31 de outubro de 2019

medronho fit

Olha só como faz tempo que o tempo não é mais como é que era.
Agora, pelo que vejo, está na moda fazer desporto. Eu que me sentava na falésia a ver o zulmarinho sou apelidado de retrogrado, preguiçoso, mole e os meus kilos a mais servem de risota. 
Então pois bem, juntei o útil ao agradável e me dediquei a um desporto novo, para mim, pois há quem se dedique a ele faz anos. O medronho fit. Esse mesmo que estão a pensar. Apanhar medronho num cerro. Sobe, desce, agacha, levanta, estica, encolhe, tropeça, escorrega e o medronheiro parece está a rir. Os maduros estão la no cimo parece é de propósito. 
Agora, quando ouvi o estrondo do cair da noite é que vi que rangia por todos os lados. Os elos todos do meu corpo doem parece foram torturados. Os cotovelos e tornozelos sinto-os e nem preciso vê-los.
Aqui sentado, neste agora mesmo, parece recordei os meus passados ou algum dos meus sonhos sonhados numa noite tropical qualquer. Eu fui à caça. Eu recordei parece foi hoje. Todos viam pegadas eu pisava caganitas. Eu confirmava que tinha passado por ali caça. Nunca vi o dono do que eu pisava. Com os medronhos quase parecia era igual. Os vermelhos, aqueles que me ensinaram era para apanhar estavam onde a minha destreza não permitia chegar.
Acho mesmo está na hora de voltar à minha meditação zulmarínica, que esta coisa do medronho fit dá-me cabo do canastro.


Sanzalando

30 de outubro de 2019

por dez bagas de medronho

Faz dias não me delicio a ouvir o zulmarinho a me marulhar num embalo de meditação. Tem dias que outros lugares se levantam e me perguntam se também não têm direito à minha presença. Hoje foi dia de ir à serra. Nos 600 metros a cima do mar, me disseram e eu acreditei, porque não me apeteceu estar ali de fita métrica verticalmente a medir tanta altura. Roupa de andar nas escarpas. Até que falei bem. Escarpas de pedra solta e inclinação de atirar os pulmões para fora da caixa. Outros há que têm o coração maior que a caixa, eu cá só deito os bofes pela boca daquelas inclinações escarpadas. Um medronho aqui, duas dúzias por ali e outro tanto, quantos não sei, por acolá.
- Gatunos, ladrões eu mato-vos.
Foi o que ouvi saído por trás duma moita um homemzarrão de dois metros e não sei quantos. Coelho que costuma sair da moita não fala assim. Vento não sopra assim. Homem mal educado grita assim. Timidamente, mas muito assustado, perguntei o que se passava ali. 
- Gatunos, ladrões ponham-se daqui para fora.
Foi a resposta que ouvi. E era mesmo para mim. Tentei explicar que tinha autorização do dono para estar ali, mas a surdez mental daquela espécie monstruosa de homem não conseguia ouvir a minha voz que curiosamente se manteve suave.
Lá consegui perceber, depois de uns tantos mais impropérios, que estava na 'estrema' do terreno que estava autorizado pelo dono e que, por causa de dez bagas de medronho, eu fui amaldiçoado que nem um teste de surdez mal feito.
Ai apeteceu ir buscar a fita métrica, que não levei, para mostrar que a extrema estupidez daquela espécie humana estava em decadência mental e que por dez bagas de medronho se perde a liberdade de falar.

Sanzalando

#mangueira


#medronho


#medronho


29 de outubro de 2019

o peso da idade

Hoje acordei com dores lombares e uma incapacidade de mexer os ombros e os braços. Corpo moído e ar cansado. Sentado à beira da cama me deixei a ver o que é que me tinha acontecido. Mexer eu não consigo. Quer dizer, dói. Mas o que é que me aconteceu? Busquei mil razões, divaguei mil teorias e me perdi nelas como quem se perde nas ruas duma grande cidade desconhecida e sem coisas de mapas e gps de alta gama.
Pequei num smatphone, abri cada uma das três redes sociais à vez, com sacrifício e dor. Afinal até os dedos e os olhos estão cansados. Fui lendo, fui vendo e novamente me perdi. Tantos números é coisa de novas tecnologias. 
Sem sair desta posição de defesa meditei, com uma vontade enorme de me deitar e perguntar porque acordei hoje?
Tudo o que eu sentia era do peso da idade
É impossível receber assim o peso da idade dum dia para o outro. Eu não me preparei para tanto. Deveria ter ido ao ginásio, feito caminhadas, levantar pesos e depois sorrir e pensar que com o que tenho para fazer, este peso é agradavelmente suportado por este corpo que já foi franzino, por este esqueleto que já foi erecto, por esta alma jovem que me habita e então para o ano eu estarei em forma para receber mais peso.



Sanzalando

25 de outubro de 2019

#imbondeiro


#viagem #imbondeiro


a minha lenda de imbondeiro


E era uma vez, faz 500 anos, segundo uns e para outros faz apenas 200, caiu este enorme imbondeiro duma das muitas ilhas e ilhotas de Zanzibar. Eu para trepar para o corpo deitado dele vi-me e desejei-me. Me lembrei dos meus tempos de criança, em que, com a agilidade e a vontade, eu arranjava maneira de lá chegar, ao cimo do velho corpo deitado no seu secular descanso. Cansado fui admirando cada reentrância, cada cicatriz, cada nó. Havia lagos nos seus buracos. Eu nunca tinha trepado num imbondeiro. Os meus braços nunca teriam comprimento para o abraçar e me pôr num imbondeiro. O meus sonho estava tornado realidade. Eu subi num imbondeiro. Ele estava deitado, é verdade, mas lhe subi sim. Mastodonte mesmo. Lá de cima eu me senti o rei. Eu era o Rei daquele instante. E dele partia como ramo um imbondeiro novo, majestoso como todos os outros imbondeiros. Este era especial. Era um imbondeiro que nascera dum sobrevivente tombado mas com vida. 
Quantos piratas ele tinha visto, daquela posição, de cima do dorso dum imbondeiro? Ele tinha uma vista privilegiada, um alcance que nem um farol. E o imbondeiro deve ter memória de elefante. 
Lá, sentado no corpo deitado do imbondeiro, junto ao imbondeiro que lhe nascera eu ia receber todas as estórias que ele tinha para me contar, todos os barcos que ele vira passar. 




Sanzalando

#comida #tamarindo


20 de outubro de 2019

#viagem


#viagem


a gente vai de lembrança

Faz sol que nem o sol do outro lado. Me custa respirar ar quente. Faz tempo deixei de fumar e este tempo me veio lembrar a dificuldade de respirar que eu sentia. Me deixo levar de lembrança em lembrança até ao tempo em que era criança. As mangueiras, os tamarindos, as castanhas e os imbondeiros. As minhas palmeiras eram pequenas, não como estes coqueiros. Os meus amigos eram muitos, se fosse hoje eram o tamanho duma lista telefónica. Eu sabia escutar, ouvir atentamente, sem dizer certo ou errado. Ouvia e ajudava, lugar de amigos. Eu era criança, eu sou criança no coração da amizade. Eu me deixo ir de lembrança em lembrança até ao zulmarinho de menino.

Sanzalando

#viagem Até me habituava...


#viagem


18 de outubro de 2019

#comida


tropicalmente chove

E faz conta o céu caiu em forma de muita água. Instantaneamente diluviou aqui. Eu caminhava junto deste zulmarinho paralelo ao outro zulmarinho. O sol voltou e com ele aquele brilho de luz que nem dava para olhar. Olhos fechados a adivinhar o caminho. Um coral, uma concha, tudo era lugar para tropeçar. Semicerrados os olhos o brilho era intenso. 
Ah, eu estava a olhar para dentro de mim, porque afinal continuava a chover.

Sanzalando

#viagem


#viagem


#viagem com chuva


17 de outubro de 2019

#viagem


#viagem


Na praia

Me deitei numa esteira no meio da praia. Eu, o mar e o sol. Também estava um bocado de vento. De tarde estás á espera mais do quê?
Acho levitei no meio dos meus pensamentos. Eu senti a brisa como fosse asa de avião. Subi para lá de mim e me olhei. Eu regressei a mim, revi a minha essência, reconhecimento próprio. É África em mim e eu em África.
O que faz o sol...

#viagem


#bebidas


#viagem


#comida


16 de outubro de 2019

#imbondeiro


Num mar diferente

Me olhei no espelho e me imaginei eu do outro lado. Eu era o reflexo e o reflexo era eu. Pensei que o meio caminho da loucura tinha chegado. Me afastei e me olhei num repente, e eu era o reflexo, o medo de ser irreal, imaginário, a fraude, a falsificação de mim. Me sentei. Eu vou no kimbanda, me soliloquei. Professor Karanka me ajuda, pedi baixinho. Peguei num avião, daqueles que voam contra as leis da física, grandes, pesados, abarrotados de consciência pesada e fui na mãe. África. Diferente. Hoje eu sou diferente mas preciso da água, do ar, do sol e do perfume da mãe.
Hoje, nas águas do Índico me lavei, esfregando a alma com areia que um dia o vento trouxe e deixei de ter medo. Nem que seja enquanto estou aqui.
Hoje, depois duma chuva que deixou a roupa pesada e perfume de terra, eu sou feliz.

Sanzalando

recomeça o futuro sem esquecer o passado