recomeça o futuro sem esquecer o passado
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25 de dezembro de 2021

Troca de correspondência entre mim e o Pai Natal

Faz conta eu sou criança ainda, na terra que nunca nevou, que faz frio parece é verão no outro lado, onde estarei no futuro de mim. Faz conta também eu ainda não acreditava no pai natal nem sabia que havia um mundo de unicórnios, de fadas e duendes, de renas que voam e felicidades espontâneas. Fazendo essas contas todas, ainda te peço para fazeres uma vez mais de conta que nessa altura eu te escrevi um carta que tu, por qualquer motivo, a tiveste esquecida num bolso desse teu casaco felpudo vermelho e a tivesses encontrado agora, que já não sou essa criança, que já estou num norte dos muitos nortes por onde andei, que passei a acreditar nesse mundo mágico dos unicórnios, fadas e duendes. Não precisas de responder às perguntas que então te fiz porque estão desactualizadas já que comprei o forno que te tinha pedido, que já tenho o carro que tanto tinha desejado, já fiz tantas acções boas como as que te tinha descrito como fazíveis ou desejadas. Nessa carta eu não te perguntei mas aproveito agora para a fazer e essa gostaria que me respondesses: porque todos pedem que te escrevam cartas se depois tu dás o que te dá na gana?
Eu, assinado por baixo, uma criança que se adultou, que continuou a ver o mundo com olhos de ver e sentimentos de sentir.

nota: eu próprio, em nome próprio, assino e me responsabilizo do que digo e afirmo, e não é que obtive resposta, desta vez pronta, manuscrita em letra caligrafada de um velhote que deve ter tido aulas de caligrafia, no tempo em que se tinham as aulas sem opções de escolha:


Querida Criança já adulta

Espero que te encontres bem, que esse cabelo que tinhas e que estava na moda não te tenha caído todo e esteja só esbranquiçado e aparado, já que imagino também ralo e fino num deixar ver a pele de baixo dele. Tens toda a razão e eu de facto deveria ter-te dado o que me pediste, o tal forno que só muitos anos depois soubeste de verdade para o que é que servia e lhe deste uso; não te dei o carro porque sabia já tinhas imaginação para grandes viagens sem teres que sair do lugar, tinhas grandes sonhos que vieste a cumprir sem teres de conduzir horas a fio como tanto desejavas, já davas valor às pequenas coisas que te rodeavam que achei não tinhas necessidade de longas distâncias para saberes que a felicidade estava ali ao teu lado; todas as acções eu sabia que eram facilmente feitas ou adiadas a termo certo porque te conhecia e sabia que davas valor às coisas, até às mais simples, mais insignificantes e sempre lutaste para obter o que tanto desejavas e não te agradaria receber as coisas de mão beijada.

Atenciosamente o teu
Pai Natal.


nota: já faz tempo as crianças deixaram de me escrever cartas, mandam-me agora Twitters, e-mail ou similares.

tão espantado fiquei que com a minha letra quase indecifrável, em papel timbrado há muito em desuso rabisquei:

Querido velhote amigo e pai Natal

Senti-me muito feliz por receber de imediato a tua carta. Eu sei que é ainda Natal e nem tiveste tempo para repousares apesar da tua idade ser eternamente a mesma.
Tive recentemente duas prendas lindas, a Francisca e a Constança, a que juntei muita gente à volta num babar de avô, que me trouxeram a alegria de ser criança outra vez, que me fizeram acreditar no mundo mágico da tua existência. Mas naquele tempo que te escrevi a carta tu davas-me sandálias, quando sabias que eu jogava e andava bem descalço, que as meias e calções podias dar-me noutra altura do ano. Se te falei do forno foi porque me lembrei tarde na vida que aquela divisão da casa servia para fazer comida, mas podia falar-te na bola de futebol onde eu poderia ter ganho muito dinheiro sem fazer tanto esforço ao longo do tempo, eu podia ter ganho fortunas se me tivesses dado o monopólio. 
Eu fiquei agora a saber que afinal sempre foste olhando por mim pelo que te perdoo as injustiças que me fizeste no tempo em que eu era criança no lugar onde nunca nevou, que sempre fui tendo o que desejava e precisava, que a superficialidade de ter não foi substantivo da vida.

Assinado e datado por mim

Querida Criança velhota

Sim, sabes que vejo tudo e tudo sei. Dá graças por teres uma família grande, de muitos ramos como ramos têm as árvores frondosas. Segue vivendo a tua vida, olha pelas netas, olha por quem está à tua volta e te admira e te está grata. Segue olhando, segue em frente vivendo e não tenhas dúvidas que o teu passado faz parte do teu presente, do presente delas e do presente do futuro delas. Mesmo quando parecias um idiota, mesmo quando nas brincadeiras te diziam que te faltava algum jeito, mesmo quando te punham de lado, mostraste ter um valor que hoje está patente na tua história de vida, no gostares de ser a eterna criança bem comportada.
Segue em frente porque há mais natal no futuro

Pai Natal, assinatura reconhecida no notário celestial.


Sanzalando

24 de dezembro de 2021

5ª descontagem de Natal

E eis que chegou este Natal. É fácil ainda saber quantos natais eu passei. Quantos festejei?! Aqui a vida já se torna difícil porque a aritmética não é assim tão linear. Hoje é a noite de Natal. Expecto para o bacalhau, peru, polvo e cabrito. Logo será hora de abrir os presentes, as prendas ou lá como é que querem chamar, depois de comerem à farta, de abraçarem os que nos rodeiam, que nos aturam, que nos fazem felizes, que fazemos felizes. Os outros também. Hoje ainda é dia de fazer aquela chamada telefónica, deixar uma mensagem na mais variada das formas.
Hoje o mundo para para se festejar o Natal. Quando falo o mundo falo deste mundo que eu vivo. Mundos há que festejarão outra coisa qualquer noutro dia qualquer. Mas eu falo deste meu mundo. Festa da Família, festa de renovar a Esperança. Mesmo que seja só a nossa, mas que alargamos aos outros.
Quem diria que o tempo passou tão rápido. Do outro Natal a este nem deu tempo para eu saber as coisas que prometi e não cumpri, ainda... Nem deu tempo para olhar para dentro de mim e ver o estado em que estou e o que posso prometer para o próximo Natal.  Surpresa!
Agradeço todas as visitas que me fizeram, as que ainda me vão fazer, as que fiz de bom agrado, porque só fiz essas. 
Feliz Natal, seja ele qual for.


Sanzalando

23 de dezembro de 2021

4ª descontagem de Natal

E eis que estamos quase chegados ao dia que dizem nasceu o dito menino. Também nunca ouvi dizer que alguém tenha nascido grande, já adulto e carregado de milagres, embora a história tenha para ali um hiato de algumas dezenas de anos. 
Me disseram, mas ainda não confirmei nas minhas notas e nas minhas mais variadas fontes, que está sentado à direita do outro dito pai de todos. Não sei se lá no sítio também existe essa coisa da direita e esquerda, mas cá em baixo isso deixou de ser importante e passou a ser social ou liberal ou coisas que eu não entendo. Mas também não sei se é nalgum gabinete ou é num open space como agora é moda ou se é num deserto de oliveiras ou simplesmente superfície lunar. Verdade seja dita que desde a data do seu nascimento até ao dia que o pregaram na cruz só sei de um tal Lázaro que era preguiçoso e começou a andar e duma Madalena que dizem as mais variadas coisas e eu não sei qual é a verdade verdadeira das tantas que falam, assim como dum graal que me deixa assim para os lados de não entender mistérios e ministérios sacramentais e tantos livros mais. 
Ou seja, a estória bem falada é só no Natal e na Páscoa. No intermeio é especulação que agora deve estar reduzida por causa da troika, da pandemia e da DGS que não atina com meias medidas, que aqui entrado eu, em modo Natal, acabo por sair sem saber se fiz bem ou mal, se posso ou não posso, se devo ou desdevo.
Assim sendo termino o modo Natal e logo se verá se haverá palavras ou se serei castigado pelo artigo Y dos 10 mandamentos que devem ser mais, com tantas correcções, aditamentos e e outras circulares.
Assim sendo, preparo-me com fato domingueiro para ir ao Galo, à missa do Galo sem que ele seja um grande Peru.


Sanzalando



22 de dezembro de 2021

3ª - descontagem de Natal

É estória de Natal. Não vou comprar presente. Nem um. 
Não conheço Jesus, esse que nasceu no dia 25. Só mesmo de ouvir falar dele. Se eu lhe conhecesse eu lhe dava um presente. Vários até. Lhe dava discos da Marisol, filmes do Josélito, albuns do Ádamo ou do Art Sullivan, Rita Pavone ou Giani Morandi ou se calhar de Jacques Brell. Ou então podia ser mesmo só os cartazes do cinema. Acho de Jesus ia gostar. Imagina ele sentado no balcão do Cinema do Eurico. Judeu loiro e olhos azuis, feito super star a cantar um dueto com Aznavor. Oh, ia ainda lá no fundo uma de Piaf. 
É só estória de Natal que vem na memória o filme do Ben Hur.
A neve que cai nos presépios mesmo dos trópicos. 
É na estória de Natal que a gente vê a quantidade de gente que passou ao longo do nosso ano e que se perderam no tempo e com dificuldade a gente se lembra até do nome. 
Cumpri o meu dever e contei uma história de Natal que escrevi como estória da minha memória dos carros de plástico feito e que eram até perfeitos que a gente nem lembra mais a marca.
É uma estória de Natal que a gente faz falar bem, mesmo sabendo que amigos teve que não passam o natal porque se foram antes para incertas partes da vida.
É uma estória de Natal que até tem uma árvore que safadamente me pisca como que a querer que eu lhe sorria.



Sanzalando



21 de dezembro de 2021

2ª descontagem de Natal

E lá estava a família reunida, num presépio de palha feito, aquecida pelos bafos respiratórios dos múltiplos animais testemunhas da ocorrência, porque, segundo me dizem, nesse dia está sempre a nevar, mesmo em terras onde nunca caiu neve, preparando-se para comer o bacalhau cosido com todos, importa salientar que não faço a mínima ideia o que sejam todos e outros a comerem o peru recheado, que deve ser um animal muito raro que só há nesse dia assim preparado, pois nos outros é mais bife do dito que se vê, ou então polvo ou cabrito, conforme a geografia e os apetites que se mão mudando com a idade e latitudes.
Mas dizia eu que estavam todos reunidos e decidiram que a partir daquela data todos os anos haviam de trocar presentes, mesmo que fossem repetidos e já não houvesse espaço ou necessidade em casa para mais.
Também ficou decido que naquele dia, assim como nos antecedentes e posteriordentes se poderiam comer muitos doces que não faziam mal, bem como fritos ricos em gorduras e borrifados com açúcar. E para não haver confusão com natalidade até meteram um acento num dos doces e ficou filhós.
Nada de confusões que o espírito da quadra não é beligerante nem confusionante e por isso se enrolam estas palavras em lacinhos, sininhos e cintilantes luzes a imitar as estrelas da lua cheia num luar sem poluição.


Sanzalando


20 de dezembro de 2021

descontagem para o Natal

Poderia contar aqui a estória dos Três Reis Magros, que após atravessar o deserto ainda estavam pior, seguiam duma estrela decadente porque decaía no céu o que dá ideia que só viajavam de noite, ainda não tinham inventado as estrelas de Hollywood nem os calendários da Pirelli, e que chegados ao destino, um lindo e pobre presépio, foram apresentados sem pombas e nem circunstâncias. 
Um, por ser muito feio e rangia tudo ao andar, se diz chamar Belo Chior, outro porque se arrastava por causa do reumático lhe chamaram o Raspar e ainda um outro que tinha cara de mau e não tinha sorte nenhuma, por isso, era conhecido por Malta Azar. Lá chegados encontraram um burro, um boi e talvez mais animais a protestar porque a sua, deles,  mangedora, estava ocupada por uma criança que dormia na tenra palha que lhes haviam deixado.
O resto da estória está contada em muitos livros e qualquer semelhança desta com as estórias que por aí circulam deve ser mero copianço ou prenda de Natal não embrulhada em palavras coloridas e enfeitadas com luzes de muitas cores e picantes ou piscantes conforme a dislexia de quem vos conta esta coisa só porque foi possuído pelo tal de espírito de Natal.


Sanzalando


25 de dezembro de 2019

hora do pai natal

Como saberá a que horas deve passar o pai natal em casa da cada um?
Imagina só ele descer uma chaminé, duma casa sem crianças e adultos brincando adultamente na sala, perto da lareira. Onde é que ele estaciona a«o trenó numa casa com varias chaminés sem saber a morada de cada uma delas. E o excesso de carga?
É por estas coisas que as estórias no natal deviam levar um outro rumo.
Eu cá por isso e por outras invisto no meu corpinho, na minha mente e nos meus sonhos. Batalho, teimo, invisto e no quentinho do meu coração eu faço um embrulho de coisas boas para me oferecer.
Eu não vou perder o meu tempo em comparações nem ligar a insignificâncias. Eu sou o topo de mim, dos meus afazeres e dos meus objectivos. 
O pai natal para mim vem num dia qualquer, sem confusão nem ilusão. Pode ser de surpresa mas sem hora marcada e expectativa alta. Pode ser um saco de pipocas, um pau de algodão doce, uma sapateira ou uma carícia, Surpreendentemente.
O pai natal, num fato de qualquer cor, vai-me dizer que o meu melhor amigo sou eu, que cada momento é único e que a minha paz é interior. 
E eu vou rir dos pais natal que aparecem na hora marcda, na satisfação de encomenda, no favor há tanto desejado.
Não, eu não marquei hora com o pai natal.

Sanzalando

23 de dezembro de 2019

eu contei uma estória de Belém

Era uma vez um menino que nasceu lá para os lados de Belém, assim num lá muito longe que até dizem fico no médio oriente. Como se eu soubesse onde é que isso fica. Mas é lá e isso é que importa. Faz agora, dizem-me, 2019 anos, porém como andavam com os calendários trocados eu não teimo. Mas o menino lá nasceu e se fez homem e durante muito tempo não se soube dele. Apareceu na cidade já crescido, barba por fazer e segundo alguns filmes que marcaram época, não aquela mas outra, até apareceu loiro de olhos azuis, aparentemente coisa natural naquele sítio, para não dizer impossível. Se ele brincou com brinquedos de madeira que o seu pai lhe fizera, ninguém diz nada sobre isso. Na verdade á um desparecimento ali duns anitos que digo coisa sem importância. Há anos que não se contam a ninguém.
Mas eu estava a dizer que nasceu lá para o médio oriente o filho de Maria e do mais velho José. Conta a lenda que foi fruto do Espírito Santo, coisa mesmo de antigamente e não dos modernos tempos. Como os hotéis estavam cheios dizem ele nasceu num estábulo que era coisa muito abundante no tempo, porque agora numa vacaria não dava nem para olhar quanto mais para nascer. Acho que devido 
á falta do aquecimento central ele foi aquecido pelo bafo duma vaca, dum boi e dumas ovelhas que ali repousavam.
Depois desapareceu. Deve ter ido para algum internato estudar ciência política ou filosofia ou nada disto que o meu conhecimento não chega para tanto. Deve ter recebido uma bolsa ou uma herança. Mas isso não é importante. 
Mais tarde ele reaparece e cheio de conhecimento e com grande credibilidade nos que o rodeavam. Eram primos, tios e conhecidos, todos lhe seguiam. Dizem, mas não confirmo porque não sou de intrigas, namorou Madalena aquém atiraram muitas pedras, conheceu Pedro, o pescador e mais o Judas, o traidor, e outros tantos que eram 12. A estes ele chamou apóstolos que escreveram as epístolas que hoje são capítulos do livro mais vendido do mundo. Se não é assim eu não vou voltar atrás e emendar que isto com rasurados ficava mal.
Mas nesse livro fala dos vendilhões do templo e do Poncio Pilatos que dali lavou as mãos. Também fala da Cruz e da coroa de espinhos, da ressuscitação e outras passagens que eu não entendo.
Acho que não fala dos três, só três, Reis que lhe foram oferecer prendas. Se falam escapou-me. 
Olha uma estrela cadente...
Fui
e assim contei uma estória no Natal

Sanzalando

24 de dezembro de 2017

ainda outra estória de natal

Hoje sinto-me como se tivesse apagado a última gota do que existia em mim. Cortei as correntes e as joguei ao mar.
Da Galileia chegou-me a notícia que três gajos magros que seguiam uma estrela, das dez que usam Lux, montados num Camel de tracção às quatro, de ar condicionado ao exterior, ainda estavam longe de chegar à Nazaré, onde uma senhora havia gerado uma luz através dum parto.
Atento segui as notícias. Tudo o que era rádio, televisão e smartphones estava sintonizado para o Oriente Médios que fica um pouco antes do Oriente propriamente dito e eu atento a todos eles. 
Os gajos magros faziam-se acompanhar de incenso que serve para purificar o ar, de commiphora myrrha, conhecida simplesmente por mirra, e cujas resinas têm efeito anti-inflamatório, antisseptico, analgésico e aromático, o que é muito bom para entorses, torcicolo, nevralgias e dores de garganta, para além de ser um bom desodorizabte e de outro que serve para fazer compras e embelezar. Isto deixou-me preocupado. Três prendas para uma luz que haveria de ser dada à luz num estábulo da Nazaré.
Foi aqui que fui ao fundo até às correntes que havia jogado ao mar.
Ai me lembrei o que um meu mestre sempre me dizia, em caso de risco não desesperes, olha para cima e encontras a luz. De facto quando amanheceu eu via a luz, do dia e estava marcadao para esse o tal parto na Galileia.


Sanzalando

21 de dezembro de 2017

outra estória de natal

Meu nome é João, muitos me chamam de Jota e desde pequenino que aprendi a olhar o presépio. Sempre adorei ver aqueles minúsculos bonecos a representarem séculos de tantas histórias, verdadeiras ou frutos de grandes imaginações, pagãs ou religiosas, culturais ou só porque sim. Umns mais ricos que outros, uns mais fantasiosos que outros mas todos a representarem um dia como se fosse o único dia do ano. 
Mas a verdade é que sempre gostei de os ver. Cheguei a estar horas a ver. Nos bombeiros da minha terra sempre tinha um grande. Acho que ainda é o maior que já vi. Pode ser que naquela idade qualquer coisa me parecesse enorme. Mas recordo-me dele e é importante isso, porque desde pequeno que aprendo a lidar com a vida e todos os seus presépios. 
Umas palmadas aqui, um elogio por ali, uma queda, um levantar dorido, às vezes rápido e outras com vontade de ter morrido ali por aquele instante de dor, mas com o ensinamento da vida fui vivendo a olhar presépios. Representações de um dia, reais ou ficcionais.
Ao longo dos tempos fui notando que as dores são diferentes, umas duram outras são passageiras, uma cicatrizam com cicatriz e tudo, outras passam até na fase do esquecimento. Assim como os presépios guardados em caixas até no proximo dia de usar outra vez, igual ou diferente, com os mesmos bonecos, pagãos ou religiosos.
Às vezes basta um olhar de relance, um abraço sentido e a dor mais dorida como que voa e a vida continua mesmo que não tenha um presépio para admirar.


Sanzalando

19 de dezembro de 2017

a minha estória de natal

É estória de Natal. Não vou comprar presente. Nem um. 
Não conheço Jesus, esse que nasceu no dia 25. Só mesmo de ouvir falar dele. Se eu lhe conhecesse eu lhe dava um presente. Vários até. Lhe dava discos da Marisol, filmes do Josélito, albuns do Ádamo ou do Art Sullivan, Rita Pavone ou Giani Morandi ou se calhar de Jacques Brell. Ou então podia ser mesmo só os cartazes do cinema. Acho de Jesus ia gostar. Imagina ele sentado no balcão do Cinema do Eurico. Judeu loiro e olhos azuis, feito super star a cantar um dueto com Aznavor. Oh, ia ainda lá no fundo uma de Piaf. 
É só estória de Natal que vem na memória o filme do Ben Hur.
A neve que cai nos presépios mesmo dos trópicos. 
É na estória de Natal que a gente vê a quantidade de gente que passou ao longo do nosso ano e que se perderam no tempo e com dificuldade a gente se lembra até do nome. 
Cumpri o meu dever e contei uma história de Natal que escrevi como estória da minha memória dos carros de plástico feito e que eram até perfeitos que a gente nem lembra mais a marca.
É uma estória de Natal que a gente faz falar bem, mesmo sabendo que amigos teve que não passam o natal porque se foram antes para incertas partes da vida.
É uma estória de Natal que até tem uma árvore que safadamente me pisca como que a querer que eu lhe sorria.



Sanzalando

24 de dezembro de 2013

Modo de Natal (4)

E eis-nos chegado ao dia que dizem nasceu o menino. Também nunca ouvi dizer que alguém tenha nascido grande, já adulto e carregado de milagres. Me disseram, mas ainda não confirmei nas minhas notas e nas minhas mais variadas fontes, que está sentado à direita. Não sei se lá no sítio também existe essa coisa da direita e esquerda. Mas não sei se é nalgum gabinete ou é num open space como agora é moda ou se é num deserto de oliveiras ou simplesmente superfície lunar. Verdade seja dita que desde a data do seu nascimento até ao dia que o pregaram na cruz só sei de um tal Lázaro que era preguiçoso e começou a andar e duma Madalena que dizem as mais variadas coisas e eu não sei qual é a verdade verdadeira das tantas que falam, assim como dum graal que me deixa assim para os lados de não entender mistérios e ministérios sacramentais e tantos livros mais. Ou seja, a estória bem falada é só no Natal e na Páscoa. No intermeio é especulação que agora deve estar reduzida por causa da troika e que aqui entrado eu em modo Natal acabo por sair sem saber se fiz bem ou mal. 
Assim sendo termino o modo Natal e logo se verá se haverá palavras ou se serei castigado pelo artigo Y dos 10 mandamentos que devem ser mais com tantas correcções e aditamentos.
Assim sendo, preparo-me com fato domingueiro para ir ao Galo, à missa do Galo.


Sanzalando

23 de dezembro de 2013

Modo de Natal (3)

E lá estava a família reunida, aquecida pelos animalescos bafos respiratórios, porque segundo me dizem nesse dia está sempre a nevar, mesmo em terras onde nunca caiu neve, preparando-se para comer o bacalhau cosido com todos, importa salientar que não faço a mínima ideia o que sejam todos e outros a comerem o perú recheado, que deve ser um animal muito raro que só há nesse dia, pois nos outros é mais bife do dito que se vê.
Mas dizia eu que estavam todos reunidos e decidiram que a partir daquela data todos os anos haviam de trocar presentes, mesmo que fossem repetidos e já não houvesse espaço em casa para mais.
Também ficou decido que naquele dia, assim como nos antecedentes e posteriordentes se poderiam comer muitos doces que não faziam mal, bem como os fritos. E para não haver confusão com natalidade até meteram um acento num dos doces e ficou filhós.
Nada de confusões que o espírito da quadra não é beligerante nem confusionante e por isso se enrolam estas palavras em lacinhos, sininhos e cintilantes luzes a imitar as estrelas da lua cheia num luar sem poluição.


Sanzalando

22 de dezembro de 2013

Modo Natal 2

Poderia contar aqui a estória de Três Reis Magros, que um dia foram atrás duma estrela cadente, ainda não tinham inventado as estrelas de Hollywood, e que lá chegados foram apresentados sem pombas e nem circunstâncias. Um, por ser muito feio e rangia ao andar, se diz chamar Belo Chior, outro porque se arrastava por causa do reumático lhe chamaram o Raspar e ainda um outro que era mau e não tinha sorte nenhuma, por isso, era conhecido por Malta Azar. Lá chegados encontraram um burro, um boi e talvez mais animais a protestar porque a sua, deles mangedora, estava ocupada por uma criança que dormia.
O resto da estória está contada em muitos livros e qualquer semelhança desta com as estórias que por aí circulam deve ser mero copianço ou prenda de Natal não embrulhada em palavras coloridas e enfeitadas com luzes de muitas cores e picantes ou piscantes conforme a dislexia de quem vos conta esta coisa só porque foi possuído pelo tal de espírito de Natal.


Sanzalando