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23 de outubro de 2019

Zanzibar

O zulmarinho hoje era transparente, da cor das minhas lágrimas. A saudade já está instalada, o calor da minha terra está recordado. Hora de volta.

18 de outubro de 2019

tropicalmente chove

E faz conta o céu caiu em forma de muita água. Instantaneamente diluviou aqui. Eu caminhava junto deste zulmarinho paralelo ao outro zulmarinho. O sol voltou e com ele aquele brilho de luz que nem dava para olhar. Olhos fechados a adivinhar o caminho. Um coral, uma concha, tudo era lugar para tropeçar. Semicerrados os olhos o brilho era intenso. 
Ah, eu estava a olhar para dentro de mim, porque afinal continuava a chover.

Sanzalando

17 de outubro de 2019

Na praia

Me deitei numa esteira no meio da praia. Eu, o mar e o sol. Também estava um bocado de vento. De tarde estás á espera mais do quê?
Acho levitei no meio dos meus pensamentos. Eu senti a brisa como fosse asa de avião. Subi para lá de mim e me olhei. Eu regressei a mim, revi a minha essência, reconhecimento próprio. É África em mim e eu em África.
O que faz o sol...

16 de outubro de 2019

Num mar diferente

Me olhei no espelho e me imaginei eu do outro lado. Eu era o reflexo e o reflexo era eu. Pensei que o meio caminho da loucura tinha chegado. Me afastei e me olhei num repente, e eu era o reflexo, o medo de ser irreal, imaginário, a fraude, a falsificação de mim. Me sentei. Eu vou no kimbanda, me soliloquei. Professor Karanka me ajuda, pedi baixinho. Peguei num avião, daqueles que voam contra as leis da física, grandes, pesados, abarrotados de consciência pesada e fui na mãe. África. Diferente. Hoje eu sou diferente mas preciso da água, do ar, do sol e do perfume da mãe.
Hoje, nas águas do Índico me lavei, esfregando a alma com areia que um dia o vento trouxe e deixei de ter medo. Nem que seja enquanto estou aqui.
Hoje, depois duma chuva que deixou a roupa pesada e perfume de terra, eu sou feliz.

Sanzalando

7 de dezembro de 2007

Miradouro

Aqui estou eu sentado neste muro virado para um zulmarinho, na companhia de um Lindo ANEL dourado. Olhamos o mar e eu lhe vou mostrando fotos imaginarias de um ar, um cheiro, um clíma que a sua meninice deixou assim bem lá no fundo do sótão das lembranças. Não é viver na saudade, é apenas a saudade do já vivido. Olha bem o mar que vês daqui. Não, o outro é diferente, sabe mais a sal, cheira mais a mar e este aqui começa lá naqule outro que foi o nosso e se gastou na caminhada até aqui. Não vamos falar da Maria, do Manel ou do Cicrano. Vamos mesmo ficar aqui a olhar só para o imaginario, a areia dourada que todos os dias é penteada com a meiguice do vento.
Olha este mar azul, frio sim, mas tem este cheiro de sal, estas ondas, esta espuma. Fecha os olhos e verás que ainda vais ver melhor.
Acorda que não é hora ainda de sonhar!
ps: reescrito depois de 3 anos

Sanzalando

6 de setembro de 2007

reconstruindo o passado

Me sento na sorte de um acaso.

Recordo-me de construir castelos na areia das mil cores. É, quando ia passear na areia, esperar as mukandas que me chegavam desde lá do outro lado do início do zulmarinho, construía castelos de areia e depois fazia bolas de areia como que a me preparar para a brande batalha, que só ia existir na minha imaginação.

À volta do castelo construía sempre um muro com um túnel de acesso bem escondido, pois assim ficava mais protegido, pensava eu.

Ainda hoje brinco de castelos de areia, mesmo que não possa tocar na areia que fica de baixo do sol. Brinco quando encontro pessoas da minha memória, brinco quando estou na solidão da minha caminhada. Mesmo que não se consiga ver o castelo de areia construído numa praia qualquer, ele existe, mesmo que seja só na minha cabeça. Às vezes parece ruína destruída por uma onda mais atrevida e desmancha prazeres. Mas ele existe e acho vai existir sempre.

Mas acho que ele tem um muro mais forte a lhe rodear a toda a volta. Acho mesmo é a continuação do muro que comecei a lhe construir ainda eu tinha esperança de lhe encontrar o biquini azul a lhe mirar do alto do seu ar de autoridade.

Tantas vezes esse muro foi derrubado que cada vez eu lhe construí mais forte.

Me olhando por aqui, eu vejo que construí esse muro, sem dar conta, tão forte que ninguém mais lhe consegue atravessar. Com esse muro mesmo, eu me sinto mais protegido mas ao mesmo tempo eu me sinto assim mais como que sozinho. Vais ver, me esqueci de deixar uma porta onde possa entrar a companhia. Não lhe vou destruir assim num repente mas acho lhe vou fazer uma porta, mesmo que seja estreitinha.



Sanzalando

23 de junho de 2007

meu querido Zulmarinho

Meu querido zulmarinho

Te escrevo hoje uma carta porque hoje não estou com vontade de falar com ela, que jaz ali estirada na areia como se não houvesse coisas mais importantes no mundo para fazer. Por isso me calo e te escrevo. Ela não sabe ler, acho eu, e se por acaso o soubesse, naquela posição não ia conseguir ver nada.
Mas te escrevo porque sinto medo de sair por aí a correr, entrar-te e ir a caminho da linha recta que é curva, querer saber profundamente dela, lhe sentir o cacimbo me humedecer até nos ossos, lhe falar com amigos de que lhes tenho saudade de ouvir gargalhar, da Armanda, da mesa farta cozinhada pela D. Fernanda, dos cigarros seguidos da Di, de reaccionar a Té e lhe levar a levantar a voz até parece está zangada mas é só mesmo até ela descobrir que lhe descobri o ponto fraco, de ouvir o chorar da viola do Manel, de perguntar no Vasco a que horas ele ma vai buscar no Mussulo, mesmo hoje que tem cacimbo que não lhe deixa nem ver.
Sei que é difícil mudar sem a gente conhecer a gente no seu todo de interioridade profunda que não transparece na periferia. Sei que é difícil ficar sentado na esperança, que é impossível voar no vento e caminhar sobre palavras até lá lhe chegar.
Não te parece lógico o que eu te escrevo? A mim é mais lógico que a própria lógica, logicamente.
E assim deixo o lápis rabiscar estas palavras que te vou entregar em mão própria para não se perder num mão em mão até à mão final, com o acrescento de pontos e letras que essa via pode acrescentar,
Zulmarinho, fica a saber que toda esta sensação é de quem anda perdido, desamparado, desequilibrado de não ter nada para além da obscuridade de lhe ser ninguém, de sentir frio porque está sozinho neste infinito de longe.
Escrevo-te zulmarinho, para que saibas que me abraço e não me sinto calor, porque fecho os olhos e não me acho.
Escrevo-te, zulmarinho, porque quero que me tires o medo para poder estar comigo e encontrar-me completamente onde quer que eu esteja. Quero sair deste buraco e poder ver o sol mesmo quando a noite estrelada invade este canto.
Te escrevo, zulmarinho, porque foste sempre tu que sentiste as minhas emoções e me deixas acom uma paz que me ilumina, mesmo quando a tempestade se cai dentro de mim.
Te escrevo, zulmarinho, porque sei que vais ler esta carta e me vais dar a satisfação de responder, mais cedo ou mais tarde, antes de enloucar docemente.

Sanzalando

17 de junho de 2007

Insónia

Caminho mil passos nesta areia de mil cores, sentido o perfume de mil ondas do zulmarinho se espreguiçando na areia, sempre à procura do caminho que me leve ao sonho. Umas vezes me parece inútil toda esta caminhada, porque a minha ausência de ti deu feridas que não sei se sararam ou irão sarar, porque se criam ilusões que poderão desapontar ou se é do vazio de mim que tenho medo de continuar a caminhada.
É a saudade que me afoga e que me salva, porque é a saudade que me mantém desperto nesta caminhada de mil passos, mil palavras, mil ondas, porque é a saudade que me desespera na insónia dessonhada.
E nesta insónia me irás encontrar acordado quando um de nós o outro encontrar.

Sanzalando

16 de junho de 2007

Quem nunca chorou de amor?

Vamos caminhando nesta areia de mil cores que às vezes nos incomoda porque se cola no pés e não nos deixa ter a agilidade de outros tempos, trocando silêncios teus com as minhas palavras, como se fosse ficar nu.
Despido de palavras, acaricio o que está para lá da linha recta que é curva, mimo-me de ternura numa forma de amar definitivamente eterna.
Tu que me segues, imaginaste a um passar de brasas nos seus braços? O seu calor a nos afagar, o seu perfume a nos perfumar, a sua doçura a nos ternurar. Hum… caté me dá vontade de desatar a correr sobre esse zulmarinho, me esquecendo que ele é feito de água.
Já sei que vais dizer que também tenho os meus momentos de debilidade, que me entristeço, que choro. Mas quem nunca mesmo chorou de amor?

Sanzalando

15 de março de 2007

Valeu a pena


Vá lá, esperemos que amanheça num amanhecer de sol, mas façamos algo de útil, alguma coisa que nos dê prazer, que nos faça feliz no instante deste momento.


Se eu tivesse um espelho para olhar-me, ver as curvas da cara se vincarem numa marca indelével do tempo, que abstractamente não existe porque o tempo é real, e ver-me sorrir porque me sinto feliz.


Depois de uns tantos anos de sonhos e fantasias queria olhar-me e ver se valeu a pena, queria perguntar-me se é o destino que me conduz ou se é a força de um trabalho que me alcançou até aqui. Queria ver-me, numa de cara a cara, e saber se o desejado tinha sido alcançado e se por algum motivo eu devia estar arrependido dos caminhos até então percorridos.


Sem o espelho eu imagino que o esforço das vontades confluíram até este momento em que sorrio porque estou feliz. Sem o espelho penso que valeram a pena os anos, os dias e as noites de insónia.


Esse lugar que me persegue nas horas que têm os dias está ali. Espera-me. Eu lhe olho outra vez desde longe. Experimentei-o, saboreei-o, vivi-o. Cresci, amadureci e aprendi. Sem o espelho digo-me que valeu a pena, mesmo que eu me sinta prisioneiro dele. Mesmo que a força dos meus desejos arrastem para longe as moscas que, num equilíbrio instável, pairam sobre a minha cabeça como se fossem helicópteros tentando ler-me o pensamento. Mesmo que os meus suspiros façam acinzentarem os castanhos cabelos que ainda teimam em resistir. Mesmo que o sorriso fácil tenha dado lugar ao esboço e eu me sente sobre as piadas contadas. Mesmo que olhares confusos me olhem. Valeu a pena!


Sanzalando

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14 de dezembro de 2006

Saudade

Devo ter feito algo de muito grave, para sentir tanta saudade assim...
Entalar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um chapada, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater com a cabeça na esquina da mesa, dói morder a língua, dói uma cólica, um dente e uma pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra. Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem estas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorosa é a saudade do que se ama.
Saudade.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Podes ficar o dia sem vê-la, sem ela te ver, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro não sobra mais que uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como parar as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso... É não querer saber se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber do que se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isto que eu estive a sentir enquanto escrevia e o que você provavelmente estará a sentir depois de acabar de ler.

Sanzalando

11 de dezembro de 2006

A areia do meu desejo


Procuro o teu lugar.
Esse lugar de onde tu vens, de onde estás, de onde és.
Procuro-te, nas areias da minha desilusão, um sentido adequado para dizer-te desta angústia desconectada do conteúdo de um disco rígido.
Estranhos medos dos silêncios que me devolves.
Caminho nesta areia das mil cores neste verão do meu interior, procurando o teu lugar.
Que lugar ocupas em mim?
Alucino-me na textura das tuas imagens, das tuas recordações, dos teus amigos. Tu tão terrena e para mim tão celestial.
Tento encontrar o caminho nas horas que passam, de modo a aprender a voltar para o teu encadeado silêncio.
Silencio-me também? Sabes que eu jamais conseguiria ser o teu silêncio, a tua boca fechada. És tu a minha lágrima.
Afinal somos feitos de areia, maleável e despretensiosa, mas ao mesmo tempo firme e serena.
Caminho ouvindo o marulhar arritmado das ondas do zulmarinho tentando abafar os teus silêncios.
Alucino-me!
As nossas partes infinitesimais sabem levar uma mensagem. Nostalgia, angustia, saudade.
Caminho de um lado para outro. De areia em areia à procura do teu lugar dentro de mim.
Se calhar era mesmo ao contrário o que eu devia procurar, o meu lugar dentro de ti.
Olho-te na minha imaginação. Subo os teus montes, desço as tuas colinas. Saboreio-te com a vontade de te possuir de uma forma frenética. Não encontro nada mais belo que o teu contexto. Não há nada mais belo em mim se não o caminhar-te nos pensamentos, procurar-te nos meus lugares comuns. Vivo-te ausente.
Eu sei que vou descobrir-te, um lugar novo onde possamos ser tu e eu num alucinado ritmo de utilidades reciprocaras.
O que eu sempre devia ter descoberto é que não te devia ter perdido nunca. Hoje não teria que te procurar, não estaria na dúvida dos nossos lugares em cada um do outro.
Te esculpo, em cada segundo de mim, numa imagem real de todas as dimensões e calores.
Procuro-te na minha desilusão cobardemente disfarçada de medos.
Construo-te na perfeição imperfeita de um ser perfeito.
Construo-te nas minhas cores e paladares.
Construo-te castelo de cartas enfadadas de sonhos.
Bebo à tua saúde.
Na nau da minha imaginação recolho as velas e deliro-me nas tuas areias, beijo-te a alma.
És a areia do meu desejo.


Sanzalando

10 de dezembro de 2006

Num ritmo de antigamente

Mermão, senta aqui e escuta.
Sentes o cheiro de queimado?
Não é meu cérebro que ferve.
É mesmo a Sebenta de capa encarnada que ardeu numa fogueira de raiva.
Isto é eu a pensar que certezas nunca tive.
Faz vinte e muitos anos que deram a uma garina, uma sebenta encarnada onde Kafrondim escreveu o que na alma lhe corria. Tempos depois, assim como numa revolução de estudante que descobre que há outras coisas a fazer nos fins de semana, antes da época dos exames, te diria que na época dos enxames feitos momentâneas paixões, houve assim como que um flagrante delitro e meio, mostrando a ingenuidade do garino nas suas novas descobertas, que parece que virou inferno tal era o incendio que ia na referida alma da garina que era portadora de confissões poetico-românticas.
Mas manda vir a minha loira que eu não quero botar lágrima assim a seco.
Desconheço por esquecimento total e ausência de coisas modernas como copiadoras e similares, o que Kafrondim escreveu nessa referida dita cuja Sebenta. Mas vais ver inda era poesia cheia de cores de África e corações palpitando ao som do batuque que chamam coração.
Danço ao som do batuque
frenético
histérico
levantando pó
na sombra da mangueira
Danço ao ritmo da paixão
ardente
fervente
derramando sangue
no teu coração
Ou se calhar era mesmo só os deveres que ele devia cumprir com rigôr perante as razões da exigência dela.
Só mesmo as cinzas do inferno podem saber.
Ou será que a garina guardou no baú a sebenta e está a gente aqui a fazer conjecturas conjunturais de estruturas esbatidas na raiva.
Vou mesmo beber a loira e curtir as lágrimas com sabor de zulmarinho.

Sanzalando