recomeça o futuro sem esquecer o passado
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15 de abril de 2026

por causa nenhuma

E quando às vezes me apetece falar a sério mas o meu humor próprio não me deixa. Dizem que nunca se deve lutar com um porco na lama: ambos ficam sujos, mas o porco diverte-se. O problema é que, às vezes, a vida não nos dá o benefício da escolha. Um dia acordamos, pomos a nossa melhor roupinha ou a nossa melhor postura de adulto funcional e, sem aviso, estamos com o joelho enterrado no estrume, a tentar imobilizar uma fera de muitos quilos que não partilha do nosso sentido de decoro e educação.

Lutar com um porco na pocilga é a metáfora perfeita para as discussões estéreis, para as burocracias kafkianas ou para aqueles dias em que tudo decide desmoronar-se ao mesmo tempo. É um exercício de futilidade coreografada. No meio do caos, o mais fascinante não é a sujidade em si, mas o esforço hercúleo que fazemos para brincar de ser sério enquanto o rabo nos escorrega no lodo.

Há uma dignidade cómica no ser humano que tenta manter a compostura em situações absurdas. É o senhor que, após escorregar numa casca de banana, se levanta e sacode o casaco com um olhar fulminante, como se a gravidade tivesse cometido uma gafe social.

Nas nossas "pocilgas" quotidianas — seja um escritório em chamas ou uma crise existencial de segunda-feira — insistimos em usar o tom de voz de um diplomata da ONU. Falamos sobre "metas" e "otimização de processos". Simulamos uma profundidade que, na verdade, é apenas o pânico de quem não sabe onde pôr as mãos. Agarramo-nos às regras porque, se as largarmos, sobramos apenas nós, enlameados, diante de um porco que apenas quer chafurdar.

O porco, claro, é honesto. Ele não finge ser um unicórnio. Ele é massa, grunhido e instinto. A nossa luta com ele torna-se ridícula não porque ele seja sujo, mas porque nós tentamos lutar num terreno onde só conta o peso e a manha.

Brincar de ser sério é o nosso mecanismo de defesa. É a tentativa de aplicar lógica ao que é puramente visceral. Queremos convencer o porco (ou o destino, ou o chefe intratável) através de um memorando bem estruturado. Queremos que a lama respeite o vinco das nossas calças.

No fim, se tivermos de lutar na pocilga, talvez o segredo não seja tentar sair de lá limpo, o que é impossível, mas sim ter a coragem de largar a "seriedade" de fachada. Se a sujidade é inevitável, que pelo menos o riso seja genuíno. Afinal, não há nada mais seriamente ridículo do que um homem de fato a tentar explicar a um porco os benefícios da pontualidade.




Sanzalando

29 de dezembro de 2025

me entreolhei numas páginas que li

Mermão, me sentei assim de agachado nos hexágonos da marginal a ver o céu para lá da linha recta que é curva. Se me perguntares o que eu lhe estava a fazer eu te vou responder que esqueci. Pois fiquei só mesmo a olhar, assim para um livro que não foi publicado mas devia. Eu estou lá no livro às páginas tantas. Tu, mermão Dido, também lá estás. Ela não esqueceu, porque me diz que lhe fazemos parte da história. Dois que sentaram na mesma marginal e que ela foi encontrar em lugares distantes, em momentos diferentes com um denominador comum: ela. Coisas da vida. Tem sinas que não vale a pena fugir. Uns vão dizer é Karma e outros sina e eu coincidência. Seja.
Mermão, me olhei na fotografia e pensei era assim eu? Gajo bonito que nem lembro mais como eu fui. Sei, fui de sorte e de sorte tenho vivido. Sorte nos amigos e nas amigas que tenho nesta vida. Olha só esse mar calmo que me segreda as coisas e me oferece o som no seu marulhar de calma. 
Mermão, se um dia e for à ilha eu lhe vou agradecer de coração. É bonito olhar esse passado e viver este presente. 


Sanzalando

28 de dezembro de 2025

o intelectual

Tempos houve que o intelectual era visto como uma espécie de farol, solitário, que do alto da sua torre de marfim, lançava luz sobre a ignorância das massas. Hoje, essa imagem não só está desactualizada como é, no limite, arrogante. Numa era onde a informação é instantânea e a opinião é uma mercadoria barata, o que resta, afinal, para aquele que se dedica ao pensamento crítico?
O que mais se espera de um intelectual hoje não é que ele tenha todas as respostas, mas que saiba fazer as perguntas certas mesmo que sejam desconfortáveis. Num mundo de polarização cega, onde todos têm certezas absolutas sobre tudo, da geopolítica à virologia, o intelectual deve ser o primeiro a dizer: "É mais complexo do que parece". A sua função é resistir à sedução do simplismo e devolver ao debate a sua necessária nuance.
Espera-se que o intelectual seja um "traidor" por natureza — não dos valores éticos, mas das bolhas ideológicas. Se um pensador apenas valida o que o seu grupo político ou social quer ouvir, ele não é um intelectual; é um relações-públicas. O verdadeiro intelectual é aquele que está disposto a criticar os seus próprios aliados quando estes atropelam a coerência ou a honestidade intelectual.
De que serve uma ideia brilhante se ela estiver trancada num dialeto hermético que apenas três académicos compreendem? Espera-se que o intelectual seja um ponte. Ele deve ser capaz de traduzir a complexidade do mundo para uma linguagem que dialogue, sem com isso sacrificar o rigor. O pensamento deve servir para elevar o nível da conversa coletiva, e não para criar novos muros de exclusão social. Por fim, espera-se que ele habite a periferia do poder. O intelectual que se aproxima demasiado do trono corre o risco de se tornar um cortesão. A sua posição deve ser a de um observador atento, alguém que mantém a distância necessária para denunciar o abuso, a injustiça e, acima de tudo, a manipulação da linguagem, que é onde a tirania costuma começar. 
Em suma, o intelectual não é o dono da verdade, mas o seu eterno perseguidor. Dele não esperamos o conforto da solução, mas o desconforto da lucidez. Num tempo de algoritmos que nos dão sempre a razão, o intelectual é aquele que nos lembra de que podemos estar errados. E essa é, talvez, a maior generosidade que alguém pode oferecer à sociedade.


Sanzalando

20 de dezembro de 2025

anúncio de inverno

O inverno tem destas crises de identidade. No calendário, ele já se anuncia com o rigor das sombras longas, mas aqui fora, na quase entrada da sua estação, o céu parece não se decidir entre a despedida do outono e a chegada do frio. É um dia de sol e chuva, um daqueles espetáculos meteorológicos que nos obrigam a uma dança constante com o guarda-chuva, o casaco e a gabardine.

Acordamos com luz de uma nitidez cruel. O sol de dezembro não é o sol quente e preguiçoso de agosto, é uma luz limpa, de cristal, que não aquece a pele mas ilumina cada detalhe da rua, que brilha no olhar baço de um dia que irá ser. As poças de água da noite anterior brilham como espelhos partidos no asfalto. Há uma promessa de claridade que nos engana, fazendo-nos deixar o casaco mais pesado em casa, num excesso de otimismo.

Mas a atmosfera é traiçoeira. No horizonte, as nuvens não chegam devagar; elas galopam quais cavalos à solta. São cinzentas, carregadas, com barrigas pesadas de chumbo que contrastam com o azul elétrico que ainda resiste por cima das nossas cabeças.

De repente, sem aviso de vento ou trovoada, as gotas começam a cair. É uma chuva grossa, mas iluminada. É o que os antigos chamavam de "chuva das bruxas". A cidade ganha um aspeto surrealista: as pessoas correm para as marquises enquanto os seus rostos continuam banhados por raios solares.

Há algo de profundamente poético nesta indecisão do tempo. É assim como se o céu estivesse a tentar lavar a poeira do mundo sem querer apagar a luz. O cheiro que sobe da terra mistura-se com o ar gelado, criando uma perfume que é a própria essência da mudança de estação.

Neste dia de "sim mas não", aprendemos a aceitar a impermanência. O arco-íris surge, tímido e incompleto, entre dois prédios, lembrando-nos que a beleza precisa sempre de dois elementos opostos para se manifestar. O ritmo da cidade abranda. O café da esquina enche-se de gente que olha pela montra, à espera que a nuvem passe, enquanto o sol continua a refletir-se nas chávenas.

Na entrada do inverno, estes dias servem para nos preparar. Dizem-nos que o cinzento está a chegar, sim, mas que o sol não desapareceu, apenas mudou de tática. Ele agora brinca às escondidas, aparecendo apenas o tempo suficiente para nos lembrar que, mesmo nos meses mais curtos, a luz guarda sempre um lugar na agenda.

Termina a tarde e o céu fica de um laranja dramático, lavado pela água e polido pelo frio. É o inverno a dizer-nos que, mesmo na chuva, há uma claridade que só ele sabe dar.




Sanzalando

19 de dezembro de 2025

ter saudade

A saudade é uma palavra que se veste de gala na língua portuguesa, se forma poesia ou romance, mas que, na verdade, prefere andar descalça pelos cantos da nossa memória. A saudade é o preço que pagamos por termos vivido algo que valeu a pena.

A saudade não é uma falta vazia. O vazio é silencioso e gelado. A saudade, pelo contrário, é barulhenta. Ela ocupa um espaço imenso na sala, senta-se à mesa connosco e insiste em recontar histórias que já sabemos de cor. É a presença de uma ausência.

Estranhamente, ela não nasce apenas do que perdemos. Existe uma saudade que é quase uma profecia: aquela que sentimos enquanto ainda abraçamos alguém, antecipando o momento em que os braços se vão soltar. É o medo de que o agora se torne num ontem depressa demais.

Tem gente que diz que a saudade dói. E dói, de facto, como um aperto na alma. Mas há uma doçura clandestina nesse aperto. Se não sentíssemos saudade, significaria que nada nos marcou, que passámos pela vida sem deixar que o mundo nos tocasse. É o cheiro da maresia ou o som de uma porta que rangia de forma específica na casa dos avós. É o eco de uma gargalhada que já não habita o presente, mas que continua a fazer vibrar o ar quando fechamos os olhos. Talvez a mais difícil de carregar, a falta que sentimos da pessoa que fomos em determinado momento da vida, antes das responsabilidades nos endurecerem a pele, nos enrugarmos de idade.

Olhamos para o mar e, mesmo sem ter ninguém do outro lado, sentimos que algo nos falta. É um estado de espírito que nos permite estar aqui, mas com o coração em algures, do outro lado. Se calhar, mesmo do outro lado de nós.

No fim de contas, a saudade é a prova viva de que o tempo não é uma linha. O passado não ficou lá trás, ele viaja connosco, guardado em frascos de perfume, em melodias de rádio e em nomes que o tempo não consegue apagar.

Ter saudade é, acima de tudo, ter para onde voltar, mesmo que esse lugar já só exista dentro de nós.



Sanzalando

18 de dezembro de 2025

força maninha

O quarto da minha irmã passou a cheirar a álcool e a ter um sabor de doença. É um quarto de hospital. Eu, que sou mais novo, não gosto muito daquele cheiro nem do seu sabor, para não falar de hospital. Para mim, o quarto da minha irmã deveria cheirar a bonecas, trapos e outras coisas como dantes.

A minha irmã está com uma doença, como diria a minha mãe se cá estivesse para nos mimar. É uma daquelas que pede muito descanso, mantas fofas e dias inteiros deitada a olhar para a janela e sorrir. Eu não gosto de ver ou saber que a minha irmã está pálida, mesmo sabendo que não perdeu o sentido de humor, que não é igual ao meu mas é dela mesmo. Fico assim de coração apertado como se tivesse dado um nó nos atacadores que me estrangulam até na alma.

A minha irmã não vai ficar boa num passe de mágica, mas até sorrir também com os olhos, eu vou olhar para todas as estrelas e ver qual delas lhe vai brilhar na alma e fazer pensar que não foi mais que o susto de um relâmpago que me assustou.

Força maninha, tu consegues voltar-me a sorrir também com os olhos.



Sanzalando

9 de novembro de 2025

Inteligência artificial versus a natural, que é a minha

Agarrei num texto de 2003, primeiro ano que tenho guardado em arquivo digital, e fiz um copy-past para um verificador de uso de IA. Surpresa minha, deu 87 % de uso. Se naquela altura eu usava inteligência artificial, isto é, há 22 anos eu a usava e era mais novo, quer dizer que agora, passado esses anos e com alguns neurónio queimados, nos múltiplos stresses da vida eu devo ter muito menos de inteligência natural e muito mais de artificial, pelo que o que eu escrevo deve dar uns 110 % artificial e 120  % de delírio. E logo agora que eu pensava que ia usar o que me resta da inteligência natural...

Eu tenho 69 e um telemóvel que parece mais inteligente do que muita gente. Todas as manhãs, antes mesmo de acordar, uma música  suave me diz “bom dia” que vem do pequeno aparelho. O aparelho lembra-me de tomar os remédios, medir a tensão se eu fosse racional e até de fazer coisas durante o dia. Mas eu olho para ele e dou comigo a gargalhar porque penso se eu o programar eu deixo de pensar e eu passo a ser um robot dessa coisa pequena que antes servia apenas para telefonar.

A inteligência artificial entrou devagarinho na vida, como quem não quer incomodar. Primeiro foi o tal de relógio que contava passos que eu dava por dia; depois, a app que avisa quando o coração bate mais rápido do que devia. Só falta mesmo ele desatar a conversar comigo como a querer fazer-me companhia quando eu quero estar sozinho....

Mas há dias em que eu sinto falta da conversa verdadeira. A máquina pode responder a tudo, mas de certeza que não me vai responder se eu fizer a pergunta mais importante:  Já amaste alguém?

Eu sei que a voz é apenas um conjunto de algoritmos, frios e precisos. Falta-lhe o calor das histórias que só a inteligência natural, a humana pode construir com as lembranças, cheiros e afectos, as dores e as perdas.

Enquanto preparo um chá de caxinde, capim ou príncipe, que é tudo o mesmo chá, penso no quanto aprendi com o tempo: a distinguir o riso, aquele que vem sincero do sincero e do que vem do educado, o silêncio de quem escuta ou do silêncio de quem se cala. Nenhum algoritmo conhece esses segredos, tem essa sabedoria porque a sabedoria da vida, essa, não se programa.

E, no entanto, há algo bonito nesta convivência entre o velho e o novo. A máquina ensina-me a não me perder nos horários e eu ensino a máquina, ainda que ela não entenda, o que é ser gente.

Afinal, a inteligência artificial pode até prever o tempo, mas é a natural que sabe quando é hora de abrir ou fechar a janela.

Na verdade, continuarei, tal como até hoje, a usar a minha percentagem natural de inteligência artificial.


Sanzalando

2 de novembro de 2025

O Dia em que o Tempo Mudou de Dono

Dizem que o tempo não para. Mentira descarada, o tempo parou hoje, exatamente às 08h00, quando o nosso amigo (vamos chamar-lhe A., para proteger os inocentes) entregou a chave, desligou o computador, desinstalou-se do gabinete e suspirou num misto de mágoa e saudade: “Agora sim, estou reformado.”

É um momento histórico. O relógio dos corredores do Hospital ficaram desorientado, o Boss mais boss de todos os bosses começou a suar frio, e a máquina do café entrou de luto. Afinal, A. era o único que sabia pôr aquilo a funcionar sem manual, com rigor e disciplina.

Setenta anos, e ainda com mais energia do que muitos de vinte, embora o o cabelo branco  o atire para o Ser Mais Velho como se diz na nossa terra. Durante décadas, A. fez tudo: trabalhou, criou filhos, pagou impostos e fez promessas de “um dia descansar” embora lá no fundo ia achar era eterno, tal como quem escreve estas linhas. 

Pois bem, o dia chegou… e agora ele vai tentar perceber o que é que as pessoas fazem às 10h30 de uma terça-feira quando não estão a responder a e-mails, a disciplinar e a olear uma máquina enfraquecida, enferrujada e desgastada pela inércia do boss mais boss que o grande boss.

Os amigos já o avisaram: o primeiro mês da reforma é perigoso. A pessoa acorda cedo por hábito, faz o café, olha o relógio e pensa: “Tenho o dia todo pela frente.” E depois percebe que o dia é muito longo quando não há reuniões nem internos para culpar.

Mas o nosso A. é homem de recursos. Diz que vai “pôr tudo em ordem lá em casa”. Tradução: vai mexer em gavetas, encontrar manuais de micro-ondas de 1998 e proclamar que “um dia pode ser útil”. A S. vai-se exasperar, expulsar da sala, da cozinha e sobra-lhe o jardim, mas está a chover

A verdade é que a reforma é uma arte. Não é o fim — é o início de uma nova carreira: a de gestor de tempo próprio, com especialização em sestas e longos almoços, partidas de golf, conversas intermináveis e ideia contruíveis.

Parabéns, A.! Chegaste aos 70 com humor, saúde e, finalmente liberdade para não fazer nada com estilo.



Sanzalando

1 de novembro de 2025

Hoje é dia de todos os santos

Hoje é Dia de Todos os Santos.  Foi o calendário a lembrar-me disso, com a solenidade de quem carrega séculos de devoção, procissões, velas e flores, já que se mistura como o dia de finados que me tinham dito que era amanhã, quando eu ainda era menino de acreditar em tudo o que me diziam. É um dia em que se fala de céu e de eternidade, de virtude e de milagres. Mas eu, que tenho o hábito de procurar o sagrado nas pequenas coisas, penso noutros santos, os meus santos de carne e osso, que ainda andam por aqui, que ainda me dizem bom dia e me desejam um optimo dia pela frente, mesmo que não tenham Santos no nome.

Penso na Dona Mariana, vizinha da casa ao lado, que todas as manhãs varre o passeio e cumprimenta o mundo com um “bom dia” que parece uma bênção transportada no sorriso natural.
Penso no meu amigo Joaquim, que nunca chega a horas, mas chega sempre com um sorriso e um café quente quando mais preciso.
Penso nas professoras dos meus sobrinhos, que ensinam letras e paciência em doses iguais, e que, sem auréola nem incenso, salva pequenos futuros todos os dias. Penso nos meus colegas que ainda acordam cedinho, nos dias feriados como de semana fossem para vestirem as suas batas brancas e irem desensofrer os sofredores de maleitas e outras desfeitas. Penso naquelas pessoas qe mantém a rua limpa para eu passar em respiração normal e não em apneia. Penso naquele que de madrugada faz o pão para eu comê-lo fresco, quente, manhã cedo. Penso em tantos que nem as letras deste computador chegariam para os nomear.

Esses são os meus santos.

Não estão em altares nem em vitrais coloridos. Estão na rua, no autocarro, no supermercado. São santos do quotidiano, canonizados pelo afeto e pela coragem silenciosa de continuar.

Neste dia de Todos os Santos, há quem vá ao cemitério levar flores aos que já partiram. Eu levo o coração cheio de gratidão pelos que ainda cá estão, os santos vivos, os que me emprestam a sua fé quando a minha se distrai.
Talvez a santidade não seja um prémio póstumo, mas um gesto simples, repetido mil vezes com amor: ouvir, cuidar, partilhar, perdoar.

Por isso hoje acendo uma vela, não no altar, mas no pensamento, por todos os santos que vivem comigo.
Os santos anónimos.
Os santos imperfeitos.
Os santos que ainda me telefonam, que riem das minhas trapalhadas, que me lembram que a vida, mesmo sem milagres, já é uma bênção.



Sanzalando

30 de outubro de 2025

um dia

Um dia, um alguém parecido comigo, porém mais velho, no cabelo e na ausência dele, nas rugas não disfarçadas que o tempo esculpiu, te vai aparecer e te vai prometer cuidar como nunca foi capaz de te cuidar. Te vai dar conselhos, de mais velho, te vai abraçar em abraços de calor e protecção. Não te vai dar lições de moral, nem de história e nem vai te estórias de embalar ou enganar. Te vai segurar a tua mão na sua tremula mão e se calhar te vai perguntar tantas coisas e nem vai te dar tempo de responderes. Perguntas atiradas porque estiveram reprimidas dentro dele e num acto de liberdade vão sair em turbilhão. 
Algum dia, o mais velho, vai beber contigo um café amargo para evitar doces, te vai fazer rir para evitar lágrimas e te vai cantar canções de amor feliz para não adormeceres.
Vais ver que esse mais velho vai te dizer que sempre esteve contigo, mesmo quando era impossível o veres, porque ele estava longe do corpo físico, a pensar no seu modo de viver, encastelado na sua forma de servir os outros e se esqueceu dele mesmo. 
Ele vai-te dizer que nunca mais vai deixar o corpo vagabundear longe do espírito e nem o vice-versa irá acontecer
Depois, de tudo este tremor de terra, esse mais velho vai repousar, sentar ao teu lado só para te ouvir, sem te interromper e até que os olhos se fechem te vai sussurrar que sempre foste a vida dele..


Sanzalando

24 de outubro de 2025

Manual prático do observador de pôr do sol (para amadores e sonhadores profissionais)

Há quem diga que observar o pôr do sol é uma experiência mística, quase transcendental. Eu digo que é uma atividade de risco: o risco de parecer poético enquanto se luta contra mosquitos e se tenta encontrar ângulo sem postes de eletricidade, sem prédios ou outros artefactos no enquadramento da foto.

Tudo começa com a ideia romântica: “Hoje vou ver o pôr do sol.” É uma frase que soa simples, mas que exige logística militar. Primeiro, é preciso decidir o local. Praia? Miradouro? Varanda do prédio? (Este último só funciona se o vizinho não tiver pendurado lençóis cor-de-rosa a secar).

Chegado o momento, lá está o sol, um profissional disciplinado, descendo no horário combinado e que foi confirmado no Borda D'Água. E nós, um grupo de humanos emocionados, munidos de telemóveis erguidos como oferendas tecnológicas ao astro-rei. Mentalmente solta-se um “Uau!” a cada cinco segundos, como se o sol precisasse de incentivo: “Força, estás quase a pôr-te!”

E há sempre o fotógrafo de um grupo — aquele que insiste em dizer: “Não se mexam, está perfeito!” — segundos antes de perceber que o dedo tapou a lente. Enquanto isso, os casais trocam olhares melosos, os solteiros fingem contemplar o horizonte com profundidade filosófica e as gaivotas passam no momento exato em que o sol toca o mar, apenas para estragar o vídeo com um grito estridente.

Mas o verdadeiro espetáculo começa depois: o instante em que o sol desaparece e todos fingem que não estão desiludidos. Porque, sejamos sinceros, esperávamos mais — talvez uma salva de palmas cósmica, um clarão final, ou pelo menos um aplauso coletivo. Em vez disso, resta o crepúsculo e um friozinho desconfortável. Não há encore.

E, no regresso, inevitavelmente, alguém diz: “Devíamos fazer isto mais vezes.” Mentira piedosa. O próximo pôr do sol será visto do sofá, refletido no écran da televisão durante o noticiário e ao sabor do calorzinho da lareira.

Mas não faz mal. A beleza do pôr do sol não está em vê-lo — está em sabermos que ele acontece todos os dias, quer estejamos lá ou não. E, com sorte, sem mosquitos.



Sanzalando

20 de outubro de 2025

O que me sobra das palavras

Eu queria ser escritor. Desses que dominam o silêncio e o transformam em frases, desses que fazem o papel respirar. Desses que nos levam ao céu ou nos atrapalham na terra.

Mas de todas as vezes que tento, o texto me escapa,  como se as palavras tivessem vergonha de mim. Como se elas entupissem de nevoeiro o meu cérebro

Começo bonito: Era uma vez... Mas já tentei de mil outras formas
E logo depois, nada. Um deserto de ideias, seco e branco como a página, como o deserto da minha adolescência que era dourado mas muito seco de verdes ideais.

Eu olho para ela,  a folha, o écran, tanto faz, e sinto que ela me encara de volta, esperando algo que nunca vai lá chegar.
Mas eu não tenho nada a oferecer além de vontade. E vontade, descobri, não é tinta, não é palavra nem frase.

Já tentei imitar os grandes. Copiei estilos, ritmos, até a pontuação.
Mas o que saía era um eco, um espelho rachado do que não sou.
Porque, talvez, ser escritor não seja saber escrever, seja não conseguir viver sem tentar.

Então continuo.
Escrevo torto, errado, confuso. Escrevo a minha biografia diária, mesmo sem palavras.
Escrevo com medo, com raiva, com esperança, com alegria ou só palavras sem sentido
E quando releio, ainda acho mau. 
Mas há um instante — pequeno, invisível — em que alguma frase parece me entender.
E nesse instante, sou escritor.

Mesmo que ninguém leia.
Mesmo que eu não o saiba ser.



Sanzalando

19 de outubro de 2025

Eu e o Mar

O mar sempre me esperou, mesmo quando eu o esquecia.

Hoje, sentado na areia fria, sinto que ele respira comigo, um sopro salgado que entra e sai, como se estivéssemos ligados por um mesmo pulmão.

As ondas vêm, batem, recuam. E em cada vai e vem, parecem-me ensinar o que é partir sem realmente se ir embora.
O mar não guarda rancor. Engole, devolve, apaga. Enraivece, acalma, sem dar importância. Indiferente.
E eu, que tantas vezes quis ser firme como a rocha, descubro que talvez o segredo seja ser como a água desse mar. Indiferente.

Fico ali até o sol ir embora. Quando a linha do horizonte se deixa de ver, percebo: não há fronteira entre o mar e o céu, entre o eu e o mar.
Só o movimento — eterno, paciente — de quem aprende a ser e a se perder, ao mesmo tempo.


Sanzalando

16 de setembro de 2025

coisas

A gente não tem nem a noção de quando foi a última vez que viu os amigos da mesma rua de quando era criança. Nunca demos aquele "tchau" merecido pra aquele amigo que hoje a gente já não sabe mais chamar para conversar e não vê há anos e se calhar já nem sabe quem ele é se com ele cruzar na rua.
É estranho pensar que o agora contém o silêncio de tantas partidas que não teve direito nem a despedida nem a uma troca de morada.
O convívio de antes parecia leve e um belo dia, nada. Acabou. Esqueceu na penumbra do tempo passado. E depois ficas a saber que ninguém te ensinou a "nadar" no oceano da vida dos adultos. 

Sanzalando

18 de julho de 2025

palavras e parágrafo solto

Me sento só assim por sentar. Caneta na mão, comecei por desenhar. Desgostei. Não tinha forma nem interpretação. Eram riscos apenas. Segurei a caneta e desenhei uma letra, como fazia o meu avô. Gostei embora não fosse igual à dele. Tentei outras. Li-as. Perfeitas, porem não eram caligrafia. Eram apenas letras escritas. Repensei. Escrevi uma frase. Fazia sentido. Dei corpo e fiz um parágrafo. Pareceu-me bem. Guardei o papel. Talvez um dia volte a pegar neste papel e se as palavras se sentirem felizes eu talvez consiga escrever o que me vai na alma. Até lá, este papel vai ficar guardado, só porque sim.


Sanzalando

8 de julho de 2025

divagação

Aprendi a viver com a solidão, a abraçá-la como uma velha amiga, a encontrar consolo no seu silêncio.
Mas depois, assim num vazio apareceste, deixei de lado a solidão e ter-te como companhia. Sequei as lágrimas, afastei saudades, pintei em cores  novos sonhos e assobiei canções que talvez tenha ouvido na adolescência. 
Ouço o mar, ouço vozes que falam na cidade, ouço crianças que cantam, ouço vida. 

Sanzalando

11 de junho de 2025

A Solidão Curvada no ecran do telemóvel

Há dias que deslizo o dedo pela tela como quem procura uma porta de saída.
Mas tudo o que encontro são janelas fechadas com cortinas bonitas — vidas alheias filtradas em sorrisos, conquistas e manhãs perfeitas com café na cama.

Enquanto isso, aqui, deste lado do ecran, a cama está por fazer, o café já arrefeceu, e o silêncio pesa mais do que o barulho do mundo.

As redes sociais prometeram-nos ligação.
Prometeram-nos pontes, abraços digitais, likes como forma de amor moderno.
Mas, às vezes, tudo o que entregam é uma solidão mais nítida, mais aguda — como uma vitrine onde estamos dentro, olhando para fora, esperando que alguém veja de verdade.

Vejo amigos rindo. Lugares distantes. Relacionamentos que florescem.
E começo a duvidar da minha própria alegria, como se a vida só tivesse valor se for compartilhada em formato 9:16, com legenda espirituosa e música de fundo.

Mas a verdade é que ninguém posta a insónia.
Ninguém partilha a lágrima que caiu no meio duma tarde de sol.
Ninguém marca um “amigo” quando sente que está a desaparecer, mesmo rodeado de pessoas.

A tristeza nas redes é uma tristeza muda.
É um grito silencioso entre postes.
É o peso de estar sempre "ligado" e, paradoxalmente, sentir-se cada vez mais distante.

Hoje decido fazer diferente.
Fecho a aplicação. Abro a janela. Respiro.
Procuro-me fora do ecran, nas coisas que não precisam de validação.
No som do vento. No toque de um livro. Na honestidade de um encontro sem filtros.

Porque às vezes, para nos encontrarmos, temos primeiro que nos perder...das redes a que chamam sociais

Sanzalando

23 de abril de 2025

sonhos

Cá vou eu indo de palavra em palavra, de caminho em caminho, pensamento em pensamento, sem destino final. A única coisa que sei, a absoluta certeza que tenho, é que se eu não puder ser eu, retiro-me, saio porque não quero ser outra coisa. Às vezes tenho a sensação de estar a desaparecer de mim e a ter apenas sonhos. O tempo vai encurtando e tenho a dúvida se o terei para que não me fique nada por realizar, se todos os sonhos conseguirei que o deixem de ser.. 


Sanzalando

22 de abril de 2025

fazer saudades

Uma vez ou outra tem alturas que a saudade aperta. Saudade de quê mesmo? Ah, e tal, quando era mais novo eu fazia. Fazia... e porque eu fazia agora que não faço eu tenho saudade. Mas não tenho pena. Eu fazia e se fazia era porque eu fazia por isso. Agora não faço mais. E não faço porquê? Porque eu disse fazia e não digo faço. Faço saudades do tempo em que fazia, mas não tenho pena de ter saudades. Se eu fazia e agora não faço quero dizer que o tempo passou e agora eu me recordo do que fazia. Tem gente que não fazia e não pode nem recordar que não fazia porque simplesmente não fazia e como tal não pode ter saudades do fazer o que não fazia.


Sanzalando

21 de abril de 2025

presente

Embalado na memória dou comigo a ver que a vida é feita de momentos simples que tantas vezes passam desapercebidos. Pequenos gestos, ligações e emoções, uma linha continua que dá sentido à nossa existência. Quando olhamos para o presente como se ele fosse um presente, uma oferta, percebemos que cada instante foi uma escolha, uma oportunidade de estar presente e construir com ele um futuro.
De facto é no presente, neste agora, que moldamos o que somos baseados no que fomos e imaginado no que seremos.
É assim, embalado na memória, vivendo plenamente, que aceito a simplicidade do suficiente.


Sanzalando