recomeça o futuro sem esquecer o passado
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19 de novembro de 2014

só porque chove

Chove que nem parece ter céu que chegue. Tanta água remexe a terra, lava a fundo a consciência, enfraquece o medo e as luzes da rotina se apagam.
Chove num adultério de memórias, numa orgia de dores.
Chove afinal apenas.


Sanzalando

24 de abril de 2014

Eu, a entrar em modo pausa!

Logo eu, cheio de nada, quero dar tanto para ti. Ofereço-te ramos de palavras, versos de flores e canto serenatas em modo silêncio.
Eu, nascido o criado em Nenhures, estudado na vadiagem das mais escuras ruas da vida e com passagem por portões de escolas desrespeitadas e serviços de saúde duvidosa, me havia de apaixonar por ti.
Eu que danço nos mais desaconselhados palcos da vida te convido a dançar a música que ainda não foi criada nem tocada. Eu que procuro não criar consensos mas sim dólares e outras moedas te peço que me devolvas amor em modo grátis e fácil.
Eu, a entrar em modo pausa!



Sanzalando

21 de setembro de 2007

amor em pausa

Me sento por aqui como quem faz cara de pensador a pensar.
Me lembrei então que um dia eu queria escrever uma estória que podia ser um conto ou um romance. Escrevia, apagava e voltava a escrever. Uma eternidade de vezes, conto agora as vezes que o repeti. Pouco a pouco fui criando personagens, inventei situações. Parecia tudo tinha pernas para andar à velocidade da luz reduzida na capacidade dos meus dedos martelarem o teclado do computador.
Mas um dia, há sempre um dia para tudo, escrevia eu sem parar quando assim num repente tudo se esbranquiçou e parece que eu estava a pensar não com o cérebro mas com uma borracha. As ideias se tinham esfumado. Estava limpo. Liso como uma folha de alumínio cromado. Nem uma só passagem me vinha à mente. O romance, a estória de amor, o conto ou a novela, estava ali à minha frente em pausa sem que houvesse uma tecla para a fazer crescer como tantas vezes eu a tinha idealizado, mentalmente construído.
Pensei que era coisa de passagem. Parei e fui apanhar ar. Foi um ar que se deu.
Agora, cada vez que eu tento pensar longo, em grande, volta a acontecer o meu. Borrachei o meu cérebro, só pode. Vou fazer mais como então?
Entristeci como deves imaginar. A incapacidade de pensar longo deixou-me de mãos atadas.
É assim como que deixar um amor em pausa.


Sanzalando

23 de junho de 2007

meu querido Zulmarinho

Meu querido zulmarinho

Te escrevo hoje uma carta porque hoje não estou com vontade de falar com ela, que jaz ali estirada na areia como se não houvesse coisas mais importantes no mundo para fazer. Por isso me calo e te escrevo. Ela não sabe ler, acho eu, e se por acaso o soubesse, naquela posição não ia conseguir ver nada.
Mas te escrevo porque sinto medo de sair por aí a correr, entrar-te e ir a caminho da linha recta que é curva, querer saber profundamente dela, lhe sentir o cacimbo me humedecer até nos ossos, lhe falar com amigos de que lhes tenho saudade de ouvir gargalhar, da Armanda, da mesa farta cozinhada pela D. Fernanda, dos cigarros seguidos da Di, de reaccionar a Té e lhe levar a levantar a voz até parece está zangada mas é só mesmo até ela descobrir que lhe descobri o ponto fraco, de ouvir o chorar da viola do Manel, de perguntar no Vasco a que horas ele ma vai buscar no Mussulo, mesmo hoje que tem cacimbo que não lhe deixa nem ver.
Sei que é difícil mudar sem a gente conhecer a gente no seu todo de interioridade profunda que não transparece na periferia. Sei que é difícil ficar sentado na esperança, que é impossível voar no vento e caminhar sobre palavras até lá lhe chegar.
Não te parece lógico o que eu te escrevo? A mim é mais lógico que a própria lógica, logicamente.
E assim deixo o lápis rabiscar estas palavras que te vou entregar em mão própria para não se perder num mão em mão até à mão final, com o acrescento de pontos e letras que essa via pode acrescentar,
Zulmarinho, fica a saber que toda esta sensação é de quem anda perdido, desamparado, desequilibrado de não ter nada para além da obscuridade de lhe ser ninguém, de sentir frio porque está sozinho neste infinito de longe.
Escrevo-te zulmarinho, para que saibas que me abraço e não me sinto calor, porque fecho os olhos e não me acho.
Escrevo-te, zulmarinho, porque quero que me tires o medo para poder estar comigo e encontrar-me completamente onde quer que eu esteja. Quero sair deste buraco e poder ver o sol mesmo quando a noite estrelada invade este canto.
Te escrevo, zulmarinho, porque foste sempre tu que sentiste as minhas emoções e me deixas acom uma paz que me ilumina, mesmo quando a tempestade se cai dentro de mim.
Te escrevo, zulmarinho, porque sei que vais ler esta carta e me vais dar a satisfação de responder, mais cedo ou mais tarde, antes de enloucar docemente.

Sanzalando