Fui hoje para a praia com ar determinado. O mar estava azul, calmo, com aquela aparência enganadora de sopa morna. Tirei a camisa, estiquei os braços, alonguei o corpo e como se fosse protagonizar um documentário da Tv que nunca vi e avancei.
Primeiro passo: água pelos tornozelos.
Segundo passo: água pelos joelhos.
Terceiro passo: lembrei que não é assim pelo que veio o arrependimento.
Aquele Atlântico, meus amigos, não é uma piscina e nem eu sou Mapundeiro para achar a água fria boa para mergulhar. É uma entidade com personalidade própria. Na minha terra o mar não está frio, está em modo teste de caráter. Quando a água me chegou à cintura, senti que todos os pecados da minha adolescência estavam a ser perdoados à força.
Mas eu tinha decidido mergulhar. Havia crianças de seis anos a fazer cambalhotas aquáticas ao meu lado. Um senhor mais velho nadava com elegância olímpica. Não podia voltar atrás na minha decisão. Voltei para a areia, respirei fundo, fiz aquela contagem mental de atleta profissional um, dois, três e corri para o mar e mergulhei.
Durante dois cagagésimos de secundo fui um pássaro voando elegantemente sobre a espuma do mar. No terceiro, engoli meio litro de oceano ao bater de chapa e no quarto, perdi completamente o sentido de dignidade. Emergi a tossir, com o cabelo colado à testa, enquanto uma onda mais pequena do que a minha autoestima me batia na cara gargalhando.
Tentei recuperar a compostura. Fiz um segundo mergulho, desta vez mais calculado e compassado. Resultado: areia em sítios que a anatomia não previa.
E é nesse momento que acontece sempre o fenómeno social da praia que é toda a gente parece que está a olhar. Não estão, claro, disfarço eu. Mas nós sentimos que sim. até parece estou a ouvir um qualquer apanhador de sol profissional a comentar:
- E ali vemos um exemplar, claramente urbano, a lutar contra 17 graus de temperatura da água.
Decidi sair com dignidade. O problema é que o mar não aceita despedidas formais. Quando virei costas, uma onda traiçoeira empurrou-me, tropecei, fiz meio mortal involuntário e saí da água numa posição que só pode ser descrita como foca desastrada.
Já na toalha, a tremer, declarei solenemente:
- Amanhã volto a mergulhar.
Vou fazer mais como se eu gostaria de saber mergulhar mas o mergulho no mar humilha-nos, congela-nos, desorienta-nos… mas deixa-nos com uma sensação heroica. Sobrevivemos ao Atlântico. Não ganho medalhas, mas ganho histórias.
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