Ouço uma música suave e vou pelos caminhos dos sonhos como quem vai flutuando num mar de ilusões. Algumas vezes a minha parte infantil, a criança existente dentro de mim, deseja sair e chorar por tudo o que não chorou quando devia, pelos julgamentos feitos ao longo dos tempos, pelas proibições sofridas, pelos gritos calados, pelas injustiças injustificadas. Mas eu, o adulto, repreendo-me e reprimo-me porque entendo que a idade do já era se foi e esses pequenos detalhes prescreveram nas coisas positivas que significativamente lhe foram dadas à criança interior. A realidade devolve-nos às prestações e nos enche o coração de brilhantes brinquedos imaginários para nos felicitar e nos tornar seres felizes. Esqueço as birras e levo-me ao jardim da imaginação andar de baloiço e escorrega, de carrossel e comer algodão doce num ar de felicidade interna.
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28 de novembro de 2023
27 de novembro de 2023
do passado ao presente
Até ao presente eu me tenho sentado a olhar esse zulmarinho e vagabundado por pensamentos, sonhos e desejos como que eu precisasse filmar o conteúdo da minha memória.
De verdade que os sonhos são símbolos de aspirações, de esperanças ou desejos. Os meus filmes são palavras que associo ao mar angolano, num remetente de ligação profunda, numa cultura histórica que vem desde a placenta até aos sessenta. Esse mar não é mais a fronteira ocidental, física e intransponível mas é a minha real ligação de oportunidade e vivência ao solo natal.
Os sonhos poderiam ser apenas expressão poética dos meus devaneios, as imagens dos meus desejos e quereres, porém são mesmo o somatório do meu passado num chegar até hoje, dinâmico e variado na metáfora marítima da minha juventude.
É importante notar que várias vezes quis sair desse registo sendo que a interpretação de cada um pode variar e o contexto da expressão é inevitavelmente ligado a Angola. Hoje quero sair, uma vez mais. Quero deixar os sonhos e desejos para uns momentos esporádicos e queria ficar num texto livre, actual, recente, criativo e ao mesmo tempo divertido. A minha diversão é fazer filmes de palavras, com cortes e montagens ao meu gosto e sabor.
Vou tentar e ver como me safo nesta aventura...
19 de novembro de 2023
silêncios
Me deixo por aqui num vaguear de sonhos e desejos, olhos postos num horizonte sular, num ponto e virgula da vida, numa exclamação interrogativa das duvidas existenciais e concluo que foram lindas as etapas da vida vivida. Houve momentos incríveis, outros interessantes, alguns apenas de aprendizagem, outros sem essência, aperfumados, desconseguidos mas mesmo assim recordados pela sua inqualificável significância.
Voa vagabundar-se em silêncios que por o serem não têm palavras.
16 de novembro de 2023
sou assim e depois
Eu mesmo sou assim e vou fazer mais como para deixar de ser? Mudar sem mudança na essência tem coisa difícil de conseguir. Eu também tenho vários problemas comigo. Tem coisas que não me gosto e vou fazer mais como para mudar. Cinzentou o cabelo além de começar a rarear que até parece uma manifestação sem adeptos. Vou pôr peruca daquelas de cabelo castanho claro ou preto negro de mais preto que carvão? Me olho no espelho e vejo este jovem com cara de mais velho parece é nascido faz mais anos. Me vou fazer mais como?
Adaptei os olhos ao que me vejo, sorrio e logo me vejo como eu gosto de me ver, sem necessidade de me encher o saco com dialéticas inconclusivas.
Sou mais ou menos assim: que quando me chamam eu vou, quando me olho já cheguei e quando chego acho não devia.
Vou mudar para agradar mais a quem sem ser a mim mesmo? Me deixo estar sentado a ver o mar e olhar para lá do meu mundo.
14 de novembro de 2023
dor
Como dói o passado não ser presente e o futuro esquecer o passado. Como dói eu não ser o que desejo ser quando o quero ser. Ardem-me os olhos das lágrimas que já chorei e me secam-se os lábios com os beijos que não dei. Dói-me o peito dos amores que amei, dói-me a alma dos segredos que guardei.
Sabes, não me dói ver as cinzas da juventude voarem sobre os ventos da idade. Não me dó ver as memórias serem esquecidas, fruto do peso da idade.
Dói-me o medo de não ver mais vezes as miragens do deserto, de não sentir os frios das noites longas dos descampados areais por onde andei.
Não me dói o silêncio nem a solidão.
Dói-me a loucura das palavras ditas sem pensar, dos gestos feitos sem reflectir e das acções irreflectidas dos que passam na vida sem darem por ela.
Não me dói amar. Não me dói ver-te. Não me dói sonhar-te.
Dói-me a tua lágrima, a tua solidão e o teu silêncio. Dói-me ver-te sem brilho a navegar num mar insano sem destino nem rumo.
Meu doce amor não dói.
13 de novembro de 2023
mar
Me deixo embalar ao som do zulmarinho. Calmeiro tempo de frio e ele ali sereno que nem uma onda parece que esboça. Eu se me deixasse a olhar eu ia ver parece-me uma aguarela azulinha vista desde aqui. Para ele eu sou invisível, inexistente ou um deixa para lá que há muitos. Para mim ele é um mais que tudo, a minha ligação ao outro canto do mundo.
Me deixo levar na musicalidade dos sons e silêncios deste lugar como se o seu som fosse um abraço que me abraça.
Eu sou mar, eterna paixão.
11 de novembro de 2023
a gente tem, precisa é encontrar
Tem dias a gente acorda e diz que vai limpar a cabeça, vai esvaziar o coração e tudo vai recomeçar do zero. Conversa fiada. Tudo que ficou para trás está gravado que nem tem mais lixivia para limpar. Grudou na alma parece é tatuagem, queimadura de ferro em brasa. Não há forma de zerar o conta quilómetros da vida. Recomeça partindo dos pressupostos anteriores, das alíneas corrigidas e várias retificações. É começar a olhar sem comparar, é dar sem esperar receber e viver sem pensar em ser grande. A gente é do tamanho que é e a gente tem tudo para trás para aprender. A gente sempre encontra um bocado de beleza na gente. Precisa só procurar.
10 de novembro de 2023
eu mesmo
Me sento por aqui e deixo o meu cérebro caminhar por aí. Vagabundo-me perdido no espaço e no tempo, sem pressa de chegar, sem tempo a contar e sem prisões para me limitar. Vou só assim, de pensamento em pensamento e verifico que é tão bom que as pessoas mudem, que as feridas sarem e as dores desapareçam. É tão bom olhar e não ter limites para o pensamento, encher o peito de ar num inspirar profundo e dizer que bela vista tenho desde aqui, mesmo que de olhos fechados consiga ver o poder da imaginação.
Me sento por aqui e não sinto saudades dum abraço, dum olhar ou simplesmente dum sorriso porque os tenho dentro dos meus pensamentos. Melhor para mim do que eu?
7 de novembro de 2023
espero
Tem dias que fico á espera feito ingénuo e se calhar com cara de parece que é parvo. E que espero eu? Quantas vezes nem eu sei. Tem vezes que é um sorriso, outras uma palavra ou um cumprimento e a maior parte das vezes de um olhar.
Quantos sorrisos guardo na memória? O teu, o dela e o dele, e daquele outro e outra. Um brilho de olhar um esboço de sorriso.
E às vezes eu fico à espera em vão, que não é de escada nem escalada para um sofrimento que não sofro. É só porque esperei com cara de parvo e ar ingénuo.
Não me fazem falta porque os tenho de sobra, mas espero sempre e me atormento no momento porque não gosto da minha cara de parvo.
3 de novembro de 2023
mundo
Olha só como é lindo o mundo visto daqui para o horizonte. Esquece os ruídos, os pós e as guerras, a fome e a sede, o bom e o mau. Faz de conta estás aqui sozinho no meio deste vasto campo de visão, o teu horizonte real e momentâneo. É lindo e silencioso. Esquece as borboletas, o cantar dos pássaros, as gargalhadas, as lágrimas e as dores e vê só como é lindo.
Te encontra só nesse recanto de olhar, tudo parece ter harmonia. Confia só em ti e vais ver o equilíbrio que se instala através desse olhar. Não tentes aliviar dores alheias sem aliviares as tuas e admira essa beleza de vista.
Agora, devagarinho acorda, olha em toda a tua volta, pensa e imagina como é possível estarem a destruir tudo o que daqui a tempos não verás.
2 de novembro de 2023
minha caixa de tesouro
Daqui onde me sento o horizonte parece um já ali. Olho-o e lhe desejo chegar perto, como se tivesse vontade de largar este lugar e caminhar por aí fora até lá. Se me perguntares porque eu nem sei como te dizer. Só apetece ir ver o horizonte de perto. Como é que eu te vou dizer que às vezes custa comunicar o que sinto porque eu mesmo não entendo o que sinto. Se calhar eu preciso de alguém com muita paciência para me traduzir este silêncio sentimental, esta gritaria surda dos meus pensamentos.
Aqui, onde o horizonte é um quase ali, lhe sinto como esse futuro que me segura a alma e me aperta o coração. Acho que nesse horizonte eu vou guardar todos os meus passados como se ele fosse uma caixa de tesouro.
1 de novembro de 2023
os eus
Me deixo estar aqui sentado a pensar como vou dar a volta ao meu escrever. Na lógica eu sou assim e vou mudar mais como e porquê? É que às vezes eu me sinto cansado de me procurar e num tem como me achar de outro modo. Às vezes eu até que gostava de ser de outro modo. Tás a ver assim rezingão como aquele um dos sete anões? Ou ser como o outro e falar apenas silêncios. Mas na minha essência eu não ia ser mais eu e ia ser outro e ficava difícil fazer diálogo entre esses dois.eus.
Uma birra, um silêncio e um copo para três. Os dois eus e mais algum que entretanto apareça. Afinal de contas eu vivo naquela linha assim quase que invisível do não dizer nada para evitar o conflito ou dizer tudo e desconflituar num encolher de ombros, porque a vida é só conflito, interior e exterior ao nosso eu.
30 de outubro de 2023
o meu tempo
Me sento na esplanada e deixo tempo passar enquanto vou olhando para as minhas janelas de vida. Eu também tenho as minhas janelas do tempo.
Tenho as que já fechei de vez, mas lhes olho só para me recordar, mas não as abro para entrar poeira nem outras poluições. São tempo irrepetíveis e que não podem de maneira nenhuma serem retomados, tocados ou retocados.
Tenho as que embora fechadas podem ser abertas, usadas ou retomadas. Janelas indefinidas, temporariamente encerradas.
Tenho as que ainda estão abertas e prontas a serem usadas, modificadas, concluídas ou só vividas.
Portanto, eu não preciso estar todo o tempo a acertar o tempo, apenas me esforço pra fazer o meu melhor em cada tempo, sabendo que o erro faz parte dele e que é preciso saber viver com ele e saber que o tempo tem tempo para corrigir o seu tempo.
27 de outubro de 2023
um dia de outono
Beberico a minha cerveja gelada, olho o horizonte de céu limpo e tento ver o que há para lá do que os meus olhos alcançam.. Deixo a imaginação vagabundar sobre memórias e certezas estudas em livros científicos, com a certeza que a minha incerteza é absoluta, que o meu estar é um passageiro que há de sair numa qualquer paragem mais lá para a frente e desde já com a reafirmação que sairei dela contra vontade. Porém agora, sei que não ando por aí a distribuir sorrisos, palavras de abraço ou olhar de beijo. Mas quando o faço é de coração, sem nada querer em troca a não ser o egoísmo de me sentir feliz. Não me dói não haver retorno, nem me entristece olhares secos, marafo-me porque não consigo fazer alegria.
A minha vida não é ser palhaço, não é contrariar decepções, desconstruir castelos de tristeza. Talvez seja suavizar as lágrimas, esboçar sorrisos em rostos calcificados ou transportar soluções voluntárias para apagar fogos de alma. Talvez, mas nem eu sei a certeza.
Beberico a cerveja suave e calmamente, sorrindo com a alma leve de poder sair por aí de imaginação e memória livres.
O céu está limpo, o zulmarinho calmo e eu tranquilo num dia de outono
26 de outubro de 2023
acasos
Quantas vezes dou comigo a pensar o que eu teria sido se não tivesse seguido o caminho que percorri? É um exercício meramente filosófico pois a incógnita e a dúvida permanecerão independentemente do que eu possa pensar. Eu nasci com um certo potencial, fui criando sonhos e desejos, fui alterando sonhos e quereres, fui vivendo ao sabor de tantos acasos que por acaso cheguei ao ponto de estar a perguntar o que teria sido se não tivesse seguido o caminho que segui. Eu tinha asas e voei. Umas vezes ao sabor dos ventos e outra contra tempestades e contrariedades. Não rastejei, não supliquei, porém, vezes sem conta também errei.
Aqui, neste agora, neste estranho momento em que me penso, nada me é estranho embora fruto de muitos acasos, por sortes e azares, cunhei a minha moeda, o meu eu de uma só cara e sem coroa.
Aqui e agora, desamarrando muitas prisões, preconceitos e parece mal, cheguei ao ponto de me perguntar se estou satisfeito com a minha imensidão? Acho que ainda tenho imenso para outros acasos.
25 de outubro de 2023
amor próprio
Sentado na minha eterna e salutar esplanada, onde a brisa nunca é vento e a chuva não passa de borrifos agradáveis, a minha gelada cerveja sabe que nem um delírio a escorrer pela minha garganta, dou comigo a a escrever em letras grandes, visíveis até por qualquer satélite espião, que a inocência se me acaba quando me tentam roubar a ilusão, o sonho ou a vontade de ser feliz. Ainda que agora tenha feito muitos anos que a minha revolução teve início, consigo trazer em minúcia todos os passos, todas as trincheiras, todas as guerras internas e externas e continuo a sorrir por ter um amor próprio que me alegra a mente.
Sanzalando
22 de outubro de 2023
a vida
Lá fora chove que até parece nos quer alagar ou compensar dos tempos que não o fez. Aqui dentro conheço a paz que os meus olhos distraidamente encontraram a olhar-te.
Lá fora chove e na minha alma há um sorriso de nostalgia, um misto de agradecimento e saudade, um sabor doce de vida vivida.
Lá fora continua a chover e aqui, no meus sonho, observo deleitado uma obra de arte: a vida
21 de outubro de 2023
olho
Olho para um horizonte que pode ser imaginário como ser real. Olho sem ver. Olho por sentir. Olho para ouvir que o silêncio é grande, tão grande quanto a grandeza das noites de luar que te serenatei sem nunca ter cantado, sem nunca conseguir compor o que quer que fosse melodioso. Afinal de contas o amor não se canta, não se dia: sente-se e mostra-se. É ele que se mostra, que se desnuda no dia a dia da vida. O meu olhar silencioso levo-o para qualquer parte, é alma rara que me elevou dos quadriculados infernais da vida metódica e me trouxe a paz da calma, a capacidade de sorrir e me transcreveu os silenciosos luares das noites tropicais que eu já não sabia de cor.
Olho para saber que o horizonte termina onde acaba a minha capacidade de sonhar, onde o meu sorriso termina quando uma estrela nova brilha no céu, sendo que eu não sou de ver estrelas, sendo que eu não vou para lá da tristeza. Olho para me ver, nos dias antigos e nos que hão de vir.
Sanzalando
20 de outubro de 2023
liberdade até ao fim dos meus tempos
Quantas vezes me senti perdido e afinal era só porque estava livre? Tem gente que se prende porque não tem o que fazer. Está livre e pode inventar, sonhar, divertir. Há tempo menos para chorar e lamentar. O tempo perdido é que não. Estar livre é um dom à mão de semear que devemos aproveitar para isso mesmo: sermos livres. Há quem se afaste para refletir e quem se afaste após ter refletido. Não vale a pena perder a liberdade só porque não me afastei ou porque me afastei. Escolhi por ser livre, refleti por ser livre. Eu sou livre para o ser, mesmo que me alimentem para o não ser. Venenos palavrosos fazem doer mas sou livre para lavar a mais suja das palavras venenosas que se me jogam. Sou livre no tempo. Só me limita a liberdade o fim dos tempos. O fim dos meus tempos.
18 de outubro de 2023
O artigo exposto é para consumo da casa.
Faz tempo parei de correr. Se tenho de ir vou, nas calmas, um passo seguro seguido de outro e por aí fora. Se medito, ou falo ou escrevo não vou ver se houve leituras. Já passei essa fase, assim como deixei de perguntar o que acham de mim. Eu pergunto muito é o que eu me acho, como é que eu estou e o que faço para estar ou deixar de estar. Eu escrevo ou falo é porque gosto. É tão bom gostar-me de mim.
Se me gostam, optimo, se não, paciência e temos pena. Eu me gosto e em primeira e ultima instância a aprovação mais importante é a minha. Não é difícil. Detesto comprar carinho, bajulação ou impotência. Já tenho à minha volta muita e até é de mais.
Bebo um copo, converso-me, olho-me e continuo a minha vida num valorizar-me para contentamento próprio. O artigo exposto é para consumo da casa.
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