Conheci o António Lobo Antunes apenas uma vez, ou pelo menos gosto de contar a história como se tivesse sido um encontro memorável. Na verdade, foi mais um daqueles encontros de circunstância em que duas pessoas ocupam o mesmo espaço, o mesmo ar e, durante alguns segundos, tive uma dúvida existencial: será que devo dizer alguma coisa inteligente?.
Eu estava num café da cidade do Porto, armado em intelectual, estudante de Medicina, com um livro aberto à minha frente a fazer horas para a sessão do Fantasporto. Não o estava propriamente a ler; estava na fase mais avançada da leitura moderna: olhar para a página com ar profundo enquanto se pensa noutra coisa qualquer, geralmente no preço dos pastéis de nata.
De repente, entra Lobo Antunes. Coincidência do caraças. O livro que eu tinha: Memória de Elefante. Será que há por acasos ou está tudo escrito nos céus do destino? Depois de ter devorado Fernando Namora eu estava a devorar António Lobo Antunes. E não é que ele entra ali. Desfila na minha mente ainda hoje.
Há pessoas que entram num café. Ele entra como quem atravessa um romance de 600 páginas: devagar, com peso literário e uma certa aura de quem sabe coisas que nós ainda não percebemos.
Sentou-se numa mesa ao lado.
E foi então que começou a luta interior.
Uma voz dentro de mim dizia:
- Vai lá cumprimentar o homem. Diz qualquer coisa sobre literatura!
Outra voz, muito mais sensata, respondia:
- Tu mal consegues explicar a conta da cantina, quanto mais a literatura do Lobo Antunes.
Fiquei ali, entre a coragem e a prudência, que é o sítio onde a maioria dos portugueses vive.
Finalmente, levantei-me. Dei dois passos. Parei. Voltei para trás. Sentei-me outra vez. Pedi outro café, porque o pensamento profundo seca a garganta e eu precisava cafeína ou julgava precisar.
Nisto, ele levanta-se para sair.
Ao passar por mim, olhou para o meu livro aberto há meia hora na mesma página e disse, com um sorriso muito leve:
- Esse capítulo é difícil, não é?
Eu respondi com a maior honestidade literária da minha vida:
- É… mas estou quase a vencê-lo.
Ele acenou, compreensivo, como quem reconhece um colega de profissão na arte nacional de demorar a ler.
E saiu.
Desde esse dia gosto de dizer que tive uma conversa profunda com António Lobo Antunes.
Durou sete palavras.
Mas, convenhamos, para certos escritores… já foi um diálogo bastante longo.
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