recomeça o futuro sem esquecer o passado
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19 de novembro de 2024

eu tal e qual

Deito-me na areia da praia, olho o mar, vejo a lua reflectida como que a querer ser fotografada, deixo-me levar por fantasias, por sonhos, desejos e outros quereres que não me largam faz tanto tempo que eu já não sei se são sonhos ou calcificações mentais.
Deixo o corpo relaxado sobre a areia neste outono quase de verão, mas real na vida, e navego por idades que desperdicei, que gastei, que usei e poucas em que abusei. Gosto-me de ver. Saboreio-me de sentir. Desejo-me de viver.

Sanzalando

6 de novembro de 2024

Os inesquecíveis

A vida continuará seu dia a dia, enquanto eu continuarei a tentar esquecer alguém inesquecível. Temos todos um certo nó na memória quando queremos esquecer algo que é inesquecível. Por isso a inesquecibilidade do dito.
Tenho nós. Apertados alguns, outros mais laços, porem continuam a fazer parte do mesmo conjunto, Os inesquecíveis. Eu bem que não queria lembrar-me certos alguéns. Coisa pouca. é certo. Mas o facto é que volta e meia lá me vem à cabeça, assim como que a rodopiar em bobine cinematográfica os inesquecíveis que quero esquecer. 
Vou fazer mais como? Volto a pôr na prateleira para mais tarde me esquecer, sabendo antemão que mais cedo ou mais tarde eles tomam-me conta dos minutos. Infalivelmente. Fecho os olhos e vejo-os. Tapo os ouvidos e ouço-os. Olho para lado nenhum e lá estão eles aprumados prontos a recordar que fizeram parte de algum momento da minha vida. 
São poucos. Mas o facto é que são. Os inesquecíveis de mim para mais tarde recordar. É certo e sabido


Sanzalando

3 de novembro de 2024

cada dia

Cada dia que vai passando eu cresço. Não só na idade. E se choro, não é de saudade nem de dor. É por emoção, pois eu não sou um robot, uma máquina repetitiva de sorrimos e ideias geniais. Com a idade vamos aprendendo a ver as coisas como são e não como somos. Em criança acreditamos na imortalidade, desconhecemos a doença, ignoramos o limite. Com o tempo tudo isso vai chegando, tudo isso vai crescendo em nós. 
Como diz Luís Fernando Veríssimo, é melhor vivar cada dia como se fosse o último porque um dia nós acertamos.


Sanzalando

28 de outubro de 2024

escrevo-me em dia de aniversário

Hoje é o meu aniversário e parece-me esquisito estar aqui a falar para mim mesmo, desenhar palavras para mim. Há quanto tempo eu não me escrevo ou eu não leio o que escrevi faz tempo? Na verdade, eu nem sei se gosto de me escrever e muito menos de me ler.
É estranho. Uma forma de ser feliz mas ao mesmo tempo uma forma crítica de me ver. Distorço-me, desfaço-me, desprego-me e nem parece fui eu quem me escreveu.
Será que quando eu me escrevo eu estou a pensar em mim ou sou simplesmente eu a pensar e eu não me conheço como leitor? Será que escolho as palavras que gosto de escrever e não as que eu gosto de ler? Ou simplesmente escrevo sem ter em conta que sou eu quem vai me ler? Será que me dou folga quando me escrevo e faço-me outro?
Tive muito tempo para me pensar nesse passado que vai longo e não tive tempo para me concluir. Acho mesmo que embora o tempo passe eu desconsigo saber quem me escreve, quem sou e quem serei. Sei apenas quem fui.
Desejo só que eu esteja bem, feliz e que segure as minhas recordações como forma de ser, como forma de estar e como serei.
Feliz aniversário para mim.


Sanzalando

26 de outubro de 2024

abraço congelado

Fica fechado na minha cabeça, no armário da memória, na prateleira dos arrependidos aquele último abraço que não te dei. Não sabia que me estavas a dizer adeus. Não imaginava que estavas a mandar-me embora de coração destroçado mas ar altivo para um sempre que vai quase na metade de um século. Pensei era mais uma das tuas caras de até amanhã que hoje estou zangada. Estranhei-me que um dia, outro e outro se passaram marcados por silêncio.
Tentei falar-te mas o silêncio e a ausência eram sólidas evidências.
Fiquei comum aperto do peito, uma dor nos braços e umas lágrimas nos olhos.
O tempo foi passando. O silêncio manteve-se. A dor no peito foi-se aliviando até ao ponto de eu já não lembrar mais, os braços fizeram outros movimentos e deram outros abraços. O tempo lento ia andando como que novos caminhos fossem desenhados na minha cabeça. Uma ou outra madrugada, um ou outro momento de solidão, vinha-me à memória a vontade daquele abraço que não dei.
Congelado no tempo ainda encontro esse tal abraço, conservado e pronto para ser usado. Como é possível que o tempo de conservação seja tão longo quando o abraço foi desperdiçado no esquecimento de há quase um século?


Sanzalando

22 de outubro de 2024

tormentos de quietude

Se a alma está cansada vamos fazer mais como? Dormir descansa o físico mas os pesadelos continuam a exasperar a alma. Ver o mar só num assim de estar faz virar o mar chão em calema. Olhar o céu azul faz virar o céu branco de construções de nuvens que parece é um aglomerado de confusas formas. 
Ficar calado o cérebro pensa pensamentos em forma de palavras e sobressalta a alma.
Fica só assim num canto, numa sombra da noite e deixa a alma repousar. Ela vai repousar nem que seja depois do cansaço. 
Se a alma está assim pensa no que lhe fizeste. Nada?! Se calhar foi isso. Não fizeste nada e ela se atormentou de quietude.


Sanzalando

21 de outubro de 2024

intimidade

Nada é mais íntimo que estar o meu silêncio a olhar para lado nenhum e desenhar sonhos numa mente que rapidamente se esquece.


Sanzalando

15 de outubro de 2024

futurologia

Gostava de escrever uma carta como escritor de papel passado e certificado no bolso. Mas antes disso eu tenho de aprender a escrever. Não. Não é o mesmo que ler. Ler a gente ouve as palavras que o outro escreveu. Eu queria mesmo é que estivessem a ler as minhas palavras ditas num papel de livro. Assim como que um livro não é uma catrefada de palavras escritas numa molho de papel. O falar a gente diz e as palavras vão embora e se perdem no ar, No livro estão ali. Podem sempre ser buscadas sublinhadas ou riscadas. Cada palavras é um pedaço de mim ali tatuado de forma eterna. Risos, pensamentos ou tristezas e emoções ali gravadas.
Mas quem sou eu para escrever um livro que fale de mim e da resma de coisas que tenho dentro de mim? Quem sou eu para quebrar o silêncio da minha existência apagada ou deslustrada pelo tempo que passa?
Sim, eu sei que sou o melhor escritor que tenho dentro de mim, mas quem me faz escritor seria quem um dia me leu.
Nesse futuro incerto que teve um passado em que registei nas palavras que um dia gravei numa folha de papel já não com tinta de chumbo nem caracteres postos uma a um como no tempo em que os livros hoje tenham cheiro a pó, nem com os vocabulários da literatura erudita, sublinhados e grafitados por cima numa linguagem mais simples dirão que eu tinha o estilo característico de mim mesmo. As palavras são a cópia dele. Futurologia.


Sanzalando

7 de outubro de 2024

porque escrevo

e eu me pergunto: porque escrevo?
um dia, quando souber escrever, depois de muito treinar e muito deitar fora, eu vou escrever. É claro que vai estar o eu de mim nas palavras que eu escrever, mas eu vou só fazer de conta que nem sou eu que me estou a limpar de forma solitária.
abstraído do ruído do mundo encerro-me em cada palavra e, com sentido, vou me transparentizar numa forma de desenho que em vez de traços e pinceladas, leva letras e frases feitas a desfazerem-se em sentido. deixa só aprender a escrever direito, assim como que nem os clássicos, os modernos e vanguardistas, e vou levar-me livro dentro que nem fantasma encarna no corpo do leitor. Se não tiver leitor fica só encarnado na capa até que apareça um num futuro qualquer se ainda houver mundo. 
o livro que eu escrever é para ser lido lá mais para a tardinha, quando o mundo estiver sossegado, quase depois do pôr do sol e antes do cair da noite escura.
mas porque escrevo agora se é para ser lido só nessa tarde quase noite?
descomplica-me. Tem gente que gosta e tem gente que nem vai ver. Um dia num acaso alguém vai abrir e me vai desnudizar as palavras que eu agora escrevi. Vai dizer ele estava assim e assado e coisa mais que tal. Quem ler vai ter a liberdade de pensar que nem como eu, ou diferentemente. É livre de ler como entender, da mesma maneira que eu escrevi livre e transparente. Igualdade, fraternidade e liberdade, são as letras que formam as minhas palavras, que fazem as frases e depois os parágrafos e por aí fora que nem lembra ao diabo. Mas escrevi. Eu escrevi. Agora só falta tu, você, alguém, ler para dar continuidade ao texto. Sem leitor ele para aqui.


Sanzalando

24 de setembro de 2024

que razão

Talvez tenha sido na hora errada ou eu estava erradamente a pensar num errado futuro. Quando nos conhecemos me desligaste completamente. Não foi indiferente, foi mesmo clara e abertamente que viraste a cara para o lado. Era a minha hora errada. Talvez um dia, numa hora qualquer desta ou outra vida, num café ou num lugar qualquer, desimporta-me, nos cruzemos, nos olhemos e dirás que foi bom não nos termos conhecido naquele dia, naquela hora e naquele lugar.
Passou o tempo e a razão onde andará?

Sanzalando

23 de setembro de 2024

descrito ou não escrito apenamente pensado

A vida de outro alguém me é indiferente se não se cruzar na minha. Não sei mais nada do que os meus olhos me possam dizer. A intensão de saber mais nem me passa pela cabeça. Quantos são os que mostram uma paisagem e escondem uma realidade fria e cinzenta? Não falo dos sem abrigo nem de quem passa por fases menos boas da vida. Falo mesmo daqueles que uma vez eu conheci e que agora desconheço completamente. 
Uns desapareceram na vida como assim por artes de magia, outros por razões conhecidas e alguns por pesadelos e insónias. 
Da mesma forma que não discuto assuntos que tenham a haver com a fé, paixão ou coisa similar, não cientifica nem palpável, tem gente que é mesmo melhor a gente não ter conhecido.


Sanzalando

19 de setembro de 2024

Queria

Queria deixar de me sentir de mãos e pés atados quando não estás.
Queria deixar de ser pó que sujam paredes, grandes e pequenas.
Quem me dera saber tudo o que aconteceu nos últimos cem anos e ver todo o anterior mundo e imaginar saber como é que eles viveram sem o saber destes últimos.


Sanzalando

18 de setembro de 2024

despido de pensamentos

Por instantes perdi-me na rua da imaginação e desencontro-me nu de ideias e pensamentos. Vou assim num pensar mais do mesmo ou vou variar num modo de ser pequenino no meio da velha idade que trago? Sentei-me num lancil a olhar cada carro que passava. Adivinhava o ano em que foi fabricado. Não sei quantos acertei ou errei. Não era importante. Queria era pensar e tentar desempenar a fábrica dos pensamentos e desimpedir a rua da imaginação. 
Continuei despido. Nem uma palavra literária saiu. Bronca mental, pensei. Ups. Pensei um pensamento que foi Bronca Mental. Não está mal de todos. Estou despido porem não parado de pensar. Só simples pensamentos. Foi o que fiz. Pensei soletrando. Pensamento em pensamento assim sem ladrilho ou caixilho, desimpedido de belezas e outros floreados. Calcetei os meus pensamentos simples na forma de arrumado para mais tarde utilizar.

Sanzalando

17 de setembro de 2024

instantâneo

Deixado levar pelo tempo naveguei por saudades, nadei por mares de outrora e mergulhei em memórias de infância. Fui criança e foi bom. Fui adolescente e foi bom. Tornei-me adulto e gostei. Como adulto fiz mil coisas. Umas foram boas, outras nem tanto. Umas vezes errei e outras nem eu sei o que aconteceu. Não porque tivesse apagado da memória, mas apenas porque nunca soube o resultado. Algumas nem me lembro do que é que era e outras não tenho maneira de saber porque o tempo apagou a pegada que me podia levar ao ponto X. 
Agora, grisalhado e com menor número de cabelos por centímetro quadrado gosto-me. Não faço questão de saber se agrado ou não. Gosto-me e isso é-me muito mais importante porque só assim eu posso gostar de alguém.
Voltar atrás não é o meu horizonte. Recuperar tempo não é a minha meta. Vivo cada instante por instante. Sério, sorrindo, consciente.
Tenho saudades. Sinto-me nostálgico. Mas é sinal que eu tive lá, nesse tempo, nesse lugar, nesse instante. Que melhor posso eu querer da vida?


Sanzalando

16 de setembro de 2024

tempo e tempo

E se é loucura eu não falar das minhas dores vou falar mais o quê pois então? Se eu falar do tempo vou ter dificuldade em separar o meteorológico do tempo decorrido no relógio. Pois aí eu ia ficar louco e teria que sair do meu cantinho resguardado onde olho o mar sem me preocupar com nenhum dos tempos. Vou falar em dormir? Se estou a dormir nem sei como é que o tempo passa e nem sei o que passa na minha cabeça. Vou falar mais o quê? Vou falar de sentimentos? Não me apetece mais nada agora senão um abracinho. Falar só por falar também não é minha obra e graça. 
Acho mesmo continuar calado a olhar o tempo. Qualquer dos tempos.



Sanzalando

10 de setembro de 2024

os cinzentos dias

Acordei, o sol já não me abraça no seu calor porque o verão está a findar. Os silêncios começam a aparecer, as noites frias entram casa a dentro sem convite e sem cerimónia. Nos armários começa a azafama das substituições, saem os polos e entram as mangas compridas, saem calções e entram calças. As memórias vão sendo substituídas por adeus e recordações recentes em substituição da falta de tempo. As frases calam-se ou entristecem-se nas cinzentas tardes que se adivinham estão a chegar.
As horas passam lentas e a correria é substituída pela vagaroso modo de estar quieto para ver se a rua se alegra daqui a pouco. Os cinzentos dias estão para chegar.



Sanzalando

9 de setembro de 2024

nasci?!

Tem dias que a gente olha para trás e lembra que tem um passado quase do tamanho da gente. Mas na verdade para a gente, nós os próprios, só tem dois dias que são importantes de importância máxima. O dia que a gente nasceu e o dia que a gente toma consciência que nasceu mesmo. Esse é o dia que a gente agradece algo a alguém, no dia que a gente sente gratidão, no dia que a gente toma nota que existe. 
Esse dia pode ser qualquer dia da vida, mas é importante quando a gente toma consciência que está viva e que a gente é hoje porque entendeu esse passado lá atrás que pode ser apenas ontem.
Imagina que foi quando esbarrei com um olhar, quando meu avô me penteou e me sorriu porque eu fiz coisa bonita que nem foi para ele. Um instante sem cicatriz. A gente só precisa ter consciência que nasceu

Sanzalando

5 de setembro de 2024

artificialmente me fiz

Desregradamente sigo em meu silêncio. Moribundo-me em cada instante de saudade. Calo-me em cada estado de espírito angelicamente. Sou presente que tem um passado a olhar o futuro.
Todos os meus caminhos levaram-me por uma estrada desenhada ao acaso, percorrendo um trajecto que chegou a um ponto que eu interrogo com certa exclamação. Vivi ou vi a vida como se ela fosse um filme que eu não interpretei? Não fui herói nem vilão. 
Sou um anonimo caminhante que calado se fez à estrada. Sorrindo, por vezes com lágrimas, dou passos segurando a cada instante numa realidade imaginada. 
Eu sou o meu caminho apesar de morto tantas vezes. Eu existo-me em cada instante, em cada passo e em cada olhar. Prolongo-me em cada gargalhada e embrulho-me no sal das lágrimas em instantes raros que me revigoraram.
Sou assim, defeito ou virtude, artificialmente imaginado na realidade possivel.




Sanzalando

31 de agosto de 2024

morte fúnebre que não morri

Tem coisas na vida que não me matou mas tenho ganas de morrer quando as recordo. Eu morro de saudade. Eu morro de amor. Eu já morri tantas vezes que até tenho saudades desses dias de morte fúnebre que não morri. 
E se a terra gira e daqui a pouco estou noutro ponto da galáxia, eu vou morrer deste ponto em que virgulei um texto. Eu morro em cada segundo do meu passado e cada vez tenho menos futuro e morro quando lá chegar. 
Sócrates, Platão, Pitágoras, Arquimedes. Salvai-me que eu morro de perguntas, de respostas e silêncios.
Eu andava de cações e usava suspensórios, joelhos esfolados e cabelo cortado à escovinha. Tenho saudades e esse tempo morreu e eu morri com ele.
Eu usava calças à boca-de-sino e camisa de mil-flores, larga e cabelo comprido. Tenho saudades desse tempo e eu morri com ele.
Usava cabelo aparado, calças de ganga, que não tinha dinheiro para jeans, e usava pastinha com sebentas e livros. Esse tempo acabou e eu tenho saudades. Morreu-me esse tempo e eu morri com ele.
Usei cabelo comprido, roupa desmarcada, porém limpa e asseada, bata branca ou fato verde e esse tempo acabou e me ficaram as saudades.
Que ganas eu tenho de ter saudades dos tempos todos que me morreram.

Sanzalando

20 de agosto de 2024

aprender a ser só

Aprendendo a estar só aprendemos que não dependemos de nada para estar conosco. Tão fácil e simples. Creio que não acredito que um artista precise de estar sozinho, em segredo, fazendo a sua obra. Mas está tão só mesmo com a multidão lhe olhando. Aprender a estar assim é um segredo que nem todas as palavras gravadas  numa memória sem fim chegariam para desvendar. 
Sem ansiedade e sem interrupções, as palavras voam para a folha de papel. Lineares e estruturadas em formas complexas que simplificam a leitura. O artista pouco se importa que lhe olhem, que lhe acenem. Ele está ali fisicamente mas a sua mente foi para lá da inspiração. É bom estar comigo mesmo quando rodeado de gente por todos os lados tal qual ilha.

Sanzalando