amanhã volto a mergulhar.

Vou fazer mais como se eu gostaria de saber mergulhar mas o mergulho no mar humilha-nos, congela-nos, desorienta-nos… mas deixa-nos com uma sensação heroica. Sobrevivemos ao Atlântico. Não ganho medalhas, mas ganho histórias.

E, no fundo, é para isso que servem os mergulhos: para provar que ainda somos capazes de enfrentar o frio… e rir depois disso

Sanzalando

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