Encostando-me por caminhos de sol e sal, pachorrentamente me deito na areia de muitas cores de uma praia deserta e navego por sonhos e ideias, memórias e raízes. Todos temos uma estória, uma qualquer coisa que nos marcou e nos fez únicos. Temos algo que nos fez especiais. Todos temos um eu dentro de nós.
Rádio Portimão
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Conversas à Mesa
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25 de agosto de 2022
26 de março de 2022
imperdíveis
Hoje a caneta não queria ser usada. Olhava para ela e nada. Nem um suave e quase imperceptível movimento. Ela hoje estava a fazer-se cara.
Olhei-a como quem olha com olhos de ternura e disse-lhe.
- tenho uma ideia e quero trabalhá-la
- tenho um sonho e quero concretizá-lo
- tenho uma meta e quero atingi-la
- não tenho tempo e não posso perdê-lo
a caneta mexeu-se, rabiscou-se para fazer sair a tinta seca da ponta, e correu para a minha mão e desenhámos letras com a caligrafia mais bonita que alguma vez tive.
Guardei as folhas de papel em porto seguro para nunca mais me esquecer que os sonhos, ideias, metas e tempos não são perdíveis.
22 de março de 2022
céu cósmico
Acho vou alinhar a minha linha cósmica que parece uma desilusão.
No céu de Março, em início da primavera, não vejo uma única estrela, nenhuma constelação conhecida se apresenta alinhada aos meus olhos e no meu coração palpita a luz ténue duma flor triste que resiste à força da chuva. Num canto do céu, onde não há nenhuma nuvem a cobri-lo, nem uma luz apagada de lua se observa. Acho que é um sinal dos céus para os tempos que correm.
De equívoco em equivoco deixo desadequadamente um suspiro, um desejo de reencontro, um quase nada de mim. Secreto silêncio se ouve no ar. Nem um som musical nem um qualquer outro ruído. Sinal dos tempos duma linha desalinhada no meu cósmico existir.
Falta-me um mar de estrelas
21 de março de 2022
sou o presente
Para já não quero esquecer o passado, quero viver o presente e ainda sonhar com o que resta de futuro. Vou ter tempo para deixar de ter passado, presente e inexistente futuro. Vou virar memória, mas quanto mais tarde melhor, para mim.
Na boa da verdade eu sou mais que o somatório dos meus passados, porque sou ele e mais o que aprendi com ele. Nesse de passado tem trauma? Eu lhe aprendi qualquer coisa. Esse de passado é gargalhada? Eu captei uma mensagem. Dificilmente eu deixei escapar uma aprendizagem, porque não dispenso o que há de mim em qualquer sítio.
Tenho medo dos traumas futuro? Claro que sim. Eu vou tê-los, mesmo que sejam parecidos aos passados ou nada tenham a ver com eles. Eu sou o presente.
20 de março de 2022
sou o poeta
Tantas vezes dou comigo a ser o poeta da minha vida. Descrevo-a florida, perfumada e arejada e tantas vezes estou seco, poerento e queimado. Ser poeta é ver com olhos de sentir e descrever. Por mais positivista que seja, também tenho momentos negativos, porém não os alimento. Não pinto com palavras garridas a tristeza, a doentia saudade nem o negro pessimismo. Contorno-os com palavras vulgares, desvalorizo acentos e pontuações, caligrafo-os com lápis de rascunho, rabisco com gatafunhos.
Sou o poeta da minha vida.
18 de março de 2022
depois
Depois de tantas outras coisas perdidas, depois de tanto tempo gasto, despois de tantos dissabores, depois de tudo, eu sou o que resta de mim. Poderei fazer mais o quê?
17 de março de 2022
eu e eu
Tantas e tão inúmeras vezes dou comigo a conversar-me. Como é bom ter a minha companhia, sentir-me vivo e ver a vida com os meus olhos, sentir uma paz interior no coração e cabeça tranquila. Sou mesmo feliz por me ter. Quem melhor me conhece que eu mesmo? A sorte que tenho. Faço-me feliz e disfruto de todos os momentos em que estou comigo. Se me pergunto respondo ou me calo, conforme me apetecer e sem ter de me justificar. Vou ou fico? Depende de mim, sem mais nem menos. E não quero mudar a minha realidade
15 de março de 2022
reconstrucção
Há alturas em que nos temos de desconstruir para reconstruir. Crescemos em constante construção. Num dado ponto damos uso ao edifício construído. Depois, assim numa dado momento não definido, começa a desconstrução, começa a diminuição das capacidades físicas. Paramos, olhamos e reconstruímos segundo as nossas capacidades actuais. Um dia sempre novo.
Às vezes queremos ser tanto e acabamos uns desconhecidos.
14 de março de 2022
pensamento
Todas as vezes que dou comigo a pensar sinto que falta qualquer coisa. Lembrei-me do Prof. Pardal dos livros do Patinhas de quando eu era criança, ele tinha um chapéu com cucos, acho eu. Será que eu preciso de um chapeu, boina ou coisa do género? Não tenho ar de quem pensa muito e se calhar é isso. falta-me ar. Pensamentos não. Confiança também não. Certezas, se calhar faltam-me as absolutas. Será que eu estou pronto para pensar, assim um pensar sem tantos filtros, sem ruídos, sem interferências? Será que estou capacitado para pensar sem condenar, nem que me seja ao fracasso? Será que se eu pensar vou prejudicar ou beneficiar? Isto é ruído, interferência na minha capacidade lógica de pensar sem julgar.
Afinal de contas parece que pensar é mais complicado do que parece. Não basta o fluxo da mente. É necessário ter cabeça própria.
12 de março de 2022
se mudei
Dou comigo a pensar se alguma vez eu estranhei o meu eu. Aquela pessoa que eu era antes de saber o que era a angústia, a solidão, o medo e a ansiedade? Aquele outro que não imaginava um dia ia ser adulto, viver vida de adulto e ter que ter comportamento de adulto? Já passou tanto tempo desde a primeira desilusão de amor, desde a mudança de vida que já nem sei bem se alguma vez fui diferente do ser que sou hoje. Se mudei só pode ter sido para melhor.
11 de março de 2022
o real
Quero aprender a conhecer-me, a conhecer-te, a conhecer-vos. Olhar para a frente e identificar. Pouco importa se é bom ou menos bom. Saber, conhecer, ter uma ideia mais real do que realmente me rodeia. Há tanto para ver e aprender que acho que o tempo decorrido foi pouco e preciso de muito mais mais, mesmo sabendo que o futuro é-me um bem um pouco a dar para o rareado.
Todas as tempestades causam dano mas ao mesmo tempo limpam. Peso e medidas. Ideias e conceitos. Mescla e sabores e saberes. Há tanto que não sei de mim. Há tanto que desconheço do que me rodeia. A realidade não é só aquela que consigo ver. Há muito para além do pouco que vemos.
Só porque não está a acontecer agora não quer dizer que não aconteça. O real está. Existe. Não é imaginação.
Onde está o meu real?
10 de março de 2022
por mim
Vou tratando de mim, por mim. Todos os dias quero reconstruir-me porque todos os dias me desgasto. Antes desgastar que desgostar-me.
Até aos vinte anos, vinte e picos, construí-me. Desses aos cinquenta, vivi-me. Despois disso vou-me descontruindo.
Por isso preciso tratar de mim, por mim. Tenho a certeza que me acompanharei até os meus últimos respirares.
8 de março de 2022
se sou assim que mais posso fazer
É certo e sabido que não somos infalíveis. Há quem pense que o é, mas não me encontro nessa categoria. Sou um simples humano, às vezes a dar para humanoide, principalmente quando ponho uma ideia na cabeça e faço dela os meus moinhos quixotescos. Na minha humildade, principio da minha qualidade de honestidade mental, dou comigo a dizer-me que não posso tudo, que não sou inquebrável e que na minha fragilidade tenho momentos em que me apetecer bater asas e voar para longe do lugar. Se ainda cá estou é porque sei que sou de utilidade, mesmo que esta possa ser quase nula e lá está o intervalo entre o quase e o nula.
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