recomeça o futuro sem esquecer o passado
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31 de outubro de 2011

baralho de memória

Passeio no jardim, sob as bungavílias que fazem um carramachão que me protegem do sol e vou reflectindo no deus dará de ideias e sonhos.
Quem é feliz não conta, não espalha aos quatros cantos dum círculo de vida. Quem é feliz simplesmente se satisfaz em ser. Talvez por saber que felicidade anda colada em inveja. 
Quem é feliz não precisa provar a ninguém esse estado de alma, é-o. 
As pessoas felizes de mais, exuberantemente felizes, não me passaram nunca confiança, não me ligaram, porque talvez saibam que essa coisa de que a vida é uma festa e não existe erro na vida não é estado de alma que me sirva ou me brilhe nos olhos. 
Feliz é quem conhece o lado ruim e lhe respeita, é quem já foi infeliz pelo menos uma vez e não faz disso um alarido ensurdecedor.
Passeio no carramachão e sou feliz no passeio em que reflicto sobre ideias, sonhos, memórias e imagens que a memória me fez o favor de guardar.
O Zé, o Henrique, o Douglas, o Mané e tantos outros que de calções futebolávamos num campo de futebol feito na descida que ainda hoje não sei porquê ali jogávamos quando se andássemos 100 metros iamos ter um plano duma estrada também em que os carros iam ser poucos a nos incomodar.
A Maria, Irene, Isabel que passavam na rua como que a querer que a gente lhes olhasse, mas não havia nada que nos desviasse daquele jogo que era importante porque era simplesmente aquele jogo.
Sob o carramachão sorrio ideias e páro a olhar o Quiosque do Faustino a tentar saber como cheguei até aqui sem dar por nada.





Sanzalando

28 de outubro de 2011

envelheci

Envelheci. O tempo gasta e desgasta. É melhor começar outra vez.
Cresci. O tempo ensina muita coisa e desgasta outras. Agora sei que o saber não é como o dinheiro que se mantém fisicamente intacto mesmo depois dos mias infames intercâmbios. O saber é assim mais como uma roupa de corte fino e elegante em que o uso e a ostentação lhe vão gastando. Não é assim com os livros? As páginas amarelecem, descolam-se e desfazem-se, e aos poucos os olhos vão achando que as letras estão a se encolher num parece têm medo de serem lidas e o braço encurta-se para o levar para longe.
Cresci e amareleci os meus conhecimentos numas folhas de memórias de sítios que eu hoje lhes ia ver com outros olhos, outros veres. Há páginas coladas pela humidade que não são separadas pelo indicador num folhear simples. Nem a saliva posta na extremidade do dedo ajuda as folhas a se separarem. Se se abrissem ia ver saberes que se calhar eu queria esquecer, delicados desgostos rabiscados no pergaminho do coração com lágrimas contidas numa doença de amor ou outras estórias que me levariam a tremores e dissabores que os cinzentos cabelos não iam se aguentar na sua fragilidade e morreriam num chão perdidos para sempre.
Cresci e o saber, entorpecido pelo mimo, me continua a ler-se nas paginas amarelas da memória em estórias reais que mesmo que não tenham acontecido são verdadeiras..




Sanzalando

26 de outubro de 2011

na praia

Atirei o meu corpo para areia quente da praia. Os meus olhos não conseguem nem ver. Estão turvos de tantos pensamentos que rebolam na minha cabeça parece é cascata, uns atrás dos outros que até parece estão a fazer corrida para ver quem é pensado primeiro. Não precisava ser assim. Não era necessário que o amor doesse tanto como dói. 
Não era bem mais simples eu sorrir quando me lembrasse de ti? Imaginar o teu sorriso, o calor do teu abraço, o teu perfume natural e logo me abria um sorriso na cara que quem olha ia dizer ele está feliz.
Mas não. Tinha de doer, porque nunca poderei lembrar aquilo que não tive. E do mais feliz da terra passei num instante mais rápido que o tempo a despedaçar-me em tristeza. 
Eu sei que se ele não doesse a gente não lhe ia dar nem um bocado de valor, se calhar nem lhe ia sentir. Mas também não havia necessidade de me despedaçar assim. Tanto amor que eu tenho de deitar fora porque tu não lhe queres.
Ok. Vou dar um mergulho e me arrefecer os olhos numas braçadas até na jangada onde chegarei já quase sem folgo e não terei tempo de te pensar, mas apenas de tentar respirar.






Sanzalando

24 de outubro de 2011

o amor da minha vida

Me sentei na falésia, mesmo perto da Fortaleza, pés firmes numa pedra. 
Atirei os pensamentos para a baía e me deixei voar atrás deles como se quisesse ver-me por fora, lágrimas escorrendo na cara. Tinha machucado o coração. Meu coração adolescente tinha levado a sua centésima porrada de amor. Uma vez mais eu era ignorado e ali na falésia eu podia chorar que da marginal ninguém me ia ver. 
Me levantei e me dei comigo a dizer que ninguém escapa a um mal de amor. Me dei força e prometi nunca mais amar sem limites, me entregar de alma e coração. Meu amor passaria a ser só na superficialidade da pele. Me prometi com a convicção que eu sabia que ia cumprir, pelo moenos nos próximos minutos, enquanto me lembrasse deste terrível desgosto que me estava a afogar um coração adolescente.
Te digo que tinha feito muitos sonhos da gente juntinho numa varanda de cadeiras de baloiços a contar nos netos a aventuras que a gente ainda ia viver.
Me antecipei e não me vi num outro desgastante desgosto.
Depois de levantado, olhei a estradinha que passa lá em baixo, recta grande que é em curva, imaginei tantos lugares, alguns que até não tinha nunca ouvido falar porque não tinha ido na aula de geografia, se calhar. Acho até sonhei que ia escrever o nosso livro, um romance de amor daqueles que ferve só de olhar a capa. Mas, dizia, olhada a estradinha decidi que não ia mais sair daquela cidadezinha, não ia mais sofrer de amor e o meu mundo não ia mais para além do meu olhar.
E foi assim que nunca mais esqueci o amor da minha vida.





Sanzalando

21 de outubro de 2011

desbarato-me misticamente

Dou por mim a olhar as pessoas como se soubesse alguma coisa delas que nem elas mesmo sabiam. Assim como que lhes trespassava até à alma com o olhar de ver coisas que os olhos comuns nem conseguem fazer imaginar. E eu lhes via no interior bichos, sujos, peganhentos, coisas de outras vidas noutros planetas, fantasias minhas, dizia-me. Acho lhes conseguia ver a outra encadernação e não aquela que me mostravam. As cores não eras as reais de ver com olhar comum, não via ali brancos ou negros, apenas cores garridas de berrantes, riscadas de listas assimetricas num confuso circo de que apenas sobrava a tenda esfarrapada dum temporal doutro século mais antigo que a minha memória não tinha ainda registo.
O que elas não sabiam de si era-me assustador. Era terrível o dilema de lhes dizer ou não. Alguns corpos estavam enterrados fazia mais que muito tempo e eles próprios não sabiam. Ninguém me perdoaria se eu dissesse, desculpe, você não está aqui porque está sepultado há mais de um século. Ninguém me desculparia se soubesse que eu sei o que eles são e o que eram.
Dou por mim a olhar-me na escadaria da loucura, no afogamento da nostalgia e no enforcamento da memória.
Pé ante pé me afasto de mim. Desisto de olhar, apenas revejo as memórias, apontamentos soltos numa sebenta vermelha em que o U desenhado da capa mais não era que o U dum universo que eu não sei se existe, mas que me recordo, isso eu sei. Ultrapassado tempo do tempo não medido num relógio mecânico.




Sanzalando

12 de outubro de 2011

um dia faz muito tempo


Me sentei num passeio duma rua que vai demorar horas até que passe um carro. Nem quero saber se vai passar ou não. Eu quero mesmo ficar aqui e reler os meus pensamentos e ver a dor que eu sentia quando esperava que tu me dissesses um olá só assim, e tu nem um olhar mandavas na minha direcção. Nem daqueles olhar de não se ver. Nada. Eu acho fazias só mesmo para me destruir, me machucar o coração como se ele entrasse nas máquinas novas que substituíram o passevite. 
Por isso escolhi esta rua onde quase não tem carro que passe aqui, pois assim sei que não vens num carro da minha imaginação me atropelar num esmagamento de longa distância do tempo. Julgas que estou a mentir? Que nada, tu me atropelas até nos sonhos que eu sonho, quer esteja acordado quer esteja a dormir. Não é mentira. Tu sabes!
Olha, agora abri a página dos meus pensamentos onde escrevi a primeira vez eu te amo. Sabes quem tem o nome antes? Não te vou nem dizer. Mesmo que dissesse tu nunca ias saber pois nem consegues saber que eu existo.
Ora bem, agora estou a te olhar na varanda duma tarde de pôr de sol que até parece é fogo que arde no meu coração. Se eu soubesse que havia Mona Lisa nesse tempo eu ia dizer tu me sorriste. Mas acho é mesmo só invenção da minha alma que me quer ver sorrir.
E eu sorri porque mudei de página e vi olhares de gente boa a me dizer adeus de lágrima na cara quando eu tentei te ir ver para sempre.
Um dia, tu vais ver. Te surpreendo definitivamente e levarei na memória os chupas que comprava nos Santanas, as compras na cooperativa, os passeios de aventura até nas furnas que eu tinha medo que ficavam longe e acho não são mais longe agora.
Vais ver, vou levar a minha mãe a me passear num fim de tarde como nas tardes que eu lhe fugia para não estar sentado no carramachão da avenida. Um dia vai ter dia outra vez.


Depois eu termino de escrever… se as ideias voltarem



Sanzalando

7 de outubro de 2011

relembrando o carro de rolamentos e outras coisas

Afinal de contas eu ainda sorrio quando me lembro de ti, das nossas brincadeiras que gastavam calções, sapatos e passeios. Das nossas corridas de carros de rolamentos nuns fins de tarde intermináveis para a velha Maria e sua filha D. Idalina, que eu lhes conheci já no peso da muita idade. Nesse tempo eu acho era o garoto mais idiota deste mundo e alguns arredores porque tudo fazia para arrancar sorrisos e dores de cabeça sem hora marcada nem ordem versa ou inversa. O mais santo e quase o mais traquina num ar angélico de pau carunchoso. Mas mesmo assim não me consigo lembrar de alguma vez me ter ficado mal com as velhas senhoras que nem descansar podiam. Mentira. Me lembro sim mas faz de conta eu quero esquecer e desconsigo ainda hoje. Bater na porta e fugir. Não tinha campainha era mesmo ferro parecia era martelo. Batia com força parecia ia haver fogo. E D. Maria, carregada no peso da idade, se arrastava para abrir e já eu estava escondido atrás do muro do quintalão a rir parecia tinha visto comédia. Ela gritava que isso não se faz em direcção a lado nenhum. Eu ria só atrás do murro como se tivesse feito a coisa mais engraçada do mundo.
Como que lhe devia doer ver os garotos lhe gozar assim, mas o peso da idade não lhe deixava vir a correr e dar um bom par de lambadas que naquela altura eram permitidas. 
Mas nunca ela, nem o Raul Gomes que além das moriangas que acho se chamam agora moreias, se zangaram porque o passeio ficava polido com o passar dos múltiplos carros de rolamentos.
Ainda dói lembrar que era o garoto esquecido e nunca o príncipe engatado, de orelhas de abano e esqueleticamente em pé que calcorreava a cidade para ver a paixão escondida num canto secreto do coração.


Sanzalando

4 de outubro de 2011

faz hoje sete anos num parece foi ontem

Lentamente que nem lesma o tempo passa. Vagaroso parece até está cansado ainda antes de começar a contar na relatividade rápida duma vida que parece é um segundo olhada desde aqui, futuro de ontem.
Cinco anos tá quase a contar. 
Ainda me lembro parece foi hoje. Lembro mesmo o meu olhar a te ver, a minha cara de criança regressar num apagar das rugas que o tempo lento me marcou na cara num ar de tristeza. Acho estou a delirar se eu te disser que quando te olhei eu disse te amo num silêncio de doer na alma e a lágrima teimadamente escorrer na cara como se fosse a minha voz. Ainda hoje me lembro dos sorrisos abertos que me esperaram pacientemente, até eu parecia era uma very importante pessoa e me levarem a percorrer um mundo que acho era o sonho realizado num filme a cores e em todas as dimensões. Ainda hoje te tenso como nesse dia e nos antes desse. Me rotularam, etiquetaram e eu nas tintas com a minha lágrima escorrendo na cara parece é carimbo de marca registada.
Ainda hoje eu me lembro que foi só há sete anos e que para sempre ficaste mais marcada na minha alma parece é tatuagem ou feitiço.
Ainda hoje estou à espera de saber o que é que tu pensaste desse dia. Mas isso não me importa para além da importância da curiosidade. Importa é saber que estes sete anos foram ontem ao fim da tarde


Sanzalando

19 de maio de 2011

minha velha cadeira

Me deixo estar sentado na minha velha cadeira onde fotografo as memórias que vou recordando. O marulhar quase me adormece e me entrego letargicamente ao voar sobre pensamentos e verdades que eu acredito serem verdadeiras mesmo que não tenham acontecido, me deixo ser mais puro sendo tal e qual sou, sem necessidade de maquilhar ideias ou preconceitos. Me deixo sonhar de lábios cerrados em silêncios mentais filmes que vivi num ecran de pensamentos.
Sentado na minha velha cadeira sei que os amigos permanecerão para além da vida e que o chão que piso não é aquele que me irá levar ao estado de pó. Pelo menos é assim que eu sentado na minha empoada cadeira imagino o amanhã e vejo as imagens de ontem.
Não é a velha cadeira que herdei do meu avô e que era feita de velho barril de vinho naufragado numa loja qualquer. É mesmo a cadeira da memória que povoa desde a minha nascença até ao hoje que poderá ser um dia qualquer, como qualquer é a maquina que fixa a minha verdade memorial.
Um dia, quando a velha cadeira já não me aguentar, eu imaginarei que ela partiu para um lugar melhor com todas as imagens que eu lhe imaginei em cima.
A minha velha cadeira que nunca te conheceu, mas tanto sabe de ti, que acho que se a deixo por aqui ela te falará de tantas coisas que nem eu.


Sanzalando

15 de maio de 2011

espreguiçado

Espreguiçado na areia que ainda não é escaldante sonho com o cacimbo que devia cobrir-me como um lençol, mas eu me mudei e agora estou num calor que ainda não é tempo dele. Mas afinal de contas eu não sou um ser de silêncios que é compreendido por mim e pelo meu eu? Portanto tenho cacimbo, tenho sol quente, chuva, vento e frio quando me apetece. Basta só meter-me no meu silêncio e ir buscar na memória um estado de alma.
Mas estava eu a te dizer que me espreguiço na areia, me enredo na memória dos sonhos que decorei e me lembro que até os falsos sabem abraçar e sorrir e a gente não lhes consegue distinguir, portanto para quê vou mais esconder as minhas saudades?
Espreguiçado na areia te penso com a força que te pensava anos lá para antigamente.
Espreguiçado me deito numa memória...

Sanzalando

28 de abril de 2011

sonharei

Me deixo entrelaçar nos pensamentos enquanto respiro o ar que vem desde o outro lado do zulmarinho. Digo eu porque sopra vento sul.
Entrelaço recentes com antigos e somo algumas imagens imaginadas num inventar de como poderá uma ruga ter modificado aquele rosto que outrora foi o meu rosto de paixão, como aquele porte altivo virou um silêncio mudo de não ter que dizer, aquele esboço de sorriso que se estampava em permanência no seu rosto deu lugar um esfinge séria. Muito mal eu devo ter feito nesta ou numa outra encadernação passada ou futura.
Entrelaço imagens, procuro frases, cadernos... não consigo imaginar como é que o biquini azul deve estar desbotado no queimar de tantos sois passados.
Destrelaço-me num sofá, ouço o mar e me embalo num velejar de sono tranquilo na esperança que através dum sonho eu consiga ver-te num agora presentemente.

Sanzalando

3 de maio de 2009

Capítulo Primeiro (13 e último)

Antes de beijar e abraçar todos aqueles sorrisos que me esperavam, de cumprir as formalidades que imaginava me esperavam, eu me fiz um resumo. Antes de deixar o chão do grande avião que me tinha levado, imediatamente após o abrir das portas, eu fiz um recuo no tempo e num flash de memória vi que a nossa estória de amor se tinha escrito, como todas, em tintas de tristeza e rabiscos de alegrias, num amor verdadeiro, o meu, e nada mais. Ali, pronto a reenfrentar-me, nada mais me interessava, nem frases bonitas nem palavras não ditas. Aliás, todas as frases pareciam-me já terem sido ditas, pelo menos pensadas e todas me pareciam iguais. Aqui chegado dei conta que a vida corre depressa e eu me tinha esquecido de vivê-la, procurando complicações em remorsos, fantasias imagináveis duma estória de amor criada em premissas que só tinham um lado.
Afinal de contas, foi uma estória de amor que terminou, como todas, diluída no tempo, ferida de substância e marcada pela renúncia de alguma coisa que se calhar valia mais que esse amor adolescente que imaginei.


Sanzalando

2 de maio de 2009

Capítulo Primeiro (12)

Eu já voltava a parecer que me tinha encontrado depois de uns tempo de não saber de mim. O cabelo que estava branco se acinzentou, as rugas da cara se suavizaram num marcar de tempo acariciador e os olhos voltaram a ter brilho no olhar. Regredi na idade, recuperei a juventude, porque me sentia uma criança que tinha recebido uma sua prenda.

Um dia num avião, sentado enquanto fazia filmes de memória e imaginação, criava estados de espírito, calcorreando madrugadas passadas das noites não dormidas que fizeram com que eu lhe sentisse cada vez mais perto, mesmo lá em cima, não sei quantos pés de altitude.

De lágrimas escorrendo pela cara eu a abracei como se ela fosse uma coisa abraçável mal abriram a porta do avião. Parei na porta. Olhos fechados e inspirei tão fundo quanto podia. Acho recebi aquele ar pelos tantos anos sem lhe sentir.

Doía o peito e eu estava na minha terra. Caiu uma lágrima embirrenta.

Abri os olhos e olhei para o lado, instintivamente, mas não eras tu que estava ali segurando o meu braço, prevenindo qualquer acidente de percurso e soluçando por solidariedade. Tinhas-te esquecido de mim e eu já fazia tempo não me lembrava de ti. Mas ali, naquele instante, vieste-me à memória como que eu estivesse a me vingar. Eras mesmo passado… e eu não estava ali a sonhar, era mesmo realidade. Por ti tinha-lhe abandonado e sem ti estava regressado.

Sanzalando

1 de maio de 2009

Capítulo primeiro (11)

Enfim, por acasos da vida dei a volta à mesma e continuei na constante mudança em busca da alegria que tinha perdido já quase sem me lembrar que fora por amor adolescente.

Mudei de casa, mudei de rua, mudei de cidade. Não consegui mudar o que sentia. Não por ti, por ela. Mas continuei porque eu sabia que a vida não se ia esquecer de mim. Podia tentar mas ia ter que lutar muito para conseguir levar a sua avante. Talvez tenha aprendido contigo a ser teimoso, insistente e querer com força de quem quer mesmo. Por isso escrevi cartas em papel pardo, cartas que escrevi para mim e que metia em garrafas de cerveja, que bebia num afogar de mágoas, e as atirava ao mar com a convicta esperança que um dia, pelo menos uma delas, chegassem no meu lugar para o lugar dos meus sonhos. Uma ou outra chegou, porque um ou outro sorriso recebi em troca. As kiandas estavam a me acompanhar, os deuses delas me protegiam, por isso eu aguentava as horas lentas de todos os dias mesmo quando sentia que faltava que o meu tempo fosse compartilhado com ela, porque eram apenas contactos pontuais, intermitentes os que íamos tendo. Mas isso fez com que eu já conseguisse esboçar um sorriso sincero, já conseguia ver para além do dentro de mim. Aos poucos foi crescendo uma corrente de energia e sinergias e eu já começava a sentir o que era ser metade feliz. 

Sanzalando

30 de abril de 2009

Capitulo Primeiro (10)

Amadureci. Cresci, sem saber bem em que é que isso possa ter sido importante quando afinal de contas eu sempre me senti um suplente, um transitório passageiro deste canto. Eu nunca me tinha sentido o actor principal da minha vida. Aos poucos fui-me transformando noutro, cicatrizando feridas, algumas de tal modo imperceptíveis que tenho apenas uma vaga ideia, outras ficaram bem feias que até arrepia quando lhes olho a razão. E foram-se passando sucessivas férias de verão e os seus amores foram com elas e em mim mais amadurecia o sentimento de despedida, a provisoriedade. Mais doía a ausência do meu chão sob os meus pés. Inexplicável. Enlouqueci, pensei eu. Às tantas eu já dava por mim a desejar desejar-te outra vez. Tantas e tantas vezes gaguejei ao tentar dizer o que é que sentia. As palavras não tinham sentimento nem iam embrulhadas nas lágrimas que eu para dentro chorava cada vez que tentava dizer o meu estado de alma. A terra me chamava, dizia eu carregado de medo da chacota que constantemente recebia. Eu acho eram momentos de nostálgica adolescência saltada.

Não consegui ter um momento apenas para mim, mesmo não deixando de correr a vida. Não a vivia, sobrevivia-a.


Sanzalando

29 de abril de 2009

Capitulo primeiro (9)

De maneira inconsciente e de alguma forma imprecisa, comecei a sentir a tua presença em todos os meus lados. Onde quer que fosse eu senti-te ali a censurar-me ou pelo menos a inibir-me. O inferno se me ardia na consciência e qualquer sítio me fazia recordar de ti e como o mundo é pequeno, todos os lugares que eu inventava julgando poder fugir-te da minha imaginação eu te sentia, pelo que estávamos juntos mesmo quando eu não te queria por perto. Um inferno que, num ritual de sofrimento diário, se foi esfumando, transformando-se num ritual de geografia em que, em vez de ti, eu ia encontrando semelhanças com os meus lugares de criança. Se eu antes queria saber o que lias, passei a querer saber como era a vida lá. Se eu queria sentir o teu perfume, passei a sonhar com o perfume da terra molhada. Tudo mudança lenta, como que um carro de bois carregado de toros de madeira numa íngreme subida me passasse por cima, rangia em cada salto do meu pensamento, baralhava-me o sangue com a carne numa mistura de dor e paixão. Só te digo que a minha cabeça era como um tornado permanente, turbina duma qualquer barragem hidroeléctrica.

Se eu antes pensava estar contigo, a dada altura eu só queria estar nela. Em cada instante eu imaginava a minha despedida desta consciência sobressaltada para a serenidade do estar nela. Em cada instante eu sonhava um aeroporto, dezenas de amigos de lenço no ar a me desejar um regresso às origens como eu tanto imaginava.

E a vida ia correndo à velocidade certa de 24 horas por dia.


Sanzalando

28 de abril de 2009

Capitulo primeiro (8)

Que se lixe se eu larguei tudo para calcorrear as ruas de Lisboa para te encontrar num dia qualquer de Inverno, sabendo que com esse gesto eu estava a rasgar folhas da minha vida.

Mas que importância tiveste na minha vida?

Nenhuma. Porque esse tudo foi um nada, coisa nenhuma.

Perdoa-me por tudo o que tenho estado a dizer-te mas a verdade é que neste reencontro comigo eu voltei a encontrar-te nas  página amarelecidas da minha memória e já não sei qual o formato do teu rosto, a largura das tuas ancas, o brilho dos teus olhos. Já nem me lembro a dimensão do teu sorriso. Ris? Não me consigo lembrar. Não sei se é por esquecimento meu ou se é mesmo porque trinta anos é muito tempo.

Eu acabei de segui o meu rumo e olhando para o lado tu não estavas ali e as tuas palavras mais recentes, que eu me lembre, foram há uns trinta anos lá para trás:

- Diga? Não o conheço!

Seca, amarga e arrogantemente me falaste quando depois duns pares de anos sem te ver perguntei pela família num encontro casual e tantas vezes clandestinamente por mim desejado..

O convite que me tinhas feito para esperar uns anos e que eu por alguns dias me esqueci porque era jovem, irrequieto no olhar e pouco egoísta no amar, acho foi a razão de teres batido com a porta da amizade duns tantos muitos anos. O meu coração estremeceu e parecia que tinha apenas lugar para a dor.


Sanzalando

27 de abril de 2009

Capitulo primeiro (7)

Pouco me importa se passei horas à varanda para ver se te via, se ia à praia só para poder estar mais perto de ti, estando-me nas tintas se a água estava fria ou o mar estava carregado de pica-pica, se os amigos estavam a jogar à bola e ela para mim fosse um instrumento de atrapalhação, se as mapundeiras tinham dado à costa ou não, desde que eu te pudesse ver no teu biquini azul debaixo do toldo cor de laranja mais ou menos frente ao ecran de cimento armado.

Pouco me importa o que é que possas pensar dos momentos, poucos, em que ia ao cinema e tinha o imerecido prémio de me sentar a teu lado porque a tua mãe não podia ir por causa dumas quaisquer dor de cabeça. Quero lá saber o que é que pensavas quando passeavas no diário passeio dos tristes, às 18 horas de todas as tardes, e me vias aqui e pouco depois ali, não sabendo que eu tinha que dar uma corrida de tantos à hora para poder estar em dois lugares quase ao mesmo tempo, escondendo o cigarro que se me colava nos dedos e que eu pensava que me  transformava num adulto precoce.

Que interesse tem que eu tenha passado a ser um aplicado aluno a partir do momento que tu me passaste a dizer olá? Quem é que vai dar importância ao orelhudo magríssimo e cabeludo que tudo o que fazia tinha em vista te agradar. Bem, quase tudo. Nunca consegui aprender a jogar ténis. Mas aprendi a fazer vela. Mal, eu sei. Desde que eu pudesse estar no vourrien... mesmo quando a retranca teimava acertar-me na nuca de modo a que eu visse estrelas em plena manhã.

Mas que importa isso? 


Sanzalando

25 de abril de 2009

Capítulo Primeiro (6)

E passo a avisar-te que tu não vais fazer parte desse futuro. Nem que fosses capa de revista, nem que pintasses de cores berrantes a minha alegria, nem que apagasses os traços de solidão da minha existência. Eu decidi assim e hoje declaro que a autodeterminação me chegou na razão de ser lunático as vezes que me apetecer, de viver num apartamento sem memórias, adornado de risos e gargalhadas à toa, beijos e carícias condimentadas na vulgaridade de ser vulgar.

É, hoje declaro que sou livre de ir onde me apetecer e voltar sempre que quiser, repousar em afectos de palavras ditas ou sussurradas sem ter de pensar que algum dia tu foste o meu capricho.

É, hoje declaro que a minha História vai ser reescrita como bem me apetecer e tu serás mero figurante num capítulo, numa frase. Sei lá, quando a reescrever logo ficarei a saber qual o papel que te atribuo. Enfim, uma palavra hoje, um passado amanhã.



Sanzalando

24 de abril de 2009

Capítulo Primeiro (5)

Mas para teu governo ficas já a saber, se eu nascesse hoje, eu queria que tudo fosse quase igual ao que foi. Quase… escusas de estar para aí a pensar que eu me estou a vergar assim numa de desculpa qualquer coisa e olha lá para mim. Não. Eu sei que tu és parte ainda não arrumada da minha vida. Mas também não se pode ser perfeito e ter todos os cantos bem vincados como quem acabou de passar umas calças a ferro. O mais importante é que deixaste, faz muito tempo, de ser parte diária de mim, mesmo que eu de vez em quando me perca a pensar em ti como se fosses um parêntesis da minha ordenada e perfeita vida. Gargalhei porque repensei no seres ainda parte não arrumada… és um passado assim mais ou menos atirado a um canto que eu de vez em quando rebusco, assim numa foto vestida em vestido de jornal quando tinhas os teus 10 anos ou coisa que me valha, num passeio de fim de tarde como um passeio dos tristes na rota dum carro feito comboio que não sai do carril. Já sei, estou isto e mais aquilo, que vai desde a dor de cotovelo até ao ciúme… pensas tu. Não, se calhar estou a revisitar a minha casa sem móveis, de parede descorada e janelas sem tempo a que se chama de passado para poder ter futuro que começa amanhã.


Sanzalando