11 de fevereiro de 2026

Eu, a bicicleta e os travões que não tinha

O Paulo Jorge vendeu-me uma bicicleta, o resto é uma estória que vou contar

No coração da cidade, onde as duas colinas parecem ter sido feitas para testar a gravidade, vivia eu. Não era rapaz de meias medidas, nem de meias luas e nem de meias solas quanto mais de meias palavras. E, como vim a descobrir, também não era um homem de travões. Pelo menos, não na bicicleta.

A bicicleta, alaranjada pálida de gasta pelo sol, era uma relíquia semi-enferrujada que parecia ter sobrevivido a todas as tempestades do deserto antes do meu nascimento. Não tinha mudanças, o selim era tão duro que fazia inveja a uma pedra, sem para-lamas e também, sem travões. Acho este um pormenor charmoso. Sem travões. Ela era uma relíquia que com o dinheiro que tinha mais não podia comprar. De vez em quando lá tinha eu um diálogo com um candeeiro de rua ou simplesmente com alcatrão. 

Mas eu via isto como uma vantagem. "Quem precisa de travões?", costumava dizer, com um brilho maluco nos olhos. Também dizia que travões era para os fracos! Eu tenho os meus pés, os sapatos, e a minha fé no destino! E assim, todas as manhãs, subia a minha ladeira até ao liceu. Na volta os pés pairavam sobre o chão, pronto para a travagem de emergência que consistia em arrastar os sapatos até o fumo começar a sair ou eu me lembrar de pôr o pé no pneu de trás.

Um dia, enquanto descia a Rua das hortas, apercebi-me de que tinha esquecido o pão para o lanche. 

- Ó céus! O pão!, exclamei enquanto decidi que era uma excelente ideia virar-se na hora para a padaria do João Padeiro que tinha acabado de passar. Uma manobra que só se pode descrever como "kamikaze ciclístico".

Enquanto virava a bicicleta, os pés bailaram no ar, procurando desesperadamente o chão sabendo que o céu estava mais perto, zigue-zagueava pelo que passei por uma senhora mais velha que me olhou, encolheu os ombros e eu ouvi

- Mais uma anormal... depois foi silêncio total. 

Por pouco acertava na porta e por azar meu acertei na parede entre duas portas e não me lembro se comprei o pão ou fui a mais algum sítio. Acordei de cabelo molhado, estatelado no passeio e uma voz que vinha de longe a chamar por mim, Ou era algo assim parecido. Dizem que revirei os olhos, que parecia uma árvore a cair com tudo direitinho no passeio cimentado da loja do João Padeiro. 


Sanzalando

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