9 de dezembro de 2019

#frases


acho eu

Embora não tenha chegado o tempo dele eu acho está frio. Eu penso mesmo que é o meu corpo está com o termostato do tempo em que eu era criança e nunca me chegava o frio, mas ao contrário. Aqui, na falésia a olhar o zulmarinho e a fazer contas à vida ou à vida contada por palavras minhas, me deixo levar por sonolentas meditações. 
Quantos livros li? Algum livro me descreveu por completo, tipo corpo inteiro com alma incluida? Mesmo um livro dos génios, nobeis ou completamente desconhecidos do geral? Nenhum. Eu sou indescritível. Acho eu. 
Na minha profunda solidão quem me conhece? Palpita-me que nem eu. Acho eu.


Sanzalando

8 de dezembro de 2019

carregar tempo

Me deixo levar pelo frio de tarde de outono. Me enrosco numa manta e me liberto em sonhos e fantasias mentais. O zulmarinho ao longe me embala num marulhar suave e sumido. Tento recuperar o tempo que perdi em inúteis afazeres, em vãos exercícios mentais ou em brancas noites passadas. Cada momento foi único e irrepetível. Cada paixão foi única. Cada movimento foi exemplar raro. Como posso recuperar se até esse tempo eu aproveitei ao máximo?


Sanzalando

#caminhos


6 de dezembro de 2019

visto de fora

Olho o zulmarinho e a sua vastidão. Me perdi em olhares, nas trocas e baldrocas dum olhar, no cacimbo, na chuva ou num pestanejar. Fui embora de mim sabendo que as pessoas são passageiros deste autocarro que chamam de vida. Olhei-me, literal e calmamente visto de fora, porque eu não estava fora de mim, e percebi que o tempo deixa marcas que por mais bem disposto que esteja elas não são apagadas. Mas atenuam-se. Um sorriso é sempre um sorriso e depois é também mais fácil. Outras reacções são complicadas. Sorrio mesmo quando a minha mente acelerada já me ultrapassou numa qualquer curva da vida. Sorria, porque estas palavras são escritas com suavidade, com a carícia de quem quer usar a palavra como um manto cobrindo um corpo despido de preconceitos. Bolas que hoje o cacimbo se apoderou de mim e me deixa a visão turva.
Mas eu visto de fora que até sou giro!


Sanzalando

5 de dezembro de 2019

#caminhos


não sei do daqui a pouco

E eu tremo de frio quando há pouco eu vivia sol e do sol.
Aqui, o zulmarinho não gela porém só de olhar para ele e me imaginar nele, tremo. Mas não lhe resisto mesmo que seja só no olhar. E aqui medito. 
Ai, vida esta que me faz sorrir, que me faz dizer que faço agora porque não sei de daqui a pouco ainda cá estarei. Vivo-a com a intensidade que consigo, com sol ou frio, chuva ou nevoeiro. Importa? Sim, sim. Viver, mesmo que eu me tenha apaixonado milhões de vezes, mesmo que eu tenha desesperado outras tantas, só poucas vezes eu os vou recordar com nostalgia ou rancor. Mesmo que sofra de calafrios, mesmo que sonhe futuros, passados ou presentes, a vida que tenho é esta e com esta vivo-a.
Eu tremo de frio e medito quando se calhar me devia era deitar e dormir. Mas daqui a pouco posso não estar aqui e por isso vivo o agora e como me apetece. Não aprendi a despedir-me, nem de mim nem de ninguém porque eu não sei onde estarei daqui a pouco. Não me antecipo nem ao futuro nem ao passado presente em mim.
Um dia, se tiver que fazer balanço, contabilidade e escrita contabilística, ainda me vão perguntar qual foi o meu primeiro amor e o último, porque não. Não sei porque vivo hoje e não sei nada do daqui a pouco.


Sanzalando

3 de dezembro de 2019

Zanzibar, especiarias cidade e tartarugas, 2019



Sanzalando

#caminhos


divagações no zulmarinho

Me vens dizer que aqui a areia está molhada, que gruda nos pés parece tem cola, faz impressão nos dedos e coisas e tal. Que a praia é para outras gentes, que o zulmarinho isto e aquilo, te causa arrepio que até faz tremer a coluna mais vertical e te dói a coxa deste pesado caminhar. Mas aqui não tens a têvê que te faz paralisar os olhos, te arrepia e te mostra as coisas mais cinzas da vida que está a passar tão rápido que a gente está aqui e está a dar os pêsames a ela num ápice. Tu aqui, na ajuda do silencioso marulhar do zulmarinho se espreguiçando na areia, podes cantar e podes sorrir, podes sonhar e navegar, podes ser as tuas fantasias que se alguém te olhar te vai dizer apenas que estás feliz. Guarda esse fato velho num sótão, atira para o lixo essa carranca triste e enrugada em que se tornou a tua cara. Anda sentar aqui, falar mesmo que seja no silêncio dos lábios. Vem porque aqui tu és mesmo tu, o teu eu que está lá dentro à espera de um dia ser largado e no teu rosto martirizado pelo tempo volta a aparecer o sorriso, a criança que nunca deixaste de ser porque dentro da gente existe sempre, muitas vezes bem escondido, o nosso lado infantil. Só de olhar na tua cara eu estou a ver as perguntas que estás a fazer dentro de ti. Esse gajo loucou de vez, cacimbou, fundiu os fusíveis visíveis e invisíveis ou anda a fazer coisas que já não tem mais idade. Mermão ou mermã, eu simplesmente libertei-me de prisões, elevei-me num patamar de sensibilidades, numa palete de cores vivas e transformei o cinzento em arco-irís. Tudo, mermão foi nas minhas caminhadas aqui ao lado do zulmarinho, tudo foi aqui nas estórias que conto e ouço, que invento ou deliro. 
Sabes que dá arrepio só de lembrar que nesta vida que vivo, posso passar ao lado de coisas que eu devia de saber e só mesmo por falta de tempo ou cansaço eu não vou saber? 
A nossa vida, quando vivida empoeirada, está só mesmo à espera de um empurrãozinho para se desequilibrar perigosamente para o lado falso da encarnação. Aí, sais dessa encadernação e viras folhas de memória. 
Tá na tua cara mais uma pergunta: se é que eu virei filósofo? 
Quem sabe, mermão. Neste caminhar encontrei certezas, descobri dúvidas que procuro tirar a limpo como que a fazer os trabalhos de casa dos tempos de infância. Tas a ver como aqui se encontra o equilíbrio do mim e do eu?
Aqui não tens a pressão de ver se a novela vai começar, se o golo foi ou não foi. Aqui vertes umas e outras, falas, calas e ouves, nos respeitos dos silêncios, nos olhos trocados, esboço de sorriso. Aqui, mermão, foges do fingimento de fingires que és outro. Aqui, no perfume da maresia, podes ser tu que ninguém tem nada com isso. Fazer mesmo mais como? Sendo só mesmo tu!Tas cansado? Senta aí um pouco, verte mais uma para te olear as ideias. Respira o ar que vem desde lá do início dele


Sanzalando

2 de dezembro de 2019

delírio de outono

E com este tempo, sentado a ver a chuva miúda caindo no zulmarinho, me dou a sonhar que a vida é como um teatro e que as personagens reais são fruto da minha imaginação assim como o papel que representam não é mais que a forma física do trauma psicológico dos meus anos de crescimento.
Faz conta é uma estória com personagens principais e secundárias, com drama, tragédia e comédia, por vezes trágica e outras cómica.
É absurdo. É um delírio. Este desenrolar de cenas, o cenário, as luzes, a música, tudo uma obra prima que com pena não escapamos ao final


Sanzalando

29 de novembro de 2019

até aqui há um caminho

E por uns instantes pensei estava longe donde estou. A pura magia da imaginação. A vontade de viajar, mesmo que seja por dentro de mim, nas ondas da memória ou nas neblinas dos sonhos. Por uns instantes vi-me criança, na rua onde cresci e fui amadurecendo a minha maneira de ser e estar. Não me cansei deste recuo temporal nem lamentei o que possa ter perdido pelo caminho. Não estava embriagado de tristeza ou saudade, era mesmo só vontade de ver o meu gráfico mental, a minha ficha de crescimento, as minhas palavras que um dia saíram da boca e ficaram a pairar nesse corredor temporal.
Não, não fui buscar as palavras bonitas e os feitos de ser criança. Não fui procurar infelicidades ou tristezas, sonhos inacabados ou lágrimas choradas. Fui mesmo só visitar-me, conhecer-me e porque não dizer: reencontrar-me. 
É bom saber que estou aqui e tive um caminho percorrido.


Sanzalando

27 de novembro de 2019

Já passou tanto tempo

Chove lentamente como parece o tempo que passa. Já não tenho idade para ter pressa assim como não tenha paciência para quem corre sem saber para onde vai. Já passou tanto tempo desde o tempo que fui um apressado. Já passou tanto tempo quanto o que aconteceu de bom como de mau. Já passou tanto tempo desde que eu desci do meu maternal pedestal, da minha protecção inviolável, do carinho fraterno duma mãe protectora. Já passou tanto tempo que eu esqueci de dar aquele abraço, de dar aquela explicação, de me desculpar sem ter medo, de dizer um olá, bom dia ou boa tarde. Já passou tanto tempo que a arrogância da puberdade ficou sem terra sob os pés. 
Chove lentamente como parece o tempo que passa e os projectos futuros são risonhos, brilhantes, coloridos e alegres porque me fazem feliz.
Já passou tanto tempo que não perco tempo a procurar ser infeliz.


Sanzalando

26 de novembro de 2019

divagando

Outonou definitivamente.. O zulmarinho nesta altura do ano se torna longe dos meus olhos. Quando lhe posso ver é noite e só consigo perceber uma ou outra luz que não sei o que é. Assim não gosto e não vou lá mimá-lo. Tem coisas que não faço por rotina e ponto final do meu parágrafo. è outono e como tal tem coisas boas e outras não tanto. Mas não é por isso que desato a chorar fazendo grande rio de lágrimas. Eu, todos os outonos prevejo a minha tristeza, as minhas frases curtas e os meus sorriso rápidos. Mas é neste tempo assim que eu começo a imaginar os novos projectos, o sabor de nada fazer para além do escurecer porque o meu corpo criado ao sol mirra como se fosse um conto de fadas, só que não é às badaladas, é só mesmo com o estrondo do cair da noite. Eu vou alcançar alguns dos meus sonhos que ainda não alcancei.  Novas ideias, novas páginas e páginas tantas está a tentar ler os solilóquios dum loucamente apaixonado pela vida que vive.


Sanzalando

25 de novembro de 2019

ningúem

Ai deuses e outros santos homens que não posso ir ver o mar que a chuva não deixa e o vento me contraria. Até parece eu gosto de ser pisado, molhado e empurrado pelas forças da natureza. Alguém que gosta?. Desconheço de alguém que gosta de relembrar os choros chorados, as tristezas vividas e as noites mal dormidas de insónia, quanto mais vir ver o zulmarinho com um tempo destes. Ninguém gosta de admitir que o tempo assim é bom ou mau, tempo triste de mágoa, cinzento pesado. Ninguém gosta de ver o mar com os olhos fechados pela chuva e vento. Ninguém gosta de mostrar tristeza sendo sincero com os sentimentos. Ninguém gosta de falar verdades sabendo que elas lhe podem boomerangar num retorno traumático. 
Vai daí não vejo o zulmarinho e caminho de cabeça erguida e olhos protegidos de ver ao longe acreditando na inocência que ele está no lugar de sempre e como sempre.


Sanzalando

21 de novembro de 2019

chove lentamente

Chove lentamente como o meu pensamento. Se pudesse sentá-lo-ia numa esquina e deixava-o a descansar por uns tempos enquanto eu ia à minha vidinha. Se eu pudesse decidir alguma coisa,  começa logo no princípio, no meu início e deixava-me estar por aí. Assim num sem esperar nada, sorrir por tudo e nada, perder-me em olhares e deixar o vento levar-me. Fazia de conta era uma folha de papel na minha rua em dia de vento. Longe do mar para não me desfazer demolhado. O vento sempre fez parte de mim. Era deserto a minha essência. Não conheço deserto sem vento. Sou filho do vento, diria o poeta. Se eu pudesse apagava todas as feridas e maquilhava todas as cicatrizes. Não teria marcadas do passado.
Chove lentamente como eu penso e como não posso decidir nada deixo a vida correr mesmo que o vento esteja parado, resguardado da chuva, apaixonadamente abrigado na felicidade que tenho.


Sanzalando

19 de novembro de 2019

sem memória nem sebentas


Dou comigo a vagabundar pela cidade. Quando aqui é outono me dá uma vontade de ser criança...
Na papelaria Couto comprei uma BIC, na Livraria Mirabilis pedi ao sr. Kelen um caderno sem linhas e de capa vermelha para eu ir anotando os meus caminhos, não vá um dia mais tarde eu querer recordar. Faz conta são quadros pendurados ou apenasmente álbuns de viagem, num assim faz de conta são fotos de memória, nossas lembranças, para que tudo fique igualzinho quando a gente quer ver o passado de lá faz tempo. Faz conta eu não mexi em nada, só escrevia e descrevi a Papelaria Couto e a Livraria Mirabilis. Ai me lembrei de gente, filho de dono, filhos de donos, vizinhos, amigos, companheiros de adolescência. Depois comecei a lembrar mais velhos. E no meu caderninho sem linhas, escrito com caneta bic azul, lá está o nome, as namoradas e moradas. para quê? Só para mais tarde recordar como se faz quando se olha num álbum de fotografias ou nas fotografias penduradas na parede. O Moreira, o Couto, o Jorge, cambada de gente que está na minha cabeça. Juleco, Tito, José Pedro, Leopoldo, Travassos, outros nomes vieram à mesa da Oásis assim só num fantasma de memória. Bacharel, Reis, Zé da Fisga, Figueiras e a sebenta ainda não mudou de página.
Desligo. Vou vagabundear por esse quadriculado, passear na avenida e quem sabe, sorrir.
Ao vivo e a cores sem memória nem sebentas


Sanzalando

15 de novembro de 2019

#mangueira


atropelado

Hoje, assim num dia de faz cacimbo na minha cabeça, eu dei comigo de calções, suspensórios de cabedal a condizer com as bonitas sandálias nos meus pés. Ainda estava a aprender a sair de casa sem companhia de mais velho. Acho mesmo era a primeira vez que eu vinha da escola 55 para casa sem companhia. Nem amigo nenhum vinha comigo. Era eu e os meus medos a conversar com os meus botões ou só mesmo a sonhar que um dia eu ia voar sei lá mais o quê. Me lembro que ia atravessar a estrada do Hotel Turismo para o passeio do Pessoa e senti um baque e fui direito no chão. Mesmo no meio do alcatrão. Me assustei?! Sei que parece nasceu mola dentro de mim. Sai daquela posição imprópria que o carro do Rui Frota me deixou, nem olhei para mais ninguém que ali logo me olhavam parecia eu ter saído sei lá onde. Puxei das articulações acelerei o cérebro e antes que alguém dissesse o meu nome eu estava a passar a avenida do Beto Reis, os pés tenho a certeza não tocavam no chão. Voei para casa. Que correria é esse acho me disse a avó ao me ver entrar que nem capitão américa ou homem raio. Me fechei no quarto. Me olhei e ali estava eu de dois braços e duas pernas, roupa preta da areia do alcatrão. Nem um risco nem uma dor. Bateram na porta. Minha avó foi lá. Lhe contaram e eu gritei não fui eu. Me levam no hospital é melhor. Não fui eu, vou lá fazer mais o quê? Paciência de avó, preocupação dos mais velhos que vieram me cuidar. Não fui eu, avó. Me tocou a ver eu digo ai. Nada. Nem uma dor me doía. A alma sim. Mas ela não tocou nela. Podem ir embora que parece ele está bem, disse a minha avó enquanto fechava a porta e se sentava comigo. Não fui que fui atropelado. Foram mesmo só os meus pensamentos que passeiam comigo, avó. Eu estou bem. Não sai de casa nesse dia, nem para andar de patins ou carros de rolamentos que nessa altura ainda não tinha. Não joguei futebol. Fiquei só em casa não fosse dar uma dor qualquer. Amanhã vou na escola como um homem mas não levo nem os pensamentos nem distracções na cabeça.



Sanzalando

14 de novembro de 2019

viver em recordação

Hoje que fez calor fui na praia. Vazia de gente do planalto que ainda não tem tempo de atravessar as mulolas e vir aqui se banhar, se enrolar na areia e desgastar a marginal num passeio de vai e vem. Isso é mais em Março embora agora inicia o calor e eu já estou a treinar e mergulho nas aguas frias da minha terra. Eu preciso desse mar. Eu preciso refrescar a minha tola, tirar da memória as namoradas por quem me enamorei eternamente naquele instante. Se já tivessem inventado o computador eu, na matinée dançante do próximo domingo, fazia um format de mim e começava de novo, sempre, como agora, alegre e feliz. Eu ia pegar dama para dançar, ia deixar de ser o puto envergonhado e tímido e ia ser como agora, transparente e real. É, um mundo diferente de ver, o agora e o antes com o que sei agora.
Vou ouvir a Mini-nota, vou-lhes dançar ao ritmo mesmo que o meu corpo nunca tenha tido um grande ritmo de dança.
Vou só mesmo na matinée dançante conversar e treinar o mar e março.
E voltou a saudade de amanhã ao almoçar com gente de ontem, quem me viu fazer as birras de criança, quem me viu enamorar adolescentemente e quem, me viu começar a ser homem.
A minha cidade, aquela que está na minha cabeça, não é saudade, é recordação, e ser eu hoje tal e qual como sou. Gente boa, me reconheço ao olhar no espelho mesmo que ele esteja embaciado pela água quente do orgulho, inchado pela vontade de ser gente.
Não é Março, não choveu nem nevou na minha cabeça tonta.

Sanzalando

13 de novembro de 2019

me apeteceu passear

Me apeteceu passear na cidade. 
Fui no parque infantil e desencontrei-me sozinho. Andei no cavalo com tanta força que depressa me cansei e fui no escorrega grande dar o salto na marreca do escorrega. Me magoei na bunda que se esqueceu de ter músculo ou gordura para aguentar o salto. Fui ver a zebra e levei bicada da avestruz. Não, hoje não é meu dia de andar aqui. Não vou ver a macaca que ela ainda se solta só para me apertar os ossos e me assustar com seus gritos parece endoidou.
Vou na praia, sentar nas arcadas olhar o mar e ver se aparece alguém para conversar. 
Estão a pôr a jangada no mar. Ué. Amanhã que é sábado vai ter artistas que vão dar saltos de nota máxima e eu vou nadar até parece é mentira se conseguir chegar na jangada que parece está ali mas afinal está lá, onde o cansaço quase me mata.
Cidade de gente vazia na hora do calor. 
Acho vou estudar para quando for grande eu saber soletrar os nomes dos amigos, as ruas calcorreadas, os sustos apanhados e saber cada casa, cada rua, cada esconderijo da minha pequena cidade.  
Acho sonhei que hoje fui passear na minha cidade que cresceu que já não é a minha cidade pequena.

Sanzalando

12 de novembro de 2019

#comida


chega

Me deixo levar pelo frio e admiro o zulmarinho por baixo duma camada de roupa. Hoje ele se clareou e brilha parece leva com um sol que nem parece desta altura. Um ou outro barco lhe navega deixando uma ondulação que ondula em câmara lenta. Perdido no tempo vou deslizando os meus pensamentos por esta calma de maré tão cheia parece vai chegar ao meu pé. Lua cheia me dizem num sussurro que parece nem ouço, adivinho.
Chega de ansiedade, repito em tom de mantra, em termos de canção sem música. Este mundo não pode ser vivido em termos de comparação, de competição, de dúvidas e de depressão. Este mundo tem de dar a volta e se olhar nos olhos da alma e com este mar calmo deliciar-se num tom empático, de sorriso aberto e consciência tranquila numa viagem que começou no dia de nascer e termina o mais tardar possível.
Chega de inventar momentos tóxicos, frequências alternadas e comunicações interrompidas.
Chega de esquecer de mim e acreditar que a mudança não é uma empresa de transportes, é um mundo que precisa.


Sanzalando

6 de novembro de 2019

o preço de ser eu

Olhei de longe o zulmarinho. Não está tempo de me perder no tempo da contemplação marítima. O tempo tempo não está de feição e o tempo horário não corre ao ritmo duma visita demorada. Mas mesmo assim, perdido de mim, me deixo contemplar pela queda abrupta que imagino estar para lá da linha recta do horizonte. Até parece que o mundo acaba onde os meus olhos deixam de ver. Esta coisa de pensar absurdo, de me mudar o jeito de falar, de ver e até do olhar, fazem-me meditar na meditações que alguma vez eu fiz, ou não. A realidade de hoje não foi realidade de ontem nem será a de amanhã. Sonhei, vivi ou apenas eu sou um pesadelo de mim?
O facto de eu ter pensado e não ter dito não quer dizer que desapareceu. Elas ficam lá num qualquer canto do subconsciente, num armário velho e desarrumado e de quando em vez vem cá fora dizer ao sol eu estou aqui. Mas lá elas vão continuar a pesar, por vezes sufocar e outras vezes magoar. Por isso é melhor retirar o armário, jogar cá para fora essas palavras pensadas, esses sonhos sonhados, esses quereres queridos e libertar desse veneno fatal, o conformismo. 
Olhei de longe o zulmarinho e desconformei-me e mesmo parecendo um idiota arrisco a rabiscar palavras de sabor a mar, perfume de maresia e som de marulhar. É o preço que tenho de pagar para que eu seja assim: Eu!


Sanzalando

4 de novembro de 2019

#comida


almas que tenho


Quantas almas eu tenho? Que idade tem a minha alma mais velha? E a mais nova? Idade é uma ideia que me passa ao lado. Serei sempre criança. As minhas ideias progridem mesmo que o meu corpo não lhas acompanhem. Não sou de estar à beira do abismo e dar um passo em frente. Portanto não me vou aproximar matemáticamente do fim, somando dias aos vividos.
Perdi a pele sedosa e elástica do meu riso de criança, perdi a alegria das brincadeiras de rua, perdi amigos levados pelo além, perdi a realidade do passado.
Ganhei a face do conhecimento, os cabelos da responsabilidade e a velocidade. O tempo passou a ser veloz. Impiedosamente veloz.
Cinzentou-se o zulmarinho mas a capacidade de o apreciar cá está. Acredito, resumidamente, que as minhas asas não se perderam no tempo que passou. Continuo a ter a capacidade de sonhar e ser feliz.

31 de outubro de 2019

medronho fit

Olha só como faz tempo que o tempo não é mais como é que era.
Agora, pelo que vejo, está na moda fazer desporto. Eu que me sentava na falésia a ver o zulmarinho sou apelidado de retrogrado, preguiçoso, mole e os meus kilos a mais servem de risota. 
Então pois bem, juntei o útil ao agradável e me dediquei a um desporto novo, para mim, pois há quem se dedique a ele faz anos. O medronho fit. Esse mesmo que estão a pensar. Apanhar medronho num cerro. Sobe, desce, agacha, levanta, estica, encolhe, tropeça, escorrega e o medronheiro parece está a rir. Os maduros estão la no cimo parece é de propósito. 
Agora, quando ouvi o estrondo do cair da noite é que vi que rangia por todos os lados. Os elos todos do meu corpo doem parece foram torturados. Os cotovelos e tornozelos sinto-os e nem preciso vê-los.
Aqui sentado, neste agora mesmo, parece recordei os meus passados ou algum dos meus sonhos sonhados numa noite tropical qualquer. Eu fui à caça. Eu recordei parece foi hoje. Todos viam pegadas eu pisava caganitas. Eu confirmava que tinha passado por ali caça. Nunca vi o dono do que eu pisava. Com os medronhos quase parecia era igual. Os vermelhos, aqueles que me ensinaram era para apanhar estavam onde a minha destreza não permitia chegar.
Acho mesmo está na hora de voltar à minha meditação zulmarínica, que esta coisa do medronho fit dá-me cabo do canastro.


Sanzalando

30 de outubro de 2019

por dez bagas de medronho

Faz dias não me delicio a ouvir o zulmarinho a me marulhar num embalo de meditação. Tem dias que outros lugares se levantam e me perguntam se também não têm direito à minha presença. Hoje foi dia de ir à serra. Nos 600 metros a cima do mar, me disseram e eu acreditei, porque não me apeteceu estar ali de fita métrica verticalmente a medir tanta altura. Roupa de andar nas escarpas. Até que falei bem. Escarpas de pedra solta e inclinação de atirar os pulmões para fora da caixa. Outros há que têm o coração maior que a caixa, eu cá só deito os bofes pela boca daquelas inclinações escarpadas. Um medronho aqui, duas dúzias por ali e outro tanto, quantos não sei, por acolá.
- Gatunos, ladrões eu mato-vos.
Foi o que ouvi saído por trás duma moita um homemzarrão de dois metros e não sei quantos. Coelho que costuma sair da moita não fala assim. Vento não sopra assim. Homem mal educado grita assim. Timidamente, mas muito assustado, perguntei o que se passava ali. 
- Gatunos, ladrões ponham-se daqui para fora.
Foi a resposta que ouvi. E era mesmo para mim. Tentei explicar que tinha autorização do dono para estar ali, mas a surdez mental daquela espécie monstruosa de homem não conseguia ouvir a minha voz que curiosamente se manteve suave.
Lá consegui perceber, depois de uns tantos mais impropérios, que estava na 'estrema' do terreno que estava autorizado pelo dono e que, por causa de dez bagas de medronho, eu fui amaldiçoado que nem um teste de surdez mal feito.
Ai apeteceu ir buscar a fita métrica, que não levei, para mostrar que a extrema estupidez daquela espécie humana estava em decadência mental e que por dez bagas de medronho se perde a liberdade de falar.

Sanzalando

#mangueira


#medronho


#medronho


29 de outubro de 2019

o peso da idade

Hoje acordei com dores lombares e uma incapacidade de mexer os ombros e os braços. Corpo moído e ar cansado. Sentado à beira da cama me deixei a ver o que é que me tinha acontecido. Mexer eu não consigo. Quer dizer, dói. Mas o que é que me aconteceu? Busquei mil razões, divaguei mil teorias e me perdi nelas como quem se perde nas ruas duma grande cidade desconhecida e sem coisas de mapas e gps de alta gama.
Pequei num smatphone, abri cada uma das três redes sociais à vez, com sacrifício e dor. Afinal até os dedos e os olhos estão cansados. Fui lendo, fui vendo e novamente me perdi. Tantos números é coisa de novas tecnologias. 
Sem sair desta posição de defesa meditei, com uma vontade enorme de me deitar e perguntar porque acordei hoje?
Tudo o que eu sentia era do peso da idade
É impossível receber assim o peso da idade dum dia para o outro. Eu não me preparei para tanto. Deveria ter ido ao ginásio, feito caminhadas, levantar pesos e depois sorrir e pensar que com o que tenho para fazer, este peso é agradavelmente suportado por este corpo que já foi franzino, por este esqueleto que já foi erecto, por esta alma jovem que me habita e então para o ano eu estarei em forma para receber mais peso.



Sanzalando

25 de outubro de 2019

#imbondeiro


#viagem #imbondeiro


a minha lenda de imbondeiro


E era uma vez, faz 500 anos, segundo uns e para outros faz apenas 200, caiu este enorme imbondeiro duma das muitas ilhas e ilhotas de Zanzibar. Eu para trepar para o corpo deitado dele vi-me e desejei-me. Me lembrei dos meus tempos de criança, em que, com a agilidade e a vontade, eu arranjava maneira de lá chegar, ao cimo do velho corpo deitado no seu secular descanso. Cansado fui admirando cada reentrância, cada cicatriz, cada nó. Havia lagos nos seus buracos. Eu nunca tinha trepado num imbondeiro. Os meus braços nunca teriam comprimento para o abraçar e me pôr num imbondeiro. O meus sonho estava tornado realidade. Eu subi num imbondeiro. Ele estava deitado, é verdade, mas lhe subi sim. Mastodonte mesmo. Lá de cima eu me senti o rei. Eu era o Rei daquele instante. E dele partia como ramo um imbondeiro novo, majestoso como todos os outros imbondeiros. Este era especial. Era um imbondeiro que nascera dum sobrevivente tombado mas com vida. 
Quantos piratas ele tinha visto, daquela posição, de cima do dorso dum imbondeiro? Ele tinha uma vista privilegiada, um alcance que nem um farol. E o imbondeiro deve ter memória de elefante. 
Lá, sentado no corpo deitado do imbondeiro, junto ao imbondeiro que lhe nascera eu ia receber todas as estórias que ele tinha para me contar, todos os barcos que ele vira passar. 




Sanzalando

#comida #tamarindo


recomeça o futuro sem esquecer o passado