recomeça o futuro sem esquecer o passado
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7 de outubro de 2021

amor de verão

Melancolia deve ser sinónimo de outono. É assim que eu sinto e é assim que eu falo. Neste outono, passados muitos anos, depois eu vou dizer que queria ter ficado há muitos anos atrás. Na verdade nessa altura o coração mandou mais que a cabeça. Hoje sinto que não pertenço a lugar nenhum. Nem aqui nem lá. Acho virei outra pessoa que não sou eu que era quando tinha aquela idade, nem sou o que seria hoje se tivesse feito outras coisas que não as que fiz. Não uso máscaras nem disfarces, nem me fardo ou desfardo ao sabor do tempo, eu sou assim de corpo e alma e o meu lar é o lugar onde estou. Agora estou aqui, neste canto de mim, rodeado dos que estão à minha volta, como diria se fosse uma verdade de La Palice. 
Acho sou feliz sendo quem sou, vivendo um constante amor de verão.



Sanzalando

20 de maio de 2021

des futuro

Muitos futuros depois deste presente, desde que te recusas a olhar-me, eu me pergunto se algum dia deste teu universo sentiste a minha falta? 
Neste presente, que ainda não vivemos o futuro da desunião, estudamos juntos, discutimos matéria, fazemos exercícios, multiplicamos ideias, velejamos, tiramos formação de formadores, sempre carregados de cumplicidade que não ultrapassa essa mesma cumplicidade. 
Se me apetecia tocar na tua mão reprimo-me por educação, por medo ou apenasmente porque te gosto tanto que te acho intocável.
Se eu tivesse poder de adivinhação eu agora, olhando para a tua varanda ia pôr-me aqui a imaginar se naquele futuro, depois de tantos vendavais da vida, quando os telefones deixarem de ser de ligar à telefonista num levantar de aparelho e pedir para ligar à casa de, e passarem a ser uma coisa de pôr no bolso e que em poucos anos deixam de ser úteis, tem que se mudar e com ele vem a mudança da lista de contactos, o meu nome será apagado ou manterias por lá não vá ser necessário? Eu sei que nunca esperei nenhuma ligação tua, nunca soube por interposta pessoa que tu me procuravas ou querias saber de mim, mas isso é uma estória que neste presente não tem lugar, porque eu vou ao teu encontro, mesmo quando não estás à espera.
Tenho mesmo de deixar de saber que o futuro estará cheio de desilusões e viver cada presente como único.

Sanzalando

28 de novembro de 2018

amor por acaso ou à toa

Faz um lindo dia de outono. Lá, do outro lado de mim, sei que faz um lindo dia de verão. Estaria de calções e chinelos, caminharia, estou certo, para a praia. Mas aqui, casaco sobre casaco, numa cebolada textil, deixo-me levar pelo falso brilho quente do sol.
Na vida, tirando o presente que é real, o futuro que é imaginação e o passado que é memória, há coisas que acontecem por acaso e outras que acontecem à toa. 
Uma história de amor pode ser chata, melosa, sem pés nem cabeça, absurda, tipo coisa sem futuro, ou pode ser uma história de cinema, um romance de 600 páginas. Quem escolhe a história de amor? Isso é cálculo e vai dar errado, porque as nossas escolhas vão estar carregadas de compartimentos, espartilhos e agarrados ao passado, desimaginados de futuro.
Por isso o amor nasce por acaso.
Daí eu concluir que no outono, numa noite de muita chuva, num dia de vento forte, se acontecer duas linhas paralelas se cruzarem, não liguem, isso foi à toa, isso é imaginação e não vai acontecer nunca. Esse amor é perda de tempo porque o amor nasce por acaso e não à toa. Mesmo no outono quando o falso sol brilha.


Sanzalando

5 de novembro de 2018

brilho de outono

Brilha sol e cai chuva. Um misto verão e outono na mesma hora e se calhar no mesmo minuto. Parece o tempo anda perdido na insuficiência dum coração. É outono e sufoca de frio num desentendimento interpessoal. É verão e brilha a alma num contentamento altamente contagioso. Sanduichou o tempo. Misturou sentimentos. Mas tal como eu, o tempo não desiste e a vida, agasalhada ou despida, segue indesistida, umas vezes rasteirando, outras segurando, umas vezes fácil, outras difíceis, umas vezes alegre, outras tristees, umas vezes gargalhando, outras chorando.
É outono e quando eu achar que tem obstáculo impossível de passar, eu não corro. Tento só lhe vencer


Sanzalando

4 de novembro de 2018

vou passar a madrugada

Parece é verão. Um verão outonal, leve brisa refrescando o ar que vem do zulmarinho, pequeno assobio cantando nostalgias e eu de telemóvel na mão telemográfo o que os meus olhos vêem e a memória já é capaz de perder, registando o momento como se usasse uma velha nova máquina fotográfica.
Há quem diga que adora a madrugada e eu, com o passar dos tempos, passei a notar que a madrugada já não me mostra nada de novo senão um cacimbo peculiar, uma trovoada de pensamentos de futuro, umas insónias abafadas pelo silêncio, um intervalo entre o fim dum e o começar de novo dia. 
As madrugadas são para os que sofrem de amores, os loucos e poetas, boémios e líricos e que manhã cedo já não sentem nada.. São para os que carregam o peso da emoção, os tremores do universo, os que interiorizam as estrelas e têm a solidão por eterna companheira.São para os que amam as ruas vazias, o cintilar das estrelas, as luzes frouxas das ruas. As madrugadas são para os esquecidos que não se lembram que existe noite e dia.
Vou passar a madrugada até ser dia.

Sanzalando

7 de outubro de 2018

Fácil outono

Palidez do ar não esconde o quente zulmarinho que marulha aos meus pés numas ondinhas de timidez. Transpiro ferozes ais dum paludismo de memória. Paludismei-me. Quem me disse que eu conseguia parecer fácil o que é difícil na realidade? Encharcado me atiro de cabeça ao zulmarinho. Delirio, penso. Convulsiva-me a alma, imagino. Cheguei ao estado de loucura, afirmo-me.
Afinal de contas é apenas um dia quente e ventoso de outubro e cacimbo-me de ideias reais que nunca aconteceram.
O zulmarinho está quente outonomamente.

Sanzalando

31 de outubro de 2008

meu semba



Afinal de contas porque ando a divagar se posso simplesmente estar calado?
Dentro de cada um de nós existe um mundo interior, de pensamentos e sentimentos. Sei que é invisível porém tem uma força enorme esse interior mundo.
O meio ambiente que nos rodeia, com todas as suas alterações momentâneas, permanentes ou ocasionais, é o resultado da nossa atitude mental que predomina. O mundo externo é o reflexo do interno.
Exemplifico, se conseguir encontrar as palavras certas. Há dias que um dia de chuva tem algo de maravilhosamente belo e outros em que é uma grande chatice. Portanto, podemos mudar o mundo exterior mudando o mundo interior.
Bem, vistas as coisas, medindo os prós e os contras, é melhor não divagar por hoje.

Sanzalando

30 de outubro de 2008

eu queria tanto

Eu queria tanto ir. Sabes, não sabes? Se eu pudesse eu ia. Mesmo sabendo que o meu ir se calhar ia contra a tua vontade.
Se eu fosse se calhar eu ia ouvir dizer que não devia ter ido, que não ia comer o teu pão, beber a tua água e tocar a tua alma.
Mas eu queria tanto ir. Queria brincar na areia, pés descalsos como fazia quando era kandengue, jogar ao garrafão, trouxa-lavada, picles e outras coisas como o prego.
Mas eu queria tanto ir e voltar a ter a gargalhada facil, olhar inocente.
Eu queria tanto ir, esvazear as tantas garrafas de vinho barato, desenvelhecer antes de ser atirado num buraco.
Eu queria tanto ir e continuar a ser banal.

Sanzalando

29 de outubro de 2008

esperança

Observo o teclado do computador com o olhar fixo na esperança que as letras se ordenem em palavras para que eu as utilize. Encontro uma palavra e, palavra puxa palavra, ela parece que me pede que eu fale dela.
- Traços negros em fundo branco, neste meu caso concreto, as letras se conjugam num som cujo o significado procuro.
Cliques e claques da força de martelar as teclas se fundem no ambiente proporcional do meu êxtase. Estas palavras são minhas filhas. Eu sempre as sonhei. Ou não. Legítimas, ou não. Enfim, rezo a uma virgem inspiração na esperança de encontrar as ditas palavras que procuro.
Afinal de contas eu o que tenho é esperança de vir a ter esperança de ter futuro um dia.

Sanzalando

28 de outubro de 2008

um dia especial


Vou olhar-me ao espelho? Tentar recordar todas as caras que tive? Poucas ficaram na memória, umas esqueléticas a contrastar com outras a dar para a bolinha, todas sem qualquer significado marcante. Um cabelo negro farto, rebelde na risca ao lado, deu lugar a um grisalho reles de meio centímetro, vulgaridade. Umas orelhas que imitavam um aeroplano deram lugar a uns lindos pavilhões auriculares que cada vez mais se escusam a ser meros suportes de próteses oculares que escondam o olhar pagado do tempo feito.
Bah!
Olhar o espelho e pensar o que eu podia ter feito e que ficou por fazer numa qualquer estante da minha imaginação, já coberta de teias de aranha, pó fino de muitas cores em que mais tarde os arqueólogos se iram debruçar na tentativa de desvendar a minha existência, não me leva a remédios mentais.
Olho ao espelho apenas para me ver quando me tenho saudades.
Hoje vou é olhar para a janela.
Já sei que não vou ver nada. A neblina espessa continua a pairar no meu coração e as sombras escurecem-me a alma. Ponho as mãos magoadas sobre o frio vidro das janelas. Sinto alívio mas não o descanso de ter andado a escavar os alicerces da minha existência. Vejo a impaciência do vento como que se estivesse à espera que eu abrisse a janela. Ouço o silêncio do nada a toldar-me o corpo.
Toca o telefone. Eras tu. E tu. Tu. Tantos tus.
Sorri e passei a ter um dia feliz.


Sanzalando

25 de outubro de 2008

dor de cabeça

Vá lá. Dói-me a cabeça. Mas o que é isto de reflectir? O que é isso de pararmos para pensar? Mas se é assim é porque é assim e não vale a pena perdermos tempo matutar. Chamaste-te Maria e tu Manuel, ele Joaquim. Porquê? Mas o porquê aqui tem algum significado? Foi um acaso. Mas porque é que eu vivo onde vivo. Porque sim. Mas porque é que sou como sou? Porque sim. Se eu soubesse a resposta dalguma destas perguntar alguma coisa ia mudar? Já me basta ter de pôr gravata para parecer alguma coisa. Insignificante, por exemplo. Não higiénico, também. Mas para quê perguntar-me isto tudo.
Mas porque é que eu só vejo os meus defeitos se eu sei que também tenho virtudes?
EH. Tudo porque me dói a cabeça.

Sanzalando

24 de outubro de 2008

o que é real

Me vejo aqui sentado de corpo a voar pelas esferas do vento. Ver, sentir e acreditar nesta realidade como se fosse uma borboleta no seu voo entrecruzado a caminhar no ar.
Duas linhas irreais. Falo irrealmente. Descubro que ainda sou capaz de caminhar no ar. Basta-me querer!
Já me transpiram as mãos, a realidade não é como nós cremos que seja, é simplesmente como ela é.
Saltam-me os olhos da cara porque os sonhos podem ser pesadelos.
Afinal de contas o que é real?
A esperança sei que é.

Sanzalando

23 de outubro de 2008

espaço em branco

Me acabo de descobrir que existe em mim um bocado que ainda não foi descoberto. Além do lado escuro da minha vida ainda tenho o lado não descoberto. Isto é que estou a ficar que nem um baralho de cartas depois de bem misturadas.

Isto tudo foi mesmo mais porquê? Porque me perguntei em voz alta o que é que eu quero mesmo da vida. E a resposta foi um longo silêncio que ainda não terminou.

Será que não há um bocado de mim que conheça essa parte e diga a resposta assim num bem alto para eu não ficar com dúvidas?


Sanzalando

22 de outubro de 2008

Outono em mim


TSSSSS que já está a ficar é de manhã. Abro só um olho de cada vez para ver se ainda não são horas de acordar, mas me desengano porque o dia está a romper, o vento sopra porque é tempo dele soprar com força que até arranca as folhas das árvores e as palmeiras até que parece dançam um semba que não lhe ouço.

Chiça que ainda por cima está de chuva e o barulho do vento mais a da chuva me fazem apetecer ficar aqui com os dois olhos fechados a escutar a música deles.

Tsssss, tem mesmo de fazer força para combater essa coisa da inércia, que devia estar de férias e me deixar ficar aqui deitado que nem um sorna.

Mas afinal de contas quem é que vai notar se eu apareci ou não?


imagem: Museu da Escravatura - Luanda
Sanzalando

21 de outubro de 2008

marinheiro de água doce

Deixo percorrer na minha cabeça as mais que muitas ideias que lhes apetecem aparecer. Hoje mesmo estou aqui a olhar assim como que para muito longe que eu nem consigo ver de verdade mas só mesmo num ver de pensar.
Vou num barco que visto de desde lá do céu parece assim uma casaca de noz, o cordame range parece está a cantar uma canção de dor e o vento não pára de assoprar como que a me mostrar que tem força para me levar.
Parece vou na aventura do caos, à procura de tempestades que me rasguem as frágeis velas da minha casaca de noz.
Contra a canção de dor eu me canto canções de embalar. Me deixo adormecer em mar alto como se eu fosse um marinheiro.
Ai uê, mamãe, acho de me ter lembrado agora que eu não sei nem nadar por isso é melhor eu ir assim numa de ir a pé, devagar, olhar as estrelas e sonhar.

Sanzalando

19 de outubro de 2008

o mar de mim


Às vezes consigo ouvir o mar e lhe vejo milhares de gaivotas na areia da praia como se fosse um dia de verão.

Meus olhos se enchem de mar quando lhe vejo a espraiar ao ritmo do bater do coração.

Mas têm sido poucas vezes as que ouvindo o mar eu lhe consigo escutar.

Mas têm sido raras as vezes que lhe vejo parece me está a chamar.
Às vezes me apetecia estar fundido num abraço de água, seguir no meu bote de imaginação e como uma carícia lhe navegar numa melodia de serenidade. Às vezes me apetece ver os segredos nas mensagens das ondas como se um código fosse.
Às vezes o mar me entra e me afogo de nostalgia.



Sanzalando

18 de outubro de 2008

duvidosamente duvido



Eu sei que devia estar ali mas não estou. É um devia de dever moral. Umas vezes sinto que seria uma obrigação. Engano-me. Posso, não?


Mas a verdade é que eu devia estar ali. Devia, o que não sei é mesmo se devo.
Um dia me disseram que os sentimentos morrem. Duvidei. Duvido. Modificam-se. Ou não. Mas se morrem, estão mortos e portanto não voltam. Pelo menos para mim que não acredito em fantasmas.
Enganei-me outra vez? É claro que posso, ou não?
Mas afinal de contas porque é que eu te sinto perto de mim, por vezes reles, outras pressionante, outras intensa e não estás onde devias? Lá, sossegadamente lá.

Não entendo como posso perder este tempo a pensar-te.
Já sei. Estas poucas linhas, tal como tu, não deviam estar aqui.


Sanzalando

17 de outubro de 2008

já sei que sou um Outubro

Correm-me pela cara lágrimas caté me parecem é de sangue. Já sei que ninguém as vê. Lágrimas de impotência, de tristeza e de vazio. Já sei que ninguém as vê.

Só eu que as vejo, que as sinto. Só eu que as choro.

Afinal de contas não sou mais do que sou e tenho que convencer-me que nada sou, nem frio nem calor, nem noite nem dia, mero espectador duma vida.

Mais nada sou que as minhas pegadas e as minhas recordações.

Sou um Outubro cinzento a ver se me encontro.




Sanzalando

16 de outubro de 2008

viajarei ao deus dará


Acho vou mesmo entrar no mundo, lhe viajar e lhe conhecer todos os cantos mesmo os que sejam redondos que nem rotundas. Me apetece viajar para lá das estrelas, desviar-me de asteróides. Motor para isso. O que é que é mais rápido que o pensamento? Me diz só se para viajar é preciso tocar com as mãos.

Olha só essa paisagem linda que está que nem aí na mão que faz a sementeira. Agora põe o calor insuportável, lhe bota o cheiro nauseabundo que vem da lixeira que fica quase que nem a cem metros, lhe coloca os mosquitos e outros insectos visíveis mais os invisíveis. Deu mesmo o quê?

Nas estrelas não podemos nem tocar. Olhar apenas e deixar o sonho nos levar para lá da realidade.

Galáxias que me tornam insignificante.

Vou viajar num mágico pincel de pensamentos.

imagem da internet
Sanzalando

15 de outubro de 2008

introspecção ao vazio

Dia cheio depois duma noite agitada. Imagina só assim uma orgia mental que até parece te estão a arrebentar com a cabeça, saiu um almoço com amigos daqueles que bebem mais que a própria pipa e comem mais que um supermercado acabado de abrir.
Chego a casa e directo no duche. Aqui, quando a água me empapava todo é que eu me assustei num assustar que acho até me gritei para dentro. A minha alma se tinha ausentado. Foi dar uma volta. Eu não conseguia pensar em nada, assim como nada parecia estar a acontecer à minha volta. Fiquei estático enquanto a água me cobria. Pensei eu estava cego pois o vazio da minha cabeça apanhava os olhos também. Paralisei-me por instantes. Desalmei-me de todo. Olhava-me para dentro e via o nada. Me derreteu o corpo através do medo de poder ficar assim para sempre. Eu sem alma. Eu a circular desalmado, carregado de vazio numa dor poética. Afinal de contas já alguém me tinha dito que quem não sabe povoar a sua solidão nunca saberá ficar sozinho na multidão. Mas também não era preciso eu ficar assim num repente sem ser avisado, preparado, treinado.
Saí do banho. Deitei-me e logo desatei a sonhar que estava a sonhar. Lutei materialmente com a minha alma e foi esta que venceu.
Hoje, quando reflicto neste episódio sinto que perdi umas horas desfeitas em vazios.
Afinal de contas todas as dores e felicidades têm os seus tempos.

Sanzalando