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19 de março de 2025

carta a meu pai

Carta ao Mau Pai

Querido Pai,

Escrevo-te esta carta com o coração pesado e a mente atabalhuada. Há muito que guardo dentro de mim as palavras que hoje te dirijo, na esperança de encontrar algum alívio e, talvez, entendimento. Esta carta não é um ataque, mas um apelo à reflexão e à compreensão.

Desde a minha infância, sempre desejei a tua presença, o teu carinho e o teu apoio. No entanto, apenas encontrei o silêncio, porque vazio estava o teu lugar. Um pai é a primeira figura de autoridade e de amor na vida de um filho, e eu ansiava por ser visto, ouvido e valorizado por ti. Sempre o fiz na imaginação, pelo que via outros pais a fazerem aos seus filhos

Recordo-me dos momentos em que me esforçava para ter uma recordação. Cresci sentindo que me faltava qualquer coisa. A tua aprovação ou o teu sorriso.

Pai, a tua ausência física teve consequências além das que eu próprio percebo. Houve momentos em que precisei desesperadamente de um conselho, de um abraço ou simplesmente de alguém que me escutasse e me apontasse um caminho. Em vez disso, eu estava sozinho a navegar pelos desafios da vida sem a tua orientação, que tanto desejava.

Apesar de tudo, não escrevo esta carta para desculpar ou protestar. Escrevo para tentar encontrar um caminho para a minha cura e para a reconciliação do eu que exigi de mim, ser gente de letra maiúscula.

Eu gostaria de ter conhecido o teu lado da história. Sei que o passado não pode ser alterado.

Pai, quis o destino que morresses quando eu era criança. Quis o destino que eu fosse um sonhador que te imaginou sempre ao meu lado, em silêncio, mas de olhos abertos a ver-me crescer.

Com carinho

JCC


Sanzalando

16 de dezembro de 2024

Ao meu pai que faria 99

Escrevo na memória com letra invisível para nunca mais esquecer a data em que os meus lábios te disseram adeus. Na verdade eu já nem sei quando foi isso. Se calhar ias para o trabalho, se calhar ias ao café ou ao cinema. Se calhar nunca te disse. 
Das coisas que eu sei, é que nasceste a 17 de Dezembro de 1925 e eras meu pai. Na memória a letra invisível tornou-se esquecimento e eu do que me lembro são assim relâmpagos de quatro anos. Recordo a tua NSU porque não tinhas carro e eu nem sei porquê. Lembro-me do teu clube de futebol, o que te tirava do sério. Não é o meu mas isso desimporta. Queria era lembrar-me do toque dos teus dedos, do teu respirar ao me dares beijos de mimo, da tua força a dares-me colo. Mas a tinta invisível se apagou no tempo da memória que não sei se tive. Perco-me em pensamentos de imaginação, nas brincadeiras que me deves ter ensinado a brincar, nas batidas descompensadas da tua musicalidade que, segundo a mãe, era nula, nas canções de embalar que não sei se as tive.
Pois é, meu pai, amanhã seriam 99 e para me recordar só tenho memória de que não me lembro. Assim,  meu pai, seguindo as vozes que me contaram vou permitir-me brincar como dizem tu brincavas, vou divertir-me como me falam que te divertias. A gravata levo-a no bolso, segundo me dizem, tu nunca leste nenhum decreto onde dizia que ela era para ser usada ao pescoço.

n 17-12-1925  
f 18-06.1961

Sanzalando

13 de agosto de 2023

ao meu pai

Se era madrugada, dia alto ou noite, não me lembro. Apenas sei que a minha boca ficou calada, desconseguia pronunciar palavras ou até emitir sons que poderiam ser gritos ou apenas sons impróprios para consumo diário. A cidade parou, o mundo da minha mãe parou, a minha família chorou. Era o peso da perda, ponto alto de uma vida que estava a começar. Se eu fosse mais velho muito teria para dizer, mas eu era criança e pouco sabia o que se estava a passar. Me devem ter contado contos de fadas e outros sonhos. Minhas mãos não deviam tremer. Era só o meu silêncio e o choro dos que me rodeavam. 
Se fosse hoje eu compreenderia, diria palavras de circunstância, de apelo à compreensão e era mais um adulto nos adultos que choravam. A cidade, me disseram mais tarde, faz pouco tempo, parou. O silêncio da cidade era assim como que o meu. Descompreendiam o que tinha acontecido. Meu pai partira no auge da sua vida a começar. 
Ele devia ter defeitos, porque da perfeição estou tão próximo que a distância daqui à lua nem parece centímetro, mas ainda não ouvi um. Virtudes todos dizem era era um poço.
Mas eu não sabia nada e nada me disseram e o que disseram foi distração. Cresci a lhe honrar, penso eu. 
Não tem dia especial, foi só porque acordei e pensei no meu pai. Lhe gosto muito mesmo não tendo tido tempo de lhe conhecer de cor e salteado.



Sanzalando

21 de março de 2023

ser pai

Olho desde aqui até lá no horizonte longínquo, até onde os olhos conseguem chegar, e só posso dizer que ser pai é uma coisa que nem sei como é que vou lhe dizer. Dois filhos que para além de serem bonitos enchem a alma de alegria. Um faz anos hoje. Primaverou até na estação. Soleou no dia que amanheceu parecia era dia de festa. Embeveci? Claro que sim. Babei? não porque sou discreto e só fiquei assim a modos de toma lá tudo. Sorri, gargalhei e me senti o gajo mais importante do império mental.
Inigualável a sensação de paternidade, Primavera ou verão que até já me esqueci das fraldas, das birras e noites de insónia.
E depois ele além de festejar a sua primavera ainda festeja os 20 meses das filhas. 
Beijinho filhotes.



Sanzalando

18 de junho de 2021

eu e meu pai

Hoje caminho na nostalgia e na saudade. 
Nostalgia porque não consigo sair da tristeza profunda, deste estado melancólico, por saudade de não me recordar dos 4 anos que tive a meu lado o meu pai. Recordo momentos, instantes, pequenos fragmentos da minha história com ele. Tudo o que sei é porque me contaram ou li nos jornais que escreveu. 
Faz hoje exactamente 60 anos que ele partiu para o éter, desencarnou, faleceu ou foi para o céu no seu descanso definitivo. Várias formas de o dizer e nenhuma me aconchega a alma. 
Não me lembro de nenhuma carícia nem de algum diálogo havido. Lembro-me de o ver com o seu pulôver vermelho a olhar o mar que ficava na traseira da casa. Lembro-me de o ver sair uma noite para o cinema com a minha mãe. Lembro-me da sua NSU laranja (ou seria vermelha?).
Lembro-me do carro preto do Dr. Carneiro chegar perto da hora do almoço e depois desapareci para acordar muitos anos depois. Faz hoje 60 anos sem tirar nem pôr e eu tenho saudades.


Sanzalando

17 de dezembro de 2018

Meu pai nasceu em 17 de Dezembro de 1926

O meu pai nasceu em 17 de Dezembro de 1926. Aos 30 anos dele era pai deste belo rapaz que um dia se fez homem. Como rapaz não era assim uma estampa, era mais um espantado com o dia a dia que cada dia vivia. Aos 35 anos deixou de estar presente, guiando-me desde lá onde os arquitectos deste mundo controlam as suas obras primas. Reaccionário, revolucionário, benfiquista, desportista de bancada e mesa de café, apostador nato de causas perdidas, riso fácil e falta de tempo permanente. Não tirou a carta de automóvel não sei se por falta de jeito se por falta de tempo. Nunca tive tempo de lhe perguntar. Haveria outras muitas coisas para lhe saber mas não houve tempo. Rumores muitos, saberes poucos. Mas criei em mim uma memória das vagas recordações que uma criança de 4 anos pode ter. Não me lembro de ter encostado a minha cabeça no seu colo e ter chorado alguma tristeza. Não me recordo de lhe ter perguntado a dúvida dalguma existência porque naquela idade eu nem sabia o que era a dúvida. Mas é o meu pai e foi
será sempre o meu herói. 
Na verdade não tenho a noção exacta do meu pai. Tenho flashs para definir o que eu sei ou sinto. Muitos pensamentos houve que fui criando à sua volta. cada estória ouvida parecia mais uma vivida. Mas de amigo para amigo lhe senti a presença junto à minha existência. As aventuras que eventualmente tivemos juntos ficaram na memória de galinha duma criança que não imagina que haja pontos finais  nas flores, espinhos nas estradas ou eclipses na vida. 
Bem, meu pai, eu sei que teria sido maravilhoso a nossa caminhada paralela se a presença dum fosse acompanhada da do outro. As tuas qualidades, por todos que te conheceram e me foram reafirmadas, eu sei que seria muito melhor do que sou, embora te diga que não te envergonhei em momento algum. Eu sei que desde lá me mandaste um exército de anjos para me proteger e zelar no meu sono e me guiar no caminho que eu optei por traçar.
Eu sei, meu pai que o olhar de Homem não é o mesmo do de menino, mas acho fui bom a interpretar a telepatia das qualidades que deixaste nos meus genes.
Meu pai, hoje farias anos e eu estaria ao teu colo a ouvir-te cantar o Sugar Sugar, segundo a mãe, era a única canção que sabias e mal, mas eu estaria feliz, mais feliz.

Sanzalando

18 de junho de 2013

ao meu pai

Me sento aqui pertinho do zulmarinho a olhar para dentro. Está frio de vento norte e a maresia sopra ao contrário. No olhar para dentro me lembrei que tem 52 anos feitos hoje que não te ouço dizer palavra. De verdade mesmo verdadeira é que não lembro mais como é que era a tua voz, como era a tua figura e qual figura eu fiz. Sei mesmo é de ouvir contar, porque só sei de mim que era Domingo perto do almoço quando o Dr. Carneiro foi na casa da gente dizer qualquer coisa que a mãe gritou e hoje ainda não consigo ainda esquecer o grito dela e o seu carro preto a sair paralelo à linha do comboio. Desqueci tudo tanto para trás como para a frente e acho só acordei anos mais tarde. 
Desculpa só se tem momentos que te pareço fraco, mas tem vezes que eu precisava de ti, meu pai, me dissesses as horas, me apontasses o norte ou simplesmente me passasses a mão pelo cabelo. 
Desculpa pai se tem alturas que parece eu não sou teu filho, como tantas estórias tuas que me contaram.  Acredito que também tinhas defeitos mas só me contaram as tuas coisas boas. Me contaram que andavas sempre de gravata, no bolso diga-se, porque não tinha nenhuma lei a dizer que ela era para ser usada no pescoço. Me contaram que ficavas doente quando qualquer Benfica perdia e não saias nem de casa. Me contaram tantas coisas bonitas e não tenho a tua mão para segurar a minha loucura de ser actual, de não ter a tua mão para escrever as minhas palavras e o teu talento para soletrar as notícias que eu gostava de dar ao mundo.
Um abraço, meu pai!


Sanzalando

2 de novembro de 2011

7 anos - tanto tempo

Faz agora sete anos que me debrucei sobre este livro e chorei como fazia tempo não me lembrava de o ter feito.  Hoje sinto necessidade desse choro outra vez....
Sanzalando