17 de fevereiro de 2026

O Grande Dilema do Chinelo

Tudo começou quando me sentei na poltrona da sala. Estava focado em não ter pensamentos produtivos. O problema é que o cérebro humano é um vizinho fofoqueiro que não para de falar, mesmo quando eu lhe quero calado e só penso que estou a fazer nada e isso é paz de espírito. Estou a fazer nada. Mas se eu quiser plural disso é nadas ou nadões, riens ou como é que é? Mas olhando para os meus pés verifiquei que um chinelo estava maior que o outro, uns dois centímetros.

Isto foi o suficiente para desequilibrar o meu "nada". Tentei ignorar. Mas o chinelo parecia que estava a olhar para mim e a me chamar. Ainda por cima com um olhar de julgamento. Estiquei o pé para puxar o chinelo. Errei. Tentei de novo. O chinelo escorregou do pé e foi para debaixo da poltrona.

Agora, tinha um problema: para continuar a fazer o meu nada precisava do chinelo. Mas para pegar o chinelo, eu teria que fazer alguma coisa.

Fiquei ali, com um pé descalço e outro calçado, vivendo um hiato existencial. Pensei:

Se eu ficar perfeitamente parado, eu me torno parte da mobília. A poeira vai cair sobre mim e eu serei, finalmente, o mestre do vazio.

Nesse exato momento, uma mosca entrou na sala, daquelas que parecem helicóptero e param no ar.

A mosca não tinha o mesmo compromisso com o minimalismo. Ela pousou-me na testa. Eu não movi um só músculo. Eu era era um móvel imóvel. Eu era... um homem com a testa arrepiada e abanei-a.

A mosca voou, segui-a com os olhos até que ela pousou-me no nariz, entrando na narina.

O resultado? Eu soltei um espirro tão violento que ou a mosca fugiu para outra dimensão, ou o chinelo ficou esquecido ou eu me esparramei no chão.

Conclusão:

Dez minutos depois, estava eu na cozinha a pôr gelo no joelho e de cu para o ar à procura do segundo chinelo. Percebi então que fazer nada dá um trabalho danado. O universo simplesmente não aceita o vácuo; se não se preenche o seu tempo com algo, o destino preenche com moscas e incidentes ortopédicos.



Sanzalando

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