recomeça o futuro sem esquecer o passado
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27 de janeiro de 2008

Recorrendo a um ontem

Falado em 12-09-2004


Até que o Sol teima em continuar a dizer que inda não terminou a sua época. Como assim está, aproveito estas madrugadas de manhã alta para pôr o meu sol no lugar que ele deve ter. Arrumar ideias e pensar em pensamentos novos. Cada dia é um dia.

Olhando o zulmarinho que parece a calmaria a chamar os seus amantes para umas carícias molhadas: Corpos despidos de roupa e preconceitos massajados pela suavidade do seu sal; relaxados nos pressupostos de recalcamento de anos sangrantes e ideias bizarras; cabelos dispersos pela ondulação na anarquia lógica dum emaranhado de sonhos.

Vejo daqui de cima que este zulmarinho é o fim de um início que promete acabar com choros, com os complexos de fatalidade de anos escravizados de pesadelos, cobardias e desfaçatezas.

Bebo pelo zulmarinho da esperança esquecendo que antes do parto há as contracções dolorosas que por vezes leva a gritar que DESISTO.



Sanzalando

20 de janeiro de 2008

recorrendo a um ontem

falado em 11-09-2004



Bebo sim. Que mal tem beber se é para ter a garganta assim como que oleada. Te falo melhor e só te conto as verdades, mesmo que elas não tenham existido.

Conterra, senta aqui e me ouve com ouvidos de ouvir e olhos nos olhos para eu ver que estás a ouvir.

Mermã, o zulmarinho está a entrar no tom mais escuro de Outono. Eu sei que aí, onde ele começa, tá a ficar clarinho, verdadeiro zulmarinho que até parece continua com o céu. Mas aqui no fim dele está a ficar mais escuro, parece ele está a dizer é tarde. Fica assim mais sem graça.

Mas te dezia que eu bebo para ter a garganta lubrificada e me lembrar de outros cafés, outras saudades. Outros tempos em que a dor no cotovelo não doia nem nas palavras. Sim, mermã, a dor sai dos cotovelos, vai nas mãos e de ricochete ela volta até no cérebro. Com o zulmarinho sendo zulmarinho as pessoas não vestiam tanta roupa e eu lhes via a silhueta sem ficções e outras maquinações. O Zulmarinho era mesmo zulmarinho e sol brilhava mais doirado. Agora, mermã, bebo para ver se ele clareia e só tem cacimbo nele.

Conterra manda poesia linda que fala do nosso mar, do início deste mar.

Sanzalando

13 de janeiro de 2008

recorrendo a um ontem

escrito em 08-09-2004

Senta aí mermão. Senta também mermã. Eu bebo e vocês ficam aí só assim sentados a pensar comigo. Vamos manter este silêncio pondo a conversa em dia.
Se apetecer chorar, a gente chora! Se apetecer rir, a gente vai rir! Um dia, quando a morte levar a gente a gente vai ter tempo de sobra para arrumar ideias, tirar o pó dos neurónios, pôr os livros todos por ordem. Vamos ter tempo para pôr os pontos nos is. Até lá, mermão e mermã, muitos rios vão correr debaixo das pontes, muitos céus vão estar aí para a gente admirar eles, lhe ver as estrelas ao lado de quem as quer ver connosco.
Bebo uma geladinha porque me apetece. Uma antes da próxima. Não pensem que ficarei numazinha apenas. Loira é para ser bebida em série.
Aproveitemos este silêncio cortado pelas ondas deste zulmarinho que tem início lá do outro lado.
Tás a ver aquela Lua ali? Não é o satélite da Terra. Não. Podes crer que eu não te estou a enganar. Ela é mesmo o reflexo no céu da minha amada. Olha só bem para ela e fica em silêncio, ouvindo este murmulhar de espuma branca que vem beijar a areia.



Sanzalando

6 de janeiro de 2008

recorrendo a um ontem

Falei assim em 07-09-2004


Senta aqui, mermã. Sei que só queres cacau quente. Mas senta aqui perto, para eu não ter que falar alto que nem gramafone em dia de feira. Me conta lá, mermã, se este mar zulmarinho não trás o cheiro lá do início dele?

Eu sei está gelado este mar, assim como sei ele vai aquecendo na descida.

Mas vês como ele parece tá a me chamar? Ele me quer agarrar como se fosse um polvo tentacular que quer me levar nas fundos dele para eu esquecer que ele tem início lá mesmo onde está a minha amada que eu amo de amar que dói até de morrer. Mas todos os dias eu venho aqui cheirar ele, sentir esse gelo que trás dentro dele, e ele todos os dias vem em movimento ritmado que parece que tem maestro lá atrás a mandar ele vir rebolar na areia. E todos os dias me sento aqui e fico olhar nele, no pôr-de-sol que parece que é incêndio dentro dele. Esse zulmarinho tanto me ama que parece que ódio é pouco para descrever o sentimento dele.
Anda, senta aqui ao pé de mim. Ouve o cantar das kiandas que estão lá longe, dentro dele. São lindas as sereias desse mar que tem início lá para os fundos da terra. Sempre a descer. Não tem como enganar. Mermã, segura na minha mão e vê como ela está tremula de não poder agarrar todo esse mar e encostar no peito e lhe beijar.
Mermã, se não tivesse gente que vive desse mar, te digo que eu bebia ele todo de um sorvo e corria direito à minha amada que está no início deste mar.
Bebe o teu chocolate quente e dá-me o teu calor.

Sanzalando