14 de fevereiro de 2026

Dia dos namorados


O Dia dos Namorados é aquela data em que o amor acorda com recibo verde, número de contribuinte, factura e esperança na troca. No resto do ano ele é espontâneo, anda de pantufas, oferece um “gosto de ti” entre a sopa e o telejornal. Mas a 14 de fevereiro transformou-se num gestor de expectativas.

Dizem que a tradição vem de São Valentim. Um homem que, ao que consta, defendia o amor. O que ele não imaginava era que, séculos depois, o seu nome estaria associado a filas nas floristas, em restaurantes e mensagens começadas com “Amor, não era preciso nada de especial…”.

Nada de especial. Frase perigosa. “Nada de especial” pode significar um jantar romântico à luz de velas ou apenas que o outro acerte no tamanho do presente e na intensidade do sentimento. É uma ciência imprecisa.

Os restaurantes, neste dia, praticam uma espécie de atletismo emocional. Mesas coladas umas às outras, velas que derretem mais rápido do que a conta bancária e um violinista que aparece misteriosamente sempre na altura em que estamos a decidir se pedimos sobremesa ou se pagamos a prestação do carro.

E depois há os solteiros. Esses olham para o calendário como quem observa um fenómeno astronómico raro. Alguns organizam o “anti-Valentim”, outros dizem que é uma invenção comercial, o que não deixa de ser verdade, mas depois aceitam um chocolate “só porque estava em promoção”. O amor pode não ter preço, mas o chocolate tem desconto.

Os casais de longa data vivem o dia com pragmatismo. Trocam olhares cúmplices que dizem: “Vamos celebrar o nosso amor… mas sem exageros, que a mensalidade vai a meio” Já sobreviveram a discussões sobre comandos de televisão e temperaturas do ar condicionado; um ramo de flores já não os intimida.

E há sempre aquele casal que publica uma declaração épica nas redes sociais. Uma ode digna de Luís de Camões, com metáforas marítimas e promessas eternas. Nós lemos, emocionados… e depois lembramo-nos que ainda estamos à espera que nos respondam à mensagem das 15h32.

No fundo, o Dia dos Namorados é um lembrete, às vezes exagerado, às vezes ternurento, de que amar dá trabalho. Não o trabalho do embrulho perfeito, mas o de ouvir, ceder, rir das manias do outro e continuar a escolher a mesma pessoa, mesmo quando ela deixa a tampa da pasta de dentes aberta ou o tampo da sanita levantado.

Talvez o verdadeiro romantismo não esteja no jantar caro nem no presente ultimamente fotografado em rede social. Talvez esteja naquele gesto simples de dividir a última fatia de bolo… ou de fingir que não vimos a série sem o outro.

Porque o amor, quando é a sério, não precisa de data marcada. Mas já que existe um dia oficial, aproveitemos. Nem que seja para lembrar que o melhor presente continua a ser alguém que, no meio da confusão do mundo, ainda escolhe sentar-se ao nosso lado.

E isso, convenhamos, não vem embrulhado, mas é o que mais conta.


Sanzalando

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