6 de fevereiro de 2026

O Solidário de Ocasião ou o Drama da Sopa de Letrinhas

Diz o ditado popular que "fazer o bem sem olhar a quem" é a virtude máxima. É uma frase linda, digna de moldura com flores secas, mas a verdade é que o ser humano moderno — esse bicho ansioso e cheio de boas intenções mal coordenadas , raramente consegue ser solidário sem, pelo menos, dar uma espreitadela para ver se o telemóvel está focado e tudo fica registado para memória futura.

A solidariedade, hoje em dia, começa muitas vezes com um dilema logístico. Queremos ajudar, mas o universo parece conspirar contra a nossa santidade repentina.

Tudo começa naquele momento com chuva, introspecção e em que decidimos ser pessoas melhores ou melhor pessoa no nosso intimo. Abrimos o armário e decretamos: Vou dar isto tudo aos pobrezinhos! É um momento catártico. O problema é que, no nosso delírio altruísta, achamos que a carência alheia é diretamente proporcional à nossa falta de noção.

Separamos para doação:

- Uma t-shirt de um festival de 2004 com um furo estratégico na axila ou amarelecida das lavagens.

- Umas sapatilhas a dar para o desgaste de uso e desbotado de gasto.

- Um comando de televisão que já não existe no mercado, ou aqule caixa de transformadores que já nem nos lembramos para que serviam.

Olhamos para aquele monte de tralha e sentimos um calorzinho no peito. Sou o Gandhi da Porcalhota ou simplesmente o Zé da Ria, pensamos, enquanto ignoramos que estamos apenas a transferir o nosso lixo doméstico para uma instituição que já tem t-shirts de festivais suficientes para estofar um estádio.

Depois, temos o clássico do supermercado. À entrada, recebemos o saco plástico, que transportamos como a "capa de herói" do cidadão comum. É ali que a psicologia humana se torna fascinante.

Há quem entre em pânico de performance. Olham para as prateleiras e pensam: "Se eu levar massa, sou básico. Se levar grão, sou conservador. Será que os necessitados gostam de leite de aveia com sabor a baunilha?". Acabam por comprar três quilos de quinoa biológica e um frasco de corações de alcachofra, porque "toda a gente merece um mimo gourmet".

Do outro lado, temos o solidário estratégico, que passa o tempo todo a espreitar o carrinho do vizinho. Se o senhor ao lado leva dez pacotes de arroz, ele sente-se na obrigação moral de levar doze. É a única competição desportiva onde o prémio é uma palmadinha nas costas dada por um escuteiro de 12 anos.

Não podemos esquecer a solidariedade das redes sociais. É aquela partilha de um vídeo emocionante acompanhada pela legenda: "O mundo precisa de mais disto. Partilhem!".

É a forma mais eficiente de ser bondoso: não custa dinheiro, não suja as mãos e ainda nos dá aquele brilho de "pessoa consciente" nos algoritmos. Se o mundo fosse salvo por partilhas de Facebook, já estaríamos todos a viver num jardim do paraíso com Wi-Fi gratuito e unicórnios a distribuir sumos naturais e outras mordomias.

A verdade é que a solidariedade real é muito menos charmosa. É aquele vizinho que ajuda a senhora do terceiro andar a carregar as compras sem ninguém estar a filmar. É a pessoa que faz um donativo mensal por débito direto e se esquece que o faz. É, no fundo, perceber que o outro não é um depósito para a nossa consciência pesada, mas alguém que, às vezes, só precisa que não o ignoremos no elevador.

Ser solidário é um desporto radical de humildade. E se, pelo caminho, conseguirmos não dar aquele pijama de flanela com buracos, já estamos no caminho certo para a canonização.


Sanzalando

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